quarta-feira, agosto 03, 2005

A andorinha não me deixa ir para a praia que adoro!:)

1 - Creio que a "peregrinação" pelos amores imperfeitos pode facilitar a descoberta do Graal:), mas não por da quantidade surgir a qualidade numa qualquer forma de paciente alquimia. Penso, isso sim, como alguns de vocês sugeriram, que a visão e a expectativa sobre o "amor perfeito" vão mudando e aproximando-se da realidade, logo, da possibilidade de o construir (não acredito em amores prontos-a-vestir...).

2 - Sim, há pessoas que nos podem "assombrar" toda uma vida. Mas atenção!, em muitos casos não se trata - acho... - de amor, mas de idealização do passado, narcisismo ferido, álibi para "cortar o pescoço" a novos amores. Ou alguém pode ficar na nossa cabeça e não impedir que outro alguém nos dê a mão. Basta ver o que seria a vida do Kevin Costner no filme, se não tivesse morrido heroicamente a salvar vidas!:)))). Aquilo sim, é um homem: corajoso, sensível, bonito, calado, bom filho, simpático para o filho dela, extraordinário artífice, marinheiro competente, visita de chocolates em punho, ingénuo na desumana cidade... Espera aí: não será mais simples dizer que é um homem típico? Eh, eh, eh, algumas de vocês vão acrescentar morto aos adjectivos...

terça-feira, agosto 02, 2005

O último moicano:).

Ontem à noite deixei de ser o último português que não vira ou lera "As palavras que nunca te direi"! Fiquei mais sossegado quanto à minha cultura geral, mas não quanto ao meu gosto - por junto e atacado gostei do desempenho de Paul Newman. Pior ainda no que diz respeito a sensibilidade:(, não aderi à enxurrada lacrimejante que me fora descrita. Mas uma coisa é certa, o filme confirma a velha ideia ocidental: os grandes amores são os impossíveis:). E eu voltei a sentir um arrepio, ao imaginar Romeu e Julieta com uma ranchada de filhos e a trocarem caneladas venenosas a peopósito das respectivas famílias. Serão distância ou morte condições indispensáveis aos amores perfeitos?

segunda-feira, agosto 01, 2005

Duas palavras.

A primeira sobre um dos temas que vos ocupou no post anterior. Considero que a Assembleia da República tinha legitimidade para despenalizar o aborto. Na minha opinião, o PS decidiu seguir bovinamente as preferências de António Guterres. Como bovinamente deixou sozinhos na estrada -leia-se campanha... - todos os que deram a cara pela posição oficial do partido. Extraordinário, não é? Senti maior apoio na JSD do que no PS, aterrorizado pela hipótese de desagradar ao seu ungido trunfo eleitoral. O referendo foi o que se viu: da praia às sondagens, passando pela pureza de convicções - que não permitiu a incoerência de ir votar... -, ouvi de tudo nas semanas seguintes de bocas amarguradas. Mas o referendo foi feito e perdido, ganho por quem antes dos resultados os dizia não vinculativos e agora se agarra a eles como às tábuas de Moisés. Ignorá-lo seria, penso, desprezar a democracia. E por isso defendo que um outro se impõe, a menos que seja inviabilizado pela oposição ou pelo pelo próximo PR.


A segunda para a Circe. Que morreu, uma de vocês teve a amabilidade de me "mailar" tal informação. Não foi uma surpresa, atendendo ao tipo de lesões. A Circe acompanhou O Sexo dos Anjos durante oito anos. E depois A Bela e os Monstros. E os programas de televisão. Fez sugestões, críticas, humor. Durante anos enviou para esses programas postais de férias dos mais diversos destinos. Nunca impôs a sua presença física a ninguém. Não sou partidário da habitual "santificação póstuma", tão apreciada pelos portugueses - ocasiões houve em que foi agreste, quase outras tantas em que se penitenciou por isso. Era uma de nós, aqui no blog. E por isso a vossa preocupação ao longo destes dias me convence que, para além das diferenças, debatidas de formas mais ou menos estridentes, construímos uma base mínima de solidariedade que é consensual e definitiva.

domingo, julho 31, 2005

A room with a view.

Lembram-se do filme? E da canção? Pois eu estou na mesma. Só que não vejo cidade nem mulher, mas a piscina infantil:). Senhor, os psis, por que os castigais? Anos e anos a vir para o Algarve por causa dos filhos e agora juntam-se-lhes os netos! Detesto o calor, a areia, a multidão; suspiro pela paz de Cantelães. Malévolo, deixo-os partir rumo à praia com a firme intenção de me manter no sossego do relvado com o meu livrinho. Depois os putos viram para mim aquelas faces lisas e coradas, virgens de plásticas e álcool, e entoam um "vens lá ter, pois vens?" que é uma ordem travestida de pergunta. E eu lá me informei na recepção sobre o serviço de carrinhas. Parto às três para o odiado areal, resta-me a consolação de ter o mar ali tão perto (isto é roubado ao Sérgio Godinho:)).
Tendresse oblige!

sábado, julho 30, 2005

Antes que seja tarde:).

"Sempre mais um ano possível, um dia possível, uma hora. E logo, em atropelo, o futuro, que é uma variante modesta da eternidade. Conquistar um império, escrever um livro, apertar um parafuso da porta. Amar ainda uma mulher - vou escrever uma carta de amor".

Vergílio Ferreira, Para Sempre.

sexta-feira, julho 29, 2005

A noção de instrumentalismo heterossexual.

"O intrumentalismo heterossexual refere-se aos comportamentos que reflectem e mantêm a expectativa de que toda a heterossexualidade deve ser praticada com requisitos explícitos de dominância e subordinação.
... conseguidas pela força, coacção ou consentimento (implícito ou outro).
... O objectivo último de tais comportamentos é a manutenção das desigualdades de género pré-existentes".

Schacht e Atchinson.

quinta-feira, julho 28, 2005

Adiante.

"Fomos ambas, às vezes, acusadas de "trair as mulheres" apenas por sermos heterossexuais - por "dormirmos com o inimigo". Como feministas lutando nas suas relações, sentimos o facto como um ataque injusto. E contudo a nossa resposta não mostra a raiva que tal injustiça desperta em nós, mas sim uma espécie de postura defensiva apologética. Porque a nossa heterossexualidade não é sentida como uma identidade política (quem desejaria mobilizar-se à volta do facto de ser heterossexual?!), e porque de muitas formas o lesbianismo parece ser a identidade política mais adequada para as feministas, sentimo-nos culpadas. Até nos sentimos ambivalentes ao escrever este artigo - não queríamos ser vistas como atacando as nossas irmãs lésbicas, que já o são suficientemente. E contudo não responder é tornarmo-nos cúmplices do nosso silenciamento. Não é? Tem de existir uma forma de exprimirmos a nossa raiva sem que ela seja interpretada como um ataque às nossas irmãs. Nós ainda a procuramos".

Rosalind Gill e Rebecca Walker.

As crises.

Sejamos claros: a tertúlia desta noite azedou, e muito! Há vinte anos teria ficado de boca aberta e - perdoem o termo velhinho:) - desgostoso. Lembro-me de um colega me dizer que, por ser eu filho único, alimentava a nostalgia de que todos se dessem bem à minha volta, "como irmãos". Era verdade. Hoje sei que os "irmãos" também se zangam, se sacaneiam, se afastam. Por vezes sem remédio. Outras, o "simples" facto de digerir os conflitos, sem campeonatos obsessivos para averiguar quem deve desculpas a quem ou que protagonista "levou a taça", pode reforçar relações. Já perdemos companheiros de tertúlia e perderemos mais. Entretanto chegaram e chegarão outros. Gosto de imaginar que, se por qualquer razão eu não pudesse servir de catalizador, muitos continuariam o Murcon sem mim, ele tem sido uma experiência muito gratificante.
Devo apenas reafirmar um ponto que me toca e fere. Sempre que a temperatura aquece, alguns de vocês "mailam-me" em privado: uns queixam-se, outros acusam, alguns pedem opinião fora do blog. No big deal:). Mas de vez em quando surge a fantasia de que eu poderia participar no Murcon a coberto de outro nick ou anónimo. Já o disse e repito: nunca o fiz, não faço e não farei. Nada meu aparecerá no blog sem Machado Vaz por baixo. Porque não é o meu estilo e por razões éticas, se o fizesse vocês teriam o direito de achar que eu transformara o Murcon num parque de diversões e experimentação particular. E para tal procedimento, só me ocorre um nome: sacanice.
Já fiz algumas? Seguramente. Preferia não as ter feito? Na maioria dos casos, mas
situações houve de que não me arrependo, do outro lado a metralha também chovia:). Sou monotonamente humano, voilà.
Mas aqui nunca sacaneei ninguém, muito menos a coberto do anonimato. Se algum de vocês o justificar, porei os pontos nos is e arcarei com as consequências. Mas por baixo - nos comentários é por cima:) - da rosnadela, do lamento ou do raspanete ler-se-á Júlio Machado Vaz. That´s all folks:).

quarta-feira, julho 27, 2005

Pronto, pronto!

Habituei-vos mal, é o que é:). Querem Camille Paglia? Aí está:

"O facto predominante da história sexual moderna não é o patriarcado, mas o colapso e desmembramento da velha família alargada, que deu lugar à família nuclear, unidade isolada que, na sua forma presente, é claustrófoba e psicologicamente instável. A família nuclear só pode funcionar numa situação pioneira, quando o fisicamente árduo trabalho agrícola mantém todos ocupados e exaustos da aurora ao anoitecer. A família nuclear de classe média, em que os pais são profissionais de colarinho branco que fazem um trabalho cerebral, fervilha de frustrações e tensões. Há sempre nas palavras uma carga de tensão, e a autoridade real está noutro lado, com os patrões no trabalho. Isoladas em subúrbios ou barricadas em apartamentos urbanos, as famílias de classe média ascendente têm compromissos freneticamente excessivos e são geograficamente transitórias, desenvolvendo raros laços com a vizinhança e contactos pouco sustentados com familiares".

Camille Paglia. (Não há Lei na Arena, Vampes e Vadias, Antropos).

terça-feira, julho 26, 2005

Tangas.

Se bem percebi, Tangas considera que sou um machista mestre no disfarce, mas com alguma lucidez nas análises. Vale a pena fazer um comentário à primeira opinião. O maior dos machistas parece-me exagerado, afinal ainda não há um ranking oficial, tanto quanto sei:). Mas que sou machista, é verdade. Lembro-me de frase famosa em show televisivo brasileiro: cadê os outros? Porque considero raros os homens da minha geração que se podem afirmar livres desse "revestimento para interiores". Significa isto que nada há a fazer e nos podemos entregar, aliviada e alegremente, a um determinismo cultural? Não. Mas trata-se de combater verdadeiros reflexos condicionados ao nível dos comportamentos e visões "essencialistas" ao nível teórico.
Exemplo mais prosaico que me ocorre: se jantar com uma amiga, e não estiver atento ao que (não) faço, sou capaz de me quedar hipnotizado pelo telejornal enquanto ela levanta a mesa e arruma a cozinha. Perguntar-me-ão quantas amigas minhas aturam isso. E eu respondo que não me ocorre o nome de nenhuma:), o problema é outro. O problema é ter de pensar - ou ouvir... - "Júlio, ajuda!" para me comportar de uma forma decente a um nível tão básico, em vez de o fazer espontaneamente. Por isso, Tangas, tem razão, cá dentro sou machista. E muitos da minha idade que exibem a sua postura igualitária não passam de tangas ambulantes:).
E daqui decorrem perguntas que me interessam: quão diferentes são as gerações mais novas? Que conclusões tirar de estudos em que rapazes e raparigas aceitam como "normal" um ou dois tabefes na relação? Sobreviverão o machismo e o duplo-padrão melhor do que pensávamos há vinte anos?

segunda-feira, julho 25, 2005

A propósito de heterossexualidade.

"Heterossexual"(como "branco", "macho" ou "robusto") é sempre um termo silencioso.
...
Os termos "heterossexual" e "lésbica" não são simétricos; as consequências de os aceitar são diferentes, como o são as consequências de desistir deles. Rótulos seguros e incontestados e pertença a grupos dominantes podem ser dispensados como não tendo importância; a pertença a um grupo oprimido tem de ser reivindicada, e tenazmente, apesar das contradições.
...
"Heterossexual" e "lésbica" não são extremidades opostas do mesmo contínuo. Porque "lésbica" é uma identidade intrinsecamente politizada, e a heterossexualidade não é, os dois termos não são proporcionais, não pertencem ao mesmo espaço conceptual.

Kitzinger e Wilkinson.

domingo, julho 24, 2005

O álibi.

Então alguns de vocês congratulam-se por eu citar Ferré e cá o meco não aproveitava?:). Ná, vamos a isso:


L'oppression

Ces mains bonnes à tout même à tenir des armes
Dans ces rues que les hommes ont tracées pour ton bien
Ces rivages perdus vers lesquels tu t'acharnes
Où tu veux aborder
Et pour t'en empêcher
Les mains de l'oppression

Regarde-la gémir sur la gueule des gens
Avec les yeux fardés d'horaires et de rêves
Regarde-la se taire aux gorges du printemps
Avec les mains trahies par la faim qui se lève

Ces yeux qui te regardent et la nuit et le jour
Et que l'on dit braqués sur les chiffres et la haine
Ces choses "défendues" vers lesquelles tu te traînes
Et qui seront à toi
Lorsque tu fermeras
Les yeux de l'oppression

...

sábado, julho 23, 2005

Palavra a Ferré!:).

La Révolution ça dérange
La Révolution ça s'arrange
La Révolution ça s'explique
Et quand ça s'explique ça s'complique
Et ça s'met dans une commission
Et ça s'met dans une commission
De l'armée d'préférence
Et dis, Sanguinetti, eh! qui c'est celui-là, dis?
C'est un Corse?
Et non c'est un gaulliste!

Vocês é que falaram de revoluções:).

A semi-revolution


I advocate a semi-revolution.
The trouble with a total revolution
(Ask any reputable Rosicrucian)
Is that it brings the same class up on top.
Executives of skillful execution
Will therefore plan to go halfway and stop.
Yes, revolutions are the only salves,
But they're one thing that should be done by halves.

Robert Frost.

sexta-feira, julho 22, 2005

O megalómano.

A bruma de vazio que não levanta,
a fonte de mentiras sem maré vaza,
o pássaro do amor que já não canta,
os sonhos adolescentes em campa rasa.

Recuso a venda, rebento os laços,
persigo esses barões empanzinados,
em cuja lama não tropeçam os meus passos.
A mim!, vós que não estais acomodados:

Ainda é possível libertar as costas da parede
e fazer a vossa fome devorar a sua sede.

quinta-feira, julho 21, 2005

Rendido ao fracasso:).

O post do Noise provocou o sobressalto das "little grey cells" e a azáfama dos dedos nas estantes, mas o resultado foi um enorme fracasso - não encontrei a referência:(. Lembro-me de ler um trabalho sobre a taxa de suicídio e os problemas de adaptação de adolescentes, filhos de diplomatas japoneses nos países ocidentais, que regressavam ao Japão e ao seu sistema de ensino. Educados numa sociedade ferozmente individualista, viam-se em palpos de aranha para se adaptarem à abordagem nipónica, que privilegiava o trabalho colectivo e "punia" as tentativas de sobressair. No paleio da minha profissão, diz-se que passaram de uma cultura que promove o ego individual para outra que incensa o ego grupal. E assim acrescentamos - a reboque da pista luxemburguesa deixada pelo Noise:) - outra variável à conversa: a abordagem transcultural.

quarta-feira, julho 20, 2005

O que é o sucesso?

Fora da lei pergunta o que é, afinal, o sucesso? No seu caso a resposta é simples - manter-se longe do alcance da polícia:). Mas em termos gerais? Um amigo disse-me um dia que os velhos Gregos "decretavam" um homem feliz pelo balanço que faziam dos serviços por ele prestados à Cidade. Presumo que todos, incluindo o próprio, estariam de acordo em considerar a sua vida um sucesso. Apesar de eventuais vicissitudes estritamente particulares!, pois a hierarquia de valores punha no "top" o bem da polis.
O mundo em que vivemos privilegia o dinheiro, os bens materiais, o poder. Ser bem sucedido implica, não raras vezes, ultrapassar e pisar outros. O que torna a solidariedade palavra politicamente correcta e prática anacrónica numa Sociedade que se descreve aos seus filhos com expressões como "o mundo é dos espertos" e "o segundo é o primeiro dos últimos". É difícil fugir a tal espartilho cultural, mas na minha profissão assisto ao drama de pessoas extraordinariamente bem sucedidas e infelizes. Porque o "sucesso" não trouxe paz interior. E depois de uma primeira fase em que tentaram mais do mesmo - dinheiro, poder, bens materiais... - começam a ter dúvidas sobre o que pretendiam da vida. Elas próprias!, participantes de uma cultura, mas não se esgotando na sua ideologia.
Porque ele deu uma entrevista à Pública, atrevo-me a citar o exemplo de meu filho mais novo. Que se formou em Engenharia e ao longo de alguns anos desempenhou várias tarefas a contento dos respectivos chefes. E a pouco e pouco chegou à conclusão de que não retirava da profissão o gozo que pretendia e a que se julgava com direito. Em Outubro começa novo curso. Daqui a 20 anos estará satisfeito ou arrependido? Não sei, mas considero improvável que ainda viesse a apaixonar-se pelo que fazia. E pôr-me-ia de cabelos em pé a hipótese de o ver chegar a estas conclusões aos quarenta e tal, sem poder mudar de agulha pelos encargos do quotidiano.
Em associação livre, recordo o nick de um de vocês - rosebud. Não era Citizen Kane um homem de sucesso? Seguramente, e no entanto é ao pequeno trenó(?) que regressa no fim... Sejamos claros - nada tenho contra o tipo de sucesso oficial desta cultura quando "encaixa" na personalidade de quem o tem. A mim, definitivo pequeno-burguês e amante de mil futilidades, não me chega. A muitos outros também não.
E depois, o conceito de sucesso pode variar ao longo da vida, não é? Pensem, por exemplo, no(a) jovem que precisa de um êxito "quantitativo" no reino da sedução para reforçar o ego. Alguns anos mais tarde o sucesso poderá estar ligado à manutenção de uma relação monogâmica, com ou sem coabitação. Ou à capacidade de viver sozinho(a) mas não só...
Irra!, que estou verborreico:). Bom jantar, maralhal.

terça-feira, julho 19, 2005

O "negativo" do fracasso:).

A nossa conversa sobre aprendizagem, medo e fracasso fez soar campainhas cá dentro. Na auto-estrada, regressando de Braga, espremi os neurónios. E lembrei-me de um parágrafo no meu velho compêndio de psiquiatria. Passo a traduzir, assaz livremente:):

A expressão "neurose de fracasso" (Laforgue, 1939) designa o comportamento, presente em todas as neuroses, mas especialmente notável nalguns indivíduos, que os leva a privar-se da satisfação obtida pelos seus esforços ou a conduzir o seu destino para a repetição de "infelicidades" ou "azares". Freud descreveu um desses comportamentos típicos utilizando a expressão "aqueles que fracassam no sucesso".

(Ey, Bernard e Brisset).

Ou seja: por vezes impedimo-nos de saborear o sucesso ou, inconscientemente, fazemos batota e evitamo-lo, culpando a sorte, o destino, alguém.

Por que assustará o sucesso alguns de nós? Ou será o prazer em sentido lato? Ou a vitória, simbólica ou concreta, sobre outros?

segunda-feira, julho 18, 2005

Morreu a fazê-lo.

"Os fracassos são parte da curva de aprendizagem. O único fracasso é não tentar".

(Peter Blake, Embaixador da boa vontade para o ambiente da ONU, assassinado em 2001 numa expedição ao Amazonas.)

A frase consta da introdução do livro A Lei do Desejo, Direitos Humanos e Minorias Sexuais em Portugal de Ana Cristina Santos, nossa companheira da blogosfera:))))).

Belo e verdadeiro. Cyrano de Bergerac poderia tê-lo dito enquanto travava o seu último duelo, contra a morte e a hipocrisia dos homens.

domingo, julho 17, 2005

Esses cátaros fascinantes...

"A verdadeira Igreja de Deus é o coração do Homem". Belibasto, último Perfeito cátaro, queimado em Villerouge-Termenès entre Setembro de 1321 e Novembro de 1322. (E chegado ao martírio depois de uma vida em que violou os preceitos das duas Igrejas: a cátara, a que pertencia, e a romana, que o perseguiu, prendeu e condenou.)

Eu acrescentaria, no início da frase, "em última análise...", nada tenho contra a existência de uma hierarquia. Mas, se tivesse Fé, agradava-me pensar no coração do Homem como refúgio, altar e trono favoritos do Senhor.

sábado, julho 16, 2005

Será o incitamento à delação uma prática cristã?

Público: "A redacção de um sítio na Internet ligado a um grupo de católicos pôs a circular uma carta sugerindo aos eventuais interessados que "informassem" três organismos do Vaticano das declarações do padre Vítor Feytor Pinto ao Público, domingo passado, a propósito do aborto e do preservativo".

Frases da entrevista:

1) "... (Recentemente), o cardeal-presidente do Conselho Pontifício (para a Saúde) disse à imprensa que estão em questão dois mandamentos: o sexto, (que se relaciona com) os nossos comportamentos sexuais, e o quinto, "não matarás". E que, quando o que está em questão é o não matar, e a única forma de não matar é o uso de um profiláctico, ele pode justificar-se."

2) "A pessoa pode dispor da própria vida, não da vida dos outros. Dispor da vida dos outros é egoísmo, oferecer a minha vida pela dos outros é generosidade. (A pessoa) pode ter uma pressão de tal natureza que, em consciência, não é capaz de encontrar outra saída. Não vou dizer que, em teoria, é bem. No caso de uma violação, a pessoa não encontra alternativa. Vamos ajudá-la ao máximo para que não destrua uma vida. Mas, se a destruir, compreendemos que o conflito interior foi de tal natureza que não encontrou outra saída. Não vamos dizer que esta pessoa é uma criminosa (...)".


Colaborei com o padre Feytor Pinto quando desempenhou funções na área da Toxicodependência, mais precisamente no Projecto Vida. Algumas (óbvias) divergências entre nós na área da sexualidade e das drogas não impediram o desenvolvimento de uma boa amizade. Não esqueço o seu convite para falar de Sexologia em Fátima, no âmbito da Pastoral da Saúde, sei que houve quem se opusesse a tal convite e não assistisse à conferência, mas ele não cedeu. Guardo com carinho as palavras com que me agradeceu uma intervenção que não podia subscrever na totalidade. Sou, portanto, suspeito: a ser verdade tal iniciativa, afecta um amigo. ("A ser verdade" não traduz menos confiança no jornal, mas o facto parece-me tão inacreditável que a expressão fugiu-me dos dedos:(.) Daqui envio um abraço ao padre Vítor, ele sabe que é tão espontâneo como as posições que defendo e nos separam sem tragédia.

E pergunto: será o incitamento à delação uma prática cristã?

sexta-feira, julho 15, 2005

Dicionário excêntrico.

Nós -

No meu peito de eterno macho latino
tua cabeça de fêmea sem pai nem dono.

(Mas..., será toque de magia?)

Destes meus dedos,
surpresos por suaves,
jorra um amor frágil, clandestino.
E os teus segredos,
orgulhosos, mesmo graves,
vencem o jugo do óbvio sono.

(E desta velha melancolia...)

Speed dating.

Notícia do Público: a empresa cobra 25 euros aos participantes (25 de cada sexo). Conversam cara a cara durante três minutos, até cada um o ter feito com todos os participantes do sexo oposto (speed dating heterossexual!, suponho:)). Anotam num cartão as suas preferências. Nos casos em que houver acordo, a empresa informa o par por mail e as duas pessoas decidem se querem voltar a encontrar-se. Principal justificação: o tempo que se poupa. A Gabriela Moita diz que só condena a priori quem tem determinadas competências comunicacionais que facilitam os primeiros encontros ou considera a modalidade "artificial". Além disso, sublinha existir um contacto visual ausente na Net - o que torna o speed dating mais real - e o progressivo isolamento das pessoas, facto que implica novas formas de contacto.
O que opinam vexas?

quinta-feira, julho 14, 2005

Fiéis depositários.

A Inês - que eu trato sempre por Pedrosa... - enviou-me o seu último livro. Por amizade, claro!, mas também para se desculpar por ainda não me ter visitado, como prometido, em Cantelães. Enfim: uma lisboeta ocupadíssima:)))))))). Aí vai um naco da sua prosa:

"Como é que a gente evita que os nossos mortos morram? Não me ocorre nada a não ser a arte. Qualquer arte: a de lhes acariciar os retratos, devagar, de os guardar em gavetas escuras para que não percam a cor. A de os escrever com minúcia, para os prender à teia, ainda efémera, das palavras. A de os escrever mesmo quando já não é possível, sobretudo quando já não é possível, inscrevendo-os no corpo íntimo dos nossos sonhos, na alegria que em nós, apesar da dor, arrastada pela dor, sobra da morte deles".

quarta-feira, julho 13, 2005

Fim de tarde.

Quando os ombros vergam de cansaço
e os garotos me aguardam, esfusiantes,
procuro abrigo eterno em teu abraço,
lembrando as noites que foram antes.
(Nós dois, o amor e sono fundo,
a casa inteira fora do mundo…)
Depois, a ternura cerca a saudade,
uma verdade empurra outra verdade.
Dou-te um beijo, maroto por credor,
e ajoelho na alcatifa p’ra brincar.
Os bárbaros invadem-me sem pudor.
E eu, credo e riso na boca,
admito que a ambição é pouca:
chegar vivo à hora de jantar!:).

segunda-feira, julho 11, 2005

Dicionário excêntrico.

Gula -

No sedento rio do teu desejo
navega o meu: exausto mas ansioso.

A palavra aos sócios fundadores.

A Pamina pediu e eu transcrevo o poema. Contudo..., não o fiz já aqui no blog? A palavra aos sócios fundadores:).

Conta-mo outra vez


Conta-mo outra vez, é tão formoso
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-mo de novo, os dois da história
foram felizes até vir a morte,
ela não foi infiel, ele nem
se lembrou de enganá-la. E não esqueças,
apesar do tempo e dos problemas,
todas as noites sempre se beijavam.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço.

Amalia Bautista.

Durmam bem.

Xerazade


Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.

Amalia Bautista.

quinta-feira, julho 07, 2005

Londres.

Penso falar em nome de todos ao expressar o meu alívio por saber o Portocroft bem.


Paris era a cidade de meu Pai, desconfio que Nova Iorque foi a dos meus filhos. Londres acolheu a minha adolescência, fez-me sentir vivo entre paredes onde se lia "Clapton is God". Conheço os britânicos - cerrarão os dentes. Talvez alguns em "quiet desperation", como cantaram os Floyd, mas sem vergarem.

Um abraço à velha guarda.

Ringo Starr faz hoje 65 anos:).

David Gilmour encaminhará para instituições de caridade os seus lucros com a subida de 1343%! das vendas desde Sábado dos álbuns Echoes e The Best of Pink Floyd.



P.S. Mais um julgamento por alegadas práticas abortivas vai "abortar" à custa dos agentes do sistema judicial. Trata-se de uma prática perversa por parte de alguma classe política e que implica uma obscena humilhação das mulheres envolvidas.

quarta-feira, julho 06, 2005

E a conclusão do artigo.

Marriage has been in a constant state of evolution since the dawn of the Stone Age. In the process it has become more flexible, but also more optional. Many people may not like the direction these changes have taken in recent years. But it is simply magical thinking to believe that by banning gay and lesbian marriage, we will turn back the clock.

Pois é...

Um colega teve a gentileza de me enviar um artigo do NYT sobre o horror de alguns aos casamentos gay e as modificações da Instituição da "responsabilidade" dos heterossexuais. Que a transformariam numa união de duas pessoas, ponto.

Heterosexuals were the upstarts who turned marriage into a voluntary love relationship rather than a mandatory economic and political institution. Heterosexuals were the ones who made procreation voluntary, so that some couples could choose childlessness, and who adopted assisted reproduction so that even couples who could not conceive could become parents. And heterosexuals subverted the long-standing rule that every marriage had to have a husband who played one role in the family and a wife who played a completely different one. Gays and lesbians simply looked at the revolution heterosexuals had wrought and noticed that with its new norms, marriage could work for them, too.

Não é assim tão simples, como a História prova. Sempre houve casais "unissexuais" - as palavras "homossexual" e "gay" não são aplicáveis a outras épocas - que aspiraram ao casamento. Mas a descrição de algumas das modificações da instituição é correcta e propicia uma boa reflexão.

terça-feira, julho 05, 2005

Há solidões e solidões.

"...estava fisicamente desfeito mas moralmente inteiro. Talvez porque já estava para além da dor. Para lá também da esperança. Num deserto de solidão, ou melhor, de solidariedade solitária".

(Semprún, Vinte anos e um dia.)

segunda-feira, julho 04, 2005

As árvores morrem de pé e crescem lado a lado.

Alguém teve a gentileza de me enviar a seguinte citação de Khalil Gibran sobre o casamento: "E fiquem lado a lado, mas não próximos demais um do outro, pois os pilares do templo ficam afastados. E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro".(O Profeta).

Estou de acordo, em qualquer tipo de relação amorosa. A nostalgia fusional de uma só Carne e um só Espírito ignora as características irrepetíveis que nos atraíram em alguém. Não nego que se pode crescer à sombra de um outro, muito menos que o possamos admirar ou sempre temer que nos abandone. Digo apenas que é bom o afecto ser - e continuar... - o resultado da articulação de duas liberdades. Sob pena da "sombra" do(a) amado(a) deixar de constituir um oásis no relativo deserto que nos rodeia e se tornar o espartilho sufocante e raquítico que um dia acarretará o azedume.

domingo, julho 03, 2005

Linhas cruzadas na teia familiar.

Ontem regalei-me em Cantelães com o Live 8. Não tenho ilusões: muitas pessoas no público estavam-se nas tintas para África e o G8 não prima pelas preocupações solidárias. Mas a iniciativa enobrece Geldorf e o rock em geral. Quando anunciaram os Floyd "completos" não queria acreditar, Gilmour e Waters juntos no palco vinte e quatro anos depois! Precipitei-me para o telefone. Do outro lado o João - "também ia telefonar". O resto da conversa é private, mas demonstra que novos gostos musicais podem conviver com os antigos, verdadeiros cimentos nas walls:) que protegem as gerações da família e a teia entre elas. Que os Floyd e McCartney nos fizessem desejar que o outro não perdesse o espectáculo, com a certeza de que isso seria importante para ele, prova a existência de "áreas afectivas" comuns em que o reencontro é sempre possível e gratificante.
(Sem prejuízo da sua desejável autonomia, algumas vezes em risco por culpa de um sinistro pai-coruja:).)

sexta-feira, julho 01, 2005

Das brumas da memória.

Hoje falei na Antena 1 de Educação (Sexual). E recordei um velho texto. Aqui está ele:


“O que se pretende quando se quer esconder às crianças – ou aos adolescentes – as explicações sobre a vida sexual dos seres humanos? Teme-se despertar precocemente o seu interesse por essas coisas, antes que surja de forma espontânea? Espera-se com tal dissimulação conter a sua pulsão sexual até ao dia em que poderá percorrer as únicas vias que lhe são abertas pela ordem burguesa? Quer isso dizer que as crianças não mostrariam nenhum interesse ou compreensão pelos factos e enigmas da vida sexual se para tal não lhes fosse chamada a atenção por alguém do exterior? Crê-se possível que os conhecimentos que são recusados não lhes sejam fornecidos de outra maneira? Ou na realidade deseja-se, real e seriamente, vê-los considerar mais tarde tudo o que diz respeito ao sexo como algo de vil e abominável, de que os pais e os educadores os tentaram manter afastados tanto tempo quanto possível?”

Freud. Que não era propriamente um libertário:). Em 1907…

quinta-feira, junho 30, 2005

Cuidado com as generalizações, a blogosfera é como a botica:)

A propósito de alguns comentários: é verdade que se torna preocupante a frequência com que muitas pessoas se "exilam" na net e fogem ao (outro) mundo. Mas seria um óbvio exagero definir os que por aqui aparecem, opinam e estabelecem entre si laços mais ou menos profundos e gratificantes como "falhados relacionais". Falo por mim: este blog é hoje parte importante na minha vida, mas arranjo tempo para ele à custa de muito equilibrismo, não lhe sacrifico um minuto de vida útil ou gostosa:).
Aqui, como "lá fora", há de tudo como na botica.

quarta-feira, junho 29, 2005

O efémero armadilhado:)

Naqueles momentos, a aventura tentava-me, o amor metia-me medo. Mas também me atemorizava a aventura, porque por detrás podia esperar-me o amor.

(Ballester, Don Juan)

terça-feira, junho 28, 2005

Bem dito, carago!

Todos os progressos significativos da humanidade aconteceram através de loucuras que se tornaram culturas. Na vida, nos comportamentos, nas artes, nas letras, nas ciências, foi dessa forma que muito aconteceu. Desde que respeitem os outros e não incomodem ninguém, os quantitativos provocatórios acabam por ser saudáveis, estimulantes e potencialmente evolutivos. É a história que o ensina e que lhes ajusta a dosagem.

Jaime Milheiro.

domingo, junho 26, 2005

Sorry, maralhal!

Esqueci-me de dizer que também podem ouvir a canção.

Prévert

As crianças que se amam abraçam-se contra as portas da noite
E os viandantes que passam apontam-lhes o dedo
Mas as crianças não estão lá por ninguém
E é apenas a sua sombra que treme na noite,
Provocando a cólera dos transeuntes
A sua cólera, o seu engano, o seu riso e a sua inveja
As crianças que se amam não estão lá por ninguém
Elas estão distantes, bem mais longe que a noite
Bem mais alto que o dia
Na clareza deslumbrante de seu primeiro amor.
Elas estão distantes, bem mais longe que a noite
Bem mais alto que o dia
Na clareza deslumbrante de seu primeiro amor.

(Sugestão da Pamina, tradução do Portocroft).


O primeiro amor... Muitas vezes não é o melhor, o mais intenso, o mais duradouro, o mais..., amor até! Mas por ser o primeiro, abre uma paisagem não vivida e contudo esperada aos nossos olhos de jovens. Por isso me abstenho de estabelecer hierarquias ou "top-tens". Direi apenas que recordo o meu com ternura infinda, mas não contaminada por uma idealização reactiva a desamores de outras épocas. Não quero voltar a ele ou utilizar-lhe a memória como bálsamo, apenas lembrá-lo pelo que foi - o primeiro molhar de pés no oceano confuso dos afectos:).

Se acabó!

Não resisti a um pulinho a Salamanca:), aquela Plaza Mayor é a minha favorita em toda a Espanha. E, como sempre, dei comigo fascinado pela vida que leva "todos", sozinhos ou em família, a visitá-la para dois dedos de conversa y una copa. O Festival de Cultura de Castela e Leão ainda acrescentava mais tempero à coisa!
Que diferença do nosso estilo macambúzio:(. Enfim...

Chego a Portugal e pasmo: então os lisboetas põem a hipótese de recusar a disponibilidade do Professor Carrilho? Ainda se tornam responsáveis por um eventual traumatismo sofrido pelo Diniz, pobre garoto:)

quarta-feira, junho 22, 2005

Nao é só em Portugal:)

O PP espanhol levou ao Parlamento um Psi de luxo que disse as coisas mais extraordinárias acerca dos homossexuais. O porta-voz do Partido classificou de "magnífica" a exposiçao. No dia seguinte, perante o repúdio generalizado, o mesmo senhor veio afirmar que nao estava de acordo com a doutrina exposta. O "magnífica" surgira apenas "por uma questao de educaçao"... O visado esclareceu que as suas afirmaçoes tinham sido deturpadas pela Imprensa! Aqui, como aí, muitos políticos mudam de opiniao após consultarem o travesseiro e as sondagens. E a comunicaçao social - que de angélica nao tem nada... - é acusada de manipular o que toda a gente ouviu:).

segunda-feira, junho 20, 2005

Desilusao.

Fui a Morella, que é muito bela. Mas dos cátaros..., ni hablar! A menina do Turismo só me pôde dizer que o último Perfeito, Belibasto, vivera "algures" na rua tal da judiaria. Encontrei lá uma Companhia de seguros... Simbólico. Tivesse Belibasto permanecido em Morella e jamais a Inquisiçao lhe teria deitado a mao!

quinta-feira, junho 16, 2005

O mundo paralelo.

Morreu Corino de Andrade. Ele e Nuno Grande simbolizam tudo o que Abel Salazar gostaria de ver no Instituto com o seu nome onde me orgulho de leccionar. A cada morte de uma pessoa que admirei e/ou amei, um mundo paralelo ganha forma. Como se por entre as de carne e osso passeassem outras, fantasmáticas e contudo não menos "reais". Os da minha idade sabem ao que me refiro...


P.S. Raquel - Não tenciono perder a paciência:). Por que o faria? Bati-me toda a vida pela liberdade que vocês têm nos comentários!

quarta-feira, junho 15, 2005

Na berlinda:)

Ó Lobices,
Você é atacado e louvado de todos os lados! Vou pensar no seu segredo Rambla abaixo:).

Onde já vi eu isto?

O Arcebispo de Granada alugou 22 camionetas para levar gente à manifestação...

terça-feira, junho 14, 2005

O mistério do til desaparecido!

E nao é que estes teclados o nao têm?!:(. Perdao, maralhal, nao pensem mal da acentuaçao deste vosso humilde servidor:). A 18, em Madrid, grande manif contra a legislaçao sobre os homossexuais, com o apoio expresso do Conselho Episcopal espanhol. A falta que a Santa Inquisiçao faz nestes tempos de deboche, nao é? Que tristeza...

segunda-feira, junho 13, 2005

Eugénio.

Quando os poetas morrem a notícia espalha-se, vertiginosa - chove em Barcelona, como choveu um dia em Santiago pela liberdade. O Eugénio costumava dizer que ansiamos por ela, mas dentro do rebanho. Com efeito. Ele nao, fez caminho próprio sem preocupaçoes de companhia protectora. E assim, acabou rodeado por uma multidao de gente, grata pela sua inimitável poesia solar.

sábado, junho 11, 2005

Barcelona

1) No quarto floresce o pó e com ele as minhas alergias.
2) O bom tempo também foi de férias.
3) Mas a Rambla, maralhal, a Rambla:)))))))

quinta-feira, junho 09, 2005

A estrada...

... espera por mim, vou em busca de sinais dos meus queridos cátaros. Mas levo a "besta", maralhal:)

quarta-feira, junho 08, 2005

A banda sonora cresce:)

O Portocroft acrescentou Let it Be e Eleanor Rigby. A primeira é de uma beleza abandonada que nos faz suspeitar que McCartney já pressentia o fim dos Beatles. Mas Eleanor Rigby é um m-o-n-u-m-e-n-t-o:). A canção da qual George Martin disse: "Paul não a teria conseguido escrever se não tivesse conhecido John":).

As habituais gralhas nocturnas:(

Pamina,

Tem toda a razão: no post anterior é "encandeado" e não "encadeado". Irra!, que não tenho emenda.

Quanto à escrita: o próximo livro será um "monólogo a duas vozes":). Masculinas...

terça-feira, junho 07, 2005

Da astronomia e outros mistérios.

Maria,
Mais um jantar no Círculo Universitário. Ao café, reparei num rapaz que transpirava desamparo, só tinha por companhia a lareira apagada (se te parece, com este calor…). Meti conversa - british até à medula; astrónomo devoto; brilhante por faro meu. Como lhe invejei a paixão do discurso!, parecia um espelho que devolvesse, por teimosia, o que fui há vinte anos. Falou-me de estrelas mortas, cujo brilho ainda nos chega. Percebes? Vemos uma estrela que já não existe. Não nego a lógica da explicação, mas cá dentro apenas o córtex aderia, não percebo nada de anos-luz, como posso ver o que passou? Segui o conselho do meu velho – fui sorrindo. E ele foi deitar-se, mais aconchegado pela minha atenção e pelo conhaque, depois de um inevitável shake-hands, calorosamente hirto.
Eu vim para casa. Para nossa casa. Estaquei, encadeado pela tua ausência. E olhando em volta, fiz o inventário das mil recordações que nos sobreviveram. Sabes? A astronomia é bem mais simples do que pensava:).

Esta Ciência...

>Vejam o que acabo de receber:)
>
>
>
>
> Agora já existe mais uma justificação!!!
>
> Contemplar o peito das mulheres, é bom para a saúde dos homens e
>ajuda-os a viver mais tempo!... Foi o que revelou um estudo realizado
>por um grupo de pesquisadores alemães. Eles concluiram que olhar
>fixamente todos os dias, durante 10 minutos, para os seios de uma
>mulher, é tão benéfico como uma boa meia-hora de exercícios físicos.
>Este estudo, efectuado ao longo de 5 anos, num grupo de 200 homens
>(voluntários), demonstrou que todos os que aproveitaram o espectáculo
>entusiasmante e diário de belos seios femininos, sofriam menos de
>doenças cardio-vasculares e tinham menos problemas de hipertensão do
>que os que não olharam para os seios todos os dias. O Dr. Karen
>Weatherby, que dirigiu os estudos, afirmou que: "Olhar para os seios de
>uma bela mulher durante 10 minutos, em cada dia, é o equivalente a uma
>meia-hora de aeróbica. A excitação sexual aumenta a frequência
>cardíaca, e é benéfica para a circulação do sangue.
>Nós pensamos que, com tal prática diária, os homens podem aumentar a
>esperança de vida em pelo menos 5 anos."
>
> NOTA FINAL: Eu sabia que tinha de haver uma explicação... Os
>homens não são tarados, estão é preocupados com a sua saúde!!!

segunda-feira, junho 06, 2005

O mundo.

Terminei "Por Amor a Che". Sem deslumbre, mas com agrado. Deixo uma frase deliciosa:).

"O mundo é muito maior do que o nosso umbigo, embora seja agradável pensar que ele possa caber dentro da nossa mão".

domingo, junho 05, 2005

Hopefully...

Um bom amigo fez-me chegar o artigo completo. Também digo "hopefully", mas sem grandes esperanças:(. E depois, a própria Ciência...

For Fruit Flies, Gene Shift Tilts Sex Orientation


By ELISABETH ROSENTHAL,
International Herald Tribune
Published: June 3, 2005
When the genetically altered fruit fly was released into the observation chamber, it did what these breeders par excellence tend to do. It pursued a waiting virgin female. It gently tapped the girl with its leg, played her a song (using wings as instruments) and, only then, dared to lick her - all part of standard fruit fly seduction.

One gene, apparently by itself, creates patterns of sexual behavior in fruit flies.
The observing scientist looked with disbelief at the show, for the suitor in this case was not a male, but a female that researchers had artificially endowed with a single male-type gene.

That one gene, the researchers are announcing today in the journal Cell, is apparently by itself enough to create patterns of sexual behavior - a kind of master sexual gene that normally exists in two distinct male and female variants.

In a series of experiments, the researchers found that females given the male variant of the gene acted exactly like males in courtship, madly pursuing other females. Males that were artificially given the female version of the gene became more passive and turned their sexual attention to other males.

"We have shown that a single gene in the fruit fly is sufficient to determine all aspects of the flies' sexual orientation and behavior," said the paper's lead author, Dr. Barry Dickson, senior scientist at the Institute of Molecular Biotechnology at the Austrian Academy of Sciences in Vienna. "It's very surprising.

"What it tells us is that instinctive behaviors can be specified by genetic programs, just like the morphologic development of an organ or a nose."

The results are certain to prove influential in debates about whether genes or environment determine who we are, how we act and, especially, our sexual orientation, although it is not clear now if there is a similar master sexual gene for humans.

Still, experts said they were both awed and shocked by the findings. "The results are so clean and compelling, the whole field of the genetic roots of behavior is moved forward tremendously by this work," said Dr. Michael Weiss, chairman of the department of biochemistry at Case Western Reserve University. "Hopefully this will take the discussion about sexual preferences out of the realm of morality and put it in the realm of science."

He added: "I never chose to be heterosexual; it just happened. But humans are complicated. With the flies we can see in a simple and elegant way how a gene can influence and determine behavior."

The finding supports scientific evidence accumulating over the past decade that sexual orientation may be innately programmed into the brains of men and women. Equally intriguing, the researchers say, is the possibility that a number of behaviors - hitting back when feeling threatened, fleeing when scared or laughing when amused - may also be programmed into human brains, a product of genetic heritage.

"This is a first - a superb demonstration that a single gene can serve as a switch for complex behaviors," said Dr. Gero Miesenboeck, a professor of cell biology at Yale.

Dr. Dickson, the lead author, said he ran into the laboratory when an assistant called him on a Sunday night with the results. "This really makes you think about how much of our behavior, perhaps especially sexual behaviors, has a strong genetic component," he said.

All the researchers cautioned that any of these wired behaviors set by master genes will probably be modified by experience. Though male fruit flies are programmed to pursue females, Dr. Dickson said, those that are frequently rejected over time become less aggressive in their mating behavior.

When a normal male fruit fly is introduced to a virgin female, they almost immediately begin foreplay and then copulate for 20 minutes. In fact, Dr. Dickson and his co-author, Dr. Ebru Demir of the Institute of Molecular Biotechnology, specifically chose to look for the genetic basis of fly sexual behavior precisely because it seemed so strong and instinctive and, therefore, predictable.

Scientists have known for several years that the master sexual gene, known as fru, was central to mating, coordinating a network of neurons that were involved in the male fly's courtship ritual. Last year, Dr. Bruce Baker of Stanford University discovered that the mating circuit controlled by the gene involved 60 nerve cells and that if any of these were damaged or destroyed by the scientists, the animal could not mate properly. Both male and female flies have the same genetic material as well as the neural circuitry required for the mating ritual, but different parts of the genes are turned on in the two sexes. But no one dreamed that simply activating the normally dormant male portion of the gene in a female fly could cause a genetic female to display the whole elaborate panoply of male fruit fly foreplay.

sexta-feira, junho 03, 2005

Agradecimentos

Ao meu filho Guilherme, por ter construído a casa dos meus sonhos:).

Ao Portocroft, que só não conseguiu ensinar o analfabeto do Murcon a escrever as legendas.

Cantelães








Um enorme perímetro

"Um beijo. A primeira partilha de carne. Tudo o que vem depois é doce elaboração. O primeiro beijo é mais íntimo do que a cama a nu; o seu pequeno perímetro contém já a primeira submissão e a traição final".

Ana Menéndez, Por Amor a Che.

Oporto by night

Agradeçam ao Portocroft:)

quinta-feira, junho 02, 2005

Boa noite, maralhal.

Olhando o prédio em frente por cima das flores que minha Mãe cuidava, disse-lhe: “Maria, chegam os dias longos e quentes e tu mudas. Não sei, pareces mais igual a ti”.
Ela sorriu, cruzou as pernas sobre o canteiro, pôs as mãos entrelaçadas atrás da nuca e transformou cadeira normalíssima em prima de baloiço, com alma e riscos de trapezista. Semicerrando os olhos, rezou vésperas:


Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia já é maior do que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
É este o deus que meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada

A primavera é o meu país
saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz

e dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição


Primavera-raiz-flores…, arrisquei: “Eugénio de Andrade?”.
Ela riu, gaiata: “Morno, querido. Ruy Belo, A Chegada dos Dias Grandes”.
E quem não suportaria alegremente o peso de tão magnífica ignorância, com riso e “querido” seus já aferrolhados na alma? A poesia é para ser vivida. Abri os braços e ela neles deitou raiz:).

Melhoramentos

A Murcon SA agradece à Portocroft Sons do Mundo Lda. a instalação (grátis!) de um dispositivo que espera venha a melhorar a qualidade de vida dos frequentadores deste blog. O Presidente do Conselho de Administração decidiu mesmo acrescentar uma nota pessoal a esta circular: THANK YOU,MATE:).

quarta-feira, junho 01, 2005

A propósito do Dia...



A infância
É um brinquedo que parou
É a inocência remendada
É sempre isto de passado (C’est toujours ça d’passé ?)
A infância



Lembra-te dos silêncios ao fundo dos corredores
E aquele arquejar divino, continuo a escutá-lo,
E depois a noite, fiel a lembrar-nos essas coisas
E esta memória fodida que me segura pelo braço.

Léo Ferré.

terça-feira, maio 31, 2005

A propósito de migrações.

Não tem sede de aventura
Nem quis a terra distante.
A vida o fez viajante.
Se busca terras de França
é que a sorte lhe foi dura
e um homem também se cansa.



Ficam mulheres a chorar
por aqueles que se foram.
(Ai lágrimas que se choram
não fazem qualquer mudança).
Já foram donos do mar
vão para terras de França.


Manuel Alegre, Trova do Emigrante.

segunda-feira, maio 30, 2005

Como prometido:)

“Outro factor, já mencionado, é que as taxas de diagnóstico e internamento em psiquiatria podem reflectir preconceitos morais, raciais e políticos e levar à interpretação de reacções e crenças culturais como sinais de “loucura” ou “maldade”. Helman.


Stress e migração – Exemplo: Manchester, doença mental, Carpenter e Brockington – As populações migrantes (Asiáticas, Africanas e das Índias Ocidentais) tinham o dobro da taxa de internamento em hospital psiquiátrico, quando comparadas com a população inglesa. O diagnóstico de esquizofrenia paranóide era muito frequente, sobretudo com delírios de perseguição…

Desde já aviso que existem várias hipóteses explicativas:).

domingo, maio 29, 2005

Uma derrota justa e necessária.

Merecemos perder, claro, isso é assunto encerrado, o jogo foi um longo e penoso bocejo.
Mas a legítima satisfação pela conquista do título no campeonato, mesmo completamente atípico como foi este, poderia turvar a vista a alguns. A derrota na Taça com tal exibição - semelhante a muitas outras... - obrigará todos a encarar os factos - se a equipa não for (bastante) retocada a alegria deste ano será um fogo fátuo.

P.S. De qualquer forma não poderíamos ganhar - eu não fui ao cinema:))))))))!!!!!!

Ontem adormeci:(

Jacob, prémio Nobel da Medicina em 1965: “A Biologia perdeu hoje muitas das suas ilusões. Já não procura a verdade. Constrói a sua. A realidade aparece então como um equilíbrio sempre instável. No estudo dos seres vivos, a História evidencia uma sucessão de oscilações, um movimento de pêndulo entre o contínuo e o descontínuo, entre a estrutura e a função, entre a identidade dos fenómenos e a diversidade dos seres”. (Em Laqueur, La Fabrique du Sexe).
Durante milénios a hierarquia dos sexos pertenceu à Ordem divina: Deus, o homem à Sua imagem e para O honrar; a mulher, homem incompleto de Aristóteles e filha de Eva da Igreja, um degrau abaixo na Criação. Com as Revoluções Francesa e Científica assistimos a um processo fascinante de manutenção da assimetria, agora baseada na Ciência, que iniciou um longo discurso sobre as diferenças “essenciais” entre os sexos. As mulheres já não são homens imperfeitos, mas seres radicalmente diversos, inferiores por respeitáveis razões “científicas”.
Exemplo: “O corpo masculino traduz força positiva, a aguda compreensão do homem e a sua independência, assim o preparando para a vida do Estado, as Artes e as Ciências. O corpo feminino traduz a moleza e o sentimento das mulheres. A pelve espaçosa destina-as à maternidade. Os membros fracos e macios e a pele delicada são testemunhas da esfera mais restrita das actividades das mulheres, da sua ligação ao lar e à calma vida familiar”. (Sachs, 1830, sobre a complementaridade dos corpos masculino e feminino). Foi a Ciência a construir a base onde assenta a extraordinária ideia dos “sexos opostos”. Mas não no mesmo plano…
A vontade do Senhor foi substituída pela normalidade científica, contra a qual também se pode “pecar”. Vejamos como existe hoje em dia um discurso médico que nos torna responsáveis por tudo o que de mau possa acontecer se não seguirmos o “correcto” estilo de vida. Da salvação eterna da alma passámos ao prolongamento da vida do corpo e em verdade vos digo que alguns médicos assistentes estão menos dispostos a perdoar do que muitos confessores, seguros como estão das suas verdades:).
Por agora chega, amanhã regressarei ao tema. Talvez com algumas palavras sobre a relação entre emigração e diagnóstico psiquiátrico.

sexta-feira, maio 27, 2005

A bem dizer...

… sinto-me envergonhado por alguns de vocês terem pensado que eu punha a hipótese de encerrar o blog. Estava a brincar, como os veteranos logo denunciaram:). Esta tertúlia já faz parte do meu quotidiano, vem-me dando um prazer de todo imprevisto. Mas os comentadores não têm obrigação de conhecer o estilo de humor que cultivo, daí… - sorry, maralhal:).

Sobre a frase de Sabato, não duvido que as pessoas se sintam hoje peças de uma engrenagem. À qual, ainda por cima, não reconhecem qualquer ambição de atingir a fímbria de transcendência a que temos direito. A máquina destina-se apenas a assegurar a própria subsistência, com as assimetrias sociais que acarreta. Mas, em duas das minhas áreas de trabalho, a Sexologia e a Psiquiatria, o conceito de “pecado” desaguou direitinho no de “anormal”. A Medicina - e poderemos falar disso com mais vagar… - substituiu a Igreja ao nível da condenação (disfarçada de diagnóstico, em teoria neutro e científico) e da tentativa de controlo (leia-se tratamento e/ou exílio em determinadas instituições).

quinta-feira, maio 26, 2005

Só mentiroso?

Já sei, já sei, não cumpro a promessa de acabar com o blog:(. Serei um simples mentiroso ou um grave dependente dessa sinistra droga chamada "maralhal"?:)



"Hoje o homem não se sente um pecador, crê que é uma engrenagem, o que é tragicamente pior".

Ernesto Sabato.

Uma engrenagem inteira? Não será optimismo?:)

quarta-feira, maio 25, 2005

O convite

Maria,
Pensa, pensa bem - afinal o que é uma "ponte"? Não ajavardes, por favor!, ainda por cima à custa de uma das minhas canções favoritas... Eu sei, eu sei, vimos navegando em "troubled waters". Por isso mesmo, carago! (Desculpa, sou tripeiro.) Mas responde! Uns abençoados dias de descanso, sobretudo se eu não estiver por perto... Agressivo simplismo, querida. Uma "ponte" é um momento único, sabes? Dois dias de ócio triunfam, pelo cerco, sobre um de trabalho que se rende. Estás a ver o simbolismo? Dois somos nós também. Cerquemos o conflito que nos mantém apertadamente separados e talvez ele deponha as armas como sexta-feira próxima. Vem daí discutir, em quatro dias haverá tempo para uma ou duas reconciliações. Pequenos passos, ouviste o Sócrates - os déficites não se resolvem do pé (descalço) para a mão (cheia) ou vice-versa. Assumamos o compromisso de acabar com o nosso de comunicação até Domingo. Se não conseguirmos, aceito que convoques eleições para o lugar de teu namorado e juro que não concorro, nem me mantenho por perto como líder da oposição.
Aceitas? Óptimo, carago! (Ups...). Já agora - importas-te de levar os jeans, a blusa branca e o casaco curto cintado? Tá, não abusar da sorte. Mas a saia de hippy com sandalinhas a condizer, não, está bem? Vês como já se notam progressos? É claro que farei a barba!

(Espero que o tenha exigido a pensar na sua pele macia e não por simples embirração estética...).

O ignorante

Eu sei que a pergunta é risível para os especialistas. Mas como se explica que num país em crise e com a classe média a deslizar para baixa, os bancos apresentem lucros tão..., tão..., confortáveis? Estarão em "crise de crescimento"?

terça-feira, maio 24, 2005

Desesperadamente em busca de nós:)

Se ainda continuam a comover-nos as desventuras e proezas daquele cavaleiro andrajoso de La Mancha é porque algo tão risível como a sua luta contra os moinhos de vento revela uma desesperada verdade da condição humana.

Ernesto Sabato, Resistir.

segunda-feira, maio 23, 2005

Amor perfeito

Vendo-o percorrer a sala como fera enjaulada à espera da execução; sentindo aquela gana de aproveitar o pretexto mais miserável para lhe cair em cima, qual ave de rapina com discussão no bico; esperando que o relógio trouxesse o alívio – ou a hecatombe… - quando o ponteiro das horas desse volta e meia, mais intervalo e descontos (ao que julgava saber…) – odiou-se, risonha.
Porque considerava o futebol um desporto estúpido e violento, mas, se o apreciasse!, não deixaria de apoiar a equipa da granítica cidade amada que ele – incoerente… - adorava. E no entanto, perante a sua angústia, tão infantil que as costas se lhe dobravam, envelhecidas, deu consigo a murmurar prece inacreditável, por alheia às misérias reais deste mundo,
- Meu Deus, faz com que o Benfica ganhe.
E o Senhor escutou-a, porque os amores felizes se vão tornando raros, para Sua enorme preocupação desgostosa. Mas preferiu manter-se clandestino e oficialmente respeitar a liberdade humana. Sabe Ele que mesmo assim todos Lhe pedem milagres, imaginem o que aconteceria se os distribuísse a eito! Fez o desafio terminar como tinha começado, ungido mas sem espalhafato.
Empatando, o Benfica ganhou.
Ele abraçou-a, com as rugas do medo alisadas por amor liberto, “gosto muito de ti, querida, vamos jantar fora?”. Ela pressentiu a mentira monogâmica. Amava-a; mas também a onze jogadores, mais os suplentes, a equipa técnica, a directiva e catorze milhões de cúmplices por esse mundo fora.
E que importava, se era a ela que sorria?
“Olá se vamos, e toma nota – o campeonato vai-te sair caro!”.
A noite foi tão boa que acariciou a hipótese de se tornar sócia do Benfica. Os regulamentos do clube contemplariam o estatuto de crente não praticante?

domingo, maio 22, 2005

Sem título

1) A jogar mal.
2) Com o pior plantel.
3) Mas...
4) Que bom!!!!!!!!!!!!!!!!!!:)))))))))))))))))))))))))))))))))))))))). Obrigado.

sábado, maio 21, 2005

21 anos depois.

Li com interesse o Expresso de hoje. O Professor Duarte Vilar decidiu escrever um artigo intitulado "A quem serve o medo?" em resposta à reportagem da semana passada e o Ministério da Educação publica um comentário à mesma. O Expresso complementa-os com um esclarecimento jornalístico, um editorial e um texto na rubrica "Máquina da Verdade".
O primeiro não passa de um "recuo em boa ordem".
O segundo brinda-nos com uma versão empobrecida dos argumentos de Santo Agostinho para condenar o sexo e termina com esta pérola: "Quanto às crianças, deixemo-las viver tranquilamente a idade da inocência. Na certeza de que não é daí que vêm os riscos: os comportamentos de risco têm causas sociais profundas e não decorrem da falta de informação". Dois coelhos de uma cajadada: a completa recusa de uma educação que não castre a dimensão sexual para ser completa - e não com objectivos "meramente" preventivos! - e a insinuação de que a informação não serve para nada, a pretexto das "causas sociais profundas". Ambas as afirmações denotam a mais absoluta ignorância acerca do desenvolvimento psicossexual e dos objectivos de uma educação global das crianças.
O terceiro, intitulado "Um ataque às crianças", é, digamos assim, o mais "emotivo". Insistindo em algumas das falsidades denunciadas nos artigos do Professor Duarte Vilar e do Ministério da Educação, junta-lhes a deselegância a céu aberto: "...esta gente que destrói completamente a ideia de amor (ou de qualquer relacionamento emocional) nas relações sexuais, o que é um atentado a todas as pessoas saudáveis".
"Esta gente"... A acusação é falsa, obviamente! Mas o estilo diz tudo sobre o respeito pelos outros, crianças ou adultos. Por que não gentalha? Perversos? Criminosos? O autor prefere outra expressão: "Parecem burocratas saídos do 1984 de George Orwell". E eu sorrio com tristeza. 1984... A Lei de Educação Sexual foi aprovada nessa altura.
Estamos em 2005...

Presságio para o meu Benfica:(?

Cantelães, o sol faltou à chamada. Acabo um conto da Inês Pedrosa, de quem tenho saudades.

"Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só´preciso de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo".

Bonito, rapariga:). E verdadeiro, decretamos com demasiada facilidade "só sexo" momentos abençoados que regressam em noites solitárias ou autocarros à pinha.

E o sol que teima em não despontar...

sexta-feira, maio 20, 2005

Alguém pediu Éluard?

É forçoso acreditar nisso


Os jogos dessas estranhas crianças que são as nossas
Brincadeiras simples que lhes transformam os olhos em maravilhas
Repletos de uma febre que os aproxima e os afasta
Do mundo em que sonhamos deixar aos outros o nosso lugar


As brincadeiras de azul e de nuvens
De coisas delicadas e correrias à dimensão de um coração futuro
Que jamais será culpado
Os olhos dessas crianças que são os nossos olhos antigos


Tivemos um encanto como as fadas jamais tiveram.

quinta-feira, maio 19, 2005

Esclarecimento

No Sábado passado, o meu nome era citado no Expresso a propósito de uma reportagem sobre Educação Sexual. Desconheço se o Professor Doutor Duarte Vilar e a Dra Susana Cardoso tiveram - ou vão ter… - alguma reacção à pequena parte do texto que nos dizia respeito. Eu não posso evitar fazê-lo, pois fui abordado por um Jornal on line e por uma rádio. Assim:
1) Em 1994 ou 1995 a Universidade Aberta pediu-me que coordenasse um livro sobre Educação Sexual. Tendo aceite, convidei para colaborarem comigo o então Dr. Duarte Vilar e a Dra. Susana Cardoso, pela reconhecida competência de ambos na matéria.
2) O livro foi publicado em 1996.
3) Na nota prévia pode ler-se: “Este texto pretende ir ao encontro de necessidades de formação de professores ou outros profissionais a quem caiba a tarefa de implementar programas de educação sexual para crianças e jovens, fornecendo oportunidades de reflexão e sugestões de actuação em domínio controverso e não imune a sistemas de valores diferentes, que abrem margem a opções variadas”.
4) Não se tratava, portanto, de um Manual de Educação Sexual destinado ao “terreno”. Devo acrescentar que, se neste momento existem livros desse tipo da responsabilidade do Ministério da Educação, os desconheço. Ficaria surpreendido, mas o meu afastamento de anos da área da Educação Sexual na Escola pode estar na raiz de tal ignorância.
5) O capítulo 5 tinha por título “Objectivos e conteúdos de educação sexual nas diferentes fases do desenvolvimento psicossexual”.
6) A dada altura, nele se escrevia (página 84): “A actividade de auto-estimulação também não tem a intencionalidade erótica que progressivamente vai adquirindo e assume na pós-puberdade. É, no entanto, fonte de prazer e por isso também de culpabilidade, pela associação, na educação tradicional, de mensagens negativas sobre o prazer sexual e a masturbação em particular. Esta é mais precoce nos rapazes e mais dissimulada, e não consciencializada, nas raparigas, as quais, também por razões anatómicas, exploram menos frequente e directamente os órgãos sexuais”.
7) O parágrafo poderia ser meu. Quem me conhece, sabe que, pela diferença referida no primeiro período em relação à pós-puberdade, prefiro falar de auto-estimulação infantil e não de masturbação, palavra demasiado “adultomorfa”. À época a minha posição era claramente minoritária e não me admiraria se continuasse a ser. De qualquer forma, o texto não deixa a mínima dúvida sobre o carácter exploratório da auto-estimulação.
8) Na página 88, aparece a frase polémica, para quem não leu o livro. Num sub-capítulo dedicado a “Expressões de Sexualidade”, e que segue em linhas gerais Lopez Sanchez do país vizinho, enumeram-se “Conteúdos específicos/objectivos específicos”. O segundo ponto da alínea 1 (“Comportamentos sexuais”) reza o seguinte: “Aprender a realizar a masturbação, se existir, na privacidade”.
9) Ou seja: se não existir…, não existiu! (O que constitui, de resto, a excepção, atendendo à enorme frequência do comportamento, como qualquer adulto que acompanhe o crescimento de crianças sabe). Se existir, será necessário explicar à criança que tal actividade não deve ser pública. Muitos de nós, aliás, já se depararam com diálogos difíceis. Por exemplo, quando a criança nos dispara um “se não tem mal por que não o posso fazer em casa de X?”.
10) As duas linhas referidas, mesmo descontextualizadas!, não abrigam nenhuma intenção, aberta ou encapotada, de ensinar a auto-estimulação às crianças. As quais, de resto, dispensam qualquer tipo de ensino ao nível da exploração do corpo na infância...
11) Posso compreender a perplexidade e preocupação de muitos, perante o alarido que lhes foi depositado no colo. Esses, são o motivo do meu esclarecimento. E não outros, que deliberada e desesperadamente procuram turvar as águas de uma discussão que agradece as mais diversas contribuições, como salientado no ponto 3.
12) Fui sensível à gentileza com que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa abordou o artigo e as pessoas nele mencionadas. Não se tratou de uma surpresa, mas é reconfortante verificar que se pode colocar reticências sem ferir a idoneidade pessoal e científica de outrem.
13) No que me diz respeito, o episódio terminou aqui.

Os 40 anos da D.Quixote

A D.Quixote faz quarenta anos e pediu-me um texto para uma colectânea comemorativa. Única "condição" - o número quarenta. Aí vai o meu rascunho:)



História de um rapaz com sorte



O sonho que o animava era demasiado opulento para que o pudesse desenhar sentado. Percorria a sala de lés a lés, passada larga e decidida, as inevitáveis paredes faziam-no girar 180 graus com o impulso do nadador que encontra o fim da piscina. Os olhos saltitavam entre absortos alcatifados e um êxtase celestial indiferente à fronteira espessa do tecto. Mas os braços eram os reis incontestados daquela agitação – se descontarmos a boca, de que falarei mais adiante –, gesticulavam em todas as direcções, como se interpelassem enorme audiência circular e não uma única pessoa. Curioso era verificar que o transe não comprometia o brilho dos sapatos italianos, o hirto vinco das calças que neles repousavam, os ombros batoteiros do casaco, a gravata de cara distinção, a risca do cabelo orvalhado. Parecia o homem da Regisconta, de súbito convertido a uma outra religião comercial.
Pois, a boca. Obrigada a pisar o acelerador para acompanhar o débito veloz do discurso, arranjava ainda tempo para trejeitos de desprezo quando se referia à concorrência e sonoros beijos na ponta dos dedos, extasiados pela grandeza futura. As palavras, embora ricas em metáforas, de impecáveis acordes gramaticais e traindo muitos ensaios de dicção, poderiam, sem ofensa, resumir-se a uma: sucesso. Porque o sucesso – não o seu, claro! – o obcecava e impelia na descrição impetuosa dos caminhos que a ele conduziriam. Na realidade, inebriado pelo vinho da própria crença, apercebeu-se da pobreza raquítica do termo, substituindo-o por triunfo, o que lhe permitiu fazer humor à custa de velhinha marca de bolachas.
(Sim, porque a graça leve e atempada distende o ambiente em geral e as potenciais vítimas em particular, por um momento recordou longínquo curso de formação para vendedor de colchões ortopédicos e as palavras do especialista, nédio e com unhas sebentas: “façam-nos rir e estão no papo”.)
Suspirou, nostálgico. O caminho fora longo; de vendedor de colchões miraculosos iguais aos outros até agente de vedetas internacionais que chegavam a pisar os palcos cosmopolitas de Vigo, Badajoz e Ayamonte. Mas não se atardou no suspiro, poderia ser interpretado como desalento ou cansaço, estados de alma e físico proibidos, por contagiosos.
Feriu o rapaz com olhar penetrante e disparou,
- Então?
O jovem acordou da trip sem drogas que o levara em digressões triunfantes por todo o mundo. E já lhe provocava até no braço, por antecipação, a cãibra de escritor devida a quem se esgota a dar autógrafos. Rodeado pelos gritinhos histéricos das fãs, antes de mergulhar no corpo a céu aberto de uma qualquer roadie fiel.
Uma última pergunta, de resposta obrigatória,
- Acha mesmo isso?
E o artista que vivia de artistas respondeu, solene,
- Meu caro, salvo as devidas comparações, sinto-me como o Brian Epstein quando foi à Tavern em Liverpool ouvir os Beatles.
Estendeu-lhe o papel.
O puto assinou.
Depois, fantasiando encores futuros para calar a consciência que rosnava, pegou no telefone para falar aos outros. Que atenderam sem suspeita. E ele, apressando as palavras e o fim da conversa,
(aliás monólogo!)
- Gente, decidi-me por uma carreira a solo.
E desligou. Do outro lado, só o pousar do telefone interrompeu um silêncio pesado mas não surpreendido.
Encontraram-se no palco. A raiva dos outros e a sua vergonha deram as mãos, numa estranha alquimia da qual resultou um concerto de brutal intensidade, a fazer lembrar o Tonight’s the Night de Neil Young e os Crazy Horse, que todos idolatravam.
Nunca mais se viram. E o rapaz teve sorte. Num bar pífio de Benavente foi escutado e redescoberto por um agente inglês, que se vira obrigado a passar a noite no Parador por o carro o trair na auto-estrada Corunha-Madrid. Umas centenas de euros compraram as reticências – e o contrato… - do homem da Regisconta. Já não voltou a Portugal, seguiu para o mundo. Não repetiu os Beatles, mas fez sucesso longo e endinheirado, muito para além da raia.
E contudo, anos e êxitos passados, se lhe perguntavam qual o melhor concerto da sua vida, respondia sem hesitação,
- O último dos Ali Babá e os Quarenta Ladrões.
(Os outros nunca responderam aos telefonemas que lhes fazia de camarins solitários, amavam-no de mais para lhe perdoar…).

quarta-feira, maio 18, 2005

À boleia da Cláudia e de Lobo Antunes

1) Não acredito na felicidade, “apenas” em momentos felizes.
2) Se fôssemos felizes de um modo “estável” não creio que morrêssemos de saudades de uma pequena desgraça salvadora:). Acho mais provável que a avidez nos impelisse para o desejo de um outro nível de felicidade, a verdadeira, a da Bayer! (talvez à custa da obtenção de bens materiais, como é próprio de uma sociedade de consumo).
3) Se alguns de nós ficam, com efeito, atrapalhados com a dádiva sem expectativas de outros, é bom não esquecer quem se aproveita de tal facto para guardar no bolso todo o poder de uma relação.
4) A ideia da felicidade como “estado” acarreta dentro de si uma fantasia angustiante – quando desceremos desse “top of the world”?
5) Na minha profissão deparo-me com certas dúvidas. Pessoas que vivem relações com vento de feição e mares calmos e começam a interrogar-se: “estou feliz ou acomodada?”. No geral porque identificam a felicidade a níveis de adrenalina incompatíveis com aquele suave navegar. O envelhecimento costuma trazer uma visão diversa da questão, mas também ela propícia a uma boa discussão – tornamo-nos mais sábios ou baixamos as nossas expectativas?:)

terça-feira, maio 17, 2005

Não quero a Maite triste:)

E este?

Número seis

beija-me despe-me faz de mim o que quer
estou bêbeda tudo anda à roda tenho de ir
à casa de banho duas vezes para não lhe vomitar em cima

vai-se embora cedo a toda a pressa não há despedida
nota justificativa ou telefone de contacto só dúvidas
todos os homens são príncipes às cinco da manhã

todas as putas são tu quando acordas e não há ninguém.

Pablo García Casado.

Pronto, Sofia:)

Ao Nuno Júdice


O poema acabado é uma insónia
Uma tribo de verbos uma crina
Que se estende no cheiro desta amónia
E queima em cada verso uma narina

Do poeta metido entre o desgosto
que as palavras trazem todas na algibeira.
Difícil é tapar o próprio rosto
Sem meter os dedos na fogueira

Acesa pela harpa dos sentidos
Esticados como um leque de varetas
Que tornam os poetas pervertidos
E fazem a loucura dos poetas.

Joaquim Pessoa.

segunda-feira, maio 16, 2005

Ah, a ameaçadora fantasia:)

Tissot, 1759, sobre a masturbação: "Os homens sujeitam-se a falsas necessidades, e tal é o caso dos dependentes da masturbação. São a imaginação e o hábito que os aprisionam; não é a Natureza".

domingo, maio 15, 2005

De volta ao trabalho

Depois de roer as unhas!. A estrelinha acompanhou-nos, só desejo que connheça o caminho para o Bessa e não falte ao encontro:).

Preparo um programa sobre fantasias eróticas. Leio posições feministas que analisam o perigo de "fantasias de submissão" por parte das mulheres. Sheila Jeffreys: "Se a opressão te excita será muito mais difícil combatê-la". Para outras autoras, o sexo é uma área de jogo em que tudo é permitido, desde que não desague em práticas quotidianas. Dou o exemplo que sempre faz aquecer as discussões: pode uma mulher sentir prazer ao "levar à cena erótica" uma fantasia de submissão com um homem sem se tornar cúmplice da ordem patriarcal que rejeita e eventualmente combate?

sábado, maio 14, 2005

Prognósticos só no fim do jogo? Ná!

Aqui vai um. À prova de bala e de tudo. Ou seja: árbitro vesgo, fiscais de linha míopes, banho de bola, falhanço escandaloso de baliza aberta, enorme frango que encha a capoeira, alegria surpreendida, tristeza conformada, trave madrasta, festejos incrédulos de tão adiados, mais dez anos de espera, derrota na secretaria, vitória injusta, proibição pura e simples do futebol - amanhã continuarei a ser do Benfica:).

sexta-feira, maio 13, 2005

Deformação profissional:)

Dois ou três comentários (?) à frase de ontem levaram-me direitinho às considerações do Dr. Allen Gomes sobre o exibicionismo, em A Sexologia: "...exposição dos órgãos genitais do indivíduo a uma pessoa estranha. Por vezes, o sujeito masturba-se enquanto se expõe (ou enquanto fantasia expor-se)"; "Nalguns casos o sujeito está ciente de um desejo de surpreender ou chocar o observador"; "... o acto exibicionista é uma manifestação grotesca de poder sexual".

Adiante.

Ao Fim


Ao fim são muito poucas as palavras
que nos doem a sério e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
São também muito poucas as pessoas
que tocam nosso coração e menos
ainda as que o tocam muito tempo.
E ao fim são pouquíssimas as coisas
que em nossa vida a sério nos importam:
poder amar alguém, sermos amados
e não morrer depois dos nossos filhos.


Amalia Bautista.

quinta-feira, maio 12, 2005

Dilatando o tema

Sem auto-confiança somos como bebés num berço. E como podemos gerar o mais depressa possível esta imponderável e contudo tão incalculável qualidade? Pensando que outras pessoas nos são inferiores.

Virginia Woolf, A Room of One's Own.

quarta-feira, maio 11, 2005

A poesia di-lo melhor:)

Retrato de mulher


Sobre o seu rosto não fora só o tempo que passara, também as cabras ali pisaram fundo. Era difícil, era impossível distingui-la da própria terra: velha, seca, esboroando-se à passagem do vento. Portuguesa, de tão pobre.

Eugénio de Andrade, Memória doutro rio.

terça-feira, maio 10, 2005

Como prometido

Aqui está o texto que li na apresentação do livro coordenado pela Professora Lígia Amâncio:

É um prazer colaborar no lançamento de um livro organizado por uma pessoa que sempre me despertou simpatia pessoal – facto de vantagem curricular muito duvidosa… - e o respeito que me leva a citá-la com frequência, pela importância de que o seu trabalho se reveste no nosso panorama científico. Prazer reforçado pelo facto de se tratar da resultante de um esforço de equipa, hábito obrigatório que ainda encontra incríveis dificuldades em país cioso das suas capelinhas e invejas. Erro tremendo, só a multiplicidade dos olhares constrói objectos de estudo mais nítidos ou até, sejamos megalómanos!, quase verdadeiros.
Permitam que confesse um favoritismo descarado por palavra do sub-título: masculinidades. Porque são os plurais a aflorar o real, todo o singular acarreta a generalização que transforma pessoas em números e estereotipos. Que aprendemos a ser homens masculinos começa a ser - finalmente… - consensual. Nem sempre foi assim. A masculinidade, constitucional, imutável, indiscutível - quando não invisível… -, tem sido ponto de referência padrão e símbolo milenar de poder fálico e patriarcal. E isto apesar da constante obsessão em a provar, o que só pode traduzir a fragilidade e insegurança de quem, consciente ou inconscientemente, se teme e confirma efémero, no seu exibicionismo especular e competitivo.
Os estudos sobre a masculinidade surgiram a reboque dos de género, centrados sobre as mulheres, seres estranhos e imprevisíveis, definidos em relação à norma, em teoria assexuada mas silenciosamente masculina. E, por arrastamento, de uma libertação feminina que punha em causa valores e práticas simbolizadas pelo cow-boy da Marlboro e por um John Wayne omnipresente nos meus queridos westerns da adolescência. Sim, porque oficialmente todos éramos – ou seríamos no futuro… - como eles: monolíticos, pétreos, seres racionais que escondiam e calavam o amor e se orgulhavam disso. Lembremos esse Shane, desempenhado por Alan Ladd, desaparecendo no horizonte, aterrorizado pela presença – nem sequer a exigência… - dos afectos de mulher e criança. Só faltava no argumento de tão mítico filme que também um homossexual fosse rejeitado, para que os critérios major da construção da masculinidade estivessem completos…
Como bem salienta a Professora Lígia Amâncio, os problemas permanecem ao nível das relações de poder, de produção e emocionais. E ao nível da comparação e opressão das masculinidades, veja-se o artigo do Expresso da semana passada sobre Forças Armadas portuguesas e homossexuais. Quase admirável, na sua honestidade paleolítica e cruel, sublinha o que outros calam por estratégia: aprendemos a ser um determinado tipo de homem, lançando os outros para a cumplicidade ou marginalização. O destino dos primeiros, sob certos aspectos, não é melhor. Tornam-se vitoriosos à custa da auto-mutilação…
Os processos discriminatórios surgem, por exemplo, no local de trabalho, como exemplarmente demonstra o Dr. António Marques. A quem reencontro com satisfação, depois de ter tido o privilégio de acompanhar no passado as suas provas académicas, que suportou com inegável brilho. Das áreas referidas, permito-me salientar a Cirurgia. Porque a comparação diária não é apenas com as mulheres que nela se aventuram ou com uma futura cirurgia “feminizada e descaracterizada”. Mas também com as outras especialidades médicas, vistas como secundárias e de apoio. O cirurgião goza de um estatuto fantasmático de prima dona que até no comportamento predador heterossexual se verifica, a “intimidade desculpabilizante” do bloco operatório é famosa na Medicina.
E se em Antropologia Médica chamamos a atenção para o estreitar do fosso entre as chamadas doenças de género, salientando as consequências da adopção pelas mulheres de estilos de vida considerados mais “masculinos”, seria ingénuo negar a associação risco/masculinidade que muitas vezes conduz a verdadeiros comportamentos ordálicos. A Dra. Ana Laranjeira tem razão, e o povo também: um homem que não é homem não é nada. Nem homem, nem par do grupo, cuja rejeição é mais temida que tudo o resto. Incluindo todo o género de rituais de passagem, sejam eles ridículos, sádicos ou dolorosos.
Afinal as mesmas águas em que se move a Dra. Teresa Martinho, cujo título me trouxe à memória uma velha canção dos Eagles, dedicada a James Dean: “Too fast to live, too young to die”. Não será a minimização do risco uma visão compensatória megalómana da insegurança de que falava atrás? E se o risco é minimizado na estrada e ao volante, como o não seria na pedra de toque da masculinidade, o sexo? Minimizada é também por muito boa gente a sobrevivência do duplo-padrão, condicionado ou não, assente no “constitucional e tirânico” desejo masculino. A pressão é tão forte que os comportamentos de risco resistem à melhoria dos conhecimentos. O que não acontece nas raparigas. Ou, na maior parte dos casos, não aconteceria!, pois conhecimentos e boas intenções de pouco lhes valem, face à assimetria de poder ainda existente em muitas relações.
O meu bom amigo Vasco Prazeres prossegue, de certo modo, o tema da Dra. Ana Laranjeira, ao abordar as vertentes da Prevenção e Promoção de Saúde. Sempre desvalorizadas na ideologia médica, fortemente curativa, intervencionista, espectacular, numa palavra – masculina. E chama a atenção para as diferenças nas taxas de mortalidade e morbilidade e para o perigo de considerarmos constitucionais diferenças que relevam dos comportamentos. Bastará recordar os acidentes de viação que enchem serviços de urgência e traumatologia, para não falar dos cemitérios. Ou as doenças sexualmente transmissíveis, que por factores biológicos e sociais penalizam mais as mulheres. E foi com deleite que o vi citar o meu estimado Laqueur, sempre lúcido a discorrer sobre a facilidade com que Ciência e Medicina “ignoram o entrave dos factos”. Também importante a verificação por Choquet e Ladoux do aumento nos dois sexos dos problemas “tipicamente masculinos”, ao contrário dos “tipicamente femininos”. Não admira, o metro-padrão da liberdade e cidadania veste calças…
Os Serviços, esses, perpetuam as diferenças, pouco sensíveis às relações entre Cultura, Género e Saúde. E não só Género!, as mulheres, minoria maioritária, partilham com outras as desvantagens ao nível dos Sistemas de Saúde. Ouçamos Eisler e Hersen, no prefácio da obra colectiva que dedicam ao tema: “Diferentes grupos de pessoas percebem, avaliam e lidam com os tópicos da Saúde a partir das suas próprias perspectivas culturais. Assim, a qualidade e a eficácia das actividades de Prevenção e Promoção da Saúde dependem da nossa compreensão da forma como o género, a etnia, a idade e a orientação sexual estão relacionadas com as práticas de saúde e os seus resultados”. Quantos Serviços, melhor!, quanta Medicina pensa a relação entre o seu agir e as assimetrias do imaginário cultural que acarretam as da morbilidade? A resposta não é reconfortante…
E o círculo fecha-se na juventude, em que tudo começa. Não raras vezes por responsabilidade materna, também a feminilidade, além de submissa, é cúmplice, costumo dizer que muitos machismos são como a hemofilia – habitam os homens, mas foram transmitidos pelas mulheres. O poder é por definição relacional e a violência não passa de um bilhete de identidade extremo, sobretudo em espaços públicos e contra as mulheres e os homens “não alinhados”, tentativa absurda de ser alguém pela humilhação de um “outro” considerado inferior. “Outro”, que se for rapaz, tem grandes hipóteses de se tornar cúmplice, que mais não seja por recear a rejeição do todo-poderoso grupo. As instituições educativas não podem ficar indiferentes à perpetuação de tais comportamentos, sobretudo por a violência ser considerada “natural”, até no seio das relações afectivas, Koss e Hoffman escrevem que “a violência por parceiro íntimo é um problema de saúde global para as mulheres, pois estudos em 35 países demonstram que entre 25 e 50% das mulheres foram vítimas dessa violência”. Para cúmulo, e como o Dr. Carlos Barbosa sublinha, trata-se de uma “violência imperfeita”, que só demonstra a artificialidade das hierarquias sustentadas, a Escola é um caso particular da tragédia que subjaz a toda a violência de género.
A Professora Lígia Amâncio regressa a Simone de Beauvoir nas conclusões e com justiça. Porque os homens também não nascem, tornam-se. E muitas mulheres confundem até liberdade com adopção dos comportamentos do sujeito masculino, por ser quase impensável inventar outros trajectos além dos conhecidos. É realmente preciso tomar consciência do problema e adquirir instrumentos para o resolver. Quanto à esperança da Professora Lígia Amâncio sobre esta obra, ela denuncia excesso de modéstia. Se o livro não lhe transportasse o nome, estou certo que não hesitaria em reconhecer-lhe – como o faço eu! – o indiscutível valor.

segunda-feira, maio 09, 2005

Boa noite, maralhal.

O Silêncio


Quando a ternura
parece já o seu ofício fatigada,

e o sono, a mais ncerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio.

domingo, maio 08, 2005

Violência de género

Regressei - contrariado... - de Cantelães. Acabo um texto para a apresentação de um livro sobre Masculinidades, coordenado pela Professora Lígia Amâncio. Deixo-vos uma frase sobre o último capítulo:

"E o círculo fecha-se na juventude, em que tudo começa. Não raras vezes por responsabilidade materna. Também a feminilidade, além de submissa, é cúmplice, costumo dizer que muitos machismos são como a hemofilia – habitam os homens, mas foram transmitidos pelas mulheres".


Sim ou não?

sábado, maio 07, 2005

Professor Karmachado

EU NÂO DISSE??????????????????

Consultas sobre super-liga, referendos europeus e eleições autárquicas a preços módicos:).

Agora a sério: não será de bom tom invocar os dois penaltis que penso terem ficado por marcar, esta equipa não joga o suficiente para ser campeã e ponto final. (Manterei esta opinião se ganharmos os próximos jogos.)

Blogger agoirento:)

1) Tive pesadelos tão variados que me fizeram lembrar os acepipes do velho Hotel do Porto.
2) Já não consegui o Expresso em Vieira.
3) Em nenhum dos cafés arranjei um sumo de laranja natural.
4) O tempo piora a olhos vistos.
5) Não consegui escrever uma linha.
6) Nem marimbar-me saudavelmente para tal facto:(. Carago!, é fim de semana...
7) A Senhora da Fé estava fechada.

Vai daí...

Não me liberto de um mau pressentimento sobre o Benfica!:).

PS1 - A frase "déjà-vu sinistro que adivinho no teu amor" relacionava-se com a hipótese de repetir um padrão destrutivo em sucessivas relações. Deveria ter escrito "nosso amor".

PS2 - Pobre Perestrelo.

sexta-feira, maio 06, 2005

De regresso

A estrada. Sempre a amei, sabes? Quando o cansaço já aperta e o rádio canta uns decibéis exagerados, os reflexos permanecem agudos mas distraídos; um outro, cá dentro, fecha para balanço. Memórias e sonhos disputam o palco, os quilómetros são engolidos num estado crepuscular, como se me visse guiar enovelado no banco de trás (espero que a Brigada de Trânsito não leia isto!). Asfalto; meter gasolina; água em fonte para a boca e chuveiro na cara; sanduíches plastificadas dentro do prazo e fora do gosto; mais asfalto; meia-dúzia de passos numa área de repouso…, não!, apenas três, que estou com pressa.
De fechar com truques contabilísticos o balanço. E abrir os braços de um coração amnésico ao déjà-vu sinistro que adivinho no teu amor.

quinta-feira, maio 05, 2005

Opinião de aprendiz

Como sabem, não tinha qualquer experiência neste "mundo blogueiro", sou um aprendiz. Mas desconfio que muito do que vejo "living in the material world" (isto é George Harrison:)))) se aplica. A lua de mel no Murcon finou-se. Vocês já não acham toda a gente porreiríssima, alguns partiram mesmo, outros só espreitam mas não piam. Não é uma tragédia, apenas o fim de uma idealização sememlhante à da paixão. Entramos em velocidade de cruzeiro: com defeitos, amuos, reconciliações. Teremos descido um degrau? É, no mínimo, discutível, de imagens e projecções passamos a pessoas de carne e osso (bem, na medida do possível na "blogosfera"). Eu não estou desiludido, nem considero que esta lua de fel para alguns seja necessariamente definitiva. Não posso fazer nada a não ser "postar". Nem quereria!, desde o início declarei que me limito a partilhar ruminações. Vejo-me como um pretexto para o exercício das vossas liberdades, jamais como um aprendiz de feiticeiro que tentasse orientar-lhes os passos.

quarta-feira, maio 04, 2005

Com um obrigado à Maite

Mas claro qur vocês conseguem "cheer me up":)!, por alguma razão venho religiosamente todos os dias. Acontece que decidi escrever um livro sobre os Machado Vaz de hoje, ontem e anteontem para o deixar aos de hoje e amanhã. Certos nacos de prosa fazem reviver sorrisos que pensava mortos, mas outros empurram lágrimas impensáveis, pois se nos ensinaram que os homens não choram!:) (pouco...).

Entretanto para distrair:

Maria,
Escrevo entre duas aulas. Entre o passado e o futuro. Entre nós e eu e tu. Entre ti e outra mulher. Ameaça? Claro que não, Maria, pura lógica. Ora vê: ambos com 33 anos, achas que ficaremos crucificados na solidão? O meu psi até empregou uma expressão "técnica", disse que vivemos tempos de monogamia seriada, atrás de nós virão outros nós para nós (a propósito de monogamia - ele acredita que nunca te enganei. E olha que o gajo deve ser bom, a julgar pelo preço das consultas!). Mas Maria, será mesmo inevitável? Se é esta uma forma tortuosa de por fim confessar que te amo? Bom, como não decidi se te envio a carta, posso responder. Talvez te ame e muito. Afinal não consigo dormir, o apetite foi-se - excepto o sexual por ti, se permites a crueza -, embirro com toda a gente e dou aulas de merda. Talvez te ame, sim. Mas o verbo empanca na garganta e não sai, como estamos na Primavera não será um caso de rinite alérgica neuronal? O quê? Só se for Primavera todo o ano há três anos... Pois. Deixemos isso! Há palavras mais leves, até duvidosas, e no entanto úteis. Preguiça, por exemplo. Sim, Maria, preguiça. Imagina-te com o eu depois de mim. Já pensaste na trabalheira que terás para construir uma intimidade como a nossa? Lembras-te, foste tu a ensinar-me a canção - "pra melhor está bem, está bem; pra pior está bem assim". Aí está. Fiquemos juntos por preguiça, Maria. O amor, a ternura ou o raio que nos parta que nos une é difícil de encontrar, mais ainda de manter vivo. Pensa bem, Maria, pensa muito bem.
Sobretudo porque decidi não enviar esta carta. Por orgulho? Nem pensar! Por escrupuloso respeito pela tua liberdade de decisão...

terça-feira, maio 03, 2005

O álibi

Cantelães, fim de tarde. A casa vazia destila calma enganadora. No centro da mesa virada para a Cabreira brilha resma de papel. Branquíssimo!; não por ter sido lavado com o detergente da moda, mas de tão vazio. A caneta aguarda, numa obediência trocista. O braço idem aspas, o traidor... Os neurónios todos se afadigam, na procura de resposta a pergunta assassina: "conseguirei escrever sobre "isto"?".
A cobardia. A inveja da coragem fatalista de Gary Cooper, rua e fantasmas abaixo, em "O comboio apitou três vezes".
O suspiro desencantado.
O álibi - escrevo depois do Liverpool-Chelsea.
A certeza - a angústia adiada sempre cresce alegremente...

segunda-feira, maio 02, 2005

O caso das molduras escandalizadas

Nós, as fotografias que ladeiam a ontem citada pelo Murcon, vimos por este meio alertar o maralhal para a injustiça cometida. De acordo, era o Dia da Mãe; de acordo, falar nela e não no Pai seria de um mau gosto a roçar a obscenidade. Mas..., e nós? Mostramos acaso gente menos importante? O que seria do pobre diabo sem os filhos, que não se limitaram a gostar dele em fins de semana decretados por tribunal e aparências ou férias breves para algarvio à cata de camones endinheiradas ver? A ingratidão brada aos céus! Os rapazes acompanharam-no em apartamentos minúsculos e húmidos, depois em T2 caótico, ultimamente no refúgio pouco excitante de Cantelães. Aturaram-lhe manias e melancolias, hotéis e capitéis, zangas e tangas; mundos e fundos. À custa deles permaneceu à tona. E nem uma palavra? Pois que se dane! Quando entrar pela janela da varanda uma rabanada de vento amargo, cairemos em estilhaços, recusando-lhe os braços. Puxaremos para cima um cobertor de pó, é o que não falta! E cobertas e às escuras, veremos como sobrevive só...

domingo, maio 01, 2005

Dia da Mãe

Venho de dar um beijo à minha. Sofre de Alzheimer, infelizmente estou certo que vários de vocês dirão o mesmo. Já não conheceu os bisnetos como tal, não viu Cantelães crescer, a dama de companhia é hoje a única pessoa a despertar-lhe a atenção (e é mais do que justo!, pela forma como a trata). Minha Mãe foi o colo - severo e doce... - de todos os Machado Vaz ao longo da vida. Recordo-lhe o riso aberto e franco, a força de vontade inquebrantável, a inteligência aguda de auto-didacta, a timidez que vencia no palco, a mão protectora que acariciava cabelos como a de ninguém. Quando balbucia palavras sem nexo, não evito a sensação de que um resto dela se debate lá no fundo, tentando ainda ajudar o filho. Visito-a menos do que devia, assim tentando evitar saudade e medo. Egoísmo perdedor... Porque a saudade cresce com os anos e o medo de acabar como ela, morto antes da morte, também. À minha esquerda, uma fotografia dos tempos de namoro com meu Pai. Apúlia. Uma rapariguinha séria de vinte e seis e um homem de quarenta que devia estar muito apaixonado para se passear de fato e gravata pela areia, ele!, que odiava cordialmente a natureza:). Um amor improvável que durou cinquenta anos. E que se algumas vezes me fez sentir excluído, nunca me deixou dúvidas sobre o enorme privilégio que foi assistir à sua sobrevivência a todos os escolhos - e não foram poucos... - que a vida lhe reservou.
Bons dias das Mães, maralhal, não gosto de encafuar os sentimentos em dias certos.