A pedido:).
(Ninguém lhe perguntou nada, foi uma ordem seca a surgir).
- Faça o quatro.
Fazer o quatro? Mas até onde podia chegar o amadorismo e falta de equipamento das forças de segurança portuguesa? E a seguir? - mandá-lo-ia caminhar em linha recta? É claro que o registo artesanal da investigação podia favorecê-lo, já não ansiava pelo balão, números são números e indiscutíveis, o mesmo não se pode dizer do equilíbrio em uma só perna, por definição instável, mesmo em abstémios furiosos.
(O que não era o seu caso...).
Fez um quatro hesitante. Não entre o cinco e o três, mas entre o chão à esquerda e à direita, sentia-se como um flamingo da Camargue que tivesse emborcado uma garrafa de Châteauneuf du Pape.
Ela abanou a cabeça, mas por vontade própria.
- Não o aconselho a guiar nesse estado.
Para o breu atrás de si,
- Lena, chama um táxi para o cavalheiro, se tem tanta massa para subornos é porque não está habituado a transportes públicos, muito menos de madrugada. Entretanto eu vou organizando os meninos para a toma da metadona.
E saiu.
Das curtas profundezas da carrinha surgiu uma rapariga frágil, saia travada negra, blusa branca, rosto menineiro emoldurado por cabelo de um loiro escorrido de tão fino.
- Sim, doutora.
Diligente, empunhou o telemóvel.
Doutora? Metadona? A pergunta a medo,
- Mas então ela não é polícia?
A garota, aparelho ensanduichado entre madeixa e face,
- Polícia?
Com evidente escândalo,
- Médica das melhores! E não lhe caem os parentes na lama por trabalhar numa equipa de rua.
Equipa de rua... Metadona... Os "meninos" à volta da fogueira, perdão!, da carrinha... Mas evidentemente - os mafiosos não passavam de toxicodependentes à espera de droga oferecida pelo Estado.
(Enquanto a praça de táxis não despertava, a miúda metera a segunda.)
- Bem lhe pode agradecer. No estado em que você estava, sem a injecção que lhe deu só acordava amanhã. Ou hoje na Urgência...
Uma raiva crescendo dentro.
- Perfeitamente, fui salvo pela Madre Teresa da medicina. Estou-lhe gratíssimo. E suponho que também a si, senhora enfermeira, presumo que me tenha desinfectado o rabo, o braço ou o raio do sítio em que me picou.
Ela disse o nome de uma rua e agradeceu. Depois baixou a voz até um sussurro doce e mortífero,
- O seu táxi é o 24. Não lhe desinfectei nada, só a vim buscar; não sou enfermeira, sou puta.
E também saiu.



