sexta-feira, junho 03, 2005

Um enorme perímetro

"Um beijo. A primeira partilha de carne. Tudo o que vem depois é doce elaboração. O primeiro beijo é mais íntimo do que a cama a nu; o seu pequeno perímetro contém já a primeira submissão e a traição final".

Ana Menéndez, Por Amor a Che.

Oporto by night

Agradeçam ao Portocroft:)

quinta-feira, junho 02, 2005

Boa noite, maralhal.

Olhando o prédio em frente por cima das flores que minha Mãe cuidava, disse-lhe: “Maria, chegam os dias longos e quentes e tu mudas. Não sei, pareces mais igual a ti”.
Ela sorriu, cruzou as pernas sobre o canteiro, pôs as mãos entrelaçadas atrás da nuca e transformou cadeira normalíssima em prima de baloiço, com alma e riscos de trapezista. Semicerrando os olhos, rezou vésperas:


Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia já é maior do que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
É este o deus que meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada

A primavera é o meu país
saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz

e dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição


Primavera-raiz-flores…, arrisquei: “Eugénio de Andrade?”.
Ela riu, gaiata: “Morno, querido. Ruy Belo, A Chegada dos Dias Grandes”.
E quem não suportaria alegremente o peso de tão magnífica ignorância, com riso e “querido” seus já aferrolhados na alma? A poesia é para ser vivida. Abri os braços e ela neles deitou raiz:).

Melhoramentos

A Murcon SA agradece à Portocroft Sons do Mundo Lda. a instalação (grátis!) de um dispositivo que espera venha a melhorar a qualidade de vida dos frequentadores deste blog. O Presidente do Conselho de Administração decidiu mesmo acrescentar uma nota pessoal a esta circular: THANK YOU,MATE:).

quarta-feira, junho 01, 2005

A propósito do Dia...



A infância
É um brinquedo que parou
É a inocência remendada
É sempre isto de passado (C’est toujours ça d’passé ?)
A infância



Lembra-te dos silêncios ao fundo dos corredores
E aquele arquejar divino, continuo a escutá-lo,
E depois a noite, fiel a lembrar-nos essas coisas
E esta memória fodida que me segura pelo braço.

Léo Ferré.

terça-feira, maio 31, 2005

A propósito de migrações.

Não tem sede de aventura
Nem quis a terra distante.
A vida o fez viajante.
Se busca terras de França
é que a sorte lhe foi dura
e um homem também se cansa.



Ficam mulheres a chorar
por aqueles que se foram.
(Ai lágrimas que se choram
não fazem qualquer mudança).
Já foram donos do mar
vão para terras de França.


Manuel Alegre, Trova do Emigrante.

segunda-feira, maio 30, 2005

Como prometido:)

“Outro factor, já mencionado, é que as taxas de diagnóstico e internamento em psiquiatria podem reflectir preconceitos morais, raciais e políticos e levar à interpretação de reacções e crenças culturais como sinais de “loucura” ou “maldade”. Helman.


Stress e migração – Exemplo: Manchester, doença mental, Carpenter e Brockington – As populações migrantes (Asiáticas, Africanas e das Índias Ocidentais) tinham o dobro da taxa de internamento em hospital psiquiátrico, quando comparadas com a população inglesa. O diagnóstico de esquizofrenia paranóide era muito frequente, sobretudo com delírios de perseguição…

Desde já aviso que existem várias hipóteses explicativas:).

domingo, maio 29, 2005

Uma derrota justa e necessária.

Merecemos perder, claro, isso é assunto encerrado, o jogo foi um longo e penoso bocejo.
Mas a legítima satisfação pela conquista do título no campeonato, mesmo completamente atípico como foi este, poderia turvar a vista a alguns. A derrota na Taça com tal exibição - semelhante a muitas outras... - obrigará todos a encarar os factos - se a equipa não for (bastante) retocada a alegria deste ano será um fogo fátuo.

P.S. De qualquer forma não poderíamos ganhar - eu não fui ao cinema:))))))))!!!!!!

Ontem adormeci:(

Jacob, prémio Nobel da Medicina em 1965: “A Biologia perdeu hoje muitas das suas ilusões. Já não procura a verdade. Constrói a sua. A realidade aparece então como um equilíbrio sempre instável. No estudo dos seres vivos, a História evidencia uma sucessão de oscilações, um movimento de pêndulo entre o contínuo e o descontínuo, entre a estrutura e a função, entre a identidade dos fenómenos e a diversidade dos seres”. (Em Laqueur, La Fabrique du Sexe).
Durante milénios a hierarquia dos sexos pertenceu à Ordem divina: Deus, o homem à Sua imagem e para O honrar; a mulher, homem incompleto de Aristóteles e filha de Eva da Igreja, um degrau abaixo na Criação. Com as Revoluções Francesa e Científica assistimos a um processo fascinante de manutenção da assimetria, agora baseada na Ciência, que iniciou um longo discurso sobre as diferenças “essenciais” entre os sexos. As mulheres já não são homens imperfeitos, mas seres radicalmente diversos, inferiores por respeitáveis razões “científicas”.
Exemplo: “O corpo masculino traduz força positiva, a aguda compreensão do homem e a sua independência, assim o preparando para a vida do Estado, as Artes e as Ciências. O corpo feminino traduz a moleza e o sentimento das mulheres. A pelve espaçosa destina-as à maternidade. Os membros fracos e macios e a pele delicada são testemunhas da esfera mais restrita das actividades das mulheres, da sua ligação ao lar e à calma vida familiar”. (Sachs, 1830, sobre a complementaridade dos corpos masculino e feminino). Foi a Ciência a construir a base onde assenta a extraordinária ideia dos “sexos opostos”. Mas não no mesmo plano…
A vontade do Senhor foi substituída pela normalidade científica, contra a qual também se pode “pecar”. Vejamos como existe hoje em dia um discurso médico que nos torna responsáveis por tudo o que de mau possa acontecer se não seguirmos o “correcto” estilo de vida. Da salvação eterna da alma passámos ao prolongamento da vida do corpo e em verdade vos digo que alguns médicos assistentes estão menos dispostos a perdoar do que muitos confessores, seguros como estão das suas verdades:).
Por agora chega, amanhã regressarei ao tema. Talvez com algumas palavras sobre a relação entre emigração e diagnóstico psiquiátrico.

sexta-feira, maio 27, 2005

A bem dizer...

… sinto-me envergonhado por alguns de vocês terem pensado que eu punha a hipótese de encerrar o blog. Estava a brincar, como os veteranos logo denunciaram:). Esta tertúlia já faz parte do meu quotidiano, vem-me dando um prazer de todo imprevisto. Mas os comentadores não têm obrigação de conhecer o estilo de humor que cultivo, daí… - sorry, maralhal:).

Sobre a frase de Sabato, não duvido que as pessoas se sintam hoje peças de uma engrenagem. À qual, ainda por cima, não reconhecem qualquer ambição de atingir a fímbria de transcendência a que temos direito. A máquina destina-se apenas a assegurar a própria subsistência, com as assimetrias sociais que acarreta. Mas, em duas das minhas áreas de trabalho, a Sexologia e a Psiquiatria, o conceito de “pecado” desaguou direitinho no de “anormal”. A Medicina - e poderemos falar disso com mais vagar… - substituiu a Igreja ao nível da condenação (disfarçada de diagnóstico, em teoria neutro e científico) e da tentativa de controlo (leia-se tratamento e/ou exílio em determinadas instituições).

quinta-feira, maio 26, 2005

Só mentiroso?

Já sei, já sei, não cumpro a promessa de acabar com o blog:(. Serei um simples mentiroso ou um grave dependente dessa sinistra droga chamada "maralhal"?:)



"Hoje o homem não se sente um pecador, crê que é uma engrenagem, o que é tragicamente pior".

Ernesto Sabato.

Uma engrenagem inteira? Não será optimismo?:)

quarta-feira, maio 25, 2005

O convite

Maria,
Pensa, pensa bem - afinal o que é uma "ponte"? Não ajavardes, por favor!, ainda por cima à custa de uma das minhas canções favoritas... Eu sei, eu sei, vimos navegando em "troubled waters". Por isso mesmo, carago! (Desculpa, sou tripeiro.) Mas responde! Uns abençoados dias de descanso, sobretudo se eu não estiver por perto... Agressivo simplismo, querida. Uma "ponte" é um momento único, sabes? Dois dias de ócio triunfam, pelo cerco, sobre um de trabalho que se rende. Estás a ver o simbolismo? Dois somos nós também. Cerquemos o conflito que nos mantém apertadamente separados e talvez ele deponha as armas como sexta-feira próxima. Vem daí discutir, em quatro dias haverá tempo para uma ou duas reconciliações. Pequenos passos, ouviste o Sócrates - os déficites não se resolvem do pé (descalço) para a mão (cheia) ou vice-versa. Assumamos o compromisso de acabar com o nosso de comunicação até Domingo. Se não conseguirmos, aceito que convoques eleições para o lugar de teu namorado e juro que não concorro, nem me mantenho por perto como líder da oposição.
Aceitas? Óptimo, carago! (Ups...). Já agora - importas-te de levar os jeans, a blusa branca e o casaco curto cintado? Tá, não abusar da sorte. Mas a saia de hippy com sandalinhas a condizer, não, está bem? Vês como já se notam progressos? É claro que farei a barba!

(Espero que o tenha exigido a pensar na sua pele macia e não por simples embirração estética...).

O ignorante

Eu sei que a pergunta é risível para os especialistas. Mas como se explica que num país em crise e com a classe média a deslizar para baixa, os bancos apresentem lucros tão..., tão..., confortáveis? Estarão em "crise de crescimento"?

terça-feira, maio 24, 2005

Desesperadamente em busca de nós:)

Se ainda continuam a comover-nos as desventuras e proezas daquele cavaleiro andrajoso de La Mancha é porque algo tão risível como a sua luta contra os moinhos de vento revela uma desesperada verdade da condição humana.

Ernesto Sabato, Resistir.

segunda-feira, maio 23, 2005

Amor perfeito

Vendo-o percorrer a sala como fera enjaulada à espera da execução; sentindo aquela gana de aproveitar o pretexto mais miserável para lhe cair em cima, qual ave de rapina com discussão no bico; esperando que o relógio trouxesse o alívio – ou a hecatombe… - quando o ponteiro das horas desse volta e meia, mais intervalo e descontos (ao que julgava saber…) – odiou-se, risonha.
Porque considerava o futebol um desporto estúpido e violento, mas, se o apreciasse!, não deixaria de apoiar a equipa da granítica cidade amada que ele – incoerente… - adorava. E no entanto, perante a sua angústia, tão infantil que as costas se lhe dobravam, envelhecidas, deu consigo a murmurar prece inacreditável, por alheia às misérias reais deste mundo,
- Meu Deus, faz com que o Benfica ganhe.
E o Senhor escutou-a, porque os amores felizes se vão tornando raros, para Sua enorme preocupação desgostosa. Mas preferiu manter-se clandestino e oficialmente respeitar a liberdade humana. Sabe Ele que mesmo assim todos Lhe pedem milagres, imaginem o que aconteceria se os distribuísse a eito! Fez o desafio terminar como tinha começado, ungido mas sem espalhafato.
Empatando, o Benfica ganhou.
Ele abraçou-a, com as rugas do medo alisadas por amor liberto, “gosto muito de ti, querida, vamos jantar fora?”. Ela pressentiu a mentira monogâmica. Amava-a; mas também a onze jogadores, mais os suplentes, a equipa técnica, a directiva e catorze milhões de cúmplices por esse mundo fora.
E que importava, se era a ela que sorria?
“Olá se vamos, e toma nota – o campeonato vai-te sair caro!”.
A noite foi tão boa que acariciou a hipótese de se tornar sócia do Benfica. Os regulamentos do clube contemplariam o estatuto de crente não praticante?

domingo, maio 22, 2005

Sem título

1) A jogar mal.
2) Com o pior plantel.
3) Mas...
4) Que bom!!!!!!!!!!!!!!!!!!:)))))))))))))))))))))))))))))))))))))))). Obrigado.

sábado, maio 21, 2005

21 anos depois.

Li com interesse o Expresso de hoje. O Professor Duarte Vilar decidiu escrever um artigo intitulado "A quem serve o medo?" em resposta à reportagem da semana passada e o Ministério da Educação publica um comentário à mesma. O Expresso complementa-os com um esclarecimento jornalístico, um editorial e um texto na rubrica "Máquina da Verdade".
O primeiro não passa de um "recuo em boa ordem".
O segundo brinda-nos com uma versão empobrecida dos argumentos de Santo Agostinho para condenar o sexo e termina com esta pérola: "Quanto às crianças, deixemo-las viver tranquilamente a idade da inocência. Na certeza de que não é daí que vêm os riscos: os comportamentos de risco têm causas sociais profundas e não decorrem da falta de informação". Dois coelhos de uma cajadada: a completa recusa de uma educação que não castre a dimensão sexual para ser completa - e não com objectivos "meramente" preventivos! - e a insinuação de que a informação não serve para nada, a pretexto das "causas sociais profundas". Ambas as afirmações denotam a mais absoluta ignorância acerca do desenvolvimento psicossexual e dos objectivos de uma educação global das crianças.
O terceiro, intitulado "Um ataque às crianças", é, digamos assim, o mais "emotivo". Insistindo em algumas das falsidades denunciadas nos artigos do Professor Duarte Vilar e do Ministério da Educação, junta-lhes a deselegância a céu aberto: "...esta gente que destrói completamente a ideia de amor (ou de qualquer relacionamento emocional) nas relações sexuais, o que é um atentado a todas as pessoas saudáveis".
"Esta gente"... A acusação é falsa, obviamente! Mas o estilo diz tudo sobre o respeito pelos outros, crianças ou adultos. Por que não gentalha? Perversos? Criminosos? O autor prefere outra expressão: "Parecem burocratas saídos do 1984 de George Orwell". E eu sorrio com tristeza. 1984... A Lei de Educação Sexual foi aprovada nessa altura.
Estamos em 2005...

Presságio para o meu Benfica:(?

Cantelães, o sol faltou à chamada. Acabo um conto da Inês Pedrosa, de quem tenho saudades.

"Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só´preciso de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo".

Bonito, rapariga:). E verdadeiro, decretamos com demasiada facilidade "só sexo" momentos abençoados que regressam em noites solitárias ou autocarros à pinha.

E o sol que teima em não despontar...

sexta-feira, maio 20, 2005

Alguém pediu Éluard?

É forçoso acreditar nisso


Os jogos dessas estranhas crianças que são as nossas
Brincadeiras simples que lhes transformam os olhos em maravilhas
Repletos de uma febre que os aproxima e os afasta
Do mundo em que sonhamos deixar aos outros o nosso lugar


As brincadeiras de azul e de nuvens
De coisas delicadas e correrias à dimensão de um coração futuro
Que jamais será culpado
Os olhos dessas crianças que são os nossos olhos antigos


Tivemos um encanto como as fadas jamais tiveram.

quinta-feira, maio 19, 2005

Esclarecimento

No Sábado passado, o meu nome era citado no Expresso a propósito de uma reportagem sobre Educação Sexual. Desconheço se o Professor Doutor Duarte Vilar e a Dra Susana Cardoso tiveram - ou vão ter… - alguma reacção à pequena parte do texto que nos dizia respeito. Eu não posso evitar fazê-lo, pois fui abordado por um Jornal on line e por uma rádio. Assim:
1) Em 1994 ou 1995 a Universidade Aberta pediu-me que coordenasse um livro sobre Educação Sexual. Tendo aceite, convidei para colaborarem comigo o então Dr. Duarte Vilar e a Dra. Susana Cardoso, pela reconhecida competência de ambos na matéria.
2) O livro foi publicado em 1996.
3) Na nota prévia pode ler-se: “Este texto pretende ir ao encontro de necessidades de formação de professores ou outros profissionais a quem caiba a tarefa de implementar programas de educação sexual para crianças e jovens, fornecendo oportunidades de reflexão e sugestões de actuação em domínio controverso e não imune a sistemas de valores diferentes, que abrem margem a opções variadas”.
4) Não se tratava, portanto, de um Manual de Educação Sexual destinado ao “terreno”. Devo acrescentar que, se neste momento existem livros desse tipo da responsabilidade do Ministério da Educação, os desconheço. Ficaria surpreendido, mas o meu afastamento de anos da área da Educação Sexual na Escola pode estar na raiz de tal ignorância.
5) O capítulo 5 tinha por título “Objectivos e conteúdos de educação sexual nas diferentes fases do desenvolvimento psicossexual”.
6) A dada altura, nele se escrevia (página 84): “A actividade de auto-estimulação também não tem a intencionalidade erótica que progressivamente vai adquirindo e assume na pós-puberdade. É, no entanto, fonte de prazer e por isso também de culpabilidade, pela associação, na educação tradicional, de mensagens negativas sobre o prazer sexual e a masturbação em particular. Esta é mais precoce nos rapazes e mais dissimulada, e não consciencializada, nas raparigas, as quais, também por razões anatómicas, exploram menos frequente e directamente os órgãos sexuais”.
7) O parágrafo poderia ser meu. Quem me conhece, sabe que, pela diferença referida no primeiro período em relação à pós-puberdade, prefiro falar de auto-estimulação infantil e não de masturbação, palavra demasiado “adultomorfa”. À época a minha posição era claramente minoritária e não me admiraria se continuasse a ser. De qualquer forma, o texto não deixa a mínima dúvida sobre o carácter exploratório da auto-estimulação.
8) Na página 88, aparece a frase polémica, para quem não leu o livro. Num sub-capítulo dedicado a “Expressões de Sexualidade”, e que segue em linhas gerais Lopez Sanchez do país vizinho, enumeram-se “Conteúdos específicos/objectivos específicos”. O segundo ponto da alínea 1 (“Comportamentos sexuais”) reza o seguinte: “Aprender a realizar a masturbação, se existir, na privacidade”.
9) Ou seja: se não existir…, não existiu! (O que constitui, de resto, a excepção, atendendo à enorme frequência do comportamento, como qualquer adulto que acompanhe o crescimento de crianças sabe). Se existir, será necessário explicar à criança que tal actividade não deve ser pública. Muitos de nós, aliás, já se depararam com diálogos difíceis. Por exemplo, quando a criança nos dispara um “se não tem mal por que não o posso fazer em casa de X?”.
10) As duas linhas referidas, mesmo descontextualizadas!, não abrigam nenhuma intenção, aberta ou encapotada, de ensinar a auto-estimulação às crianças. As quais, de resto, dispensam qualquer tipo de ensino ao nível da exploração do corpo na infância...
11) Posso compreender a perplexidade e preocupação de muitos, perante o alarido que lhes foi depositado no colo. Esses, são o motivo do meu esclarecimento. E não outros, que deliberada e desesperadamente procuram turvar as águas de uma discussão que agradece as mais diversas contribuições, como salientado no ponto 3.
12) Fui sensível à gentileza com que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa abordou o artigo e as pessoas nele mencionadas. Não se tratou de uma surpresa, mas é reconfortante verificar que se pode colocar reticências sem ferir a idoneidade pessoal e científica de outrem.
13) No que me diz respeito, o episódio terminou aqui.

Os 40 anos da D.Quixote

A D.Quixote faz quarenta anos e pediu-me um texto para uma colectânea comemorativa. Única "condição" - o número quarenta. Aí vai o meu rascunho:)



História de um rapaz com sorte



O sonho que o animava era demasiado opulento para que o pudesse desenhar sentado. Percorria a sala de lés a lés, passada larga e decidida, as inevitáveis paredes faziam-no girar 180 graus com o impulso do nadador que encontra o fim da piscina. Os olhos saltitavam entre absortos alcatifados e um êxtase celestial indiferente à fronteira espessa do tecto. Mas os braços eram os reis incontestados daquela agitação – se descontarmos a boca, de que falarei mais adiante –, gesticulavam em todas as direcções, como se interpelassem enorme audiência circular e não uma única pessoa. Curioso era verificar que o transe não comprometia o brilho dos sapatos italianos, o hirto vinco das calças que neles repousavam, os ombros batoteiros do casaco, a gravata de cara distinção, a risca do cabelo orvalhado. Parecia o homem da Regisconta, de súbito convertido a uma outra religião comercial.
Pois, a boca. Obrigada a pisar o acelerador para acompanhar o débito veloz do discurso, arranjava ainda tempo para trejeitos de desprezo quando se referia à concorrência e sonoros beijos na ponta dos dedos, extasiados pela grandeza futura. As palavras, embora ricas em metáforas, de impecáveis acordes gramaticais e traindo muitos ensaios de dicção, poderiam, sem ofensa, resumir-se a uma: sucesso. Porque o sucesso – não o seu, claro! – o obcecava e impelia na descrição impetuosa dos caminhos que a ele conduziriam. Na realidade, inebriado pelo vinho da própria crença, apercebeu-se da pobreza raquítica do termo, substituindo-o por triunfo, o que lhe permitiu fazer humor à custa de velhinha marca de bolachas.
(Sim, porque a graça leve e atempada distende o ambiente em geral e as potenciais vítimas em particular, por um momento recordou longínquo curso de formação para vendedor de colchões ortopédicos e as palavras do especialista, nédio e com unhas sebentas: “façam-nos rir e estão no papo”.)
Suspirou, nostálgico. O caminho fora longo; de vendedor de colchões miraculosos iguais aos outros até agente de vedetas internacionais que chegavam a pisar os palcos cosmopolitas de Vigo, Badajoz e Ayamonte. Mas não se atardou no suspiro, poderia ser interpretado como desalento ou cansaço, estados de alma e físico proibidos, por contagiosos.
Feriu o rapaz com olhar penetrante e disparou,
- Então?
O jovem acordou da trip sem drogas que o levara em digressões triunfantes por todo o mundo. E já lhe provocava até no braço, por antecipação, a cãibra de escritor devida a quem se esgota a dar autógrafos. Rodeado pelos gritinhos histéricos das fãs, antes de mergulhar no corpo a céu aberto de uma qualquer roadie fiel.
Uma última pergunta, de resposta obrigatória,
- Acha mesmo isso?
E o artista que vivia de artistas respondeu, solene,
- Meu caro, salvo as devidas comparações, sinto-me como o Brian Epstein quando foi à Tavern em Liverpool ouvir os Beatles.
Estendeu-lhe o papel.
O puto assinou.
Depois, fantasiando encores futuros para calar a consciência que rosnava, pegou no telefone para falar aos outros. Que atenderam sem suspeita. E ele, apressando as palavras e o fim da conversa,
(aliás monólogo!)
- Gente, decidi-me por uma carreira a solo.
E desligou. Do outro lado, só o pousar do telefone interrompeu um silêncio pesado mas não surpreendido.
Encontraram-se no palco. A raiva dos outros e a sua vergonha deram as mãos, numa estranha alquimia da qual resultou um concerto de brutal intensidade, a fazer lembrar o Tonight’s the Night de Neil Young e os Crazy Horse, que todos idolatravam.
Nunca mais se viram. E o rapaz teve sorte. Num bar pífio de Benavente foi escutado e redescoberto por um agente inglês, que se vira obrigado a passar a noite no Parador por o carro o trair na auto-estrada Corunha-Madrid. Umas centenas de euros compraram as reticências – e o contrato… - do homem da Regisconta. Já não voltou a Portugal, seguiu para o mundo. Não repetiu os Beatles, mas fez sucesso longo e endinheirado, muito para além da raia.
E contudo, anos e êxitos passados, se lhe perguntavam qual o melhor concerto da sua vida, respondia sem hesitação,
- O último dos Ali Babá e os Quarenta Ladrões.
(Os outros nunca responderam aos telefonemas que lhes fazia de camarins solitários, amavam-no de mais para lhe perdoar…).

quarta-feira, maio 18, 2005

À boleia da Cláudia e de Lobo Antunes

1) Não acredito na felicidade, “apenas” em momentos felizes.
2) Se fôssemos felizes de um modo “estável” não creio que morrêssemos de saudades de uma pequena desgraça salvadora:). Acho mais provável que a avidez nos impelisse para o desejo de um outro nível de felicidade, a verdadeira, a da Bayer! (talvez à custa da obtenção de bens materiais, como é próprio de uma sociedade de consumo).
3) Se alguns de nós ficam, com efeito, atrapalhados com a dádiva sem expectativas de outros, é bom não esquecer quem se aproveita de tal facto para guardar no bolso todo o poder de uma relação.
4) A ideia da felicidade como “estado” acarreta dentro de si uma fantasia angustiante – quando desceremos desse “top of the world”?
5) Na minha profissão deparo-me com certas dúvidas. Pessoas que vivem relações com vento de feição e mares calmos e começam a interrogar-se: “estou feliz ou acomodada?”. No geral porque identificam a felicidade a níveis de adrenalina incompatíveis com aquele suave navegar. O envelhecimento costuma trazer uma visão diversa da questão, mas também ela propícia a uma boa discussão – tornamo-nos mais sábios ou baixamos as nossas expectativas?:)

terça-feira, maio 17, 2005

Não quero a Maite triste:)

E este?

Número seis

beija-me despe-me faz de mim o que quer
estou bêbeda tudo anda à roda tenho de ir
à casa de banho duas vezes para não lhe vomitar em cima

vai-se embora cedo a toda a pressa não há despedida
nota justificativa ou telefone de contacto só dúvidas
todos os homens são príncipes às cinco da manhã

todas as putas são tu quando acordas e não há ninguém.

Pablo García Casado.

Pronto, Sofia:)

Ao Nuno Júdice


O poema acabado é uma insónia
Uma tribo de verbos uma crina
Que se estende no cheiro desta amónia
E queima em cada verso uma narina

Do poeta metido entre o desgosto
que as palavras trazem todas na algibeira.
Difícil é tapar o próprio rosto
Sem meter os dedos na fogueira

Acesa pela harpa dos sentidos
Esticados como um leque de varetas
Que tornam os poetas pervertidos
E fazem a loucura dos poetas.

Joaquim Pessoa.

segunda-feira, maio 16, 2005

Ah, a ameaçadora fantasia:)

Tissot, 1759, sobre a masturbação: "Os homens sujeitam-se a falsas necessidades, e tal é o caso dos dependentes da masturbação. São a imaginação e o hábito que os aprisionam; não é a Natureza".

domingo, maio 15, 2005

De volta ao trabalho

Depois de roer as unhas!. A estrelinha acompanhou-nos, só desejo que connheça o caminho para o Bessa e não falte ao encontro:).

Preparo um programa sobre fantasias eróticas. Leio posições feministas que analisam o perigo de "fantasias de submissão" por parte das mulheres. Sheila Jeffreys: "Se a opressão te excita será muito mais difícil combatê-la". Para outras autoras, o sexo é uma área de jogo em que tudo é permitido, desde que não desague em práticas quotidianas. Dou o exemplo que sempre faz aquecer as discussões: pode uma mulher sentir prazer ao "levar à cena erótica" uma fantasia de submissão com um homem sem se tornar cúmplice da ordem patriarcal que rejeita e eventualmente combate?

sábado, maio 14, 2005

Prognósticos só no fim do jogo? Ná!

Aqui vai um. À prova de bala e de tudo. Ou seja: árbitro vesgo, fiscais de linha míopes, banho de bola, falhanço escandaloso de baliza aberta, enorme frango que encha a capoeira, alegria surpreendida, tristeza conformada, trave madrasta, festejos incrédulos de tão adiados, mais dez anos de espera, derrota na secretaria, vitória injusta, proibição pura e simples do futebol - amanhã continuarei a ser do Benfica:).

sexta-feira, maio 13, 2005

Deformação profissional:)

Dois ou três comentários (?) à frase de ontem levaram-me direitinho às considerações do Dr. Allen Gomes sobre o exibicionismo, em A Sexologia: "...exposição dos órgãos genitais do indivíduo a uma pessoa estranha. Por vezes, o sujeito masturba-se enquanto se expõe (ou enquanto fantasia expor-se)"; "Nalguns casos o sujeito está ciente de um desejo de surpreender ou chocar o observador"; "... o acto exibicionista é uma manifestação grotesca de poder sexual".

Adiante.

Ao Fim


Ao fim são muito poucas as palavras
que nos doem a sério e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
São também muito poucas as pessoas
que tocam nosso coração e menos
ainda as que o tocam muito tempo.
E ao fim são pouquíssimas as coisas
que em nossa vida a sério nos importam:
poder amar alguém, sermos amados
e não morrer depois dos nossos filhos.


Amalia Bautista.

quinta-feira, maio 12, 2005

Dilatando o tema

Sem auto-confiança somos como bebés num berço. E como podemos gerar o mais depressa possível esta imponderável e contudo tão incalculável qualidade? Pensando que outras pessoas nos são inferiores.

Virginia Woolf, A Room of One's Own.

quarta-feira, maio 11, 2005

A poesia di-lo melhor:)

Retrato de mulher


Sobre o seu rosto não fora só o tempo que passara, também as cabras ali pisaram fundo. Era difícil, era impossível distingui-la da própria terra: velha, seca, esboroando-se à passagem do vento. Portuguesa, de tão pobre.

Eugénio de Andrade, Memória doutro rio.

terça-feira, maio 10, 2005

Como prometido

Aqui está o texto que li na apresentação do livro coordenado pela Professora Lígia Amâncio:

É um prazer colaborar no lançamento de um livro organizado por uma pessoa que sempre me despertou simpatia pessoal – facto de vantagem curricular muito duvidosa… - e o respeito que me leva a citá-la com frequência, pela importância de que o seu trabalho se reveste no nosso panorama científico. Prazer reforçado pelo facto de se tratar da resultante de um esforço de equipa, hábito obrigatório que ainda encontra incríveis dificuldades em país cioso das suas capelinhas e invejas. Erro tremendo, só a multiplicidade dos olhares constrói objectos de estudo mais nítidos ou até, sejamos megalómanos!, quase verdadeiros.
Permitam que confesse um favoritismo descarado por palavra do sub-título: masculinidades. Porque são os plurais a aflorar o real, todo o singular acarreta a generalização que transforma pessoas em números e estereotipos. Que aprendemos a ser homens masculinos começa a ser - finalmente… - consensual. Nem sempre foi assim. A masculinidade, constitucional, imutável, indiscutível - quando não invisível… -, tem sido ponto de referência padrão e símbolo milenar de poder fálico e patriarcal. E isto apesar da constante obsessão em a provar, o que só pode traduzir a fragilidade e insegurança de quem, consciente ou inconscientemente, se teme e confirma efémero, no seu exibicionismo especular e competitivo.
Os estudos sobre a masculinidade surgiram a reboque dos de género, centrados sobre as mulheres, seres estranhos e imprevisíveis, definidos em relação à norma, em teoria assexuada mas silenciosamente masculina. E, por arrastamento, de uma libertação feminina que punha em causa valores e práticas simbolizadas pelo cow-boy da Marlboro e por um John Wayne omnipresente nos meus queridos westerns da adolescência. Sim, porque oficialmente todos éramos – ou seríamos no futuro… - como eles: monolíticos, pétreos, seres racionais que escondiam e calavam o amor e se orgulhavam disso. Lembremos esse Shane, desempenhado por Alan Ladd, desaparecendo no horizonte, aterrorizado pela presença – nem sequer a exigência… - dos afectos de mulher e criança. Só faltava no argumento de tão mítico filme que também um homossexual fosse rejeitado, para que os critérios major da construção da masculinidade estivessem completos…
Como bem salienta a Professora Lígia Amâncio, os problemas permanecem ao nível das relações de poder, de produção e emocionais. E ao nível da comparação e opressão das masculinidades, veja-se o artigo do Expresso da semana passada sobre Forças Armadas portuguesas e homossexuais. Quase admirável, na sua honestidade paleolítica e cruel, sublinha o que outros calam por estratégia: aprendemos a ser um determinado tipo de homem, lançando os outros para a cumplicidade ou marginalização. O destino dos primeiros, sob certos aspectos, não é melhor. Tornam-se vitoriosos à custa da auto-mutilação…
Os processos discriminatórios surgem, por exemplo, no local de trabalho, como exemplarmente demonstra o Dr. António Marques. A quem reencontro com satisfação, depois de ter tido o privilégio de acompanhar no passado as suas provas académicas, que suportou com inegável brilho. Das áreas referidas, permito-me salientar a Cirurgia. Porque a comparação diária não é apenas com as mulheres que nela se aventuram ou com uma futura cirurgia “feminizada e descaracterizada”. Mas também com as outras especialidades médicas, vistas como secundárias e de apoio. O cirurgião goza de um estatuto fantasmático de prima dona que até no comportamento predador heterossexual se verifica, a “intimidade desculpabilizante” do bloco operatório é famosa na Medicina.
E se em Antropologia Médica chamamos a atenção para o estreitar do fosso entre as chamadas doenças de género, salientando as consequências da adopção pelas mulheres de estilos de vida considerados mais “masculinos”, seria ingénuo negar a associação risco/masculinidade que muitas vezes conduz a verdadeiros comportamentos ordálicos. A Dra. Ana Laranjeira tem razão, e o povo também: um homem que não é homem não é nada. Nem homem, nem par do grupo, cuja rejeição é mais temida que tudo o resto. Incluindo todo o género de rituais de passagem, sejam eles ridículos, sádicos ou dolorosos.
Afinal as mesmas águas em que se move a Dra. Teresa Martinho, cujo título me trouxe à memória uma velha canção dos Eagles, dedicada a James Dean: “Too fast to live, too young to die”. Não será a minimização do risco uma visão compensatória megalómana da insegurança de que falava atrás? E se o risco é minimizado na estrada e ao volante, como o não seria na pedra de toque da masculinidade, o sexo? Minimizada é também por muito boa gente a sobrevivência do duplo-padrão, condicionado ou não, assente no “constitucional e tirânico” desejo masculino. A pressão é tão forte que os comportamentos de risco resistem à melhoria dos conhecimentos. O que não acontece nas raparigas. Ou, na maior parte dos casos, não aconteceria!, pois conhecimentos e boas intenções de pouco lhes valem, face à assimetria de poder ainda existente em muitas relações.
O meu bom amigo Vasco Prazeres prossegue, de certo modo, o tema da Dra. Ana Laranjeira, ao abordar as vertentes da Prevenção e Promoção de Saúde. Sempre desvalorizadas na ideologia médica, fortemente curativa, intervencionista, espectacular, numa palavra – masculina. E chama a atenção para as diferenças nas taxas de mortalidade e morbilidade e para o perigo de considerarmos constitucionais diferenças que relevam dos comportamentos. Bastará recordar os acidentes de viação que enchem serviços de urgência e traumatologia, para não falar dos cemitérios. Ou as doenças sexualmente transmissíveis, que por factores biológicos e sociais penalizam mais as mulheres. E foi com deleite que o vi citar o meu estimado Laqueur, sempre lúcido a discorrer sobre a facilidade com que Ciência e Medicina “ignoram o entrave dos factos”. Também importante a verificação por Choquet e Ladoux do aumento nos dois sexos dos problemas “tipicamente masculinos”, ao contrário dos “tipicamente femininos”. Não admira, o metro-padrão da liberdade e cidadania veste calças…
Os Serviços, esses, perpetuam as diferenças, pouco sensíveis às relações entre Cultura, Género e Saúde. E não só Género!, as mulheres, minoria maioritária, partilham com outras as desvantagens ao nível dos Sistemas de Saúde. Ouçamos Eisler e Hersen, no prefácio da obra colectiva que dedicam ao tema: “Diferentes grupos de pessoas percebem, avaliam e lidam com os tópicos da Saúde a partir das suas próprias perspectivas culturais. Assim, a qualidade e a eficácia das actividades de Prevenção e Promoção da Saúde dependem da nossa compreensão da forma como o género, a etnia, a idade e a orientação sexual estão relacionadas com as práticas de saúde e os seus resultados”. Quantos Serviços, melhor!, quanta Medicina pensa a relação entre o seu agir e as assimetrias do imaginário cultural que acarretam as da morbilidade? A resposta não é reconfortante…
E o círculo fecha-se na juventude, em que tudo começa. Não raras vezes por responsabilidade materna, também a feminilidade, além de submissa, é cúmplice, costumo dizer que muitos machismos são como a hemofilia – habitam os homens, mas foram transmitidos pelas mulheres. O poder é por definição relacional e a violência não passa de um bilhete de identidade extremo, sobretudo em espaços públicos e contra as mulheres e os homens “não alinhados”, tentativa absurda de ser alguém pela humilhação de um “outro” considerado inferior. “Outro”, que se for rapaz, tem grandes hipóteses de se tornar cúmplice, que mais não seja por recear a rejeição do todo-poderoso grupo. As instituições educativas não podem ficar indiferentes à perpetuação de tais comportamentos, sobretudo por a violência ser considerada “natural”, até no seio das relações afectivas, Koss e Hoffman escrevem que “a violência por parceiro íntimo é um problema de saúde global para as mulheres, pois estudos em 35 países demonstram que entre 25 e 50% das mulheres foram vítimas dessa violência”. Para cúmulo, e como o Dr. Carlos Barbosa sublinha, trata-se de uma “violência imperfeita”, que só demonstra a artificialidade das hierarquias sustentadas, a Escola é um caso particular da tragédia que subjaz a toda a violência de género.
A Professora Lígia Amâncio regressa a Simone de Beauvoir nas conclusões e com justiça. Porque os homens também não nascem, tornam-se. E muitas mulheres confundem até liberdade com adopção dos comportamentos do sujeito masculino, por ser quase impensável inventar outros trajectos além dos conhecidos. É realmente preciso tomar consciência do problema e adquirir instrumentos para o resolver. Quanto à esperança da Professora Lígia Amâncio sobre esta obra, ela denuncia excesso de modéstia. Se o livro não lhe transportasse o nome, estou certo que não hesitaria em reconhecer-lhe – como o faço eu! – o indiscutível valor.

segunda-feira, maio 09, 2005

Boa noite, maralhal.

O Silêncio


Quando a ternura
parece já o seu ofício fatigada,

e o sono, a mais ncerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio.

domingo, maio 08, 2005

Violência de género

Regressei - contrariado... - de Cantelães. Acabo um texto para a apresentação de um livro sobre Masculinidades, coordenado pela Professora Lígia Amâncio. Deixo-vos uma frase sobre o último capítulo:

"E o círculo fecha-se na juventude, em que tudo começa. Não raras vezes por responsabilidade materna. Também a feminilidade, além de submissa, é cúmplice, costumo dizer que muitos machismos são como a hemofilia – habitam os homens, mas foram transmitidos pelas mulheres".


Sim ou não?

sábado, maio 07, 2005

Professor Karmachado

EU NÂO DISSE??????????????????

Consultas sobre super-liga, referendos europeus e eleições autárquicas a preços módicos:).

Agora a sério: não será de bom tom invocar os dois penaltis que penso terem ficado por marcar, esta equipa não joga o suficiente para ser campeã e ponto final. (Manterei esta opinião se ganharmos os próximos jogos.)

Blogger agoirento:)

1) Tive pesadelos tão variados que me fizeram lembrar os acepipes do velho Hotel do Porto.
2) Já não consegui o Expresso em Vieira.
3) Em nenhum dos cafés arranjei um sumo de laranja natural.
4) O tempo piora a olhos vistos.
5) Não consegui escrever uma linha.
6) Nem marimbar-me saudavelmente para tal facto:(. Carago!, é fim de semana...
7) A Senhora da Fé estava fechada.

Vai daí...

Não me liberto de um mau pressentimento sobre o Benfica!:).

PS1 - A frase "déjà-vu sinistro que adivinho no teu amor" relacionava-se com a hipótese de repetir um padrão destrutivo em sucessivas relações. Deveria ter escrito "nosso amor".

PS2 - Pobre Perestrelo.

sexta-feira, maio 06, 2005

De regresso

A estrada. Sempre a amei, sabes? Quando o cansaço já aperta e o rádio canta uns decibéis exagerados, os reflexos permanecem agudos mas distraídos; um outro, cá dentro, fecha para balanço. Memórias e sonhos disputam o palco, os quilómetros são engolidos num estado crepuscular, como se me visse guiar enovelado no banco de trás (espero que a Brigada de Trânsito não leia isto!). Asfalto; meter gasolina; água em fonte para a boca e chuveiro na cara; sanduíches plastificadas dentro do prazo e fora do gosto; mais asfalto; meia-dúzia de passos numa área de repouso…, não!, apenas três, que estou com pressa.
De fechar com truques contabilísticos o balanço. E abrir os braços de um coração amnésico ao déjà-vu sinistro que adivinho no teu amor.

quinta-feira, maio 05, 2005

Opinião de aprendiz

Como sabem, não tinha qualquer experiência neste "mundo blogueiro", sou um aprendiz. Mas desconfio que muito do que vejo "living in the material world" (isto é George Harrison:)))) se aplica. A lua de mel no Murcon finou-se. Vocês já não acham toda a gente porreiríssima, alguns partiram mesmo, outros só espreitam mas não piam. Não é uma tragédia, apenas o fim de uma idealização sememlhante à da paixão. Entramos em velocidade de cruzeiro: com defeitos, amuos, reconciliações. Teremos descido um degrau? É, no mínimo, discutível, de imagens e projecções passamos a pessoas de carne e osso (bem, na medida do possível na "blogosfera"). Eu não estou desiludido, nem considero que esta lua de fel para alguns seja necessariamente definitiva. Não posso fazer nada a não ser "postar". Nem quereria!, desde o início declarei que me limito a partilhar ruminações. Vejo-me como um pretexto para o exercício das vossas liberdades, jamais como um aprendiz de feiticeiro que tentasse orientar-lhes os passos.

quarta-feira, maio 04, 2005

Com um obrigado à Maite

Mas claro qur vocês conseguem "cheer me up":)!, por alguma razão venho religiosamente todos os dias. Acontece que decidi escrever um livro sobre os Machado Vaz de hoje, ontem e anteontem para o deixar aos de hoje e amanhã. Certos nacos de prosa fazem reviver sorrisos que pensava mortos, mas outros empurram lágrimas impensáveis, pois se nos ensinaram que os homens não choram!:) (pouco...).

Entretanto para distrair:

Maria,
Escrevo entre duas aulas. Entre o passado e o futuro. Entre nós e eu e tu. Entre ti e outra mulher. Ameaça? Claro que não, Maria, pura lógica. Ora vê: ambos com 33 anos, achas que ficaremos crucificados na solidão? O meu psi até empregou uma expressão "técnica", disse que vivemos tempos de monogamia seriada, atrás de nós virão outros nós para nós (a propósito de monogamia - ele acredita que nunca te enganei. E olha que o gajo deve ser bom, a julgar pelo preço das consultas!). Mas Maria, será mesmo inevitável? Se é esta uma forma tortuosa de por fim confessar que te amo? Bom, como não decidi se te envio a carta, posso responder. Talvez te ame e muito. Afinal não consigo dormir, o apetite foi-se - excepto o sexual por ti, se permites a crueza -, embirro com toda a gente e dou aulas de merda. Talvez te ame, sim. Mas o verbo empanca na garganta e não sai, como estamos na Primavera não será um caso de rinite alérgica neuronal? O quê? Só se for Primavera todo o ano há três anos... Pois. Deixemos isso! Há palavras mais leves, até duvidosas, e no entanto úteis. Preguiça, por exemplo. Sim, Maria, preguiça. Imagina-te com o eu depois de mim. Já pensaste na trabalheira que terás para construir uma intimidade como a nossa? Lembras-te, foste tu a ensinar-me a canção - "pra melhor está bem, está bem; pra pior está bem assim". Aí está. Fiquemos juntos por preguiça, Maria. O amor, a ternura ou o raio que nos parta que nos une é difícil de encontrar, mais ainda de manter vivo. Pensa bem, Maria, pensa muito bem.
Sobretudo porque decidi não enviar esta carta. Por orgulho? Nem pensar! Por escrupuloso respeito pela tua liberdade de decisão...

terça-feira, maio 03, 2005

O álibi

Cantelães, fim de tarde. A casa vazia destila calma enganadora. No centro da mesa virada para a Cabreira brilha resma de papel. Branquíssimo!; não por ter sido lavado com o detergente da moda, mas de tão vazio. A caneta aguarda, numa obediência trocista. O braço idem aspas, o traidor... Os neurónios todos se afadigam, na procura de resposta a pergunta assassina: "conseguirei escrever sobre "isto"?".
A cobardia. A inveja da coragem fatalista de Gary Cooper, rua e fantasmas abaixo, em "O comboio apitou três vezes".
O suspiro desencantado.
O álibi - escrevo depois do Liverpool-Chelsea.
A certeza - a angústia adiada sempre cresce alegremente...

segunda-feira, maio 02, 2005

O caso das molduras escandalizadas

Nós, as fotografias que ladeiam a ontem citada pelo Murcon, vimos por este meio alertar o maralhal para a injustiça cometida. De acordo, era o Dia da Mãe; de acordo, falar nela e não no Pai seria de um mau gosto a roçar a obscenidade. Mas..., e nós? Mostramos acaso gente menos importante? O que seria do pobre diabo sem os filhos, que não se limitaram a gostar dele em fins de semana decretados por tribunal e aparências ou férias breves para algarvio à cata de camones endinheiradas ver? A ingratidão brada aos céus! Os rapazes acompanharam-no em apartamentos minúsculos e húmidos, depois em T2 caótico, ultimamente no refúgio pouco excitante de Cantelães. Aturaram-lhe manias e melancolias, hotéis e capitéis, zangas e tangas; mundos e fundos. À custa deles permaneceu à tona. E nem uma palavra? Pois que se dane! Quando entrar pela janela da varanda uma rabanada de vento amargo, cairemos em estilhaços, recusando-lhe os braços. Puxaremos para cima um cobertor de pó, é o que não falta! E cobertas e às escuras, veremos como sobrevive só...

domingo, maio 01, 2005

Dia da Mãe

Venho de dar um beijo à minha. Sofre de Alzheimer, infelizmente estou certo que vários de vocês dirão o mesmo. Já não conheceu os bisnetos como tal, não viu Cantelães crescer, a dama de companhia é hoje a única pessoa a despertar-lhe a atenção (e é mais do que justo!, pela forma como a trata). Minha Mãe foi o colo - severo e doce... - de todos os Machado Vaz ao longo da vida. Recordo-lhe o riso aberto e franco, a força de vontade inquebrantável, a inteligência aguda de auto-didacta, a timidez que vencia no palco, a mão protectora que acariciava cabelos como a de ninguém. Quando balbucia palavras sem nexo, não evito a sensação de que um resto dela se debate lá no fundo, tentando ainda ajudar o filho. Visito-a menos do que devia, assim tentando evitar saudade e medo. Egoísmo perdedor... Porque a saudade cresce com os anos e o medo de acabar como ela, morto antes da morte, também. À minha esquerda, uma fotografia dos tempos de namoro com meu Pai. Apúlia. Uma rapariguinha séria de vinte e seis e um homem de quarenta que devia estar muito apaixonado para se passear de fato e gravata pela areia, ele!, que odiava cordialmente a natureza:). Um amor improvável que durou cinquenta anos. E que se algumas vezes me fez sentir excluído, nunca me deixou dúvidas sobre o enorme privilégio que foi assistir à sua sobrevivência a todos os escolhos - e não foram poucos... - que a vida lhe reservou.
Bons dias das Mães, maralhal, não gosto de encafuar os sentimentos em dias certos.

sábado, abril 30, 2005

Boletim médico

O Doutor Júlio Machado Vaz recuperou razoavelmente do Benfica-Belenenses. Os parâmetros vitais encontram-se estáveis, mas foram-lhe administrados sedativos em dose forte, visto obstinar-se em ver o Penafiel-Benfica da jornada seguinte. O prognóstico continua extremamente reservado e a equipa médica solicitou a ajuda de Sporting de Braga e Marítimo. Um novo boletim será tornado público no próximo fim de semana. Embora muito fraco, o Doutor Machado Vaz insistiu em acenar aos seus amigos blogueiros da janela do Murcon.
Hospital de Vieira do Minho aos 30 de Abril de 2005,

O Director da Urgência,

xxxxxxx------======wwwwwwww

(assinatura ilegível porque é médico).

sexta-feira, abril 29, 2005

À custa do velho Marcial

A propósito de outras formas de rotular (verbo horrível!) as pessoas:

Ri-te lá à vontade, Sextilo, de quem maricas
te chama e espeta-lhe o dedo médio.
Mas tu não vais por trás, Sextilo, nem pela frente,
e a boca ardente de Vetustina não te agrada.
Não és nada disso, confesso, Sextilo. Que és então?
Não sei, mas tu sabes que sobram duas coisas.

Marcial, Epigramas.

Sextilo não pratica o coito vaginal ou anal como sujeito activo. Não aprecia o coito oral praticado por uma prostituta velha. Restam duas possibilidades, que Marcial insinua serem conhecidas de ambos: o coito anal em postura passiva e o oral, que os gregos também consideravam "passivo" - outras culturas discordam -, sobretudo se praticado com mulher. Como dizia ontem, não é o tipo de acto ou o sexo do parceiro a garantir a "normalidade cultural", mas o estatuto de sujeito activo, que traduz domínio sobre o outro. Daí que Paul Veyne, referindo-se aos romanos, falasse de uma verdadeira "bissexualidade de violação".

Completamente de acordo com o reparo de Portocroft, o mais das vezes analisamos os discursos de elites. Os romanos foram mais amáveis, deixaram-nos toneladas de graffitti populares:). Essa dúvida acompanha-nos, de resto, no cristianismo. Quando lemos os Penitenciais da Idade Média, com as suas inúmeras proibições sobre todos os actos sexuais possíveis e imaginários - acho que pouco foi inventado depois deles a não ser o sexo virtual:) -, custa muito a crer que as populações os seguissem à risca. No fundo, poderíamos dizer que os detentores da cultura sempre definiram a imagem futura dos povos. E se a cultura está nas mãos de uma minoria homogénea é muito difícil descortinar discursos e práticas alternativas. Ou então apenas o conseguimos através do filtro impiedoso da cultura dominante, veja-se as descrições luxuriantes da Inquisição sobre os hábitos sexuais dos cátaros, que no concreto eram bem mais ascéticos do que a hierarquia romana!

P.S. Alguém se queixou de falta de poesia. Seus tiranos...

O Amor é um Género Literário

Pensei em escrever-te como se não existisse
ainda o feminismo. Como se o nosso tempo
não fosse o fim do século, nem ninguém conhecesse
a igualdade dos sexos, nem causasse estranheza
ouvir que te dissesse que o amor que eu sinto
por ti nunca poderias tu senti-lo por ninguém.
Talvez o amor seja apenas literatura
que muda com o tempo. Eu suponho que nós
não amamos como Shakespeare, nem Shakespeare como Dante
nem Dante como Safo, nem Safo como ninguém.

Carlos Martínez Aguirre.

Ora digam lá que não proporciona uma boa discussão:)?

P.S.2 - Lamento que as coisas por vezes se tornem azedas entre vocês. Mas todos, incluindo eu, devemos decidir quando e porquê ficar, partir ou regressar. Porque, ao menos para isso!:), somos livres.

quinta-feira, abril 28, 2005

A propósito de uma opinião do Portocroft

Não direi todos. Os Gregos, por exemplo, falavam de homens que não apreciavam os rapazes, numa sociedade que via essa atracção como "natural". Os homossexuais dos nossos dias crescem num banho cultural que os programa para a heterossexualidade. Isto para dizer que aceito a existência de orientações sexuais "fixas". Mas acredito que muitos de nós - a maioria... - serão capazes de se sentirem atraídos por pessoas, independentemente do seu sexo, numa cultura menos dicotómica, polarizada e com a mania de definir a identidade de cada um a partir das suas preferências sexuais. Considero esta forma de "sobrecarregar o sexo de significado" um erro de pesadas consequências.

Contra factos não há argumentos, mas...

... há interpretações:). Como já disse, é para mim óbvia a existência de diferenças constitucionais entre os sexos. (Embora a minha ignorância na área seja admirável, julgo lembrar estudos que indicam, por exemplo, melhor orientação temporo-espacial nos homens e maior capacidade de discernir sentimentos a partir da expressão facial nas mulheres. NÃO GARANTO QUE FOSSE EXACTAMENTE ISTO:).) Sobre esse património inicial exerce-se um processo de aculturação violento, mas que em cada momento histórico nos parece "natural".
Regressemos às diferenças. Quase todos os anos surge mais um artigo sobre a origem genética da homossexualidade. (Não empregar o plural é, desde logo, optimista, existem homossexualidades como existem heterossexualidades.) Seguem-se polémicas terríveis, como já devem ter reparado. Primeiro ponto: se for descoberta uma área genética que influencia, em maior ou menor grau, a orientação sexual, o facto ajudará também a explicar a heterossexualidade (acontece que nunca nos ocorre explicar o "normal"). Segundo ponto: a descoberta, em si mesma, não é "má" nem "boa", tudo dependerá da sua interpretação. Suponhamos que a orientação sexual é encarada como uma variação semelhante à cor dos olhos ou - ai, ai...:( - a altura na idade adulta - a diferença genética não conduzirá a um procedimento "correctivo". Admitamos agora que é assimilada a doenças, como a Psicose Maníaco-Depressiva ou outras em que a hereditariedade desempenha um papel - à descoberta seguir-se-á, mais tarde ou mais cedo, a manipulação genética que "curará" a(s) homossexualidade(s).
Ou seja: uma atitude mental anterior aos factos determina a sua valoração.
O mesmo processo influenciará os comportamentos em face de diferenças biológicas entre os sexos - servirão para cavar mais o fosso e reificar a velha máxima dos "sexos opostos"? Ou uma cultura de igualdade de direitos e deveres - e não de corpos e espíritos... - limará as diferenças que se revelem prejudiciais a esse equilíbrio, às vezes apoiada na própria Ciência?
A bela frase de Vergílio Ferreira regressa sempre: "O mais importante não é o que fizeram de nós, mas o que fazemos do que fizeram de nós" (não garanto palavra por palavra...).

quarta-feira, abril 27, 2005

A propósito de um comentário da Elisa.

Também acho que aqui falamos muito mais de política(s) do que possa parecer à primeira vista, as relações humanas estão cheias dela(s):). Neste momento leio o livro coordenado pela Lígia Amâncio sobre "Aprender a ser homem - construindo masculinidades". Cito: "... Com efeito, a masculinidade não constitui um atributo dos seres homens, tal como a feminilidade não é um traço das mulheres. Masculinidade e feminilidade constituem formas de pensar, dizer e fazer, socialmente construídas em diversos planos da vida em sociedade, incluindo os das relações entre homens, entre mulheres e entre homens e mulheres".
Sem negar diferenças entre os sexos ao nível biológico/comportamental (área bem mais invocada do que definitivamente(?) estudada), estou de acordo. E construção social implica política, na medida em que verificamos e aceitamos ou contestamos assimetrias, relações de poder, marginalidades, processos de normalização. Longe vai o tempo em que pensávamos afectos e sexo como ilhotas impávidas, ao abrigo das marés culturais. Pelo contrário, a sexualidade é um espelho privilegiado de sociedades que, em diversos tempos e espaços, organizaram políticas sexuais de modo a solidificarem e protegerem as ideologias dominantes. Basta comparar a chaveta heterossexual/homossexual, que nos hipnotizou nos últimos 150 anos, com a activo/passivo que preocupava Gregos e Romanos. Não são de modo algum sobreponíveis. A primeira faz depender a "normalidade aliviada" de alguém do sexo ("correcto") do parceiro; a segunda do seu comportamento e estatuto na relação sexual, seja qual for o sexo do outro.
Ups!, tenho de ir trabalhar, gente:)

terça-feira, abril 26, 2005

The bitch is back.

Maralhal,
Em Castelo Branco não consegui aceder à Net, desculpem lá o silêncio:). A conversa correu bem, mas vim com a sensação habitual que me invade quando me aventuro no "Portugal profundo" - é difícil para eles, muito difícil. E noto-o, porque não se limitam a participar e a depois dizer-me - e a outros que por lá passam - o que acharam da exposição ou do debate. Não. Agradecem a nossa presença como ninguém o faz à beira-mar e sabem com exactidão quando foi a última visita (até a boa senhora que me vendeu jornais disparou sem hesitações: "já não o via há quatro anos!"). Em paleio asséptico fala-se de interioridade, assimetria, desenvolvimento a duas velocidades, etc... Eu digo que resta muita Democracia por cumprir.

domingo, abril 24, 2005

Meus caros

Meus caros Lobices e Portocroft,
Pois, os horários... Se pensarmos um pouco, é de um ridículo atroz, afinal digo o que me apetece todos os dias às 9.25, na Antena 1. Quando fazia o Sexualidades, afirmei num programa que, como sexólogo, podia assegurar que a história de Lot tinha um carácter simbólico, um pai tão bebido que não reconhece as filhas como parceiras sexuais seguramente não consegue uma erecção. Uma escandaleira... Nunca foi falar de sexo a criar-me problemas, e sim relacioná-lo com o banho cultural que o alimenta e nele se reflecte. Lembro-me de encontrar um velho amigo num restaurante e ser acusado de constituir um perigo para a moral da juventude. Incrédulo, recordei-lhe o facto de ser um agnóstico educado em duas éticas que competiam na severidade: a católica (por definição) e a republicana (por reacção). Ele resmungou que isso me tornava ainda mais perigoso! Hoje compreendo a lógica subjacente à sua resposta - o meu discurso não era suficientemente eufórico e "prafentex" para ser visto como "debochado" ou pós-moderno, logo, fácil de rejeitar. Nunca falarei a horas decentes fora do cabo ou da RTPi, o meu "conservadorismo aberto" é ameaçador, de tão próximo. Talvez por isso, durante anos recebi cartas de um espectador que me chamava "Príncipe das Trevas". E o que era o Diabo - antes de o Vaticano o decretar descartável... - se não o indispensável fundo escuro que realçava o brilho de Deus? Amigáveis inimigos, como Rommel e Montgomery...
P.S. - Zapatero tem sido uma agradável surpresa. A sua reacção ao desagrado da Igreja face às leis sobre o casamento dos homossexuais e a adopção pelos mesmos foi tão elegante como firme.

sábado, abril 23, 2005

O rebuçado

Hoje o Gaspar faz quatro anos. Telefonei-lhe e disse-me que estava no carro porque ia festejar a Cantelães. NA CASA DO AVÔ!!!!!!! Lenda familiar assegurada:))))))))). Um dia bom, maralhal.

Trabalho árduo no Algarve! Posted by Hello

sexta-feira, abril 22, 2005

Eu por cá...

Um dia magnífico. Já me chegaram ecos de chuva portuense:), o bom do Guilherme resistiu a insultar-me ao telefone. O António de que falava ontem era o inimitável Macedo, companheiro de O Amor é... O debate correu bem, com um dos intervenientes a pairar bem acima de todos os outros - Frei Bento Domingues. Não o conhecia pessoalmente, apenas dos artigos no Público (o do Miguel Sousa Tavares de hoje é excelente!). O homem é de uma doçura risonha que encanta. Parece juntar a sageza que só os anos trazem a um espanto infantil e ávido em face de tudo o que "cheire" a vida. Não me surpreende que não tenho subido na "hierarquia". Mas como ele próprio disse, podemos ser livres e ter sucesso ficando sós. Ele, seguramente, não ficará, uma fé tão "colada" ao humano deixa marcas indeléveis naqueles em que pousa.
P.S. Não tenho coragem de ir ver o Benfica:(

quinta-feira, abril 21, 2005

Em digressão

Eu e o António estamos no Algarve porque vamos participar numa Mesa Redonda - ou rectangular... - na Universidade. Mas maralhal, como sou um álibi indispensável ao vosso chat-room:), trouxe a besta e depois mando-vos a conta do telefone! E agora vou trabalhar:(, ó verbo maldito...

quarta-feira, abril 20, 2005

Agradecimento

Por ser de elementar justiça, venho por este meio agradecer à Direcção do restaurante D'Oliva não ter expulso os Machado Vaz hoje ao jantar, atendendo ao verdadeiro arraial minhoto - ou tripeiro... - a que se entregaram os meus netos. Mais declaro, para preservar, na medida do possível, o bom nome dos meliantes, que não se encontravam sob o efeito de qualquer droga, nomeadamente anfetaminas ou cocaína. Para mal dos meus pecados, o seu, perdão!, nosso único problema é sofrerem de uma aterradora saúde!

às ordens da Yulunga:)

E quem sou eu para a contrariar? Ainda por cima com o apoio da Lys? E do Portocroft? Ná, ainda sofro uma tentativa de assassinato... Substitua-se o post!

Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor presente
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius.

Uf! Estarei safo? Porque se nem a poesia me conseguir o vosso perdão...:)

terça-feira, abril 19, 2005

Em defesa do Espírito Santo

Quem fechou as janelas, imnpedindo-o de entrar? Está inocente! Agora a sério: sou um agnóstico educado por padres que defendiam ser possível praticar o cristianismo sem ter recebido o baptismo. O que se passa na Igreja - hierarquia e fiéis... - toca-me.
Ratzinger... Mas por que teimam em fechar portas e janelas? É possível não ceder ao relativismo e mergulhar no mundo real, caramba! Enfim, preferiram enquistar-se. Não foi uma surpresa, mas tinha a secreta esperança de me enganar:(.

A busca

"o sabor das mulheres das raparigas
inacessíveis sempre como um absoluto
sempre impossível tido no entanto por possível"


Ruy Belo.

segunda-feira, abril 18, 2005

Nada na manga

Sábado fiquei surpreendido com a notícia no Público sobre a iniciativa do João Teixeira Lopes a propósito do abortado O Amor é... no dia seguinte à morte do Papa. No que me diz respeito, aconteceu o seguinte:
1) Uma ouvinte enviou-me a resposta da Antena 1 a um mail seu, em que protestava por o programa não ter ido para o ar.
2) Como ela própria referia, da resposta era legítimo inferir que eu tinha dado o meu acordo ao facto. Além disso fazia-se referência ao estilo alegre do programa (gravado na quarta anterior) e à hipótese de ferir algumas susceptibilidades.
3) Entrei em contacto com a Antena 1 por duas razões: para esclarecer que ninguém me tinha informado das alterações na grelha (o programa da Dra. Ana Sousa Dias também foi afectado) e, mais importante, para dizer que alguma da terminologia utilizada no mail me magoara.
4) Fiquei a saber que o meu interlocutor estivera fora de Lisboa e tomara uma decisão de madrugada, na convicção de que eu seria informado de manhã.
5) Quanto ao "estilo utilizado para apreciar o meu estilo", a apresentação de desculpas foi imediata e, na minha opinião, sentida, pois sempre mantive com a pessoa em causa uma relação de extrema cordialidade.
6) De qualquer forma, pus à sua consideração a possibilidade de terminar O Amor é... já e não em Julho como previsto, para nos precavermos contra algum atrito posterior. Foi-me dito que pessoal e institucionalmente eu era desejado até ao fim da série, sem qualquer "pedra no sapato".
7) Porque penso ter-se apenas tratado, como aqui referi, de uma avaliação errada - e ultrapassada... - da sensibilidade de parte da audiência de O Amor é... também eu decidi que poderia prosseguir até Julho sem azedumes.
8) Já fui indirectamente censurado na RTP, quando o Sexualidades passou para um horário de filme pornográfico, apesar dos pedidos insistentes de escolas e outras organizações para que passasse a horas aceitáveis. Alguém me chegou a sugerir que mostrasse mais mulheres nuas e falasse menos da tradição judaico-cristã...
9) Também me aconteceu na rádio, quando eu, a Inês Pedrosa, o Mega Ferreira e outros fomos tirados do ar depois de nos termos referido de modo jocoso ao pouco tempo de que o Professor Cavaco Silva dispunha para ler jornais. Aliás, guardo desse episódio uma boa recordação. A pessoa que transmitiu as directivas da Direcção de Programas disse que eu poderia continuar em antena se me limitasse a fazer "aquelas deliciosas crónicas" sobre afectos:)). Perante um "não" escandalizado, disparou: "Ainda bem, ter-me-ia desiludido se aceitasse!". Tipo fixe:).
10) O João tem todo o direito de pedir esclarecimentos, mas para mim é assunto encerrado. Se, por hipótese, houvesse uma "recaída", vinha-me embora. Sem ressentimentos, mas também sem apelo, a inexistência de má intenção não justifica menor cuidado no tratamento dado às pessoas.
11) O António Macedo não piou sobre a matéria porque lhe pedi expressamente para o não fazer. Desejava ter espaço para dizer o que me apetecesse na introdução ao programa sem o envolver num eventual conflito provocado pelas minhas palavras.
12) That´s all, folks:).

domingo, abril 17, 2005

Balanço provisório do fds

1) Alarme avariado.
2) Fogão avariado.
3) Três lâmpadas fundidas.
4) Uma chave partida na fechadura da casa das máquinas.
5) Enorme carga de água a caminho de casa porque o meu filho mais velho proibiu que o carro atravessasse o prado nascente.
6) Mais um ataque de nervos com o resultado do Benfica.
7) Inundação na garagem.
E contudo...
1) Magníficas comezainas na Mindinha e no Sol da Cabreira.
2) Um passeio inacreditável lá no alto, com cavalos selvagens enroscados junto à estrada.
3) O sono em dia.
4) O privilégio de ouvir o Guilherme discutir arquitectura com o José Mateus. E perceber que a beleza e o talento, quando explicados por "gente como nós" e não parvalhões emproados, ficam ao alcance da compreensão de todos.
5) Um nevoeiro que ao longo do dia foi subindo, subindo, como se as árvores executassem um strip preguiçoso e reticente, até se desnudarem numa sinfonia de verdes e castanhos.
Pelo que:
Maralhal, preferia estar a escrever-vos lá de cima:).
Boa semana!

sexta-feira, abril 15, 2005

O caso do porteiro estarrecido:)

E o porteiro do Mercedes, ali na Ribeira, disse:
- Hoje paga-se, temos um grupo a tocar.
Ao que o vosso humilde criado respondeu,
- Eu sei, venho ouvi-los.
O honesto trabalhador mirou-me e remirou-me, com o interesse devido a um extraterrestre que depois de aterrar no Porto para admirar a Casa da Música tivesse perdido o norte. Porque é preciso dizer que os Fading Commission, a banda em que toca o meu filho João, têm uma batida assim a modos que própria de bisnetos dos Led Zeppelin de Page, Plant e Companhia. Logo, pouco recomendável para um cinquentão de barba encanecida:), acho que o homem ficou nas minhas costas a remoer dúvida metafísica: "O tipo aguenta os decibéis ou ainda tenho de chamar o 112?".
Nunca vou aos concertos sem pedir autorização aos meus rapazes, detestaria envergonhá-los. E falo nos dois porque o Guilherme também lá desagua, máquina de filmar em punho, é uma espécie de Oliver Stone do irmão. Mas eles são fixes e os amigos também, dizem que sou benvindo, eu procuro diluir-me na paisagem. E curto à brava a noite. Não só pela música, que ainda me faz jorrar a adrenalina, mas por os ver juntos, alegres, (quase?) felizes.
E os versos do velho Young (e de Blackburn) regressam a neurónios saudosos:
"Hey hey, my my
Rock and roll can never die
There´s more to the picture
Than meets the eye".
Eduquei-os nessa crença e não estou arrependido:).
Bom fim de semana, maralhal, vou para Cantelães sem a "besta" (ressaca garantida, mas...).

quinta-feira, abril 14, 2005

E depois dos triângulos?

"Então percebi que quem sobrevive a alguma coisa, não tem direito de formular uma acusação. Quem sobrevive a alguma coisa, ganhou o seu processo, não tem direito, nem razão para acusar alguém; era mais forte, mais astuto, mais agressivo". Sándor Márai, As velas ardem até ao fim.
Pois... Quantos de nós abdicam de choro, dedo, raiva ou indiferença acusadores? E sentimo-nos assim tão fortes por sobreviver ou apenas verificamos, surpreendidos e aliviados, que a "coisa" não nos destruiu?

quarta-feira, abril 13, 2005

Ainda a propósito de triângulos:)

Os Dias


E arrisco-me a entrar na jaula dos teus dias
que rugem de não ser o que eu lhes prometia

Mas é para fugir de um parque mais antigo
onde rugem os meus pelo mesmo motivo


David Mourão-Ferreira

Outros vértices de triângulos?

Esta semana gravámos para Estes Difíceis Amores com mails de gente que afirmava amar duas pessoas. Acreditem que foi complicado escolher, eram bastantes! Fiquei a pensar. Também no consultório ouço mais essa afirmação e menos a pergunta ao "especialista": "diga-me: no fundo, de qual gosto?". Ontem dei uma aula sobre Amor Romântico e a gravação veio-me à cabeça quando explicava que o registo clássico de "pessoa da minha vida" vinha sendo substituído pelo de "pessoas da minha vida", quando uma dada relação falhava (no meu calão diz-se monogamia seriada:)). A pressão cultural para considerar que o aparecimento de uma segunda atracção resulta do desvanecer da primeira é muito grande, traduzindo uma "patologização" destes triângulos. Cada vez estou mais convencido de que, pelo menos em alguns casos!, não é assim. Sobretudo, verifico que uma nova paixão não implica a certidão de óbito do amor reinante. Que acham vocês?

terça-feira, abril 12, 2005

Poema - algo deprimente:) - do dia

Oscar Wilde


Viver é a coisa menos fequente do mundo
A maior parte das pessoas existe e isso é tudo


Joaquim Pessoa

segunda-feira, abril 11, 2005

Angústia de separação:)

Troquei de carro e sinto-me adúltero, gosto tanto do "falecido"!:(. O episódio trouxe-me outro à memória. Quando era adolescente, a minha Mãe decretou que uma camisa já a envergonhava a ela e não a mim, de tão encardida. Fiz ouvidos de mercador. E um dia cheguei a casa e a camisa desaparecera, como um cão que se envia para o abate misericordioso. Ainda me lembro do espanto de minha Mãe perante os olhos rasos de lágrimas do rebento. Talvez amemos nas coisas - e nos animais... - a "permanência" que nenhum ser humano autónomo, mesmo que nos ame, pode ou deve prometer. E escrevo "mesmo que nos ame", porque o amor não chega para que alguém se mantenha ao lado de outra quando a relação deixou de ser satisfatória e impede o olhos nos olhos ao espelho. Apesar dos filmes de Hollywood e as telenovelas da Globo insinuarem o contrário:).

Desejo

Gente,
Espero que alguns ânimos mais exaltados tenham voltado ao belo registo da simples vivacidade:). Este fim de semana encontrei um homem bom que contemplava as águas onde lançara as cinzas da companheira de 45 anos. Dá que pensar sobre a importância que atribuímos a coisas de somenos, não acham?

domingo, abril 10, 2005

Preocupação

Neil Young teve um acidente vascular cerebral:(. Sempre tive um carinho especial pelo maroto. Podia ter-se acomodado ao êxito comercial - e merecido! - dos Crosby, Stills, Nash e Young, mas continuou um trajecto "alternativo" com os Crazy Horse. Escrevi sobre ele em Domingos, Sábados e Outros Dias e ainda hoje é um dos meus textos favoritos. Preciso que melhore, faz parte das referências da minha vida. E foi bom verificar a preocupação do meu filho mais novo, o rock é um traço de união entre os Machado Vaz. Recordo o pânico que senti quando os levei a Madrid ver Paul McCartney:). E o alívio, depois do concerto, quando me disseram que tinha sido "altamente". Por isso voltámos a vê-lo muitos anos depois em Lisboa, eu com a estranha sensação de me despedir de um amigo...

sábado, abril 09, 2005

Poema do dia

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.


António Ramos Rosa.

sexta-feira, abril 08, 2005

Declaração

Eu, abaixo assinado, Júlio Machado Vaz, adepto do Benfica, de Mozart, de Neil Young, da Serra da Cabreira, das francesinhas da Galiza, do robalo da Petisqueira do Godinho, do bife do Franganito, da margem direita do Douro, da Foz do Minho, etc, etc, por sugestão do Lobices declaro solenemente o seguinte:
nos comentários passarei a tratar por tu os meus visitantes blogosféricos.
Porto, 05/04/08.
Júlio Guilherme Ferreira Machado Vaz, por estas bandas mais conhecido pelo Murcon.

Esclarecimento "a pedido de várias famílias":)

A frase é bela e verdadeira, mas não a citei para privilegiar o "recordado" em detrimento do "vivido". Nem por sombras! A memória pode embelezar, esquartejar, fazer reflectir, permitir a "digestão", pacificar, whatever! Mas não aceito o "recordar é viver" sem nuances. A memória, ainda que pintando com cores brilhantes, perde sempre o fascínio do momento irrepetível. Pena é que vivamos cada vez mais de um modo mecânico, em que tudo é dado como adquirido. Por isso é impressionante ver o rearranjo de prioridades em pessoas que passaram por depressões e delas saem capazes de saborear os pequenos "nadas" do quotidiano.

O futuro como expansão da memória

É curioso, mas viver consiste em construir futuras recordações. Ernesto Sabato.

quinta-feira, abril 07, 2005

And now for something completely different:)

Os noivos reúnem-se com o padre.
O padre pergunta:
- O que pensam de sexo antes do casamento?
Responde o noivo:
- Desde que não atrase a cerimónia, por mim tudo bem...

Sou um tipo de sorte, num dia cinzentão aparece sempre um amigo da Net com uma piada:)

A espera. A solidão. O envelhecer.

"Nessa espera perdera a força dos músculos, a dureza dos seios, o hábito da ternura, mas conservara intacta a loucura do coração." García Márquez, Cem anos de solidão.


E é possível conservar intacta a loucura do coração sem ter uma recaída na ternura:)? Pelo menos!

terça-feira, abril 05, 2005

"Mais papistas do que o Papa?"

A Antena 1 decidiu não pôr no ar O Amor É... de Domingo passado. Sem me dar qualquer explicação ou - bem mais importante! - aos ouvintes. O resultado aí está: fui inundado por mails a protestar, alguns falando em eventual censura, outros a verberar o ridículo da atitude. Trata-se de um episódio triste e surpreendente, devo confessar. Até por traduzir uma ideia "medieval" sobre os católicos: alguém acredita que se sentiriam chocados por eu abordar "as mentiras no amor" no dia seguinte à morte do Papa? Ou será que o programa nem sequer foi ouvido e se lhe receou o estilo, habitualmente descontraído? O mesmo programa será emitido no próximo Domingo. E, ao contrário do habitual, tenciono ouvi-lo. Para tentar perceber o que disse de herético, que gargalhada traduzia falta de respeito, quantas pessoas - católicas ou não... - ofendi.
Perdoem a frase num agnóstico - Por amor de Deus!

domingo, abril 03, 2005

Os "outros"

O Público de hoje faz eco da polémica acerca do recente filme sobre Hitler, A Queda. Sem surpresa, li que muitos protestam por ele ser retratado de forma "excessivamente humana". Sempre esta tentativa inconsciente de projectar "o mal" para dentro de outros que não partilhariam connosco a (boa) essência do ser humano... Não partilho este optimismo acerca da dita "natureza humana", considero que luz e sombra se acotovelam cá dentro. Não reconhecer a maldade de que somos capazes, através da crença em "extraterrestres", humanos geneticamente diversos ou reconfortantes psicóticos passeando entre nós, afastará, sem remissão, a análise objectiva dos problemas.
E não falo apenas dos líderes. Alguns de vocês conhecem melhor do que eu as experiências efectuadas há décadas sobre "crueldade por obediência". Alunos universitários continuavam a aumentar a voltagem aplicada a actores que choravam, retorciam-se e pediam misericórdia. Em teoria, avaliava-se a resistência à dor e o professor ausentara-se da sala, deixando instruções claras para aumentar a voltagem e assumindo a responsabilidade. Alunos universitários; em tempos de paz; em Democracia. Os "outros" serão assim tão radicalmente diversos?

sábado, abril 02, 2005

Holofotes egoístas?

Também me desagrada este delírio "informativo" dos media, há nele muita exploração e falta de respeito:(.

Quanto às "dicas" dos mesmos media sobre a sucessão: "A Igreja não é apenas uma fé ou uma comunhão, é também um aparelho de poder bastante complexo". Manuel Vásquez Montalbán (Ou César ou Nada).

sexta-feira, abril 01, 2005

O velho senhor de branco

O velho senhor de branco recusou voltar ao hospital e morre em casa, olhos e inteligência bem abertos. Esqueço por momentos o Papa, cujas decisões aplaudi sem preconceitos e condenei sem caridade, seguindo os falíveis ditames da minha consciência. Fica o homem. E esse mostrou coragem exemplar face ao aguilhão do tempo e das doenças. Aceito que a fé em Deus e na sua querida Mãe do Céu o tenha ajudado, se não a ele, a quem? Mas acredito que a crença em causas estritamente humanas - como a justiça e a solidariedade, por exemplo - também podem tornar-nos capazes de vencer fraquezas, na busca de uma transcendência que dê sentido às vidas que esculpimos. Recuso-me a acreditar que apenas possamos "ir para além de nós" com a ajuda do divino. E penso que muitos crentes concordarão, por acreditarem que a liberdade com que foram presenteados tanto pode conduzi-los à ignomínia mais abjecta como à devoção mais admirável.

Nota - Também eu considero que a Assembleia da República poderia ter legislado sobre a despenalização do aborto (sem prejuízo do direito de cidadãos solicitarem depois uma consulta popular sobre a matéria...). Mas o referendo fez-se. Não me interessa se as sondagens favoráveis, as praias de areias convidativas e as promessas de educação sexual por parte de alguns (que a não desejam) afastaram votantes - o resultado foi um não. Escasso, mas legítimo. E por isso é imperiosa a realização de outro referendo, para confirmar ou infirmar esse resultado. Tudo o resto soaria a inaceitável "batota na secretaria". Farei de novo campanha, votarei de novo. E se perder a consciência não me apontará o dedo. Poderá dizer o mesmo quem se afirma contra os julgamentos, mas fica em casa por preguiça ou para não sujar as mãos no processo decisório?

quinta-feira, março 31, 2005

Vergonhas matinais

1) O julgamento de Setúbal. Esta via sacra vergonhosa continua...


2) O vídeo, referido por uma de vocês, sobre a selvajaria reservada aos animais que têm a desdita de serem usados ao pescoço pelo "beautiful people". Curioso, não é? Animais sujeitos a tratamento animalesco por parte da "elite" da evolução:(

quarta-feira, março 30, 2005

O risco

E depois de anos de sexo puro e duro consensual, ele deixou-a com a sensação desagradável de ter deixado quadro ou canção por assinar. Parou o carro, porque o código da estrada tinha mudado e as finanças andavam coxas. Ainda hesitou perante o "criar mensagem", mas decidiu-se - "continua a ser óptimo". (Parar antes de pisar o risco, por o risco ser demasiado grande...). O palavrão em inglês por causa da sua educação convencional - "fuck it!". Mergulho de cabeça - "gosto muito de ti".
A espera de credo na boca. O sms de resposta. A última defesa, "não leio e apareço na próxima semana como se nada tivesse acontecido". O dedo, em auto-gestão, abrindo a mensagem - "também eu".
Guardou-lhe as palavras, sabendo que duvidaria delas. Louis Armstrong no CD e aos berros, "it's a wonderful world". Nem a Brigada na curva seguinte lhe apagou o sorriso beatífico. O guarda esboçou um gesto para o fazer parar, mas recolheu-o.
Não sabia qual a multa para a felicidade...

Para a Maria João

Plutarco escreveu um dia que os médicos não podem abdicar da filosofia e os filósofos devem ocupar-se da saúde do corpo. Esta visão “inteira” do doente – hoje diz-se holística… - não foi a dos herdeiros da revolução científica. Embora a OMS defina saúde como um bem-estar físico, psíquico e social, a medicina privilegiou uma visão linear da doença, tipo causa-efeito: agente etiológico leva a efeito indesejável. Tratamento? Anulação do agente etiológico (modelo das doenças infecciosas). Trata-se do sublinhar da doença como entidade, em detrimento da pessoa doente, única na sua humanidade. Quanto à relação terapêutica, os estudos não deixam dúvidas – o “bom doente” é o que obedece e não faz perguntas. Por isso a discussão bioética é tão pertinente. Quais os objectivos da medicina? Que palavra – e com que peso… - tem o doente a dizer sobre a terapêutica e possíveis efeitos laterais? Quanto tempo levará a relação clássica médico-doente a deixar o registo paternalista para se transformar numa relação sujeito-sujeito, sem prejuízo do saber médico?
Uma referência final às populações que alguns de vocês referiram como discriminadas. É verdade. Basta pensar nos idosos e nos seropositivos. Gente que incorre numa morte social que antecede a biológica. Porque não são jovens e “eficazes” numa sociedade que privilegia a memória computorizada ou simbolizam a “decadência moral” que é apanágio…, dos outros. E contudo, nos inquéritos, todos nos afirmamos incapazes da xenofobia!

Lá dizia Plutarco:)

O homem escreveu que os médicos não podiam passar sem a Filosofia e os filósofos se deviam ocupar também da saúde dos corpos:). Hoje, a Medicina tem dificuldade em escapar a uma visão da saúde como um corpo que funciona, apesar da famigerada definição da OMS, que preconiza o bem-estar físico, psíquico e social, etc... Há estudos interessantes sobre as expectativas dos alunos de Medicina antes de iniciarem o curso e ao terminá-lo. No primeiro caso, explícita ou implicitamente, declaram-se motivados para curar e cuidar; no segundo já se vêem "apenas" destinados a curar, deixando o cuidar para outras profissões, como a Enfermagem, a Psicologia e o Serviço Social. O doente já se tornou um mero portador de doença... O mesmo processo de aculturação torna-os, muitas vezes, resistentes a estratégias de prevenção e promoção de saúde e ao trabalho interdisciplinar quando não dirigido pelos médicos envolvidos. Não é por acaso que a principal queixa dos doentes não se centra na competência, mas na qualidade do encontro terapêutico. A Medicina abandona a custo uma relação de ajuda paternalista, em que o "bom doente" é o que obedece e não faz perguntas. Assim, a discussão à volta da Bioética é preciosa, por colocar a questão fulcral: ao serviço de quê e quem está a Medicina, sem abdicar - obviamente! - de saberes e práticas próprios? Que palavra - e com que peso... - tem o doente a dizer sobre os objectivos e danos colaterais do seu tratamento?
Uma só palavra sobre grupos que alguns de vocês mencionaram, os desfavorecidos. Como os idosos e os seropositivos: dizemos em Sociologia Médica que nesses casos a morte social antecede a biológica (acho que já falei disto:(). Além de alguma Medicina, parte da sociedade varre-os para baixo do tapete e evita a profunda angústia que provocam se forem encarados como cidadãos de pleno direito. Com desculpas variadas: não são produtivos e belos ou simbolizam a "decadência e anarquia dos costumes".
E contudo, todos juramos a pés juntos sermos incapazes da xenofobia...

domingo, março 27, 2005

A "vida humana"

Penso que o Vasco Pulido Valente punha bem a questão no Público de ontem. A Medicina tem sido muito mais eficaz a prolongar a quantidade de vida do que a assegurar a sua qualidade. Posso compreender a angústia dos pais de Schiavo, em cada pormenor verão um sinal de esperança para o futuro. No limite, preferirão tê-la assim do que enfrentar-lhe a ausência física (já abordei o "egoísmo" do amor em million dollar baby). Prefiro, portanto, abordar o tema em abstracto. Antigamente a morte constituía parte integrante e fundamental da narrativa de vida. Como salienta Ariès, era muitas vezes pública e "representada" de acordo com a vontade do moribundo, em geral morrendo em casa e de porta aberta às despedidas. A morte moderna é medicalizada e assume, por vezes, o estatuto de uma derrota para os profissionais. Que se encarniçam contra ela apoiados num arsenal tecnológico que todos abençoamos, mas pode fazer esquecer a pessoa em que a batalha se desenrola. Por isso o alívio da dor nos estados terminais, a que amorosa e fielmente tantos colegas meus se dedicam, exigindo - e bem! - mais recursos para o apoio domiciliário, não chega para alguns. A vida, para quem a não considera "emprestada" por Deus, é uma pequena obra de arte individual e relacional, com pressupostos éticos e estéticos. E para que o todo nos satisfaça minimamente é preciso que uma das suas partes - a morte - não ameace a coerência do conjunto (pode até resgatá-lo...) A sua "forma" não é, assim, pormenor de somenos. Eu já tomei providências. Não quero simplesmente estar vivo, mas ter uma vida. Aceito, com gratidão!, todas as máquinas e artifícios terapêuticos que me ajudem a gozá-la, esculpi-la, vivê-la. Mas não quero ser um mero apêndice de visores, tubos e agulhas. O progresso da tecnologia não deve beliscar o respeito pela dignidade de cada um, defendida e decidida pelo próprio e não sujeita à ditadura de outros. Seguramente bem intencionados, mas impondo uma visão das nossas pequenas vidas decorrente da sua ideologia sobre "A Vida". A minha vida pertence-me. Tentarei vivê-la de cabeça levantada e costas direitas até ao último instante, mesmo que para tal deva antecipá-lo. Já o disse e escrevi muitas vezes: tenho horror à hipótese de sobreviver a mim próprio. Afinal, à minha vida humana...

quinta-feira, março 24, 2005

Boa Páscoa

Apesar de levar a "besta" para Cantelães, quero desde já desejar a todos uma Boa Páscoa. E agradecer o carinho com que me receberam na blogosfera, tenho uma curiosa sensação de "privacidade pública", como se vocês me proporcionassem uma tertúlia à moda antiga:). Um abraço,
Júlio.
(Sinto-me cada vez menos "professor". O que me parece denotar de alguma sabedoria. Já não era sem tempo!).

quarta-feira, março 23, 2005

O desperdício

É perturbador encontrar um amigo íntimo que nos desleixou a amizade. Porque a velha química de novo se põe em marcha e a conversa flui. Como se não passasse do capítulo seguinte num livro feito de muitas noites, bastantes copos, alguns amores e dois homens a céu aberto. Mas não é verdade:(. O coração abre-se; como ele o caixote das recordações e a caixa dos afectos. Mas a caixinha da confiança cega, no interior de tudo o resto, permanece intransigente. A chave apodreceu, de tanto esperar...
É muito bom o reencontro! Mas se voltarmos a viajar juntos cada um dormirá no seu quarto. E encontrar-nos-emos de manhã, na sala do pequeno-almoço, como os excursionistas japoneses, delicados e munidos das suas máquinas fotográficas. Porque a amizade, quando mostra as garras, furiosa por ter sido desperdiçada, pode revelar-se bem mais severa do que o amor.

domingo, março 20, 2005

Dia do Pai

Passei o Dia do Pai em Cantelães. E olhando a Cabreira, coroada por moinhos anorécticos que talvez fizessem Cervantes arranjar outros adversários para D.Quixote, recordei o meu velho com um sorriso - como ele detestava abandonar a "civilização"! Se ali estivesse, não tardaria a sugerir, inquieto, o regresso ao Porto; abraçando os amados jornais com o desespero de náufrago exausto. Minha Mãe, atenta, mexeria eficazes cordelinhos para lhe fazer a vontade, qualquer sinal de angústia por parte do seu amor a afligia. A morte resolve este tipo de problemas. Ontem, o velho não teve outro remédio se não admirar a Cabreira comigo. (Na realidade, dentro de mim...). E ouvir o filho lamentar que o carinho entre os homens seja tão complicado e tímido que, amiúde, só conheça a luz do dia quando a de uma vida se apagou:(.

sexta-feira, março 18, 2005

O silêncio

Pedir emprestado o tubo de ensaio em que o Gedeão analisou uma lágrima de preta (os poetas são melhores nestas coisas). Introduzir nele o silêncio e acrescentar aos procedimentos mencionados o microscópio electrónico e a tomografia axial computorizada.
Evitar grosseiro erro metodológico - existem muitos silêncios. Manter a calma. Multiplicar as observações, para enriquecer a amostra e legitimar o estudo. Incluir - sobretudo! - silêncios dolorosos: de mulheres usadas, homens lacrimejantes, crianças guerreiras e... ( vai ser um processo lento:( ). Atingir, por análises sucessivas e cada vez mais finas, a essência do silêncio. Depois, à boa maneira da ciência ocidental, (re)fazer uma síntese - eis-me dono do silêncio absoluto.
Ir-te buscar ao emprego. Conversar acerca de ninharias, acariciando no bolso esta arma secreta. De chofre a confissão - "amo-te". E o silêncio!, liberto e contudo obediente, moldura para a tua figurinha severa. De tão espesso, capaz de amordaçar todos os sons, até os mais tímidos. Nele ouvir, recortado, o teu pensamento, milésimos de segundo antes da sentença ditada por olhos e boca.
E assim matar à nascença o "eu não" que me aterroriza, com frase risonha que não adivinharás amarga e triste, "que parvoíce, deve ser a Primavera!". Bons amigos de novo. O inferno do ciúme de novo. O desejo clandestino de novo. A ternura ambiciosa de novo. Paciência!, tudo menos perder-te.
Mas... Por uma questão de rigor científico tenho de pôr a hipótese de ouvir "eu também". Que fazer, meu Deus?
(Presumo que Ele não se ofenda com a pergunta, adivinho-o mais próximo da vida real que os burocratas cá de baixo, apostrofando o amor em Seu nome.)
Não responde... Era previsível, por Graça ou ausência Sua, foi-nos concedida a liberdade.
Que fazer?, ponto final e humano.
Talvez pedir ao silêncio absoluto que regresse. E me invada, paralise e guarde, a meias com o teu sorriso.

quarta-feira, março 16, 2005

E no entanto...

... Se os bordarmos às almofadas com "ferocidade amorosa" - ou desespero solitário? - arriscamo-nos a tornar muito mais árdua a sua caminhada para a indispensável autonomia. Porque são nossos e contudo não nos pertencem.

terça-feira, março 15, 2005

As mães.

Canção tonta

Mamã.
Eu quero ser de prata.

Filho,
terás muito frio.

Mamã.
Eu quero ser de água.

Filho,
terás muito frio.

Mamã.
Borda-me em tua almofada.

Está bem!
Agora mesmo! García Lorca.


A propósito dos adultos teóricos: Só as mães:)?

segunda-feira, março 14, 2005

A ternura

Há na ternura uma constância impossível na paixão e finita no amor romântico, que nela desagua muitas vezes. É um carinho rumorejante, oficialmente pouco ambicioso, mas capaz de resistir às mirabolantes tropelias do coração. Porque nem o ressentimento mais azedo pode garantir a sua morte, ela sobrevive, com doce arrogância, em meia-dúzia de neurónios fiéis depositários de recordações politicamente incorrectas. Também nasce de amizades surpresas e indiferenças "definitivas". Tudo isto sem alarde. Mas deixando marcas; pistas; tiros de partida; promessas de chegada:)...

domingo, março 13, 2005

Adultos teóricos

A minha cria mais velha na estrada, regressando dos Pirinéus. Estrada perigosa, morte e portugueses aí rimam com frequência. E este nervoso miudinho desde manhã cedo... Miudinho o revejo a ele, agora com trinta anos e pai dos meus netos. É difícil tratá-los como adultos, "por acaso" também nossos filhos. Resultado: um equilíbrio precário no discurso, com medo de os ofender e abafar ou, inversamente e na aparência, os desleixar.

Frase do dia - "Repara! Repara bem! Tu não amas os homens, Hugo. Tu amas apenas os princípios." Sartre, As Mãos Sujas.

Bem mais fácil e asséptico, digo eu. Cristo sabia a enormidade do Seu pedido, quando nos exortava a amar o próximo como a nós mesmos...

sábado, março 12, 2005

Aviso à navegação

Eu sou benfiquista!:)

Agradecimento

Obrigado a todos pela "palmada nas costas". Mas um agradecimento especial - e aliviadíssimo! - ao Peter. Descobrir que se influenciou a escolha profissional de alguém é uma responsabilidade enorme, ainda bem que ele não está arrependido.

Frase do dia - À sombra da sua ausência brincam filhos da memória.

sexta-feira, março 11, 2005

Irmão de filho único

Amanhã faria anos o Pierre. Que durante muito tempo confirmou a minha teoria sobre as relações humanas - a unidade fundamental é a "tribo afectiva", não a "família de sangue"! Éramos hilariantemente opostos. Comigo desempenhando o papel do distraído sem qualquer sentido prático e ele o de irmão mais velho, exasperado pela azelhice suicidária do caçula. E no entanto, quantas vezes me telefonou, "preciso da tua opinião". E discutíamos o problema até ao osso, sem contemplações, no jardim maravilhoso que era o seu. Menti-lhe durante ano e meio acerca da sua doença. Não me orgulho disso. Mas também não me arrependo, acho que depois das primeiras pesquisas na Net, decidira agarrar-se à esperança até ao fim. Penso nele todos os dias. Como penso no Zé Gabriel, que comigo fez O Sexo dos Anjos. Porque os amigos íntimos são demasiado preciosos para que nos possamos dar ao luxo de permitir à morte roubá-los. Não; só o esquecimento o poderia fazer. E nessa armadilha não caio eu:)

quarta-feira, março 09, 2005

O escravo:)

Então não é que recebi protestos de uma leitora por não escrever "há muito tempo"? Ah, patifes da blogosfera, que não respeitam as cãs - e a decrepitude física e mental (snif, snif) - de um pobre cinquentão!


Frase do dia - "Numa daquelas tardes, em vez de conversar comigo, chorou sem lágrimas. Hoje ter-me-ia alarmado, porque considero o choro reprimido como um recurso infalível das grandes mulheres para forçar os seus propósitos." García Márquez.

Só o reprimido? Só as grandes mulheres? E - ó heresia! - só as mulheres?:).

terça-feira, março 08, 2005

Pânico:)

Os netos transformando a minha cama ora em baliza de futebol, ora em cama elástica. Eu e o João fascinados por tanta energia, deliciosamente emoldurada por risos que ninguém julgaria efémeros. E de repente o Tiago em voo demasiado ambicioso, que o levou de cabeça ao chão e não à trave. O pânico de avô e tio. O choro com três raízes: dor, susto e orgulho ferido. As mentiras do costume, "isso já passa", "não foi nada", "dou-te um beijo e ficas bom". O drama sem fim à vista, a olhos vistos cresceu o galo. Pensamentos catastróficos, e se... Olhos fixos, o choro já hesitante, o indicador tirânico: "quéquilo?". O meu neto mais novo acabara de descobrir outra pepita na mina ainda pouco explorada que é a casa do avô. E desceu do colo, transformado em irritante empecilho para as suas viagens. O galo acompanhou-o, obediente.
Uf!

segunda-feira, março 07, 2005

Cassandra Wilson

"You don't know what love is". Mas quem assim canta sabe de certeza!

Frase do dia - "- A tua teologia diz isso?
- Não sei se o diz ou não, mas sei o que devo pensar. Tire o senhor o diabo do mundo e verá que nada melhora". Ballester, Don Juan.

E tuso se torna mais chato, acrescentaria eu...

domingo, março 06, 2005

Domingos...

Este velha embirração, que me faz passar grande parte do Domingo a trabalhar:( Não é a contagem decrescente para Segunda, e sim algo de mais profundo. Talvez a nostalgia de mesas enormes e apinhadas, algazarra tarde fora, é sonho comum entre filhos únicos e as minhas "crias" andam por longe.
Leio Badinter, que se revolta contra determinado feminismo americano, incapaz de conceber a mulher noutro estatuto que não o de vítima nas suas relações com os homens. Sorrio, já li algo de semelhante em Camille Paglia - nos casos de assédio fora de uma relação hierárquica de poder, Badinter aconselha um "bom par de estaladas", como sugerido pela antiga ministra francesa dos Direitos das Mulheres, Véronique Neiertz.

Frase do dia - "O mínimo dos seus gestos, tacto e calor permaneciam ainda impressos na sua pele. Outros amores não tinham conseguido apagar a sua marca". Pérez-Reverte.

sexta-feira, março 04, 2005

Frase do dia

Ele tinha aprendido a pior lição que a vida pode ensinar - que é absurda. E quando isso acontece, a felicidade nunca mais volta a ser espontânea.
Philip Roth.

quinta-feira, março 03, 2005

Compromissos

Estou afundado nos profissionais:(. Por isso uma pequena "vingança":).

Compromissos

Voltar a ver-te, amor, desocupado.
Um dia, por fim livre. Um dia livre.
Quero dizer, uma noite inteira. Ouvir-te
do quarto, já quase em sonhos,
parar o carro na minha casa, subir no elevador,
subir, subir, subir, muito lentamente,
como se nunca fosses chegar,
e desligar o tempo, que não soe amanhã,
ou, em todo o caso, dizer-lhe que não está ninguém, que estamos
com febre ou na cama
convalescentes.

Inmaculada Mengíbar.

E no entanto, às vezes, quando o outro fica livre e se muda com armas e bagagens para casa de quem o esperava - ou vice-versa... - as nuvens surgem no horizonte. Porque a rotina mudou de poiso? Porque a clandestinidade a conta-gotas alimentava a relação? Porque os raros momentos vividos até aí favoreciam a idealização do outro? Por tudo ao mesmo tempo? Prefiro pensar nos casos em que a relação funciona em novos moldes e alguém diz ao espelho - "valeu a pena arriscar a espera".

quarta-feira, março 02, 2005

A minha próstata é famosa!

Domingo a minha próstata saiu na Pública! Saliente-se, por elementar justiça, a importância do artigo, não se justifica o desleixo dos homens numa altura em que a intervenção atempada diminui drasticamente as consequências de patologia tão letal como o carcinoma prostático. Mas - há sempre um mas... - nem tudo correu sobre rodas na sua elaboração. A jornalista enviou-me um mail, solicitando uma entrevista "por ter lido algures um artigo meu autobiográfico sobre a matéria". Sem tempo para a conversa solicitada, confirmei-lhe a vaga recordação e citei o nome da revista, tratava-se da Mealibra. Ah, a pressa dos tempos modernos! - o texto era para ontem, não poderia eu...? Não podia. Despedimo-nos cordialmente. Afinal teve tempo para ler. Mas também para fazer algo que é lamentável, ou seja, retalhar o texto. A lógica subjacente não surpreende - duas frases pareceram mais elucidativas, por que não juntá-las, apesar de estarem separadas por boa meia-dúzia de páginas? Dito e feito. Por maldade? Não acredito, inclino-me para simples ligeireza, do tipo "hhmm, que bem resultava esta frase no arranque do artigo!". Sem um telefonema ou um mail a solicitar autorização do autor (que obviamente a recusaria). Vivemos numa sociedade em que se reage aos estímulos e às necessidades "sur le champ", sem uma pausa para a reflexão que conduz ao agir amadurecido, que evite o atropelamento dos outros na nossa pressa de chegarmos... ao próximo ponto de partida!
Que vá em paz e o Senhor a acompanhe:)

terça-feira, março 01, 2005

Agradecimento

Ó gente, obrigado por tanta cordialidade na blogosfera (é assim que se diz?:)). Hoje estou tão cansado que vos agradeço com palavras dos outros, troca que só reverte em vosso favor!:).

Conta-mo outra vez

Conta-mo outra vez, é tão formoso
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-mo de novo, os dois da história
foram felizes até vir a morte,
ela não foi infiel, ele nem
se lembrou de enganá-la. E não esqueças,
apesar do tempo e dos problemas,
todas as noites sempre se beijavam.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço. Amalia Bautista. Boa noite e obrigado, gente.