Fora da lei pergunta o que é, afinal, o sucesso? No seu caso a resposta é simples - manter-se longe do alcance da polícia:). Mas em termos gerais? Um amigo disse-me um dia que os velhos Gregos "decretavam" um homem feliz pelo balanço que faziam dos serviços por ele prestados à Cidade. Presumo que todos, incluindo o próprio, estariam de acordo em considerar a sua vida um sucesso. Apesar de eventuais vicissitudes estritamente particulares!, pois a hierarquia de valores punha no "top" o bem da polis.
O mundo em que vivemos privilegia o dinheiro, os bens materiais, o poder. Ser bem sucedido implica, não raras vezes, ultrapassar e pisar outros. O que torna a solidariedade palavra politicamente correcta e prática anacrónica numa Sociedade que se descreve aos seus filhos com expressões como "o mundo é dos espertos" e "o segundo é o primeiro dos últimos". É difícil fugir a tal espartilho cultural, mas na minha profissão assisto ao drama de pessoas extraordinariamente bem sucedidas e infelizes. Porque o "sucesso" não trouxe paz interior. E depois de uma primeira fase em que tentaram mais do mesmo - dinheiro, poder, bens materiais... - começam a ter dúvidas sobre o que pretendiam da vida. Elas próprias!, participantes de uma cultura, mas não se esgotando na sua ideologia.
Porque ele deu uma entrevista à Pública, atrevo-me a citar o exemplo de meu filho mais novo. Que se formou em Engenharia e ao longo de alguns anos desempenhou várias tarefas a contento dos respectivos chefes. E a pouco e pouco chegou à conclusão de que não retirava da profissão o gozo que pretendia e a que se julgava com direito. Em Outubro começa novo curso. Daqui a 20 anos estará satisfeito ou arrependido? Não sei, mas considero improvável que ainda viesse a apaixonar-se pelo que fazia. E pôr-me-ia de cabelos em pé a hipótese de o ver chegar a estas conclusões aos quarenta e tal, sem poder mudar de agulha pelos encargos do quotidiano.
Em associação livre, recordo o nick de um de vocês - rosebud. Não era Citizen Kane um homem de sucesso? Seguramente, e no entanto é ao pequeno trenó(?) que regressa no fim... Sejamos claros - nada tenho contra o tipo de sucesso oficial desta cultura quando "encaixa" na personalidade de quem o tem. A mim, definitivo pequeno-burguês e amante de mil futilidades, não me chega. A muitos outros também não.
E depois, o conceito de sucesso pode variar ao longo da vida, não é? Pensem, por exemplo, no(a) jovem que precisa de um êxito "quantitativo" no reino da sedução para reforçar o ego. Alguns anos mais tarde o sucesso poderá estar ligado à manutenção de uma relação monogâmica, com ou sem coabitação. Ou à capacidade de viver sozinho(a) mas não só...
Irra!, que estou verborreico:). Bom jantar, maralhal.