Em Cantelães, lembrando Pearl.
JANIS JOPLIN
Meu caro Dr. Machado Vaz,
A sua carta despertou-me sentimentos contraditórios, o passado invade o presente nesta profissão e – espero eu! – ajuda a preparar um futuro melhor para os nossos clientes. Mas certos passados, dolorosos, enterrei-os por baixo da carpete do meu gabinete. (Nem sequer corro riscos desnecessários, é a mesma há trinta anos e proíbo a empregada de a afastar quando ataca o pó, as caixas de Pandora têm a forma que a imaginação lhes empresta, não é verdade?). Perdoará a verborreia e os desvios, escrevo à noite, a lareira adormece e o nível do whisky na garrafa torna duvidosa a empresa de partir à aventura pelo tapete para a sacudir e reavivar, a casa vibra, de tão silenciosa. Grato pelo amável convite para visitarmos Portugal, o plural já não existe, minha mulher morreu no Verão – em Setembro, para ser mais exacto -, vitimada por uma daquelas doenças (preguiçosas, de tão confiantes) que os jornais teimam em apelidar de prolongadas para não assustar os leitores casuais; deixando aos outros, gulosos de notas obituárias, o prazer de resmungar enquanto se rebolam em saúdes de ferro, “cancro, foi o que foi”! A morte assim, pressentida, anunciada, vivida longamente, deixa um sabor agridoce. Uma tristeza suave, composta, as lágrimas ficaram para trás, o alívio ganha quase todas as discussões com a culpa, os olhos fecham-se à palidez e a cemitérios, são benévolos para recordações, de corpo e alma, “antes de…”
Tudo foi diferente com Janis. Um dia o telefone tocou e ali estava uma hora vaga nessa mesma tarde, acabei por aproveitar e ver um caso “urgentíssimo” enviado por um colega maçador, seguramente conhece o género. O homem fazia justiça ao meu mandante, odeio estes executivos que pedem para os mantermos na corrida, aterrorizados por jovens impiedosos que lhes cobiçam os lugares, em boa forma física, íntimos da última geração de computadores. Já os havia naquele tempo, hippies convertidos a uma certa forma do principio da realidade, yuppies ainda não baptizados, todos certos de terem Deus a seu lado, como cantava – ou gemia? – Bob Dylan. A última frase, a julgar pelo tom da sua carta, deve parecer-lhe uma heresia, mas confesso que os meus quarenta e dois anos me impediram a conversão para além dos Beatles e Simon e Garfunkel, pese embora os esforços bem intencionados de meus filhos, sempre prontos a exaltar os méritos de grupos com nomes tão prometedores como Grateful Dead e Mothers of Invention.
Pode imaginar a curiosidade com que acedi a receber Janis pela primeira vez, que se esconderia por trás daqueles uivos lancinantes? Caro colega, a resposta seria evidente após uma ou duas consultas para qualquer interno pouco dotado - ela sofria de medo em estado terminal. Cuspia impropérios com desespero, não me lembro de a ver utilizar uma cadeira, Janis agonizava pela sala até parar frente ao espelho e dizer baixinho que os bastardos tinham tido sempre razão. “Eles” – como também lhes chamava – podiam ser os colegas de escola em Port Arthur, da universidade em Austin ou de cama na noite anterior, o traço comum era a rejeição, imaginária ou real. É mentira dizer-se que não existem crianças feias, elas encarregam-se de o lembrar umas às outras. Janis não procurou os rapazes durante a infância, na adolescência fugiu das raparigas, dos espelhos, das festas em que via outras dançar. Vestidos cobiçados e de repente baços no corpo sem graça, alcunhas cruéis que se mantinham, apesar do seu riso estalar antes de todos os outros, como se pode pedir mais tragicamente desculpa a chefes de claque e rainhas de bailes por não ser como elas? Os rapazes eram mais fáceis, primeiro joelhos esfolados e palavrões, depois o sexo quando devia ter descoberto as mãos dadas. Janis despia-se para melhor tapar o medo, debochava o riso para evitar as lágrimas, quando a dor se tornava insuportável fazia saltar a rolha de garrafas sem rótulo, a anestesia não obriga a hesitar entre marcas. Quanto à Universidade, bastará dizer-lhe que foi nomeada para o prémio de homem mais feio do ano, mas nunca chegou a saber se tinha ganho, já estava a caminho de S. Francisco.
Não o maçarei com a trajectória profissional, o êxito em Monterey e Woodstock fala por si, a subida meteórica era inevitável, ela cantava-lhes as angústias e fingia desesperadamente ser feliz investindo contra regras e tabus. Sexo, drogas e rock’n’roll, a canção podia ter sido composta para ela. Homens, álcool, heroína, sempre a fuga ao espelho e a costas voltadas, o sucesso fê-la desistir para sempre de acreditar nas pessoas, repetia constantemente que era a “outra”, a do palco, que amavam, não a ela, como a conhecia. Porque cheguei a conhecê-la bem, sabe? A pouco e pouco foi-se abrindo, como uma flor que temesse ser arrancada. De vez em quando experimentava-me para ter a certeza que estava ali e entendia, faltou a sessões sem conta, desafiou-me sexualmente, riu da minha apregoada competência, mas – que faço eu? – o colega conhece tudo isto por experiência própria - batem e fogem para terem a certeza que não os abandonamos, em Portugal como aqui. Poderia dizer-se que a ajudei a sobreviver, com poucas esperanças de poder fazer algo mais. Janis não perdoava o passado e o presente só fazia crescer uma imagem que detestava. Em períodos mais confusos dizia “a outra, porca e suja”, é fascinante como os juízes mais severos se acoitam dentro de nós e sobrevivem a todos os excessos, cada vez estou mais convencido que a verdadeira liberdade é tranquila; ritualizada; solene.
E depois surgiu Seth Morgan na sua vida e ela aplicou-lhe o tratamento completo à base de obscenidades, provocações, tudo o que possa imaginar. Ele não se deixou enganar - era um tipo calmo, olhos azuis, quase cândidos, chamava-a carinhosamente pelo apelido, “Joplin, por que me castigas?” E ela ria como eu nunca ouvira, até uma tarde especial em que me fitou com os olhos rasos de lágrimas e murmurou baixinho – “e se ele gostasse mesmo de mim?” Durante uns tempos o paraíso morou ao virar da esquina, deixou as drogas e telefonava-me do estúdio a pedir desculpa por faltar, o álbum estava quase pronto e era diferente - melhor, mais doce; para ele. Planos de casamento, filhos, um rancho longe de tudo, a música por prazer e não para exorcizar fantasmas. Como sabe, a causa de morte foi uma overdose de heroína, supostamente fatal por o seu organismo se ter tornado mais sensível ao produto após meses de abstinência. Digo-lhe o que nunca disse a ninguém – não acredito. Uma semana antes tive-a no meu consultório em pânico, era feliz e não suportava a ideia de perder esse comboio, tinha sonhos horríveis em que Seth a deixava, pediu-me a certeza que os demónios não a voltariam a atormentar, repetia incessantemente “vou ser boa e tudo vai correr bem”. Nada justificava o regresso à heroína naquela altura, quanto a mim Janis matou-se por medo de ver desbotar as tintas do quadro em que vivia. Tinha espreitado pela porta entreaberta, não suportaria vê-la fechar-se de novo, morreu para não correr o risco de definhar, Deus me perdoe, talvez tenha tido razão, os fantasmas pareciam-me vencidos mas não convencidos.
No enterro, Seth disse uma frase estranha, “pecámos por ambição”. E partiu, nunca mais o vi, tenho a certeza que não esqueceu. Às vezes penso-a como um patinho feio que, como Ícaro, partiu rumo ao sol e não quis esperar pela degradação das asas, queda, vertigem, o regresso a este mundo. Janis preferiu morrer fitando o paraíso depois de o ter vivido, na esperança de o sonhar para sempre. Ah, Dr. Machado Vaz, sou um velho, receio que tudo em mim já tenha a morte como ponto de referência, até o faro clínico. Não sei. Perguntou-me como ela era e eu respondo-lhe que continuo a não ouvir os seus discos – a “outra” -, mas tenho saudades de sorrisos fugidios ao cerrar da porta e ainda me pergunto se não poderia ter feito mais qualquer coisa por ela. Dúvidas que o colega conhece bem, a psiquiatria é um ofício de aprendizes de feiticeiro, logo, de pesadelos frequentes. Mas, verdade seja dita, nunca me aconteceu invejar os bancários ao longo de todos estes anos.
Cordialmente,
Sam Watson



