quarta-feira, novembro 09, 2005

Oh, Lord!, os lordes a debruçarem-se sobre um tema destes? Que mais iremos ver?:).

Mundo



Reino Unido: Câmara dos Lordes aprova eutanásia a doentes terminais
A Câmara dos Lordes britânica aprovou esta quarta-feira uma proposta para permitir que os médicos apliquem a morte assistida a doentes terminais que queiram deixar de viver.

Ao abrigo do novo projecto, os médicos podem prescrever uma dose letal de medicação a pacientes terminais que considerem intolerável a dor que enfrentam.
No entanto, o projecto não legaliza a eutanásia voluntária, realizada sem o consentimento do paciente.
A decisão provocou grande oposição por parte da Igreja Anglicana e de grupos defensores dos direitos humanos. A lei ainda terá de passar pela Câmara dos Comuns.
A nova lei permite que um paciente terminal se automedique com doses letais prescritas por médicos.
Caso o projecto seja aprovado, o paciente terminal que deseja por fim à própria vida nos seis meses seguintes deverá ser examinado por dois médicos, que ratificarão ou não a decisão. Também serão necessárias duas declarações diferentes do paciente, inclusivamente uma assinada por um advogado.

terça-feira, novembro 08, 2005

A propósito de mjcd.

Como psi - e qualquer dia não só... - a questão da reforma interessa-me sobremaneira.
Alguém disse que a reforma se começa a preparar dez a quinze anos antes. É verdade. A mortalidade, por exemplo, é maior do que o "esperado" no primeiro ano que se lhe segue. As depressões florescem. O mesmo se passa com a viuvez. Aí, com um efeito de género claro que "joga" com o último post: os homens caem com facilidade no isolamento porque eram as mulheres as mediadoras das redes de suporte afectivo.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Mail e género.

Trabalho de investigação americano. População: os habitantes de uma daquelas aldeias exclusivamente para idosos que não estão ao alcance das bolsas comuns. Análise dos mails em busca de diferenças de género. Os homens enviavam e recebiam mails curtos e funcionais, a e de amigos e familiares (género "todos bem?").Estavam satisfeitos com a estadia e com os amigos feitos na aldeia, com quem partilhavam actividades lúdicas. As mulheres escreviam mais mails, mais longos e mais saudosos. Afirmavam-se mais dependentes dos contactos com familiares e amigos que tinham deixado para trás. E sentiam-se muito mais responsáveis pelo que se passava no local de origem depois da sua partida. Conclusão do estudo: maior dependência emocional e manutenção do estatuto de "mulher cuidadora e responsável pelo bem-estar afectivo da malta". Uma pescadinha de rabo na boca cultural...

sábado, novembro 05, 2005

Agradecimento mais do que merecido.

Aqui vos deixo o texto que escrevi para o Expresso de hoje sobre a obra do meu filho Guilherme em Cantelães. Porque ele merece, a casa roubou-lhe um par de anos de vida, mas tornou-se realmente o refúgio dos Machado Vaz.


O ramo que semeia raízes


Cantelães é hoje um lar. O facto não traduz infidelidade arquitectónica ou afectiva à casa portuense. Vivemos juntos há vinte anos e juro, sem remorsos da alma ou figas dos dedos, que por mim não haverá divórcio. Devo-lhe muito: foi sala de trabalho caótica, testemunha discreta de amores felizes e rupturas dolorosas, colo silencioso em noites de música e livros.
Mas eu sonhara mais. E se sonho é palavra respeitável, embora tantas vezes resignada ao poder dos cifrões nesta sociedade, o sentimento que o gerou nem por sombras. A inveja. Eu, pecador, me confesso - rebolei-me nela em pequeno, ouvindo as descrições da Quinta em Paredes de Coura. Caçula da minha geração, fui o único a não conhecer a casa, a mesa cheia, o bilhar onde dormia meu Pai, o caramanchão. Tanta inveja, semeada no terreno fértil da solidão de filho único, transformou-se em nostalgia reconstrutiva: inventar para os meus as raízes que não me tinham erguido, levar os citadinos de regresso à terra, ao menos de Sexta a Domingo. Cantelães nasceu desse vazio, com anos de atraso que não perdoo a mim próprio.
Covil escolhido, pus o leme nas mãos do Guilherme. Sabia-o talentoso, percorri algumas das suas obras. Mas sabia mais: alguém que depois da morte de uma criança, - intolerável absurdo! -, lhe desenha campa rasa ascética que reflecte o brilho do sol e a dança das nuvens, pensa a arquitectura a partir das pessoas e a elas regressando. Tal inspiração, na sua tristeza, não jorrou apenas de mão hábil e inteligência aguda, bebeu antes de enorme coração.
Ingénuo, decretei-lhe o imaginário de braço dado com o meu – casa de pedra, varanda rústica à volta. Quando vi o projecto, gelei: um estilizado meteorito paralelepipédico em Cantelães? Lembrei o Eduardo Souto Moura na SIC-Notícias: “se fizesse uma casa de que não gostasse, ela ficaria mal de certeza”; previ o futuro dos Machados, juntos numa obra que não satisfizera o autor, mas o pai; gozei o olhar brilhante do Guilherme, o voo das mãos que tentavam ajudar-me a imaginar a casa. E não hesitei: abdicar de parte do meu sonho era um preço baixo para ver o seu partir à rédea solta.
Erro crasso, Guilherme desenhara exactamente o que lhe pedira, eu é que confundia materiais e arquitectura, forma e vida. Cantelães lembra o título de um dos meus blues favoritos – A Room with a View. Porque os quartos, no seu recato, recebem o abraço da sala, do corredor, da cozinha, num anel envidraçado que se derrama sobre a paisagem. Que burrice minha! – o rapaz trouxera a varanda para dentro da casa…
Que me acolheu bem, mas à experiência. Compreendo-a, os amores á primeira vista são tórridos e frágeis. Um ano decorrido, é um lar. Quando me deito e lanço um olhar aos meus, emoldurados na mesa-de-cabeceira, distribuo o carinho em partes iguais. Mas reservo um obrigado ao Guilherme, por nos presentear com um acolhedor pingo de talento.
Estranha árvore familiar, em que um ramo semeia as raízes…

sexta-feira, novembro 04, 2005

Ambivalência herética:).

Saí do concerto de Steve Vai com "mixed feelings". Devo dizer, antes de mais, que gostei do homem. Ao fim de 25 anos na estrada, o seu sorriso pareceu-me espontâneo e caloroso, a história deliciosa sobre o humor de Zappa não era de "plástico". Depois, a música: guardarei sempre esta recordação privilegiada, o pequeno conhecimento da sua obra não me preparara para um virtuosismo inacreditável. Ainda por cima, emoldurado por um conjunto de outros músicos excepcionais.
Como consegui, então, sair "dividido"? Por vezes senti que o rock perdia terreno face à técnica. O concerto foi longo, felizmente, duas horas e meia bem medidas. E até por isso, aqui e ali, achei que o referido virtuosismo se tornava um fim em si mesmo e não um meio, nada acrescentou à minha admiração por Vai saber que consegue tocar com a língua, por exemplo!Dei comigo a caminho de casa, feliz pelo privilégio de assistir ao espectáculo. Mas lamentando ser já tão tarde, apetecia-me ouvir um riff de Keith Richards ou as guitarras ingénuas dos Creedence Clearwater Revival. Uma palavra para a primeira parte: como em todo o concerto, os decibéis estavam demasiado à solta (digo eu, que sou velhinho!). Mas curti o grupo, tocava uma espécie de "hard-blues" muito fixes.
Entrei às nove e saí a caminho da uma. O silêncio no carro era ensurdecedor:)))))).

quinta-feira, novembro 03, 2005

A "luta pelas audiências".

Infelizmente, não acontece apenas nas televisões e rádios. Há largos meses fui contactado para participar em determinado Congresso. Declarei-me indisponível e ofereci-me para pedir a uma colega que fizesse a intervenção sobre o tema solicitado. Chegada ao Encontro, ela verifica que o meu nome consta do programa oficial e definitivo. Nenhuma explicação para a minha "ausência" foi dada aos participantes. Ou seja: uma colega faz figura de segunda escolha, eu de pessoa que falta a compromissos à última hora e quem se inscreveu para - entre outros palestrantes - me ouvir..., de parvo! Não é a primeira vez. Até já figurei no programa de Reuniões que desconhecia terem lugar!
Nada disto é sério. Tudo isto é triste.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Breves.

A JSD, ao pedir a suspensão dos processos por interrupção de gravidez por via legislativa até ao referendo, agiu bem. Aliás, manda a verdade admitir que na campanha do referendo anterior fui mais solicitado para debates sobre o tema pela JSD do que pela JS. O chamado efeito gutérrico...


Moon,
Desculpe lá a insónia:(. Claro que era sobre os vivos, o passado, o fim do amor.

P.S. A vírgula era criminosa:).

terça-feira, novembro 01, 2005

E os "culpados" pela música são...

... os suspeitos do costume: Noisy and Vic!!!!!! Yeahhhhh (como diria o Cocas dos Marretas:)))).

Lobices,
Tudo bem consigo?

1 de Novembro.

Mortos que não são mortos,
fantasmas de carne e dor.
Portos que não são portos,
amarras órfãs de amor.


P.S. Não, divorciado e solteiro não é o mesmo em termos de disponibilidade para juntar os trapinhos, mas existem variações nos dois sentidos:). Mais curioso me deixa a eventual diferença entre casado e quem coabitou, há vertentes simbólicas envolvidas.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Para a ameninadalua.

Fomos ontem! Chovia que Deus a dava, associámos a Inverno, Inverno a Janeiro, Janeiro a luar..., e pronto:). Cabrito extraordinário, porco preto divino, tinto a condizer, patrão sempre atento... Enfim, nem jantei!
Mas hoje, como amanheceu um sol envergonhado, funcionámos assim: que pena!, vamos embora na Terça; e Quarta trabalhamos:(; mas na Quinta temos o Steve Vai na Casa da Música!; Quinta?; Herdade..., e se visitássemos a do Esporão? E lá fomos. Bela visita, mas o restaurante fica longe do Luar e do Fialho. Contudo...: não janto outra vez!:).

sábado, outubro 29, 2005

O elogio da ignorância.

Aproveitei a "ponte" e trouxe a família a Évora, o seu branco tem o condão de me repousar a alma. Mas não de estimular os neurónios:(. No caminho a luz do óleo acendeu-se. Telefonei para a BMW em pânico. Tranquilo, Prof! Mandaram-me verificar o nível do mesmo e adicionar um litro de xpto30não sei quê. O nível estava abaixo do mínimo. Decidi não correr riscos e afinfei-lhe com dois litros. Telefonema orgulhoso para a BMW. Silêncio horrorizado, era de mais. Chegar a Évora e verificar de novo. Se acima do máximo..., fazer uma sangria à besta. Enfiei a vareta e empurrei com desespero várias vezes. Acima do máximo... 45 minutos à procura de quem me aspirasse o óleo em vez de levantar o carro para o deixar esvair-se. Aterrei no Service-Marché. Preenchi fichas; esperei; agradeci a disponibilidade ao Sábado. O homem chamou-me, perdido de riso - o óleo estava no intervalo normal. Expliquei com paciência que era impossível, tinha verificado a maré cheia há meia-hora. Ele perguntou como, e eu disse. Ao que respondeu com lógica aristotélica - se me encarniçava com a vareta o nível do óleo subia porque não tinha para onde fugir! Mandou-me em paz e com a algibeira indemne. E perante humilhação tamanha, refugiei-me no Fialho e cumpri religiosamente a dieta: presunto, bacalhau assado, cordeiro da mesma forma e bolo de chocolate com gelado de baunilha. Depois vim contar-vos, não quero idealizações murcónicas:) - sou uma besta!

P.S. 17 of December it will be! Merry Christmas, maralhal.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Sentavas-te junto à esteira.

Sentavas-te junto à esteira
e acendias os cabelos numa lágrima.
Em silêncio ias moldando entre os dedos
luas muito cheias que depois me ofertavas,
dizendo, abre no meu rosto
um poema a pique por onde a luz se despenhe.
Só tu conhecias a inclinação certa do cachimbo,
a púrpura linguagem do fumo,
a revelada cadência dos sonhos.
E eu amava-te pela maneira como os barcos
sangravam nos teus lábios.

Jorge Melícias, Iniciação ao remorso.

quarta-feira, outubro 26, 2005

O seu a seus donos:)

Agradeçam os Beatles ao Noise e ao Viktor. É bom ter música de novo no Murcon:).

Satisfaria hoje Hipócrates o seu juramento:)?

"Hipócrates" cita o belo juramento atribuído..., ao outro Hipócrates:). E um tipo interroga-se, que pensaria hoje dele? Os avanços tecnológicos da Medicina puseram questões insuspeitadas, não por acaso a Bioética é uma área em permanente ebulição. Quanto aos inegáveis e tradicionais privilégios da Instituição Médica - com as óbvias variações nas práticas individuais que cada um de nós conhecerá - eles radicam, por exemplo, no emergir da Medicina como sistema moral em sociedades cada vez mais laicas. A "imposição" de estilos de vida saudáveis é um sinal do estatuto atribuído a quem trata, cura, retarda a morte. E no entanto, os inquéritos mostram que, à mistura com esse temor quase reverencial, cresce um descontentamento que já nada tem de surdo e se baseia numa relação médico-doente assimétrica, em que o segundo é tratado como portador de sintomas e o primeiro assume a condição de único Sujeito. Tristemente, o exponencial aumento do poder terapêutico foi acompanhado pelo desleixo relacional, substituído por uma fé optimista e preguiçosa nos meios auxiliares de diagnóstico.

Honra lhes seja!

CONSELHO DEONTOLÓGICO DO SINDICATO DOS JORNALISTAS DÁ RAZÃO À QUEIXA APRESENTADA PELA APF CONTRA AS JORNALISTAS DO JORNAL “EXPRESSO”



“5. Tendo analisado os factos, à luz das peças do processo, o Conselho Deontológico emitiu a seguinte Deliberação

1. Considerar que os autores da peça jornalística, bem como o jornal responsável pela edição, não souberam escudar-se no distanciamento que a prática profissional aconselha, nem evidenciaram suficiente rigor de tratamento da matéria nem tão pouco atenderam à diversidade de opiniões ideológicas e técnicas, para mais numa matéria socialmente fracturante.
2. Lamentar que os autores e o jornal tenham ignorado o princípio do contraditório, segundo o qual “os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso”. A observância do 1º artigo do CD não poderia aqui ser dispensável. Ouvir “a outra parte” é um imperativo sem discussão.


P.S. Peço desculpa, cortei parte do Comunicado da APF por razões de espaço, mas o fundamental está aqui.


Notícias do Murcon:) - O nosso camarada RAM lançou ontem o seu primeiro livro de poesia - Pleroma -, publicado pela Cosmorama. Tive oportunidade de assistir e gostei. Perdoarão um adjectivo que já raramente ouço: foi um lançamento singelo. Como convém à poesia...

terça-feira, outubro 25, 2005

O velho doce e a harmónica.

O concerto de Toots Thielemans na Casa da Música foi inesquecível. Para além - ou dentro? - da música, viu-se um homem de sorriso doce e maroto, fiel às raízes e ainda ávido de futuro. Constatar que muitos dos seus cúmplices do jazz estão mortos não foi pretexto para velório sorumbático, mas para luminosa celebração. E talvez isso explique muito - Toots brinda-nos com música que jorra de um ponto a meio-caminho entre a plateia e um Olimpo musical:). Como se através de Toots os outros tocassem ainda. E através deles Toots aflorasse já a perfeição.

segunda-feira, outubro 24, 2005

As trobairitz.

Curioso é verificar que as poucas mulheres que nos deixaram poesia trovadoresca a abordavam de forma diferente dos homens. Não nas regras poéticas, mas no "realismo" dos temas. Muitos autores chegam a dizer que os homens faziam da poesia uma competição artística e as mulheres falavam do que verdadeiramente acontecia nas relações. E acontecia bem mais do que pensámos até algumas décadas atrás:).


P.S. Que me perdoem os especialistas, qualquer correcção é bem-vinda.

domingo, outubro 23, 2005

A "Idade das Trevas".

Foi assim que me descreveram a Idade Média na disciplina de História:(. Ao ler-vos, pensei quantos anos foram necessários para ouvir pela primeira vez a expressão Renascimento do século XII, por exemplo. Ou conhecer um bocadinho da poesia trovadoresca... Aqui vos deixo parte de um poema desse genial malandreco:) que foi Guilherme de Poitiers, nono Duque da Aquitânia:


J'ai en effet pour nom maître infaillible
et jamais mon amie ne m'aura une nuit
qu'elle ne me veuille avoir le lendemain
car je suis bien de ce métier, je m'en vante
si instruit
que je puis en gagner mon pain
en tous marchés.


Que ego!:).

sexta-feira, outubro 21, 2005

Ponto de ordem.

Maralhal,
Um pouco de serenidade vinha a calhar, não acham? O Porty é uma pessoa especial para este blog, mas episódios destes já aconteceram e voltarão a acontecer. Porque compreendo a preocupação expressa pela Pamina, sinto-me no direito de dizer o seguinte: o Porty deixou-nos por razões exclusivamente relacionadas com outros frequentadores do blog. Não houve qualquer problema de saúde envolvido ou conflito entre nós os dois. Determinadas coisas não lhe agradaram, decidiu partir. Ponto final, parágrafo.
A liberdade não é uma festa permanente de irmaozinhos celestiais. A liberdade não existe, existem pessoas livres. Que tomam decisões pelas quais se felicitam ou das quais se arrependem. E que, como é o meu caso, prosseguem o caminho, respeitando quem tomou um diferente. Não esperem de mim que tome partido nas vossas disputas pessoais, jamais o farei, seria infantilizar-vos. Recuso um papel parental que nunca desejei. Com sorte, de vez em quando serei um catalisador de discussões temáticas. Muitas vezes nem isso, apenas uma opinião entre todas as outras. Total e ferozmente livres. Doa a quem doer...

Esclarecimento.

O Porty acaba de me comunicar que não voltará a colaborar no Murcon. As suas razões, que teve a gentileza de comigo partilhar, pertencem-lhe; bem como a opinião sobre elas, que lhe transmiti, só a mim diz respeito. Fica o agradecimento a quem teve uma enorme trabalheira para fazer o blog e não apenas nele participar.

No rasto das infidelidades.

Recordava-se de tudo: das mentiras, das manhas, das palavras grosseiras, dos silêncios insolentes, da dureza sob a capa da brandura: a memória, se não o coração, era impiedosa".

Marguerite Yourcenar, Como a água que corre.


Memória e coração divergem não poucas vezes...

quinta-feira, outubro 20, 2005

Vivo por milagre!

Chega um tipo a casa, depois de um dia de trabalho e uma hora de caminhada, e leva com o hino dos Dragões sem aviso?????!!!!!! Ó Porty, o meu coração já não é o que era, cuidado:). Mas pronto, parabéns ao FCP, que a arrogância dos italianos também me irrita.
Quanto à minha frase que foi citada - "a fidelidade, se não for espontânea, morre" -, devo dizer que a escrevi a pensar naquela teoria simplista "não meti o corpo dentro - ou fora:) -, não fui infiel". O Noise talvez se lembre, eu já me esqueci, mas havia um estudo com piada sobre o assunto. Perguntava-se a homens e mulheres heterossexuais o que os chocava mais: ser fisicamente enganado ou fazer amor com um parceiro que pensava numa terceira pessoa para se excitar. Se bem me lembro, as mulheres distribuíam equitativamente a sua irritação, enquanto os homens eram bem mais "tolerantes" com a segunda hipótese. Explicação dada: era chato, mas pelo menos não havia "traição a sério". E ainda não havia internet ou telemóveis...
Ser fiel à moda canina parece-me incompatível com o erotismo. Apreciar a beleza de alguém que passa pode ficar pelo registo da admiração estética, adivinhar-lhe a sensualidade torna difícil a domesticação do desejo. Ser fiel ao outro não pode ser um objectivo alcançado através de trabalho árduo de auto-castração do imaginário, mas sim uma verificação aliviada, divertida, grata. Às vezes efémera, se nos reportarmos ao psíquico. Não vejo que seja trágico ou anti-natural, trágico é chamar-lhe infidelidade. Porque nesses momentos, quando a relação está viva, a imagem do outro surge, repondo as prioridades, se necessário.
Estou de acordo com os que de vocês dizem ser possível amar uma pessoa e apaixonar-se por outra, mas rezo para que não me aconteça, a nossa energia psíquica não é movida a pilhas duracell e pifa, mais dia, menos dia. Ou mais ano, menos ano:).

quarta-feira, outubro 19, 2005

Paixão duracell?

A propósito do post do García Márquez: a paixão alberga sementes de auto-destruição. A violência, avidez e exclusividade, como poderiam durar anos e anos? Mas será essa constatação necessariamente uma desistência? Não creio, o tempo esconde enormes potencialidades. O conhecimento íntimo não é possível durante a paixão, ela traduz-se num jogo de imagens e não de "pessoas reais". Mesmo o erotismo ganha com o tempo, que permite o aprofundar das fantasias individuais e a sua integração num "argumento partilhado". Na minha profissão ouço muita gente que o afirma e deseja permanecer na relação. E contudo vê-se obrigada a gerir as saudades da adrenalina da paixão. Lá dizia Freud, no fundo não queremos desistir de nada:).

terça-feira, outubro 18, 2005

O Brasil..., em polvorosa!

Receberam isto?


Sou Católico: Posso ser contra o Desarmamento?

1. Como todos sabem, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tomou posição a favor do desarmamento e está fazendo uma campanha intensiva, utilizando-se inclusive dos sermões dos padres nas igrejas, para convencer os católicos a votarem pelo sim, ou seja, pelo desarmamento dos cidadãos.

2. Eu, como católico, estou obrigado a acatar essa orientação da CNBB? Absolutamente, não! A doutrina da Igreja, pelos seus doutores e moralistas, inclusive o grande Santo Tomás de Aquino (cf. S. Th., II-II, q.64, a.7), reconhece o direito à legítima defesa.

3. Até mesmo o recente Catecismo da Igreja Católica reconhece esse direito: "A legítima defesa pode ser não somente um direito, mas um dever grave, para quem é responsável pela vida dos outros, pelo bem comum da família ou da sociedade" (Catecismo da Igreja Catolica, nº 2265 - traduzido do texto em Castelhano do site do Vaticano: www.vatican.va).

4. O Evangelho apresenta passagens que justificam o porte e o uso de armas. Veja-se, nesse sentido, S. Lucas: "Quando um valente armado guarda a entrada da sua casa, estão em segurança os bens que possui" (Lc. 11,21). Podemos citar ainda as seguintes frases de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Quem não tem espada, venda sua túnica e compre uma"(Lc. 22,36). Quando S. Pedro feriu a orelha de Malco, Jesus disse-lhe para guardar a sua espada na bainha, não mandou que se desfizesse dela (Jo. 18,11). O próprio Jesus, quando expulsou os vendilhões do Templo, usou um chicote feito por Ele mesmo. O chicote, naquelas circunstâncias, desempenhou o papel de arma.

Verifica-se assim, com o devido respeito, que esses Srs. Bispos não parecem estar reconhecendo o princípio católico da legítima defesa.

5. A quem aproveita o desarmamento? Vocês já observaram que a generalidade dos comunistas, ex-guerrilheiros, esquerdistas radicais, teólogos da libertação, gente do MST etc. são todos favoráveis ao desarmamento?

Notem como muitas dessas pessoas são partidárias do ditador comunista Fidel Castro, de Che Guevara, de Luiz Carlos Prestes e de outros revolucionários sanguinários, e que defendem o MST e outros movimentos invasores de propriedades.

6. Qual será a verdadeira intenção de vários daqueles que querem desarmar os cidadãos honestos deste País, enquanto os criminosos, com certeza, vão continuar armados?

7. Acredito que meu dever de católico e de brasileiro é votar NÃO!

Aguardo vossa valiosa opinião.

Prof. Fernando Gutierres

Núcleo de Estudos sobre a Criminalidade

Rio de Janeiro RJ

segunda-feira, outubro 17, 2005

Também quero:).

"Loucamente apaixonados ao fim de tantos anos de cumplicidade estéril, gozavam o milagre de amarem-se tanto à mesa como na cama e chegaram a ser tão felizes, que quando eram dois velhos esgotados ainda continuavam a traquinar como coelhinhos e a discutirem como cachorros."

García Márquez, Cem anos de solidão.

domingo, outubro 16, 2005

À revelia da Comissão.

Amigo, temos veias importunas:
não é o sangue que arde, mas nós que o violamos
e trazemos de longe aonde estamos
ausências de vento nas escunas.
Por isso a custo navegamos
quase com raiva ou medo ou até pranto
- que o vento é sempre santo.

Pedro Tamen, Daniel na cova dos leões.

Obrigado a todos por serem o vento do Murcon.

Comunicado da CCL (Comissão contra a Lamechice).

COMUNICADO


Por decisão unânime, a Comissão decidiu proibir a publicação do texto de hoje do Professor Machado Vaz no Murcon. A lamechice do mesmo constituiria um péssimo exemplo para a juventude dos dias de hoje, que na nossa opinião deve ser educada à base de palavras de ordem como "o mundo é dos espertos", "sacaneia primeiro, conhece depois", "amigos só em certas ocasiões" e "menos carinho, mais gravetozinho". Numa demonstração da total abertura que norteia as suas actividades, a Comissão permite a publicação (de parte) da última frase do texto.
A Bem da Nação,
O Porta-Voz,
António Bico Calado.


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sábado, outubro 15, 2005

Stardust memories:).

Stardust,

Essa população é "só" contituída pela maioria das pessoas que acorrem a uma consulta de medicina geral. O sofrimento é muitas vezes "traduzido" em queixas corporais sem base orgânica. Por outro lado, a globalização da informação, interesses comerciais e o stress vêm gerando uma sociedade cada vez mais hipocondríaca. Junte-lhe o evidente discurso "moral" da medicina: se pecas no estilo de vida..., quinas! O que levanta problemas de liberdade individual e responsabilidade "colectiva": tenho ou não o direito de me marimbar nos estilos de vida saudáveis e viver como me apetece?; quem poderá sofrer com uma opção que talvez convide a grande ceifeira a visitar-me mais cedo?
Outro ponto - a dificuldade da medicina em lidar com o sofrimento é uma das razões que explicam o florescer de alternativas que vão do absolutamente respeitável ao charlatanismo puro. Se a instituição médica recusar a priori tudo o que não jorra da medicina ocidental perderá recursos terapêuticos. E agravará o fosso com abordagens que lhe levam a palma na escuta do doente. Que só por isso, voltará. E, às vezes, só por isso melhorará...

sexta-feira, outubro 14, 2005

Outra dicotomia.

Nem sequer perderei tempo com a cartelização das empresas farmacêuticas, foi surpresa para alguém? Pobres diabéticos... E pobres de todos nós, que pagamos impostos!
Em relação à medicina: ontem falámos de prevenção vs. tratamento. Ou, de modo mais global, de promoção de saúde vs. tratamento. Outra dicotomia omnipresente é a que opõe as queixas funcionais às de clara explicação física. As primeiras predominam largamente, e contudo são, por vezes, "olhadas por cima do ombro". Tais queixas, na sua orfandade científica, partilham com as outras o âmago da profissão: o sofrimento (palavra que extravasa em absoluto uma outra - dor). E devem ser respeitadas. Até porque:

"Se a doença não orgânica é capaz de enganar o médico, como não enganaria o doente?" Marcel Proust.

O objectivo dos doentes não é moer a cabeça dos médicos:))))), apenas ser ajudados.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Dicotomia escondida com rabo de fora.

O Congresso tem sido bom, reconheço-o com gosto. Mas dos dois primeiros dias para o terceiro a assistência não se limitou a aumentar; mudou. Não é uma surpresa. Da vertente curativa passámos para a preventiva e cuidadora. E o número de médicos diminuiu de imediato. Já é bom que as duas organizações sejam conjuntas, mas é imperioso que os temas se misturem e as populações profissionais trabalhem em equipa com maior frequência.

terça-feira, outubro 11, 2005

Na estrada.

Mais um Congresso. Mais um quarto de hotel. Mais uma voltinha, diza-se nos carros de choque da minha infância. Há um tempo para tudo e o meu de saltimbanco expirou. As salas, o ar condicionado, os anúncios de propaganda médica. Os microfones que me fazem suspirar pelos anos em que não necessitava deles. Os computadores e as mil piruetas do power-point. Os públicos, que respeito mais do que nunca no meu trabalho, mas sem o gozo de outrora. Há um tempo para tudo. Voltar a Cantelães para polir o livro. Ver o corte de cabelo castrense do Gaspar, que de bebé caminha a passos largos para puto reguila. A doçura adoentada do Tiago. A família reunida no D'Oliva, sob o meu olhar enternecido e grato. Os Byrds irrompendo no livro para ficarem, "To everything, turn, turn, turn.../There is a season, turn, turn, turn...". Há um tempo para tudo, mas não há tempo para tudo. Longe dos meus e do projecto que verdadeiramente me interessa agora, sinto que as prioridades estão de pernas para o ar. Vou falar de sexualidade e envelhecimento. É um bom tema, com saúde a sexualidade refina-se com os anos, a sofreguidão da juventude afunila os sentidos. O envelhecer e o VIH, uma relação perigosa por desleixada pelos técnicos, também eles apanhados pela visão assexuada dos mais velhos. Não pensando, por exemplo, que a geração dos baby-boomers não envelhece na obediência a tantos mitos como a de seus pais. Felizmente:)))))).

domingo, outubro 09, 2005

Como previsto.

Ninguém leu aqui uma linha sobre as autárquicas portuenses. Não desejava ser acusado de sequer beliscar a candidatura do Dr.Francisco Assis. Realcei a consideração que me desperta como homem e político nas páginas do JN, aquando de tristes factos ocorridos em Felgueiras. Votei nele. E não apenas por considerar desejável bater a actual maioria, a sua campanha foi digna e em merecido crescendo. Se não posso repetir as palavras de esperança de há quatro anos, pois o Dr.Rui Rio defraudou as minhas expectativas como Presidente da Câmara, considero a sua lista bem melhor do que a anterior, o que beneficiará a cidade. Devo acrescentar que tal afirmação não nasce da ausência do Dr.Paulo Morais, que também nas páginas do JN sugeriu o que ninguém sugerira antes ou sugeriu depois: estar eu ao serviço do PS. Não, penso que vai entrar gente mais capaz e ponto final, saúdo presenças e não ausências. Não só não faço fretes ao PS, como lhe aponto o dedo quando acho adequado. E hoje aqui, como há meses em privado, digo o mesmo: a candidata natural para estas eleições seria Elisa Ferreira, embora pense que Rui Moreira também poderia ganhar. A fraca oposição protagonizada pelo PS-Porto durante quatro anos, somada a um evidente enquistamento na hora das escolhas apadrinhado pelo próprio Secretário-Geral, conduziu a esta derrota. Infelizmente, e como outras vezes, não creio que lhes sirva de lição...

P.S. Um enorme abraço ao povo de Amarante :)))))))))).

sábado, outubro 08, 2005

Em dia de meditação conjunta:)

Amigo


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra "amigo".

"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!

"Amigo" é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

"Amigo" é a solidão derrotada!

"Amigo" é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, Poesias Completas.

sexta-feira, outubro 07, 2005

É triste, mas sabido:(.

http://www.portugaldiario.iol.pt/noticia.php?id=593257

quarta-feira, outubro 05, 2005

O outro aniversário.

Há cinquenta anos, meu Pai declarava, com exibicionista pompa e circunstância e riso clandestino: "5 de Outubro. Feriado nacional. Sabe porquê? A Senhora sua Mãe faz anos!". (Acho que seria incapaz de brincar a respeito da amada Primeira República por outra razão que não fosse o amor da sua vida...). O facto não me surpreendia, considerava natural que a importância dela extravasasse a casa de Anselmo Braamcamp e inundasse o país:). Hoje visitei-lhe a sombra silenciosa. A boa da D.Maria José tinha posto um dos seus discos a tocar e eu fiquei surpreendido com tão cruel "estereofonia": da mesinha de cabeceira jorrava a voz de minha Mãe, tão cristalina e real que parecia desafiar para dueto e vida a bela senhora de olhos fechados no sofá. A canção não podia ser mais apropriada: "Diz-me onde te perdes, para te ir lá buscar". Eu sei. À superfície no Alzheimer, lá no fundo - ou lá em cima... - nos braços de meu Pai.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Para evitar o pânico e a vergonha entre os murcónicos...

... apresso-me a esclarecer, em relação ao poema de Pedro Tamen, que apesar de vários e dolorosos naufrágios e não poucas violentas abordagens, nunca desisti da minha modesta navegação. E digo modesta, por ter tido sonhos que incluíam mares longínquos, Adamastores vencidos, Índias acolhedoras. Não aconteceu. Mas as águas tranquilas e irmãs da praia em que navego não traduzem calmaria resignada. Apenas a convicção de que a brisa, se a mão do leme está calejada por alguma sabedoria feita de nódoas negras, é suficiente para atingir o meu objectivo. Qual? Não sei, talvez só continuar!

domingo, outubro 02, 2005

Just an ordinary man.

Não tenho graves defeitos
nem tão-pouco grandes qualidades.
Leve portanto a barca
vai do lastro mais perigoso.

Tenho porém fortuitos golpes,
curtas memórias, amores subtis,
gulosas sensações bem mais que sentimentos.
Será isto pano para a vela,
vento, seco pau do remo?

Pedro Tamen, Guião de Caronte.

sábado, outubro 01, 2005

Prece.

Senhor,
Faz com que o jantar sem o Murcon decorra com a elevação e espiritualidade que caracterizou o repasto em Matosinhos. Ilumina-os para que permaneçam castos, embora não tenham a ajuda que propicia a minha provecta idade; bebam pouco por causa da Brigada; comam com moderação por causa do colesterol; falem baixo para que não se lhes junte aquele reformado gaiteiro chamado Santana Lopes. E, acima de tudo, derrama sobre eles o espírito ecuménico, para que se cumprimentem no fim, ao contrário do que fez o filósofo/proletário/marido Carrilho ao engenheiro/ independente/negociador de pelouros Rodrigues. Mas se alguns cometerem excessos e acordarem ressacados na Segunda, condu-los ao Estádio da Luz para apoiarem os rapazes contra o Guimarães. Aos que voltarem a tempo ao Porto, convence-os de que estão em Fátima e envia-os munidos de lenços brancos para o Estádio do Dragão, só para irritar o Co, que veio salvar o futebol português.
Como sacrifício e oferenda, ficarei hoje à noite em casa e não irei à Vila ver o Marco Paulo e o Tony Carreira. Concordarás que não posso sacrificar-me mais pelos murcónicos!

sexta-feira, setembro 30, 2005

S.Tomás estaria provavelmente de acordo sob o ponto de vista moral.

"Creio, como Da Vinci, que a decadência faz a sua aparição quando o Homem se esquece de contemplar a Natureza".

Gaudí, sobre a decoração dos portais da Sagrada Família.

quinta-feira, setembro 29, 2005

O próprio.

Gaudí, em 1910, sobre a Casa Milà: "Os Gregos, hoje, fá-la-iam assim".

Ai Barcelona, Barcelona, que saudades:).

Novo Estatuto define Catalunha como "Nação" (Público).

Se pudesse, também votava:).

quarta-feira, setembro 28, 2005

A difícil relação entre os afectos.

"Que suja traição, ouvi-o dizer uma vez, que mesmo quando um tipo já não está apaixonado seja capaz de preferir o amor em vez dos seus amigos."

Antonio Muñoz Molina, O Inverno em Lisboa.




P.S. Tem holandês que é cego:(.

segunda-feira, setembro 26, 2005

O sinal.

O anúncio, protagonizado por Nicolau Breyner, em que se diz que mais de 50% dos homens portugueses de mais de quarenta anos sofrem de disfunção eréctil é um hino à avidez de uma sociedade de consumo em que se inventa a procura para valorizar a oferta.

Lembram-se?

Nota de Imprensa

A Alta Autoridade para a Comunicação Social dá razão à APF em queixa apresentada contra o jornal “Expresso”


Como é do conhecimento público, o jornal “Expresso” publicou em 14 de Maio uma notícia com chamada de 1ª página sobre alegados programas de educação sexual em curso nas escolas e inspirados pela APF.

Esta notícia esteve na base de uma posterior campanha contra a APF e a educação sexual nas escolas organizada por grupos conservadores.

A APF apresentou uma queixa à Alta Autoridade para a Comunicação Social contra o jornal “Expresso” dado que em nenhum momento (e até à data) este procurou ouvir a APF, dando assim possibilidade de exercício do direito de contraditório, nem publicou os comunicados que a APF enviou ao abrigo do direito de resposta.

Vimos assim transcrever a deliberação da AACS que dá razão à queixa apresentada pela APF, aprovada por unanimidade em 21.09.05:

“Apreciada uma queixa da Associação para o Planeamento da Família (APF) contra o jornal “Expresso” com base na alegação que este, referindo-a, lhe não deu voz como deveria, no processo de elaboração do artigo publicado a 14 de Maio último a propósito da Educação Sexual nas Escolas, desse modo, ao que sustenta, praticando uma informação parcial, com elementos falsos e atentatórios da sua honorabilidade, a Alta Autoridade para a Comunicação Social, ao abrigo das faculdades conferidas pela Lei nº43/98, de 6 de Agosto, entendendo que a audição e pronúncia da reclamante era, no contexto, necessária e adequada, delibera chamar a atenção do jornal para a necessidade de cumprimento do ético-juridicamente disposto em matéria de rigor informativo.

Lisboa, 26 de Setembro de 2005
(Prof. Doutor Duarte Vilar)
Director Executivo

domingo, setembro 25, 2005

Outono.

Com as primeiras chuvas.


Abrir as mãos. Como se o vento fora a maravilha. Acariciar-lhe a crina, a lentíssima garganta. Deixá-lo partir, jovem ainda. Com as primeiras chuvas.

Eugénio de Andrade.

sexta-feira, setembro 23, 2005

O dinheiro não chega para tudo. Nem para todos...

"Teatro de marionetas do Porto em ruptura financeira". Asseguram os compromissos assumidos até Dezembro e that's that.


Vão por mim: é uma perda e uma pena:(.

quinta-feira, setembro 22, 2005

A coerência deste país.

Voltei a Portugal, liguei a televisão e vi uma senhora que se chama a si própria Dra. Fátima Felgueiras. Li os jornais. Aceito a legalidade de alguns actos, pasmo perante a sua imoralidade. Alguém que fugiu perante a iminência de ser presa preventivamente não suscita sequer a hipótese de fazer o mesmo se o julgamento começar a "correr mal"? O que visa o elogio permanente ao Engenheiro José Sócrates? E que traduz o silêncio virginal do Partido Socialista?
Uma coisa garanto: Eduardo Dâmaso tem razão no DN, este circo é um extraordinário exemplo de duas justiças. Os meus toxicodependentes não são acusados de manejar sacos azuis - gamam; não têm amigos pressurosos nos tribunais para os avisarem da prisão próxima - vêem chegar a Judite; não têm dupla nacionalidade - são portugueses que pouco visitaram além da rua onde vagueiam; não têm advogados caros - com sorte, calha-lhes um oficioso diligente, sem ela um que pede justiça ou outro que falta; não têm testemunhas com nomes sonantes - a menos que sejam de acusação...; não vêem um pedido para mudar a medida de coacção resolvido em 12 horas - consomem na prisão enquanto esperam; não se candidatam a autarquias - quando percebem como acabarão candidatam-se a vagas em programas de metadona ou comunidades terapêuticas
São anjos? Não. Merecem pagar pelos seus actos? Evidentemente. Levam com a "justiça cega" nos lombos? Olá se levam!, a seu propósito nenhum debate sobre o exagero da prisão preventiva ouvi. Beneficiam de justiça que parece à medida? Não. Justificam movimentos de apoio? Não. Têm a imprensa a amplificar-lhes até à náusea a declaração de inocência? Não.
Falei de uma população que conheço bem. Se fizermos as mesmas perguntas à população geral as respostas não serão muito diferentes. Por isso, não me falem da Justiça portuguesa. Quem tiver pudor empregará o plural. E calar-se-á. Envergonhado pela triste coerência deste país...

quarta-feira, setembro 21, 2005

Lógica aristotélica.

"Qualquer pessoa pode zangar-se, é algo muito simples. Mas zangar-se com a pessoa adequada, no grau exacto, no momento oportuno, com o propósito justo e do modo correcto, isso, certamente, não é tão simples".

Aristóteles, citado por Goleman no seu best-seller Inteligência Emocional.

Comentário lógico mas pouco fecundo:) - Ai não é, não...

terça-feira, setembro 20, 2005

O risco dos riscos.

Programa na televisão espanhola. Tudo em pânico. Idade média do primeiro coito: 12 anos nas raparigas, 17 nos rapazes. O risco das gravidezes indesejadas e das doenças sexualmente transmissíveis. A identificação dos factores de risco. Estratégias para lhes diminuir a influência. Não poderia estar mais de acordo, embora não tenha ouvido nada de novo. Mas esta visão "preventiva" do discurso sobre a sexualidade é tristemente redutora. O medo, a pressa e a visão parcelar escamoteiam outras vertentes da sexualidade. Não admira que depois os adolescentes se queixem da forma como o tema lhes é apresentado: como se fossem faunos pelas esquinas e sem uma palavra sobre a descoberta do prazer. Só o "dark side of sex" toca neste gira-discos.
Assim não vamos lá:(.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Macca.

A música de McCartney - obrigado Porty:) - agrada-me. Sobre o fundo de cordas é saltitante, dir-se-ia o When I'm sixty-four..., com sixty-four years no pêlo:)))))). E a produção é cuidada, de uma solenidade..., ascética.

Acabo de ver um exemplo da sociedade em que vivemos. Um destes programas espanhóis de mexericos, que fazem os nossos parecer magazines culturais, decidiu questionar uma senhora sobre a sua vida sentimental. Ela recusou. Esperaram por um evento em que participava por contrato, falaram com a organização e esta ordenou-lhe que respondesse!
Edificante...

domingo, setembro 18, 2005

Com os cumprimentos do RAM:).

http://porto-fragil.blogspot.com/2005/09/e-eu-amava-te.html



Vale a pena...

sábado, setembro 17, 2005

Das nieblas:).

Por aqui o tempo vai escabroso, não arranjo álibis para não trabalhar:(. Mais um naco de Elena Ferrante:

"Não tinha esquecido nada, mas não queria recordar. Se fosse necessário, poderia ter-me contado tudo, de fio a pavio; mas por que havia de fazê-lo? Contava a mim mesma apenas aquilo que convinha, conforme os casos, decidindo no momento, de acordo com a necessidade".

É raro que manipulemos alguém mais do que a nós próprios...

sexta-feira, setembro 16, 2005

Rosalía.

Vou para a Galiza escrever. Logo:

As de Muros, tan finiñas
que un coidara que se creban,
c'aquelas caras de virxe,
c'aqueles cabelos longos
xuntados en longas trenzas,
c'aqueles cores rousados
cal si a aurora llos puñera,
pois así son de soaves
como a aurora que comenza;
...

Rosalía de Castro, Poesías.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Boa imagem.

"O edifício nunca me agradou. Angustiava-me como uma prisão, um tribunal ou um hospital."

Elena Ferrante, Um estranho amor.

Chico forever:)!

O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido...

quarta-feira, setembro 14, 2005

Esclarecimento.

Consultei o oráculo de Delfos (www.oracdelfos.com) a posteriori sobre o Benfica-Lille. Atendendo à crise, confessei a indisponibilidade para pagar o preço constante na tabela. Fiz uma oferta modesta mas honesta. Por tal soma não tive direito a uma resposta ambígua, género "refugiai-vos em casas de madeira". Foi-me simplesmente dito que o piccollo génio só marcou nos descontos para não dar ao Lille tempo para recuperar.
Considero assisada a decisão dos deuses...

Pregação matinal aos murcónicos.

"Por isso, se vamos ser bons, que o sejamos por simples generosidade, não por nos sentirmos culpados ou com medo da retribuição".

J.M.Coetzee, Desgraça.


P.S. Já abri os presentes e daqui agradeço a todos. Mas - ó horrível presságio! - a hóstia do Benfica partiu-se:(((((((.

terça-feira, setembro 13, 2005

Mensagem a todos os murcónicos.

Com o coração dilacerado pela divisão reinante no Murcon, o Mahatma Machado Vaz avisa solenemente todos os murcónicos das suas firmes intenções: entrará de imediato em greve de fome, ingerindo apenas francesinhas light e cerveja sem álcool. Só consentirá em alimentar-se um pouco melhor - leia-se tripas à moda do Porto e maduro tinto... - quando a paz reinar entre os núcleos flácidos, moles, assim-assim, duros e pétreos. O Murcon II - ou pós-prandial - está em perigo! Se por respeito pelo sacrifício do Mahatma a situação não se pacificar, ele não terá outro remédio se não emigrar para o Brasil, o que, ao contrário, do afirmado por certos comentadores, ainda não aconteceu. Se a tal for obrigado, fundará no país irmão o Murcon III, blog tão exclusivo que admitirá apenas comentários de membros de escolas de samba e associações para a defesa da Amazónia.

Meus filhos!,
Não me forceis a medidas drásticas que vão contra o meu manso carácter. Abraçai-vos (sem quartas intenções...) e cantai em coro a Sinfonia do Benfica, a que alguns provocadores chamam Requiem. Acreditem: a paz é possível e tão ao nosso alcance como o rendimento médio da União Europeia e o fim da corrupção. Ouvi a Palavra. Antes que seja tarde e o rancor tome definitivamente posse dos vossos amorosos mas inconstantes corações.
Orarei para que a Luz vos inunde logo a seguir à cabeça de Ronald Koeman (suportai a espera com estoicismo...).

segunda-feira, setembro 12, 2005

Back to work!

Não creio que o Murcon sofra com uma eventual "desidealização pós-prandial". A única desilusão que tive durante o jantar foi comparar a minha forma física com a do Lobices:(((((. Em contrapartida, vendo as fotos que ele me enviou, fiquei com pena de não ter girado pela mesa depois do pato e do Benfica. Porque percebi que só tinha trocado palavras "protocolares", por exemplo, com a Juliana, a Blue, a Elizabete e outras pessoas. Se calhar acabamos a fazer jantares volantes:)))).
Não acho que, sete meses volvidos, haja muita idealização dos outros nesta tertúlia. Uma troca tão longa de comentários propiciou um conhecimento intuitivo que não treme perante a cor dos olhos, centímetros não fantasiados, gargalhadas mais roucas do que o previsto. Por isso o jantar correu bem. E, como sempre acontece, uns aprofundarão as relações extra-blogosfera e outros não. Com os riscos e recompensas inerentes, é a vida. Gosto de imaginar que o Murcon não é refúgio para ninguém. Antes rampa de lançamento para uma comunicação estimulante entre as pessoas. Quando, onde e como o desejem.

Se


Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.

Sophia.

sábado, setembro 10, 2005

Breves.

Cifrão - Obrigado por se lembrar de Anselmo Braamcamp. Há uns meses parei lá o carro e fiquei a olhar a casa, enroscado num sol primaveril. E recordei a ternura com que minha Mãe a enchia de amigos para apaziguar os meus protestos de filho único. A sorte foi cruel - reservou-lhe um Alzheimer que a transformou na sombra de si própria. Se não, tenho a certeza que lhe agradeceria a gentileza de a recordar.

Pearljamer - A culpa é inerente ao crescimento de todos nós. De certa forma a autonomia é conseguida, pelo menos aqui e ali, "contra" outros, implica "abandonos". O mais das vezes é inconsciente ou pré-consciente. Mas a culpa relacionada com os filhos é imensa, todas as semanas oouço pais interrogarem-se sobre o que fizeram de errado para que os filhos se enredassem nas drogas, por exemplo. E no entanto, vários irmãos, educados pelos mesmos princípios, não o fizeram. Quando se trata deles é-nos difícil ser equilibrados na análise. A nostalgia de lhes evitar todos os escolhos acarreta a auto-responsabilização quando tropeçam.

O jantar só é hoje:)))))).

sexta-feira, setembro 09, 2005

Nem só Brel falou dos velhos amantes. Ou da velhice do amor?

Años.

El tiempo pasa,
nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo como ayer.
En cada conversación
cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de
razón.

Pasan los años
y como cambia lo que yo siento
lo que ayer era amor
se va volviendo otro sentimiento.

Porque años atrás
tomar tu mano, robarte un beso
sin forzar un momento
formaban parte de una verdad.

El tiempo pasa
nos vamos poniendo viejos
el amor no lo reflejo como ayer.
En cada conversación
cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de
temor.

Vamos viviendo,
viendo las horas que van muriendo,
las viejas discusiones
se van perdiendo entre las razones.
A todo dices que sí,
a nada digo que no
para poder construir
la terrible armonía
que pone viejo los corazones.

Porque el tiempo pasa
y nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo como ayer.
En cada conversación
cada beso, cada abrazo
se impone siempre un pedazo de razón.

Pablo Milanes.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Os opostos.

Um dos problemas quando discutimos amor e ódio é a nossa tendência para raciocinar em termos de conceitos opostos e mutuamente exclusivos - o ódio opor-se-ia ao amor e os dois sentimentos não coexistiriam. Pelo contrário, um anunciaria o fim do outro. Na clínica - e nas nossas vidas... - observamos que as coisas são mais complicadas. Desde logo, porque somos bichos ambivalentes. Mas também sou muito céptico quanto à possibilidade de declarar morto o amor na cabeça de alguém que passou a odiar o outro. O mais das vezes, o fim do amor apenas é seguro quando deixamos de rezar para que a pessoa seja atropelada:); ou já não tememos encontrá-la com um braço que não o nosso por cima dos ombros. A pacificação está na indiferença, não no ódio, que continua a ser uma forma de dependência. Em raciocínio dicotómico, poderíamos dizer que nesses casos o oposto do amor não seria o ódio, mas uma espécie de "amnésia afectiva".

quarta-feira, setembro 07, 2005

Às vezes a consciência é difícil:).

"Elaborou o plano com tanto ódio que a fez estremecer a ideia de que o teria feito da mesma maneira se fosse com amor...".

S.Gabriel, Cem Anos de Solidão.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Do mesmo livro.

"Sim, ele teria amado esse jovem agitador que vivia no meio dos pobres, e contra o qual se encarniçavam Roma, com os seus soldados, os doutores, com a sua Lei, a populaça, com os seus gritos. Mas que, destacado da Trindade e descido na Palestina, esse jovem judeu tivesse vindo salvar a raça de Adão com quatro mil anos de atraso em relação à Falta, e que só mediante ele se pudesse ir para o céu, Natanael acreditava tanto nisso como nas demais fábulas compiladas pela douta gente. Ia tudo bem enquanto tais histórias flutuassem como nuvens inocentes na imaginação dos homens; petrificadas em dogmas, pesando duramente sobre a terra, não passavam de nefastos lugares santos frequentados pelos mercadores do Templo, com os seus matadouros de vítimas e o seu pátio de lapidações."

P.S. - Uma coisa é nós estarmos conscientes de...; outra, a nossa consciência estar consciente de nós. Olá, se é:).

domingo, setembro 04, 2005

Ó Manolo, por quem é! Muda-se de assunto e é já:).

"Ninguém tem o direito de se intrometer entre uma consciência e Deus".


Marguerite Yourcenar, Como a água que corre.

sábado, setembro 03, 2005

A propósito do choro.

"Às vezes, o meu peito é uma barragem assustada pela estação das chuvas. Serei um dia obrigado a escancarar-lhe as comportas para o não estilhaçar?"

sexta-feira, setembro 02, 2005

A masculinidade... A segurança básica...

"De qualquer modo, a verdade é que vira o meu pai chorar, o que me pareceu que alterava uma ordem natural não escrita. Regressei à cama cheio de pressentimentos e convencido de que se tinha quebrado alguma coisa fundamental a cuja reconstrução teria de dedicar o resto da vida."

Juan José Millás, A Ordem Alfabética.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Caros Porty e António Pedro.

É verdade que os Machado Vaz foram seareiros e educados na convicção de que a Democracia defende os direitos de todos, até dos que conspiram para a derrubar. Mas o principal motivo de colocar um post com este triste "apelo às armas" reside na nota final. Por vezes, na euforia de determinados momentos históricos, pessoas ou movimentos entraram na vertigem do "é proibido proibir" (ele próprio, de resto, uma proibição). Tais posições podem tornar-se armas de arremesso de eleição para quem cultiva o populismo. Não acredito em avanços de "fogachada e largo espectro", mas em caminhadas seguras, metódicas e com o bom-senso que não receia o desprezo de quem se precipita no desconhecido. A náusea que certos argumentos e objectivos nos provocam não devem impedir a crítica imediata - ou, pelo menos a posteriori - de posições defendidas por pessoas que nos são queridas. Não se trata de uma cedência aos "outros", mas de uma obrigação ética.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Manifestação.

Uma espectadora pediu-me para comentar este texto no Estes Difíceis Amores:



Assunto: Manifestação da Frente Nacional contra os casamentos dos homossexuais


Cito - "O caso Casa Pia está de volta, e com ele estão de volta os protestos dos
nacionalistas perante o desenrolar do caso que, anunciado como «um terramoto»,
tem vindo gradualmente a tornar-se numa amostra de arrastão. A montanha ainda
não pariu, mas parece grávida de um rato...
Tendo sido libertados quase todos os suspeitos de um dos maiores crimes da
humanidade restou o solitário Bibi para «dar a cara» pelos políticos e pelo
responsável da vinda do Europeu de Futebol para Portugal - sabe-se lá a troco de
quê. Mas a cereja em cima do bolo foi um dos principais arguidos desse processo
ter sido recebido com palmas no Parlamento, ficando a faltar-lhe apenas a
habitual condecoração com que o «presidente de todos os imigrantes» costuma
brindar aqueles que se destacam por... serem muito seus amigos.
Tal como o Governo Espanhol cedeu ao «lobby gay» permitindo que duas pessoas do
mesmo sexo possam casar, sejam elas gays, lésbicas, travestis, transsexuais, ou
outra anormalidade qualquer do (ou sem) género, e depois da reacção de 1 milhão
de espanhóis que gritaram nas ruas de Madrid «não ao casamento e adopção de
crianças por parelhas homossexuais», achamos que chegou a nossa vez e que o
Governo prepara terreno para, também em Portugal, ceder às pressões desse
obscuro, mas poderoso, lobby. O facto do Serdezelo da Opus Gay integrar as
listas do PS devido ao facto de ser gay é um bom (mau!) prenúncio disso mesmo.
Aliás, as ameaças feitas pelo «lobby gay», de revelar publicamente a lista de
deputados homossexuais que não cedessem às suas exigências, são uma prova do
tipo de poder exercido por estas sinistras organizações. E as suas motivações
são claras, basta prestar atenção às declarações do Serdezelo, ao Correio da
Manhã de 17/03/2005, quando disse que «a pornografia funciona como uma ajuda na
estruturação da identidade sexual dos jovens de 14-15 anos». Pornografia... ou
promoção da pedofilia?! Estruturação da identidade... ou formação de
homossexuais?! Vale a pena lembrar o que disse um cientista perito em estudos
sobre a homossexualidade, a propósito de tais criaturas: «sinto que por vezes
são expostos desde muito cedo a pornografia…». Realmente, o interesse das
organizações que defendem a homossexualidade anda muito longe do simples lazer,
andando mais próximo da formação, não de mentalidades, mas... de novos recrutas!

Mas tudo isto não é novidade, sobretudo se nos lembrarmos que, há alguns anos,
figuras importantes da política europeia assinaram uma petição a solicitar... a
despenalização da pedofilia! Quem eram essas «personalidades»? Jean-Paul Sartre,
Michel Foucault, Simone de Beauvoir, Roland Barthes, Alain Robbe-Grillet,
Françoise Dolto, Jacques Derrida, Bernard Kouchner, André Glucksmann, François
Chatelet, Jack Lang e muitos outros de Félix Guattari a Patrice Chéreau ou
Daniel Guérin e Philippe Sollers. Interrogado hoje, Sollers não se recorda:
«Havia tantas petições, assinava-se quase automaticamente...». Daniel
Cohn-Bendit, um dos líderes de extrema-esquerda do Maio de 68, hoje deputado
europeu pelo partido Os Verdes, dava conta de um dos motivos que o levava a
considerar a pedofilia como normal, contando as suas experiências num jardim de
infância alternativo com crianças de 5 e 6 anos: «Eles abriam-me a braguilha
(...) o desejo deles colocava-me um problema, mas eles insistiam e eu
acariciava-os apesar de tudo».
Mas não se iluda, porque apesar dessas propostas aberrantes terem vindo da
extrema-esquerda -- o que até demonstra coragem, ao assumirem o nojo que são...
-- os tentáculos do «lobby gay» não escolhem «esquerda» ou «direita», sendo
transversais a todos os espectros políticos do sistema. Aliás o silêncio que os
partidos da assembleia votaram, em acordo mútuo, sobre o «Caso Casa Pia», e a
total ausência de posições destes contra o casamento ou adopção de crianças por
homossexuais, é bem elucidativa da podridão que grassa na sociedade, com os
políticos no topo da pirâmide.
Ninguém pode assistir a tudo isto em silêncio! Por isso nos associamos ao
abaixo-assinado contra a exibição de programas que visam promover comportamentos
alternativos numa tentativa de reeducação (i)moral das nossas crianças. Assine a
petição, distribua, comente com os seus amigos, colegas e conhecidos, proteste e
demonstre a sua indignação perante a pouca-vergonha!
Por tudo isto, e muito mais, é nossa obrigação estarmos na linha da frente na
apresentação de uma verdadeira alternativa à corja política de intelectualóides,
vendidos, traidores, mentirosos e restante pandilha que aparece diariamente na
caixa mágica a prometer mundos e fundos. Associamo-nos a esta manifestação
fazendo um apelo a que todos os portugueses, independentemente da sua idade,
ideologia, condição social, etc., se juntem ao protesto contra a pedofilia e
contra a adopção de crianças por homossexuais. Será um momento histórico e você
pode, e deve, fazer parte dele.
Honrar o passado / agir no presente / garantir o futuro!" - fim de citação.

Circula na Net. Dá pano para mangas. E para diversas carapuças...

terça-feira, agosto 30, 2005

As perigosas férias...

41 mulheres vítimas de violência doméstica em Espanha desde o início do ano. Segundo os psicólogos, durante as férias a convivência é mais estreita, o que acentua o momento da ruptura quando há crise.
É verdade. Quantas vezes ouvi palavras de esperança antes do Verão: "com as férias "isto" melhora". Nem sempre. O quotidiano, com o seu ritmo alucinante e o afastamento entre os membros do casal, acaba por camuflar o apodrecer de muitas relações. Mas nas férias são 24 horas sobre 24 juntos e as brechas aprofundam-se...

segunda-feira, agosto 29, 2005

Os Balint nas suas próprias palavras.

"... todo o sintoma - por mais complexa ou desesperada que seja a situação - deveria ser correctamente examinado com o doente e, se possível, pelo doente. Este conselho é fácil de dar, mas, em virtude da sua formação, os médicos consideram-no muito difícil de seguir."

M.Balint e E.Balint - Técnicas psicoterapêuticas em Medicina.


Passaram 44 anos, mas não creio que a formação dos médicos seja ainda a mais adequada a este nível. A "ideologia" das super-especialidades torna problemática a adopção de um estilo na relação médico-doente que permita esta verdadeira aliança terapêutica entre os dois Sujeitos presentes na consulta.

domingo, agosto 28, 2005

A pedra na chuteira:).

Admito que:
1) Houve quem se esquecesse do campeonato miserável do Porto e do Sporting e acreditasse que ganhámos o ano passado "contra tudo e contra todos".
2) Os famosos reforços que nos iam deixar de boca aberta não chegaram e o dinheiro da transferência do Miguel ainda vem a caminho.
3) O Simão não está em forma desde 2004.
4) O guarda-redes do Gil voa como os anjos do Senhor.
5) O árbitro marcou um penalti duvidoso e esqueceu-se de dois evidentes.
6) O Nuno Gomes tentou.
7) O sistema era tão inovador que baralhou o adversário e o Benfica.
8) Um auto-golo é um galo - ups!, raio de palavra:) - do caraças.

MAS..., O BETO A MÉDIO ALA?

E por que não o Moreira a ponta de lança?

sábado, agosto 27, 2005

Balint.

Para os que tenham lido uma citação minha no Correio da Manhã, devo esclarecer que não foi incluída a seguinte frase: "Balint escreveu que o médico se prescreve a si próprio, pela segurança que transmite e a empatia que cria com o doente". Ou seja: não só o médico influencia o resultado da medicação, como o efeito placebo surge também no exercício da Medicina Ocidental.

sexta-feira, agosto 26, 2005

"Intuição feminina"?

Maria, minha querida,
Tinhas razão - bastou ver os miúdos na piscina de Cantelães para ter a certeza que a casa foi uma boa ideia e os Machado Vaz crescerão nela com prazer, memória e corações entrelaçados. Devo-te um pedido de desculpas por rosnar "isso é a famosa intuição feminina?" quando mo asseguraste, anos atrás. E apresentá-lo-ei. Mas só se fizeres o mesmo! Achas que responder "não, o caso não a exige. Tu é que sofres de miopia neuronal masculina" foi delicado?!
Pensa nisso. Até porque podíamos desculpar-nos um ao outro e fazer as honras a um peixito em Matosinhos ao mesmo tempo... A meias, claro!, não te quero ameaçar os rituais igualitários:).

quinta-feira, agosto 25, 2005

Atentado ao pudor.

O juiz olhou-o, incrédulo. Parecia um homem decente, incapaz de acto tão repulsivo na via pública. Sem antecedentes criminais, pai de família extremoso. Pelo menos assim o tinham descrito alguns amigos, também eles atónitos. A mulher exilara-se com as crianças em casa dos pais. Os papéis de divórcio já faziam um caminho pacífico através da burocracia, ele fora o primeiro a admitir que o casamento estava condenado. Na realidade, confessava tudo, menos duas coisas: remorsos e motivo.
O Meretíssimo até agradecia a ausência de arrependimento, o facto tornava menos problemática a sentença exemplar que lhe reservava. Mas o motivo... E não resistiu,
- Por que o fez, homem de Deus?
O repugnante exibicionista fitou-o intensamente. Os olhos brilhavam tanto que Sua Excelência se encostou para trás no cadeirão e procurou de soslaio a segurança do guarda armado que dormitava ao canto da sala. E o desalmado, em vez de alinhavar um daqueles "não sei, senhor Dr. Juiz" sumidos em busca de compaixão, encolheu os ombros e exibiu-se de novo, agora pela palavra:

"Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso".*


Foi condenado por atentado ao pudor e com a indicação de se tratar de um provável reincidente no futuro. Não disse nada, não pediu nada. Consta que ainda permanece na prisão, não solicitou precárias e passa o tempo na cela a desenhar. A cada novo esboço murmura "não era assim" e recomeça. Só desenha sorrisos de mulher...

* Eugénio de Andrade, O Sorriso. Em O Outro Nome da Terra.

quarta-feira, agosto 24, 2005

Finalmente a prova: Eugénio de Andrade partilhava as ideias do Noise sobre a poesia!:)

"Não sou um poeta inspirado, o poema é em mim conquistado sílaba a sílaba."

Eugénio de Andrade, Da Palavra ao Silêncio.

terça-feira, agosto 23, 2005

Poética.

"O futuro do homem é o homem", estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração - acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela.

Eugénio de Andrade, Rosto Precário.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Levei os meus livros do Eugénio para Cantelães, acho que ele preferiria assim.

A propósito dos amores, todos:


Escrita da Terra


1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

Etc...:).

domingo, agosto 21, 2005

Para Eubozeno.

No problemo:) - PAI!

Mas também me ocorrem SIM (foi com esta que a Ioko apanhou o John), LUZ, VEM e NÓS.


P.S: O Noise explicará as motivações freudianas para cada uma porque eu tenho os netos aos berros e é meu dever ir agravar a situação:).

sábado, agosto 20, 2005

Na esteira de S.Gabriel.

O RAM foi buscar a "artilharia pesada":).


"Mesmo que seja verdade o que te dizem os ciúmes"...

Pois. E sem gaiolas temporais!, os ciúmes pintam, de amarelo traiçoeiro, passado, presente e futuro. Neste último caso, há questões curiosas. Se somos abandonados, é frequente surgirem ruminações sobre o "escândalo" de existir felicidade ou simples curtição que nos não implica. Mas quando somos nós a partir, mesmo depois de madura(?) reflexão, e acontece o mesmo? Dois aspectos me impressionam, sobretudo nos homens: a nostalgia do "depois de mim o dilúvio", em que o outro arrasta saudade - e virgindade secundária:) - até à morte; e a posse disfarçada de amor, que faz alguns e algumas regressarem para marcar terreno e partir de novo quando espantaram intrusos.

P.S. Quanto à crueldade exibida pelo RAM, ao incluir a frase "sem romantismos de Avô", não farei qualquer comentário. Os actos ficam com que os comete:(. Snif, snif...

sexta-feira, agosto 19, 2005

Isto parece um programa de discos e poemas pedidos:).

Sempre

Do teu passado
não tenho ciúmes.

Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos cabelos,
vem com mil homens entre o peito e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo!

Trá-los a todos
ao lugar onde te espero:
estaremos sempre sós,
estaremos sempre, tu e eu,
sozinhos sobre a terra
para começar a vida!

(Pablo Neruda, Os Versos do Capitão).

quinta-feira, agosto 18, 2005

Porque estamos no Verão.

Arte de Navegar


Vê como o Verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.

(Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio.)

quarta-feira, agosto 17, 2005

Recaída:(.

Não consigo manter-me no registo científico, sou um caso perdido:(:


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugénio de Andrade, Matéria Solar.

Para salvar a minha reputação!

Para calar os que me acusam de ser um mero psiquiatra, venho juntar à discussão este naco de prosa, que demonstra como me debruço com o maior interesse sobre todos os mecanismos "íntimos" da sexualidade feminina e não apenas os psicológicos:):

"E por fim o Óxido Nítrico. Um dos grandes avanços na compreensão da fisiologia sexual foi perceber qual o papel do NO na relaxação das fibras musculares lisas vasculares e não vasculares.
Há libertação pelas terminações nervosas NANC de NO e citrulina a partir da L-Arginina sob acção da NOS. A adenilciclase vai actuar sobre a Adenosina Trifosfato (ATP) transformando-a em Adenosina Monofosfato cíclico nos músculos lisos. Nas células endoteliais o NO por acção da Guanilciclase sobre a Guanosina Trifosfato vai formar a Guanosina Monofosfato cíclico que é responsável pela deplecção do cálcio intracelular provocando o relaxamento da parede vascular aumentando assim a circulação e por consequência o engorgitamento da parede vaginal e clítoris."

(Santinho Martins, em A Sexologia).

P.S. Não continuo a citação porque a partir daqui todos sabemos que "as fosfodiesterases..."

terça-feira, agosto 16, 2005

Para complicar a história:).

Em relação ao orgasmo, algumas dicas:

1) A Sexologia é por muitos acusada de se ter transformado numa "orgasmologia", por ter ajudado a erigir o orgasmo na relação heterossexual como única "ambição erótica normal". O erotismo recusa qualquer espartilho deste género. Por vezes, surge outro mito à arreata - o orgasmo simultâneo como "melhor orgasmo".

2) O facto da resposta sexual feminina ser considerada mais complexa não implica a negação das semelhanças das respostas sexuais dos dois sexos. E não deve ser utilizado para a patologização da vida sexual das mulheres, ao serviço dos interesses dos laboratórios farmacêuticos que procuram criar e vender um "viagra" para o fabuloso mercado feminino.

3) No caso do orgasmo, seria simplista ligá-lo apenas à "incompetência erótica" do(a) parceiro(a). Em ambos os sexos encontramos anorgasmias devidas a problemas da relação ou do indivíduo.

4) A anorgasmia é primária se sempre existiu por qualquer tipo de estimulação (coital, se apenas no coito). Secundária se instalada após funcionamento sem problemas.

5) Importante é falar da anorgasmia situacional, em que o orgasmo aparece com um(a) parceiro(a) e não com outro(a). Facto que mostra claramente a importância dos factores psicológicos, quando não é referida incompetência do(a) parceiro(a) ou falta de atracção por ele(a).

6) Os casos de anorgasmia masculina relativa - pelo menos... - têm vindo a aumentar, mesmo na ausência de consumo de drogas que facilitam o seu aparecimento. Nestes casos, a erecção é obtida sem problemas, contudo o orgasmo aparece com dificuldade, sendo muitas vezes facilmente atingido através da masturbação.

domingo, agosto 14, 2005

Ney.

Sábado, fui num pulo ao Porto ver o Ney Matogrosso à Casa da Música. Não sendo um especialista em fado, considero que a intérprete que preencheu a primeira parte deixou a desejar. A reacção gentil, mas pouco entusiástica, do público talvez me dê razão. Adiante. Sempre gostei do maroto, desde os tempos dos Secos e Molhados. Achei-o em boa forma física e com uma voz que lhe permitiu correr riscos com um sorriso nos lábios. A banda era boa. E depois, como da última vez no Coliseu, o espectáculo cultivou um "ascetismo" que me agrada. Sei que alguns franzirão o sobrolho perante a aplicação de tal substantivo ao personagem Ney. Ou dirão, "pois o tipo deixou-se de plumas". Sim e não. Pessoalmente não sou um fã de plumas. Em homens ou mulheres, nas Marchas de Lisboa ou no Lago dos Cisnes. Pode ser impressão minha, mas Ney não me pareceu menos provocador. Pelo contrário!, um par de calças e uma camisa branca é uma indumentária tão respeitável, tão "normal":), e no entanto...: o corpo de Ney ondeou como poucos o conseguem e o olhar tinha um brilho irónico, ou fui eu a inventá-lo. Envelheceu bem, o maroto, com um requinte depurado! E quando no primeiro encore cantou a Rosa de Hiroshima, um monte de recordações fez-me saltar da cadeira com o velho fascínio e uma gratidão renovada. (Passei por uma vergonha, quase toda a gente ficou sentada:)).
Mas o segundo encore - Fala - foi um deslumbramento despojado. Aqui vos deixo o poema:

Fala

Eu não sei dizer nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala
Fala
Se eu não entender, não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar na hora de falar
Então eu escuto
Fala

sábado, agosto 13, 2005

O velho Eça:).

Hoje o Expresso debruçava-se sobre os casos de pessoas que abandonam os seus animais durante as férias e a Clara Ferreira Alves deslizava desse abandono para outro - o dos idosos. Acontece que eu estava a reler o Eça (qualquer dia, estou como alguém que dizia: "je ne lis plus; je relis"). E não resisti a passar da tristeza ao riso com o inimitável Ega:

"Voltou-se para o lado, para o Ega:
- Vossa Excelência pertence?
- À Sociedade Protectora dos Animais?... Não, senhor, pertenço à outra, à de Geografia. Sou dos protegidos."


E porque falámos recentemente de quem dirige os destinos das nações:


"- Ó Ega, quem é aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em Inglaterra havia também literatura?
Ega olhou-o com espanto:
- Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste imediatamente quem neste país é capaz de fazer essa pergunta?
- Não sei... Há tanta gente capaz...
E o Ega radiante:
- Oficial superior de uma grande repartição do Estado!
- De qual?
- Ora qual! De qual há-de ser?... Da Instrução Pública!


E agora, maralhal, citando ainda o Ega: vou pastar!:). Fiquem bem.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Na minha idade...

... já é difícil surpreender-me, mas continua a ser fácil desiludir-me. O que se passa com o PT no Brasil é uma tristeza:(. Tanta esperança emporcalhada...

quinta-feira, agosto 11, 2005

E com o início do poema?

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa
...


E agora? Será desleixo caseiro? Repouso do guerreiro fingidor cá fora? "Defeitos quase todos desfeitos quando depois lá fora...".


P.S. O Noise tem razão: nunca apareço, sozinho ou acompanhado, nas revistas do jet-set. It's an injustice, it is!:(.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Estou cansado, venha a poesia!

...
Estás aqui comigo e tenho pena de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais do que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz


Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estares aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que estás aqui de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

Ruy Belo, Tu estás aqui.

E um leve odor a auto-complacência macha...:). Ou não? Que dizem as meninas?

terça-feira, agosto 09, 2005

Longe da Mancha e do Algarve.

Peter O'Toole e os seus olhos transparentes mas não mortiços. D.Quixote, essa paródia genial que acarreta o nosso sonho impossível:). Em Barcelona estava uma exposição notável sobre a sua relação com a cidade. Quanto a mim, só posso contribuir com os moinhos anorécticos de Cantelães. É verdade, cá estou. Rodeado de bruma e chuvisco. E no entanto, feliz por ter deixado o "paradisíaco Algarve". Também eu vivi mais de quarenta anos e vi a vida como é. A burguesa, evidentemente!, nada se torna mais ridículo do que a auto-piedade dos que nunca comeram o pão que o Diabo amassou e se podem oferecer o luxo da angústia existencial. "Ouvi todas as vozes da criatura mais nobre de Deus...". Caraças, meus!, gostava de ter escrito isso... Até amanhã maralhal, sleep tight.

segunda-feira, agosto 08, 2005

A propósito de Morin.

A citação de Morin, que RAM gentilmente nos trouxe, levanta uma questão importante: dizemos com enorme facilidade que somos os animais menos "naturais" que existem. Com efeito. Toda a cultura nos afasta do instintivo, mas todos os interditos sugerem que os comportamentos censurados esperam dentro de nós uma oportunidade, se não por que nos daríamos ao trabalho dessa intransigência? Seremos instintivamente "piores" do que os outros animais? Ou o processo cultural acrescentou traços que não existiam à partida? Teríamos uma civilização ao mesmo tempo protectora e "má conselheira"...

domingo, agosto 07, 2005

Adenda.

Li, com o interesse habitual, a crónica de Vasco Pulido Valente sobre a bomba de Hiroshima. Em desacordo com as suas conclusões, não posso deixar de referir dados para que chama a atenção. A saber, os bombardeamentos indiscriminados de cidades alemãs, como Dresden e Hamburgo. Não foi em Hiroshima que a chacina em massa começou. E é preciso recordar o "ensaio geral" sinistro que foi Guernica...

sábado, agosto 06, 2005

Há sessenta anos, a rosa radioactiva...

Li hoje alguns artigos justificando a decisão de Truman de lançar as bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki. Por coincidência, na RTP1 passou ontem à noite um documentário com declarações de fontes russas e japonesas envolvidas no processo da rendição nipónica. E é muito difícil negar a interpretação de alguns intervenientes: as bombas serviram mais uma estratégia para a relação no pós-guerra com os russos do que fins militares. Com um Imperador que já enviara mensagens claras sobre o seu desejo de terminar a guerra através de canais diplomáticos paralelos, o que teria acontecido se Little Boy fosse lançado numa área não habitada? Francamente, não acredito que o lobby da guerra pudesse resistir à conjugação da vontade imperial e do horror de uma destruição verificável. Dois depoimentos me ficaram na memória: um japonês que descreveu um cenário dantesco de sofrimento humano e acrescentou que a beleza das cores estava para além do imaginável; e um dos aviadores americanos que comeu e bebeu alguma coisa, dormiu, passou o resto da viagem a ver os círculos de fumo que lhe saíam do charuto e mergulhou na festa organizada na base. Recordo um velho texto, de cujas palavras exactas e autor já não me lembro, que dissertava sobre as trágicas consequências dos seres humanos serem os únicos animais que, ao desenvolverem a tecnologia necessária para matar à distância, tinham tornado quase obsoletos os mecanismos inatos de inibição da violência íntra-espécie...

sexta-feira, agosto 05, 2005

O talento ajuda muito a escrever sobre as coisas.

"De uma vez o coração falhou. A enfermeira veio logo, uma seringa no ar. Sandra recompôs-se no sofrimento. Recomeçar. Porque te não deixaram morrer? Mas era assim a lei da caridade humana, mesmo um condenado à morte. Não se mata doente. Trata-se e mata-se depois. Havia que remediar até onde houvesse remédio. Sandra restabeleceu-se e pôde continuar a sofrer. Agora era a dissolução e o horror. Horror de te ver dia a dia no escárnio de ti, quanto tempo ainda? a descida à imagem do ultraje, putrefacção repelência, oculta nas raízes de um homem."

Vergílio Ferreira, Para Sempre.

P.S. Como é óbvio, não concordo com a palavra "caridade" aplicada à Medicina. Trata-se da abordagem clássica da profissão: vencer a dor e retardar o mais possível a morte. A actual discussão bioética introduz outras variáveis: a vontade do doente e o conceito de dignidade humana, traduzido pelo contraste entre "ter uma vida" e "estar vivo".

quinta-feira, agosto 04, 2005

Wilde e a sua língua afiada...

A citação do Portocroft fez-me sorrir. Ouço gente a falar de amizade e amor no consultório há quase trinta anos. Querem uma visão impressionista? As pessoas perdoam coisas no amor que não perdoam na amizade. Como se aquele fosse volátil, explosivo, reversível. Da amizade esperam uma confiança inabalável, logo, à mercê de qualquer fissura. (Como é evidente, falo de amigos e não dos "amigos" que não passam de meros conhecidos). Por isso estou de acordo com a afirmação de Wilde, mas não pelas mesmas razões. A amizade pode ser mais trágica do que o amor porque o seu fim nunca foi encarado como possível. No amor, a possibilidade de uma catástrofe é, pelo menos, admitida no plano teórico. E cada vez mais, numa sociedade tão efémera. Talvez a idealização da amizade tenha resistido melhor ao passar e mudar dos tempos, esta sociedade efémera também é a do "salve-se quem puder", não é? Quem sabe se a mantemos por necessidade pura e dura:), afinal em que ombros choraríamos as cinzas dos nossos amores se não nos que os amigos estendem em silêncio piedoso, calando o "eu avisei..." da praxe?

quarta-feira, agosto 03, 2005

A andorinha não me deixa ir para a praia que adoro!:)

1 - Creio que a "peregrinação" pelos amores imperfeitos pode facilitar a descoberta do Graal:), mas não por da quantidade surgir a qualidade numa qualquer forma de paciente alquimia. Penso, isso sim, como alguns de vocês sugeriram, que a visão e a expectativa sobre o "amor perfeito" vão mudando e aproximando-se da realidade, logo, da possibilidade de o construir (não acredito em amores prontos-a-vestir...).

2 - Sim, há pessoas que nos podem "assombrar" toda uma vida. Mas atenção!, em muitos casos não se trata - acho... - de amor, mas de idealização do passado, narcisismo ferido, álibi para "cortar o pescoço" a novos amores. Ou alguém pode ficar na nossa cabeça e não impedir que outro alguém nos dê a mão. Basta ver o que seria a vida do Kevin Costner no filme, se não tivesse morrido heroicamente a salvar vidas!:)))). Aquilo sim, é um homem: corajoso, sensível, bonito, calado, bom filho, simpático para o filho dela, extraordinário artífice, marinheiro competente, visita de chocolates em punho, ingénuo na desumana cidade... Espera aí: não será mais simples dizer que é um homem típico? Eh, eh, eh, algumas de vocês vão acrescentar morto aos adjectivos...

terça-feira, agosto 02, 2005

O último moicano:).

Ontem à noite deixei de ser o último português que não vira ou lera "As palavras que nunca te direi"! Fiquei mais sossegado quanto à minha cultura geral, mas não quanto ao meu gosto - por junto e atacado gostei do desempenho de Paul Newman. Pior ainda no que diz respeito a sensibilidade:(, não aderi à enxurrada lacrimejante que me fora descrita. Mas uma coisa é certa, o filme confirma a velha ideia ocidental: os grandes amores são os impossíveis:). E eu voltei a sentir um arrepio, ao imaginar Romeu e Julieta com uma ranchada de filhos e a trocarem caneladas venenosas a peopósito das respectivas famílias. Serão distância ou morte condições indispensáveis aos amores perfeitos?

segunda-feira, agosto 01, 2005

Duas palavras.

A primeira sobre um dos temas que vos ocupou no post anterior. Considero que a Assembleia da República tinha legitimidade para despenalizar o aborto. Na minha opinião, o PS decidiu seguir bovinamente as preferências de António Guterres. Como bovinamente deixou sozinhos na estrada -leia-se campanha... - todos os que deram a cara pela posição oficial do partido. Extraordinário, não é? Senti maior apoio na JSD do que no PS, aterrorizado pela hipótese de desagradar ao seu ungido trunfo eleitoral. O referendo foi o que se viu: da praia às sondagens, passando pela pureza de convicções - que não permitiu a incoerência de ir votar... -, ouvi de tudo nas semanas seguintes de bocas amarguradas. Mas o referendo foi feito e perdido, ganho por quem antes dos resultados os dizia não vinculativos e agora se agarra a eles como às tábuas de Moisés. Ignorá-lo seria, penso, desprezar a democracia. E por isso defendo que um outro se impõe, a menos que seja inviabilizado pela oposição ou pelo pelo próximo PR.


A segunda para a Circe. Que morreu, uma de vocês teve a amabilidade de me "mailar" tal informação. Não foi uma surpresa, atendendo ao tipo de lesões. A Circe acompanhou O Sexo dos Anjos durante oito anos. E depois A Bela e os Monstros. E os programas de televisão. Fez sugestões, críticas, humor. Durante anos enviou para esses programas postais de férias dos mais diversos destinos. Nunca impôs a sua presença física a ninguém. Não sou partidário da habitual "santificação póstuma", tão apreciada pelos portugueses - ocasiões houve em que foi agreste, quase outras tantas em que se penitenciou por isso. Era uma de nós, aqui no blog. E por isso a vossa preocupação ao longo destes dias me convence que, para além das diferenças, debatidas de formas mais ou menos estridentes, construímos uma base mínima de solidariedade que é consensual e definitiva.