Menina Maria,
Foi muito pior do que eu receava:(, desculpe mais estas linhas. Não é que o senhor doutor acertou mesmo sobre o Benfica?! Se tivesse um olho assim para o Euromilhões já estávamos todos bem na vida! Quero dizer..., a menina não me interprete mal, eu e o Sousa seríamos incapazes de nos afiambrarmos ao graveto. Ele é que sempre foi generoso, aposto que um andarzinho em Vieira ninguém nos tirava. (A minha artrite já não aguenta a humidade do quartinho na garagem de Cantelães, mas o Sousa nem à noite se afasta da limusina:(.) E não é que estou para aqui a dar água sem caneco? Foi como lhe passo a explicar: à noite sentaram-se a ver a bola, o Sousa a certa altura engoliu a paixão pelo FCP e disse que o Benfica estava a jogar bem, um tipo chamado Costinha é que parecia ter feito um pacto com o Diabo. Depois os de Leiria marcaram um e eu tossi como uma tuberculosa antes que ele asneirasse. O senhor doutor olhou-o de esguelha, mas o Sousa portou-se à altura e disse que não era merecido e faltava muito tempo. No intervalo fui para a cozinha descansada e facilitei nas horas. Quando vinha no corredor ouvi um grito do Sousa: "golo!!!! Ah, ganda Luisão...". Pensei para os meus botões que o homem dava um actor de truz, portista e a festejar assim um golo daquele poste careca que joga no Benfica. (Imagine ao que cheguei por causa dos nossos homens, já conheço os jogadores pelo nome...). Entrei na sala e fiquei para a minha vida. O Sousa enfiado no sofá como se quisesse sair-lhe pelas costas e o senhor doutor de perna cruzada e as mãos também. Cruzadas com tanta força que os nós dos dedos pareciam de um morto, de brancos que estavam. Mas olhe que a boquinha de morta não tinha nada, a menina costuma dizer que ele tem a língua afiada como a faca de um capador e tem razão, aquele tom de voz gelava qualquer um. Quanto mais o Sousa, para ele é Deus no Céu e o senhor doutor na Terra! Só disse duas frases, parece que ainda o ouço e tremo outra vez: "Meu caro Sousa, depois de amanhã estacionar o carro na garagem do Porto esteja atento aos noticiários. Quando mencionarem a subida do desemprego estarão a falar de si". E nem mais um pio. O Sousa desceu para a garagem e chorou como uma criança, mas sabe como são os homens - lá os de Leiria marcaram mais um e ele assoou-se para limpar a garganta e largou um "viva o Maciel" que se ouviu no riacho. Depois agarrou-se a mim a fungar e a dizer que um homem é um homem e um bicho é um bicho, ia para o desemprego mas com dignidade. Eu por mim não tenho nada contra a dignidade, sou mulher honesta, não devo um tusto a ninguém e só minto quando necessário. Mas sem emprego os homens ainda ficam mais difíceis de aturar, não estava a ver o Sousa a ser sustentado por mim sem largar alguma boca foleira que me obrigasse a ir-lhe à tabuleta. Dei-lhe um chá de tília e..., e..., bom, tratei bem do amiguinho dele, a minha médica de família - que faz o favor de também ser amiga - costuma dizer que não há melhor remédio para todas as maleitas dos homens. Dormiu como um bebé... Mas hoje ignoraram-se os dois o dia todo e quando nos metemos no carro julguei que era a última viagem que fazíamos. Foi quando chegou a abençoada mensagem da Menina. O senhor doutor deitou as mãos à cabeça e - com sua licença... - disse: "merda!, esqueci-me do concerto na Casa da Música". Virou-se para o Sousa e murmurou:"agradecia que me pusesse na Rotunda da Boavista dentro de uma hora". E o Sousa, em vez de bater a bola baixa, teve a lata de responder: "e o senhor doutor quer que eu faça isso com multa ou sem multa da Brigada?". Mas sabe como eles são - se recomeçam a falar, tudo se arranja! O senhor doutor fez um sorriso de assassino e declarou que mais vale apanhar uma multa que o patrão paga do que ficar sem patrão. Foi remédio santo. O Sousa voou baixinho e o senhor doutor ainda bebeu uma daquelas flautas, flutas ou lá o que é antes do concerto. Saiu muito mais bem disposto e anunciou ao Sousa que o Xô Pan e o Ludeviguevan o tinham acalmado, pelo que se considerasse readmtido ao serviço. (Se a Menina conhecer esses dois senhores que o fizeram reconsiderar agradeça-lhes por mim!). Agora já estamos os três em casa. Eu até disse ao Sousa como estava satisfeita por tudo ter terminado em bem. O maganão propôs-me logo festejar, mas eu respondi-lhe que o que é de mais cheira mal e que desse um duche frio ao amiguinho. Ele suspirou e respondeu: "Não custa tentar, Gertrudes, não custa tentar. Quanto ao resto, Quarta-Feira vai haver festa outra vez...". Porra, Menina, não me diga que agora o Benfica também perde a meio da semana, eu dou em doida com estes dois!
Gertrudes.
domingo, fevereiro 05, 2006
sábado, fevereiro 04, 2006
Menina Maria,
cá estou a dar-lhe notícias dos nossos homens. E olhe que não são famosas! O meu Sousa está aflito da coluna por ter empurrado o portão de Cantelães, que avariou outra vez. O senhor doutor - benza-o Deus... - bem que o podia ter ajudado um bocadinho, mas ficou dentro do carro aos murros ao volante e a berrar aquela frase que adora, "isto só a mim". Sabe como ele é supersticioso - declarou logo que a empresa de desinfestação não ia aparecer e o Benfica apanhava no pêlo à noite em Leiria. (Para já, apenas acertou na empresa, mas o Sousa diz que se o Glorioso perder me vá preparando para o ver de trombas - com licença da Menina... - o Domingo inteiro.) Aquele feitiozinho que todos conhecemos, não é? Ao lado da Menina ainda se acanha, mas assim... E depois, apareceu-lhe a asma, coitado! Mas até nisso é torcido, o patrão!:(. Acho que lhe fere o orgulho ter de usar as bombas e aguenta a ver se passa. Resultado - só faz o que deve já aflitinho, o que ainda lhe piora a disposição. Vou tentar pô-lo mais alegre com um jantar à maneira, faço-lhe aquela carne frita em vinho que ele trouxe da França, dum sítio chamado Fonte de Iú, penso eu. Muito gosta ele de espetar os garfos nos nacos de vitelinha e pô-los no vinho a ferver! (O Sousa acha um desperdício de boa pinga, mas também adora, o pior são os molhos para a gordura no sangue dele:(.) A Menina está bem? Os estudos? Vem no Carnaval? Por favor não volte a brincar acerca do - como se diz?... - cequeçapile do Mourinho, o senhor doutor ficou danado. Não parava de repetir que as mulheres com a verdade enganam e ainda a ia ver a desencaminhar o puto que mostrou o dedo aos benfiquistas e joga aí à bola. Até o Sousa resolveu dar uma de macho enciumado por eu dizer que preferia o Diogo Infante, veja lá bem! Mas com ele posso eu - ameacei-o com pão e água ao deitar e disse que logo que estava só na reinação. Mas ao seu tem de vir a Menina puxar as rédeas um dia destes, olhe que o vejo a cair para o desbaratinado. E eu sozinha não os aguento:( Coitados, não são piores nem melhores do que os homens das outras, mas são os nossos, as outras que aturem os delas. Venha depressa, Menina, que ele está roidinho de saudades, mas com as lambisgóias que por aí andam nunca se sabe. Irra!, que algumas parecem tão esfomeadas como os homens... Cá para mim, nunca deviam ter tornado os liceus mistos, pôem-nos juntos desde muito cedo e é uma pouca vergonha. Veja se come e trate de se agasalhar. As saudades que tenho de lhe fazer um galo na púcara... (O senhor doutor insiste em chamar-lhe cócouvan, mas eu não alinho nessas modernices.) Um beijo muito grande e não se esqueça que não lhe escrevi nada. Os homens precisam que se mande neles, mas sem notarem. Como a Menina diz - para não lhes ferir o égu.
Gertrudes.
Gertrudes.
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Mindinha dixit.
Acabo de falar com a Mindinha. Qur foi TAXATIVA!!!!!!!! A 25 de Fevereiro a Vila e o seu restaurante serão invadidos por um Rali não sei de quê (isto não é falta de respeito, é ignorância minha, pura e dura). E a Mindinha quer paz e sossego para se dedicar de corpo, alma e fogão!, aos murcónicos. Assim sendo, e não vindo eu a Cantelães no fim-de-semana seguinte, propôs ela a data de 11 de Março para o levantamento..., perdão!, o almoço comemorativo do primeiro aniversário do Murcon. Como é óbvio, respondi não ter autoridade para tomar tal decisão antes de consultar a Assembleia Geral Murcónica e ouvir a sua proposta para a distribuição de dividendos..., perdão!, a marcação de data para o repasto. Fico, portanto, humilde e venerador, à espera das vossas instruções, para depois enviar o Sousa à cata dos que se perderem pelo caminho. Decidi, murcónicos, eu não passo de um reles catalisador da vossa alapardante sabedoria.
Cantelães, ao ano primeiro da era do Murcon.
Cantelães, ao ano primeiro da era do Murcon.
Angústia feminina heterossexual:).
O homem perfeito
>O homem perfeito é lindo
>tem um pouco de mistério
>é belo quando está rindo
>é belo quando está sério
>
>O homem perfeito é bom
>tem um jeito carinhoso
>quando fala, em meigo tom
>causa arrepio gostoso
>
>O homem perfeito é fino
>é solícito, é fiel
>tem a graça de um menino
>e é mais doce que o mel
>
>O homem perfeito adora
>dar flores, botões de rosa,
>a uma velha senhora
>Ou uma jovem formosa
>
>O homem perfeito tem
>energia, não se cansa,
>lava louça, cozinha bem,
>gosta muito de criança
>
>O homem perfeito é
>sensível à grande arte
>gosta de dança e ballet
>Nunca haverá de magoar-te
>
>Para encerrar a preceito
>estes versos que alinhei:
>se existe um homem perfeito,
>o filho da puta é gay.
>O homem perfeito é lindo
>tem um pouco de mistério
>é belo quando está rindo
>é belo quando está sério
>
>O homem perfeito é bom
>tem um jeito carinhoso
>quando fala, em meigo tom
>causa arrepio gostoso
>
>O homem perfeito é fino
>é solícito, é fiel
>tem a graça de um menino
>e é mais doce que o mel
>
>O homem perfeito adora
>dar flores, botões de rosa,
>a uma velha senhora
>Ou uma jovem formosa
>
>O homem perfeito tem
>energia, não se cansa,
>lava louça, cozinha bem,
>gosta muito de criança
>
>O homem perfeito é
>sensível à grande arte
>gosta de dança e ballet
>Nunca haverá de magoar-te
>
>Para encerrar a preceito
>estes versos que alinhei:
>se existe um homem perfeito,
>o filho da puta é gay.
Parece um bocadinho difícil de explicar...
Lucros do BES crescem 85% para 280,5 milhões de euros
Subida média de 55,5% nos maiores privados nacionais
[ 2006/02/03 | 08:27 ] EditorialMD
Os três maiores bancos privados portugueses tiveram um resultado líquido de 1,285 mil milhões de euros no ano passado. O que dá uma média de crescimento de 55,57% comparando com 2004.
O ganho do BES foi o que mais progrediu, mas o Millennium BCP foi o que mais ganhou, avança o «Correio da Manhã».
Os outros dois gigantes do negócio bancário em Portugal, a Caixa Geral de Depósitos, detida pelo Estado, e o Santander Totta, ainda não apesentaram resultados, mas provavelmente os lucros somados destas cinco instituições ultrapassarão os dois mil milhões de euros.
Sei que alguns de vocês considerarão a minha dúvida simplista e desconfio que até mo provarão:))))). Mas não será realmente difícil explicar tal "desafogo" a tantos portugueses que sentem o apertar do torno na bomba de gasolina, no supermercado, nas portagens, no salário ao fim do mês, etc, etc...?
Subida média de 55,5% nos maiores privados nacionais
[ 2006/02/03 | 08:27 ] EditorialMD
Os três maiores bancos privados portugueses tiveram um resultado líquido de 1,285 mil milhões de euros no ano passado. O que dá uma média de crescimento de 55,57% comparando com 2004.
O ganho do BES foi o que mais progrediu, mas o Millennium BCP foi o que mais ganhou, avança o «Correio da Manhã».
Os outros dois gigantes do negócio bancário em Portugal, a Caixa Geral de Depósitos, detida pelo Estado, e o Santander Totta, ainda não apesentaram resultados, mas provavelmente os lucros somados destas cinco instituições ultrapassarão os dois mil milhões de euros.
Sei que alguns de vocês considerarão a minha dúvida simplista e desconfio que até mo provarão:))))). Mas não será realmente difícil explicar tal "desafogo" a tantos portugueses que sentem o apertar do torno na bomba de gasolina, no supermercado, nas portagens, no salário ao fim do mês, etc, etc...?
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
Nunca se esqueçam: o dinheiro não dá felicidade!, só mantém fora de tribunal...
Diocese dos EUA paga para calar vítimas de abusos sexuais
A diocese de Spokane, no Estado de Washington, ofereceu 45,7 milhões de dólares (38,12 milhões de euros) para conseguir um acordo extrajudicial com 75 pessoas que alegam terem sido abusadas sexualmente por sacerdotes daquela igreja.
A notícia vem a público um dia depois de outra diocese norte-americana, a de Civington, no Estado de Kentucky, ter acordado pagar 85 milhões de dólares (70,91 milhões de euros) para indemnizar as vítimas de abusos sexuais cometidos pelos seus sacerdotes.
A diocese de Spokane havia declarado estar falida em finais do mês para se proteger deste tipo de acção legal, e o próprio bispo, William Skylstad, manifestou na altura que a suan igreja enfrenta mais de 120 processos por abusos sexuais, a metade dos quais alegadamente cometidos por dois padres.
Skylstad pediu publicamente perdão às vítimas «pelos terríveis danos» e instou os católicos a aceitar o acordo extrajudicial.
O advogado que representa os queixosos, James Strang, explicou que várias vítimas já decidiram que vão aceitar o acordo extrajudicial.
Spokane é uma das dioceses mais povoadas do Estado ocidental de Washington, com cerca de 70 mil fiéis.
02-02-2006 9:19:12
A diocese de Spokane, no Estado de Washington, ofereceu 45,7 milhões de dólares (38,12 milhões de euros) para conseguir um acordo extrajudicial com 75 pessoas que alegam terem sido abusadas sexualmente por sacerdotes daquela igreja.
A notícia vem a público um dia depois de outra diocese norte-americana, a de Civington, no Estado de Kentucky, ter acordado pagar 85 milhões de dólares (70,91 milhões de euros) para indemnizar as vítimas de abusos sexuais cometidos pelos seus sacerdotes.
A diocese de Spokane havia declarado estar falida em finais do mês para se proteger deste tipo de acção legal, e o próprio bispo, William Skylstad, manifestou na altura que a suan igreja enfrenta mais de 120 processos por abusos sexuais, a metade dos quais alegadamente cometidos por dois padres.
Skylstad pediu publicamente perdão às vítimas «pelos terríveis danos» e instou os católicos a aceitar o acordo extrajudicial.
O advogado que representa os queixosos, James Strang, explicou que várias vítimas já decidiram que vão aceitar o acordo extrajudicial.
Spokane é uma das dioceses mais povoadas do Estado ocidental de Washington, com cerca de 70 mil fiéis.
02-02-2006 9:19:12
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Enquanto esperamos pela imprevisível decisão:).
A questão na política
Entretanto, o Bloco de Esquerda apresentou, hoje, uma proposta para permitir o casamento entre homossexuais, alterando o artigo 1577 do Código Civil.
E a Juventude Socialista já anunciou que vai também apresentar uma proposta no mesmo sentido.
As iniciativas não conheceram o apoio dos dois maiores partidos com assento parlamentar.
O ministro da Justiça é que já afastou a hipótese do Governo apresentar uma proposta para alterar a actual lei - que proíbe o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Entretanto, o Bloco de Esquerda apresentou, hoje, uma proposta para permitir o casamento entre homossexuais, alterando o artigo 1577 do Código Civil.
E a Juventude Socialista já anunciou que vai também apresentar uma proposta no mesmo sentido.
As iniciativas não conheceram o apoio dos dois maiores partidos com assento parlamentar.
O ministro da Justiça é que já afastou a hipótese do Governo apresentar uma proposta para alterar a actual lei - que proíbe o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Ainda não é o princípio do fim, mas talvez seja o fim do princípio, como dizia - se bem me lembro... - Churchill a respeito da Guerra:).
Casal de lésbicas quer casar pela conservatória
2006/02/01 | 00:38
As duas mulheres vão esta quarta-feira tentar obrigar o Estado a registar a união
MAIS:
Gays têm desconto no cinema
Espanha: mais de 430 casamentos homossexuais em seis meses
Um casal português de lésbicas, a viverem juntas há três anos, acusam o Estado de as discriminar com base na sua orientação sexual.
Para ultrapassar o estado actual de coisas, vão tentar obrigar o Estado a casá-las esta quarta-feira ao início da tarde, na 7ª conservatória de Lisboa.
Na companhia do advogado Luís Rodrigues vão dirigir-se à Avenida Fontes Pereira de Melo para registar a sua união.
No entanto, prevendo desde já a recusa do conservador em celebrar o acto, o advogado Luís Rodrigues, que com a sua participação, por mero «gozo profissional», pretende provar a inconstitucionalidade do Código Civil, promete entregar logo em seguida as alegações de recurso com fundamento de inconstitucionalidade, que, refere em declarações ao Público, «até já estão prontas».
P.S. Um de vocês manifestou o desejo de conhecer a minha opinião sobre o tema, aventando a hipótese de eu não a dar para não me arriscar a perder apoiantes (não percebo em que cruzada:)). Peço desculpa, fui megalómano, pensei que toda a gente conhecia a minha posição sobre o tema:). Repito-a: sou a favor do casamento entre os homossexuais que sintam tal necessidade, bem como da adopção por casais homossexuais.
2006/02/01 | 00:38
As duas mulheres vão esta quarta-feira tentar obrigar o Estado a registar a união
MAIS:
Gays têm desconto no cinema
Espanha: mais de 430 casamentos homossexuais em seis meses
Um casal português de lésbicas, a viverem juntas há três anos, acusam o Estado de as discriminar com base na sua orientação sexual.
Para ultrapassar o estado actual de coisas, vão tentar obrigar o Estado a casá-las esta quarta-feira ao início da tarde, na 7ª conservatória de Lisboa.
Na companhia do advogado Luís Rodrigues vão dirigir-se à Avenida Fontes Pereira de Melo para registar a sua união.
No entanto, prevendo desde já a recusa do conservador em celebrar o acto, o advogado Luís Rodrigues, que com a sua participação, por mero «gozo profissional», pretende provar a inconstitucionalidade do Código Civil, promete entregar logo em seguida as alegações de recurso com fundamento de inconstitucionalidade, que, refere em declarações ao Público, «até já estão prontas».
P.S. Um de vocês manifestou o desejo de conhecer a minha opinião sobre o tema, aventando a hipótese de eu não a dar para não me arriscar a perder apoiantes (não percebo em que cruzada:)). Peço desculpa, fui megalómano, pensei que toda a gente conhecia a minha posição sobre o tema:). Repito-a: sou a favor do casamento entre os homossexuais que sintam tal necessidade, bem como da adopção por casais homossexuais.
terça-feira, janeiro 31, 2006
E quem garante os votos? O padre ou o Senhor, maravilhado com tamanho sacrifício?:).
Berlusconi promete castidade até às eleições
O primeiro-ministro da Itália, Sílvio Berlusconi, de 69 anos, fez uma promessa eleitoral pouco comum deixará de ter relações sexuais até as eleições legislativas de 9 de Abril. A promessa foi feita num comício na Sardenha, ao lado do padre Massimiliano Pusceddu, pregador muito popular na televisão local. Segundo o jornal "Il Giornale", o padre prometeu o seu apoio: "Vou tentar corresponder às suas expectativas e prometo, de agora em diante, dois meses e meio de absoluta abstinência sexual", disse Berlusconi, que foi bastante criticado no passado por fazer piadas machistas e insinuações sexuais. Segundo a BBC, Berlusconi, que se divorciou após 27 anos de casamento e tornou a casar-se recentemente a actriz Veronica Lario, loira e cheia de charme, o primeiro-ministro italiano vê-se como um D. Juan.
O primeiro-ministro da Itália, Sílvio Berlusconi, de 69 anos, fez uma promessa eleitoral pouco comum deixará de ter relações sexuais até as eleições legislativas de 9 de Abril. A promessa foi feita num comício na Sardenha, ao lado do padre Massimiliano Pusceddu, pregador muito popular na televisão local. Segundo o jornal "Il Giornale", o padre prometeu o seu apoio: "Vou tentar corresponder às suas expectativas e prometo, de agora em diante, dois meses e meio de absoluta abstinência sexual", disse Berlusconi, que foi bastante criticado no passado por fazer piadas machistas e insinuações sexuais. Segundo a BBC, Berlusconi, que se divorciou após 27 anos de casamento e tornou a casar-se recentemente a actriz Veronica Lario, loira e cheia de charme, o primeiro-ministro italiano vê-se como um D. Juan.
segunda-feira, janeiro 30, 2006
Incesto, pedofilia, bestialidade e outros equivalentes da homossexualidade...
Fundamentalismo e homofobia
João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Professor universitário
omo se sabe, existem nos Estados Unidos vários movimentos cristãos integristas que pretendem impor como científica a visão da Criação ensinada na Bíblia. Tomando a Escritura como um livro de Biologia, afirmam que nas escolas a teoria da evolução de Darwin deve ser substituída, ou pelo menos completamentada, pelo criacionismo. O fundamento invocado para essa proposta, inclusive em tribunal, costuma ser o conceito de liberdade religiosa.
A tolerância de culto constitui, sem dúvida, um pilar fundamental da sociedade civilizada. As terríveis perseguições recentes, que ainda permanecem em tantas zonas do mundo, são infâmias inqualificáveis em qualquer cultura digna. Mas a liberdade religiosa, se dá a cada pessoa e comunidade o direito à sua fé e celebração, não lhe concede a possibilidade de impor essa sua visão particular à totalidade.
Os cristãos integristas, como todos os outros grupos, devem ter autonomia para, no respeito pela lei, acreditar e defender o que quiserem; podem ensinar aos seus filhos o que acharem melhor. Mas só uma compreensão distorcida de liberdade os leva a exigir que as suas opiniões sejam postas em igualdade com os resultados científicos que toda a sociedade subscreve. Liberdade e tolerância não significam imposição de uma atitude minoritária à globalidade.
Tais exageros são certamente fenómenos típicos da América. Ou não serão? De facto, na Europa verificam-se situações paralelas, em que a única diferença é que a lei já pretende impor ao todo a opinião da pequena minoria.
Na sua sessão do dia 18 deste mês, o Parlamento Europeu aprovou a "Resolução sobre a Homofobia na Europa" (P6_TA-PROV (2006)0018). Invocando os direitos humanos e o combate à discriminação, o documento constata que "os parceiros homossexuais não gozam da totalidade de direitos e protecções de que beneficiam os parceiros heterossexuais e que, por conseguinte, são vítimas de discriminação e de desvantagens" (ponto E) e, por exemplo, "insta os Estados membros a adoptarem disposições legislativas para pôr fim à discriminação de que são vítimas os parceiros do mesmo sexo em matéria de sucessão, de propriedade, de locação, de pensões, de impostos, de segurança social, etc.;" (n.º 11).
A homofobia, como qualquer outra forma de violência, opressão e discriminação, é inaceitável e deve ser fortemente combatida. Qualquer cidadão europeu tem o direito de não ser perseguido pelas suas escolhas pessoais e estilo de vida. Mas isto não é combate à homofobia, mas promoção da homossexualidade, insultando toda a Europa, que desde sempre fez e faz naturalmente o que esta lei agora considera discriminação. O Parlamento Europeu, tal como os criacionistas americanos, distorce o conceito de liberdade para impor uma visão aberrante.
A liberdade exige que cada um possa ter a vida que quiser. Mas não força a que todos achem que todas as alternativas são equivalentes; tal como a liberdade religiosa não exige que se ensinem nas escolas as teorias de qualquer seita. Uma pessoa, em liberdade, tem o direito de pensar que a homossexualidade é uma depravação, tal como pode achar que o criacionismo não é ciência. Isso, em si, não significa homofobia e intolerância, desde que não persiga os que pensam de forma diferente da sua. Pelo contrário, é o Parlamento Europeu que, ao consagrar na lei geral a posição abstrusa, viola a liberdade.
Não é discriminação tratar de forma diferente aquilo que é diferente. Os activistas pensam que a homossexualidade é igual ao casamento, tal como os criacionistas acham que o Génesis é ciência. Mas as relações homossexuais, tal como a promiscuidade, incesto, pedofilia e bestialidade, nunca foram consideradas equivalentes à família, até nas sociedades antigas que as tinham como correntes.
Os benefícios que o Estado concede à família, célula-base da sociedade, não são direitos individuais ou simples manifestação do amor mútuo. Eles provêm dos enormes benefícios que a comunidade humana recebe da solidez familiar, no nascimento de bebés, educação dos jovens, trabalho, estabilidade emocional, amparo de idosos. Esses benefícios não podem ser estendidos a qualquer outra relação, só porque alguém a considere igual.
O Parlamento Europeu não é para levar a sério. Ao tentar impor dogmas alheios a toda a legislação dos países civilizados, ao acusar de violação de direitos humanos todas as sociedades modernas, só se desprestigia a si mesmo.
João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Professor universitário
omo se sabe, existem nos Estados Unidos vários movimentos cristãos integristas que pretendem impor como científica a visão da Criação ensinada na Bíblia. Tomando a Escritura como um livro de Biologia, afirmam que nas escolas a teoria da evolução de Darwin deve ser substituída, ou pelo menos completamentada, pelo criacionismo. O fundamento invocado para essa proposta, inclusive em tribunal, costuma ser o conceito de liberdade religiosa.
A tolerância de culto constitui, sem dúvida, um pilar fundamental da sociedade civilizada. As terríveis perseguições recentes, que ainda permanecem em tantas zonas do mundo, são infâmias inqualificáveis em qualquer cultura digna. Mas a liberdade religiosa, se dá a cada pessoa e comunidade o direito à sua fé e celebração, não lhe concede a possibilidade de impor essa sua visão particular à totalidade.
Os cristãos integristas, como todos os outros grupos, devem ter autonomia para, no respeito pela lei, acreditar e defender o que quiserem; podem ensinar aos seus filhos o que acharem melhor. Mas só uma compreensão distorcida de liberdade os leva a exigir que as suas opiniões sejam postas em igualdade com os resultados científicos que toda a sociedade subscreve. Liberdade e tolerância não significam imposição de uma atitude minoritária à globalidade.
Tais exageros são certamente fenómenos típicos da América. Ou não serão? De facto, na Europa verificam-se situações paralelas, em que a única diferença é que a lei já pretende impor ao todo a opinião da pequena minoria.
Na sua sessão do dia 18 deste mês, o Parlamento Europeu aprovou a "Resolução sobre a Homofobia na Europa" (P6_TA-PROV (2006)0018). Invocando os direitos humanos e o combate à discriminação, o documento constata que "os parceiros homossexuais não gozam da totalidade de direitos e protecções de que beneficiam os parceiros heterossexuais e que, por conseguinte, são vítimas de discriminação e de desvantagens" (ponto E) e, por exemplo, "insta os Estados membros a adoptarem disposições legislativas para pôr fim à discriminação de que são vítimas os parceiros do mesmo sexo em matéria de sucessão, de propriedade, de locação, de pensões, de impostos, de segurança social, etc.;" (n.º 11).
A homofobia, como qualquer outra forma de violência, opressão e discriminação, é inaceitável e deve ser fortemente combatida. Qualquer cidadão europeu tem o direito de não ser perseguido pelas suas escolhas pessoais e estilo de vida. Mas isto não é combate à homofobia, mas promoção da homossexualidade, insultando toda a Europa, que desde sempre fez e faz naturalmente o que esta lei agora considera discriminação. O Parlamento Europeu, tal como os criacionistas americanos, distorce o conceito de liberdade para impor uma visão aberrante.
A liberdade exige que cada um possa ter a vida que quiser. Mas não força a que todos achem que todas as alternativas são equivalentes; tal como a liberdade religiosa não exige que se ensinem nas escolas as teorias de qualquer seita. Uma pessoa, em liberdade, tem o direito de pensar que a homossexualidade é uma depravação, tal como pode achar que o criacionismo não é ciência. Isso, em si, não significa homofobia e intolerância, desde que não persiga os que pensam de forma diferente da sua. Pelo contrário, é o Parlamento Europeu que, ao consagrar na lei geral a posição abstrusa, viola a liberdade.
Não é discriminação tratar de forma diferente aquilo que é diferente. Os activistas pensam que a homossexualidade é igual ao casamento, tal como os criacionistas acham que o Génesis é ciência. Mas as relações homossexuais, tal como a promiscuidade, incesto, pedofilia e bestialidade, nunca foram consideradas equivalentes à família, até nas sociedades antigas que as tinham como correntes.
Os benefícios que o Estado concede à família, célula-base da sociedade, não são direitos individuais ou simples manifestação do amor mútuo. Eles provêm dos enormes benefícios que a comunidade humana recebe da solidez familiar, no nascimento de bebés, educação dos jovens, trabalho, estabilidade emocional, amparo de idosos. Esses benefícios não podem ser estendidos a qualquer outra relação, só porque alguém a considere igual.
O Parlamento Europeu não é para levar a sério. Ao tentar impor dogmas alheios a toda a legislação dos países civilizados, ao acusar de violação de direitos humanos todas as sociedades modernas, só se desprestigia a si mesmo.
domingo, janeiro 29, 2006
Da tristeza infantil à saudade adulta.
Parabéns ao Sporting, bela prova de classe e, sobretudo!, querer. Quanto ao meu Benfica, espero que a desilusão sirva ao menos para moderar alguma arrogância visível em discursos recentes. Mas os anos passam e eu não tenho emenda - eles perdem e fico triste como um puto. Depois obrigo-me a relativizar os factos: refugio-me em poesia e música, lembro desgostos "a sério". Como a morte do Eugénio. Aqui vos deixo uma velharia escrita num dos seus últimos aniversários, agora que chega o primeiro do Murcon:). Fiquem bem.
Para o Eugénio, com gratidão (*)
As manhãs cinzentas no Douro são teimosas; ficam. Aquela não foi excepção. E no entanto, teria sido mentiroso decretar dia melancólico no Passeio Alegre; desde bem cedinho pescadores e domingueiros assistiam, embasbacados, ao espraiar de procissão risonha e pagã. Contagiados por cantos e danças, deixaram as margens do rio à sombra de canas e palmeiras, as pedras órfãs de passos namoradeiros. E se muitos engrossaram a multidão sem perguntas - pois a súbita calma que lhes invadia o espírito chegava e sobrava para justificar a romagem -, outros, escravos da razão, entregaram-se ao tacteio das palavras e gemeram porquês. (Arriscados, o prazer sobrevive mal a busca de explicação.) Mas as gaivotas – também as havia, calcorreando terra, mesmo sem cheiro de tempestade! –, condoídas, tranquilizaram-nos: era magia, sim, mas não satânica; apenas aniversário de trovador amado.
E o cortejo, na sua irreverente solenidade, dirigiu-se a casa de varanda sobre águas próximas e mundos longínquos. À porta, rapazinho e gato, afáveis mas firmes – visita a conta-gentes, a espera de alguns é menos importante do que a fadiga de quem oferece vida e luz embrulhadas nas palavras. Primeiro, incontestados, entraram os amantes sem dinheiro, “silêncio à roda dos seus passos”, ou não mereça o amor respeitosa clareira à sua volta. Depois avançou Apollinaire, companheiro de ofício, rodeado por corte de “saltimbancos, galdérias, vadios, ciganos e anões”, por definição impacientes, urrando que “a esperança é ainda violenta, mas estamos tão cansados de esperar”. (Visita longa, não admira, talentos e almas gémeas...) Cá fora, alguém se despedia, “Não temos já nada para dar./Dentro de ti/não há nada que me peça água./O passado é inútil como um trapo./ E já te disse: as palavras estão gastas./Adeus.” O outro protestava, não convencido, “é urgente o amor, é urgente/permanecer.”,... “Quem não amou/ está morto.”
Exactamente!, Pasolini estava de acordo, arremetia contra os hipócritas: “A farsa a nojenta farsa essa continua”. Que também Ruy Belo desprezava, de propósito vindo lá do Céu onde vivia, “à vontade entre os anjos, com esse sorriso onde a infância tomava sempre o comboio para as férias grandes,". E com eles muitos outros, esplendorosamente nus, livres da sinistra maldição que fez da parra tecido para fatos completos e obsessivos, escondendo esse “Corpo para beber até ao fim/meu oceano breve/e branco,/minha secreta embarcação,/meu vento favorável,/minha vária, sempre incerta/navegação.”
Já levemente incomodado pelo contínuo rumorejo por baixo das janelas, o trovador murmurou: “Palavras...Onde um só grito/bastaria, há a gordura/ das palavras.” Como preferiria repousar nos braços de alguém, pelos seus versos embalado: “Quando a ternura/parece já do seu ofício fatigada,/e o sono, a mais incerta barca,/ inda demora,/quando azuis irrompem/os teus olhos/e procuram/nos meus navegação segura,/é que eu te falo das palavras/desamparadas e desertas,/pelo silêncio fascinadas.” Docemente cruéis, as memórias felizes...
A todos recebeu, face iluminada por severo carinho. Quando partiram acenou-lhes da varanda e regressou a livros e música. Mas não só: “Com que palavras/ou beijos ou lágrimas/se acordam os mortos sem os ferir,”? Ferir, sim, como receava tê-lo feito há muitos anos: “No mais fundo de ti,/eu sei que traí, mãe/...Não me esqueci de nada, mãe./Guardo a tua voz dentro de mim./E deixo-te as rosas./ Boa noite. Eu vou com as aves.”
E do passado voltou a querida mulher da Beira. A solo!, pois não teve homem que a ajudasse a criar o rapazinho. Que a recebeu com madrigal: “Não canto porque sonho./Canto porque és real.” Ela acariciou-lhe a face, esculpida pelo tempo mas suave para dedos maternos. Olhou as gaivotas, perfiladas em guarda de honra na varanda. Sem rancor. Eram livres, belas, irresistíveis, não culpava o seu menino por um dia ter partido. Com gesto breve e imperioso deu-lhes a ordem e o milagre aconteceu: “Uma gaivota passa e outra e outra,/a casa não resiste: também voa.” No meio do vendaval, cabelos soltos de rapariguinha, a velha senhora empurrou, gentil, o trovador: “Abre de novo as asas, querido”. E ele, obediente, beijou-lhe as mãos e preparou as suas, perante olhar guloso das folhas de papel branco.
No Passeio Alegre outro poema ia nascer.
(*) Todos os versos de Eugénio de Andrade citados no texto constam de Antologia Breve, 3ª Edição aumentada.
Para o Eugénio, com gratidão (*)
As manhãs cinzentas no Douro são teimosas; ficam. Aquela não foi excepção. E no entanto, teria sido mentiroso decretar dia melancólico no Passeio Alegre; desde bem cedinho pescadores e domingueiros assistiam, embasbacados, ao espraiar de procissão risonha e pagã. Contagiados por cantos e danças, deixaram as margens do rio à sombra de canas e palmeiras, as pedras órfãs de passos namoradeiros. E se muitos engrossaram a multidão sem perguntas - pois a súbita calma que lhes invadia o espírito chegava e sobrava para justificar a romagem -, outros, escravos da razão, entregaram-se ao tacteio das palavras e gemeram porquês. (Arriscados, o prazer sobrevive mal a busca de explicação.) Mas as gaivotas – também as havia, calcorreando terra, mesmo sem cheiro de tempestade! –, condoídas, tranquilizaram-nos: era magia, sim, mas não satânica; apenas aniversário de trovador amado.
E o cortejo, na sua irreverente solenidade, dirigiu-se a casa de varanda sobre águas próximas e mundos longínquos. À porta, rapazinho e gato, afáveis mas firmes – visita a conta-gentes, a espera de alguns é menos importante do que a fadiga de quem oferece vida e luz embrulhadas nas palavras. Primeiro, incontestados, entraram os amantes sem dinheiro, “silêncio à roda dos seus passos”, ou não mereça o amor respeitosa clareira à sua volta. Depois avançou Apollinaire, companheiro de ofício, rodeado por corte de “saltimbancos, galdérias, vadios, ciganos e anões”, por definição impacientes, urrando que “a esperança é ainda violenta, mas estamos tão cansados de esperar”. (Visita longa, não admira, talentos e almas gémeas...) Cá fora, alguém se despedia, “Não temos já nada para dar./Dentro de ti/não há nada que me peça água./O passado é inútil como um trapo./ E já te disse: as palavras estão gastas./Adeus.” O outro protestava, não convencido, “é urgente o amor, é urgente/permanecer.”,... “Quem não amou/ está morto.”
Exactamente!, Pasolini estava de acordo, arremetia contra os hipócritas: “A farsa a nojenta farsa essa continua”. Que também Ruy Belo desprezava, de propósito vindo lá do Céu onde vivia, “à vontade entre os anjos, com esse sorriso onde a infância tomava sempre o comboio para as férias grandes,". E com eles muitos outros, esplendorosamente nus, livres da sinistra maldição que fez da parra tecido para fatos completos e obsessivos, escondendo esse “Corpo para beber até ao fim/meu oceano breve/e branco,/minha secreta embarcação,/meu vento favorável,/minha vária, sempre incerta/navegação.”
Já levemente incomodado pelo contínuo rumorejo por baixo das janelas, o trovador murmurou: “Palavras...Onde um só grito/bastaria, há a gordura/ das palavras.” Como preferiria repousar nos braços de alguém, pelos seus versos embalado: “Quando a ternura/parece já do seu ofício fatigada,/e o sono, a mais incerta barca,/ inda demora,/quando azuis irrompem/os teus olhos/e procuram/nos meus navegação segura,/é que eu te falo das palavras/desamparadas e desertas,/pelo silêncio fascinadas.” Docemente cruéis, as memórias felizes...
A todos recebeu, face iluminada por severo carinho. Quando partiram acenou-lhes da varanda e regressou a livros e música. Mas não só: “Com que palavras/ou beijos ou lágrimas/se acordam os mortos sem os ferir,”? Ferir, sim, como receava tê-lo feito há muitos anos: “No mais fundo de ti,/eu sei que traí, mãe/...Não me esqueci de nada, mãe./Guardo a tua voz dentro de mim./E deixo-te as rosas./ Boa noite. Eu vou com as aves.”
E do passado voltou a querida mulher da Beira. A solo!, pois não teve homem que a ajudasse a criar o rapazinho. Que a recebeu com madrigal: “Não canto porque sonho./Canto porque és real.” Ela acariciou-lhe a face, esculpida pelo tempo mas suave para dedos maternos. Olhou as gaivotas, perfiladas em guarda de honra na varanda. Sem rancor. Eram livres, belas, irresistíveis, não culpava o seu menino por um dia ter partido. Com gesto breve e imperioso deu-lhes a ordem e o milagre aconteceu: “Uma gaivota passa e outra e outra,/a casa não resiste: também voa.” No meio do vendaval, cabelos soltos de rapariguinha, a velha senhora empurrou, gentil, o trovador: “Abre de novo as asas, querido”. E ele, obediente, beijou-lhe as mãos e preparou as suas, perante olhar guloso das folhas de papel branco.
No Passeio Alegre outro poema ia nascer.
(*) Todos os versos de Eugénio de Andrade citados no texto constam de Antologia Breve, 3ª Edição aumentada.
sexta-feira, janeiro 27, 2006
Ai se eu fosse esperto, dubidubidubidu... (lembram-se de Um Violino no Telhado?).
... hoje colocava no Murcon o concerto para Flauta e Harpa K.299 de Mozart. E mais do que nunca as minhas palavras seriam baças:).
quinta-feira, janeiro 26, 2006
É a esquerdalhada!
Maralhal,
Está em curso uma campanha contra o nosso candidato a Chefe da Casa Civil da Presidência da República! Antes de publicar os comentários de A Sul e Moon tentei fazê-lo a mais uma instrutiva, recatada e singela palinódia do Noise. Sabem o que apareceu no ecrã? Que o blog estaria em manutenção durante trinta minutos! Mas para os outros comentários não houve problemas... Nã, a mim não me levam, a esquerdalhada já se pôs em movimento contra as legítimas aspirações dos murcónicos em levar aos círculos do poder um dos seus mais..., mais..., mais..., carismáticos (uf!) membros - o Noise (ou o gajo que faz uma barulheira do caraças, como diz o Sousa:)). Mantenham-se vigilantes, um novo PREC nos espreita. A luta continua, a Casa Civil será sua!
Está em curso uma campanha contra o nosso candidato a Chefe da Casa Civil da Presidência da República! Antes de publicar os comentários de A Sul e Moon tentei fazê-lo a mais uma instrutiva, recatada e singela palinódia do Noise. Sabem o que apareceu no ecrã? Que o blog estaria em manutenção durante trinta minutos! Mas para os outros comentários não houve problemas... Nã, a mim não me levam, a esquerdalhada já se pôs em movimento contra as legítimas aspirações dos murcónicos em levar aos círculos do poder um dos seus mais..., mais..., mais..., carismáticos (uf!) membros - o Noise (ou o gajo que faz uma barulheira do caraças, como diz o Sousa:)). Mantenham-se vigilantes, um novo PREC nos espreita. A luta continua, a Casa Civil será sua!
Chega de política!, o Noise que faça pela vida:).
Ditadoras
A minha secretária, peremptória: “A Mafalda disse para escrever sobre automóveis”.
Raio de ideia!, nunca fui crente dessa religião que exibe andores de quatro rodas e lhes discute cilindradas, sistemas de travagem, consumos médios e talento para atrair olhares femininos; considero o carro uma ferramenta, não uma paixão. (Vivo casamento afectuoso com um BMW, e no entanto espero a chuva para o lavar sem fazer bicha na bomba de Gomes da Costa.) O meu instrutor pasmava com tamanha ignorância, “você nem sequer sabe em que velocidade se arranca?” Com efeito. Passei brilhantemente o exame de condução por ele conhecer o percurso e me treinar tão bem que o faria de olhos fechados. (Se calhar, mantive-os assim..., afinal nos dois primeiros dias bati três vezes!) O meu Pai, feliz proprietário da chapa amassada – um Simca Versailles para lá da meia idade -, propôs uma estratégia de redução de danos: só arranjaríamos as amolgadelas passados seis meses sobre o início de tão trôpega carreira automobilística. Note-se que o velho chaço também tinha os seus achaques e caprichos, adorava encharcar em plena Rua de Santo António, que ao tempo se subia. Prevenido, eu tinha sempre um livro no porta-luvas para os longos minutos de espera, mas quem desesperava atrás de mim recorria ao insulto com frequência, “andas ou não?, ó, filho da... (Ora aí está, nem essa história posso contar, isto é um suplemento decente. Mas nenhum leitor acreditaria em discussão de trânsito sem vernáculo entre dois tripeiros!)
E se... Uma tarde vinha de Lisboa com os miúdos, em claro excesso de velocidade e na via da esquerda, quando um camionista fez a graça do costume – ultrapassou sem pisca. Achei que não nos safávamos, por descargo de consciência pus-me quase de pé em cima do travão. Finalmente percebi o que era isso do ABS, o carro parecia desfazer-se por baixo de nós, mas ficou a centímetros salvadores da traseira do outro. Nem tive tempo para meditar sobre os progressos ao nível da segurança automobilística. O Guilherme ordenou secamente que me pusesse a par do mastodonte, abriu a janela e cobriu-o de insultos. (Lá está, não posso repeti-los, e assim perde todo o colorido.) Por dever de solidariedade, juntei dois ou três palavrões que ele tinha esquecido e fugi, com medo de algum encontro ácido e traumático na portagem, que já não estava longe. No banco de trás, o João permanecera em silêncio. O irmão berrou-lhe o desagrado pela traição e o caçula assumiu uma postura digna perante a injustiça, exemplificando o gesto que fizera ao brutamontes (também ele indescritível, na sua magnífica rudeza...) Desisto, aparentemente só tenho histórias automobilísticas para adultos!
E depois..., não me apetece. Santa paciência, vou mesmo escrever o drama conjugal que tinha imaginado. Ele vai chegar, tresandando a álcool e perfume barato, o colarinho ruborizado. Mas não de vergonha!; de bâton. E ela acordada e à espera, o marido ensaiará explicações insultuosas para a inteligência de ambos, numa voz tão cambaleante como os seus passos. Ao perceber – no meio da bruma... - que não engana ninguém, vai tornar-se agressivo, porque a melhor defesa é o ataque. Invocará a falta de autoridade moral dela para fazer uma cena de ciúmes, atendendo ao facto de se ter atrevido a dormir com o anterior namorado, em vez de esperar por o conhecer. E a propósito de dormir propor-lhe-á uma trégua na cama, com direito a algumas habilidades que provariam o perfeito estado de conservação em que regressava a casa. Sem pronunciar palavra, ei-la porta fora e no dia seguinte a aproveitar a “sugestão” - telefonando ao outro que, por acaso assaz provável nos tempos que correm, também estará separado de mulher que azedou.
E se tentasse contentar secretária e editoras? (Irra!, tanta mulher a dirigir a minha vida.) Talvez o seu pedido e a minha novela sejam compatíveis... Já sei! Quando ele tiver terminado a sua lenga-lenga de macho virgem de pecado nocturno, ela, antes de sair em tromba e de trombas, dir-lhe-á, numa voz a abarrotar de desprezo,
- António, não te canses. P’ra mim..., vens de carrinho!
(Dar-se-ão as ditadoras por satisfeitas?)
A minha secretária, peremptória: “A Mafalda disse para escrever sobre automóveis”.
Raio de ideia!, nunca fui crente dessa religião que exibe andores de quatro rodas e lhes discute cilindradas, sistemas de travagem, consumos médios e talento para atrair olhares femininos; considero o carro uma ferramenta, não uma paixão. (Vivo casamento afectuoso com um BMW, e no entanto espero a chuva para o lavar sem fazer bicha na bomba de Gomes da Costa.) O meu instrutor pasmava com tamanha ignorância, “você nem sequer sabe em que velocidade se arranca?” Com efeito. Passei brilhantemente o exame de condução por ele conhecer o percurso e me treinar tão bem que o faria de olhos fechados. (Se calhar, mantive-os assim..., afinal nos dois primeiros dias bati três vezes!) O meu Pai, feliz proprietário da chapa amassada – um Simca Versailles para lá da meia idade -, propôs uma estratégia de redução de danos: só arranjaríamos as amolgadelas passados seis meses sobre o início de tão trôpega carreira automobilística. Note-se que o velho chaço também tinha os seus achaques e caprichos, adorava encharcar em plena Rua de Santo António, que ao tempo se subia. Prevenido, eu tinha sempre um livro no porta-luvas para os longos minutos de espera, mas quem desesperava atrás de mim recorria ao insulto com frequência, “andas ou não?, ó, filho da... (Ora aí está, nem essa história posso contar, isto é um suplemento decente. Mas nenhum leitor acreditaria em discussão de trânsito sem vernáculo entre dois tripeiros!)
E se... Uma tarde vinha de Lisboa com os miúdos, em claro excesso de velocidade e na via da esquerda, quando um camionista fez a graça do costume – ultrapassou sem pisca. Achei que não nos safávamos, por descargo de consciência pus-me quase de pé em cima do travão. Finalmente percebi o que era isso do ABS, o carro parecia desfazer-se por baixo de nós, mas ficou a centímetros salvadores da traseira do outro. Nem tive tempo para meditar sobre os progressos ao nível da segurança automobilística. O Guilherme ordenou secamente que me pusesse a par do mastodonte, abriu a janela e cobriu-o de insultos. (Lá está, não posso repeti-los, e assim perde todo o colorido.) Por dever de solidariedade, juntei dois ou três palavrões que ele tinha esquecido e fugi, com medo de algum encontro ácido e traumático na portagem, que já não estava longe. No banco de trás, o João permanecera em silêncio. O irmão berrou-lhe o desagrado pela traição e o caçula assumiu uma postura digna perante a injustiça, exemplificando o gesto que fizera ao brutamontes (também ele indescritível, na sua magnífica rudeza...) Desisto, aparentemente só tenho histórias automobilísticas para adultos!
E depois..., não me apetece. Santa paciência, vou mesmo escrever o drama conjugal que tinha imaginado. Ele vai chegar, tresandando a álcool e perfume barato, o colarinho ruborizado. Mas não de vergonha!; de bâton. E ela acordada e à espera, o marido ensaiará explicações insultuosas para a inteligência de ambos, numa voz tão cambaleante como os seus passos. Ao perceber – no meio da bruma... - que não engana ninguém, vai tornar-se agressivo, porque a melhor defesa é o ataque. Invocará a falta de autoridade moral dela para fazer uma cena de ciúmes, atendendo ao facto de se ter atrevido a dormir com o anterior namorado, em vez de esperar por o conhecer. E a propósito de dormir propor-lhe-á uma trégua na cama, com direito a algumas habilidades que provariam o perfeito estado de conservação em que regressava a casa. Sem pronunciar palavra, ei-la porta fora e no dia seguinte a aproveitar a “sugestão” - telefonando ao outro que, por acaso assaz provável nos tempos que correm, também estará separado de mulher que azedou.
E se tentasse contentar secretária e editoras? (Irra!, tanta mulher a dirigir a minha vida.) Talvez o seu pedido e a minha novela sejam compatíveis... Já sei! Quando ele tiver terminado a sua lenga-lenga de macho virgem de pecado nocturno, ela, antes de sair em tromba e de trombas, dir-lhe-á, numa voz a abarrotar de desprezo,
- António, não te canses. P’ra mim..., vens de carrinho!
(Dar-se-ão as ditadoras por satisfeitas?)
quarta-feira, janeiro 25, 2006
Está na cara que a nossa sugestão mexeu com ele!
Cavaco Silva tira dois dias de férias
Rescaldo
Nome do futuro chefe da Casa Civil do presidente da República mantém-se ainda em segredo
leonel de castro
Isabel Teixeira da Mota
Anão ser que queira dar um sinal deliberado, Cavaco Silva não vai deixar escapar proximamente o nome que tem em mente para ocupar o cargo de chefe da Casa Civil do Presidente da República, um serviço de consulta, de análise, de informação e de apoio técnico ao mais alto magistrado da nação.
Rescaldo
Nome do futuro chefe da Casa Civil do presidente da República mantém-se ainda em segredo
leonel de castro
Isabel Teixeira da Mota
Anão ser que queira dar um sinal deliberado, Cavaco Silva não vai deixar escapar proximamente o nome que tem em mente para ocupar o cargo de chefe da Casa Civil do Presidente da República, um serviço de consulta, de análise, de informação e de apoio técnico ao mais alto magistrado da nação.
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Velharia a propósito da dúvida sobre mim que angustia Cêtê:).
Ultimato
- Senta-te, precisamos falar.
(Pigarreou.)
- Olha, a conversa chega com dez anos de atraso, mas foi o que se pôde arranjar - atrapalhado como estou aos vinte e cinco, nem quero imaginar como seria aos quinze, dava-me um treco! Bom. Lembras-te de me pedir no liceu para entregar um bilhete ao Mário? Quando te vi atravessar o recreio na minha direcção cheguei a acreditar num milagre, ias dizer que não tinhas pachorra para tanta timidez e declarar oficial o namoro.
(Vermelho como um tomate.)
- Por favor, não interrompas! Claro que estava apaixonado por ti. E nunca me passaria pela cabeça que o não notasses, sentia-me tão incompetente a escondê-lo! Mas não, sua excelência ia responder ao Mário. Que sabia de tudo pela minha boca, o sacana... Mas não se descaiu, jurou apoio moral e correu a antecipar-se na declaração. Traste, ainda bem que com a mudança de governo perdeu o tacho. Adiante. Far-me-ás a justiça de reconhecer que lhe entreguei a maldita resposta sem um ai, não foi difícil perceber que aceitaras a ida ao cinema, ele babou-se de gozo. Antes de me pedir, com os olhos em alvo, que a tua escolha não comprometesse a nossa amizade. Mas qual escolha, porra? Se eu não me chegara à frente!
(Respirou fundo.)
- Depois fui chorar para o colo da minha mãe. Palavra! Ri-te, anda, diz que sou o menino da mamã. Com ela podia fazê-lo, ao velho só gostava de aparecer triunfante, de rabo entre as pernas nem morto. Ela deu largas à costela feminista, disse que felizmente passara o tempo de as mulheres ficarem caladas e serem escolhidas como jumentos ou camelos, conforme a sociedade. Mas a seguir previu que o mais provável era o namorico não dar em nada, se tu fosses inteligente descobririas rapidamente que ele era bonitinho mas de neurónios anémicos. Respondi-lhe que não me importava de trocar o meu QI pelos olhos azuis do Mário e ela afiançou que havia medidas menos radicais a tomar – deveria passar a ser o teu melhor amigo e não dele (com a osga que lhe tinha, a segunda parte não me pareceu difícil). Sugeriu que aproveitasse o estatuto de padrinho do namoro conferido pelo bilhete e assumisse o de confidente. Quando a paixoneta desse para o torto, compreenderias a importância do meu ombro. E nesse momento eu esboçaria um recuo estratégico, abrindo espaço à tua saudade, que acarretaria uma nova compreensão do que sentias e por quem. Lembro-me de ficar estarrecido e lhe dizer que era maquiavélica. Respondeu que às vezes é preciso dar um empurrãozinho ao destino. Acertou em quase tudo. Quase... Mal saí de cena, fizeste um escândalo por te deixar sozinha quando mais precisavas de apoio. Não para chorares o cínico do Mário!; para te aconselhar sobre o candidato seguinte. Para variar, não era eu... Devia ter-te mandado à merda. Exactamente – à merda! Mas cortei-me, quis permanecer a teu lado, ao menos como amigo. Ela jurou que se tratava de grossas asneira e fez bingo outra vez.
(Com um suspiro.)
- E assim fui teu confessor ao longo dos anos, vendo-te cortar cabeças e lamber nódoas negras. E eu ali, criado para todo o serviço. Sim, criado; a tua desfaçatez!... De vez em quando acordavas desse egoísmo cego e perguntavas por que não tinha namorada, prometias apresentar-me uma fulana qualquer e logo mudavas de opinião – “não merece o meu melhor amigo” Numa noite de copos chegaste ao desplante de perguntar se era gay. Toda abespinhada, “não confias em mim?”. Houve alturas em que me perguntei se não teria sido mais feliz... Já te disse que não interrompesses!, falaste dez anos seguidos, agora ouves.
(Martelando as palavras.)
- Desta vez foste longe demais. Ou a minha paciência esgotou-se. Aturei a enésima paixão, o noivado, ser escolhido para padrinho, dar opinião sobre electrodomésticos e tintas de parede. Resisti à base de álcool e pensamentos cristãos do género “o importante é que ela esteja bem”, fiz uma lavagem ao meu próprio cérebro. E tu mudas de ideias uma semana antes do casamento por descobrires não estar preparada para assumir um compromisso!? Muito menos com um tipo “amoroso”, mas que não te faz ferver o sangue nas veias… Chega!, a ferver estou eu. Ficas avisada - não vais chorar no meu ombro, vais chorar com saudades dele. Porque tenciono desaparecer da circulação e procurar alguém que me deseje para amante e não capacho. Adeus.
(Olhar de esguelha.)
- A não ser que reconheças imediatamente ser eu o homem da tua vida e não o tanso a quem falas dos homens na tua vida.
(Silêncio.)
Desarvorou porta fora para lhe fazer o ultimato. O ensaio ao espelho não correra nada mal!
P.S. Para demonstrar definitivamente a força do maralhal como lobby, sugiro um abaixo-assinado a propor o Noise para Chefe da Casa Civil do Presidente da República!
- Senta-te, precisamos falar.
(Pigarreou.)
- Olha, a conversa chega com dez anos de atraso, mas foi o que se pôde arranjar - atrapalhado como estou aos vinte e cinco, nem quero imaginar como seria aos quinze, dava-me um treco! Bom. Lembras-te de me pedir no liceu para entregar um bilhete ao Mário? Quando te vi atravessar o recreio na minha direcção cheguei a acreditar num milagre, ias dizer que não tinhas pachorra para tanta timidez e declarar oficial o namoro.
(Vermelho como um tomate.)
- Por favor, não interrompas! Claro que estava apaixonado por ti. E nunca me passaria pela cabeça que o não notasses, sentia-me tão incompetente a escondê-lo! Mas não, sua excelência ia responder ao Mário. Que sabia de tudo pela minha boca, o sacana... Mas não se descaiu, jurou apoio moral e correu a antecipar-se na declaração. Traste, ainda bem que com a mudança de governo perdeu o tacho. Adiante. Far-me-ás a justiça de reconhecer que lhe entreguei a maldita resposta sem um ai, não foi difícil perceber que aceitaras a ida ao cinema, ele babou-se de gozo. Antes de me pedir, com os olhos em alvo, que a tua escolha não comprometesse a nossa amizade. Mas qual escolha, porra? Se eu não me chegara à frente!
(Respirou fundo.)
- Depois fui chorar para o colo da minha mãe. Palavra! Ri-te, anda, diz que sou o menino da mamã. Com ela podia fazê-lo, ao velho só gostava de aparecer triunfante, de rabo entre as pernas nem morto. Ela deu largas à costela feminista, disse que felizmente passara o tempo de as mulheres ficarem caladas e serem escolhidas como jumentos ou camelos, conforme a sociedade. Mas a seguir previu que o mais provável era o namorico não dar em nada, se tu fosses inteligente descobririas rapidamente que ele era bonitinho mas de neurónios anémicos. Respondi-lhe que não me importava de trocar o meu QI pelos olhos azuis do Mário e ela afiançou que havia medidas menos radicais a tomar – deveria passar a ser o teu melhor amigo e não dele (com a osga que lhe tinha, a segunda parte não me pareceu difícil). Sugeriu que aproveitasse o estatuto de padrinho do namoro conferido pelo bilhete e assumisse o de confidente. Quando a paixoneta desse para o torto, compreenderias a importância do meu ombro. E nesse momento eu esboçaria um recuo estratégico, abrindo espaço à tua saudade, que acarretaria uma nova compreensão do que sentias e por quem. Lembro-me de ficar estarrecido e lhe dizer que era maquiavélica. Respondeu que às vezes é preciso dar um empurrãozinho ao destino. Acertou em quase tudo. Quase... Mal saí de cena, fizeste um escândalo por te deixar sozinha quando mais precisavas de apoio. Não para chorares o cínico do Mário!; para te aconselhar sobre o candidato seguinte. Para variar, não era eu... Devia ter-te mandado à merda. Exactamente – à merda! Mas cortei-me, quis permanecer a teu lado, ao menos como amigo. Ela jurou que se tratava de grossas asneira e fez bingo outra vez.
(Com um suspiro.)
- E assim fui teu confessor ao longo dos anos, vendo-te cortar cabeças e lamber nódoas negras. E eu ali, criado para todo o serviço. Sim, criado; a tua desfaçatez!... De vez em quando acordavas desse egoísmo cego e perguntavas por que não tinha namorada, prometias apresentar-me uma fulana qualquer e logo mudavas de opinião – “não merece o meu melhor amigo” Numa noite de copos chegaste ao desplante de perguntar se era gay. Toda abespinhada, “não confias em mim?”. Houve alturas em que me perguntei se não teria sido mais feliz... Já te disse que não interrompesses!, falaste dez anos seguidos, agora ouves.
(Martelando as palavras.)
- Desta vez foste longe demais. Ou a minha paciência esgotou-se. Aturei a enésima paixão, o noivado, ser escolhido para padrinho, dar opinião sobre electrodomésticos e tintas de parede. Resisti à base de álcool e pensamentos cristãos do género “o importante é que ela esteja bem”, fiz uma lavagem ao meu próprio cérebro. E tu mudas de ideias uma semana antes do casamento por descobrires não estar preparada para assumir um compromisso!? Muito menos com um tipo “amoroso”, mas que não te faz ferver o sangue nas veias… Chega!, a ferver estou eu. Ficas avisada - não vais chorar no meu ombro, vais chorar com saudades dele. Porque tenciono desaparecer da circulação e procurar alguém que me deseje para amante e não capacho. Adeus.
(Olhar de esguelha.)
- A não ser que reconheças imediatamente ser eu o homem da tua vida e não o tanso a quem falas dos homens na tua vida.
(Silêncio.)
Desarvorou porta fora para lhe fazer o ultimato. O ensaio ao espelho não correra nada mal!
P.S. Para demonstrar definitivamente a força do maralhal como lobby, sugiro um abaixo-assinado a propor o Noise para Chefe da Casa Civil do Presidente da República!
domingo, janeiro 22, 2006
Presidenciais.
Pela segunda vez em pouco tempo não abordei um tema que me interessava para não ser mal interpretado. Vamos então a isso:):
1) Imediatamente a seguir ao Dr. Manuel Alegre afirmar que não dividiria a Esquerda, fui contactado para integrar a Comissão de Honra do Dr. Mário Soares. Não tive dúvidas em aceitar. Sendo embora suspeito, por existir uma velha amizade entre os Soares e os Machado Vaz, era para mim evidente ser ele quem mais se aproximava do perfil que defendo para um Presidente da República.
2) E no entanto preferia que não se tivesse candidatado. O "efeito Soares" já estivera ausente nas europeias e nas internas do PS. Além disso, não se pode gritar "basta de política!" e depois esperar que as pessoas o esqueçam. Muitos portugueses continuam a aceitar tudo a Mário Soares, mas não já no registo de Pai da Pátria, e sim no ternurento de Avô. Acresce que, visto de fora, todo o processo de escolha de candidato pelo PS cheirou a esturro. E a inversão da "ordem natural" das coisas, a candidatura à Presidência da República deve ser uma iniciativa pessoal e não uma resposta ao apelo de Partidos. (De resto, toda a gente desconfiou que o não fora:)).
3) Pouco tempo depois da campanha se iniciar fui solicitado para nela participar activamente. Recusei, explicando porquê. Com um candidato à Direita mudo, quedo e ansioso por se vitimizar, a estratégia escolhida pareceu-me suicidária. À primeira pergunta de um jornalista seria obrigado a dizê-lo. Mário Soares tinha passado, longínquo e próximo, mais do que suficiente para apresentar as suas propostas e intenções e deixar as pessoas julgá-lo por elas. "Presentear" Cavaco com insinuações sobre o que os líderes europeus diziam dele e Alegre com um adjectivo como "patético" são passos certos a caminho do desastre. Que aconteceu...
4) Dito isto, votei Soares. Porque o considero o melhor dos candidatos na corrida, para me despedir em termos políticos e para lhe expressar a minha admiração pela energia que pôs no combate. Mas voltaria a recusar participar neste tipo de campanha.
5) Simpatizo com Manuel Alegre como pessoa. E agradeço ao poeta momentos mágicos no passado. Confesso que me desiludiu como candidato, esperava mais e melhor. Em contrapartida, aqueceu-me o coração o movimento que à sua volta surgiu em tão pouco tempo. Ainda há gente capaz de se mobilizar por ideias e bater-se com denodo e isso é bom. (Eventuais "réplicas" no interior do Partido Socialista não me dizem respeito.)
6) Quanto a Cavaco, a situação do País não permite devaneios e ele sabe-o. Esta raquítica maioria, com tudo a seu favor, também não. Espero que a coabitação funcione e desconfio que durante um par de anos será quase idílica. As pessoas que fizeram dele - com a sua colaboração... - o novo Messias vão ter um despertar amargo, não está nas suas mãos resolver os problemas que as afligem. Mas o que seria de Portugal sem o Sebastianismo? Sem esta convicção de que um homem austero meterá na ordem os malandros dos (outros) políticos? Sem a esperança de uma noite de nevoeiro no CCB:)?
1) Imediatamente a seguir ao Dr. Manuel Alegre afirmar que não dividiria a Esquerda, fui contactado para integrar a Comissão de Honra do Dr. Mário Soares. Não tive dúvidas em aceitar. Sendo embora suspeito, por existir uma velha amizade entre os Soares e os Machado Vaz, era para mim evidente ser ele quem mais se aproximava do perfil que defendo para um Presidente da República.
2) E no entanto preferia que não se tivesse candidatado. O "efeito Soares" já estivera ausente nas europeias e nas internas do PS. Além disso, não se pode gritar "basta de política!" e depois esperar que as pessoas o esqueçam. Muitos portugueses continuam a aceitar tudo a Mário Soares, mas não já no registo de Pai da Pátria, e sim no ternurento de Avô. Acresce que, visto de fora, todo o processo de escolha de candidato pelo PS cheirou a esturro. E a inversão da "ordem natural" das coisas, a candidatura à Presidência da República deve ser uma iniciativa pessoal e não uma resposta ao apelo de Partidos. (De resto, toda a gente desconfiou que o não fora:)).
3) Pouco tempo depois da campanha se iniciar fui solicitado para nela participar activamente. Recusei, explicando porquê. Com um candidato à Direita mudo, quedo e ansioso por se vitimizar, a estratégia escolhida pareceu-me suicidária. À primeira pergunta de um jornalista seria obrigado a dizê-lo. Mário Soares tinha passado, longínquo e próximo, mais do que suficiente para apresentar as suas propostas e intenções e deixar as pessoas julgá-lo por elas. "Presentear" Cavaco com insinuações sobre o que os líderes europeus diziam dele e Alegre com um adjectivo como "patético" são passos certos a caminho do desastre. Que aconteceu...
4) Dito isto, votei Soares. Porque o considero o melhor dos candidatos na corrida, para me despedir em termos políticos e para lhe expressar a minha admiração pela energia que pôs no combate. Mas voltaria a recusar participar neste tipo de campanha.
5) Simpatizo com Manuel Alegre como pessoa. E agradeço ao poeta momentos mágicos no passado. Confesso que me desiludiu como candidato, esperava mais e melhor. Em contrapartida, aqueceu-me o coração o movimento que à sua volta surgiu em tão pouco tempo. Ainda há gente capaz de se mobilizar por ideias e bater-se com denodo e isso é bom. (Eventuais "réplicas" no interior do Partido Socialista não me dizem respeito.)
6) Quanto a Cavaco, a situação do País não permite devaneios e ele sabe-o. Esta raquítica maioria, com tudo a seu favor, também não. Espero que a coabitação funcione e desconfio que durante um par de anos será quase idílica. As pessoas que fizeram dele - com a sua colaboração... - o novo Messias vão ter um despertar amargo, não está nas suas mãos resolver os problemas que as afligem. Mas o que seria de Portugal sem o Sebastianismo? Sem esta convicção de que um homem austero meterá na ordem os malandros dos (outros) políticos? Sem a esperança de uma noite de nevoeiro no CCB:)?
sábado, janeiro 21, 2006
A fotobiografia.
Hoje, no JN, a fotobiografia de meu Bisavô, Bernardino Machado. E, enquadradas pelo magnífico texto de minha prima Elzira, fotografias nas quais revejo um Pai que nunca conheci, de tão jovem. Uma saudade imensa. E a certeza que ele estaria de acordo com a Aspásia, no apelo ao voto que deixou nos comentários. Porque demasiada gente esperou demasiado tempo - e à custa de demasiados sacrifícios... - pelo direito de colocar um simples papel na urna. (Com a certeza de os resultados não serem falsificados pelos cortesãos do homem de Santa Comba que declarou o ler, contar e escrever suficiente para a maioria do povo português...)
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