Ciência: Solidão deixa uma impressão digital nos genes - estudo
13 de Setembro de 2007, 15:27
Lisboa, 13 Set (Lusa) - Pessoas que têm uma vivência de solidão crónica mostram padrões de expressão genética que diferem marcadamente dos apresentados por pessoas que não se sentem sozinhas, revela um estudo molecular apresentado na versão electrónica do jornal Genome Biology.
A descoberta sugere que os sentimentos de isolamento social estão ligados à actividade do sistema imunitário e resultam num aumento de sinais inflamatórios no corpo.
Já se sabe que o ambiente social de uma pessoa pode afectar a sua saúde, com aqueles que estão mais isolados a sofrerem mais causas de mortalidade, maiores taxas de cancros, infecções e doenças cardíacas.
Os investigadores estão agora a tentar determinar se estas consequências adversas na saúde resultam dos recursos sociais reduzidos dessas pessoas ou do impacto biológico do isolamento social na função do corpo humano.
O estudo agora divulgado, de uma equipa da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA, em inglês), é o primeiro a mostrar que um factor de risco social pode produzir uma alteração na actividade molecular dos genes, causando um maior risco de doenças, como as de coração, infecções e cancro.
"O que este estudo nos mostra é que o impacto biológico do isolamento social derruba alguns dos nossos processos internos mais básicos, como a actividade dos nossos genes"," disse o autor principal do estudo, Steven Cole.
No seu estudo, a equipa de Cole usou sequências de ADN para vigiar a actividade de todos os genes humanos conhecidos nos glóbulos brancos de 14 indivíduos, seis dos quais considerados como estando no topo de uma escala de solidão, enquanto os outros como pertencendo a um nível inferior.
Os investigadores descobriram que 209 proteínas de genes eram expressas de forma diferente entre os dois grupos, com 78 a serem exageradamente expressas e 131 a serem sub-expressas.
"Parece que nos indivíduos com solidão crónica os genes são remodelados", disse Cole, salientando que as diferenças verificadas "eram independentes de outros factores de riscos para doenças inflamatórias, como o estado de saúde, idade, peso e uso de medicamentos" dos participantes no estudo.
As alterações mostraram-se ainda independentes do tamanho da rede social da pessoa.
"O que conta, ao nível da expressão do gene, não é quantas pessoas se conhecem, mas de quantas nos sentimos realmente próximas nos tempos livres", realça.
Os genes que se apresentaram sobre-expressos nos indivíduos com elevados níveis de solidão incluem muitos dos que estão envolvidos na activação do sistema imunitário.
No entanto, muitos dos genes que estavam sub-expressos estavam relacionados com as respostas anti-virais do corpo.
No futuro, a impressão digital deixada pela solidão nos genes identificada por Cole poderá tornar-se útil como um 'marcador biológico' para monitorizar intervenções destinadas a reduzir o impacto da solidão na saúde.
RCS.
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