Años.
El tiempo pasa,
nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo como ayer.
En cada conversación
cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de
razón.
Pasan los años
y como cambia lo que yo siento
lo que ayer era amor
se va volviendo otro sentimiento.
Porque años atrás
tomar tu mano, robarte un beso
sin forzar un momento
formaban parte de una verdad.
El tiempo pasa
nos vamos poniendo viejos
el amor no lo reflejo como ayer.
En cada conversación
cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de
temor.
Vamos viviendo,
viendo las horas que van muriendo,
las viejas discusiones
se van perdiendo entre las razones.
A todo dices que sí,
a nada digo que no
para poder construir
la terrible armonía
que pone viejo los corazones.
Porque el tiempo pasa
y nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo como ayer.
En cada conversación
cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de razón.
Pablo Milanes.
sexta-feira, setembro 09, 2005
quinta-feira, setembro 08, 2005
Os opostos.
Um dos problemas quando discutimos amor e ódio é a nossa tendência para raciocinar em termos de conceitos opostos e mutuamente exclusivos - o ódio opor-se-ia ao amor e os dois sentimentos não coexistiriam. Pelo contrário, um anunciaria o fim do outro. Na clínica - e nas nossas vidas... - observamos que as coisas são mais complicadas. Desde logo, porque somos bichos ambivalentes. Mas também sou muito céptico quanto à possibilidade de declarar morto o amor na cabeça de alguém que passou a odiar o outro. O mais das vezes, o fim do amor apenas é seguro quando deixamos de rezar para que a pessoa seja atropelada:); ou já não tememos encontrá-la com um braço que não o nosso por cima dos ombros. A pacificação está na indiferença, não no ódio, que continua a ser uma forma de dependência. Em raciocínio dicotómico, poderíamos dizer que nesses casos o oposto do amor não seria o ódio, mas uma espécie de "amnésia afectiva".
quarta-feira, setembro 07, 2005
Às vezes a consciência é difícil:).
"Elaborou o plano com tanto ódio que a fez estremecer a ideia de que o teria feito da mesma maneira se fosse com amor...".
S.Gabriel, Cem Anos de Solidão.
S.Gabriel, Cem Anos de Solidão.
segunda-feira, setembro 05, 2005
Do mesmo livro.
"Sim, ele teria amado esse jovem agitador que vivia no meio dos pobres, e contra o qual se encarniçavam Roma, com os seus soldados, os doutores, com a sua Lei, a populaça, com os seus gritos. Mas que, destacado da Trindade e descido na Palestina, esse jovem judeu tivesse vindo salvar a raça de Adão com quatro mil anos de atraso em relação à Falta, e que só mediante ele se pudesse ir para o céu, Natanael acreditava tanto nisso como nas demais fábulas compiladas pela douta gente. Ia tudo bem enquanto tais histórias flutuassem como nuvens inocentes na imaginação dos homens; petrificadas em dogmas, pesando duramente sobre a terra, não passavam de nefastos lugares santos frequentados pelos mercadores do Templo, com os seus matadouros de vítimas e o seu pátio de lapidações."
P.S. - Uma coisa é nós estarmos conscientes de...; outra, a nossa consciência estar consciente de nós. Olá, se é:).
P.S. - Uma coisa é nós estarmos conscientes de...; outra, a nossa consciência estar consciente de nós. Olá, se é:).
domingo, setembro 04, 2005
Ó Manolo, por quem é! Muda-se de assunto e é já:).
"Ninguém tem o direito de se intrometer entre uma consciência e Deus".
Marguerite Yourcenar, Como a água que corre.
Marguerite Yourcenar, Como a água que corre.
sábado, setembro 03, 2005
A propósito do choro.
"Às vezes, o meu peito é uma barragem assustada pela estação das chuvas. Serei um dia obrigado a escancarar-lhe as comportas para o não estilhaçar?"
sexta-feira, setembro 02, 2005
A masculinidade... A segurança básica...
"De qualquer modo, a verdade é que vira o meu pai chorar, o que me pareceu que alterava uma ordem natural não escrita. Regressei à cama cheio de pressentimentos e convencido de que se tinha quebrado alguma coisa fundamental a cuja reconstrução teria de dedicar o resto da vida."
Juan José Millás, A Ordem Alfabética.
Juan José Millás, A Ordem Alfabética.
quinta-feira, setembro 01, 2005
Caros Porty e António Pedro.
É verdade que os Machado Vaz foram seareiros e educados na convicção de que a Democracia defende os direitos de todos, até dos que conspiram para a derrubar. Mas o principal motivo de colocar um post com este triste "apelo às armas" reside na nota final. Por vezes, na euforia de determinados momentos históricos, pessoas ou movimentos entraram na vertigem do "é proibido proibir" (ele próprio, de resto, uma proibição). Tais posições podem tornar-se armas de arremesso de eleição para quem cultiva o populismo. Não acredito em avanços de "fogachada e largo espectro", mas em caminhadas seguras, metódicas e com o bom-senso que não receia o desprezo de quem se precipita no desconhecido. A náusea que certos argumentos e objectivos nos provocam não devem impedir a crítica imediata - ou, pelo menos a posteriori - de posições defendidas por pessoas que nos são queridas. Não se trata de uma cedência aos "outros", mas de uma obrigação ética.
quarta-feira, agosto 31, 2005
Manifestação.
Uma espectadora pediu-me para comentar este texto no Estes Difíceis Amores:
Assunto: Manifestação da Frente Nacional contra os casamentos dos homossexuais
Cito - "O caso Casa Pia está de volta, e com ele estão de volta os protestos dos
nacionalistas perante o desenrolar do caso que, anunciado como «um terramoto»,
tem vindo gradualmente a tornar-se numa amostra de arrastão. A montanha ainda
não pariu, mas parece grávida de um rato...
Tendo sido libertados quase todos os suspeitos de um dos maiores crimes da
humanidade restou o solitário Bibi para «dar a cara» pelos políticos e pelo
responsável da vinda do Europeu de Futebol para Portugal - sabe-se lá a troco de
quê. Mas a cereja em cima do bolo foi um dos principais arguidos desse processo
ter sido recebido com palmas no Parlamento, ficando a faltar-lhe apenas a
habitual condecoração com que o «presidente de todos os imigrantes» costuma
brindar aqueles que se destacam por... serem muito seus amigos.
Tal como o Governo Espanhol cedeu ao «lobby gay» permitindo que duas pessoas do
mesmo sexo possam casar, sejam elas gays, lésbicas, travestis, transsexuais, ou
outra anormalidade qualquer do (ou sem) género, e depois da reacção de 1 milhão
de espanhóis que gritaram nas ruas de Madrid «não ao casamento e adopção de
crianças por parelhas homossexuais», achamos que chegou a nossa vez e que o
Governo prepara terreno para, também em Portugal, ceder às pressões desse
obscuro, mas poderoso, lobby. O facto do Serdezelo da Opus Gay integrar as
listas do PS devido ao facto de ser gay é um bom (mau!) prenúncio disso mesmo.
Aliás, as ameaças feitas pelo «lobby gay», de revelar publicamente a lista de
deputados homossexuais que não cedessem às suas exigências, são uma prova do
tipo de poder exercido por estas sinistras organizações. E as suas motivações
são claras, basta prestar atenção às declarações do Serdezelo, ao Correio da
Manhã de 17/03/2005, quando disse que «a pornografia funciona como uma ajuda na
estruturação da identidade sexual dos jovens de 14-15 anos». Pornografia... ou
promoção da pedofilia?! Estruturação da identidade... ou formação de
homossexuais?! Vale a pena lembrar o que disse um cientista perito em estudos
sobre a homossexualidade, a propósito de tais criaturas: «sinto que por vezes
são expostos desde muito cedo a pornografia…». Realmente, o interesse das
organizações que defendem a homossexualidade anda muito longe do simples lazer,
andando mais próximo da formação, não de mentalidades, mas... de novos recrutas!
Mas tudo isto não é novidade, sobretudo se nos lembrarmos que, há alguns anos,
figuras importantes da política europeia assinaram uma petição a solicitar... a
despenalização da pedofilia! Quem eram essas «personalidades»? Jean-Paul Sartre,
Michel Foucault, Simone de Beauvoir, Roland Barthes, Alain Robbe-Grillet,
Françoise Dolto, Jacques Derrida, Bernard Kouchner, André Glucksmann, François
Chatelet, Jack Lang e muitos outros de Félix Guattari a Patrice Chéreau ou
Daniel Guérin e Philippe Sollers. Interrogado hoje, Sollers não se recorda:
«Havia tantas petições, assinava-se quase automaticamente...». Daniel
Cohn-Bendit, um dos líderes de extrema-esquerda do Maio de 68, hoje deputado
europeu pelo partido Os Verdes, dava conta de um dos motivos que o levava a
considerar a pedofilia como normal, contando as suas experiências num jardim de
infância alternativo com crianças de 5 e 6 anos: «Eles abriam-me a braguilha
(...) o desejo deles colocava-me um problema, mas eles insistiam e eu
acariciava-os apesar de tudo».
Mas não se iluda, porque apesar dessas propostas aberrantes terem vindo da
extrema-esquerda -- o que até demonstra coragem, ao assumirem o nojo que são...
-- os tentáculos do «lobby gay» não escolhem «esquerda» ou «direita», sendo
transversais a todos os espectros políticos do sistema. Aliás o silêncio que os
partidos da assembleia votaram, em acordo mútuo, sobre o «Caso Casa Pia», e a
total ausência de posições destes contra o casamento ou adopção de crianças por
homossexuais, é bem elucidativa da podridão que grassa na sociedade, com os
políticos no topo da pirâmide.
Ninguém pode assistir a tudo isto em silêncio! Por isso nos associamos ao
abaixo-assinado contra a exibição de programas que visam promover comportamentos
alternativos numa tentativa de reeducação (i)moral das nossas crianças. Assine a
petição, distribua, comente com os seus amigos, colegas e conhecidos, proteste e
demonstre a sua indignação perante a pouca-vergonha!
Por tudo isto, e muito mais, é nossa obrigação estarmos na linha da frente na
apresentação de uma verdadeira alternativa à corja política de intelectualóides,
vendidos, traidores, mentirosos e restante pandilha que aparece diariamente na
caixa mágica a prometer mundos e fundos. Associamo-nos a esta manifestação
fazendo um apelo a que todos os portugueses, independentemente da sua idade,
ideologia, condição social, etc., se juntem ao protesto contra a pedofilia e
contra a adopção de crianças por homossexuais. Será um momento histórico e você
pode, e deve, fazer parte dele.
Honrar o passado / agir no presente / garantir o futuro!" - fim de citação.
Circula na Net. Dá pano para mangas. E para diversas carapuças...
Assunto: Manifestação da Frente Nacional contra os casamentos dos homossexuais
Cito - "O caso Casa Pia está de volta, e com ele estão de volta os protestos dos
nacionalistas perante o desenrolar do caso que, anunciado como «um terramoto»,
tem vindo gradualmente a tornar-se numa amostra de arrastão. A montanha ainda
não pariu, mas parece grávida de um rato...
Tendo sido libertados quase todos os suspeitos de um dos maiores crimes da
humanidade restou o solitário Bibi para «dar a cara» pelos políticos e pelo
responsável da vinda do Europeu de Futebol para Portugal - sabe-se lá a troco de
quê. Mas a cereja em cima do bolo foi um dos principais arguidos desse processo
ter sido recebido com palmas no Parlamento, ficando a faltar-lhe apenas a
habitual condecoração com que o «presidente de todos os imigrantes» costuma
brindar aqueles que se destacam por... serem muito seus amigos.
Tal como o Governo Espanhol cedeu ao «lobby gay» permitindo que duas pessoas do
mesmo sexo possam casar, sejam elas gays, lésbicas, travestis, transsexuais, ou
outra anormalidade qualquer do (ou sem) género, e depois da reacção de 1 milhão
de espanhóis que gritaram nas ruas de Madrid «não ao casamento e adopção de
crianças por parelhas homossexuais», achamos que chegou a nossa vez e que o
Governo prepara terreno para, também em Portugal, ceder às pressões desse
obscuro, mas poderoso, lobby. O facto do Serdezelo da Opus Gay integrar as
listas do PS devido ao facto de ser gay é um bom (mau!) prenúncio disso mesmo.
Aliás, as ameaças feitas pelo «lobby gay», de revelar publicamente a lista de
deputados homossexuais que não cedessem às suas exigências, são uma prova do
tipo de poder exercido por estas sinistras organizações. E as suas motivações
são claras, basta prestar atenção às declarações do Serdezelo, ao Correio da
Manhã de 17/03/2005, quando disse que «a pornografia funciona como uma ajuda na
estruturação da identidade sexual dos jovens de 14-15 anos». Pornografia... ou
promoção da pedofilia?! Estruturação da identidade... ou formação de
homossexuais?! Vale a pena lembrar o que disse um cientista perito em estudos
sobre a homossexualidade, a propósito de tais criaturas: «sinto que por vezes
são expostos desde muito cedo a pornografia…». Realmente, o interesse das
organizações que defendem a homossexualidade anda muito longe do simples lazer,
andando mais próximo da formação, não de mentalidades, mas... de novos recrutas!
Mas tudo isto não é novidade, sobretudo se nos lembrarmos que, há alguns anos,
figuras importantes da política europeia assinaram uma petição a solicitar... a
despenalização da pedofilia! Quem eram essas «personalidades»? Jean-Paul Sartre,
Michel Foucault, Simone de Beauvoir, Roland Barthes, Alain Robbe-Grillet,
Françoise Dolto, Jacques Derrida, Bernard Kouchner, André Glucksmann, François
Chatelet, Jack Lang e muitos outros de Félix Guattari a Patrice Chéreau ou
Daniel Guérin e Philippe Sollers. Interrogado hoje, Sollers não se recorda:
«Havia tantas petições, assinava-se quase automaticamente...». Daniel
Cohn-Bendit, um dos líderes de extrema-esquerda do Maio de 68, hoje deputado
europeu pelo partido Os Verdes, dava conta de um dos motivos que o levava a
considerar a pedofilia como normal, contando as suas experiências num jardim de
infância alternativo com crianças de 5 e 6 anos: «Eles abriam-me a braguilha
(...) o desejo deles colocava-me um problema, mas eles insistiam e eu
acariciava-os apesar de tudo».
Mas não se iluda, porque apesar dessas propostas aberrantes terem vindo da
extrema-esquerda -- o que até demonstra coragem, ao assumirem o nojo que são...
-- os tentáculos do «lobby gay» não escolhem «esquerda» ou «direita», sendo
transversais a todos os espectros políticos do sistema. Aliás o silêncio que os
partidos da assembleia votaram, em acordo mútuo, sobre o «Caso Casa Pia», e a
total ausência de posições destes contra o casamento ou adopção de crianças por
homossexuais, é bem elucidativa da podridão que grassa na sociedade, com os
políticos no topo da pirâmide.
Ninguém pode assistir a tudo isto em silêncio! Por isso nos associamos ao
abaixo-assinado contra a exibição de programas que visam promover comportamentos
alternativos numa tentativa de reeducação (i)moral das nossas crianças. Assine a
petição, distribua, comente com os seus amigos, colegas e conhecidos, proteste e
demonstre a sua indignação perante a pouca-vergonha!
Por tudo isto, e muito mais, é nossa obrigação estarmos na linha da frente na
apresentação de uma verdadeira alternativa à corja política de intelectualóides,
vendidos, traidores, mentirosos e restante pandilha que aparece diariamente na
caixa mágica a prometer mundos e fundos. Associamo-nos a esta manifestação
fazendo um apelo a que todos os portugueses, independentemente da sua idade,
ideologia, condição social, etc., se juntem ao protesto contra a pedofilia e
contra a adopção de crianças por homossexuais. Será um momento histórico e você
pode, e deve, fazer parte dele.
Honrar o passado / agir no presente / garantir o futuro!" - fim de citação.
Circula na Net. Dá pano para mangas. E para diversas carapuças...
terça-feira, agosto 30, 2005
As perigosas férias...
41 mulheres vítimas de violência doméstica em Espanha desde o início do ano. Segundo os psicólogos, durante as férias a convivência é mais estreita, o que acentua o momento da ruptura quando há crise.
É verdade. Quantas vezes ouvi palavras de esperança antes do Verão: "com as férias "isto" melhora". Nem sempre. O quotidiano, com o seu ritmo alucinante e o afastamento entre os membros do casal, acaba por camuflar o apodrecer de muitas relações. Mas nas férias são 24 horas sobre 24 juntos e as brechas aprofundam-se...
É verdade. Quantas vezes ouvi palavras de esperança antes do Verão: "com as férias "isto" melhora". Nem sempre. O quotidiano, com o seu ritmo alucinante e o afastamento entre os membros do casal, acaba por camuflar o apodrecer de muitas relações. Mas nas férias são 24 horas sobre 24 juntos e as brechas aprofundam-se...
segunda-feira, agosto 29, 2005
Os Balint nas suas próprias palavras.
"... todo o sintoma - por mais complexa ou desesperada que seja a situação - deveria ser correctamente examinado com o doente e, se possível, pelo doente. Este conselho é fácil de dar, mas, em virtude da sua formação, os médicos consideram-no muito difícil de seguir."
M.Balint e E.Balint - Técnicas psicoterapêuticas em Medicina.
Passaram 44 anos, mas não creio que a formação dos médicos seja ainda a mais adequada a este nível. A "ideologia" das super-especialidades torna problemática a adopção de um estilo na relação médico-doente que permita esta verdadeira aliança terapêutica entre os dois Sujeitos presentes na consulta.
M.Balint e E.Balint - Técnicas psicoterapêuticas em Medicina.
Passaram 44 anos, mas não creio que a formação dos médicos seja ainda a mais adequada a este nível. A "ideologia" das super-especialidades torna problemática a adopção de um estilo na relação médico-doente que permita esta verdadeira aliança terapêutica entre os dois Sujeitos presentes na consulta.
domingo, agosto 28, 2005
A pedra na chuteira:).
Admito que:
1) Houve quem se esquecesse do campeonato miserável do Porto e do Sporting e acreditasse que ganhámos o ano passado "contra tudo e contra todos".
2) Os famosos reforços que nos iam deixar de boca aberta não chegaram e o dinheiro da transferência do Miguel ainda vem a caminho.
3) O Simão não está em forma desde 2004.
4) O guarda-redes do Gil voa como os anjos do Senhor.
5) O árbitro marcou um penalti duvidoso e esqueceu-se de dois evidentes.
6) O Nuno Gomes tentou.
7) O sistema era tão inovador que baralhou o adversário e o Benfica.
8) Um auto-golo é um galo - ups!, raio de palavra:) - do caraças.
MAS..., O BETO A MÉDIO ALA?
E por que não o Moreira a ponta de lança?
1) Houve quem se esquecesse do campeonato miserável do Porto e do Sporting e acreditasse que ganhámos o ano passado "contra tudo e contra todos".
2) Os famosos reforços que nos iam deixar de boca aberta não chegaram e o dinheiro da transferência do Miguel ainda vem a caminho.
3) O Simão não está em forma desde 2004.
4) O guarda-redes do Gil voa como os anjos do Senhor.
5) O árbitro marcou um penalti duvidoso e esqueceu-se de dois evidentes.
6) O Nuno Gomes tentou.
7) O sistema era tão inovador que baralhou o adversário e o Benfica.
8) Um auto-golo é um galo - ups!, raio de palavra:) - do caraças.
MAS..., O BETO A MÉDIO ALA?
E por que não o Moreira a ponta de lança?
sábado, agosto 27, 2005
Balint.
Para os que tenham lido uma citação minha no Correio da Manhã, devo esclarecer que não foi incluída a seguinte frase: "Balint escreveu que o médico se prescreve a si próprio, pela segurança que transmite e a empatia que cria com o doente". Ou seja: não só o médico influencia o resultado da medicação, como o efeito placebo surge também no exercício da Medicina Ocidental.
sexta-feira, agosto 26, 2005
"Intuição feminina"?
Maria, minha querida,
Tinhas razão - bastou ver os miúdos na piscina de Cantelães para ter a certeza que a casa foi uma boa ideia e os Machado Vaz crescerão nela com prazer, memória e corações entrelaçados. Devo-te um pedido de desculpas por rosnar "isso é a famosa intuição feminina?" quando mo asseguraste, anos atrás. E apresentá-lo-ei. Mas só se fizeres o mesmo! Achas que responder "não, o caso não a exige. Tu é que sofres de miopia neuronal masculina" foi delicado?!
Pensa nisso. Até porque podíamos desculpar-nos um ao outro e fazer as honras a um peixito em Matosinhos ao mesmo tempo... A meias, claro!, não te quero ameaçar os rituais igualitários:).
Tinhas razão - bastou ver os miúdos na piscina de Cantelães para ter a certeza que a casa foi uma boa ideia e os Machado Vaz crescerão nela com prazer, memória e corações entrelaçados. Devo-te um pedido de desculpas por rosnar "isso é a famosa intuição feminina?" quando mo asseguraste, anos atrás. E apresentá-lo-ei. Mas só se fizeres o mesmo! Achas que responder "não, o caso não a exige. Tu é que sofres de miopia neuronal masculina" foi delicado?!
Pensa nisso. Até porque podíamos desculpar-nos um ao outro e fazer as honras a um peixito em Matosinhos ao mesmo tempo... A meias, claro!, não te quero ameaçar os rituais igualitários:).
quinta-feira, agosto 25, 2005
Atentado ao pudor.
O juiz olhou-o, incrédulo. Parecia um homem decente, incapaz de acto tão repulsivo na via pública. Sem antecedentes criminais, pai de família extremoso. Pelo menos assim o tinham descrito alguns amigos, também eles atónitos. A mulher exilara-se com as crianças em casa dos pais. Os papéis de divórcio já faziam um caminho pacífico através da burocracia, ele fora o primeiro a admitir que o casamento estava condenado. Na realidade, confessava tudo, menos duas coisas: remorsos e motivo.
O Meretíssimo até agradecia a ausência de arrependimento, o facto tornava menos problemática a sentença exemplar que lhe reservava. Mas o motivo... E não resistiu,
- Por que o fez, homem de Deus?
O repugnante exibicionista fitou-o intensamente. Os olhos brilhavam tanto que Sua Excelência se encostou para trás no cadeirão e procurou de soslaio a segurança do guarda armado que dormitava ao canto da sala. E o desalmado, em vez de alinhavar um daqueles "não sei, senhor Dr. Juiz" sumidos em busca de compaixão, encolheu os ombros e exibiu-se de novo, agora pela palavra:
"Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso".*
Foi condenado por atentado ao pudor e com a indicação de se tratar de um provável reincidente no futuro. Não disse nada, não pediu nada. Consta que ainda permanece na prisão, não solicitou precárias e passa o tempo na cela a desenhar. A cada novo esboço murmura "não era assim" e recomeça. Só desenha sorrisos de mulher...
* Eugénio de Andrade, O Sorriso. Em O Outro Nome da Terra.
O Meretíssimo até agradecia a ausência de arrependimento, o facto tornava menos problemática a sentença exemplar que lhe reservava. Mas o motivo... E não resistiu,
- Por que o fez, homem de Deus?
O repugnante exibicionista fitou-o intensamente. Os olhos brilhavam tanto que Sua Excelência se encostou para trás no cadeirão e procurou de soslaio a segurança do guarda armado que dormitava ao canto da sala. E o desalmado, em vez de alinhavar um daqueles "não sei, senhor Dr. Juiz" sumidos em busca de compaixão, encolheu os ombros e exibiu-se de novo, agora pela palavra:
"Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso".*
Foi condenado por atentado ao pudor e com a indicação de se tratar de um provável reincidente no futuro. Não disse nada, não pediu nada. Consta que ainda permanece na prisão, não solicitou precárias e passa o tempo na cela a desenhar. A cada novo esboço murmura "não era assim" e recomeça. Só desenha sorrisos de mulher...
* Eugénio de Andrade, O Sorriso. Em O Outro Nome da Terra.
quarta-feira, agosto 24, 2005
Finalmente a prova: Eugénio de Andrade partilhava as ideias do Noise sobre a poesia!:)
"Não sou um poeta inspirado, o poema é em mim conquistado sílaba a sílaba."
Eugénio de Andrade, Da Palavra ao Silêncio.
Eugénio de Andrade, Da Palavra ao Silêncio.
terça-feira, agosto 23, 2005
Poética.
"O futuro do homem é o homem", estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração - acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela.
Eugénio de Andrade, Rosto Precário.
Eugénio de Andrade, Rosto Precário.
segunda-feira, agosto 22, 2005
Levei os meus livros do Eugénio para Cantelães, acho que ele preferiria assim.
A propósito dos amores, todos:
Escrita da Terra
1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.
2.
Só o desejo é matinal.
3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.
4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.
Etc...:).
Escrita da Terra
1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.
2.
Só o desejo é matinal.
3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.
4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.
Etc...:).
domingo, agosto 21, 2005
Para Eubozeno.
No problemo:) - PAI!
Mas também me ocorrem SIM (foi com esta que a Ioko apanhou o John), LUZ, VEM e NÓS.
P.S: O Noise explicará as motivações freudianas para cada uma porque eu tenho os netos aos berros e é meu dever ir agravar a situação:).
Mas também me ocorrem SIM (foi com esta que a Ioko apanhou o John), LUZ, VEM e NÓS.
P.S: O Noise explicará as motivações freudianas para cada uma porque eu tenho os netos aos berros e é meu dever ir agravar a situação:).
sábado, agosto 20, 2005
Na esteira de S.Gabriel.
O RAM foi buscar a "artilharia pesada":).
"Mesmo que seja verdade o que te dizem os ciúmes"...
Pois. E sem gaiolas temporais!, os ciúmes pintam, de amarelo traiçoeiro, passado, presente e futuro. Neste último caso, há questões curiosas. Se somos abandonados, é frequente surgirem ruminações sobre o "escândalo" de existir felicidade ou simples curtição que nos não implica. Mas quando somos nós a partir, mesmo depois de madura(?) reflexão, e acontece o mesmo? Dois aspectos me impressionam, sobretudo nos homens: a nostalgia do "depois de mim o dilúvio", em que o outro arrasta saudade - e virgindade secundária:) - até à morte; e a posse disfarçada de amor, que faz alguns e algumas regressarem para marcar terreno e partir de novo quando espantaram intrusos.
P.S. Quanto à crueldade exibida pelo RAM, ao incluir a frase "sem romantismos de Avô", não farei qualquer comentário. Os actos ficam com que os comete:(. Snif, snif...
"Mesmo que seja verdade o que te dizem os ciúmes"...
Pois. E sem gaiolas temporais!, os ciúmes pintam, de amarelo traiçoeiro, passado, presente e futuro. Neste último caso, há questões curiosas. Se somos abandonados, é frequente surgirem ruminações sobre o "escândalo" de existir felicidade ou simples curtição que nos não implica. Mas quando somos nós a partir, mesmo depois de madura(?) reflexão, e acontece o mesmo? Dois aspectos me impressionam, sobretudo nos homens: a nostalgia do "depois de mim o dilúvio", em que o outro arrasta saudade - e virgindade secundária:) - até à morte; e a posse disfarçada de amor, que faz alguns e algumas regressarem para marcar terreno e partir de novo quando espantaram intrusos.
P.S. Quanto à crueldade exibida pelo RAM, ao incluir a frase "sem romantismos de Avô", não farei qualquer comentário. Os actos ficam com que os comete:(. Snif, snif...
sexta-feira, agosto 19, 2005
Isto parece um programa de discos e poemas pedidos:).
Sempre
Do teu passado
não tenho ciúmes.
Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos cabelos,
vem com mil homens entre o peito e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo!
Trá-los a todos
ao lugar onde te espero:
estaremos sempre sós,
estaremos sempre, tu e eu,
sozinhos sobre a terra
para começar a vida!
(Pablo Neruda, Os Versos do Capitão).
Do teu passado
não tenho ciúmes.
Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos cabelos,
vem com mil homens entre o peito e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo!
Trá-los a todos
ao lugar onde te espero:
estaremos sempre sós,
estaremos sempre, tu e eu,
sozinhos sobre a terra
para começar a vida!
(Pablo Neruda, Os Versos do Capitão).
quinta-feira, agosto 18, 2005
Porque estamos no Verão.
Arte de Navegar
Vê como o Verão
subitamente
se faz água no teu peito,
e a noite se faz barco,
e minha mão marinheiro.
(Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio.)
Vê como o Verão
subitamente
se faz água no teu peito,
e a noite se faz barco,
e minha mão marinheiro.
(Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio.)
quarta-feira, agosto 17, 2005
Recaída:(.
Não consigo manter-me no registo científico, sou um caso perdido:(:
Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.
Eugénio de Andrade, Matéria Solar.
Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.
Eugénio de Andrade, Matéria Solar.
Para salvar a minha reputação!
Para calar os que me acusam de ser um mero psiquiatra, venho juntar à discussão este naco de prosa, que demonstra como me debruço com o maior interesse sobre todos os mecanismos "íntimos" da sexualidade feminina e não apenas os psicológicos:):
"E por fim o Óxido Nítrico. Um dos grandes avanços na compreensão da fisiologia sexual foi perceber qual o papel do NO na relaxação das fibras musculares lisas vasculares e não vasculares.
Há libertação pelas terminações nervosas NANC de NO e citrulina a partir da L-Arginina sob acção da NOS. A adenilciclase vai actuar sobre a Adenosina Trifosfato (ATP) transformando-a em Adenosina Monofosfato cíclico nos músculos lisos. Nas células endoteliais o NO por acção da Guanilciclase sobre a Guanosina Trifosfato vai formar a Guanosina Monofosfato cíclico que é responsável pela deplecção do cálcio intracelular provocando o relaxamento da parede vascular aumentando assim a circulação e por consequência o engorgitamento da parede vaginal e clítoris."
(Santinho Martins, em A Sexologia).
P.S. Não continuo a citação porque a partir daqui todos sabemos que "as fosfodiesterases..."
"E por fim o Óxido Nítrico. Um dos grandes avanços na compreensão da fisiologia sexual foi perceber qual o papel do NO na relaxação das fibras musculares lisas vasculares e não vasculares.
Há libertação pelas terminações nervosas NANC de NO e citrulina a partir da L-Arginina sob acção da NOS. A adenilciclase vai actuar sobre a Adenosina Trifosfato (ATP) transformando-a em Adenosina Monofosfato cíclico nos músculos lisos. Nas células endoteliais o NO por acção da Guanilciclase sobre a Guanosina Trifosfato vai formar a Guanosina Monofosfato cíclico que é responsável pela deplecção do cálcio intracelular provocando o relaxamento da parede vascular aumentando assim a circulação e por consequência o engorgitamento da parede vaginal e clítoris."
(Santinho Martins, em A Sexologia).
P.S. Não continuo a citação porque a partir daqui todos sabemos que "as fosfodiesterases..."
terça-feira, agosto 16, 2005
Para complicar a história:).
Em relação ao orgasmo, algumas dicas:
1) A Sexologia é por muitos acusada de se ter transformado numa "orgasmologia", por ter ajudado a erigir o orgasmo na relação heterossexual como única "ambição erótica normal". O erotismo recusa qualquer espartilho deste género. Por vezes, surge outro mito à arreata - o orgasmo simultâneo como "melhor orgasmo".
2) O facto da resposta sexual feminina ser considerada mais complexa não implica a negação das semelhanças das respostas sexuais dos dois sexos. E não deve ser utilizado para a patologização da vida sexual das mulheres, ao serviço dos interesses dos laboratórios farmacêuticos que procuram criar e vender um "viagra" para o fabuloso mercado feminino.
3) No caso do orgasmo, seria simplista ligá-lo apenas à "incompetência erótica" do(a) parceiro(a). Em ambos os sexos encontramos anorgasmias devidas a problemas da relação ou do indivíduo.
4) A anorgasmia é primária se sempre existiu por qualquer tipo de estimulação (coital, se apenas no coito). Secundária se instalada após funcionamento sem problemas.
5) Importante é falar da anorgasmia situacional, em que o orgasmo aparece com um(a) parceiro(a) e não com outro(a). Facto que mostra claramente a importância dos factores psicológicos, quando não é referida incompetência do(a) parceiro(a) ou falta de atracção por ele(a).
6) Os casos de anorgasmia masculina relativa - pelo menos... - têm vindo a aumentar, mesmo na ausência de consumo de drogas que facilitam o seu aparecimento. Nestes casos, a erecção é obtida sem problemas, contudo o orgasmo aparece com dificuldade, sendo muitas vezes facilmente atingido através da masturbação.
1) A Sexologia é por muitos acusada de se ter transformado numa "orgasmologia", por ter ajudado a erigir o orgasmo na relação heterossexual como única "ambição erótica normal". O erotismo recusa qualquer espartilho deste género. Por vezes, surge outro mito à arreata - o orgasmo simultâneo como "melhor orgasmo".
2) O facto da resposta sexual feminina ser considerada mais complexa não implica a negação das semelhanças das respostas sexuais dos dois sexos. E não deve ser utilizado para a patologização da vida sexual das mulheres, ao serviço dos interesses dos laboratórios farmacêuticos que procuram criar e vender um "viagra" para o fabuloso mercado feminino.
3) No caso do orgasmo, seria simplista ligá-lo apenas à "incompetência erótica" do(a) parceiro(a). Em ambos os sexos encontramos anorgasmias devidas a problemas da relação ou do indivíduo.
4) A anorgasmia é primária se sempre existiu por qualquer tipo de estimulação (coital, se apenas no coito). Secundária se instalada após funcionamento sem problemas.
5) Importante é falar da anorgasmia situacional, em que o orgasmo aparece com um(a) parceiro(a) e não com outro(a). Facto que mostra claramente a importância dos factores psicológicos, quando não é referida incompetência do(a) parceiro(a) ou falta de atracção por ele(a).
6) Os casos de anorgasmia masculina relativa - pelo menos... - têm vindo a aumentar, mesmo na ausência de consumo de drogas que facilitam o seu aparecimento. Nestes casos, a erecção é obtida sem problemas, contudo o orgasmo aparece com dificuldade, sendo muitas vezes facilmente atingido através da masturbação.
domingo, agosto 14, 2005
Ney.
Sábado, fui num pulo ao Porto ver o Ney Matogrosso à Casa da Música. Não sendo um especialista em fado, considero que a intérprete que preencheu a primeira parte deixou a desejar. A reacção gentil, mas pouco entusiástica, do público talvez me dê razão. Adiante. Sempre gostei do maroto, desde os tempos dos Secos e Molhados. Achei-o em boa forma física e com uma voz que lhe permitiu correr riscos com um sorriso nos lábios. A banda era boa. E depois, como da última vez no Coliseu, o espectáculo cultivou um "ascetismo" que me agrada. Sei que alguns franzirão o sobrolho perante a aplicação de tal substantivo ao personagem Ney. Ou dirão, "pois o tipo deixou-se de plumas". Sim e não. Pessoalmente não sou um fã de plumas. Em homens ou mulheres, nas Marchas de Lisboa ou no Lago dos Cisnes. Pode ser impressão minha, mas Ney não me pareceu menos provocador. Pelo contrário!, um par de calças e uma camisa branca é uma indumentária tão respeitável, tão "normal":), e no entanto...: o corpo de Ney ondeou como poucos o conseguem e o olhar tinha um brilho irónico, ou fui eu a inventá-lo. Envelheceu bem, o maroto, com um requinte depurado! E quando no primeiro encore cantou a Rosa de Hiroshima, um monte de recordações fez-me saltar da cadeira com o velho fascínio e uma gratidão renovada. (Passei por uma vergonha, quase toda a gente ficou sentada:)).
Mas o segundo encore - Fala - foi um deslumbramento despojado. Aqui vos deixo o poema:
Fala
Eu não sei dizer nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala
Fala
Se eu não entender, não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar na hora de falar
Então eu escuto
Fala
Mas o segundo encore - Fala - foi um deslumbramento despojado. Aqui vos deixo o poema:
Fala
Eu não sei dizer nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala
Fala
Se eu não entender, não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar na hora de falar
Então eu escuto
Fala
sábado, agosto 13, 2005
O velho Eça:).
Hoje o Expresso debruçava-se sobre os casos de pessoas que abandonam os seus animais durante as férias e a Clara Ferreira Alves deslizava desse abandono para outro - o dos idosos. Acontece que eu estava a reler o Eça (qualquer dia, estou como alguém que dizia: "je ne lis plus; je relis"). E não resisti a passar da tristeza ao riso com o inimitável Ega:
"Voltou-se para o lado, para o Ega:
- Vossa Excelência pertence?
- À Sociedade Protectora dos Animais?... Não, senhor, pertenço à outra, à de Geografia. Sou dos protegidos."
E porque falámos recentemente de quem dirige os destinos das nações:
"- Ó Ega, quem é aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em Inglaterra havia também literatura?
Ega olhou-o com espanto:
- Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste imediatamente quem neste país é capaz de fazer essa pergunta?
- Não sei... Há tanta gente capaz...
E o Ega radiante:
- Oficial superior de uma grande repartição do Estado!
- De qual?
- Ora qual! De qual há-de ser?... Da Instrução Pública!
E agora, maralhal, citando ainda o Ega: vou pastar!:). Fiquem bem.
"Voltou-se para o lado, para o Ega:
- Vossa Excelência pertence?
- À Sociedade Protectora dos Animais?... Não, senhor, pertenço à outra, à de Geografia. Sou dos protegidos."
E porque falámos recentemente de quem dirige os destinos das nações:
"- Ó Ega, quem é aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em Inglaterra havia também literatura?
Ega olhou-o com espanto:
- Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste imediatamente quem neste país é capaz de fazer essa pergunta?
- Não sei... Há tanta gente capaz...
E o Ega radiante:
- Oficial superior de uma grande repartição do Estado!
- De qual?
- Ora qual! De qual há-de ser?... Da Instrução Pública!
E agora, maralhal, citando ainda o Ega: vou pastar!:). Fiquem bem.
sexta-feira, agosto 12, 2005
Na minha idade...
... já é difícil surpreender-me, mas continua a ser fácil desiludir-me. O que se passa com o PT no Brasil é uma tristeza:(. Tanta esperança emporcalhada...
quinta-feira, agosto 11, 2005
E com o início do poema?
Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa
...
E agora? Será desleixo caseiro? Repouso do guerreiro fingidor cá fora? "Defeitos quase todos desfeitos quando depois lá fora...".
P.S. O Noise tem razão: nunca apareço, sozinho ou acompanhado, nas revistas do jet-set. It's an injustice, it is!:(.
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa
...
E agora? Será desleixo caseiro? Repouso do guerreiro fingidor cá fora? "Defeitos quase todos desfeitos quando depois lá fora...".
P.S. O Noise tem razão: nunca apareço, sozinho ou acompanhado, nas revistas do jet-set. It's an injustice, it is!:(.
quarta-feira, agosto 10, 2005
Estou cansado, venha a poesia!
...
Estás aqui comigo e tenho pena de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais do que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estares aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que estás aqui de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
Ruy Belo, Tu estás aqui.
E um leve odor a auto-complacência macha...:). Ou não? Que dizem as meninas?
Estás aqui comigo e tenho pena de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais do que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estares aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que estás aqui de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
Ruy Belo, Tu estás aqui.
E um leve odor a auto-complacência macha...:). Ou não? Que dizem as meninas?
terça-feira, agosto 09, 2005
Longe da Mancha e do Algarve.
Peter O'Toole e os seus olhos transparentes mas não mortiços. D.Quixote, essa paródia genial que acarreta o nosso sonho impossível:). Em Barcelona estava uma exposição notável sobre a sua relação com a cidade. Quanto a mim, só posso contribuir com os moinhos anorécticos de Cantelães. É verdade, cá estou. Rodeado de bruma e chuvisco. E no entanto, feliz por ter deixado o "paradisíaco Algarve". Também eu vivi mais de quarenta anos e vi a vida como é. A burguesa, evidentemente!, nada se torna mais ridículo do que a auto-piedade dos que nunca comeram o pão que o Diabo amassou e se podem oferecer o luxo da angústia existencial. "Ouvi todas as vozes da criatura mais nobre de Deus...". Caraças, meus!, gostava de ter escrito isso... Até amanhã maralhal, sleep tight.
segunda-feira, agosto 08, 2005
A propósito de Morin.
A citação de Morin, que RAM gentilmente nos trouxe, levanta uma questão importante: dizemos com enorme facilidade que somos os animais menos "naturais" que existem. Com efeito. Toda a cultura nos afasta do instintivo, mas todos os interditos sugerem que os comportamentos censurados esperam dentro de nós uma oportunidade, se não por que nos daríamos ao trabalho dessa intransigência? Seremos instintivamente "piores" do que os outros animais? Ou o processo cultural acrescentou traços que não existiam à partida? Teríamos uma civilização ao mesmo tempo protectora e "má conselheira"...
domingo, agosto 07, 2005
Adenda.
Li, com o interesse habitual, a crónica de Vasco Pulido Valente sobre a bomba de Hiroshima. Em desacordo com as suas conclusões, não posso deixar de referir dados para que chama a atenção. A saber, os bombardeamentos indiscriminados de cidades alemãs, como Dresden e Hamburgo. Não foi em Hiroshima que a chacina em massa começou. E é preciso recordar o "ensaio geral" sinistro que foi Guernica...
sábado, agosto 06, 2005
Há sessenta anos, a rosa radioactiva...
Li hoje alguns artigos justificando a decisão de Truman de lançar as bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki. Por coincidência, na RTP1 passou ontem à noite um documentário com declarações de fontes russas e japonesas envolvidas no processo da rendição nipónica. E é muito difícil negar a interpretação de alguns intervenientes: as bombas serviram mais uma estratégia para a relação no pós-guerra com os russos do que fins militares. Com um Imperador que já enviara mensagens claras sobre o seu desejo de terminar a guerra através de canais diplomáticos paralelos, o que teria acontecido se Little Boy fosse lançado numa área não habitada? Francamente, não acredito que o lobby da guerra pudesse resistir à conjugação da vontade imperial e do horror de uma destruição verificável. Dois depoimentos me ficaram na memória: um japonês que descreveu um cenário dantesco de sofrimento humano e acrescentou que a beleza das cores estava para além do imaginável; e um dos aviadores americanos que comeu e bebeu alguma coisa, dormiu, passou o resto da viagem a ver os círculos de fumo que lhe saíam do charuto e mergulhou na festa organizada na base. Recordo um velho texto, de cujas palavras exactas e autor já não me lembro, que dissertava sobre as trágicas consequências dos seres humanos serem os únicos animais que, ao desenvolverem a tecnologia necessária para matar à distância, tinham tornado quase obsoletos os mecanismos inatos de inibição da violência íntra-espécie...
sexta-feira, agosto 05, 2005
O talento ajuda muito a escrever sobre as coisas.
"De uma vez o coração falhou. A enfermeira veio logo, uma seringa no ar. Sandra recompôs-se no sofrimento. Recomeçar. Porque te não deixaram morrer? Mas era assim a lei da caridade humana, mesmo um condenado à morte. Não se mata doente. Trata-se e mata-se depois. Havia que remediar até onde houvesse remédio. Sandra restabeleceu-se e pôde continuar a sofrer. Agora era a dissolução e o horror. Horror de te ver dia a dia no escárnio de ti, quanto tempo ainda? a descida à imagem do ultraje, putrefacção repelência, oculta nas raízes de um homem."
Vergílio Ferreira, Para Sempre.
P.S. Como é óbvio, não concordo com a palavra "caridade" aplicada à Medicina. Trata-se da abordagem clássica da profissão: vencer a dor e retardar o mais possível a morte. A actual discussão bioética introduz outras variáveis: a vontade do doente e o conceito de dignidade humana, traduzido pelo contraste entre "ter uma vida" e "estar vivo".
Vergílio Ferreira, Para Sempre.
P.S. Como é óbvio, não concordo com a palavra "caridade" aplicada à Medicina. Trata-se da abordagem clássica da profissão: vencer a dor e retardar o mais possível a morte. A actual discussão bioética introduz outras variáveis: a vontade do doente e o conceito de dignidade humana, traduzido pelo contraste entre "ter uma vida" e "estar vivo".
quinta-feira, agosto 04, 2005
Wilde e a sua língua afiada...
A citação do Portocroft fez-me sorrir. Ouço gente a falar de amizade e amor no consultório há quase trinta anos. Querem uma visão impressionista? As pessoas perdoam coisas no amor que não perdoam na amizade. Como se aquele fosse volátil, explosivo, reversível. Da amizade esperam uma confiança inabalável, logo, à mercê de qualquer fissura. (Como é evidente, falo de amigos e não dos "amigos" que não passam de meros conhecidos). Por isso estou de acordo com a afirmação de Wilde, mas não pelas mesmas razões. A amizade pode ser mais trágica do que o amor porque o seu fim nunca foi encarado como possível. No amor, a possibilidade de uma catástrofe é, pelo menos, admitida no plano teórico. E cada vez mais, numa sociedade tão efémera. Talvez a idealização da amizade tenha resistido melhor ao passar e mudar dos tempos, esta sociedade efémera também é a do "salve-se quem puder", não é? Quem sabe se a mantemos por necessidade pura e dura:), afinal em que ombros choraríamos as cinzas dos nossos amores se não nos que os amigos estendem em silêncio piedoso, calando o "eu avisei..." da praxe?
quarta-feira, agosto 03, 2005
A andorinha não me deixa ir para a praia que adoro!:)
1 - Creio que a "peregrinação" pelos amores imperfeitos pode facilitar a descoberta do Graal:), mas não por da quantidade surgir a qualidade numa qualquer forma de paciente alquimia. Penso, isso sim, como alguns de vocês sugeriram, que a visão e a expectativa sobre o "amor perfeito" vão mudando e aproximando-se da realidade, logo, da possibilidade de o construir (não acredito em amores prontos-a-vestir...).
2 - Sim, há pessoas que nos podem "assombrar" toda uma vida. Mas atenção!, em muitos casos não se trata - acho... - de amor, mas de idealização do passado, narcisismo ferido, álibi para "cortar o pescoço" a novos amores. Ou alguém pode ficar na nossa cabeça e não impedir que outro alguém nos dê a mão. Basta ver o que seria a vida do Kevin Costner no filme, se não tivesse morrido heroicamente a salvar vidas!:)))). Aquilo sim, é um homem: corajoso, sensível, bonito, calado, bom filho, simpático para o filho dela, extraordinário artífice, marinheiro competente, visita de chocolates em punho, ingénuo na desumana cidade... Espera aí: não será mais simples dizer que é um homem típico? Eh, eh, eh, algumas de vocês vão acrescentar morto aos adjectivos...
2 - Sim, há pessoas que nos podem "assombrar" toda uma vida. Mas atenção!, em muitos casos não se trata - acho... - de amor, mas de idealização do passado, narcisismo ferido, álibi para "cortar o pescoço" a novos amores. Ou alguém pode ficar na nossa cabeça e não impedir que outro alguém nos dê a mão. Basta ver o que seria a vida do Kevin Costner no filme, se não tivesse morrido heroicamente a salvar vidas!:)))). Aquilo sim, é um homem: corajoso, sensível, bonito, calado, bom filho, simpático para o filho dela, extraordinário artífice, marinheiro competente, visita de chocolates em punho, ingénuo na desumana cidade... Espera aí: não será mais simples dizer que é um homem típico? Eh, eh, eh, algumas de vocês vão acrescentar morto aos adjectivos...
terça-feira, agosto 02, 2005
O último moicano:).
Ontem à noite deixei de ser o último português que não vira ou lera "As palavras que nunca te direi"! Fiquei mais sossegado quanto à minha cultura geral, mas não quanto ao meu gosto - por junto e atacado gostei do desempenho de Paul Newman. Pior ainda no que diz respeito a sensibilidade:(, não aderi à enxurrada lacrimejante que me fora descrita. Mas uma coisa é certa, o filme confirma a velha ideia ocidental: os grandes amores são os impossíveis:). E eu voltei a sentir um arrepio, ao imaginar Romeu e Julieta com uma ranchada de filhos e a trocarem caneladas venenosas a peopósito das respectivas famílias. Serão distância ou morte condições indispensáveis aos amores perfeitos?
segunda-feira, agosto 01, 2005
Duas palavras.
A primeira sobre um dos temas que vos ocupou no post anterior. Considero que a Assembleia da República tinha legitimidade para despenalizar o aborto. Na minha opinião, o PS decidiu seguir bovinamente as preferências de António Guterres. Como bovinamente deixou sozinhos na estrada -leia-se campanha... - todos os que deram a cara pela posição oficial do partido. Extraordinário, não é? Senti maior apoio na JSD do que no PS, aterrorizado pela hipótese de desagradar ao seu ungido trunfo eleitoral. O referendo foi o que se viu: da praia às sondagens, passando pela pureza de convicções - que não permitiu a incoerência de ir votar... -, ouvi de tudo nas semanas seguintes de bocas amarguradas. Mas o referendo foi feito e perdido, ganho por quem antes dos resultados os dizia não vinculativos e agora se agarra a eles como às tábuas de Moisés. Ignorá-lo seria, penso, desprezar a democracia. E por isso defendo que um outro se impõe, a menos que seja inviabilizado pela oposição ou pelo pelo próximo PR.
A segunda para a Circe. Que morreu, uma de vocês teve a amabilidade de me "mailar" tal informação. Não foi uma surpresa, atendendo ao tipo de lesões. A Circe acompanhou O Sexo dos Anjos durante oito anos. E depois A Bela e os Monstros. E os programas de televisão. Fez sugestões, críticas, humor. Durante anos enviou para esses programas postais de férias dos mais diversos destinos. Nunca impôs a sua presença física a ninguém. Não sou partidário da habitual "santificação póstuma", tão apreciada pelos portugueses - ocasiões houve em que foi agreste, quase outras tantas em que se penitenciou por isso. Era uma de nós, aqui no blog. E por isso a vossa preocupação ao longo destes dias me convence que, para além das diferenças, debatidas de formas mais ou menos estridentes, construímos uma base mínima de solidariedade que é consensual e definitiva.
A segunda para a Circe. Que morreu, uma de vocês teve a amabilidade de me "mailar" tal informação. Não foi uma surpresa, atendendo ao tipo de lesões. A Circe acompanhou O Sexo dos Anjos durante oito anos. E depois A Bela e os Monstros. E os programas de televisão. Fez sugestões, críticas, humor. Durante anos enviou para esses programas postais de férias dos mais diversos destinos. Nunca impôs a sua presença física a ninguém. Não sou partidário da habitual "santificação póstuma", tão apreciada pelos portugueses - ocasiões houve em que foi agreste, quase outras tantas em que se penitenciou por isso. Era uma de nós, aqui no blog. E por isso a vossa preocupação ao longo destes dias me convence que, para além das diferenças, debatidas de formas mais ou menos estridentes, construímos uma base mínima de solidariedade que é consensual e definitiva.
domingo, julho 31, 2005
A room with a view.
Lembram-se do filme? E da canção? Pois eu estou na mesma. Só que não vejo cidade nem mulher, mas a piscina infantil:). Senhor, os psis, por que os castigais? Anos e anos a vir para o Algarve por causa dos filhos e agora juntam-se-lhes os netos! Detesto o calor, a areia, a multidão; suspiro pela paz de Cantelães. Malévolo, deixo-os partir rumo à praia com a firme intenção de me manter no sossego do relvado com o meu livrinho. Depois os putos viram para mim aquelas faces lisas e coradas, virgens de plásticas e álcool, e entoam um "vens lá ter, pois vens?" que é uma ordem travestida de pergunta. E eu lá me informei na recepção sobre o serviço de carrinhas. Parto às três para o odiado areal, resta-me a consolação de ter o mar ali tão perto (isto é roubado ao Sérgio Godinho:)).
Tendresse oblige!
Tendresse oblige!
sábado, julho 30, 2005
Antes que seja tarde:).
"Sempre mais um ano possível, um dia possível, uma hora. E logo, em atropelo, o futuro, que é uma variante modesta da eternidade. Conquistar um império, escrever um livro, apertar um parafuso da porta. Amar ainda uma mulher - vou escrever uma carta de amor".
Vergílio Ferreira, Para Sempre.
Vergílio Ferreira, Para Sempre.
sexta-feira, julho 29, 2005
A noção de instrumentalismo heterossexual.
"O intrumentalismo heterossexual refere-se aos comportamentos que reflectem e mantêm a expectativa de que toda a heterossexualidade deve ser praticada com requisitos explícitos de dominância e subordinação.
... conseguidas pela força, coacção ou consentimento (implícito ou outro).
... O objectivo último de tais comportamentos é a manutenção das desigualdades de género pré-existentes".
Schacht e Atchinson.
... conseguidas pela força, coacção ou consentimento (implícito ou outro).
... O objectivo último de tais comportamentos é a manutenção das desigualdades de género pré-existentes".
Schacht e Atchinson.
quinta-feira, julho 28, 2005
Adiante.
"Fomos ambas, às vezes, acusadas de "trair as mulheres" apenas por sermos heterossexuais - por "dormirmos com o inimigo". Como feministas lutando nas suas relações, sentimos o facto como um ataque injusto. E contudo a nossa resposta não mostra a raiva que tal injustiça desperta em nós, mas sim uma espécie de postura defensiva apologética. Porque a nossa heterossexualidade não é sentida como uma identidade política (quem desejaria mobilizar-se à volta do facto de ser heterossexual?!), e porque de muitas formas o lesbianismo parece ser a identidade política mais adequada para as feministas, sentimo-nos culpadas. Até nos sentimos ambivalentes ao escrever este artigo - não queríamos ser vistas como atacando as nossas irmãs lésbicas, que já o são suficientemente. E contudo não responder é tornarmo-nos cúmplices do nosso silenciamento. Não é? Tem de existir uma forma de exprimirmos a nossa raiva sem que ela seja interpretada como um ataque às nossas irmãs. Nós ainda a procuramos".
Rosalind Gill e Rebecca Walker.
Rosalind Gill e Rebecca Walker.
As crises.
Sejamos claros: a tertúlia desta noite azedou, e muito! Há vinte anos teria ficado de boca aberta e - perdoem o termo velhinho:) - desgostoso. Lembro-me de um colega me dizer que, por ser eu filho único, alimentava a nostalgia de que todos se dessem bem à minha volta, "como irmãos". Era verdade. Hoje sei que os "irmãos" também se zangam, se sacaneiam, se afastam. Por vezes sem remédio. Outras, o "simples" facto de digerir os conflitos, sem campeonatos obsessivos para averiguar quem deve desculpas a quem ou que protagonista "levou a taça", pode reforçar relações. Já perdemos companheiros de tertúlia e perderemos mais. Entretanto chegaram e chegarão outros. Gosto de imaginar que, se por qualquer razão eu não pudesse servir de catalizador, muitos continuariam o Murcon sem mim, ele tem sido uma experiência muito gratificante.
Devo apenas reafirmar um ponto que me toca e fere. Sempre que a temperatura aquece, alguns de vocês "mailam-me" em privado: uns queixam-se, outros acusam, alguns pedem opinião fora do blog. No big deal:). Mas de vez em quando surge a fantasia de que eu poderia participar no Murcon a coberto de outro nick ou anónimo. Já o disse e repito: nunca o fiz, não faço e não farei. Nada meu aparecerá no blog sem Machado Vaz por baixo. Porque não é o meu estilo e por razões éticas, se o fizesse vocês teriam o direito de achar que eu transformara o Murcon num parque de diversões e experimentação particular. E para tal procedimento, só me ocorre um nome: sacanice.
Já fiz algumas? Seguramente. Preferia não as ter feito? Na maioria dos casos, mas
situações houve de que não me arrependo, do outro lado a metralha também chovia:). Sou monotonamente humano, voilà.
Mas aqui nunca sacaneei ninguém, muito menos a coberto do anonimato. Se algum de vocês o justificar, porei os pontos nos is e arcarei com as consequências. Mas por baixo - nos comentários é por cima:) - da rosnadela, do lamento ou do raspanete ler-se-á Júlio Machado Vaz. That´s all folks:).
Devo apenas reafirmar um ponto que me toca e fere. Sempre que a temperatura aquece, alguns de vocês "mailam-me" em privado: uns queixam-se, outros acusam, alguns pedem opinião fora do blog. No big deal:). Mas de vez em quando surge a fantasia de que eu poderia participar no Murcon a coberto de outro nick ou anónimo. Já o disse e repito: nunca o fiz, não faço e não farei. Nada meu aparecerá no blog sem Machado Vaz por baixo. Porque não é o meu estilo e por razões éticas, se o fizesse vocês teriam o direito de achar que eu transformara o Murcon num parque de diversões e experimentação particular. E para tal procedimento, só me ocorre um nome: sacanice.
Já fiz algumas? Seguramente. Preferia não as ter feito? Na maioria dos casos, mas
situações houve de que não me arrependo, do outro lado a metralha também chovia:). Sou monotonamente humano, voilà.
Mas aqui nunca sacaneei ninguém, muito menos a coberto do anonimato. Se algum de vocês o justificar, porei os pontos nos is e arcarei com as consequências. Mas por baixo - nos comentários é por cima:) - da rosnadela, do lamento ou do raspanete ler-se-á Júlio Machado Vaz. That´s all folks:).
quarta-feira, julho 27, 2005
Pronto, pronto!
Habituei-vos mal, é o que é:). Querem Camille Paglia? Aí está:
"O facto predominante da história sexual moderna não é o patriarcado, mas o colapso e desmembramento da velha família alargada, que deu lugar à família nuclear, unidade isolada que, na sua forma presente, é claustrófoba e psicologicamente instável. A família nuclear só pode funcionar numa situação pioneira, quando o fisicamente árduo trabalho agrícola mantém todos ocupados e exaustos da aurora ao anoitecer. A família nuclear de classe média, em que os pais são profissionais de colarinho branco que fazem um trabalho cerebral, fervilha de frustrações e tensões. Há sempre nas palavras uma carga de tensão, e a autoridade real está noutro lado, com os patrões no trabalho. Isoladas em subúrbios ou barricadas em apartamentos urbanos, as famílias de classe média ascendente têm compromissos freneticamente excessivos e são geograficamente transitórias, desenvolvendo raros laços com a vizinhança e contactos pouco sustentados com familiares".
Camille Paglia. (Não há Lei na Arena, Vampes e Vadias, Antropos).
"O facto predominante da história sexual moderna não é o patriarcado, mas o colapso e desmembramento da velha família alargada, que deu lugar à família nuclear, unidade isolada que, na sua forma presente, é claustrófoba e psicologicamente instável. A família nuclear só pode funcionar numa situação pioneira, quando o fisicamente árduo trabalho agrícola mantém todos ocupados e exaustos da aurora ao anoitecer. A família nuclear de classe média, em que os pais são profissionais de colarinho branco que fazem um trabalho cerebral, fervilha de frustrações e tensões. Há sempre nas palavras uma carga de tensão, e a autoridade real está noutro lado, com os patrões no trabalho. Isoladas em subúrbios ou barricadas em apartamentos urbanos, as famílias de classe média ascendente têm compromissos freneticamente excessivos e são geograficamente transitórias, desenvolvendo raros laços com a vizinhança e contactos pouco sustentados com familiares".
Camille Paglia. (Não há Lei na Arena, Vampes e Vadias, Antropos).
terça-feira, julho 26, 2005
Tangas.
Se bem percebi, Tangas considera que sou um machista mestre no disfarce, mas com alguma lucidez nas análises. Vale a pena fazer um comentário à primeira opinião. O maior dos machistas parece-me exagerado, afinal ainda não há um ranking oficial, tanto quanto sei:). Mas que sou machista, é verdade. Lembro-me de frase famosa em show televisivo brasileiro: cadê os outros? Porque considero raros os homens da minha geração que se podem afirmar livres desse "revestimento para interiores". Significa isto que nada há a fazer e nos podemos entregar, aliviada e alegremente, a um determinismo cultural? Não. Mas trata-se de combater verdadeiros reflexos condicionados ao nível dos comportamentos e visões "essencialistas" ao nível teórico.
Exemplo mais prosaico que me ocorre: se jantar com uma amiga, e não estiver atento ao que (não) faço, sou capaz de me quedar hipnotizado pelo telejornal enquanto ela levanta a mesa e arruma a cozinha. Perguntar-me-ão quantas amigas minhas aturam isso. E eu respondo que não me ocorre o nome de nenhuma:), o problema é outro. O problema é ter de pensar - ou ouvir... - "Júlio, ajuda!" para me comportar de uma forma decente a um nível tão básico, em vez de o fazer espontaneamente. Por isso, Tangas, tem razão, cá dentro sou machista. E muitos da minha idade que exibem a sua postura igualitária não passam de tangas ambulantes:).
E daqui decorrem perguntas que me interessam: quão diferentes são as gerações mais novas? Que conclusões tirar de estudos em que rapazes e raparigas aceitam como "normal" um ou dois tabefes na relação? Sobreviverão o machismo e o duplo-padrão melhor do que pensávamos há vinte anos?
Exemplo mais prosaico que me ocorre: se jantar com uma amiga, e não estiver atento ao que (não) faço, sou capaz de me quedar hipnotizado pelo telejornal enquanto ela levanta a mesa e arruma a cozinha. Perguntar-me-ão quantas amigas minhas aturam isso. E eu respondo que não me ocorre o nome de nenhuma:), o problema é outro. O problema é ter de pensar - ou ouvir... - "Júlio, ajuda!" para me comportar de uma forma decente a um nível tão básico, em vez de o fazer espontaneamente. Por isso, Tangas, tem razão, cá dentro sou machista. E muitos da minha idade que exibem a sua postura igualitária não passam de tangas ambulantes:).
E daqui decorrem perguntas que me interessam: quão diferentes são as gerações mais novas? Que conclusões tirar de estudos em que rapazes e raparigas aceitam como "normal" um ou dois tabefes na relação? Sobreviverão o machismo e o duplo-padrão melhor do que pensávamos há vinte anos?
segunda-feira, julho 25, 2005
A propósito de heterossexualidade.
"Heterossexual"(como "branco", "macho" ou "robusto") é sempre um termo silencioso.
...
Os termos "heterossexual" e "lésbica" não são simétricos; as consequências de os aceitar são diferentes, como o são as consequências de desistir deles. Rótulos seguros e incontestados e pertença a grupos dominantes podem ser dispensados como não tendo importância; a pertença a um grupo oprimido tem de ser reivindicada, e tenazmente, apesar das contradições.
...
"Heterossexual" e "lésbica" não são extremidades opostas do mesmo contínuo. Porque "lésbica" é uma identidade intrinsecamente politizada, e a heterossexualidade não é, os dois termos não são proporcionais, não pertencem ao mesmo espaço conceptual.
Kitzinger e Wilkinson.
...
Os termos "heterossexual" e "lésbica" não são simétricos; as consequências de os aceitar são diferentes, como o são as consequências de desistir deles. Rótulos seguros e incontestados e pertença a grupos dominantes podem ser dispensados como não tendo importância; a pertença a um grupo oprimido tem de ser reivindicada, e tenazmente, apesar das contradições.
...
"Heterossexual" e "lésbica" não são extremidades opostas do mesmo contínuo. Porque "lésbica" é uma identidade intrinsecamente politizada, e a heterossexualidade não é, os dois termos não são proporcionais, não pertencem ao mesmo espaço conceptual.
Kitzinger e Wilkinson.
domingo, julho 24, 2005
O álibi.
Então alguns de vocês congratulam-se por eu citar Ferré e cá o meco não aproveitava?:). Ná, vamos a isso:
L'oppression
Ces mains bonnes à tout même à tenir des armes
Dans ces rues que les hommes ont tracées pour ton bien
Ces rivages perdus vers lesquels tu t'acharnes
Où tu veux aborder
Et pour t'en empêcher
Les mains de l'oppression
Regarde-la gémir sur la gueule des gens
Avec les yeux fardés d'horaires et de rêves
Regarde-la se taire aux gorges du printemps
Avec les mains trahies par la faim qui se lève
Ces yeux qui te regardent et la nuit et le jour
Et que l'on dit braqués sur les chiffres et la haine
Ces choses "défendues" vers lesquelles tu te traînes
Et qui seront à toi
Lorsque tu fermeras
Les yeux de l'oppression
...
L'oppression
Ces mains bonnes à tout même à tenir des armes
Dans ces rues que les hommes ont tracées pour ton bien
Ces rivages perdus vers lesquels tu t'acharnes
Où tu veux aborder
Et pour t'en empêcher
Les mains de l'oppression
Regarde-la gémir sur la gueule des gens
Avec les yeux fardés d'horaires et de rêves
Regarde-la se taire aux gorges du printemps
Avec les mains trahies par la faim qui se lève
Ces yeux qui te regardent et la nuit et le jour
Et que l'on dit braqués sur les chiffres et la haine
Ces choses "défendues" vers lesquelles tu te traînes
Et qui seront à toi
Lorsque tu fermeras
Les yeux de l'oppression
...
sábado, julho 23, 2005
Palavra a Ferré!:).
La Révolution ça dérange
La Révolution ça s'arrange
La Révolution ça s'explique
Et quand ça s'explique ça s'complique
Et ça s'met dans une commission
Et ça s'met dans une commission
De l'armée d'préférence
Et dis, Sanguinetti, eh! qui c'est celui-là, dis?
C'est un Corse?
Et non c'est un gaulliste!
La Révolution ça s'arrange
La Révolution ça s'explique
Et quand ça s'explique ça s'complique
Et ça s'met dans une commission
Et ça s'met dans une commission
De l'armée d'préférence
Et dis, Sanguinetti, eh! qui c'est celui-là, dis?
C'est un Corse?
Et non c'est un gaulliste!
Vocês é que falaram de revoluções:).
A semi-revolution
I advocate a semi-revolution.
The trouble with a total revolution
(Ask any reputable Rosicrucian)
Is that it brings the same class up on top.
Executives of skillful execution
Will therefore plan to go halfway and stop.
Yes, revolutions are the only salves,
But they're one thing that should be done by halves.
Robert Frost.
I advocate a semi-revolution.
The trouble with a total revolution
(Ask any reputable Rosicrucian)
Is that it brings the same class up on top.
Executives of skillful execution
Will therefore plan to go halfway and stop.
Yes, revolutions are the only salves,
But they're one thing that should be done by halves.
Robert Frost.
sexta-feira, julho 22, 2005
O megalómano.
A bruma de vazio que não levanta,
a fonte de mentiras sem maré vaza,
o pássaro do amor que já não canta,
os sonhos adolescentes em campa rasa.
Recuso a venda, rebento os laços,
persigo esses barões empanzinados,
em cuja lama não tropeçam os meus passos.
A mim!, vós que não estais acomodados:
Ainda é possível libertar as costas da parede
e fazer a vossa fome devorar a sua sede.
a fonte de mentiras sem maré vaza,
o pássaro do amor que já não canta,
os sonhos adolescentes em campa rasa.
Recuso a venda, rebento os laços,
persigo esses barões empanzinados,
em cuja lama não tropeçam os meus passos.
A mim!, vós que não estais acomodados:
Ainda é possível libertar as costas da parede
e fazer a vossa fome devorar a sua sede.
quinta-feira, julho 21, 2005
Rendido ao fracasso:).
O post do Noise provocou o sobressalto das "little grey cells" e a azáfama dos dedos nas estantes, mas o resultado foi um enorme fracasso - não encontrei a referência:(. Lembro-me de ler um trabalho sobre a taxa de suicídio e os problemas de adaptação de adolescentes, filhos de diplomatas japoneses nos países ocidentais, que regressavam ao Japão e ao seu sistema de ensino. Educados numa sociedade ferozmente individualista, viam-se em palpos de aranha para se adaptarem à abordagem nipónica, que privilegiava o trabalho colectivo e "punia" as tentativas de sobressair. No paleio da minha profissão, diz-se que passaram de uma cultura que promove o ego individual para outra que incensa o ego grupal. E assim acrescentamos - a reboque da pista luxemburguesa deixada pelo Noise:) - outra variável à conversa: a abordagem transcultural.
quarta-feira, julho 20, 2005
O que é o sucesso?
Fora da lei pergunta o que é, afinal, o sucesso? No seu caso a resposta é simples - manter-se longe do alcance da polícia:). Mas em termos gerais? Um amigo disse-me um dia que os velhos Gregos "decretavam" um homem feliz pelo balanço que faziam dos serviços por ele prestados à Cidade. Presumo que todos, incluindo o próprio, estariam de acordo em considerar a sua vida um sucesso. Apesar de eventuais vicissitudes estritamente particulares!, pois a hierarquia de valores punha no "top" o bem da polis.
O mundo em que vivemos privilegia o dinheiro, os bens materiais, o poder. Ser bem sucedido implica, não raras vezes, ultrapassar e pisar outros. O que torna a solidariedade palavra politicamente correcta e prática anacrónica numa Sociedade que se descreve aos seus filhos com expressões como "o mundo é dos espertos" e "o segundo é o primeiro dos últimos". É difícil fugir a tal espartilho cultural, mas na minha profissão assisto ao drama de pessoas extraordinariamente bem sucedidas e infelizes. Porque o "sucesso" não trouxe paz interior. E depois de uma primeira fase em que tentaram mais do mesmo - dinheiro, poder, bens materiais... - começam a ter dúvidas sobre o que pretendiam da vida. Elas próprias!, participantes de uma cultura, mas não se esgotando na sua ideologia.
Porque ele deu uma entrevista à Pública, atrevo-me a citar o exemplo de meu filho mais novo. Que se formou em Engenharia e ao longo de alguns anos desempenhou várias tarefas a contento dos respectivos chefes. E a pouco e pouco chegou à conclusão de que não retirava da profissão o gozo que pretendia e a que se julgava com direito. Em Outubro começa novo curso. Daqui a 20 anos estará satisfeito ou arrependido? Não sei, mas considero improvável que ainda viesse a apaixonar-se pelo que fazia. E pôr-me-ia de cabelos em pé a hipótese de o ver chegar a estas conclusões aos quarenta e tal, sem poder mudar de agulha pelos encargos do quotidiano.
Em associação livre, recordo o nick de um de vocês - rosebud. Não era Citizen Kane um homem de sucesso? Seguramente, e no entanto é ao pequeno trenó(?) que regressa no fim... Sejamos claros - nada tenho contra o tipo de sucesso oficial desta cultura quando "encaixa" na personalidade de quem o tem. A mim, definitivo pequeno-burguês e amante de mil futilidades, não me chega. A muitos outros também não.
E depois, o conceito de sucesso pode variar ao longo da vida, não é? Pensem, por exemplo, no(a) jovem que precisa de um êxito "quantitativo" no reino da sedução para reforçar o ego. Alguns anos mais tarde o sucesso poderá estar ligado à manutenção de uma relação monogâmica, com ou sem coabitação. Ou à capacidade de viver sozinho(a) mas não só...
Irra!, que estou verborreico:). Bom jantar, maralhal.
O mundo em que vivemos privilegia o dinheiro, os bens materiais, o poder. Ser bem sucedido implica, não raras vezes, ultrapassar e pisar outros. O que torna a solidariedade palavra politicamente correcta e prática anacrónica numa Sociedade que se descreve aos seus filhos com expressões como "o mundo é dos espertos" e "o segundo é o primeiro dos últimos". É difícil fugir a tal espartilho cultural, mas na minha profissão assisto ao drama de pessoas extraordinariamente bem sucedidas e infelizes. Porque o "sucesso" não trouxe paz interior. E depois de uma primeira fase em que tentaram mais do mesmo - dinheiro, poder, bens materiais... - começam a ter dúvidas sobre o que pretendiam da vida. Elas próprias!, participantes de uma cultura, mas não se esgotando na sua ideologia.
Porque ele deu uma entrevista à Pública, atrevo-me a citar o exemplo de meu filho mais novo. Que se formou em Engenharia e ao longo de alguns anos desempenhou várias tarefas a contento dos respectivos chefes. E a pouco e pouco chegou à conclusão de que não retirava da profissão o gozo que pretendia e a que se julgava com direito. Em Outubro começa novo curso. Daqui a 20 anos estará satisfeito ou arrependido? Não sei, mas considero improvável que ainda viesse a apaixonar-se pelo que fazia. E pôr-me-ia de cabelos em pé a hipótese de o ver chegar a estas conclusões aos quarenta e tal, sem poder mudar de agulha pelos encargos do quotidiano.
Em associação livre, recordo o nick de um de vocês - rosebud. Não era Citizen Kane um homem de sucesso? Seguramente, e no entanto é ao pequeno trenó(?) que regressa no fim... Sejamos claros - nada tenho contra o tipo de sucesso oficial desta cultura quando "encaixa" na personalidade de quem o tem. A mim, definitivo pequeno-burguês e amante de mil futilidades, não me chega. A muitos outros também não.
E depois, o conceito de sucesso pode variar ao longo da vida, não é? Pensem, por exemplo, no(a) jovem que precisa de um êxito "quantitativo" no reino da sedução para reforçar o ego. Alguns anos mais tarde o sucesso poderá estar ligado à manutenção de uma relação monogâmica, com ou sem coabitação. Ou à capacidade de viver sozinho(a) mas não só...
Irra!, que estou verborreico:). Bom jantar, maralhal.
terça-feira, julho 19, 2005
O "negativo" do fracasso:).
A nossa conversa sobre aprendizagem, medo e fracasso fez soar campainhas cá dentro. Na auto-estrada, regressando de Braga, espremi os neurónios. E lembrei-me de um parágrafo no meu velho compêndio de psiquiatria. Passo a traduzir, assaz livremente:):
A expressão "neurose de fracasso" (Laforgue, 1939) designa o comportamento, presente em todas as neuroses, mas especialmente notável nalguns indivíduos, que os leva a privar-se da satisfação obtida pelos seus esforços ou a conduzir o seu destino para a repetição de "infelicidades" ou "azares". Freud descreveu um desses comportamentos típicos utilizando a expressão "aqueles que fracassam no sucesso".
(Ey, Bernard e Brisset).
Ou seja: por vezes impedimo-nos de saborear o sucesso ou, inconscientemente, fazemos batota e evitamo-lo, culpando a sorte, o destino, alguém.
Por que assustará o sucesso alguns de nós? Ou será o prazer em sentido lato? Ou a vitória, simbólica ou concreta, sobre outros?
A expressão "neurose de fracasso" (Laforgue, 1939) designa o comportamento, presente em todas as neuroses, mas especialmente notável nalguns indivíduos, que os leva a privar-se da satisfação obtida pelos seus esforços ou a conduzir o seu destino para a repetição de "infelicidades" ou "azares". Freud descreveu um desses comportamentos típicos utilizando a expressão "aqueles que fracassam no sucesso".
(Ey, Bernard e Brisset).
Ou seja: por vezes impedimo-nos de saborear o sucesso ou, inconscientemente, fazemos batota e evitamo-lo, culpando a sorte, o destino, alguém.
Por que assustará o sucesso alguns de nós? Ou será o prazer em sentido lato? Ou a vitória, simbólica ou concreta, sobre outros?
segunda-feira, julho 18, 2005
Morreu a fazê-lo.
"Os fracassos são parte da curva de aprendizagem. O único fracasso é não tentar".
(Peter Blake, Embaixador da boa vontade para o ambiente da ONU, assassinado em 2001 numa expedição ao Amazonas.)
A frase consta da introdução do livro A Lei do Desejo, Direitos Humanos e Minorias Sexuais em Portugal de Ana Cristina Santos, nossa companheira da blogosfera:))))).
Belo e verdadeiro. Cyrano de Bergerac poderia tê-lo dito enquanto travava o seu último duelo, contra a morte e a hipocrisia dos homens.
(Peter Blake, Embaixador da boa vontade para o ambiente da ONU, assassinado em 2001 numa expedição ao Amazonas.)
A frase consta da introdução do livro A Lei do Desejo, Direitos Humanos e Minorias Sexuais em Portugal de Ana Cristina Santos, nossa companheira da blogosfera:))))).
Belo e verdadeiro. Cyrano de Bergerac poderia tê-lo dito enquanto travava o seu último duelo, contra a morte e a hipocrisia dos homens.
domingo, julho 17, 2005
Esses cátaros fascinantes...
"A verdadeira Igreja de Deus é o coração do Homem". Belibasto, último Perfeito cátaro, queimado em Villerouge-Termenès entre Setembro de 1321 e Novembro de 1322. (E chegado ao martírio depois de uma vida em que violou os preceitos das duas Igrejas: a cátara, a que pertencia, e a romana, que o perseguiu, prendeu e condenou.)
Eu acrescentaria, no início da frase, "em última análise...", nada tenho contra a existência de uma hierarquia. Mas, se tivesse Fé, agradava-me pensar no coração do Homem como refúgio, altar e trono favoritos do Senhor.
Eu acrescentaria, no início da frase, "em última análise...", nada tenho contra a existência de uma hierarquia. Mas, se tivesse Fé, agradava-me pensar no coração do Homem como refúgio, altar e trono favoritos do Senhor.
sábado, julho 16, 2005
Será o incitamento à delação uma prática cristã?
Público: "A redacção de um sítio na Internet ligado a um grupo de católicos pôs a circular uma carta sugerindo aos eventuais interessados que "informassem" três organismos do Vaticano das declarações do padre Vítor Feytor Pinto ao Público, domingo passado, a propósito do aborto e do preservativo".
Frases da entrevista:
1) "... (Recentemente), o cardeal-presidente do Conselho Pontifício (para a Saúde) disse à imprensa que estão em questão dois mandamentos: o sexto, (que se relaciona com) os nossos comportamentos sexuais, e o quinto, "não matarás". E que, quando o que está em questão é o não matar, e a única forma de não matar é o uso de um profiláctico, ele pode justificar-se."
2) "A pessoa pode dispor da própria vida, não da vida dos outros. Dispor da vida dos outros é egoísmo, oferecer a minha vida pela dos outros é generosidade. (A pessoa) pode ter uma pressão de tal natureza que, em consciência, não é capaz de encontrar outra saída. Não vou dizer que, em teoria, é bem. No caso de uma violação, a pessoa não encontra alternativa. Vamos ajudá-la ao máximo para que não destrua uma vida. Mas, se a destruir, compreendemos que o conflito interior foi de tal natureza que não encontrou outra saída. Não vamos dizer que esta pessoa é uma criminosa (...)".
Colaborei com o padre Feytor Pinto quando desempenhou funções na área da Toxicodependência, mais precisamente no Projecto Vida. Algumas (óbvias) divergências entre nós na área da sexualidade e das drogas não impediram o desenvolvimento de uma boa amizade. Não esqueço o seu convite para falar de Sexologia em Fátima, no âmbito da Pastoral da Saúde, sei que houve quem se opusesse a tal convite e não assistisse à conferência, mas ele não cedeu. Guardo com carinho as palavras com que me agradeceu uma intervenção que não podia subscrever na totalidade. Sou, portanto, suspeito: a ser verdade tal iniciativa, afecta um amigo. ("A ser verdade" não traduz menos confiança no jornal, mas o facto parece-me tão inacreditável que a expressão fugiu-me dos dedos:(.) Daqui envio um abraço ao padre Vítor, ele sabe que é tão espontâneo como as posições que defendo e nos separam sem tragédia.
E pergunto: será o incitamento à delação uma prática cristã?
Frases da entrevista:
1) "... (Recentemente), o cardeal-presidente do Conselho Pontifício (para a Saúde) disse à imprensa que estão em questão dois mandamentos: o sexto, (que se relaciona com) os nossos comportamentos sexuais, e o quinto, "não matarás". E que, quando o que está em questão é o não matar, e a única forma de não matar é o uso de um profiláctico, ele pode justificar-se."
2) "A pessoa pode dispor da própria vida, não da vida dos outros. Dispor da vida dos outros é egoísmo, oferecer a minha vida pela dos outros é generosidade. (A pessoa) pode ter uma pressão de tal natureza que, em consciência, não é capaz de encontrar outra saída. Não vou dizer que, em teoria, é bem. No caso de uma violação, a pessoa não encontra alternativa. Vamos ajudá-la ao máximo para que não destrua uma vida. Mas, se a destruir, compreendemos que o conflito interior foi de tal natureza que não encontrou outra saída. Não vamos dizer que esta pessoa é uma criminosa (...)".
Colaborei com o padre Feytor Pinto quando desempenhou funções na área da Toxicodependência, mais precisamente no Projecto Vida. Algumas (óbvias) divergências entre nós na área da sexualidade e das drogas não impediram o desenvolvimento de uma boa amizade. Não esqueço o seu convite para falar de Sexologia em Fátima, no âmbito da Pastoral da Saúde, sei que houve quem se opusesse a tal convite e não assistisse à conferência, mas ele não cedeu. Guardo com carinho as palavras com que me agradeceu uma intervenção que não podia subscrever na totalidade. Sou, portanto, suspeito: a ser verdade tal iniciativa, afecta um amigo. ("A ser verdade" não traduz menos confiança no jornal, mas o facto parece-me tão inacreditável que a expressão fugiu-me dos dedos:(.) Daqui envio um abraço ao padre Vítor, ele sabe que é tão espontâneo como as posições que defendo e nos separam sem tragédia.
E pergunto: será o incitamento à delação uma prática cristã?
sexta-feira, julho 15, 2005
Dicionário excêntrico.
Nós -
No meu peito de eterno macho latino
tua cabeça de fêmea sem pai nem dono.
(Mas..., será toque de magia?)
Destes meus dedos,
surpresos por suaves,
jorra um amor frágil, clandestino.
E os teus segredos,
orgulhosos, mesmo graves,
vencem o jugo do óbvio sono.
(E desta velha melancolia...)
No meu peito de eterno macho latino
tua cabeça de fêmea sem pai nem dono.
(Mas..., será toque de magia?)
Destes meus dedos,
surpresos por suaves,
jorra um amor frágil, clandestino.
E os teus segredos,
orgulhosos, mesmo graves,
vencem o jugo do óbvio sono.
(E desta velha melancolia...)
Speed dating.
Notícia do Público: a empresa cobra 25 euros aos participantes (25 de cada sexo). Conversam cara a cara durante três minutos, até cada um o ter feito com todos os participantes do sexo oposto (speed dating heterossexual!, suponho:)). Anotam num cartão as suas preferências. Nos casos em que houver acordo, a empresa informa o par por mail e as duas pessoas decidem se querem voltar a encontrar-se. Principal justificação: o tempo que se poupa. A Gabriela Moita diz que só condena a priori quem tem determinadas competências comunicacionais que facilitam os primeiros encontros ou considera a modalidade "artificial". Além disso, sublinha existir um contacto visual ausente na Net - o que torna o speed dating mais real - e o progressivo isolamento das pessoas, facto que implica novas formas de contacto.
O que opinam vexas?
O que opinam vexas?
quinta-feira, julho 14, 2005
Fiéis depositários.
A Inês - que eu trato sempre por Pedrosa... - enviou-me o seu último livro. Por amizade, claro!, mas também para se desculpar por ainda não me ter visitado, como prometido, em Cantelães. Enfim: uma lisboeta ocupadíssima:)))))))). Aí vai um naco da sua prosa:
"Como é que a gente evita que os nossos mortos morram? Não me ocorre nada a não ser a arte. Qualquer arte: a de lhes acariciar os retratos, devagar, de os guardar em gavetas escuras para que não percam a cor. A de os escrever com minúcia, para os prender à teia, ainda efémera, das palavras. A de os escrever mesmo quando já não é possível, sobretudo quando já não é possível, inscrevendo-os no corpo íntimo dos nossos sonhos, na alegria que em nós, apesar da dor, arrastada pela dor, sobra da morte deles".
"Como é que a gente evita que os nossos mortos morram? Não me ocorre nada a não ser a arte. Qualquer arte: a de lhes acariciar os retratos, devagar, de os guardar em gavetas escuras para que não percam a cor. A de os escrever com minúcia, para os prender à teia, ainda efémera, das palavras. A de os escrever mesmo quando já não é possível, sobretudo quando já não é possível, inscrevendo-os no corpo íntimo dos nossos sonhos, na alegria que em nós, apesar da dor, arrastada pela dor, sobra da morte deles".
quarta-feira, julho 13, 2005
Fim de tarde.
Quando os ombros vergam de cansaço
e os garotos me aguardam, esfusiantes,
procuro abrigo eterno em teu abraço,
lembrando as noites que foram antes.
(Nós dois, o amor e sono fundo,
a casa inteira fora do mundo…)
Depois, a ternura cerca a saudade,
uma verdade empurra outra verdade.
Dou-te um beijo, maroto por credor,
e ajoelho na alcatifa p’ra brincar.
Os bárbaros invadem-me sem pudor.
E eu, credo e riso na boca,
admito que a ambição é pouca:
chegar vivo à hora de jantar!:).
e os garotos me aguardam, esfusiantes,
procuro abrigo eterno em teu abraço,
lembrando as noites que foram antes.
(Nós dois, o amor e sono fundo,
a casa inteira fora do mundo…)
Depois, a ternura cerca a saudade,
uma verdade empurra outra verdade.
Dou-te um beijo, maroto por credor,
e ajoelho na alcatifa p’ra brincar.
Os bárbaros invadem-me sem pudor.
E eu, credo e riso na boca,
admito que a ambição é pouca:
chegar vivo à hora de jantar!:).
segunda-feira, julho 11, 2005
A palavra aos sócios fundadores.
A Pamina pediu e eu transcrevo o poema. Contudo..., não o fiz já aqui no blog? A palavra aos sócios fundadores:).
Conta-mo outra vez
Conta-mo outra vez, é tão formoso
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-mo de novo, os dois da história
foram felizes até vir a morte,
ela não foi infiel, ele nem
se lembrou de enganá-la. E não esqueças,
apesar do tempo e dos problemas,
todas as noites sempre se beijavam.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço.
Amalia Bautista.
Conta-mo outra vez
Conta-mo outra vez, é tão formoso
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-mo de novo, os dois da história
foram felizes até vir a morte,
ela não foi infiel, ele nem
se lembrou de enganá-la. E não esqueças,
apesar do tempo e dos problemas,
todas as noites sempre se beijavam.
Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço.
Amalia Bautista.
Durmam bem.
Xerazade
Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.
Amalia Bautista.
Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.
Amalia Bautista.
quinta-feira, julho 07, 2005
Londres.
Penso falar em nome de todos ao expressar o meu alívio por saber o Portocroft bem.
Paris era a cidade de meu Pai, desconfio que Nova Iorque foi a dos meus filhos. Londres acolheu a minha adolescência, fez-me sentir vivo entre paredes onde se lia "Clapton is God". Conheço os britânicos - cerrarão os dentes. Talvez alguns em "quiet desperation", como cantaram os Floyd, mas sem vergarem.
Paris era a cidade de meu Pai, desconfio que Nova Iorque foi a dos meus filhos. Londres acolheu a minha adolescência, fez-me sentir vivo entre paredes onde se lia "Clapton is God". Conheço os britânicos - cerrarão os dentes. Talvez alguns em "quiet desperation", como cantaram os Floyd, mas sem vergarem.
Um abraço à velha guarda.
Ringo Starr faz hoje 65 anos:).
David Gilmour encaminhará para instituições de caridade os seus lucros com a subida de 1343%! das vendas desde Sábado dos álbuns Echoes e The Best of Pink Floyd.
P.S. Mais um julgamento por alegadas práticas abortivas vai "abortar" à custa dos agentes do sistema judicial. Trata-se de uma prática perversa por parte de alguma classe política e que implica uma obscena humilhação das mulheres envolvidas.
David Gilmour encaminhará para instituições de caridade os seus lucros com a subida de 1343%! das vendas desde Sábado dos álbuns Echoes e The Best of Pink Floyd.
P.S. Mais um julgamento por alegadas práticas abortivas vai "abortar" à custa dos agentes do sistema judicial. Trata-se de uma prática perversa por parte de alguma classe política e que implica uma obscena humilhação das mulheres envolvidas.
quarta-feira, julho 06, 2005
E a conclusão do artigo.
Marriage has been in a constant state of evolution since the dawn of the Stone Age. In the process it has become more flexible, but also more optional. Many people may not like the direction these changes have taken in recent years. But it is simply magical thinking to believe that by banning gay and lesbian marriage, we will turn back the clock.
Pois é...
Um colega teve a gentileza de me enviar um artigo do NYT sobre o horror de alguns aos casamentos gay e as modificações da Instituição da "responsabilidade" dos heterossexuais. Que a transformariam numa união de duas pessoas, ponto.
Heterosexuals were the upstarts who turned marriage into a voluntary love relationship rather than a mandatory economic and political institution. Heterosexuals were the ones who made procreation voluntary, so that some couples could choose childlessness, and who adopted assisted reproduction so that even couples who could not conceive could become parents. And heterosexuals subverted the long-standing rule that every marriage had to have a husband who played one role in the family and a wife who played a completely different one. Gays and lesbians simply looked at the revolution heterosexuals had wrought and noticed that with its new norms, marriage could work for them, too.
Não é assim tão simples, como a História prova. Sempre houve casais "unissexuais" - as palavras "homossexual" e "gay" não são aplicáveis a outras épocas - que aspiraram ao casamento. Mas a descrição de algumas das modificações da instituição é correcta e propicia uma boa reflexão.
Heterosexuals were the upstarts who turned marriage into a voluntary love relationship rather than a mandatory economic and political institution. Heterosexuals were the ones who made procreation voluntary, so that some couples could choose childlessness, and who adopted assisted reproduction so that even couples who could not conceive could become parents. And heterosexuals subverted the long-standing rule that every marriage had to have a husband who played one role in the family and a wife who played a completely different one. Gays and lesbians simply looked at the revolution heterosexuals had wrought and noticed that with its new norms, marriage could work for them, too.
Não é assim tão simples, como a História prova. Sempre houve casais "unissexuais" - as palavras "homossexual" e "gay" não são aplicáveis a outras épocas - que aspiraram ao casamento. Mas a descrição de algumas das modificações da instituição é correcta e propicia uma boa reflexão.
terça-feira, julho 05, 2005
Há solidões e solidões.
"...estava fisicamente desfeito mas moralmente inteiro. Talvez porque já estava para além da dor. Para lá também da esperança. Num deserto de solidão, ou melhor, de solidariedade solitária".
(Semprún, Vinte anos e um dia.)
(Semprún, Vinte anos e um dia.)
segunda-feira, julho 04, 2005
As árvores morrem de pé e crescem lado a lado.
Alguém teve a gentileza de me enviar a seguinte citação de Khalil Gibran sobre o casamento: "E fiquem lado a lado, mas não próximos demais um do outro, pois os pilares do templo ficam afastados. E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro".(O Profeta).
Estou de acordo, em qualquer tipo de relação amorosa. A nostalgia fusional de uma só Carne e um só Espírito ignora as características irrepetíveis que nos atraíram em alguém. Não nego que se pode crescer à sombra de um outro, muito menos que o possamos admirar ou sempre temer que nos abandone. Digo apenas que é bom o afecto ser - e continuar... - o resultado da articulação de duas liberdades. Sob pena da "sombra" do(a) amado(a) deixar de constituir um oásis no relativo deserto que nos rodeia e se tornar o espartilho sufocante e raquítico que um dia acarretará o azedume.
Estou de acordo, em qualquer tipo de relação amorosa. A nostalgia fusional de uma só Carne e um só Espírito ignora as características irrepetíveis que nos atraíram em alguém. Não nego que se pode crescer à sombra de um outro, muito menos que o possamos admirar ou sempre temer que nos abandone. Digo apenas que é bom o afecto ser - e continuar... - o resultado da articulação de duas liberdades. Sob pena da "sombra" do(a) amado(a) deixar de constituir um oásis no relativo deserto que nos rodeia e se tornar o espartilho sufocante e raquítico que um dia acarretará o azedume.
domingo, julho 03, 2005
Linhas cruzadas na teia familiar.
Ontem regalei-me em Cantelães com o Live 8. Não tenho ilusões: muitas pessoas no público estavam-se nas tintas para África e o G8 não prima pelas preocupações solidárias. Mas a iniciativa enobrece Geldorf e o rock em geral. Quando anunciaram os Floyd "completos" não queria acreditar, Gilmour e Waters juntos no palco vinte e quatro anos depois! Precipitei-me para o telefone. Do outro lado o João - "também ia telefonar". O resto da conversa é private, mas demonstra que novos gostos musicais podem conviver com os antigos, verdadeiros cimentos nas walls:) que protegem as gerações da família e a teia entre elas. Que os Floyd e McCartney nos fizessem desejar que o outro não perdesse o espectáculo, com a certeza de que isso seria importante para ele, prova a existência de "áreas afectivas" comuns em que o reencontro é sempre possível e gratificante.
(Sem prejuízo da sua desejável autonomia, algumas vezes em risco por culpa de um sinistro pai-coruja:).)
(Sem prejuízo da sua desejável autonomia, algumas vezes em risco por culpa de um sinistro pai-coruja:).)
sexta-feira, julho 01, 2005
Das brumas da memória.
Hoje falei na Antena 1 de Educação (Sexual). E recordei um velho texto. Aqui está ele:
“O que se pretende quando se quer esconder às crianças – ou aos adolescentes – as explicações sobre a vida sexual dos seres humanos? Teme-se despertar precocemente o seu interesse por essas coisas, antes que surja de forma espontânea? Espera-se com tal dissimulação conter a sua pulsão sexual até ao dia em que poderá percorrer as únicas vias que lhe são abertas pela ordem burguesa? Quer isso dizer que as crianças não mostrariam nenhum interesse ou compreensão pelos factos e enigmas da vida sexual se para tal não lhes fosse chamada a atenção por alguém do exterior? Crê-se possível que os conhecimentos que são recusados não lhes sejam fornecidos de outra maneira? Ou na realidade deseja-se, real e seriamente, vê-los considerar mais tarde tudo o que diz respeito ao sexo como algo de vil e abominável, de que os pais e os educadores os tentaram manter afastados tanto tempo quanto possível?”
Freud. Que não era propriamente um libertário:). Em 1907…
“O que se pretende quando se quer esconder às crianças – ou aos adolescentes – as explicações sobre a vida sexual dos seres humanos? Teme-se despertar precocemente o seu interesse por essas coisas, antes que surja de forma espontânea? Espera-se com tal dissimulação conter a sua pulsão sexual até ao dia em que poderá percorrer as únicas vias que lhe são abertas pela ordem burguesa? Quer isso dizer que as crianças não mostrariam nenhum interesse ou compreensão pelos factos e enigmas da vida sexual se para tal não lhes fosse chamada a atenção por alguém do exterior? Crê-se possível que os conhecimentos que são recusados não lhes sejam fornecidos de outra maneira? Ou na realidade deseja-se, real e seriamente, vê-los considerar mais tarde tudo o que diz respeito ao sexo como algo de vil e abominável, de que os pais e os educadores os tentaram manter afastados tanto tempo quanto possível?”
Freud. Que não era propriamente um libertário:). Em 1907…
quinta-feira, junho 30, 2005
Cuidado com as generalizações, a blogosfera é como a botica:)
A propósito de alguns comentários: é verdade que se torna preocupante a frequência com que muitas pessoas se "exilam" na net e fogem ao (outro) mundo. Mas seria um óbvio exagero definir os que por aqui aparecem, opinam e estabelecem entre si laços mais ou menos profundos e gratificantes como "falhados relacionais". Falo por mim: este blog é hoje parte importante na minha vida, mas arranjo tempo para ele à custa de muito equilibrismo, não lhe sacrifico um minuto de vida útil ou gostosa:).
Aqui, como "lá fora", há de tudo como na botica.
Aqui, como "lá fora", há de tudo como na botica.
quarta-feira, junho 29, 2005
O efémero armadilhado:)
Naqueles momentos, a aventura tentava-me, o amor metia-me medo. Mas também me atemorizava a aventura, porque por detrás podia esperar-me o amor.
(Ballester, Don Juan)
(Ballester, Don Juan)
terça-feira, junho 28, 2005
Bem dito, carago!
Todos os progressos significativos da humanidade aconteceram através de loucuras que se tornaram culturas. Na vida, nos comportamentos, nas artes, nas letras, nas ciências, foi dessa forma que muito aconteceu. Desde que respeitem os outros e não incomodem ninguém, os quantitativos provocatórios acabam por ser saudáveis, estimulantes e potencialmente evolutivos. É a história que o ensina e que lhes ajusta a dosagem.
Jaime Milheiro.
Jaime Milheiro.
domingo, junho 26, 2005
Prévert
As crianças que se amam abraçam-se contra as portas da noite
E os viandantes que passam apontam-lhes o dedo
Mas as crianças não estão lá por ninguém
E é apenas a sua sombra que treme na noite,
Provocando a cólera dos transeuntes
A sua cólera, o seu engano, o seu riso e a sua inveja
As crianças que se amam não estão lá por ninguém
Elas estão distantes, bem mais longe que a noite
Bem mais alto que o dia
Na clareza deslumbrante de seu primeiro amor.
Elas estão distantes, bem mais longe que a noite
Bem mais alto que o dia
Na clareza deslumbrante de seu primeiro amor.
(Sugestão da Pamina, tradução do Portocroft).
O primeiro amor... Muitas vezes não é o melhor, o mais intenso, o mais duradouro, o mais..., amor até! Mas por ser o primeiro, abre uma paisagem não vivida e contudo esperada aos nossos olhos de jovens. Por isso me abstenho de estabelecer hierarquias ou "top-tens". Direi apenas que recordo o meu com ternura infinda, mas não contaminada por uma idealização reactiva a desamores de outras épocas. Não quero voltar a ele ou utilizar-lhe a memória como bálsamo, apenas lembrá-lo pelo que foi - o primeiro molhar de pés no oceano confuso dos afectos:).
E os viandantes que passam apontam-lhes o dedo
Mas as crianças não estão lá por ninguém
E é apenas a sua sombra que treme na noite,
Provocando a cólera dos transeuntes
A sua cólera, o seu engano, o seu riso e a sua inveja
As crianças que se amam não estão lá por ninguém
Elas estão distantes, bem mais longe que a noite
Bem mais alto que o dia
Na clareza deslumbrante de seu primeiro amor.
Elas estão distantes, bem mais longe que a noite
Bem mais alto que o dia
Na clareza deslumbrante de seu primeiro amor.
(Sugestão da Pamina, tradução do Portocroft).
O primeiro amor... Muitas vezes não é o melhor, o mais intenso, o mais duradouro, o mais..., amor até! Mas por ser o primeiro, abre uma paisagem não vivida e contudo esperada aos nossos olhos de jovens. Por isso me abstenho de estabelecer hierarquias ou "top-tens". Direi apenas que recordo o meu com ternura infinda, mas não contaminada por uma idealização reactiva a desamores de outras épocas. Não quero voltar a ele ou utilizar-lhe a memória como bálsamo, apenas lembrá-lo pelo que foi - o primeiro molhar de pés no oceano confuso dos afectos:).
Se acabó!
Não resisti a um pulinho a Salamanca:), aquela Plaza Mayor é a minha favorita em toda a Espanha. E, como sempre, dei comigo fascinado pela vida que leva "todos", sozinhos ou em família, a visitá-la para dois dedos de conversa y una copa. O Festival de Cultura de Castela e Leão ainda acrescentava mais tempero à coisa!
Que diferença do nosso estilo macambúzio:(. Enfim...
Chego a Portugal e pasmo: então os lisboetas põem a hipótese de recusar a disponibilidade do Professor Carrilho? Ainda se tornam responsáveis por um eventual traumatismo sofrido pelo Diniz, pobre garoto:)
Que diferença do nosso estilo macambúzio:(. Enfim...
Chego a Portugal e pasmo: então os lisboetas põem a hipótese de recusar a disponibilidade do Professor Carrilho? Ainda se tornam responsáveis por um eventual traumatismo sofrido pelo Diniz, pobre garoto:)
quarta-feira, junho 22, 2005
Nao é só em Portugal:)
O PP espanhol levou ao Parlamento um Psi de luxo que disse as coisas mais extraordinárias acerca dos homossexuais. O porta-voz do Partido classificou de "magnífica" a exposiçao. No dia seguinte, perante o repúdio generalizado, o mesmo senhor veio afirmar que nao estava de acordo com a doutrina exposta. O "magnífica" surgira apenas "por uma questao de educaçao"... O visado esclareceu que as suas afirmaçoes tinham sido deturpadas pela Imprensa! Aqui, como aí, muitos políticos mudam de opiniao após consultarem o travesseiro e as sondagens. E a comunicaçao social - que de angélica nao tem nada... - é acusada de manipular o que toda a gente ouviu:).
segunda-feira, junho 20, 2005
Desilusao.
Fui a Morella, que é muito bela. Mas dos cátaros..., ni hablar! A menina do Turismo só me pôde dizer que o último Perfeito, Belibasto, vivera "algures" na rua tal da judiaria. Encontrei lá uma Companhia de seguros... Simbólico. Tivesse Belibasto permanecido em Morella e jamais a Inquisiçao lhe teria deitado a mao!
quinta-feira, junho 16, 2005
O mundo paralelo.
Morreu Corino de Andrade. Ele e Nuno Grande simbolizam tudo o que Abel Salazar gostaria de ver no Instituto com o seu nome onde me orgulho de leccionar. A cada morte de uma pessoa que admirei e/ou amei, um mundo paralelo ganha forma. Como se por entre as de carne e osso passeassem outras, fantasmáticas e contudo não menos "reais". Os da minha idade sabem ao que me refiro...
P.S. Raquel - Não tenciono perder a paciência:). Por que o faria? Bati-me toda a vida pela liberdade que vocês têm nos comentários!
P.S. Raquel - Não tenciono perder a paciência:). Por que o faria? Bati-me toda a vida pela liberdade que vocês têm nos comentários!
quarta-feira, junho 15, 2005
Na berlinda:)
Ó Lobices,
Você é atacado e louvado de todos os lados! Vou pensar no seu segredo Rambla abaixo:).
Você é atacado e louvado de todos os lados! Vou pensar no seu segredo Rambla abaixo:).
terça-feira, junho 14, 2005
O mistério do til desaparecido!
E nao é que estes teclados o nao têm?!:(. Perdao, maralhal, nao pensem mal da acentuaçao deste vosso humilde servidor:). A 18, em Madrid, grande manif contra a legislaçao sobre os homossexuais, com o apoio expresso do Conselho Episcopal espanhol. A falta que a Santa Inquisiçao faz nestes tempos de deboche, nao é? Que tristeza...
segunda-feira, junho 13, 2005
Eugénio.
Quando os poetas morrem a notícia espalha-se, vertiginosa - chove em Barcelona, como choveu um dia em Santiago pela liberdade. O Eugénio costumava dizer que ansiamos por ela, mas dentro do rebanho. Com efeito. Ele nao, fez caminho próprio sem preocupaçoes de companhia protectora. E assim, acabou rodeado por uma multidao de gente, grata pela sua inimitável poesia solar.
sábado, junho 11, 2005
Barcelona
1) No quarto floresce o pó e com ele as minhas alergias.
2) O bom tempo também foi de férias.
3) Mas a Rambla, maralhal, a Rambla:)))))))
2) O bom tempo também foi de férias.
3) Mas a Rambla, maralhal, a Rambla:)))))))
quinta-feira, junho 09, 2005
A estrada...
... espera por mim, vou em busca de sinais dos meus queridos cátaros. Mas levo a "besta", maralhal:)
quarta-feira, junho 08, 2005
A banda sonora cresce:)
O Portocroft acrescentou Let it Be e Eleanor Rigby. A primeira é de uma beleza abandonada que nos faz suspeitar que McCartney já pressentia o fim dos Beatles. Mas Eleanor Rigby é um m-o-n-u-m-e-n-t-o:). A canção da qual George Martin disse: "Paul não a teria conseguido escrever se não tivesse conhecido John":).
As habituais gralhas nocturnas:(
Pamina,
Tem toda a razão: no post anterior é "encandeado" e não "encadeado". Irra!, que não tenho emenda.
Quanto à escrita: o próximo livro será um "monólogo a duas vozes":). Masculinas...
Tem toda a razão: no post anterior é "encandeado" e não "encadeado". Irra!, que não tenho emenda.
Quanto à escrita: o próximo livro será um "monólogo a duas vozes":). Masculinas...
terça-feira, junho 07, 2005
Da astronomia e outros mistérios.
Maria,
Mais um jantar no Círculo Universitário. Ao café, reparei num rapaz que transpirava desamparo, só tinha por companhia a lareira apagada (se te parece, com este calor…). Meti conversa - british até à medula; astrónomo devoto; brilhante por faro meu. Como lhe invejei a paixão do discurso!, parecia um espelho que devolvesse, por teimosia, o que fui há vinte anos. Falou-me de estrelas mortas, cujo brilho ainda nos chega. Percebes? Vemos uma estrela que já não existe. Não nego a lógica da explicação, mas cá dentro apenas o córtex aderia, não percebo nada de anos-luz, como posso ver o que passou? Segui o conselho do meu velho – fui sorrindo. E ele foi deitar-se, mais aconchegado pela minha atenção e pelo conhaque, depois de um inevitável shake-hands, calorosamente hirto.
Eu vim para casa. Para nossa casa. Estaquei, encadeado pela tua ausência. E olhando em volta, fiz o inventário das mil recordações que nos sobreviveram. Sabes? A astronomia é bem mais simples do que pensava:).
Mais um jantar no Círculo Universitário. Ao café, reparei num rapaz que transpirava desamparo, só tinha por companhia a lareira apagada (se te parece, com este calor…). Meti conversa - british até à medula; astrónomo devoto; brilhante por faro meu. Como lhe invejei a paixão do discurso!, parecia um espelho que devolvesse, por teimosia, o que fui há vinte anos. Falou-me de estrelas mortas, cujo brilho ainda nos chega. Percebes? Vemos uma estrela que já não existe. Não nego a lógica da explicação, mas cá dentro apenas o córtex aderia, não percebo nada de anos-luz, como posso ver o que passou? Segui o conselho do meu velho – fui sorrindo. E ele foi deitar-se, mais aconchegado pela minha atenção e pelo conhaque, depois de um inevitável shake-hands, calorosamente hirto.
Eu vim para casa. Para nossa casa. Estaquei, encadeado pela tua ausência. E olhando em volta, fiz o inventário das mil recordações que nos sobreviveram. Sabes? A astronomia é bem mais simples do que pensava:).
Esta Ciência...
>Vejam o que acabo de receber:)
>
>
>
>
> Agora já existe mais uma justificação!!!
>
> Contemplar o peito das mulheres, é bom para a saúde dos homens e
>ajuda-os a viver mais tempo!... Foi o que revelou um estudo realizado
>por um grupo de pesquisadores alemães. Eles concluiram que olhar
>fixamente todos os dias, durante 10 minutos, para os seios de uma
>mulher, é tão benéfico como uma boa meia-hora de exercícios físicos.
>Este estudo, efectuado ao longo de 5 anos, num grupo de 200 homens
>(voluntários), demonstrou que todos os que aproveitaram o espectáculo
>entusiasmante e diário de belos seios femininos, sofriam menos de
>doenças cardio-vasculares e tinham menos problemas de hipertensão do
>que os que não olharam para os seios todos os dias. O Dr. Karen
>Weatherby, que dirigiu os estudos, afirmou que: "Olhar para os seios de
>uma bela mulher durante 10 minutos, em cada dia, é o equivalente a uma
>meia-hora de aeróbica. A excitação sexual aumenta a frequência
>cardíaca, e é benéfica para a circulação do sangue.
>Nós pensamos que, com tal prática diária, os homens podem aumentar a
>esperança de vida em pelo menos 5 anos."
>
> NOTA FINAL: Eu sabia que tinha de haver uma explicação... Os
>homens não são tarados, estão é preocupados com a sua saúde!!!
>
>
>
>
> Agora já existe mais uma justificação!!!
>
> Contemplar o peito das mulheres, é bom para a saúde dos homens e
>ajuda-os a viver mais tempo!... Foi o que revelou um estudo realizado
>por um grupo de pesquisadores alemães. Eles concluiram que olhar
>fixamente todos os dias, durante 10 minutos, para os seios de uma
>mulher, é tão benéfico como uma boa meia-hora de exercícios físicos.
>Este estudo, efectuado ao longo de 5 anos, num grupo de 200 homens
>(voluntários), demonstrou que todos os que aproveitaram o espectáculo
>entusiasmante e diário de belos seios femininos, sofriam menos de
>doenças cardio-vasculares e tinham menos problemas de hipertensão do
>que os que não olharam para os seios todos os dias. O Dr. Karen
>Weatherby, que dirigiu os estudos, afirmou que: "Olhar para os seios de
>uma bela mulher durante 10 minutos, em cada dia, é o equivalente a uma
>meia-hora de aeróbica. A excitação sexual aumenta a frequência
>cardíaca, e é benéfica para a circulação do sangue.
>Nós pensamos que, com tal prática diária, os homens podem aumentar a
>esperança de vida em pelo menos 5 anos."
>
> NOTA FINAL: Eu sabia que tinha de haver uma explicação... Os
>homens não são tarados, estão é preocupados com a sua saúde!!!
segunda-feira, junho 06, 2005
O mundo.
Terminei "Por Amor a Che". Sem deslumbre, mas com agrado. Deixo uma frase deliciosa:).
"O mundo é muito maior do que o nosso umbigo, embora seja agradável pensar que ele possa caber dentro da nossa mão".
"O mundo é muito maior do que o nosso umbigo, embora seja agradável pensar que ele possa caber dentro da nossa mão".
domingo, junho 05, 2005
Hopefully...
Um bom amigo fez-me chegar o artigo completo. Também digo "hopefully", mas sem grandes esperanças:(. E depois, a própria Ciência...
For Fruit Flies, Gene Shift Tilts Sex Orientation
By ELISABETH ROSENTHAL,
International Herald Tribune
Published: June 3, 2005
When the genetically altered fruit fly was released into the observation chamber, it did what these breeders par excellence tend to do. It pursued a waiting virgin female. It gently tapped the girl with its leg, played her a song (using wings as instruments) and, only then, dared to lick her - all part of standard fruit fly seduction.
One gene, apparently by itself, creates patterns of sexual behavior in fruit flies.
The observing scientist looked with disbelief at the show, for the suitor in this case was not a male, but a female that researchers had artificially endowed with a single male-type gene.
That one gene, the researchers are announcing today in the journal Cell, is apparently by itself enough to create patterns of sexual behavior - a kind of master sexual gene that normally exists in two distinct male and female variants.
In a series of experiments, the researchers found that females given the male variant of the gene acted exactly like males in courtship, madly pursuing other females. Males that were artificially given the female version of the gene became more passive and turned their sexual attention to other males.
"We have shown that a single gene in the fruit fly is sufficient to determine all aspects of the flies' sexual orientation and behavior," said the paper's lead author, Dr. Barry Dickson, senior scientist at the Institute of Molecular Biotechnology at the Austrian Academy of Sciences in Vienna. "It's very surprising.
"What it tells us is that instinctive behaviors can be specified by genetic programs, just like the morphologic development of an organ or a nose."
The results are certain to prove influential in debates about whether genes or environment determine who we are, how we act and, especially, our sexual orientation, although it is not clear now if there is a similar master sexual gene for humans.
Still, experts said they were both awed and shocked by the findings. "The results are so clean and compelling, the whole field of the genetic roots of behavior is moved forward tremendously by this work," said Dr. Michael Weiss, chairman of the department of biochemistry at Case Western Reserve University. "Hopefully this will take the discussion about sexual preferences out of the realm of morality and put it in the realm of science."
He added: "I never chose to be heterosexual; it just happened. But humans are complicated. With the flies we can see in a simple and elegant way how a gene can influence and determine behavior."
The finding supports scientific evidence accumulating over the past decade that sexual orientation may be innately programmed into the brains of men and women. Equally intriguing, the researchers say, is the possibility that a number of behaviors - hitting back when feeling threatened, fleeing when scared or laughing when amused - may also be programmed into human brains, a product of genetic heritage.
"This is a first - a superb demonstration that a single gene can serve as a switch for complex behaviors," said Dr. Gero Miesenboeck, a professor of cell biology at Yale.
Dr. Dickson, the lead author, said he ran into the laboratory when an assistant called him on a Sunday night with the results. "This really makes you think about how much of our behavior, perhaps especially sexual behaviors, has a strong genetic component," he said.
All the researchers cautioned that any of these wired behaviors set by master genes will probably be modified by experience. Though male fruit flies are programmed to pursue females, Dr. Dickson said, those that are frequently rejected over time become less aggressive in their mating behavior.
When a normal male fruit fly is introduced to a virgin female, they almost immediately begin foreplay and then copulate for 20 minutes. In fact, Dr. Dickson and his co-author, Dr. Ebru Demir of the Institute of Molecular Biotechnology, specifically chose to look for the genetic basis of fly sexual behavior precisely because it seemed so strong and instinctive and, therefore, predictable.
Scientists have known for several years that the master sexual gene, known as fru, was central to mating, coordinating a network of neurons that were involved in the male fly's courtship ritual. Last year, Dr. Bruce Baker of Stanford University discovered that the mating circuit controlled by the gene involved 60 nerve cells and that if any of these were damaged or destroyed by the scientists, the animal could not mate properly. Both male and female flies have the same genetic material as well as the neural circuitry required for the mating ritual, but different parts of the genes are turned on in the two sexes. But no one dreamed that simply activating the normally dormant male portion of the gene in a female fly could cause a genetic female to display the whole elaborate panoply of male fruit fly foreplay.
For Fruit Flies, Gene Shift Tilts Sex Orientation
By ELISABETH ROSENTHAL,
International Herald Tribune
Published: June 3, 2005
When the genetically altered fruit fly was released into the observation chamber, it did what these breeders par excellence tend to do. It pursued a waiting virgin female. It gently tapped the girl with its leg, played her a song (using wings as instruments) and, only then, dared to lick her - all part of standard fruit fly seduction.
One gene, apparently by itself, creates patterns of sexual behavior in fruit flies.
The observing scientist looked with disbelief at the show, for the suitor in this case was not a male, but a female that researchers had artificially endowed with a single male-type gene.
That one gene, the researchers are announcing today in the journal Cell, is apparently by itself enough to create patterns of sexual behavior - a kind of master sexual gene that normally exists in two distinct male and female variants.
In a series of experiments, the researchers found that females given the male variant of the gene acted exactly like males in courtship, madly pursuing other females. Males that were artificially given the female version of the gene became more passive and turned their sexual attention to other males.
"We have shown that a single gene in the fruit fly is sufficient to determine all aspects of the flies' sexual orientation and behavior," said the paper's lead author, Dr. Barry Dickson, senior scientist at the Institute of Molecular Biotechnology at the Austrian Academy of Sciences in Vienna. "It's very surprising.
"What it tells us is that instinctive behaviors can be specified by genetic programs, just like the morphologic development of an organ or a nose."
The results are certain to prove influential in debates about whether genes or environment determine who we are, how we act and, especially, our sexual orientation, although it is not clear now if there is a similar master sexual gene for humans.
Still, experts said they were both awed and shocked by the findings. "The results are so clean and compelling, the whole field of the genetic roots of behavior is moved forward tremendously by this work," said Dr. Michael Weiss, chairman of the department of biochemistry at Case Western Reserve University. "Hopefully this will take the discussion about sexual preferences out of the realm of morality and put it in the realm of science."
He added: "I never chose to be heterosexual; it just happened. But humans are complicated. With the flies we can see in a simple and elegant way how a gene can influence and determine behavior."
The finding supports scientific evidence accumulating over the past decade that sexual orientation may be innately programmed into the brains of men and women. Equally intriguing, the researchers say, is the possibility that a number of behaviors - hitting back when feeling threatened, fleeing when scared or laughing when amused - may also be programmed into human brains, a product of genetic heritage.
"This is a first - a superb demonstration that a single gene can serve as a switch for complex behaviors," said Dr. Gero Miesenboeck, a professor of cell biology at Yale.
Dr. Dickson, the lead author, said he ran into the laboratory when an assistant called him on a Sunday night with the results. "This really makes you think about how much of our behavior, perhaps especially sexual behaviors, has a strong genetic component," he said.
All the researchers cautioned that any of these wired behaviors set by master genes will probably be modified by experience. Though male fruit flies are programmed to pursue females, Dr. Dickson said, those that are frequently rejected over time become less aggressive in their mating behavior.
When a normal male fruit fly is introduced to a virgin female, they almost immediately begin foreplay and then copulate for 20 minutes. In fact, Dr. Dickson and his co-author, Dr. Ebru Demir of the Institute of Molecular Biotechnology, specifically chose to look for the genetic basis of fly sexual behavior precisely because it seemed so strong and instinctive and, therefore, predictable.
Scientists have known for several years that the master sexual gene, known as fru, was central to mating, coordinating a network of neurons that were involved in the male fly's courtship ritual. Last year, Dr. Bruce Baker of Stanford University discovered that the mating circuit controlled by the gene involved 60 nerve cells and that if any of these were damaged or destroyed by the scientists, the animal could not mate properly. Both male and female flies have the same genetic material as well as the neural circuitry required for the mating ritual, but different parts of the genes are turned on in the two sexes. But no one dreamed that simply activating the normally dormant male portion of the gene in a female fly could cause a genetic female to display the whole elaborate panoply of male fruit fly foreplay.
sexta-feira, junho 03, 2005
Agradecimentos
Ao meu filho Guilherme, por ter construído a casa dos meus sonhos:).
Ao Portocroft, que só não conseguiu ensinar o analfabeto do Murcon a escrever as legendas.
Ao Portocroft, que só não conseguiu ensinar o analfabeto do Murcon a escrever as legendas.
Um enorme perímetro
"Um beijo. A primeira partilha de carne. Tudo o que vem depois é doce elaboração. O primeiro beijo é mais íntimo do que a cama a nu; o seu pequeno perímetro contém já a primeira submissão e a traição final".
Ana Menéndez, Por Amor a Che.
Ana Menéndez, Por Amor a Che.
quinta-feira, junho 02, 2005
Boa noite, maralhal.
Olhando o prédio em frente por cima das flores que minha Mãe cuidava, disse-lhe: “Maria, chegam os dias longos e quentes e tu mudas. Não sei, pareces mais igual a ti”.
Ela sorriu, cruzou as pernas sobre o canteiro, pôs as mãos entrelaçadas atrás da nuca e transformou cadeira normalíssima em prima de baloiço, com alma e riscos de trapezista. Semicerrando os olhos, rezou vésperas:
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia já é maior do que ontem era
Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
É este o deus que meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada
A primavera é o meu país
saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
e dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição
Primavera-raiz-flores…, arrisquei: “Eugénio de Andrade?”.
Ela riu, gaiata: “Morno, querido. Ruy Belo, A Chegada dos Dias Grandes”.
E quem não suportaria alegremente o peso de tão magnífica ignorância, com riso e “querido” seus já aferrolhados na alma? A poesia é para ser vivida. Abri os braços e ela neles deitou raiz:).
Ela sorriu, cruzou as pernas sobre o canteiro, pôs as mãos entrelaçadas atrás da nuca e transformou cadeira normalíssima em prima de baloiço, com alma e riscos de trapezista. Semicerrando os olhos, rezou vésperas:
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia já é maior do que ontem era
Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
É este o deus que meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada
A primavera é o meu país
saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
e dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição
Primavera-raiz-flores…, arrisquei: “Eugénio de Andrade?”.
Ela riu, gaiata: “Morno, querido. Ruy Belo, A Chegada dos Dias Grandes”.
E quem não suportaria alegremente o peso de tão magnífica ignorância, com riso e “querido” seus já aferrolhados na alma? A poesia é para ser vivida. Abri os braços e ela neles deitou raiz:).
Melhoramentos
A Murcon SA agradece à Portocroft Sons do Mundo Lda. a instalação (grátis!) de um dispositivo que espera venha a melhorar a qualidade de vida dos frequentadores deste blog. O Presidente do Conselho de Administração decidiu mesmo acrescentar uma nota pessoal a esta circular: THANK YOU,MATE:).
quarta-feira, junho 01, 2005
A propósito do Dia...
…
A infância
É um brinquedo que parou
É a inocência remendada
É sempre isto de passado (C’est toujours ça d’passé ?)
A infância
…
Lembra-te dos silêncios ao fundo dos corredores
E aquele arquejar divino, continuo a escutá-lo,
E depois a noite, fiel a lembrar-nos essas coisas
E esta memória fodida que me segura pelo braço.
Léo Ferré.
A infância
É um brinquedo que parou
É a inocência remendada
É sempre isto de passado (C’est toujours ça d’passé ?)
A infância
…
Lembra-te dos silêncios ao fundo dos corredores
E aquele arquejar divino, continuo a escutá-lo,
E depois a noite, fiel a lembrar-nos essas coisas
E esta memória fodida que me segura pelo braço.
Léo Ferré.
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