Despedida
Acordou cedo e definitivamente. Ofereceu-se preguiça longa na banheira, talvez os músculos empertigados cedessem ao calor da água... Derrota assumida, contribuiu para a saúde financeira da indústria farmacêutica engolindo um calmante. Desceu. Na cozinha, o rafeiro exibia cauda solidariamente de rastos, fez-lhe carícia grata. O céu de chumbo autorizou um desabafo esperançado - “merda de tempo!” -, mas o quisto cinzento do peito resistiu à lanceta do palavrão. Dobrou a dose de café e partiu ao meio a dieta, demolindo um naco de queijo da serra (por coerência gastronómica e triste avidez ensopado num cálice de Porto). A seguir, preparou-lhe o pequeno almoço com obsessivo requinte, enrugando a toalha para escapar ao seu “nada de últimas refeições perfeitas, ninguém vai morrer!”.
Literal e completamente não, mas cada despedida era um inferno. Quando o pai desaparecera, sem carta sinuosa, porrada velha ou aceno da mão ainda vestida de aliança, o pirralho ouvira, olhos secos, a explicação titubeante de mãe atarantada. E seca fora a resposta, de uma calma gélida para a sua pouca idade – “deixa, eu tomo conta de ti”. Fazendo-o se tornara homem. Mais precisamente – o seu homem. Outros, que lhe tinham debicado a vida ao longo dos anos, nunca saltavam da cama para o coração, aí reinava ele. Apesar de repetir a si própria o que as mães sabem e ignoram - “é teu filho, mas não te pertence, vai crescer...”.
Tanto que Portugal fora curto para o seu voo e aterrara em Londres. Boa escolha: grande cidade para ele, duas míseras horas de avião para ela. Quando o visitava era menos doloroso, recebida de braços abertos mas sabendo que ali não pertencia, na sala de embarque podia fazer batota - “volto para a minha terra”. Mas com ele de regresso à parvónia as coisas mudavam de figura, o metro e oitenta de rapaz a caminho dos trinta não sobrevivia ao contágio de fotografias espalhadas pela casa, era de novo o seu menino. E os meninos não abandonam as mães no avião das sete.
Ouviu o chuveiro. Afivelou o sorriso de ocasião, só o despiria depois de o deixar no aeroporto. Ele desceu, gentil mas parco em palavras; cauteloso, como se temesse dar-lhe pretexto para despedida lacrimejante. Ao almoço, petisco favorito, retribuiu com o “está muito bom” da praxe. Disse-lhe para ir visitar os amigos, o carro estava à disposição, arrumações a fazer e o tempo..., “uma merda!” (o palavrão voltou a não surtir efeito). Agradeceu, já se despedira da malta na noite anterior. A que ela se agarrou como uma náufraga, fazendo perguntas sobre tudo e todos, do restaurante in da saison aos mexericos da movida e a teóricas aventuras – “como te portaste?; olha que telefono à inglesinha!”. Ele sorrindo, mestre na esquiva, em pano de fundo o Mozart que ambos amavam. D.Giovanni... O patife e o seu humor arrevesado!
A dúvida em contagem decrescente – aguento-me até partir? O aeroporto. A hesitação entre o desejo de um atraso que lhe concedesse mais uns minutos e a imperiosa necessidade de o ver pelas costas para o chorar. O abraço descontraído que ele impunha. Conhecia-o tão bem!, ao seu menino, esquivo nesses momentos por também sentir um nó na garganta. “Pisga-te já, ouviste?” E ela dizia que sim, mas ficava no carro até o avião atascado na pista se transformar primeiro em pássaro elegante e depois num ponto; longínquo mas não final.
Rumo a casa, embalando o medo - “é bem mais perigoso andar de automóvel”. Conceder-lhe uma hora a mais para bagagem e trajecto. O telefonema falsamente desprendido, “chegaste bem? Óptimo. Vê se descansas”. Depois, o mail pecaminoso que jamais teria resposta – “foi bom, querido, amo-te muito”. Só então ficou só. Um silêncio de tortura por estrear. Saiu para a varanda. Os espanta-espíritos, espantados com o furacão assolando o seu, dançavam enlouquecidos sem ponta de brisa como alibi. Sentada, abriu os diques - nem uma lágrima. De tão violentadas ao longo do dia tinham amuado e partido com o dono, clandestinas entre as gotas do after-shave.
Na manhã seguinte, ele fez a barba como de costume; e como de costume orvalhou a face com o até aí anónimo after-shave. Para descobrir que a pele não lhe ardia, mas ronronava sob carícias de mulher. Que o acompanharam, religiosa e diariamente, até ao regresso definitivo a Portugal.
sábado, dezembro 31, 2005
sexta-feira, dezembro 30, 2005
Mais um...
Agora morreu o cinema Nun'Álvares:(. Dito à moda de Jorge Sampaio: existirá, daqui a algum tempo, vida para além dos Centros Comerciais?
quinta-feira, dezembro 29, 2005
Também há finais felizes no baú:).
O puto
O puto chorava, num desamparo primaveril.
Olhou-o, aflito. Sem sombra de dúvidas – mil vezes o choro de mulher magoada! Por mais torrencial que seja, nele sempre viaja dedo acusador não definitivo, aberto a pontes e embarcadouros. Ali mesmo, na sala que agora guardava um minuto de silêncio, obsceno de tão longo, por sonhos infantis, vira ele rebentar muitas águas, fêmeas e não grávidas. E contudo cheias: de raiva, abandono, tristeza. Lembrou a rapariguinha loira de olhos resmungões e boca semi-cerrada como o coração dele – “se os homens fecham as comportas por medo de se diluírem na corrente, problema vosso; nenhuma mulher deseja imitar a pose do cow-boy da Marlboro, estamos na merda a tempo, corpo e alma inteiros”. Erro crasso, tê-la deixado partir...
Facto é que um homem tem por onde escolher: pede perdão sem admitir a falta ao espelho; regressa engolindo o orgulho; promete fazendo figas; arrisca ternura que considera mariquice; discute como adulto, refreando o adolescente ansioso por bater a porta; contra-ataca sem argumentos; rende-se! (encomendando o futuro ao Criador...). Não que seja fácil. Da estratégia de xadrezista gélido à fogachada nascida de cabeça quente, tudo acarreta preço e riscos. O choro delas enternece e agride, devasta rostos e sacode ombros, acirra o desejo oficialmente esquecido; tem a força de uma lava húmida que afoga e incendeia, como se um vulcão fêmea recusasse dor a solo.
Mas aquilo... Não havia acusação, esperança, raiva, saudades; ou hipótese. Sentia-se um espectador impotente, parte da mobília, como a estante superlotada e os sofás puídos; um estranho. Ou ladrão que à sorrelfa tivesse entrado para honestamente ganhar a vida, apenas receando alarmes ou cidadão com licença de porte de arma e nervoso ao gatilho; e se imobilizasse, face às lágrimas do garoto, dando consigo a gritar o impensável – “não há direito, chamem a polícia!”.
Inventar esponja ou alegria para aquele choro. Mas com cautela!, sem minar demasiado as regras da casa, bovinamente decalcadas das páginas ditatoriais dos especialistas, prontos a responsabilizarem educadores angustiados pelas catástrofes vindouras. Reviu mentalmente a lista de caprichos recusados, presentes adiados, castigos decretados. Obsessivo, tentou prever a reacção da ex-mulher, sempre disposta a puxar-lhe as orelhas ao telefone, “é preciso que lhe falemos a uma só voz!”. (Tarefa difícil para quem apenas estivera de acordo no desacordo, nunca deviam ter casado). Mas tentavam permanecer pais, o miúdo não tinha culpa de confusão frequente no tempo deles: tomar por amor com futuro um imperioso desejo sexual momentâneo.
Decidiu atacar o fogo com violação das regras alimentares vigentes.
- Queres ir ao MacDonald´s?
Surpreso ficou. O que não o impediu de enxugar as lágrimas rapidamente, não fosse o velho mudar de ideias ou algum vizinho de mesa aperceber-se da sua “fraqueza”. Mas o semblante permaneceu toldado.
Frente a frente. O pai refugiado numa saudável e destoante salada; o filho metodicamente demolindo um hamburguer organizado em propriedade horizontal, com nome a condizer – super-max qualquer coisa. Mais dose reforçada de batatas fritas, todos os molhos habitando saquetes luzidios e um refrigerante de cor tão berrante como as paredes. Para sobremesa, um gelado de apelido pontual – Sunday. A tudo resistiu o silêncio, mesmo à gratidão. Suspirou - a cabeça do rapaz não acompanhara o júbilo surpreendido do estômago. De regresso a casa, meia hora de bónus ao computador, já sem esperança. O toque de recolher, aceite sem os protestos da praxe.
Quando assim tristes, consentem mimos que já crismaram de vergonhosos para a idade. Aconchegou-lhe os lençóis e disse baixinho segredo por ambos conhecido,
- Gosto muito de ti.
Nenhum próximo adolescente que se preze responde a tal piroseira!
Chegado à porta, não resistiu a assumir o papel de oráculo optimista,
- Vais ver, para a semana o Benfica ganha.
Acusador, como o choro das mulheres,
- Tu não queres que isso aconteça, és portista!
O pai, digno, em defesa da honra ferida,
- Mas não fanático!
E o milagre, de que já desistira, aconteceu – o filho, não se dando sequer ao trabalho de discordar, desatou a rir à gargalhada.
O puto chorava, num desamparo primaveril.
Olhou-o, aflito. Sem sombra de dúvidas – mil vezes o choro de mulher magoada! Por mais torrencial que seja, nele sempre viaja dedo acusador não definitivo, aberto a pontes e embarcadouros. Ali mesmo, na sala que agora guardava um minuto de silêncio, obsceno de tão longo, por sonhos infantis, vira ele rebentar muitas águas, fêmeas e não grávidas. E contudo cheias: de raiva, abandono, tristeza. Lembrou a rapariguinha loira de olhos resmungões e boca semi-cerrada como o coração dele – “se os homens fecham as comportas por medo de se diluírem na corrente, problema vosso; nenhuma mulher deseja imitar a pose do cow-boy da Marlboro, estamos na merda a tempo, corpo e alma inteiros”. Erro crasso, tê-la deixado partir...
Facto é que um homem tem por onde escolher: pede perdão sem admitir a falta ao espelho; regressa engolindo o orgulho; promete fazendo figas; arrisca ternura que considera mariquice; discute como adulto, refreando o adolescente ansioso por bater a porta; contra-ataca sem argumentos; rende-se! (encomendando o futuro ao Criador...). Não que seja fácil. Da estratégia de xadrezista gélido à fogachada nascida de cabeça quente, tudo acarreta preço e riscos. O choro delas enternece e agride, devasta rostos e sacode ombros, acirra o desejo oficialmente esquecido; tem a força de uma lava húmida que afoga e incendeia, como se um vulcão fêmea recusasse dor a solo.
Mas aquilo... Não havia acusação, esperança, raiva, saudades; ou hipótese. Sentia-se um espectador impotente, parte da mobília, como a estante superlotada e os sofás puídos; um estranho. Ou ladrão que à sorrelfa tivesse entrado para honestamente ganhar a vida, apenas receando alarmes ou cidadão com licença de porte de arma e nervoso ao gatilho; e se imobilizasse, face às lágrimas do garoto, dando consigo a gritar o impensável – “não há direito, chamem a polícia!”.
Inventar esponja ou alegria para aquele choro. Mas com cautela!, sem minar demasiado as regras da casa, bovinamente decalcadas das páginas ditatoriais dos especialistas, prontos a responsabilizarem educadores angustiados pelas catástrofes vindouras. Reviu mentalmente a lista de caprichos recusados, presentes adiados, castigos decretados. Obsessivo, tentou prever a reacção da ex-mulher, sempre disposta a puxar-lhe as orelhas ao telefone, “é preciso que lhe falemos a uma só voz!”. (Tarefa difícil para quem apenas estivera de acordo no desacordo, nunca deviam ter casado). Mas tentavam permanecer pais, o miúdo não tinha culpa de confusão frequente no tempo deles: tomar por amor com futuro um imperioso desejo sexual momentâneo.
Decidiu atacar o fogo com violação das regras alimentares vigentes.
- Queres ir ao MacDonald´s?
Surpreso ficou. O que não o impediu de enxugar as lágrimas rapidamente, não fosse o velho mudar de ideias ou algum vizinho de mesa aperceber-se da sua “fraqueza”. Mas o semblante permaneceu toldado.
Frente a frente. O pai refugiado numa saudável e destoante salada; o filho metodicamente demolindo um hamburguer organizado em propriedade horizontal, com nome a condizer – super-max qualquer coisa. Mais dose reforçada de batatas fritas, todos os molhos habitando saquetes luzidios e um refrigerante de cor tão berrante como as paredes. Para sobremesa, um gelado de apelido pontual – Sunday. A tudo resistiu o silêncio, mesmo à gratidão. Suspirou - a cabeça do rapaz não acompanhara o júbilo surpreendido do estômago. De regresso a casa, meia hora de bónus ao computador, já sem esperança. O toque de recolher, aceite sem os protestos da praxe.
Quando assim tristes, consentem mimos que já crismaram de vergonhosos para a idade. Aconchegou-lhe os lençóis e disse baixinho segredo por ambos conhecido,
- Gosto muito de ti.
Nenhum próximo adolescente que se preze responde a tal piroseira!
Chegado à porta, não resistiu a assumir o papel de oráculo optimista,
- Vais ver, para a semana o Benfica ganha.
Acusador, como o choro das mulheres,
- Tu não queres que isso aconteça, és portista!
O pai, digno, em defesa da honra ferida,
- Mas não fanático!
E o milagre, de que já desistira, aconteceu – o filho, não se dando sequer ao trabalho de discordar, desatou a rir à gargalhada.
quarta-feira, dezembro 28, 2005
Cêtê falou de melancolia...
... e eu lembrei-me de uma crónica que escrevi há muito tempo:).
Desmentido
Se disserem que parti, não acredites.
Quem? Sei lá! A senhora da mercearia entregando o troco, algum puto reguila que espere a teu lado o verde para atacar a passadeira, a locutora de seios fartos e neurónios raquíticos do programa da manhã, uma daquelas “amigas” que se esquecem de assinar as cartas ou pousam o auscultador antes de dizerem o nome. Sei lá...
Não acredites.
É verdade que o silêncio invadiu a nossa vida, já não me lembro de conversarmos. Pior!, já não me lembro se algum dia o fizemos. Hoje falamos. Pouco. Esgrimimos as palavras indispensáveis ao bom andamento das refeições, à partilha equitativa da televisão – quando não te refugias no quarto com a portátil -, ao ingresso matinal sem atropelos no quarto de banho. Extra-muros restam as de circunstância nas visitas às respectivas famílias e no almoço de curso, durante o qual sempre nos dedicam um brinde por sermos o casal perfeito da nossa geração. É pouco. Mas chega. Aposto que pensas o mesmo, há anos que te não ouço protesto ou remoque. Ultimamente, creio mesmo termos descido mais um degrau nesta ascese comunicativa, ambos utilizamos com frequência o grunhido como resposta, apenas a entoação dá a entender o seu significado. E funciona! (Vantagens de uma longa convivência...) Mas poderão insinuar que parti em busca de companhia que me desate a língua e ressuscite os ouvidos que para ti entraram em greve sine die.
Não acredites.
É verdade que os corpos seguiram as palavras. Primeiro refugiados num sexo mecânico e estereotipado em noites de dias certos. Não digo ineficaz, essa história sobre a necessidade do amor e da comunicação é balela de filmes românticos e especialistas gananciosos; uma vez aprendidos movimentos e ritmos, o prazer físico salta como o joelho no reflexo rotuliano, esteja a cabeça vazia ou cheia de outra pessoa. Sim, outra pessoa, nunca to disse. A princípio escondia-o, depois nunca estive tão furioso que desejasse lançar-to à cara. Nada de importante, uma colega do escritório. Colega? Que exagero! Umas pernas elegantes cruzadas na secretária junto à minha, a saia trepava apenas o suficiente para exasperar a carne, o mesmo acontecendo às profundezas do decote, o cabelo à Veronica Lake escondia-lhe a cara. Melhor, nunca desejei a intimidade de uma troca de olhares, muito menos “bons dias” sugestivamente alegres ou despedidas de prometedora melancolia ao fim da tarde. Tinha dela o que precisava. O resto só poderia ser uma desilusão ou o princípio de uma carga de trabalhos, passado o entusiasmo inicial essas histórias clandestinas são de um ridículo atroz. Colava a sua imagem à tua face, quando ainda era necessário obrigar o corpo a fingir de quando em vez. Felizmente, hoje o sexo também se esconde por trás de grunhidos e monossílabos, tu vais para a cama cedo ou sofres de enxaqueca, eu refugio-me na net ou no clube de bridge. Manobras de esquiva inúteis, nenhum de nós já espera nada, um dia destes passo para o quarto dos rapazes. (Quanto à importância do sexo, considero-a sobreavaliada, a masturbação chega-me perfeitamente para relaxar e adormecer.) Mas admito que sussurrem ter partido a reboque de alguma paixão outonal.
Não acredites.
É verdade que ao pôr a hipótese de invadir o quarto dos rapazes me assalta uma tristeza enorme, a casa parece – e está! – vazia sem eles. Acho que foram uma no man’s land entre nós, encontrávamo-nos os quatro algures entre as trincheiras desta mútua indiferença. E o armistício era de boa fé, dos seus risos sobravam alguns estilhaços que recolhíamos sem esperança ou rancor. As preocupações da moda com os adolescentes não nos punham ombro a ombro, mas pelo menos cruzando os dedos no mesmo exorcismo às drogas, acidentes de viação e fracassos escolares. Se um dia aparecerem, não acredito que tal aconteça com os netos, não voltaremos a estender os braços um para o outro, nem mesmo para segurar um bebé. Dito isto, é possível que digam ter eu esperado a sua partida para também fazer as malas.
Não acredites.
Vou simplesmente passar o dia à quinta, gosto de a saborear sem o peso da minha solidão reflectida na tua. Estarei em casa - como e para sempre... – à hora de jantar.
P.S. Como é óbvio, não se tratava de uma carta encapotada a Maria! Escrevo-lhe desde os doze anos e nunca o desencanto meteu o nariz em tal monólogo dialogante:)))))).
Desmentido
Se disserem que parti, não acredites.
Quem? Sei lá! A senhora da mercearia entregando o troco, algum puto reguila que espere a teu lado o verde para atacar a passadeira, a locutora de seios fartos e neurónios raquíticos do programa da manhã, uma daquelas “amigas” que se esquecem de assinar as cartas ou pousam o auscultador antes de dizerem o nome. Sei lá...
Não acredites.
É verdade que o silêncio invadiu a nossa vida, já não me lembro de conversarmos. Pior!, já não me lembro se algum dia o fizemos. Hoje falamos. Pouco. Esgrimimos as palavras indispensáveis ao bom andamento das refeições, à partilha equitativa da televisão – quando não te refugias no quarto com a portátil -, ao ingresso matinal sem atropelos no quarto de banho. Extra-muros restam as de circunstância nas visitas às respectivas famílias e no almoço de curso, durante o qual sempre nos dedicam um brinde por sermos o casal perfeito da nossa geração. É pouco. Mas chega. Aposto que pensas o mesmo, há anos que te não ouço protesto ou remoque. Ultimamente, creio mesmo termos descido mais um degrau nesta ascese comunicativa, ambos utilizamos com frequência o grunhido como resposta, apenas a entoação dá a entender o seu significado. E funciona! (Vantagens de uma longa convivência...) Mas poderão insinuar que parti em busca de companhia que me desate a língua e ressuscite os ouvidos que para ti entraram em greve sine die.
Não acredites.
É verdade que os corpos seguiram as palavras. Primeiro refugiados num sexo mecânico e estereotipado em noites de dias certos. Não digo ineficaz, essa história sobre a necessidade do amor e da comunicação é balela de filmes românticos e especialistas gananciosos; uma vez aprendidos movimentos e ritmos, o prazer físico salta como o joelho no reflexo rotuliano, esteja a cabeça vazia ou cheia de outra pessoa. Sim, outra pessoa, nunca to disse. A princípio escondia-o, depois nunca estive tão furioso que desejasse lançar-to à cara. Nada de importante, uma colega do escritório. Colega? Que exagero! Umas pernas elegantes cruzadas na secretária junto à minha, a saia trepava apenas o suficiente para exasperar a carne, o mesmo acontecendo às profundezas do decote, o cabelo à Veronica Lake escondia-lhe a cara. Melhor, nunca desejei a intimidade de uma troca de olhares, muito menos “bons dias” sugestivamente alegres ou despedidas de prometedora melancolia ao fim da tarde. Tinha dela o que precisava. O resto só poderia ser uma desilusão ou o princípio de uma carga de trabalhos, passado o entusiasmo inicial essas histórias clandestinas são de um ridículo atroz. Colava a sua imagem à tua face, quando ainda era necessário obrigar o corpo a fingir de quando em vez. Felizmente, hoje o sexo também se esconde por trás de grunhidos e monossílabos, tu vais para a cama cedo ou sofres de enxaqueca, eu refugio-me na net ou no clube de bridge. Manobras de esquiva inúteis, nenhum de nós já espera nada, um dia destes passo para o quarto dos rapazes. (Quanto à importância do sexo, considero-a sobreavaliada, a masturbação chega-me perfeitamente para relaxar e adormecer.) Mas admito que sussurrem ter partido a reboque de alguma paixão outonal.
Não acredites.
É verdade que ao pôr a hipótese de invadir o quarto dos rapazes me assalta uma tristeza enorme, a casa parece – e está! – vazia sem eles. Acho que foram uma no man’s land entre nós, encontrávamo-nos os quatro algures entre as trincheiras desta mútua indiferença. E o armistício era de boa fé, dos seus risos sobravam alguns estilhaços que recolhíamos sem esperança ou rancor. As preocupações da moda com os adolescentes não nos punham ombro a ombro, mas pelo menos cruzando os dedos no mesmo exorcismo às drogas, acidentes de viação e fracassos escolares. Se um dia aparecerem, não acredito que tal aconteça com os netos, não voltaremos a estender os braços um para o outro, nem mesmo para segurar um bebé. Dito isto, é possível que digam ter eu esperado a sua partida para também fazer as malas.
Não acredites.
Vou simplesmente passar o dia à quinta, gosto de a saborear sem o peso da minha solidão reflectida na tua. Estarei em casa - como e para sempre... – à hora de jantar.
P.S. Como é óbvio, não se tratava de uma carta encapotada a Maria! Escrevo-lhe desde os doze anos e nunca o desencanto meteu o nariz em tal monólogo dialogante:)))))).
Bom dia, maralhal:).
Como me escreveu um de vocês:
A vida é isso que estas a ver:
Hoje sorris,
Amanhã não sorris,
E segunda-feira ninguém sabe o que será.
Carlos Drummond de Andrade.
Ou, em versão tripeira: siga a rusga:))))))))))))))).
A vida é isso que estas a ver:
Hoje sorris,
Amanhã não sorris,
E segunda-feira ninguém sabe o que será.
Carlos Drummond de Andrade.
Ou, em versão tripeira: siga a rusga:))))))))))))))).
terça-feira, dezembro 27, 2005
Até amanhã.
Obrigado pela compreensão, maralhal. Dizia um bom amigo meu, também psiquiatra, que sofro do "síndromo do filho único". Ou seja: alimento, de forma neurótica, fantasias acerca de muuuiiitos irmaozinhos à volta da mesa, amigos uns dos outros e a salvo de zangas pueris, quanto mais de maldade diplomada! Não digo tanto, mas o psi em mim aponta o dedo e diagnostica: "não andas longe...". Aceito o reparo que me foi feito por alguns de vós, esperei tempo de mais por uma acalmia que nada tinha de provável. Peço desculpa aos que aturaram o descambar da situação e fico grato a outros, que se afirmam dispostos a regressar. Lamento, mas compreendo que outros partam, desiludidos por um formato que lhes "proíbe" a comunicação imediata. O psi volta a rosnar: "esse horror às separações...". E tem razão. A vida é também feita de lutos, sofridos mas assumidos. Negá-los na cabeça ou - pior ainda! - acreditar poder iludi-los no concreto, equivale a deixar para trás novelos afectivos enrodilhados. Que nos continuam a assombrar, como os pássaros de Hitchcock nos fios eléctricos... Não imagino o futuro do Murcon, estarei cá amanhã e logo se verá. Boa noite.
Ver claro
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede.
Ver claro
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede.
O Lobices tinha razão.
Como ele próprio esclareceu num comentário, nunca lha neguei. Mas o pensamento de cercear a absoluta liberdade de opinar(?) angustiava-me. Ao longo de dez meses, reflecti sobre posições diversas das minhas, sorri perante a brejeirice, fiquei grato pela ternura, aceitei caneladas "mazinhas", semelhantes a tantas outras com que fui mimoseado de há mais de vinte anos para cá. Tudo bem, são as regras do jogo. Mas o que li hoje de manhã está muitos degraus abaixo disso, descambou para o insulto puro e duro, que não me sinto na obrigação de aturar. A brejeirice, o desacordo, o alegre chat entre vocês permanecerão. Mas intervenções que me retirem por completo o prazer de visitar o meu próprio blog, isso não. Por isso mesmo - porque me dá gozo vir aqui e não o quero ver substituído pela náusea.
segunda-feira, dezembro 26, 2005
Lembrete.
Não confundir viagem e quilómetros. Fazer os indispensáveis para encontrar ramo adequado, provavelmente à sombra de uma qualquer igrejinha românica. E só então levantar voo, com doçura empurrado pela pedra ascética. Fundo, mais fundo, navegar por osso e raiz, surpreender a alma nua em cada prece reservada a Deus. Vesti-la do silêncio que emoldura o desejo e não o pudor. E sobretudo não a ofender com postais a tanto a meia-dúzia, fotos de telemóvel da última geração ou bugigangas de lojas de artesanato plastificado. Para que não fuja. Transformando-me num simples turista em busca de troféus culturais para exibir aos amigos, mortos de inveja por ter eu visitado cinco cidades, dez vilas e cinquenta aldeias em apenas uma semana...
domingo, dezembro 25, 2005
Pergunta incómoda.
Maria,
Que te hei-de responder? Este ano lembrei-me de comprar pilhas para os brinquedos e os miúdos estavam felizes. Quanto ao resto, amanhã é dia de trabalho. Felizmente... Obrigado pelo mail. Tem cuidado contigo. Se puder, meto-me no avião e vou aí no próximo fim-de-semana. Não por ser Ano Novo, sabes como detesto divertir-me com data e hora marcada:). Para te abraçar no aeroporto e beber cada grão de areia da ampulheta que conta os minutos antes de nos separarmos de novo. Raio de vida, Maria! E não me venhas outra vez com a cantilena sobre "as certezas que resultam da distância". Volta. E eu prometo que alugo um apartamento em Gondomar para fazermos a experiência a meia-hora um do outro. Em horário laboral:).
Que te hei-de responder? Este ano lembrei-me de comprar pilhas para os brinquedos e os miúdos estavam felizes. Quanto ao resto, amanhã é dia de trabalho. Felizmente... Obrigado pelo mail. Tem cuidado contigo. Se puder, meto-me no avião e vou aí no próximo fim-de-semana. Não por ser Ano Novo, sabes como detesto divertir-me com data e hora marcada:). Para te abraçar no aeroporto e beber cada grão de areia da ampulheta que conta os minutos antes de nos separarmos de novo. Raio de vida, Maria! E não me venhas outra vez com a cantilena sobre "as certezas que resultam da distância". Volta. E eu prometo que alugo um apartamento em Gondomar para fazermos a experiência a meia-hora um do outro. Em horário laboral:).
sexta-feira, dezembro 23, 2005
Fiquem bem.
Presumo que muitos estarão a aquecer motores para rumarem a Natais fora de portas. Por isso vos deixo já um abraço sincero. Não sou um fã do Natal, há demasiados fantasmas pela casa, embora se tenham apiedado de mim depois do nascimento dos meus netos:). Quem resiste à alegria das crianças? Nela renasce a nossa, que por vezes julgámos exilada para sempre.
Deixo ao Miguel as coisas da manhã -
a luz (se não estiver já corrompida)
a caminho do sul,
o chão limpo das dunas desertas,
um verso onde os seixos são
de porcelana,
o ardor quase animal
duma romã aberta.
Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra.
Herança complicada, mas "obrigatória" - deixar-lhes o melhor do mundo e de nós.
Deixo ao Miguel as coisas da manhã -
a luz (se não estiver já corrompida)
a caminho do sul,
o chão limpo das dunas desertas,
um verso onde os seixos são
de porcelana,
o ardor quase animal
duma romã aberta.
Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra.
Herança complicada, mas "obrigatória" - deixar-lhes o melhor do mundo e de nós.
Vocês não poupam um pobre velho...
Paroxístico=paroxísmico. Relativos a paroxismo.
Novo (?) Dicionário Lello da Língua Portuguesa.
P.S. Última página do Público: a nova moda nos Estados Unidos é oferecer operações plásticas às mulheres. Incluindo reconstituições de hímen, às vezes para satisfazer fantasias de desfloração. Ideia curiosa essa, reconstruir a virgindade...
Novo (?) Dicionário Lello da Língua Portuguesa.
P.S. Última página do Público: a nova moda nos Estados Unidos é oferecer operações plásticas às mulheres. Incluindo reconstituições de hímen, às vezes para satisfazer fantasias de desfloração. Ideia curiosa essa, reconstruir a virgindade...
quinta-feira, dezembro 22, 2005
As palavras que o não deixam morrer.
O Arnaldo Saraiva, que ao longo dos anos me presenteou com atenções que decorrem da sua natureza gentil e não de merecimento do destinatário, ofereceu-me, em nome da Fundação Eugénio de Andrade, a 2ª edição revista e acrescentada de Toda a Poesia do Eugénio~de Andrade. E a saudade do homem torna dolorosamente espessa a distância que me separa das palavras do poeta a quem Yourcenar disse: "Ce clavecin bien tempéré de vos poèmes...". Estou de acordo com a autora dessas maravilhosas Memórias de Adriano - a música é uma das duas pontes para a transcendência que pressentimos na poesia do Eugénio. A outra, como já foi dito e redito, é o sol. Queimando o sol(o) e os corpos que nele se debatem, paroxísticos, antes de se erguerem. Rumo à luz.
E não é gralha...
Governo contra vinho do Porto americano
2005/12/22 | 10:11
Acordo permite a comercialização de vinho americano com as designações vintage, tawny e ruby associadas ao vinho do Porto
O ministro da Agricultura, Jaime Silva pronunciou-se contra o acordo firmado em Setembro pelos Estados Unidos e pela União Europeia que permite a comercialização de vinho americano com as designações vintage, tawny e ruby associadas ao vinho do Porto, avança a edição de quinta-feira do jornal Público.
Para o governante português, o problema reside no facto de este acordo abrir um precedente face a outras regiões do Mundo, o que poderá prejudicar as exportações do produto original.
O acordo sobre vinhos entre os Estados Unidos e os 25 prevê que numa primeira fase, e até que as autoridades de Washington fixem novas designações, os produtos vinícolas americanos possam ser comercializados com as denominações de origem, entre elas Port (e não Porto).
Citação do PortugalDiário.
2005/12/22 | 10:11
Acordo permite a comercialização de vinho americano com as designações vintage, tawny e ruby associadas ao vinho do Porto
O ministro da Agricultura, Jaime Silva pronunciou-se contra o acordo firmado em Setembro pelos Estados Unidos e pela União Europeia que permite a comercialização de vinho americano com as designações vintage, tawny e ruby associadas ao vinho do Porto, avança a edição de quinta-feira do jornal Público.
Para o governante português, o problema reside no facto de este acordo abrir um precedente face a outras regiões do Mundo, o que poderá prejudicar as exportações do produto original.
O acordo sobre vinhos entre os Estados Unidos e os 25 prevê que numa primeira fase, e até que as autoridades de Washington fixem novas designações, os produtos vinícolas americanos possam ser comercializados com as denominações de origem, entre elas Port (e não Porto).
Citação do PortugalDiário.
quarta-feira, dezembro 21, 2005
Que mais iremos ler?:). Já não há revisores de texto?
Política
União Europeia
Candidatura de Alegre acusa RTP de «tratamento imparcial»
A candidatura de Manuel Alegre acusou a RTP de «tratamento imparcial» e de violação das regras da igualdade de oportunidade na sequência do debate transmitido depois do frente-a-frente entre Mário Soares e Cavaco Silva, na terça-feira à noite.
No debate sobre o Estado da Nação, da RTP, o painel de convidados não contemplou um representante da candidatura de Manuel Alegre o que permitiu que, quando um dos comentadores, membro da comissão de honra de um dos candidatos, criticasse a candidatura do deputado poeta, não houvesse defesa.
O deputado socialista fala numa «exclusão inadmissível» de um espaço de debate público.
Este protesto de Manuel Alegre surge depois de, na semana passada, ter anunciado que iria processar a Eurosondagem, por aquilo que apelidou de «sintonia» entre o responsável da empresa e o socialista Jorge Coelho.
União Europeia
Candidatura de Alegre acusa RTP de «tratamento imparcial»
A candidatura de Manuel Alegre acusou a RTP de «tratamento imparcial» e de violação das regras da igualdade de oportunidade na sequência do debate transmitido depois do frente-a-frente entre Mário Soares e Cavaco Silva, na terça-feira à noite.
No debate sobre o Estado da Nação, da RTP, o painel de convidados não contemplou um representante da candidatura de Manuel Alegre o que permitiu que, quando um dos comentadores, membro da comissão de honra de um dos candidatos, criticasse a candidatura do deputado poeta, não houvesse defesa.
O deputado socialista fala numa «exclusão inadmissível» de um espaço de debate público.
Este protesto de Manuel Alegre surge depois de, na semana passada, ter anunciado que iria processar a Eurosondagem, por aquilo que apelidou de «sintonia» entre o responsável da empresa e o socialista Jorge Coelho.
segunda-feira, dezembro 19, 2005
Vigília.
Quando te sinto adormecer e ao meu desejo,
saciados mas famintos de futuro,
procuro medos antigos e não os vejo,
do amor, de ti, do quarto escuro.
Uma criança suspira aliviada,
um rapazinho afaga o louco sonho,
um homem vive a certeza mais inesperada,
um velho não se crê já tão bisonho.
E todos te segredam um "até amanhã" agradecido.
saciados mas famintos de futuro,
procuro medos antigos e não os vejo,
do amor, de ti, do quarto escuro.
Uma criança suspira aliviada,
um rapazinho afaga o louco sonho,
um homem vive a certeza mais inesperada,
um velho não se crê já tão bisonho.
E todos te segredam um "até amanhã" agradecido.
domingo, dezembro 18, 2005
Pelo sim, pelo não...
... rejeito qualquer responsabilidade pelo que possa acontecer no Porto esta noite - a partir da 1.30... - provocado pelos inexauríveis convivas do jantar do Murcon!
Agora a sério - foi muito bom:).
Agora a sério - foi muito bom:).
sexta-feira, dezembro 16, 2005
Directos ao coração.
Maria,
Que coincidência estranha! Recebo o teu mail, cheio de uma tristeza funda e solidária que me faz desejar correr a dar-te colo, e a 2 emite a História dos blues. Um homem e uma guitarra; a dor, o racismo e a pobreza a céu aberto. Compreendo o teu horror à injustiça não mediática que nos rodeia. Mas porque sou bem mais velho, lembro-a nas cruzes do Ku Klux Klan, no discurso de Luther King, na morte anónima de Skip James. Maria, admiro o teu escândalo e a necessidade que sentes de ir à luta. Admiro-te o suficiente para me sentir envergonhado por ouvir blues no conforto da sala. Receio que a velhice também seja isto - refugiar-me nas palavras para esconder a preguiça que torna difícil as barricadas, mesmo simbólicas. Saber-te nelas enche-me de orgulho e receio. Porque me rejuvenesces e afastas ao mesmo tempo. Pouco - muito!:( - importa: fazes o que tem de ser feito, pobre do amor que "dura" à custa do puxar de rédeas de alguém. Vai. Logo veremos se ainda consigo, ao menos, seguir-te à distância de um beijo, de um sorriso, de um olhar. Se não conseguir é porque já não te mereço.
Boa noite e bom caminho.
Que coincidência estranha! Recebo o teu mail, cheio de uma tristeza funda e solidária que me faz desejar correr a dar-te colo, e a 2 emite a História dos blues. Um homem e uma guitarra; a dor, o racismo e a pobreza a céu aberto. Compreendo o teu horror à injustiça não mediática que nos rodeia. Mas porque sou bem mais velho, lembro-a nas cruzes do Ku Klux Klan, no discurso de Luther King, na morte anónima de Skip James. Maria, admiro o teu escândalo e a necessidade que sentes de ir à luta. Admiro-te o suficiente para me sentir envergonhado por ouvir blues no conforto da sala. Receio que a velhice também seja isto - refugiar-me nas palavras para esconder a preguiça que torna difícil as barricadas, mesmo simbólicas. Saber-te nelas enche-me de orgulho e receio. Porque me rejuvenesces e afastas ao mesmo tempo. Pouco - muito!:( - importa: fazes o que tem de ser feito, pobre do amor que "dura" à custa do puxar de rédeas de alguém. Vai. Logo veremos se ainda consigo, ao menos, seguir-te à distância de um beijo, de um sorriso, de um olhar. Se não conseguir é porque já não te mereço.
Boa noite e bom caminho.
quinta-feira, dezembro 15, 2005
Associação livre: Pamina-Shakespeare-Vasco Graça Moura-Petrarca.
"O que costumava amar, já não amo; minto: amo, mas amo menos; ainda assim continuo a mentir: amo, mas mais envergonhadamente, mais tristemente; agora é que disse a verdade. De facto, é assim: amo, mas desejaria não amar o que amo, desejaria odiá-lo; amo todavia, mas sem querer, mas coagido, mas triste e em pranto. E, mísero, em mim mesmo experimento aquele famosíssimo dito: Odiarei se puder; se não, amarei apesar de mim".
Em Vasco Graça Moura, As Rimas de Petrarca.
Em Vasco Graça Moura, As Rimas de Petrarca.
terça-feira, dezembro 13, 2005
Com efeito...
Ofício de suicidas
Poucas as palavras, pequenos seus desígnios,
nomeiam sempre realidades banais,
triviais signos, factos consumados,
e, ao fundo, sórdida presença da morte.
Ofício melancólico, construir estas grades,
estas escassas lápides do tempo que nos passa,
ofício de suicidas, tentar reter
o rasto da luz em sílabas de sombra.
Juan Luis Panero, Poemas.
Poucas as palavras, pequenos seus desígnios,
nomeiam sempre realidades banais,
triviais signos, factos consumados,
e, ao fundo, sórdida presença da morte.
Ofício melancólico, construir estas grades,
estas escassas lápides do tempo que nos passa,
ofício de suicidas, tentar reter
o rasto da luz em sílabas de sombra.
Juan Luis Panero, Poemas.
segunda-feira, dezembro 12, 2005
O outro espírito natalício.
Maria,
Que maldade!, perguntares ao psi como vai a contagem decrescente para o Natal:(. Perguntavas ao Avô e ele te diria que sobreviveu ao Toys'r'us - ou lá como se escreve... - com um sorriso nos lábios e muita paciência na caixa, pensando em mãos e olhares ávidas dos netos. (Nota importante: não exagerar, a miudagem desenvolve uma "ideologia consumista" aterradora.) Mas o psi recebe muita gente que despe as máscaras usadas à luz das lâmpadas na rua. E que teme os holofotes escrutinadores dos outros... Confessam desejar que tudo passe a correr e cheguem os Reis para os libertar de tristeza republicana; recordam fantasmas do passado; viram e reviram os medos do futuro; perguntam, sorriso amargo, se não há uma pastilha que os faça dormir por dentro até Janeiro, enquanto funcionam por fora. Estou soturno e em pleno delírio de auto-piedade? Soturno talvez, mas jamais ouvirás de mim um lamento. É verdade que o riso não abunda na minha profissão ou, quando chega, leva as pessoas porta fora a gastar melhor tempo e dinheiro. Mas não me imagino a fazer outra coisa, sou um ouvidor. Só não te ouço a ti? Perdão, mas é uma surdez selectiva, apenas acontece quando me azucrinas o juízo! Ups... Just kidding, Maria, just kidding.
Júlio, dois ouvidos ao teu dispor:))))).
Que maldade!, perguntares ao psi como vai a contagem decrescente para o Natal:(. Perguntavas ao Avô e ele te diria que sobreviveu ao Toys'r'us - ou lá como se escreve... - com um sorriso nos lábios e muita paciência na caixa, pensando em mãos e olhares ávidas dos netos. (Nota importante: não exagerar, a miudagem desenvolve uma "ideologia consumista" aterradora.) Mas o psi recebe muita gente que despe as máscaras usadas à luz das lâmpadas na rua. E que teme os holofotes escrutinadores dos outros... Confessam desejar que tudo passe a correr e cheguem os Reis para os libertar de tristeza republicana; recordam fantasmas do passado; viram e reviram os medos do futuro; perguntam, sorriso amargo, se não há uma pastilha que os faça dormir por dentro até Janeiro, enquanto funcionam por fora. Estou soturno e em pleno delírio de auto-piedade? Soturno talvez, mas jamais ouvirás de mim um lamento. É verdade que o riso não abunda na minha profissão ou, quando chega, leva as pessoas porta fora a gastar melhor tempo e dinheiro. Mas não me imagino a fazer outra coisa, sou um ouvidor. Só não te ouço a ti? Perdão, mas é uma surdez selectiva, apenas acontece quando me azucrinas o juízo! Ups... Just kidding, Maria, just kidding.
Júlio, dois ouvidos ao teu dispor:))))).
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