Ditadoras
A minha secretária, peremptória: “A Mafalda disse para escrever sobre automóveis”.
Raio de ideia!, nunca fui crente dessa religião que exibe andores de quatro rodas e lhes discute cilindradas, sistemas de travagem, consumos médios e talento para atrair olhares femininos; considero o carro uma ferramenta, não uma paixão. (Vivo casamento afectuoso com um BMW, e no entanto espero a chuva para o lavar sem fazer bicha na bomba de Gomes da Costa.) O meu instrutor pasmava com tamanha ignorância, “você nem sequer sabe em que velocidade se arranca?” Com efeito. Passei brilhantemente o exame de condução por ele conhecer o percurso e me treinar tão bem que o faria de olhos fechados. (Se calhar, mantive-os assim..., afinal nos dois primeiros dias bati três vezes!) O meu Pai, feliz proprietário da chapa amassada – um Simca Versailles para lá da meia idade -, propôs uma estratégia de redução de danos: só arranjaríamos as amolgadelas passados seis meses sobre o início de tão trôpega carreira automobilística. Note-se que o velho chaço também tinha os seus achaques e caprichos, adorava encharcar em plena Rua de Santo António, que ao tempo se subia. Prevenido, eu tinha sempre um livro no porta-luvas para os longos minutos de espera, mas quem desesperava atrás de mim recorria ao insulto com frequência, “andas ou não?, ó, filho da... (Ora aí está, nem essa história posso contar, isto é um suplemento decente. Mas nenhum leitor acreditaria em discussão de trânsito sem vernáculo entre dois tripeiros!)
E se... Uma tarde vinha de Lisboa com os miúdos, em claro excesso de velocidade e na via da esquerda, quando um camionista fez a graça do costume – ultrapassou sem pisca. Achei que não nos safávamos, por descargo de consciência pus-me quase de pé em cima do travão. Finalmente percebi o que era isso do ABS, o carro parecia desfazer-se por baixo de nós, mas ficou a centímetros salvadores da traseira do outro. Nem tive tempo para meditar sobre os progressos ao nível da segurança automobilística. O Guilherme ordenou secamente que me pusesse a par do mastodonte, abriu a janela e cobriu-o de insultos. (Lá está, não posso repeti-los, e assim perde todo o colorido.) Por dever de solidariedade, juntei dois ou três palavrões que ele tinha esquecido e fugi, com medo de algum encontro ácido e traumático na portagem, que já não estava longe. No banco de trás, o João permanecera em silêncio. O irmão berrou-lhe o desagrado pela traição e o caçula assumiu uma postura digna perante a injustiça, exemplificando o gesto que fizera ao brutamontes (também ele indescritível, na sua magnífica rudeza...) Desisto, aparentemente só tenho histórias automobilísticas para adultos!
E depois..., não me apetece. Santa paciência, vou mesmo escrever o drama conjugal que tinha imaginado. Ele vai chegar, tresandando a álcool e perfume barato, o colarinho ruborizado. Mas não de vergonha!; de bâton. E ela acordada e à espera, o marido ensaiará explicações insultuosas para a inteligência de ambos, numa voz tão cambaleante como os seus passos. Ao perceber – no meio da bruma... - que não engana ninguém, vai tornar-se agressivo, porque a melhor defesa é o ataque. Invocará a falta de autoridade moral dela para fazer uma cena de ciúmes, atendendo ao facto de se ter atrevido a dormir com o anterior namorado, em vez de esperar por o conhecer. E a propósito de dormir propor-lhe-á uma trégua na cama, com direito a algumas habilidades que provariam o perfeito estado de conservação em que regressava a casa. Sem pronunciar palavra, ei-la porta fora e no dia seguinte a aproveitar a “sugestão” - telefonando ao outro que, por acaso assaz provável nos tempos que correm, também estará separado de mulher que azedou.
E se tentasse contentar secretária e editoras? (Irra!, tanta mulher a dirigir a minha vida.) Talvez o seu pedido e a minha novela sejam compatíveis... Já sei! Quando ele tiver terminado a sua lenga-lenga de macho virgem de pecado nocturno, ela, antes de sair em tromba e de trombas, dir-lhe-á, numa voz a abarrotar de desprezo,
- António, não te canses. P’ra mim..., vens de carrinho!
(Dar-se-ão as ditadoras por satisfeitas?)
quinta-feira, janeiro 26, 2006
quarta-feira, janeiro 25, 2006
Está na cara que a nossa sugestão mexeu com ele!
Cavaco Silva tira dois dias de férias
Rescaldo
Nome do futuro chefe da Casa Civil do presidente da República mantém-se ainda em segredo
leonel de castro
Isabel Teixeira da Mota
Anão ser que queira dar um sinal deliberado, Cavaco Silva não vai deixar escapar proximamente o nome que tem em mente para ocupar o cargo de chefe da Casa Civil do Presidente da República, um serviço de consulta, de análise, de informação e de apoio técnico ao mais alto magistrado da nação.
Rescaldo
Nome do futuro chefe da Casa Civil do presidente da República mantém-se ainda em segredo
leonel de castro
Isabel Teixeira da Mota
Anão ser que queira dar um sinal deliberado, Cavaco Silva não vai deixar escapar proximamente o nome que tem em mente para ocupar o cargo de chefe da Casa Civil do Presidente da República, um serviço de consulta, de análise, de informação e de apoio técnico ao mais alto magistrado da nação.
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Velharia a propósito da dúvida sobre mim que angustia Cêtê:).
Ultimato
- Senta-te, precisamos falar.
(Pigarreou.)
- Olha, a conversa chega com dez anos de atraso, mas foi o que se pôde arranjar - atrapalhado como estou aos vinte e cinco, nem quero imaginar como seria aos quinze, dava-me um treco! Bom. Lembras-te de me pedir no liceu para entregar um bilhete ao Mário? Quando te vi atravessar o recreio na minha direcção cheguei a acreditar num milagre, ias dizer que não tinhas pachorra para tanta timidez e declarar oficial o namoro.
(Vermelho como um tomate.)
- Por favor, não interrompas! Claro que estava apaixonado por ti. E nunca me passaria pela cabeça que o não notasses, sentia-me tão incompetente a escondê-lo! Mas não, sua excelência ia responder ao Mário. Que sabia de tudo pela minha boca, o sacana... Mas não se descaiu, jurou apoio moral e correu a antecipar-se na declaração. Traste, ainda bem que com a mudança de governo perdeu o tacho. Adiante. Far-me-ás a justiça de reconhecer que lhe entreguei a maldita resposta sem um ai, não foi difícil perceber que aceitaras a ida ao cinema, ele babou-se de gozo. Antes de me pedir, com os olhos em alvo, que a tua escolha não comprometesse a nossa amizade. Mas qual escolha, porra? Se eu não me chegara à frente!
(Respirou fundo.)
- Depois fui chorar para o colo da minha mãe. Palavra! Ri-te, anda, diz que sou o menino da mamã. Com ela podia fazê-lo, ao velho só gostava de aparecer triunfante, de rabo entre as pernas nem morto. Ela deu largas à costela feminista, disse que felizmente passara o tempo de as mulheres ficarem caladas e serem escolhidas como jumentos ou camelos, conforme a sociedade. Mas a seguir previu que o mais provável era o namorico não dar em nada, se tu fosses inteligente descobririas rapidamente que ele era bonitinho mas de neurónios anémicos. Respondi-lhe que não me importava de trocar o meu QI pelos olhos azuis do Mário e ela afiançou que havia medidas menos radicais a tomar – deveria passar a ser o teu melhor amigo e não dele (com a osga que lhe tinha, a segunda parte não me pareceu difícil). Sugeriu que aproveitasse o estatuto de padrinho do namoro conferido pelo bilhete e assumisse o de confidente. Quando a paixoneta desse para o torto, compreenderias a importância do meu ombro. E nesse momento eu esboçaria um recuo estratégico, abrindo espaço à tua saudade, que acarretaria uma nova compreensão do que sentias e por quem. Lembro-me de ficar estarrecido e lhe dizer que era maquiavélica. Respondeu que às vezes é preciso dar um empurrãozinho ao destino. Acertou em quase tudo. Quase... Mal saí de cena, fizeste um escândalo por te deixar sozinha quando mais precisavas de apoio. Não para chorares o cínico do Mário!; para te aconselhar sobre o candidato seguinte. Para variar, não era eu... Devia ter-te mandado à merda. Exactamente – à merda! Mas cortei-me, quis permanecer a teu lado, ao menos como amigo. Ela jurou que se tratava de grossas asneira e fez bingo outra vez.
(Com um suspiro.)
- E assim fui teu confessor ao longo dos anos, vendo-te cortar cabeças e lamber nódoas negras. E eu ali, criado para todo o serviço. Sim, criado; a tua desfaçatez!... De vez em quando acordavas desse egoísmo cego e perguntavas por que não tinha namorada, prometias apresentar-me uma fulana qualquer e logo mudavas de opinião – “não merece o meu melhor amigo” Numa noite de copos chegaste ao desplante de perguntar se era gay. Toda abespinhada, “não confias em mim?”. Houve alturas em que me perguntei se não teria sido mais feliz... Já te disse que não interrompesses!, falaste dez anos seguidos, agora ouves.
(Martelando as palavras.)
- Desta vez foste longe demais. Ou a minha paciência esgotou-se. Aturei a enésima paixão, o noivado, ser escolhido para padrinho, dar opinião sobre electrodomésticos e tintas de parede. Resisti à base de álcool e pensamentos cristãos do género “o importante é que ela esteja bem”, fiz uma lavagem ao meu próprio cérebro. E tu mudas de ideias uma semana antes do casamento por descobrires não estar preparada para assumir um compromisso!? Muito menos com um tipo “amoroso”, mas que não te faz ferver o sangue nas veias… Chega!, a ferver estou eu. Ficas avisada - não vais chorar no meu ombro, vais chorar com saudades dele. Porque tenciono desaparecer da circulação e procurar alguém que me deseje para amante e não capacho. Adeus.
(Olhar de esguelha.)
- A não ser que reconheças imediatamente ser eu o homem da tua vida e não o tanso a quem falas dos homens na tua vida.
(Silêncio.)
Desarvorou porta fora para lhe fazer o ultimato. O ensaio ao espelho não correra nada mal!
P.S. Para demonstrar definitivamente a força do maralhal como lobby, sugiro um abaixo-assinado a propor o Noise para Chefe da Casa Civil do Presidente da República!
- Senta-te, precisamos falar.
(Pigarreou.)
- Olha, a conversa chega com dez anos de atraso, mas foi o que se pôde arranjar - atrapalhado como estou aos vinte e cinco, nem quero imaginar como seria aos quinze, dava-me um treco! Bom. Lembras-te de me pedir no liceu para entregar um bilhete ao Mário? Quando te vi atravessar o recreio na minha direcção cheguei a acreditar num milagre, ias dizer que não tinhas pachorra para tanta timidez e declarar oficial o namoro.
(Vermelho como um tomate.)
- Por favor, não interrompas! Claro que estava apaixonado por ti. E nunca me passaria pela cabeça que o não notasses, sentia-me tão incompetente a escondê-lo! Mas não, sua excelência ia responder ao Mário. Que sabia de tudo pela minha boca, o sacana... Mas não se descaiu, jurou apoio moral e correu a antecipar-se na declaração. Traste, ainda bem que com a mudança de governo perdeu o tacho. Adiante. Far-me-ás a justiça de reconhecer que lhe entreguei a maldita resposta sem um ai, não foi difícil perceber que aceitaras a ida ao cinema, ele babou-se de gozo. Antes de me pedir, com os olhos em alvo, que a tua escolha não comprometesse a nossa amizade. Mas qual escolha, porra? Se eu não me chegara à frente!
(Respirou fundo.)
- Depois fui chorar para o colo da minha mãe. Palavra! Ri-te, anda, diz que sou o menino da mamã. Com ela podia fazê-lo, ao velho só gostava de aparecer triunfante, de rabo entre as pernas nem morto. Ela deu largas à costela feminista, disse que felizmente passara o tempo de as mulheres ficarem caladas e serem escolhidas como jumentos ou camelos, conforme a sociedade. Mas a seguir previu que o mais provável era o namorico não dar em nada, se tu fosses inteligente descobririas rapidamente que ele era bonitinho mas de neurónios anémicos. Respondi-lhe que não me importava de trocar o meu QI pelos olhos azuis do Mário e ela afiançou que havia medidas menos radicais a tomar – deveria passar a ser o teu melhor amigo e não dele (com a osga que lhe tinha, a segunda parte não me pareceu difícil). Sugeriu que aproveitasse o estatuto de padrinho do namoro conferido pelo bilhete e assumisse o de confidente. Quando a paixoneta desse para o torto, compreenderias a importância do meu ombro. E nesse momento eu esboçaria um recuo estratégico, abrindo espaço à tua saudade, que acarretaria uma nova compreensão do que sentias e por quem. Lembro-me de ficar estarrecido e lhe dizer que era maquiavélica. Respondeu que às vezes é preciso dar um empurrãozinho ao destino. Acertou em quase tudo. Quase... Mal saí de cena, fizeste um escândalo por te deixar sozinha quando mais precisavas de apoio. Não para chorares o cínico do Mário!; para te aconselhar sobre o candidato seguinte. Para variar, não era eu... Devia ter-te mandado à merda. Exactamente – à merda! Mas cortei-me, quis permanecer a teu lado, ao menos como amigo. Ela jurou que se tratava de grossas asneira e fez bingo outra vez.
(Com um suspiro.)
- E assim fui teu confessor ao longo dos anos, vendo-te cortar cabeças e lamber nódoas negras. E eu ali, criado para todo o serviço. Sim, criado; a tua desfaçatez!... De vez em quando acordavas desse egoísmo cego e perguntavas por que não tinha namorada, prometias apresentar-me uma fulana qualquer e logo mudavas de opinião – “não merece o meu melhor amigo” Numa noite de copos chegaste ao desplante de perguntar se era gay. Toda abespinhada, “não confias em mim?”. Houve alturas em que me perguntei se não teria sido mais feliz... Já te disse que não interrompesses!, falaste dez anos seguidos, agora ouves.
(Martelando as palavras.)
- Desta vez foste longe demais. Ou a minha paciência esgotou-se. Aturei a enésima paixão, o noivado, ser escolhido para padrinho, dar opinião sobre electrodomésticos e tintas de parede. Resisti à base de álcool e pensamentos cristãos do género “o importante é que ela esteja bem”, fiz uma lavagem ao meu próprio cérebro. E tu mudas de ideias uma semana antes do casamento por descobrires não estar preparada para assumir um compromisso!? Muito menos com um tipo “amoroso”, mas que não te faz ferver o sangue nas veias… Chega!, a ferver estou eu. Ficas avisada - não vais chorar no meu ombro, vais chorar com saudades dele. Porque tenciono desaparecer da circulação e procurar alguém que me deseje para amante e não capacho. Adeus.
(Olhar de esguelha.)
- A não ser que reconheças imediatamente ser eu o homem da tua vida e não o tanso a quem falas dos homens na tua vida.
(Silêncio.)
Desarvorou porta fora para lhe fazer o ultimato. O ensaio ao espelho não correra nada mal!
P.S. Para demonstrar definitivamente a força do maralhal como lobby, sugiro um abaixo-assinado a propor o Noise para Chefe da Casa Civil do Presidente da República!
domingo, janeiro 22, 2006
Presidenciais.
Pela segunda vez em pouco tempo não abordei um tema que me interessava para não ser mal interpretado. Vamos então a isso:):
1) Imediatamente a seguir ao Dr. Manuel Alegre afirmar que não dividiria a Esquerda, fui contactado para integrar a Comissão de Honra do Dr. Mário Soares. Não tive dúvidas em aceitar. Sendo embora suspeito, por existir uma velha amizade entre os Soares e os Machado Vaz, era para mim evidente ser ele quem mais se aproximava do perfil que defendo para um Presidente da República.
2) E no entanto preferia que não se tivesse candidatado. O "efeito Soares" já estivera ausente nas europeias e nas internas do PS. Além disso, não se pode gritar "basta de política!" e depois esperar que as pessoas o esqueçam. Muitos portugueses continuam a aceitar tudo a Mário Soares, mas não já no registo de Pai da Pátria, e sim no ternurento de Avô. Acresce que, visto de fora, todo o processo de escolha de candidato pelo PS cheirou a esturro. E a inversão da "ordem natural" das coisas, a candidatura à Presidência da República deve ser uma iniciativa pessoal e não uma resposta ao apelo de Partidos. (De resto, toda a gente desconfiou que o não fora:)).
3) Pouco tempo depois da campanha se iniciar fui solicitado para nela participar activamente. Recusei, explicando porquê. Com um candidato à Direita mudo, quedo e ansioso por se vitimizar, a estratégia escolhida pareceu-me suicidária. À primeira pergunta de um jornalista seria obrigado a dizê-lo. Mário Soares tinha passado, longínquo e próximo, mais do que suficiente para apresentar as suas propostas e intenções e deixar as pessoas julgá-lo por elas. "Presentear" Cavaco com insinuações sobre o que os líderes europeus diziam dele e Alegre com um adjectivo como "patético" são passos certos a caminho do desastre. Que aconteceu...
4) Dito isto, votei Soares. Porque o considero o melhor dos candidatos na corrida, para me despedir em termos políticos e para lhe expressar a minha admiração pela energia que pôs no combate. Mas voltaria a recusar participar neste tipo de campanha.
5) Simpatizo com Manuel Alegre como pessoa. E agradeço ao poeta momentos mágicos no passado. Confesso que me desiludiu como candidato, esperava mais e melhor. Em contrapartida, aqueceu-me o coração o movimento que à sua volta surgiu em tão pouco tempo. Ainda há gente capaz de se mobilizar por ideias e bater-se com denodo e isso é bom. (Eventuais "réplicas" no interior do Partido Socialista não me dizem respeito.)
6) Quanto a Cavaco, a situação do País não permite devaneios e ele sabe-o. Esta raquítica maioria, com tudo a seu favor, também não. Espero que a coabitação funcione e desconfio que durante um par de anos será quase idílica. As pessoas que fizeram dele - com a sua colaboração... - o novo Messias vão ter um despertar amargo, não está nas suas mãos resolver os problemas que as afligem. Mas o que seria de Portugal sem o Sebastianismo? Sem esta convicção de que um homem austero meterá na ordem os malandros dos (outros) políticos? Sem a esperança de uma noite de nevoeiro no CCB:)?
1) Imediatamente a seguir ao Dr. Manuel Alegre afirmar que não dividiria a Esquerda, fui contactado para integrar a Comissão de Honra do Dr. Mário Soares. Não tive dúvidas em aceitar. Sendo embora suspeito, por existir uma velha amizade entre os Soares e os Machado Vaz, era para mim evidente ser ele quem mais se aproximava do perfil que defendo para um Presidente da República.
2) E no entanto preferia que não se tivesse candidatado. O "efeito Soares" já estivera ausente nas europeias e nas internas do PS. Além disso, não se pode gritar "basta de política!" e depois esperar que as pessoas o esqueçam. Muitos portugueses continuam a aceitar tudo a Mário Soares, mas não já no registo de Pai da Pátria, e sim no ternurento de Avô. Acresce que, visto de fora, todo o processo de escolha de candidato pelo PS cheirou a esturro. E a inversão da "ordem natural" das coisas, a candidatura à Presidência da República deve ser uma iniciativa pessoal e não uma resposta ao apelo de Partidos. (De resto, toda a gente desconfiou que o não fora:)).
3) Pouco tempo depois da campanha se iniciar fui solicitado para nela participar activamente. Recusei, explicando porquê. Com um candidato à Direita mudo, quedo e ansioso por se vitimizar, a estratégia escolhida pareceu-me suicidária. À primeira pergunta de um jornalista seria obrigado a dizê-lo. Mário Soares tinha passado, longínquo e próximo, mais do que suficiente para apresentar as suas propostas e intenções e deixar as pessoas julgá-lo por elas. "Presentear" Cavaco com insinuações sobre o que os líderes europeus diziam dele e Alegre com um adjectivo como "patético" são passos certos a caminho do desastre. Que aconteceu...
4) Dito isto, votei Soares. Porque o considero o melhor dos candidatos na corrida, para me despedir em termos políticos e para lhe expressar a minha admiração pela energia que pôs no combate. Mas voltaria a recusar participar neste tipo de campanha.
5) Simpatizo com Manuel Alegre como pessoa. E agradeço ao poeta momentos mágicos no passado. Confesso que me desiludiu como candidato, esperava mais e melhor. Em contrapartida, aqueceu-me o coração o movimento que à sua volta surgiu em tão pouco tempo. Ainda há gente capaz de se mobilizar por ideias e bater-se com denodo e isso é bom. (Eventuais "réplicas" no interior do Partido Socialista não me dizem respeito.)
6) Quanto a Cavaco, a situação do País não permite devaneios e ele sabe-o. Esta raquítica maioria, com tudo a seu favor, também não. Espero que a coabitação funcione e desconfio que durante um par de anos será quase idílica. As pessoas que fizeram dele - com a sua colaboração... - o novo Messias vão ter um despertar amargo, não está nas suas mãos resolver os problemas que as afligem. Mas o que seria de Portugal sem o Sebastianismo? Sem esta convicção de que um homem austero meterá na ordem os malandros dos (outros) políticos? Sem a esperança de uma noite de nevoeiro no CCB:)?
sábado, janeiro 21, 2006
A fotobiografia.
Hoje, no JN, a fotobiografia de meu Bisavô, Bernardino Machado. E, enquadradas pelo magnífico texto de minha prima Elzira, fotografias nas quais revejo um Pai que nunca conheci, de tão jovem. Uma saudade imensa. E a certeza que ele estaria de acordo com a Aspásia, no apelo ao voto que deixou nos comentários. Porque demasiada gente esperou demasiado tempo - e à custa de demasiados sacrifícios... - pelo direito de colocar um simples papel na urna. (Com a certeza de os resultados não serem falsificados pelos cortesãos do homem de Santa Comba que declarou o ler, contar e escrever suficiente para a maioria do povo português...)
sexta-feira, janeiro 20, 2006
R.I.P.
Urdiu a teia das palavras, com o vagar de quem conhecia as armadilhas da inspiração. Saboreou os labirintos do erotismo, liberto das cadeias frenéticas do desejo nu. Viveu o milagre da vida, com o fulgor dos que sabem a morte à espreita em cada esquina. Habita memórias gratas, sem temer o pó sombrio das prateleiras esquecidas.
quinta-feira, janeiro 19, 2006
Manel dixit:).
Ambiente influencia mais o sucesso do que os genes
2006/01/19
Especialista evocou os exemplos de Albert Einstein e da maratonista Rosa Mota para provar tese
O investigador Manuel Sobrinho Simões afirmou hoje, perante uma plateia de centenas de jovens, que as histórias de sucesso se devem muito mais ao ambiente do que as genes.
"A nossa evolução enquanto seres vivos é fundamentalmente resultado não dos nossos genes mas do nosso treino, educação e trabalho", disse Sobrinho Simões numa conferência organizada pelo Instituto de Investigação Interdisciplinar d a Universidade de Coimbra.
Falando para cerca de oito centenas de finalistas do ensino secundário, aquele professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto evocou os exemplos de Albert Einstein e da maratonista Rosa Mota para vincar que "as histórias de sucesso são muito mais por causa do ambiente do que dos genes".
"Se alguns de vós, os privilegiados, acham que têm umas características genéticas especiais, ou trabalham muito ou estão lixados", advertiu num dos vários momentos em que causou o riso da audiência.
Sobrinho Simões lembrou também um grupo de jovens do programa Ciência Viva, com quem trabalhou há dez anos, e que actualmente são profissionais de sucesso.
"São histórias de sucesso, não porque tinham um gene do sucesso mas por que trabalharam", sublinhou o director do Instituto de Patologia e Imunologia Mo lecular da Universidade do Porto (IPATIMUP).
Na conferência, intitulada "Genes e Ambiente: do Super-homem ao Popeye" , o investigador salientou também que "a grande maioria das doenças se devem, não a alterações genéticas mas ao estilo de vida" e que a influência do ambiente começa "muito cedo", ainda no período de gestação.
Segundo Sobrinho Simões, "em todas as doenças civilizacionais, como o cancro, a obesidade, a depressão, a SIDA e a tuberculose, há factores de susceptibilidade genética" mas prevalecem causas relacionadas com a alimentação, sedentarismo e stress profissional.
Já durante o período de resposta às perguntas da audiência, o docente, galardoado com o Prémio Pessoa, disse desconhecer qual a quota-parte do ambiente e dos genes nos génios precoces e ainda na homossexualidade.
A conferência foi a primeira do ciclo de colóquios "Despertar para a Ci ência", que conta com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia e da Fundação Calouste Gulbenkian.
PortugalDiário.
2006/01/19
Especialista evocou os exemplos de Albert Einstein e da maratonista Rosa Mota para provar tese
O investigador Manuel Sobrinho Simões afirmou hoje, perante uma plateia de centenas de jovens, que as histórias de sucesso se devem muito mais ao ambiente do que as genes.
"A nossa evolução enquanto seres vivos é fundamentalmente resultado não dos nossos genes mas do nosso treino, educação e trabalho", disse Sobrinho Simões numa conferência organizada pelo Instituto de Investigação Interdisciplinar d a Universidade de Coimbra.
Falando para cerca de oito centenas de finalistas do ensino secundário, aquele professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto evocou os exemplos de Albert Einstein e da maratonista Rosa Mota para vincar que "as histórias de sucesso são muito mais por causa do ambiente do que dos genes".
"Se alguns de vós, os privilegiados, acham que têm umas características genéticas especiais, ou trabalham muito ou estão lixados", advertiu num dos vários momentos em que causou o riso da audiência.
Sobrinho Simões lembrou também um grupo de jovens do programa Ciência Viva, com quem trabalhou há dez anos, e que actualmente são profissionais de sucesso.
"São histórias de sucesso, não porque tinham um gene do sucesso mas por que trabalharam", sublinhou o director do Instituto de Patologia e Imunologia Mo lecular da Universidade do Porto (IPATIMUP).
Na conferência, intitulada "Genes e Ambiente: do Super-homem ao Popeye" , o investigador salientou também que "a grande maioria das doenças se devem, não a alterações genéticas mas ao estilo de vida" e que a influência do ambiente começa "muito cedo", ainda no período de gestação.
Segundo Sobrinho Simões, "em todas as doenças civilizacionais, como o cancro, a obesidade, a depressão, a SIDA e a tuberculose, há factores de susceptibilidade genética" mas prevalecem causas relacionadas com a alimentação, sedentarismo e stress profissional.
Já durante o período de resposta às perguntas da audiência, o docente, galardoado com o Prémio Pessoa, disse desconhecer qual a quota-parte do ambiente e dos genes nos génios precoces e ainda na homossexualidade.
A conferência foi a primeira do ciclo de colóquios "Despertar para a Ci ência", que conta com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia e da Fundação Calouste Gulbenkian.
PortugalDiário.
Pois...
Saúde
Portugal no topo da gravidez adolescente e VIH
Portugal é o segundo país da Europa Ocidental com maior número de mães adolescentes e o primeiro na infecção pelo VIH, alertam os promotores de um simpósio sobre educação sexual que começa quinta-feira em Lisboa.
A gravidez na adolescência e os comportamentos de risco associados à sexualidade são alguns dos tópicos que vão ser debatidos até sábado no «4º Simpósio de Sexologia da Universidade Lusófona de Lisboa», este ano dedicado à educação sexual.
De acordo com Américo Baptista, promotor do encontro e especialista em sexologia, o objectivo é «tentar perceber como estamos em educação sexual e quais os caminhos que devemos seguir».
«Pretendemos avaliar como nos situamos em termos de educação sexual em relação aos nossos congéneres europeus» e além de especialistas e entidades portuguesas, foram convidados peritos estrangeiros na matéria que vão abordar a situação em Espanha, Itália e Inglaterra, explicou.
Em termos comparativos, o especialista indicou que Portugal «está mal» no que respeita à gravidez na adolescência, com 22 casos em cada mil jovens entre os 10 e os 19 anos, muito longe de países como Espanha, Bélgica, Itália ou Suíça, todos com uma taxa de gravidez abaixo dos 10 por cada mil adolescentes.
Nesta matéria, Portugal só é superado a nível europeu pelo Reino Unido (30,8), Eslováquia (26,9) e Hungria (26,5), de acordo com indicadores da UNICEF, publicados em 2001.
Também quanto ao VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana), Portugal é citado pelas piores razões, sendo o país da Europa Ocidental com maior taxa de incidência de infecção.
Com 27.013 casos acumulados desde 1983, Portugal registou 1.174 novas notificações só no primeiro semestre de 2005.
No entanto, Américo Baptista sublinhou que o país evidencia as mesmas tendências evolutivas verificadas no resto da Europa, como o crescimento da transmissão entre heterossexuais, a diminuição de casos associados à toxicodependência e o aumento de casos de SIDA entre os 45 e os 54 anos.
Para prevenir os comportamentos de risco, «o conhecimento é fundamental, mas não chega», segundo um estudo conduzido por Américo Baptista junto de 1.018 estudantes universitários portugueses, que será apresentado pela primeira vez no simpósio.
De acordo com a pesquisa, «a relação entre os conhecimentos e o comportamento foi praticamente nula», o que significa que «quanto maior foi a prática de comportamentos de risco mais os jovens estavam conscientes daquilo que estavam a fazer».
Por isso, o estudo conclui que as campanhas de sensibilização têm uma eficácia muito limitada junto da população.
O especialista defende que a educação sexual nas escolas não deve apenas transmitir conhecimentos sobre os riscos associados à sexualidade, mas também motivar os jovens «a querer e a ser capaz» de adoptar uma atitude realmente preventiva.
A formação dos professores em educação sexual, o papel da comunicação social ou as disfunções sexuais são outros dos temas do simpósio, que reúne responsáveis de entidades como a Associação para o Planeamento da Família, a Liga Portuguesa Contra a Sida ou a Confederação Nacional das Associações de Pais.
Diário Digital / Lusa
Portugal no topo da gravidez adolescente e VIH
Portugal é o segundo país da Europa Ocidental com maior número de mães adolescentes e o primeiro na infecção pelo VIH, alertam os promotores de um simpósio sobre educação sexual que começa quinta-feira em Lisboa.
A gravidez na adolescência e os comportamentos de risco associados à sexualidade são alguns dos tópicos que vão ser debatidos até sábado no «4º Simpósio de Sexologia da Universidade Lusófona de Lisboa», este ano dedicado à educação sexual.
De acordo com Américo Baptista, promotor do encontro e especialista em sexologia, o objectivo é «tentar perceber como estamos em educação sexual e quais os caminhos que devemos seguir».
«Pretendemos avaliar como nos situamos em termos de educação sexual em relação aos nossos congéneres europeus» e além de especialistas e entidades portuguesas, foram convidados peritos estrangeiros na matéria que vão abordar a situação em Espanha, Itália e Inglaterra, explicou.
Em termos comparativos, o especialista indicou que Portugal «está mal» no que respeita à gravidez na adolescência, com 22 casos em cada mil jovens entre os 10 e os 19 anos, muito longe de países como Espanha, Bélgica, Itália ou Suíça, todos com uma taxa de gravidez abaixo dos 10 por cada mil adolescentes.
Nesta matéria, Portugal só é superado a nível europeu pelo Reino Unido (30,8), Eslováquia (26,9) e Hungria (26,5), de acordo com indicadores da UNICEF, publicados em 2001.
Também quanto ao VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana), Portugal é citado pelas piores razões, sendo o país da Europa Ocidental com maior taxa de incidência de infecção.
Com 27.013 casos acumulados desde 1983, Portugal registou 1.174 novas notificações só no primeiro semestre de 2005.
No entanto, Américo Baptista sublinhou que o país evidencia as mesmas tendências evolutivas verificadas no resto da Europa, como o crescimento da transmissão entre heterossexuais, a diminuição de casos associados à toxicodependência e o aumento de casos de SIDA entre os 45 e os 54 anos.
Para prevenir os comportamentos de risco, «o conhecimento é fundamental, mas não chega», segundo um estudo conduzido por Américo Baptista junto de 1.018 estudantes universitários portugueses, que será apresentado pela primeira vez no simpósio.
De acordo com a pesquisa, «a relação entre os conhecimentos e o comportamento foi praticamente nula», o que significa que «quanto maior foi a prática de comportamentos de risco mais os jovens estavam conscientes daquilo que estavam a fazer».
Por isso, o estudo conclui que as campanhas de sensibilização têm uma eficácia muito limitada junto da população.
O especialista defende que a educação sexual nas escolas não deve apenas transmitir conhecimentos sobre os riscos associados à sexualidade, mas também motivar os jovens «a querer e a ser capaz» de adoptar uma atitude realmente preventiva.
A formação dos professores em educação sexual, o papel da comunicação social ou as disfunções sexuais são outros dos temas do simpósio, que reúne responsáveis de entidades como a Associação para o Planeamento da Família, a Liga Portuguesa Contra a Sida ou a Confederação Nacional das Associações de Pais.
Diário Digital / Lusa
quarta-feira, janeiro 18, 2006
Reforma activa.
Maria,
O meu filho mais novo fez 29 anos. O outro vai a caminho dos 32. Fiz a minha parte. Apetece-me deslizar para os bastidores, sem ruído ou amargura, apenas com um telemóvel disponível. Rever a estrada. E Montségur. O marco singelo - als catars. Buscar ao longe o Mediterrâneo. Sem sucesso. Atribuir a culpa às nuvens, e assim ilibar a miopia, a vista cansada, a velhice jovem. Refugiar-me no teu sorriso curioso e ávido - "conta-me". Abraçar-te os ombros, rejuvenescer setecentos anos - "foi assim". E contigo percorrer os caminhos que trilhavam para fugir aos Inquisidores. Mais um dia, ainda um mês, com sorte um ano, até à inevitável fogueira. O fim da história. O silêncio. O nosso fogo homenageando o deles. Boa noite.
O meu filho mais novo fez 29 anos. O outro vai a caminho dos 32. Fiz a minha parte. Apetece-me deslizar para os bastidores, sem ruído ou amargura, apenas com um telemóvel disponível. Rever a estrada. E Montségur. O marco singelo - als catars. Buscar ao longe o Mediterrâneo. Sem sucesso. Atribuir a culpa às nuvens, e assim ilibar a miopia, a vista cansada, a velhice jovem. Refugiar-me no teu sorriso curioso e ávido - "conta-me". Abraçar-te os ombros, rejuvenescer setecentos anos - "foi assim". E contigo percorrer os caminhos que trilhavam para fugir aos Inquisidores. Mais um dia, ainda um mês, com sorte um ano, até à inevitável fogueira. O fim da história. O silêncio. O nosso fogo homenageando o deles. Boa noite.
segunda-feira, janeiro 16, 2006
O mal aqui tão perto.
Recomeço dos Sopranos à Segunda no Hollywood. E o fascínio de um argumento que nos mete pelos olhos a absoluta humanidade dos "maus da fita". O humor baloiçando entre o ingénuo e o corrosivo; os pequenos dramas burgueses de um pai, marido e amante desorientado; o imenso poder da mãe depressiva que reescreve a história do seu casamento; os diálogos brilhantes entre uma psi assustada pelo sub-mundo que aflora e um mafioso de luto pela solidária família de patos que lhe habitou a piscina; uma banda sonora magistral. E o mal ali - aqui! - tão perto: humano, intrínseco, natural. Inevitável...
domingo, janeiro 15, 2006
A Gertrudes é porta-voz do S.Bentinho!
Estávamos eu e o Guilherme já no carro, ansiosos por devorar quilómetros de auto-estrada molhada com as respectivas derrapagens controladas e um pião para celebrar a chegada à catedral quando..., o telefone tocou. Era o Sousa. Aflito e - talvez por isso... - sem o respeito habitual. "Patrão", disse ele, "não vá a Lisboa". "E porquê, homem de Deus?", respondi, impaciente e já a fazer relinchar os cavalos do motor. "A Gertrudes foi ao S.Bentinho", gemeu o Sousa, "e ele diz para o patrão ficar no Porto". Expliquei-lhe, paciente, que sou agnóstico e portanto, pese embora o respeito que me merece a fé dos outros - neste caso da Gertrudes... -, não me deixo impressionar por revelações sobre o futuro, próximo ou longínquo. Sosseguei-o com meiguice, afinal a sua preocupação era ternurenta, "Sousa, estou a sair cedo para não correr riscos na estrada, vai tudo correr bem". E ele, teimoso, "Olhe que não é só por isso, patrão, embora o temporal nos preocupe. O desgosto não é na estrada, mas no Estádio". Confesso que tremi um pouco, seria o S.Bentinho capaz de prever o fim do estado de graça do Moretto? Mas um homem é um homem e a águia Vitória o bicho favorito dos benfiquistas. Enchi o peito, busquei com o olhar a aprovação do Guilherme, pelo sim pelo não pus o God Only Knows dos Beach Boys no leitor de CDs e arranquei. O Sousa percebeu e gritou: "não atravesse a Arrábida, patrão". E eu, já com o sentimento de desafiar os deuses que se escondiam por trás do aviso do S.Bentinho à Gertrudes, berrei a minha resposta com altivez: "SLB, SLB, Glorioso SLB, ganharemos contra tudo e contra todos, humanos ou divinos! Percebeu Sousa? Over and out". (O over and out aprendi nos filmes...). O Sousa, vencido e desalentado, rendeu-se à minha determinação. "Faça como quiser, patrão", disse, "mas olhe que se for, o Estrela não ganha ao Porto. Boa viagem". E desligou.
Além de ser agnóstico, também me considero imune a qualquer espécie de superstição, gostaria de o deixar bem claro. Mas não gosto de saber preocupado quem guardo no coração. Depois, o Guilherme pareceu-me um bocadinho constipado. E embora eles o não tenham dito, percebi que os meus netos estavam ansiosos por brincar com o Avô. Já para não falar da hipótese de um nevão me impedir de estar amanhã a horas no consultório!
Irritadíssimo, fiquei e lá vimos o jogo no sofá. O bom do Sousa telefonou há minutos com más notícias, a caldeira está de novo avariada em Cantelães. E, talvez por isso, não resistiu a uma tentativa infantil de me animar: "Viu, patrão, o Estrela ganhou, o S.Bentinho não ia mentir à Gertrudes!".
Desliguei sem o contrariar. O Sousa e a Gertrudes são gente boa, simples e crédula, para quê desgostá-los, provando-lhes a futilidade das suas crenças? Nem pensar! Fiz exactamente o contrário, pedi que no regresso passassem de novo pelo S.Bentinho a perguntar o que preciso fazer para o Benfica ganhar ao Gil Vicente na Sexta.
Só para os manter felizes...
Além de ser agnóstico, também me considero imune a qualquer espécie de superstição, gostaria de o deixar bem claro. Mas não gosto de saber preocupado quem guardo no coração. Depois, o Guilherme pareceu-me um bocadinho constipado. E embora eles o não tenham dito, percebi que os meus netos estavam ansiosos por brincar com o Avô. Já para não falar da hipótese de um nevão me impedir de estar amanhã a horas no consultório!
Irritadíssimo, fiquei e lá vimos o jogo no sofá. O bom do Sousa telefonou há minutos com más notícias, a caldeira está de novo avariada em Cantelães. E, talvez por isso, não resistiu a uma tentativa infantil de me animar: "Viu, patrão, o Estrela ganhou, o S.Bentinho não ia mentir à Gertrudes!".
Desliguei sem o contrariar. O Sousa e a Gertrudes são gente boa, simples e crédula, para quê desgostá-los, provando-lhes a futilidade das suas crenças? Nem pensar! Fiz exactamente o contrário, pedi que no regresso passassem de novo pelo S.Bentinho a perguntar o que preciso fazer para o Benfica ganhar ao Gil Vicente na Sexta.
Só para os manter felizes...
Adiante.
Tinham alterado o programa e eu não sabia - Mozart..., nem ouvi-lo:((((((. Ressacar da música dele é tão difícil que não gozei o concerto como devia. E agora, para a estrada com um tempo sinistro... Mas decidi ver os rapazes e não volto atrás. Tive uma pequena desilusão. Que fazer? Lá diz o Eugénio:
Recomeço.
Não tenho outro ofício.
A vida toda em dois versos:).
Recomeço.
Não tenho outro ofício.
A vida toda em dois versos:).
sábado, janeiro 14, 2006
Sooooooouuuuuuusssssssaaaaaaaa!!!!!!!!
Ó homem, desculpe:(. Esqueci-me de o avisar, não vou para cima, há Mozart na Casa da Música (chlep, chlep, chlep). E vocês preparados para arrancar... Já sei, vão na mesma! Goze a casa e os dias sem ter de se preocupar com o patrão. Nada de jornal pela manhã, petiscos ao almoço e copo de leite na mesa de cabeceira ao deitar. É justo. Nunca lho disse cara a cara por este pudor cretino que castra os homens, mas você tem sido muito mais que mordomo e motorista - você é já amigo e confidente. Cantelães fica bem entregue e estou certo que acolherá a Gertrudes com a ternura que ela merece. Bom fim-de-semana.
P.S. Não se esqueça de desligar a caldeira!
P.S.1 - A salada de atum que está no frigorífico ainda é segura?
P.S.2 - Há jeans lavados?
P.S.3 - Acha que a camisa de quadrados azul aguenta com o blusão castanho em cima?
P.S.4 - Arrisco estacionar na Casa da Música ou é melhor ir de táxi?
P.S.5 - E sobretudo não se preocupe comigo!!!!!! Você tem tendência para pensar que eu não me safo na sua ausência. Francamente, Sousa, já não sou nenhum garotinho:).
P.S. Não se esqueça de desligar a caldeira!
P.S.1 - A salada de atum que está no frigorífico ainda é segura?
P.S.2 - Há jeans lavados?
P.S.3 - Acha que a camisa de quadrados azul aguenta com o blusão castanho em cima?
P.S.4 - Arrisco estacionar na Casa da Música ou é melhor ir de táxi?
P.S.5 - E sobretudo não se preocupe comigo!!!!!! Você tem tendência para pensar que eu não me safo na sua ausência. Francamente, Sousa, já não sou nenhum garotinho:).
sexta-feira, janeiro 13, 2006
De alguém que não conheço, mas faz parte do maralhal:).
Brisa
Se, sozinho
O corpo cansado a alma inquieta
Sentires um afago, uma carícia
Uma brisa que ao ouvido é sussurro
Palavra de conforto, calor.
Sou eu.
Rasgando o tempo
Atravessando o espaço
Tornando-me
Brisa, carícia,
Possibilidade de abraço
Palavra, amor.
Encandescente, in Encandescente, Colecção Polvo, Edições Rui Brito.
Se, sozinho
O corpo cansado a alma inquieta
Sentires um afago, uma carícia
Uma brisa que ao ouvido é sussurro
Palavra de conforto, calor.
Sou eu.
Rasgando o tempo
Atravessando o espaço
Tornando-me
Brisa, carícia,
Possibilidade de abraço
Palavra, amor.
Encandescente, in Encandescente, Colecção Polvo, Edições Rui Brito.
quinta-feira, janeiro 12, 2006
A propósito de mulheres e com os cumprimentos do RAM. Que não escreveu o poema:).
Poema de Mulher
Que mulher nunca teve
Um sutiã meio furado,
Um primo meio tarado,
Ou um amigo meio veado?
Que mulher nunca tomou
Um fora de querer sumir,
Um porre de cair
Ou um lexotan para dormir?
Que mulher nunca sonhou
Com a sogra morta, estendida,
Em ser muito feliz na vida
Ou com uma lipo na barriga?
Que mulher nunca pensou
Em dar fim numa panela,
Jogar os filhos pela janela
Ou que a culpa era toda dela?
Que mulher nunca penou
Para ter a perna depilada,
Para aturar uma empregada
Ou para trabalhar menstruada?
Que mulher nunca comeu
Uma caixa de Bis, por ansiedade,
Uma alface, no almoço, por vaidade
Ou, um canalha por saudade?
Que mulher nunca apertou
O pé no sapato para caber,
A barriga para emagrecer
Ou um ursinho para não enlouquecer?
Que mulher nunca jurou
Que não estava ao telefone,
Que não pensa em silicone
Ou que "dele" não lembra nem o nome?
Só as mulheres para entenderem o significado deste poema!
Estamos em uma época em que:
"Homem dando sopa, é apenas um homem distribuindo alimento aos pobres"
"Pior do que nunca achar o homem certo é viver pra sempre com o homem errado"
"Mais vale um cara feio com você do que dois lindos se beijando"
"Se todo homem é igual, porque a gente escolhe tanto???"
"Príncipe encantado que nada."
Bom mesmo é lobo-mau!!
Que te ouve melhor...
Que te vê melhor...
E ainda te come!!!
Para mulheres que precisam rir, ou para homens que possam lidar com essa realidade!!!!!
Que mulher nunca teve
Um sutiã meio furado,
Um primo meio tarado,
Ou um amigo meio veado?
Que mulher nunca tomou
Um fora de querer sumir,
Um porre de cair
Ou um lexotan para dormir?
Que mulher nunca sonhou
Com a sogra morta, estendida,
Em ser muito feliz na vida
Ou com uma lipo na barriga?
Que mulher nunca pensou
Em dar fim numa panela,
Jogar os filhos pela janela
Ou que a culpa era toda dela?
Que mulher nunca penou
Para ter a perna depilada,
Para aturar uma empregada
Ou para trabalhar menstruada?
Que mulher nunca comeu
Uma caixa de Bis, por ansiedade,
Uma alface, no almoço, por vaidade
Ou, um canalha por saudade?
Que mulher nunca apertou
O pé no sapato para caber,
A barriga para emagrecer
Ou um ursinho para não enlouquecer?
Que mulher nunca jurou
Que não estava ao telefone,
Que não pensa em silicone
Ou que "dele" não lembra nem o nome?
Só as mulheres para entenderem o significado deste poema!
Estamos em uma época em que:
"Homem dando sopa, é apenas um homem distribuindo alimento aos pobres"
"Pior do que nunca achar o homem certo é viver pra sempre com o homem errado"
"Mais vale um cara feio com você do que dois lindos se beijando"
"Se todo homem é igual, porque a gente escolhe tanto???"
"Príncipe encantado que nada."
Bom mesmo é lobo-mau!!
Que te ouve melhor...
Que te vê melhor...
E ainda te come!!!
Para mulheres que precisam rir, ou para homens que possam lidar com essa realidade!!!!!
Sai uma velharia, não vá o Sousa voltar das compras mais cedo e antecipar-se!
O milagre
Ao bater a porta atrás de si, não resistiu a frase célebre, desejo impossível e suspirado, curiosidade tremenda e receosa,
- Quem me dera ser mosca...
E o Senhor, avesso a conceder aos fiéis o monopólio dos milagres, satisfez-lhe o capricho. Tendo o cuidado de a não transformar em varejeira, para melhor poder escutar sem ser ouvida...
Mulher pragmática – passe a redundância! -, não perdeu tempo a interrogar-se sobre o que tinha acontecido ou a fazer planos de futura conversão ao catolicismo. Voou de imediato por frincha da janela, e asa ante asa reuniu-se aos pais na sala de estar. A mãe continuava no seu ponto de cruz, mas os cantos dos lábios vergados para o chão diziam tudo – por dentro eram as preocupações a bordá-la a ela. O pai pegara de novo no jornal. E contudo as páginas sucediam-se a um ritmo demasiado rápido para homem tão obsessivo nas viagens pelo mundo das notícias. Não lia, ganhava fôlego.
Para,
- E que achas disto da miúda?
Era sempre assim. Tinha uma opinião formada, mas gostava que o tiro de partida fosse dado pela mulher. Depois entrava no comboio em andamento ou tentava fazê-lo mudar de agulha.
- Já não é uma miúda.
A correcção, aparentemente apenas devida aos números constantes do bilhete de identidade, trazia consigo um esboço de resposta. E ele assim o entendeu, de imediato resmungou,
- Pois olha que parece! Esta gente nova fala de divórcio com uma ligeireza inacreditável.
A agulha não parou, os olhos não se levantaram.
- Não é feliz, sabe-lo tão bem como eu. Cada um desempenha o seu papel: nós fazemos de advogados do diabo e ela decide o que fazer da vida dela. De qualquer modo, no amor só se aprende com as nódoas negras.
O marido, amuado com as certezas pausadas que lhe aterravam no colo,
- Não te sabia especialista em nódoas negras amorosas, pensei que tínhamos um casamento feliz. A não ser que te refiras ao tempo em que ainda não nos conhecíamos...
(E olhava-a com ciúme, velho de trinta anos mas afiado.)
A agulha recolheu à caixinha de costura que herdara da mãe, aquela extraordinária avó que nunca recebia os netos sem um Everest de fatias de bolo de laranja. Os olhos, verdes como o último raio de sol, pousaram no marido, ainda tranquilos mas já severos.
- Às vezes são os outros a tropeçarem e nós a ficarmos com as nódoas negras.
Pausa.
- E não estou a falar de antigos namorados.
Ele sentiu um arrepio na espinha. Era impossível que tivesse descoberto a pomba que mantivera durante uns meses em apartamento dos arrabaldes. Teria a rapariga piado depois daqueles anos todos? Não fazia sentido, apresentara-a a um conhecido como sua colaboradora na empresa e tinham acabado juntos e com dois filhos. Tornara-se madame acima de toda a suspeita, jogando bridge e contribuindo para as mais selectas obras de caridade. Até já acontecera aterrarem os quatro na mesma mesa em casamentos e jantares de negócio! Estaria a mulher à pesca ou a fazer bluff? (Com aquele olhar tão límpido era impossível adivinhar...) Pôs-se nas mãos de Deus, sem saber que estavam já ocupadas por outro membro da família.
Digno,
- Não sei a que te referes.
Ela sorriu.
- Sabes perfeitamente. Mas o que lá vai, lá vai, tive de tomar uma decisão e tomei-a. Como a miúda está a fazer agora...
(Afinal também a tratava assim!)
- ... e nós vamos ajudá-la em tudo o que pudermos porque a amamos, não é verdade?
Era mais do que verdade. Mas, se não fosse, ele também concordaria, tinha a vaga sensação de passear á beira de um abismo.
- Absolutamente.
E voltou ao jornal.
A mosca voou para a rua, Deus fez o milagre ás avessas e a miúda que decidira esquecer as nódoas negras de um amor e partir para outro foi-se embora; pendurada num assobio, calorzinho bom no coração. Sabendo que por trás dos sobrolhos franzidos os velhos a apoiavam, sentia-se capaz de desafiar o mundo. Não se converteu e o Senhor fez vista grossa a tal ingratidão. Ele próprio, quando debruçado com algum vagar sobre os trôpegos seres humanos e o caos que irradiavam, admitia sentir-Se tentado pelo agnosticismo. Era tão difícil imaginá-los embalados por algum propósito divino...
Ao bater a porta atrás de si, não resistiu a frase célebre, desejo impossível e suspirado, curiosidade tremenda e receosa,
- Quem me dera ser mosca...
E o Senhor, avesso a conceder aos fiéis o monopólio dos milagres, satisfez-lhe o capricho. Tendo o cuidado de a não transformar em varejeira, para melhor poder escutar sem ser ouvida...
Mulher pragmática – passe a redundância! -, não perdeu tempo a interrogar-se sobre o que tinha acontecido ou a fazer planos de futura conversão ao catolicismo. Voou de imediato por frincha da janela, e asa ante asa reuniu-se aos pais na sala de estar. A mãe continuava no seu ponto de cruz, mas os cantos dos lábios vergados para o chão diziam tudo – por dentro eram as preocupações a bordá-la a ela. O pai pegara de novo no jornal. E contudo as páginas sucediam-se a um ritmo demasiado rápido para homem tão obsessivo nas viagens pelo mundo das notícias. Não lia, ganhava fôlego.
Para,
- E que achas disto da miúda?
Era sempre assim. Tinha uma opinião formada, mas gostava que o tiro de partida fosse dado pela mulher. Depois entrava no comboio em andamento ou tentava fazê-lo mudar de agulha.
- Já não é uma miúda.
A correcção, aparentemente apenas devida aos números constantes do bilhete de identidade, trazia consigo um esboço de resposta. E ele assim o entendeu, de imediato resmungou,
- Pois olha que parece! Esta gente nova fala de divórcio com uma ligeireza inacreditável.
A agulha não parou, os olhos não se levantaram.
- Não é feliz, sabe-lo tão bem como eu. Cada um desempenha o seu papel: nós fazemos de advogados do diabo e ela decide o que fazer da vida dela. De qualquer modo, no amor só se aprende com as nódoas negras.
O marido, amuado com as certezas pausadas que lhe aterravam no colo,
- Não te sabia especialista em nódoas negras amorosas, pensei que tínhamos um casamento feliz. A não ser que te refiras ao tempo em que ainda não nos conhecíamos...
(E olhava-a com ciúme, velho de trinta anos mas afiado.)
A agulha recolheu à caixinha de costura que herdara da mãe, aquela extraordinária avó que nunca recebia os netos sem um Everest de fatias de bolo de laranja. Os olhos, verdes como o último raio de sol, pousaram no marido, ainda tranquilos mas já severos.
- Às vezes são os outros a tropeçarem e nós a ficarmos com as nódoas negras.
Pausa.
- E não estou a falar de antigos namorados.
Ele sentiu um arrepio na espinha. Era impossível que tivesse descoberto a pomba que mantivera durante uns meses em apartamento dos arrabaldes. Teria a rapariga piado depois daqueles anos todos? Não fazia sentido, apresentara-a a um conhecido como sua colaboradora na empresa e tinham acabado juntos e com dois filhos. Tornara-se madame acima de toda a suspeita, jogando bridge e contribuindo para as mais selectas obras de caridade. Até já acontecera aterrarem os quatro na mesma mesa em casamentos e jantares de negócio! Estaria a mulher à pesca ou a fazer bluff? (Com aquele olhar tão límpido era impossível adivinhar...) Pôs-se nas mãos de Deus, sem saber que estavam já ocupadas por outro membro da família.
Digno,
- Não sei a que te referes.
Ela sorriu.
- Sabes perfeitamente. Mas o que lá vai, lá vai, tive de tomar uma decisão e tomei-a. Como a miúda está a fazer agora...
(Afinal também a tratava assim!)
- ... e nós vamos ajudá-la em tudo o que pudermos porque a amamos, não é verdade?
Era mais do que verdade. Mas, se não fosse, ele também concordaria, tinha a vaga sensação de passear á beira de um abismo.
- Absolutamente.
E voltou ao jornal.
A mosca voou para a rua, Deus fez o milagre ás avessas e a miúda que decidira esquecer as nódoas negras de um amor e partir para outro foi-se embora; pendurada num assobio, calorzinho bom no coração. Sabendo que por trás dos sobrolhos franzidos os velhos a apoiavam, sentia-se capaz de desafiar o mundo. Não se converteu e o Senhor fez vista grossa a tal ingratidão. Ele próprio, quando debruçado com algum vagar sobre os trôpegos seres humanos e o caos que irradiavam, admitia sentir-Se tentado pelo agnosticismo. Era tão difícil imaginá-los embalados por algum propósito divino...
quarta-feira, janeiro 11, 2006
O Sousa trata disso.
- Tá lá? Sousa?
- Sim, patrão.
- Chego tarde, resolva você as dúvidas sobre a masturbação.
- É p'ra já, patrão. Obrigado pela oportunidade.
Maralhal (isto é para vocês pensarem que eu sou ele!), aqui vai:
Sexercising
By: C. Michael Smith (Mas nada disto é novidade para mim, Sousa!).
KISSING:
Kissing can burn around 120-325 calories an hour, or around 2-5
calories a minute. Engaging in long make-out sessions with your
partner is not only good for your relationship; it is also good for
your waistline. A 10 minute make-out session with your partner each
morning and each evening could burn up to 100 calories a day. That’s
36,500 calories a year, or just over 10 pounds worth of weight loss.
When was the last time you made out with your partner?
UNDRESSING:
According to an Italian professor, even undressing can burn off
calories. Unclasping a bra with two hands burns 8 calories, while
unclasping it with only one hand burns up 18 calories. Unclasping it
with your mouth can burn 87 calories.
ORAL SEX:
15 minutes of oral sex can burn off the calories consumed in a long
sip of wine. There are calories present in semen, though, so if you
swallow, there are around 7 calories in a teaspoon of semen. Since
the average volume of ejaculation is 1-2 teaspoons, you can expect
an average of 7-14 calories per ejaculation. That will easily be
burned off during the course of your lovemaking, though.
MASTURBATION:
You don’t have to have a partner to enjoy the calorie-burning
effects of sex. Masturbation can burn up the calories, as well. You
can lose between 100-150 calories for each act of masturbation,
according to the Young People’s Reproductive and Sexual Health &
Rights Organization. You can raise that amount to around 300
calories, though, through a 5 minute vigorous masturbation session,
according to Japanese scientist Dr. Shukan Tokuho.
INTERCOURSE:
The “average” lovemaking session burns between 50 and 100 calories.
Having sex 3 times a week burns 7500 calories per year. That's the
equivalent of jogging 75 miles. The more intense the sex, the more
calories are burned: up to 15,000 calories annually (at a frequency
of three times weekly). 15,000 calories equals over 4 pounds of
weight loss per year, just from having sex three times a week.
ORGASM:
Experts estimate that an orgasm can burn between 60-100 calories.
Losing weight has never been so much fun!
(Um dia ainda seremos www.machadovazesousa@sexologia.com).
- Sim, patrão.
- Chego tarde, resolva você as dúvidas sobre a masturbação.
- É p'ra já, patrão. Obrigado pela oportunidade.
Maralhal (isto é para vocês pensarem que eu sou ele!), aqui vai:
Sexercising
By: C. Michael Smith (Mas nada disto é novidade para mim, Sousa!).
KISSING:
Kissing can burn around 120-325 calories an hour, or around 2-5
calories a minute. Engaging in long make-out sessions with your
partner is not only good for your relationship; it is also good for
your waistline. A 10 minute make-out session with your partner each
morning and each evening could burn up to 100 calories a day. That’s
36,500 calories a year, or just over 10 pounds worth of weight loss.
When was the last time you made out with your partner?
UNDRESSING:
According to an Italian professor, even undressing can burn off
calories. Unclasping a bra with two hands burns 8 calories, while
unclasping it with only one hand burns up 18 calories. Unclasping it
with your mouth can burn 87 calories.
ORAL SEX:
15 minutes of oral sex can burn off the calories consumed in a long
sip of wine. There are calories present in semen, though, so if you
swallow, there are around 7 calories in a teaspoon of semen. Since
the average volume of ejaculation is 1-2 teaspoons, you can expect
an average of 7-14 calories per ejaculation. That will easily be
burned off during the course of your lovemaking, though.
MASTURBATION:
You don’t have to have a partner to enjoy the calorie-burning
effects of sex. Masturbation can burn up the calories, as well. You
can lose between 100-150 calories for each act of masturbation,
according to the Young People’s Reproductive and Sexual Health &
Rights Organization. You can raise that amount to around 300
calories, though, through a 5 minute vigorous masturbation session,
according to Japanese scientist Dr. Shukan Tokuho.
INTERCOURSE:
The “average” lovemaking session burns between 50 and 100 calories.
Having sex 3 times a week burns 7500 calories per year. That's the
equivalent of jogging 75 miles. The more intense the sex, the more
calories are burned: up to 15,000 calories annually (at a frequency
of three times weekly). 15,000 calories equals over 4 pounds of
weight loss per year, just from having sex three times a week.
ORGASM:
Experts estimate that an orgasm can burn between 60-100 calories.
Losing weight has never been so much fun!
(Um dia ainda seremos www.machadovazesousa@sexologia.com).
This is a must:).
personal trainer said...
Sexual Calorie Counter
It has been known for many years that sex is good exercise, but until recently nobody had made a scientific study of the caloric expenditure of different sexual activities. Now after original and proprietary research they are proud to present the results.
REMOVING HER CLOTHES:
With her consent........................ 12 Calories
Without her consent.................... 187 Calories
OPENING HER BRA:
With both hands.......................... 8 Calories
With one hand............................ 12 Calories
With your teeth........................... 85 Calories
PUTTING ON A CONDOM:
With an erection......................... 6 Calories
Without an erection..................... 315 Calories
PRELIMINARIES:
Trying to find the clitoris............... 8 Calories
Trying to find the G-Spot............... 92 Calories
POSITIONS:
Missionary................................. 52 Calories
69 lying down............................. 78 Calories
69 standing up............................ 112 Calories
Her on top................................. 524 Calories
Doggy Style................................ 726 Calories
ORGASM:
Real......................................... 112 Calories
False........................................ 315 Calories
POST ORGASM:
Lying in bed hugging..................... 18 Calories
Getting up immediately................. 36 Calories
Explaining why you got
out of bed immediately................. 816 Calories
GETTING A SECOND ERECTION:
If you are:
20-29 years old........................... 36 Calories
30-39 years................................ 80 Calories
40-49 years................................ 1124 Calories
50-59 years................................ 1972 Calories
60-69 years................................ 2916 Calories
70 and over................................ You just died
DRESSING UP AFTERWARDS:
Calmly....................................... 32 Calories
In a hurry................................... 98 Calories
With her father knocking at the door...1218 Calories
With your wife knocking at the door....5521 Calories
9:37 AM
Personal Trainer, o Sousa acaba de se despedir. Diz que vai trabalhar para si:))))).
Vou tentar uma segunda erecção por semana e vender a bicicleta!
Sexual Calorie Counter
It has been known for many years that sex is good exercise, but until recently nobody had made a scientific study of the caloric expenditure of different sexual activities. Now after original and proprietary research they are proud to present the results.
REMOVING HER CLOTHES:
With her consent........................ 12 Calories
Without her consent.................... 187 Calories
OPENING HER BRA:
With both hands.......................... 8 Calories
With one hand............................ 12 Calories
With your teeth........................... 85 Calories
PUTTING ON A CONDOM:
With an erection......................... 6 Calories
Without an erection..................... 315 Calories
PRELIMINARIES:
Trying to find the clitoris............... 8 Calories
Trying to find the G-Spot............... 92 Calories
POSITIONS:
Missionary................................. 52 Calories
69 lying down............................. 78 Calories
69 standing up............................ 112 Calories
Her on top................................. 524 Calories
Doggy Style................................ 726 Calories
ORGASM:
Real......................................... 112 Calories
False........................................ 315 Calories
POST ORGASM:
Lying in bed hugging..................... 18 Calories
Getting up immediately................. 36 Calories
Explaining why you got
out of bed immediately................. 816 Calories
GETTING A SECOND ERECTION:
If you are:
20-29 years old........................... 36 Calories
30-39 years................................ 80 Calories
40-49 years................................ 1124 Calories
50-59 years................................ 1972 Calories
60-69 years................................ 2916 Calories
70 and over................................ You just died
DRESSING UP AFTERWARDS:
Calmly....................................... 32 Calories
In a hurry................................... 98 Calories
With her father knocking at the door...1218 Calories
With your wife knocking at the door....5521 Calories
9:37 AM
Personal Trainer, o Sousa acaba de se despedir. Diz que vai trabalhar para si:))))).
Vou tentar uma segunda erecção por semana e vender a bicicleta!
terça-feira, janeiro 10, 2006
Adenda.
O Dr Machado Vaz chegou esgotado de Braga e encontra-se em meditação transcendental para decidir se cobre as ofertas dos clubes ingleses por Simão Sabrosa. No entanto, e atendendo a vários protestos murcónicos, encarregou-me de pesquisar no Sapo os gastos calóricos provocados por um acto sexual. Baseado na minha própria experiência com a Gertrudes em horário pós-laboral - ao fim-de-semana, como é óbvio!, espraiamo-nos por todo o dia... - considero a seguinte tabela aceitável:
Gastos Calóricos
Atividades não esportivas, calorias consumidas em 1 hora de atividade
Dormir 65 Calorias
Descansar deitado 77 Calorias
Descansar sentado 100 Calorias
Comer 105 Calorias
Jogar Baralho 105 Calorias
Tricotar 110 Calorias
Datilografar 115 Calorias
Trabalhar em pé 115 Calorias
Passar Roupa 140 Calorias
Tocar instrumentos 180 Calorias
Cozinhar 190 Calorias
Andar Devagar 200 Calorias
Dançar Lento 220 Calorias
Dar aula 220 Calorias
Trabalho de escritório 230 Calorias
Limpar a casa 260 Calorias
Pedreiro 440 Calorias
Trabalho no campo 500 Calorias
Relação Sexual 700 Calorias
Subir escadas 1.100 Calorias
Cortar Lenha 1.200 Calorias
Com os melhores cumprimentos,
Sôzá, consultor especializado na área do transporte automóvel.
Gastos Calóricos
Atividades não esportivas, calorias consumidas em 1 hora de atividade
Dormir 65 Calorias
Descansar deitado 77 Calorias
Descansar sentado 100 Calorias
Comer 105 Calorias
Jogar Baralho 105 Calorias
Tricotar 110 Calorias
Datilografar 115 Calorias
Trabalhar em pé 115 Calorias
Passar Roupa 140 Calorias
Tocar instrumentos 180 Calorias
Cozinhar 190 Calorias
Andar Devagar 200 Calorias
Dançar Lento 220 Calorias
Dar aula 220 Calorias
Trabalho de escritório 230 Calorias
Limpar a casa 260 Calorias
Pedreiro 440 Calorias
Trabalho no campo 500 Calorias
Relação Sexual 700 Calorias
Subir escadas 1.100 Calorias
Cortar Lenha 1.200 Calorias
Com os melhores cumprimentos,
Sôzá, consultor especializado na área do transporte automóvel.
Pois, a Prevenção...
Virgínia Alves
"Os actuais estilos de vida seguidos pelos jovens - o sedentarismo, a obesidade e a anorexia - podem levar a um decréscimo da esperança de vida nos países desenvolvidos. A acontecer, será a primeira de várias gerações a contrariar uma tendência que se tem verificado nas últimas décadas.
Esta previsão é feita por alguns especialistas ao verificarem o aumento de doenças crónico-degenerativas - a hipertensão, a diabetes e os acidentes vasculares - e o facto de estarem a ocorrer cada vez mais cedo.
"As doenças crónico- degenerativas, há uns anos, aconteciam numa fase terminal da vida. Actualmente, devido aos estilos de vida que são seguidos, essas doenças surgem a meio do ciclo de vida e há pessoas que convivem metade do seu ciclo de vida com estas doenças", explicou Manuel e Silva, professor da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, da Universidade de Coimbra.
Por outro lado, referiu, a tecnologia na Medicina permite "que se prolongue a vida, com alguma qualidade é certo, mas de alguma forma afectada". Isto porque, sublinhou o professor, "o organismo convive bem com um factor de risco, por exemplo a diabetes, mas normalmente esse está associado a outros", pelo que "o combate torna-se muito mais difícil".
Apostar na prevenção
Perante este quadro, Manuel e Silva defende a prevenção secundária para os que já sofrem de algum mal. Mas, "acima de tudo, a prevenção primária, junto dos mais novos, porque é nas duas primeiras décadas de vida que se criam hábitos para que se possa contrariar esta tendência".
"É importante passar a mensagem de valorização da saúde, não como algo que depende da sorte ou do azar. Em particular, na sociedade actual, onde o corpo é visto como uma religião, e se encontram cada vez mais os extremos, a magreza ou a obesidade, esta como uma forma de chocar, de contrariar os valores adoptados pela maioria", salientou o professor.Razão pela qual a prevenção primária deverá apelar a uma dieta equilibrada e à prática de actividade física. "Porque o homem foi feito para ter actividade física e esta tem vindo a ser substituída graças à tecnologia", sublinhou.
A prova disso está num estudo desenvolvido por este professor, com 98 jovens dos 12 aos 16 anos, alunos de uma escola de Avelar, no concelho de Ansião. Do estudo, que avaliou a actividade física dos jovens, conclui-se que, em geral, os rapazes são mais activos que as raparigas e, em particular, no que diz respeito a actividades intensas, sobretudo durante os dias da semana e após horário escolar. Por outro lado, são também os rapazes os que mais tempo passam em frente da televisão ou do computador.
"Estes valores foram obtidos numa população fora de uma zona urbana. Nas cidades o sedentarismo é ainda maior", frisou.
377
mil praticantes de desporto federado em 2004. Apesar de estarmos perante um número recorde, que nunca antes fora atingido, o certo é que representa apenas 4% da população portuguesa.
200 vezes superiores os gastos actuais nos hospitais portugueses para tratar um acidente do sistema cardiovascular, quando comparados com os de há 20 anos. Isto por causa dos meios técnicos utilizados.
Recomendações
Andar
Caminhar mil passos por dia, independentemente da intensidade e da idade, é o critério internacional que está a ser adoptado.
Mobilidade
Abandonar os meios motorizados e optar por caminhar ou fazer os percursos de bicicleta.
Lazer
Optar por actividades físicas e menos pelas que estão associadas de alguma forma ao sedentarismo.
Estratégias Numa ida ao supermercado, estacionar o carro nos lugares mais distantes da entrada. A caminhada de ida e a de regresso com os sacos de compras representa exercício físico.
Truques
Sair do transporte público uma ou duas paragens antes do destino já representa algum exercício.
Desporto
Praticar qualquer desporto em qualquer idade, de acordo com a sua condição física.
Crianças
Praticar actividades ao ar livre com elas. Fazê-las caminhar um pouco todos os dias, por exemplo o percurso para a escola ou parte desse percurso".
Pois, a Prevenção... Qualquer técnico que, como eu, trabalhe na área das toxicodependências, não evitará um sorriso. Todos sabemos que a Prevenção enche os discursos, mas acaba de bolsos vazios. Porque os seus resultados não são espectaculares e imediatos, não alimentam telejornais. E por isso, na hora de distribuir recursos financeiros ou técnicos fica a perder. E por isso, quando os cortes são indispensáveis, como agora em Portugal, está sempre na primeira linha para lhes sofrer as consequências. Mas não é só nas toxicodependências. Falta-nos uma cultura preventiva a todos os níveis. Estamos habituados - e isto inclui a Medicina... - a esperar as nossas pequenas tragédias e depois precipitarmo-nos com o Credo na boca, o Terço na mão, a praga na cabeça, o medo e a saudade antecipada no coração para as valências curativas.
Que rebentam pelas costuras...
"Os actuais estilos de vida seguidos pelos jovens - o sedentarismo, a obesidade e a anorexia - podem levar a um decréscimo da esperança de vida nos países desenvolvidos. A acontecer, será a primeira de várias gerações a contrariar uma tendência que se tem verificado nas últimas décadas.
Esta previsão é feita por alguns especialistas ao verificarem o aumento de doenças crónico-degenerativas - a hipertensão, a diabetes e os acidentes vasculares - e o facto de estarem a ocorrer cada vez mais cedo.
"As doenças crónico- degenerativas, há uns anos, aconteciam numa fase terminal da vida. Actualmente, devido aos estilos de vida que são seguidos, essas doenças surgem a meio do ciclo de vida e há pessoas que convivem metade do seu ciclo de vida com estas doenças", explicou Manuel e Silva, professor da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, da Universidade de Coimbra.
Por outro lado, referiu, a tecnologia na Medicina permite "que se prolongue a vida, com alguma qualidade é certo, mas de alguma forma afectada". Isto porque, sublinhou o professor, "o organismo convive bem com um factor de risco, por exemplo a diabetes, mas normalmente esse está associado a outros", pelo que "o combate torna-se muito mais difícil".
Apostar na prevenção
Perante este quadro, Manuel e Silva defende a prevenção secundária para os que já sofrem de algum mal. Mas, "acima de tudo, a prevenção primária, junto dos mais novos, porque é nas duas primeiras décadas de vida que se criam hábitos para que se possa contrariar esta tendência".
"É importante passar a mensagem de valorização da saúde, não como algo que depende da sorte ou do azar. Em particular, na sociedade actual, onde o corpo é visto como uma religião, e se encontram cada vez mais os extremos, a magreza ou a obesidade, esta como uma forma de chocar, de contrariar os valores adoptados pela maioria", salientou o professor.Razão pela qual a prevenção primária deverá apelar a uma dieta equilibrada e à prática de actividade física. "Porque o homem foi feito para ter actividade física e esta tem vindo a ser substituída graças à tecnologia", sublinhou.
A prova disso está num estudo desenvolvido por este professor, com 98 jovens dos 12 aos 16 anos, alunos de uma escola de Avelar, no concelho de Ansião. Do estudo, que avaliou a actividade física dos jovens, conclui-se que, em geral, os rapazes são mais activos que as raparigas e, em particular, no que diz respeito a actividades intensas, sobretudo durante os dias da semana e após horário escolar. Por outro lado, são também os rapazes os que mais tempo passam em frente da televisão ou do computador.
"Estes valores foram obtidos numa população fora de uma zona urbana. Nas cidades o sedentarismo é ainda maior", frisou.
377
mil praticantes de desporto federado em 2004. Apesar de estarmos perante um número recorde, que nunca antes fora atingido, o certo é que representa apenas 4% da população portuguesa.
200 vezes superiores os gastos actuais nos hospitais portugueses para tratar um acidente do sistema cardiovascular, quando comparados com os de há 20 anos. Isto por causa dos meios técnicos utilizados.
Recomendações
Andar
Caminhar mil passos por dia, independentemente da intensidade e da idade, é o critério internacional que está a ser adoptado.
Mobilidade
Abandonar os meios motorizados e optar por caminhar ou fazer os percursos de bicicleta.
Lazer
Optar por actividades físicas e menos pelas que estão associadas de alguma forma ao sedentarismo.
Estratégias Numa ida ao supermercado, estacionar o carro nos lugares mais distantes da entrada. A caminhada de ida e a de regresso com os sacos de compras representa exercício físico.
Truques
Sair do transporte público uma ou duas paragens antes do destino já representa algum exercício.
Desporto
Praticar qualquer desporto em qualquer idade, de acordo com a sua condição física.
Crianças
Praticar actividades ao ar livre com elas. Fazê-las caminhar um pouco todos os dias, por exemplo o percurso para a escola ou parte desse percurso".
Pois, a Prevenção... Qualquer técnico que, como eu, trabalhe na área das toxicodependências, não evitará um sorriso. Todos sabemos que a Prevenção enche os discursos, mas acaba de bolsos vazios. Porque os seus resultados não são espectaculares e imediatos, não alimentam telejornais. E por isso, na hora de distribuir recursos financeiros ou técnicos fica a perder. E por isso, quando os cortes são indispensáveis, como agora em Portugal, está sempre na primeira linha para lhes sofrer as consequências. Mas não é só nas toxicodependências. Falta-nos uma cultura preventiva a todos os níveis. Estamos habituados - e isto inclui a Medicina... - a esperar as nossas pequenas tragédias e depois precipitarmo-nos com o Credo na boca, o Terço na mão, a praga na cabeça, o medo e a saudade antecipada no coração para as valências curativas.
Que rebentam pelas costuras...
segunda-feira, janeiro 09, 2006
Sousa, o catalisador.
Foi interessantíssimo ler os comentários chegados até agora. Porque a intenção do post era sugerir como o completo entendimento do outro é - felizmente... - impossível. E esconde, para além de um projecto beatífico de acorde(o) perfeito, uma certa nostalgia de poder, traduzido pela capacidade de prever as reacções de quem amamos. Este furor analítico pode comprometer vivências feitas de menos córtex e mais hipotálamo, na minha opinião:). Em contraponto, descrevi uma pouco original cumplicidade "intra-género", fácil por básica. E só por isso!, o estereotipo, aplicado a ambos os sexos, enxota sempre o arco-íris da vida e a diversidade que habita cada um. Alguns de vocês leram o post neste registo ou nas suas imediações, outros no do machismo puro e duro. O que é magnífico para a discussão. Abençoado Sousa:))))).
P.S. A afirmação de Pina Moura sobre o caso Iberdrola, referindo que a Ética da República é a Ética da Lei, fez-me pensar numa velha máxima: nem tudo o que é legal é legítimo.
P.S. A afirmação de Pina Moura sobre o caso Iberdrola, referindo que a Ética da República é a Ética da Lei, fez-me pensar numa velha máxima: nem tudo o que é legal é legítimo.
domingo, janeiro 08, 2006
O regresso.
- Boa noite, patrão.
- Boa noite, Sousa.
- Patrão...
- Sim?
- Como o Benfica ganhou, tem um minuto?
- Sousa! Está a insinuar que se o Glorioso perde não o ouço?
- De maneira nenhuma, patrão! Eu é que me acanho, prefiro deixá-lo chorar e bater com a cabeça nas paredes sem ser incomodado.
- Ah, bom. Então que há?
- Patrão, desisti de perceber as mulheres.
- Meu caro, fico feliz por si.
- Mas patrão...
- Sousa, tal decisão prova, sem sombra de dúvida, que subiu mais um degrau rumo à sabedoria. Tentar entender as mulheres é um processo moroso e invariavelmente destinado ao fracasso. Entretanto o tempo voa e perdemos oportunidades únicas de apreciar a vida ao lado delas.
- Acho que não percebi lá muito bem, patrão.
- Não se preocupe, era o meu lado feminino a divagar. Ligue para a Sporttv e traga duas cervejolas.
- Com o devido respeito, patrão - isso é que é falar!
- Boa noite, Sousa.
- Patrão...
- Sim?
- Como o Benfica ganhou, tem um minuto?
- Sousa! Está a insinuar que se o Glorioso perde não o ouço?
- De maneira nenhuma, patrão! Eu é que me acanho, prefiro deixá-lo chorar e bater com a cabeça nas paredes sem ser incomodado.
- Ah, bom. Então que há?
- Patrão, desisti de perceber as mulheres.
- Meu caro, fico feliz por si.
- Mas patrão...
- Sousa, tal decisão prova, sem sombra de dúvida, que subiu mais um degrau rumo à sabedoria. Tentar entender as mulheres é um processo moroso e invariavelmente destinado ao fracasso. Entretanto o tempo voa e perdemos oportunidades únicas de apreciar a vida ao lado delas.
- Acho que não percebi lá muito bem, patrão.
- Não se preocupe, era o meu lado feminino a divagar. Ligue para a Sporttv e traga duas cervejolas.
- Com o devido respeito, patrão - isso é que é falar!
sábado, janeiro 07, 2006
Seja feita a vossa vontade...
Sousa,
Não me pergunte porquê, mas o maralhal parece simpatizar consigo e decidiu imiscuir-se na nossa relação laboral. Perdoo-lhe, portanto, o atrevimento desta manhã. (A que, aliás, reagi com extraordinária bonomia, convenhamos!) Não só não o despedirei, como lhe concedo o Domingo para ir visitar a sua Gertrudes e impressioná-la com o meu espada. Mas não abuse. Quero-o em Cantelães logo após o jogo do Benfica para me conduzir ao Porto. E não se esqueça de vituperar o árbitro se a coisa der para o torto. Como diria D.Sebastião - perder, sim, mas a protestar! Perdão? Não, não me refiro ao Professor Cavaco Silva, lembre-me para lhe ensinar História de Portugal pelo caminho. Podemos até fazer um desvio por Alcácer-Quibir... Irra homem!, não diga asneiras - a terra com cegonhas a caminho do Algarve é Alcácer do Sal. Bom Domingo e que Deus lhe ponha a virtude. Sobretudo no que à Temperança diz respeito, se a Brigada lhe tira a carta..., racho-o. O que diria o José Castelo Branco se soubesse que fui obrigado a guiar como o vulgo?????????????????????
Não me pergunte porquê, mas o maralhal parece simpatizar consigo e decidiu imiscuir-se na nossa relação laboral. Perdoo-lhe, portanto, o atrevimento desta manhã. (A que, aliás, reagi com extraordinária bonomia, convenhamos!) Não só não o despedirei, como lhe concedo o Domingo para ir visitar a sua Gertrudes e impressioná-la com o meu espada. Mas não abuse. Quero-o em Cantelães logo após o jogo do Benfica para me conduzir ao Porto. E não se esqueça de vituperar o árbitro se a coisa der para o torto. Como diria D.Sebastião - perder, sim, mas a protestar! Perdão? Não, não me refiro ao Professor Cavaco Silva, lembre-me para lhe ensinar História de Portugal pelo caminho. Podemos até fazer um desvio por Alcácer-Quibir... Irra homem!, não diga asneiras - a terra com cegonhas a caminho do Algarve é Alcácer do Sal. Bom Domingo e que Deus lhe ponha a virtude. Sobretudo no que à Temperança diz respeito, se a Brigada lhe tira a carta..., racho-o. O que diria o José Castelo Branco se soubesse que fui obrigado a guiar como o vulgo?????????????????????
sexta-feira, janeiro 06, 2006
Ils ne le quittent pas, ils ne l'ont même pas connu:(.
Maria,
Dei aulas aos meus meninos. Casa quase cheia, a próxima frequência ainda vem longe. Já não sei porquê, citei a letra do Ne me quitte pas. Apenas um deles sabia que a canção fora composta pelo Brel:(((((((. Eu sei, eu sei, avec le temps tout s'en va, dizia o meu querido Ferré. E o francês, para eles, é uma língua só um bocadinho menos morta que o aramaico! Mas faz pena. E medo... Quando parto em associação livre pelas minhas referências, nas mais diversas áreas, sinto-me como um morto deixado para trás por engano, o meu mundo não é deste mundo. O quê? Eu disse mundo e não Reino, ainda não estou psicótico! Estavas a brincar, não gostas de me ouvir assim. Pronto, não estou assim, estou assado. Porque a tristeza é contagiosa e seria criminoso apagar esse teu sorriso, que me encanta e salva. Et d'ailleurs..., si toi, tu ne me quitte pas, je me suis nas tintas para tudo le reste:).
Maintenant vou travailler. Sousa, traga la limusina!
Dei aulas aos meus meninos. Casa quase cheia, a próxima frequência ainda vem longe. Já não sei porquê, citei a letra do Ne me quitte pas. Apenas um deles sabia que a canção fora composta pelo Brel:(((((((. Eu sei, eu sei, avec le temps tout s'en va, dizia o meu querido Ferré. E o francês, para eles, é uma língua só um bocadinho menos morta que o aramaico! Mas faz pena. E medo... Quando parto em associação livre pelas minhas referências, nas mais diversas áreas, sinto-me como um morto deixado para trás por engano, o meu mundo não é deste mundo. O quê? Eu disse mundo e não Reino, ainda não estou psicótico! Estavas a brincar, não gostas de me ouvir assim. Pronto, não estou assim, estou assado. Porque a tristeza é contagiosa e seria criminoso apagar esse teu sorriso, que me encanta e salva. Et d'ailleurs..., si toi, tu ne me quitte pas, je me suis nas tintas para tudo le reste:).
Maintenant vou travailler. Sousa, traga la limusina!
quinta-feira, janeiro 05, 2006
A propósito da lufa-lufa em que vivemos.
À flor da pele
Estacionar é hoje um sonho que releva de fé enternecedora ou ficção científica arrojada. Mas nenhum de nós deixa de vigiar o passeio pelo canto do olho, qualquer movimento de pneus ou arrumador excita coração e cabeça, “queres ver que...?, merda!, vai entrar e não sair”. Há tempos dedicava-me a esse desporto masoquista com a ajuda do ritmo da fila, digno da piedade arrogante de um caracol entrevado. De súbito, o oásis! Parei e resisti heroicamente ao resmungo dos que me seguiam, forçados a desvio de equilibristas para ultrapassarem. Não me enganavam, os seus protestos eram filhos da pura inveja! Passada a fase de insultos e dedos espetados, preparei-me para estacionar em marcha-atrás. Rezando para o conseguir à primeira!, poucos passeios no Porto se podem gabar de não ter sofrido os efeitos da minha deficiente avaliação das distâncias...
Quando iniciava a manobra, ouvi buzinadela furiosa. Receei investir alegremente contra algum pára-choques, não seria caso virgem. Relance ao retrovisor - nada. Decidi que o chinfrim me era alheio e retomei a atracação. Novo protesto, agora mais irritado, a buzina – como o comboio do western de Gary Cooper! – tocou três vezes. Explorei as redondezas e percebi: do outro lado da rua encontrava-se um carro, obviamente cobiçando o mesmo lugar, só não se antecipara por necessitar de aberta para a inversão de marcha. Ainda olhei para o chão, na esperança de ver traço contínuo que lhe negasse o direito de pernada por violação do código, mas o branco no asfalto era intermitente. Nada a fazer. Salvo assumir postura de “viste-o primeiro, mas eu já cá estou, vai-te coçar”. Em geral o super-ego não me permite essa atitude (ajudado pela minha cobardia, imagino-me agarrado pelos colarinhos e a levar uns sopapos ao som do clássico “toma lá, ó espertalhão!”).
Segui. E não é que dez metros depois brilhava outro El Dorado? Vi-o como recompensa pela minha correcção e estacionei com perícia (o que mais me convenceu da intervenção divina). Quando saía do carro, reparei que o meu concidadão já estacionara e se preparava para abandonar o dele. Achando que um bocadinho de educação não me faria mal nenhum, fui explicar que o não vira, e apenas por isso esboçara a ocupação selvagem do “seu” lugar. Atarefado com telemóvel, pasta e casaco, só deu pela minha presença quando bati no vidro com os dedos. Juro que levemente!, como reza o poema...
Saltou cá para fora como um foguete. Plantado à minha frente, disparou: “quer alguma coisa?”. O tom não enganava, a linguagem corporal muito menos - pronto para a porrada. Amaldiçoando a triste ideia de lhe dar uma explicação, que ameaçava tornar-se passaporte para uns tabefes, procurei manter a dignidade e disse-lhe ao que ia. A sua expressão transferiu-se, com armas e bagagens, do registo beligerante para o de um espanto envergonhado. Pediu-me desculpa pelos maus modos e fez-me notar que nunca se lhe tinham dirigido para tal em situações de trânsito, mas sempre com intuitos agressivos. O que, pensando melhor, até admitia ser estúpido naquele caso, pois eu deixara-lhe o lugar. Resumiu o ocorrido: “foi um reflexo”. Aperto de mão, ala.
Longe de mim branquear os perigos da raiva surda que muitos acarretam à flor da pele, apenas esperando pretexto para se tornar cega. Mas considero-a parente próxima da depressão que os jornais afirmam em vertiginosa subida no “top-ten” das doenças modernas. Por também profundamente triste, em muitos casos ela brota da sensação de que a vida escapa ao nosso controlo e ainda por cima a culpa de tal frustração morre solteira, a quem ou o quê apontar o dedo? Trata-se de uma fúria que esbraceja contra desconhecidos, um choro virado ao contrário, uma nostalgia de abraço transformada no desejo de esmurrar, um receio da solidão mascarado de asco aos outros. Vivemos depressa e mal; empilhados mas sozinhos; tudo consumindo e no entanto horrorosamente vazios. Tristeza e raiva são faces da mesma moeda, quando a segunda mergulha em nós e não na cara de alguém transforma-se na primeira.
P.S. Nada do exposto nega a existência de simples javardos. Face aos quais abdico da “compreensão psico-socio-cultural” e me limito a verificar se são maiores do que eu. Infelizmente não é difícil...
P.S. - As velharias do baú foram publicadas no JN e DN há tempos atrás, muitas delas constam de livros meus publicados. Faço o esclarecimento porque alguns de vocês me incitaram a escrever regularmente em jornais. Fi-lo durante três anos sem férias e ainda não estou disposto a reatar essa obrigação semanal que me angustia:).
P.S.1 - Longe de mim "desprezar" as viagens, tenho a certeza que o Luís diria o mesmo. Venha a estrada! Ambos falávamos de uma certa forma de viajar - sem quase olhar e nunca vendo:). En passant...
Estacionar é hoje um sonho que releva de fé enternecedora ou ficção científica arrojada. Mas nenhum de nós deixa de vigiar o passeio pelo canto do olho, qualquer movimento de pneus ou arrumador excita coração e cabeça, “queres ver que...?, merda!, vai entrar e não sair”. Há tempos dedicava-me a esse desporto masoquista com a ajuda do ritmo da fila, digno da piedade arrogante de um caracol entrevado. De súbito, o oásis! Parei e resisti heroicamente ao resmungo dos que me seguiam, forçados a desvio de equilibristas para ultrapassarem. Não me enganavam, os seus protestos eram filhos da pura inveja! Passada a fase de insultos e dedos espetados, preparei-me para estacionar em marcha-atrás. Rezando para o conseguir à primeira!, poucos passeios no Porto se podem gabar de não ter sofrido os efeitos da minha deficiente avaliação das distâncias...
Quando iniciava a manobra, ouvi buzinadela furiosa. Receei investir alegremente contra algum pára-choques, não seria caso virgem. Relance ao retrovisor - nada. Decidi que o chinfrim me era alheio e retomei a atracação. Novo protesto, agora mais irritado, a buzina – como o comboio do western de Gary Cooper! – tocou três vezes. Explorei as redondezas e percebi: do outro lado da rua encontrava-se um carro, obviamente cobiçando o mesmo lugar, só não se antecipara por necessitar de aberta para a inversão de marcha. Ainda olhei para o chão, na esperança de ver traço contínuo que lhe negasse o direito de pernada por violação do código, mas o branco no asfalto era intermitente. Nada a fazer. Salvo assumir postura de “viste-o primeiro, mas eu já cá estou, vai-te coçar”. Em geral o super-ego não me permite essa atitude (ajudado pela minha cobardia, imagino-me agarrado pelos colarinhos e a levar uns sopapos ao som do clássico “toma lá, ó espertalhão!”).
Segui. E não é que dez metros depois brilhava outro El Dorado? Vi-o como recompensa pela minha correcção e estacionei com perícia (o que mais me convenceu da intervenção divina). Quando saía do carro, reparei que o meu concidadão já estacionara e se preparava para abandonar o dele. Achando que um bocadinho de educação não me faria mal nenhum, fui explicar que o não vira, e apenas por isso esboçara a ocupação selvagem do “seu” lugar. Atarefado com telemóvel, pasta e casaco, só deu pela minha presença quando bati no vidro com os dedos. Juro que levemente!, como reza o poema...
Saltou cá para fora como um foguete. Plantado à minha frente, disparou: “quer alguma coisa?”. O tom não enganava, a linguagem corporal muito menos - pronto para a porrada. Amaldiçoando a triste ideia de lhe dar uma explicação, que ameaçava tornar-se passaporte para uns tabefes, procurei manter a dignidade e disse-lhe ao que ia. A sua expressão transferiu-se, com armas e bagagens, do registo beligerante para o de um espanto envergonhado. Pediu-me desculpa pelos maus modos e fez-me notar que nunca se lhe tinham dirigido para tal em situações de trânsito, mas sempre com intuitos agressivos. O que, pensando melhor, até admitia ser estúpido naquele caso, pois eu deixara-lhe o lugar. Resumiu o ocorrido: “foi um reflexo”. Aperto de mão, ala.
Longe de mim branquear os perigos da raiva surda que muitos acarretam à flor da pele, apenas esperando pretexto para se tornar cega. Mas considero-a parente próxima da depressão que os jornais afirmam em vertiginosa subida no “top-ten” das doenças modernas. Por também profundamente triste, em muitos casos ela brota da sensação de que a vida escapa ao nosso controlo e ainda por cima a culpa de tal frustração morre solteira, a quem ou o quê apontar o dedo? Trata-se de uma fúria que esbraceja contra desconhecidos, um choro virado ao contrário, uma nostalgia de abraço transformada no desejo de esmurrar, um receio da solidão mascarado de asco aos outros. Vivemos depressa e mal; empilhados mas sozinhos; tudo consumindo e no entanto horrorosamente vazios. Tristeza e raiva são faces da mesma moeda, quando a segunda mergulha em nós e não na cara de alguém transforma-se na primeira.
P.S. Nada do exposto nega a existência de simples javardos. Face aos quais abdico da “compreensão psico-socio-cultural” e me limito a verificar se são maiores do que eu. Infelizmente não é difícil...
P.S. - As velharias do baú foram publicadas no JN e DN há tempos atrás, muitas delas constam de livros meus publicados. Faço o esclarecimento porque alguns de vocês me incitaram a escrever regularmente em jornais. Fi-lo durante três anos sem férias e ainda não estou disposto a reatar essa obrigação semanal que me angustia:).
P.S.1 - Longe de mim "desprezar" as viagens, tenho a certeza que o Luís diria o mesmo. Venha a estrada! Ambos falávamos de uma certa forma de viajar - sem quase olhar e nunca vendo:). En passant...
quarta-feira, janeiro 04, 2006
"Fazerem férias de si próprias".
"Detesto a mania pós-moderna das viagens e gente que não pode estar quieta. A meu ver, esta moda que tantos pensam ser sinal de sofisticação só revela almas inquietas, que não se suportam a si mesmas e mudam constantemente de sítio no desespero de fazerem férias de si próprias, que é afinal aquilo que sem saber procuram".
É este o destaque do artigo do Professor Luís Fernandes no Público de hoje. Ressalvando o perigo das generalizações, há muito de justificado na sua preocupação. Certas pessoas "investem" mundo fora a todo o gás, apenas para coleccionarem o que Bourdieu apelidou de capital cultural. Não conhecem gentes e sítios, afloram-nos distraídos e guardam-nos - como afirma o Luís - nas máquinas digitais. Sou suspeito. Com a idade, cada vez mais me encanta aprofundar recantos favoritos e, por cá, o sossego de Cantelães não desperta angústia, antes empurra para viagens interiores. Reconfortantes ou dolorosas, nunca monótonas. No Liceu recordo qualquer coisa acerca de umas partículas cujo movimento não produzia resultados práticos, penso que o tinham crismado de agitação browniana. (Vocês me corrigirão.) Às vezes somos assim - aceleramos com desespero, não em fuga da BT, mas de nós próprios.
Ou, em alternativa, buscando-nos por todo o lado menos cá dentro.
É este o destaque do artigo do Professor Luís Fernandes no Público de hoje. Ressalvando o perigo das generalizações, há muito de justificado na sua preocupação. Certas pessoas "investem" mundo fora a todo o gás, apenas para coleccionarem o que Bourdieu apelidou de capital cultural. Não conhecem gentes e sítios, afloram-nos distraídos e guardam-nos - como afirma o Luís - nas máquinas digitais. Sou suspeito. Com a idade, cada vez mais me encanta aprofundar recantos favoritos e, por cá, o sossego de Cantelães não desperta angústia, antes empurra para viagens interiores. Reconfortantes ou dolorosas, nunca monótonas. No Liceu recordo qualquer coisa acerca de umas partículas cujo movimento não produzia resultados práticos, penso que o tinham crismado de agitação browniana. (Vocês me corrigirão.) Às vezes somos assim - aceleramos com desespero, não em fuga da BT, mas de nós próprios.
Ou, em alternativa, buscando-nos por todo o lado menos cá dentro.
segunda-feira, janeiro 02, 2006
Desculpem a ignorância do macaco:).
Pronto, já "deletei" o post das reticências, que serviu para retirar a palavra "chave" da lista de membros do blog (que apenas tem um...). As minhas desculpas aos que torceram os neurónios à procura de um sentido para mais esse extraordinário exemplo do meu analfabetismo informático.
domingo, janeiro 01, 2006
Agora que a Casa do Vale está pronta e a propósito de cinemas fechados, Centros Comerciais e correrias.
De Paris a Vieira do Minho
A semana passada, numa das lentas conversas telefónicas que debalde tentam estrangular saudades, o meu filho mais novo contava história de quotidiano parisiense. Se bem percebi, a composição do metro em que viajava adiantara-se e foi necessária paragem mais prolongada numa estação. A forma como descreveu os passageiros nesse fim de tarde e trabalho não me surpreendeu – observo os mesmos olhos vazios e gestos cinzentos por cá. Ombros caídos e neurónios em sobrecarga, balançando entre o cansaço mais embrutecido e a raiva mais à flor da orelha; passos rastejantes rumo a casa, que lar é palavra fofa, nem sempre compatível com tal estado de espírito. Depois, sobreviver, culpabilizados, à saúde abençoada e contudo massacrante dos miúdos; engolir qualquer coisa de mesa e televisão; guardar o sexo para noite menos curta e dormir o possível que não o suficiente, o despertador canta e o lamento é sempre o mesmo, incrédula – “já?” Se não estou em erro, os franceses resumiam esse traintrain journalier em rima nada poética: métro, boulot, dodo (metropolitano, trabalhar, dormir... Para onde raio terá fugido o resto da vida?).
Durante a espera, o condutor resolveu sugerir aos passageiros que apreciassem a paisagem publicitária das paredes. Houve expressões de surpresa, não é muito habitual ouvir o restolho dos microfones, a não ser para debitar, monocórdico, o nome da próxima estação. Mas o homem não se ficou por ali, pediu desculpa por o serviço de bebidas e sanduíches não estar em funcionamento. Foi quando, segundo o meu herdeiro, brotaram os primeiros sorrisos. E como não há duas sem três, o “patrão da lancha” voltou à carga, pedindo aos passageiros para apertarem cintos e extinguirem cigarros - iam levantar voo! O metro não o fez, mas as gargalhadas sim, e com elas a disposição dos viajantes. O Machado Vaz Júnior ficou tão agradavelmente surpreendido com os efeitos do inesperado e jocoso atendimento que, à saída, se dirigiu ao condutor para lhe agradecer. Surpresa das surpresas – havia bicha para o fazer, com pessoas jurando ter sido a viagem mais simpática de que se recordavam! Sem por um momento beliscar a gentileza e bom humor do homem, dá que pensar. Como vivemos nas grandes colmeias para que duas ou três palavras solidárias espantem e sensibilizem as gentes? Diria que a monte, com pouca fé em Deus e ainda menor no próximo!
Pensei na história ontem, de visita a Vieira do Minho e cumprindo os rituais. Fui dar um abraço ao senhor Manuel do Talho, tentou-me com bagaceira capaz de fazer crescer a água na boca e o medo na vesícula, os dois amigos que com ele cavaqueavam de imediato aceitaram o intruso portuense na tertúlia; avancei para a Mindinha e corri, sem autorização, a meter a cabeça na cozinha para largar uma graça coxa mas sincera aquelas mulheres de mãos abençoadas; durante a almoçarada, gente houve que se me dirigiu a dar as boas vindas, a sugerir locais de visita, a opinar sobre tal artigo ou programa de televisão; percorri a obra com respeito de analfabeto, pela mão paciente do meu mais velho e ao ritmo lento a que o enganador sol de inverno convidava, lá ao fundo uma réstia de geada sobrevivia, o serralheiro afirmou placidamente que manhã cedo teriam estado três ou quatro negativos! À saída, o Guilherme puxou-me o braço – “repara”. E eu estaquei, pasmado com o espectáculo da Cabreira reflectida no vidro, parecia que a serra se mudara para a sala de estar e nós a cobiçávamos, reverentes e gulosos. Que pena a casa não ficar pronta para o Natal!
Já deixei claro que não idealizo a vida de quem se debate com o preço da interioridade, seria obsceno. Mas em Vieira sinto-me pessoa e vejo os outros da mesma forma, não como pano de fundo da minha correria. Esta cadência febril torna impossível a conversa repousada; o encontro que se não fica por aceno de mão distraído e promessa de telefonema; a ironia subtil, mais exigente do que a graçola pesadona; o olhar atento a cores que estilhacem o cinzento nevoeiro psicológico responsável pelo “reumatismo cerebral”. Vivemos acima dos nossos limites e abaixo das nossas possibilidades. Como discos de trinta e três rotações girando a setenta e oito, não importa o som distorcido se o vinil roda mais depressa.
Mas para quê? Para mais rapidamente mergulharmos no silêncio?
A semana passada, numa das lentas conversas telefónicas que debalde tentam estrangular saudades, o meu filho mais novo contava história de quotidiano parisiense. Se bem percebi, a composição do metro em que viajava adiantara-se e foi necessária paragem mais prolongada numa estação. A forma como descreveu os passageiros nesse fim de tarde e trabalho não me surpreendeu – observo os mesmos olhos vazios e gestos cinzentos por cá. Ombros caídos e neurónios em sobrecarga, balançando entre o cansaço mais embrutecido e a raiva mais à flor da orelha; passos rastejantes rumo a casa, que lar é palavra fofa, nem sempre compatível com tal estado de espírito. Depois, sobreviver, culpabilizados, à saúde abençoada e contudo massacrante dos miúdos; engolir qualquer coisa de mesa e televisão; guardar o sexo para noite menos curta e dormir o possível que não o suficiente, o despertador canta e o lamento é sempre o mesmo, incrédula – “já?” Se não estou em erro, os franceses resumiam esse traintrain journalier em rima nada poética: métro, boulot, dodo (metropolitano, trabalhar, dormir... Para onde raio terá fugido o resto da vida?).
Durante a espera, o condutor resolveu sugerir aos passageiros que apreciassem a paisagem publicitária das paredes. Houve expressões de surpresa, não é muito habitual ouvir o restolho dos microfones, a não ser para debitar, monocórdico, o nome da próxima estação. Mas o homem não se ficou por ali, pediu desculpa por o serviço de bebidas e sanduíches não estar em funcionamento. Foi quando, segundo o meu herdeiro, brotaram os primeiros sorrisos. E como não há duas sem três, o “patrão da lancha” voltou à carga, pedindo aos passageiros para apertarem cintos e extinguirem cigarros - iam levantar voo! O metro não o fez, mas as gargalhadas sim, e com elas a disposição dos viajantes. O Machado Vaz Júnior ficou tão agradavelmente surpreendido com os efeitos do inesperado e jocoso atendimento que, à saída, se dirigiu ao condutor para lhe agradecer. Surpresa das surpresas – havia bicha para o fazer, com pessoas jurando ter sido a viagem mais simpática de que se recordavam! Sem por um momento beliscar a gentileza e bom humor do homem, dá que pensar. Como vivemos nas grandes colmeias para que duas ou três palavras solidárias espantem e sensibilizem as gentes? Diria que a monte, com pouca fé em Deus e ainda menor no próximo!
Pensei na história ontem, de visita a Vieira do Minho e cumprindo os rituais. Fui dar um abraço ao senhor Manuel do Talho, tentou-me com bagaceira capaz de fazer crescer a água na boca e o medo na vesícula, os dois amigos que com ele cavaqueavam de imediato aceitaram o intruso portuense na tertúlia; avancei para a Mindinha e corri, sem autorização, a meter a cabeça na cozinha para largar uma graça coxa mas sincera aquelas mulheres de mãos abençoadas; durante a almoçarada, gente houve que se me dirigiu a dar as boas vindas, a sugerir locais de visita, a opinar sobre tal artigo ou programa de televisão; percorri a obra com respeito de analfabeto, pela mão paciente do meu mais velho e ao ritmo lento a que o enganador sol de inverno convidava, lá ao fundo uma réstia de geada sobrevivia, o serralheiro afirmou placidamente que manhã cedo teriam estado três ou quatro negativos! À saída, o Guilherme puxou-me o braço – “repara”. E eu estaquei, pasmado com o espectáculo da Cabreira reflectida no vidro, parecia que a serra se mudara para a sala de estar e nós a cobiçávamos, reverentes e gulosos. Que pena a casa não ficar pronta para o Natal!
Já deixei claro que não idealizo a vida de quem se debate com o preço da interioridade, seria obsceno. Mas em Vieira sinto-me pessoa e vejo os outros da mesma forma, não como pano de fundo da minha correria. Esta cadência febril torna impossível a conversa repousada; o encontro que se não fica por aceno de mão distraído e promessa de telefonema; a ironia subtil, mais exigente do que a graçola pesadona; o olhar atento a cores que estilhacem o cinzento nevoeiro psicológico responsável pelo “reumatismo cerebral”. Vivemos acima dos nossos limites e abaixo das nossas possibilidades. Como discos de trinta e três rotações girando a setenta e oito, não importa o som distorcido se o vinil roda mais depressa.
Mas para quê? Para mais rapidamente mergulharmos no silêncio?
Boa noite.
1.45. Roger Waters ao vivo em Portland, Oregon. Wish You Here, a minha canção favorita. Boa noite, maralhal.
Um Bom 2006:).
Já o desejei aos meus. Mas vocês, nos últimos dez meses, também foram gente minha. Maralhal, tudo de bom e obrigado pela ternura!
sábado, dezembro 31, 2005
O prometido é devido! Sai do baú velharia solidária com a Sical:).
Despedida
Acordou cedo e definitivamente. Ofereceu-se preguiça longa na banheira, talvez os músculos empertigados cedessem ao calor da água... Derrota assumida, contribuiu para a saúde financeira da indústria farmacêutica engolindo um calmante. Desceu. Na cozinha, o rafeiro exibia cauda solidariamente de rastos, fez-lhe carícia grata. O céu de chumbo autorizou um desabafo esperançado - “merda de tempo!” -, mas o quisto cinzento do peito resistiu à lanceta do palavrão. Dobrou a dose de café e partiu ao meio a dieta, demolindo um naco de queijo da serra (por coerência gastronómica e triste avidez ensopado num cálice de Porto). A seguir, preparou-lhe o pequeno almoço com obsessivo requinte, enrugando a toalha para escapar ao seu “nada de últimas refeições perfeitas, ninguém vai morrer!”.
Literal e completamente não, mas cada despedida era um inferno. Quando o pai desaparecera, sem carta sinuosa, porrada velha ou aceno da mão ainda vestida de aliança, o pirralho ouvira, olhos secos, a explicação titubeante de mãe atarantada. E seca fora a resposta, de uma calma gélida para a sua pouca idade – “deixa, eu tomo conta de ti”. Fazendo-o se tornara homem. Mais precisamente – o seu homem. Outros, que lhe tinham debicado a vida ao longo dos anos, nunca saltavam da cama para o coração, aí reinava ele. Apesar de repetir a si própria o que as mães sabem e ignoram - “é teu filho, mas não te pertence, vai crescer...”.
Tanto que Portugal fora curto para o seu voo e aterrara em Londres. Boa escolha: grande cidade para ele, duas míseras horas de avião para ela. Quando o visitava era menos doloroso, recebida de braços abertos mas sabendo que ali não pertencia, na sala de embarque podia fazer batota - “volto para a minha terra”. Mas com ele de regresso à parvónia as coisas mudavam de figura, o metro e oitenta de rapaz a caminho dos trinta não sobrevivia ao contágio de fotografias espalhadas pela casa, era de novo o seu menino. E os meninos não abandonam as mães no avião das sete.
Ouviu o chuveiro. Afivelou o sorriso de ocasião, só o despiria depois de o deixar no aeroporto. Ele desceu, gentil mas parco em palavras; cauteloso, como se temesse dar-lhe pretexto para despedida lacrimejante. Ao almoço, petisco favorito, retribuiu com o “está muito bom” da praxe. Disse-lhe para ir visitar os amigos, o carro estava à disposição, arrumações a fazer e o tempo..., “uma merda!” (o palavrão voltou a não surtir efeito). Agradeceu, já se despedira da malta na noite anterior. A que ela se agarrou como uma náufraga, fazendo perguntas sobre tudo e todos, do restaurante in da saison aos mexericos da movida e a teóricas aventuras – “como te portaste?; olha que telefono à inglesinha!”. Ele sorrindo, mestre na esquiva, em pano de fundo o Mozart que ambos amavam. D.Giovanni... O patife e o seu humor arrevesado!
A dúvida em contagem decrescente – aguento-me até partir? O aeroporto. A hesitação entre o desejo de um atraso que lhe concedesse mais uns minutos e a imperiosa necessidade de o ver pelas costas para o chorar. O abraço descontraído que ele impunha. Conhecia-o tão bem!, ao seu menino, esquivo nesses momentos por também sentir um nó na garganta. “Pisga-te já, ouviste?” E ela dizia que sim, mas ficava no carro até o avião atascado na pista se transformar primeiro em pássaro elegante e depois num ponto; longínquo mas não final.
Rumo a casa, embalando o medo - “é bem mais perigoso andar de automóvel”. Conceder-lhe uma hora a mais para bagagem e trajecto. O telefonema falsamente desprendido, “chegaste bem? Óptimo. Vê se descansas”. Depois, o mail pecaminoso que jamais teria resposta – “foi bom, querido, amo-te muito”. Só então ficou só. Um silêncio de tortura por estrear. Saiu para a varanda. Os espanta-espíritos, espantados com o furacão assolando o seu, dançavam enlouquecidos sem ponta de brisa como alibi. Sentada, abriu os diques - nem uma lágrima. De tão violentadas ao longo do dia tinham amuado e partido com o dono, clandestinas entre as gotas do after-shave.
Na manhã seguinte, ele fez a barba como de costume; e como de costume orvalhou a face com o até aí anónimo after-shave. Para descobrir que a pele não lhe ardia, mas ronronava sob carícias de mulher. Que o acompanharam, religiosa e diariamente, até ao regresso definitivo a Portugal.
Acordou cedo e definitivamente. Ofereceu-se preguiça longa na banheira, talvez os músculos empertigados cedessem ao calor da água... Derrota assumida, contribuiu para a saúde financeira da indústria farmacêutica engolindo um calmante. Desceu. Na cozinha, o rafeiro exibia cauda solidariamente de rastos, fez-lhe carícia grata. O céu de chumbo autorizou um desabafo esperançado - “merda de tempo!” -, mas o quisto cinzento do peito resistiu à lanceta do palavrão. Dobrou a dose de café e partiu ao meio a dieta, demolindo um naco de queijo da serra (por coerência gastronómica e triste avidez ensopado num cálice de Porto). A seguir, preparou-lhe o pequeno almoço com obsessivo requinte, enrugando a toalha para escapar ao seu “nada de últimas refeições perfeitas, ninguém vai morrer!”.
Literal e completamente não, mas cada despedida era um inferno. Quando o pai desaparecera, sem carta sinuosa, porrada velha ou aceno da mão ainda vestida de aliança, o pirralho ouvira, olhos secos, a explicação titubeante de mãe atarantada. E seca fora a resposta, de uma calma gélida para a sua pouca idade – “deixa, eu tomo conta de ti”. Fazendo-o se tornara homem. Mais precisamente – o seu homem. Outros, que lhe tinham debicado a vida ao longo dos anos, nunca saltavam da cama para o coração, aí reinava ele. Apesar de repetir a si própria o que as mães sabem e ignoram - “é teu filho, mas não te pertence, vai crescer...”.
Tanto que Portugal fora curto para o seu voo e aterrara em Londres. Boa escolha: grande cidade para ele, duas míseras horas de avião para ela. Quando o visitava era menos doloroso, recebida de braços abertos mas sabendo que ali não pertencia, na sala de embarque podia fazer batota - “volto para a minha terra”. Mas com ele de regresso à parvónia as coisas mudavam de figura, o metro e oitenta de rapaz a caminho dos trinta não sobrevivia ao contágio de fotografias espalhadas pela casa, era de novo o seu menino. E os meninos não abandonam as mães no avião das sete.
Ouviu o chuveiro. Afivelou o sorriso de ocasião, só o despiria depois de o deixar no aeroporto. Ele desceu, gentil mas parco em palavras; cauteloso, como se temesse dar-lhe pretexto para despedida lacrimejante. Ao almoço, petisco favorito, retribuiu com o “está muito bom” da praxe. Disse-lhe para ir visitar os amigos, o carro estava à disposição, arrumações a fazer e o tempo..., “uma merda!” (o palavrão voltou a não surtir efeito). Agradeceu, já se despedira da malta na noite anterior. A que ela se agarrou como uma náufraga, fazendo perguntas sobre tudo e todos, do restaurante in da saison aos mexericos da movida e a teóricas aventuras – “como te portaste?; olha que telefono à inglesinha!”. Ele sorrindo, mestre na esquiva, em pano de fundo o Mozart que ambos amavam. D.Giovanni... O patife e o seu humor arrevesado!
A dúvida em contagem decrescente – aguento-me até partir? O aeroporto. A hesitação entre o desejo de um atraso que lhe concedesse mais uns minutos e a imperiosa necessidade de o ver pelas costas para o chorar. O abraço descontraído que ele impunha. Conhecia-o tão bem!, ao seu menino, esquivo nesses momentos por também sentir um nó na garganta. “Pisga-te já, ouviste?” E ela dizia que sim, mas ficava no carro até o avião atascado na pista se transformar primeiro em pássaro elegante e depois num ponto; longínquo mas não final.
Rumo a casa, embalando o medo - “é bem mais perigoso andar de automóvel”. Conceder-lhe uma hora a mais para bagagem e trajecto. O telefonema falsamente desprendido, “chegaste bem? Óptimo. Vê se descansas”. Depois, o mail pecaminoso que jamais teria resposta – “foi bom, querido, amo-te muito”. Só então ficou só. Um silêncio de tortura por estrear. Saiu para a varanda. Os espanta-espíritos, espantados com o furacão assolando o seu, dançavam enlouquecidos sem ponta de brisa como alibi. Sentada, abriu os diques - nem uma lágrima. De tão violentadas ao longo do dia tinham amuado e partido com o dono, clandestinas entre as gotas do after-shave.
Na manhã seguinte, ele fez a barba como de costume; e como de costume orvalhou a face com o até aí anónimo after-shave. Para descobrir que a pele não lhe ardia, mas ronronava sob carícias de mulher. Que o acompanharam, religiosa e diariamente, até ao regresso definitivo a Portugal.
sexta-feira, dezembro 30, 2005
Mais um...
Agora morreu o cinema Nun'Álvares:(. Dito à moda de Jorge Sampaio: existirá, daqui a algum tempo, vida para além dos Centros Comerciais?
quinta-feira, dezembro 29, 2005
Também há finais felizes no baú:).
O puto
O puto chorava, num desamparo primaveril.
Olhou-o, aflito. Sem sombra de dúvidas – mil vezes o choro de mulher magoada! Por mais torrencial que seja, nele sempre viaja dedo acusador não definitivo, aberto a pontes e embarcadouros. Ali mesmo, na sala que agora guardava um minuto de silêncio, obsceno de tão longo, por sonhos infantis, vira ele rebentar muitas águas, fêmeas e não grávidas. E contudo cheias: de raiva, abandono, tristeza. Lembrou a rapariguinha loira de olhos resmungões e boca semi-cerrada como o coração dele – “se os homens fecham as comportas por medo de se diluírem na corrente, problema vosso; nenhuma mulher deseja imitar a pose do cow-boy da Marlboro, estamos na merda a tempo, corpo e alma inteiros”. Erro crasso, tê-la deixado partir...
Facto é que um homem tem por onde escolher: pede perdão sem admitir a falta ao espelho; regressa engolindo o orgulho; promete fazendo figas; arrisca ternura que considera mariquice; discute como adulto, refreando o adolescente ansioso por bater a porta; contra-ataca sem argumentos; rende-se! (encomendando o futuro ao Criador...). Não que seja fácil. Da estratégia de xadrezista gélido à fogachada nascida de cabeça quente, tudo acarreta preço e riscos. O choro delas enternece e agride, devasta rostos e sacode ombros, acirra o desejo oficialmente esquecido; tem a força de uma lava húmida que afoga e incendeia, como se um vulcão fêmea recusasse dor a solo.
Mas aquilo... Não havia acusação, esperança, raiva, saudades; ou hipótese. Sentia-se um espectador impotente, parte da mobília, como a estante superlotada e os sofás puídos; um estranho. Ou ladrão que à sorrelfa tivesse entrado para honestamente ganhar a vida, apenas receando alarmes ou cidadão com licença de porte de arma e nervoso ao gatilho; e se imobilizasse, face às lágrimas do garoto, dando consigo a gritar o impensável – “não há direito, chamem a polícia!”.
Inventar esponja ou alegria para aquele choro. Mas com cautela!, sem minar demasiado as regras da casa, bovinamente decalcadas das páginas ditatoriais dos especialistas, prontos a responsabilizarem educadores angustiados pelas catástrofes vindouras. Reviu mentalmente a lista de caprichos recusados, presentes adiados, castigos decretados. Obsessivo, tentou prever a reacção da ex-mulher, sempre disposta a puxar-lhe as orelhas ao telefone, “é preciso que lhe falemos a uma só voz!”. (Tarefa difícil para quem apenas estivera de acordo no desacordo, nunca deviam ter casado). Mas tentavam permanecer pais, o miúdo não tinha culpa de confusão frequente no tempo deles: tomar por amor com futuro um imperioso desejo sexual momentâneo.
Decidiu atacar o fogo com violação das regras alimentares vigentes.
- Queres ir ao MacDonald´s?
Surpreso ficou. O que não o impediu de enxugar as lágrimas rapidamente, não fosse o velho mudar de ideias ou algum vizinho de mesa aperceber-se da sua “fraqueza”. Mas o semblante permaneceu toldado.
Frente a frente. O pai refugiado numa saudável e destoante salada; o filho metodicamente demolindo um hamburguer organizado em propriedade horizontal, com nome a condizer – super-max qualquer coisa. Mais dose reforçada de batatas fritas, todos os molhos habitando saquetes luzidios e um refrigerante de cor tão berrante como as paredes. Para sobremesa, um gelado de apelido pontual – Sunday. A tudo resistiu o silêncio, mesmo à gratidão. Suspirou - a cabeça do rapaz não acompanhara o júbilo surpreendido do estômago. De regresso a casa, meia hora de bónus ao computador, já sem esperança. O toque de recolher, aceite sem os protestos da praxe.
Quando assim tristes, consentem mimos que já crismaram de vergonhosos para a idade. Aconchegou-lhe os lençóis e disse baixinho segredo por ambos conhecido,
- Gosto muito de ti.
Nenhum próximo adolescente que se preze responde a tal piroseira!
Chegado à porta, não resistiu a assumir o papel de oráculo optimista,
- Vais ver, para a semana o Benfica ganha.
Acusador, como o choro das mulheres,
- Tu não queres que isso aconteça, és portista!
O pai, digno, em defesa da honra ferida,
- Mas não fanático!
E o milagre, de que já desistira, aconteceu – o filho, não se dando sequer ao trabalho de discordar, desatou a rir à gargalhada.
O puto chorava, num desamparo primaveril.
Olhou-o, aflito. Sem sombra de dúvidas – mil vezes o choro de mulher magoada! Por mais torrencial que seja, nele sempre viaja dedo acusador não definitivo, aberto a pontes e embarcadouros. Ali mesmo, na sala que agora guardava um minuto de silêncio, obsceno de tão longo, por sonhos infantis, vira ele rebentar muitas águas, fêmeas e não grávidas. E contudo cheias: de raiva, abandono, tristeza. Lembrou a rapariguinha loira de olhos resmungões e boca semi-cerrada como o coração dele – “se os homens fecham as comportas por medo de se diluírem na corrente, problema vosso; nenhuma mulher deseja imitar a pose do cow-boy da Marlboro, estamos na merda a tempo, corpo e alma inteiros”. Erro crasso, tê-la deixado partir...
Facto é que um homem tem por onde escolher: pede perdão sem admitir a falta ao espelho; regressa engolindo o orgulho; promete fazendo figas; arrisca ternura que considera mariquice; discute como adulto, refreando o adolescente ansioso por bater a porta; contra-ataca sem argumentos; rende-se! (encomendando o futuro ao Criador...). Não que seja fácil. Da estratégia de xadrezista gélido à fogachada nascida de cabeça quente, tudo acarreta preço e riscos. O choro delas enternece e agride, devasta rostos e sacode ombros, acirra o desejo oficialmente esquecido; tem a força de uma lava húmida que afoga e incendeia, como se um vulcão fêmea recusasse dor a solo.
Mas aquilo... Não havia acusação, esperança, raiva, saudades; ou hipótese. Sentia-se um espectador impotente, parte da mobília, como a estante superlotada e os sofás puídos; um estranho. Ou ladrão que à sorrelfa tivesse entrado para honestamente ganhar a vida, apenas receando alarmes ou cidadão com licença de porte de arma e nervoso ao gatilho; e se imobilizasse, face às lágrimas do garoto, dando consigo a gritar o impensável – “não há direito, chamem a polícia!”.
Inventar esponja ou alegria para aquele choro. Mas com cautela!, sem minar demasiado as regras da casa, bovinamente decalcadas das páginas ditatoriais dos especialistas, prontos a responsabilizarem educadores angustiados pelas catástrofes vindouras. Reviu mentalmente a lista de caprichos recusados, presentes adiados, castigos decretados. Obsessivo, tentou prever a reacção da ex-mulher, sempre disposta a puxar-lhe as orelhas ao telefone, “é preciso que lhe falemos a uma só voz!”. (Tarefa difícil para quem apenas estivera de acordo no desacordo, nunca deviam ter casado). Mas tentavam permanecer pais, o miúdo não tinha culpa de confusão frequente no tempo deles: tomar por amor com futuro um imperioso desejo sexual momentâneo.
Decidiu atacar o fogo com violação das regras alimentares vigentes.
- Queres ir ao MacDonald´s?
Surpreso ficou. O que não o impediu de enxugar as lágrimas rapidamente, não fosse o velho mudar de ideias ou algum vizinho de mesa aperceber-se da sua “fraqueza”. Mas o semblante permaneceu toldado.
Frente a frente. O pai refugiado numa saudável e destoante salada; o filho metodicamente demolindo um hamburguer organizado em propriedade horizontal, com nome a condizer – super-max qualquer coisa. Mais dose reforçada de batatas fritas, todos os molhos habitando saquetes luzidios e um refrigerante de cor tão berrante como as paredes. Para sobremesa, um gelado de apelido pontual – Sunday. A tudo resistiu o silêncio, mesmo à gratidão. Suspirou - a cabeça do rapaz não acompanhara o júbilo surpreendido do estômago. De regresso a casa, meia hora de bónus ao computador, já sem esperança. O toque de recolher, aceite sem os protestos da praxe.
Quando assim tristes, consentem mimos que já crismaram de vergonhosos para a idade. Aconchegou-lhe os lençóis e disse baixinho segredo por ambos conhecido,
- Gosto muito de ti.
Nenhum próximo adolescente que se preze responde a tal piroseira!
Chegado à porta, não resistiu a assumir o papel de oráculo optimista,
- Vais ver, para a semana o Benfica ganha.
Acusador, como o choro das mulheres,
- Tu não queres que isso aconteça, és portista!
O pai, digno, em defesa da honra ferida,
- Mas não fanático!
E o milagre, de que já desistira, aconteceu – o filho, não se dando sequer ao trabalho de discordar, desatou a rir à gargalhada.
quarta-feira, dezembro 28, 2005
Cêtê falou de melancolia...
... e eu lembrei-me de uma crónica que escrevi há muito tempo:).
Desmentido
Se disserem que parti, não acredites.
Quem? Sei lá! A senhora da mercearia entregando o troco, algum puto reguila que espere a teu lado o verde para atacar a passadeira, a locutora de seios fartos e neurónios raquíticos do programa da manhã, uma daquelas “amigas” que se esquecem de assinar as cartas ou pousam o auscultador antes de dizerem o nome. Sei lá...
Não acredites.
É verdade que o silêncio invadiu a nossa vida, já não me lembro de conversarmos. Pior!, já não me lembro se algum dia o fizemos. Hoje falamos. Pouco. Esgrimimos as palavras indispensáveis ao bom andamento das refeições, à partilha equitativa da televisão – quando não te refugias no quarto com a portátil -, ao ingresso matinal sem atropelos no quarto de banho. Extra-muros restam as de circunstância nas visitas às respectivas famílias e no almoço de curso, durante o qual sempre nos dedicam um brinde por sermos o casal perfeito da nossa geração. É pouco. Mas chega. Aposto que pensas o mesmo, há anos que te não ouço protesto ou remoque. Ultimamente, creio mesmo termos descido mais um degrau nesta ascese comunicativa, ambos utilizamos com frequência o grunhido como resposta, apenas a entoação dá a entender o seu significado. E funciona! (Vantagens de uma longa convivência...) Mas poderão insinuar que parti em busca de companhia que me desate a língua e ressuscite os ouvidos que para ti entraram em greve sine die.
Não acredites.
É verdade que os corpos seguiram as palavras. Primeiro refugiados num sexo mecânico e estereotipado em noites de dias certos. Não digo ineficaz, essa história sobre a necessidade do amor e da comunicação é balela de filmes românticos e especialistas gananciosos; uma vez aprendidos movimentos e ritmos, o prazer físico salta como o joelho no reflexo rotuliano, esteja a cabeça vazia ou cheia de outra pessoa. Sim, outra pessoa, nunca to disse. A princípio escondia-o, depois nunca estive tão furioso que desejasse lançar-to à cara. Nada de importante, uma colega do escritório. Colega? Que exagero! Umas pernas elegantes cruzadas na secretária junto à minha, a saia trepava apenas o suficiente para exasperar a carne, o mesmo acontecendo às profundezas do decote, o cabelo à Veronica Lake escondia-lhe a cara. Melhor, nunca desejei a intimidade de uma troca de olhares, muito menos “bons dias” sugestivamente alegres ou despedidas de prometedora melancolia ao fim da tarde. Tinha dela o que precisava. O resto só poderia ser uma desilusão ou o princípio de uma carga de trabalhos, passado o entusiasmo inicial essas histórias clandestinas são de um ridículo atroz. Colava a sua imagem à tua face, quando ainda era necessário obrigar o corpo a fingir de quando em vez. Felizmente, hoje o sexo também se esconde por trás de grunhidos e monossílabos, tu vais para a cama cedo ou sofres de enxaqueca, eu refugio-me na net ou no clube de bridge. Manobras de esquiva inúteis, nenhum de nós já espera nada, um dia destes passo para o quarto dos rapazes. (Quanto à importância do sexo, considero-a sobreavaliada, a masturbação chega-me perfeitamente para relaxar e adormecer.) Mas admito que sussurrem ter partido a reboque de alguma paixão outonal.
Não acredites.
É verdade que ao pôr a hipótese de invadir o quarto dos rapazes me assalta uma tristeza enorme, a casa parece – e está! – vazia sem eles. Acho que foram uma no man’s land entre nós, encontrávamo-nos os quatro algures entre as trincheiras desta mútua indiferença. E o armistício era de boa fé, dos seus risos sobravam alguns estilhaços que recolhíamos sem esperança ou rancor. As preocupações da moda com os adolescentes não nos punham ombro a ombro, mas pelo menos cruzando os dedos no mesmo exorcismo às drogas, acidentes de viação e fracassos escolares. Se um dia aparecerem, não acredito que tal aconteça com os netos, não voltaremos a estender os braços um para o outro, nem mesmo para segurar um bebé. Dito isto, é possível que digam ter eu esperado a sua partida para também fazer as malas.
Não acredites.
Vou simplesmente passar o dia à quinta, gosto de a saborear sem o peso da minha solidão reflectida na tua. Estarei em casa - como e para sempre... – à hora de jantar.
P.S. Como é óbvio, não se tratava de uma carta encapotada a Maria! Escrevo-lhe desde os doze anos e nunca o desencanto meteu o nariz em tal monólogo dialogante:)))))).
Desmentido
Se disserem que parti, não acredites.
Quem? Sei lá! A senhora da mercearia entregando o troco, algum puto reguila que espere a teu lado o verde para atacar a passadeira, a locutora de seios fartos e neurónios raquíticos do programa da manhã, uma daquelas “amigas” que se esquecem de assinar as cartas ou pousam o auscultador antes de dizerem o nome. Sei lá...
Não acredites.
É verdade que o silêncio invadiu a nossa vida, já não me lembro de conversarmos. Pior!, já não me lembro se algum dia o fizemos. Hoje falamos. Pouco. Esgrimimos as palavras indispensáveis ao bom andamento das refeições, à partilha equitativa da televisão – quando não te refugias no quarto com a portátil -, ao ingresso matinal sem atropelos no quarto de banho. Extra-muros restam as de circunstância nas visitas às respectivas famílias e no almoço de curso, durante o qual sempre nos dedicam um brinde por sermos o casal perfeito da nossa geração. É pouco. Mas chega. Aposto que pensas o mesmo, há anos que te não ouço protesto ou remoque. Ultimamente, creio mesmo termos descido mais um degrau nesta ascese comunicativa, ambos utilizamos com frequência o grunhido como resposta, apenas a entoação dá a entender o seu significado. E funciona! (Vantagens de uma longa convivência...) Mas poderão insinuar que parti em busca de companhia que me desate a língua e ressuscite os ouvidos que para ti entraram em greve sine die.
Não acredites.
É verdade que os corpos seguiram as palavras. Primeiro refugiados num sexo mecânico e estereotipado em noites de dias certos. Não digo ineficaz, essa história sobre a necessidade do amor e da comunicação é balela de filmes românticos e especialistas gananciosos; uma vez aprendidos movimentos e ritmos, o prazer físico salta como o joelho no reflexo rotuliano, esteja a cabeça vazia ou cheia de outra pessoa. Sim, outra pessoa, nunca to disse. A princípio escondia-o, depois nunca estive tão furioso que desejasse lançar-to à cara. Nada de importante, uma colega do escritório. Colega? Que exagero! Umas pernas elegantes cruzadas na secretária junto à minha, a saia trepava apenas o suficiente para exasperar a carne, o mesmo acontecendo às profundezas do decote, o cabelo à Veronica Lake escondia-lhe a cara. Melhor, nunca desejei a intimidade de uma troca de olhares, muito menos “bons dias” sugestivamente alegres ou despedidas de prometedora melancolia ao fim da tarde. Tinha dela o que precisava. O resto só poderia ser uma desilusão ou o princípio de uma carga de trabalhos, passado o entusiasmo inicial essas histórias clandestinas são de um ridículo atroz. Colava a sua imagem à tua face, quando ainda era necessário obrigar o corpo a fingir de quando em vez. Felizmente, hoje o sexo também se esconde por trás de grunhidos e monossílabos, tu vais para a cama cedo ou sofres de enxaqueca, eu refugio-me na net ou no clube de bridge. Manobras de esquiva inúteis, nenhum de nós já espera nada, um dia destes passo para o quarto dos rapazes. (Quanto à importância do sexo, considero-a sobreavaliada, a masturbação chega-me perfeitamente para relaxar e adormecer.) Mas admito que sussurrem ter partido a reboque de alguma paixão outonal.
Não acredites.
É verdade que ao pôr a hipótese de invadir o quarto dos rapazes me assalta uma tristeza enorme, a casa parece – e está! – vazia sem eles. Acho que foram uma no man’s land entre nós, encontrávamo-nos os quatro algures entre as trincheiras desta mútua indiferença. E o armistício era de boa fé, dos seus risos sobravam alguns estilhaços que recolhíamos sem esperança ou rancor. As preocupações da moda com os adolescentes não nos punham ombro a ombro, mas pelo menos cruzando os dedos no mesmo exorcismo às drogas, acidentes de viação e fracassos escolares. Se um dia aparecerem, não acredito que tal aconteça com os netos, não voltaremos a estender os braços um para o outro, nem mesmo para segurar um bebé. Dito isto, é possível que digam ter eu esperado a sua partida para também fazer as malas.
Não acredites.
Vou simplesmente passar o dia à quinta, gosto de a saborear sem o peso da minha solidão reflectida na tua. Estarei em casa - como e para sempre... – à hora de jantar.
P.S. Como é óbvio, não se tratava de uma carta encapotada a Maria! Escrevo-lhe desde os doze anos e nunca o desencanto meteu o nariz em tal monólogo dialogante:)))))).
Bom dia, maralhal:).
Como me escreveu um de vocês:
A vida é isso que estas a ver:
Hoje sorris,
Amanhã não sorris,
E segunda-feira ninguém sabe o que será.
Carlos Drummond de Andrade.
Ou, em versão tripeira: siga a rusga:))))))))))))))).
A vida é isso que estas a ver:
Hoje sorris,
Amanhã não sorris,
E segunda-feira ninguém sabe o que será.
Carlos Drummond de Andrade.
Ou, em versão tripeira: siga a rusga:))))))))))))))).
terça-feira, dezembro 27, 2005
Até amanhã.
Obrigado pela compreensão, maralhal. Dizia um bom amigo meu, também psiquiatra, que sofro do "síndromo do filho único". Ou seja: alimento, de forma neurótica, fantasias acerca de muuuiiitos irmaozinhos à volta da mesa, amigos uns dos outros e a salvo de zangas pueris, quanto mais de maldade diplomada! Não digo tanto, mas o psi em mim aponta o dedo e diagnostica: "não andas longe...". Aceito o reparo que me foi feito por alguns de vós, esperei tempo de mais por uma acalmia que nada tinha de provável. Peço desculpa aos que aturaram o descambar da situação e fico grato a outros, que se afirmam dispostos a regressar. Lamento, mas compreendo que outros partam, desiludidos por um formato que lhes "proíbe" a comunicação imediata. O psi volta a rosnar: "esse horror às separações...". E tem razão. A vida é também feita de lutos, sofridos mas assumidos. Negá-los na cabeça ou - pior ainda! - acreditar poder iludi-los no concreto, equivale a deixar para trás novelos afectivos enrodilhados. Que nos continuam a assombrar, como os pássaros de Hitchcock nos fios eléctricos... Não imagino o futuro do Murcon, estarei cá amanhã e logo se verá. Boa noite.
Ver claro
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede.
Ver claro
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede.
O Lobices tinha razão.
Como ele próprio esclareceu num comentário, nunca lha neguei. Mas o pensamento de cercear a absoluta liberdade de opinar(?) angustiava-me. Ao longo de dez meses, reflecti sobre posições diversas das minhas, sorri perante a brejeirice, fiquei grato pela ternura, aceitei caneladas "mazinhas", semelhantes a tantas outras com que fui mimoseado de há mais de vinte anos para cá. Tudo bem, são as regras do jogo. Mas o que li hoje de manhã está muitos degraus abaixo disso, descambou para o insulto puro e duro, que não me sinto na obrigação de aturar. A brejeirice, o desacordo, o alegre chat entre vocês permanecerão. Mas intervenções que me retirem por completo o prazer de visitar o meu próprio blog, isso não. Por isso mesmo - porque me dá gozo vir aqui e não o quero ver substituído pela náusea.
segunda-feira, dezembro 26, 2005
Lembrete.
Não confundir viagem e quilómetros. Fazer os indispensáveis para encontrar ramo adequado, provavelmente à sombra de uma qualquer igrejinha românica. E só então levantar voo, com doçura empurrado pela pedra ascética. Fundo, mais fundo, navegar por osso e raiz, surpreender a alma nua em cada prece reservada a Deus. Vesti-la do silêncio que emoldura o desejo e não o pudor. E sobretudo não a ofender com postais a tanto a meia-dúzia, fotos de telemóvel da última geração ou bugigangas de lojas de artesanato plastificado. Para que não fuja. Transformando-me num simples turista em busca de troféus culturais para exibir aos amigos, mortos de inveja por ter eu visitado cinco cidades, dez vilas e cinquenta aldeias em apenas uma semana...
domingo, dezembro 25, 2005
Pergunta incómoda.
Maria,
Que te hei-de responder? Este ano lembrei-me de comprar pilhas para os brinquedos e os miúdos estavam felizes. Quanto ao resto, amanhã é dia de trabalho. Felizmente... Obrigado pelo mail. Tem cuidado contigo. Se puder, meto-me no avião e vou aí no próximo fim-de-semana. Não por ser Ano Novo, sabes como detesto divertir-me com data e hora marcada:). Para te abraçar no aeroporto e beber cada grão de areia da ampulheta que conta os minutos antes de nos separarmos de novo. Raio de vida, Maria! E não me venhas outra vez com a cantilena sobre "as certezas que resultam da distância". Volta. E eu prometo que alugo um apartamento em Gondomar para fazermos a experiência a meia-hora um do outro. Em horário laboral:).
Que te hei-de responder? Este ano lembrei-me de comprar pilhas para os brinquedos e os miúdos estavam felizes. Quanto ao resto, amanhã é dia de trabalho. Felizmente... Obrigado pelo mail. Tem cuidado contigo. Se puder, meto-me no avião e vou aí no próximo fim-de-semana. Não por ser Ano Novo, sabes como detesto divertir-me com data e hora marcada:). Para te abraçar no aeroporto e beber cada grão de areia da ampulheta que conta os minutos antes de nos separarmos de novo. Raio de vida, Maria! E não me venhas outra vez com a cantilena sobre "as certezas que resultam da distância". Volta. E eu prometo que alugo um apartamento em Gondomar para fazermos a experiência a meia-hora um do outro. Em horário laboral:).
sexta-feira, dezembro 23, 2005
Fiquem bem.
Presumo que muitos estarão a aquecer motores para rumarem a Natais fora de portas. Por isso vos deixo já um abraço sincero. Não sou um fã do Natal, há demasiados fantasmas pela casa, embora se tenham apiedado de mim depois do nascimento dos meus netos:). Quem resiste à alegria das crianças? Nela renasce a nossa, que por vezes julgámos exilada para sempre.
Deixo ao Miguel as coisas da manhã -
a luz (se não estiver já corrompida)
a caminho do sul,
o chão limpo das dunas desertas,
um verso onde os seixos são
de porcelana,
o ardor quase animal
duma romã aberta.
Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra.
Herança complicada, mas "obrigatória" - deixar-lhes o melhor do mundo e de nós.
Deixo ao Miguel as coisas da manhã -
a luz (se não estiver já corrompida)
a caminho do sul,
o chão limpo das dunas desertas,
um verso onde os seixos são
de porcelana,
o ardor quase animal
duma romã aberta.
Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra.
Herança complicada, mas "obrigatória" - deixar-lhes o melhor do mundo e de nós.
Vocês não poupam um pobre velho...
Paroxístico=paroxísmico. Relativos a paroxismo.
Novo (?) Dicionário Lello da Língua Portuguesa.
P.S. Última página do Público: a nova moda nos Estados Unidos é oferecer operações plásticas às mulheres. Incluindo reconstituições de hímen, às vezes para satisfazer fantasias de desfloração. Ideia curiosa essa, reconstruir a virgindade...
Novo (?) Dicionário Lello da Língua Portuguesa.
P.S. Última página do Público: a nova moda nos Estados Unidos é oferecer operações plásticas às mulheres. Incluindo reconstituições de hímen, às vezes para satisfazer fantasias de desfloração. Ideia curiosa essa, reconstruir a virgindade...
quinta-feira, dezembro 22, 2005
As palavras que o não deixam morrer.
O Arnaldo Saraiva, que ao longo dos anos me presenteou com atenções que decorrem da sua natureza gentil e não de merecimento do destinatário, ofereceu-me, em nome da Fundação Eugénio de Andrade, a 2ª edição revista e acrescentada de Toda a Poesia do Eugénio~de Andrade. E a saudade do homem torna dolorosamente espessa a distância que me separa das palavras do poeta a quem Yourcenar disse: "Ce clavecin bien tempéré de vos poèmes...". Estou de acordo com a autora dessas maravilhosas Memórias de Adriano - a música é uma das duas pontes para a transcendência que pressentimos na poesia do Eugénio. A outra, como já foi dito e redito, é o sol. Queimando o sol(o) e os corpos que nele se debatem, paroxísticos, antes de se erguerem. Rumo à luz.
E não é gralha...
Governo contra vinho do Porto americano
2005/12/22 | 10:11
Acordo permite a comercialização de vinho americano com as designações vintage, tawny e ruby associadas ao vinho do Porto
O ministro da Agricultura, Jaime Silva pronunciou-se contra o acordo firmado em Setembro pelos Estados Unidos e pela União Europeia que permite a comercialização de vinho americano com as designações vintage, tawny e ruby associadas ao vinho do Porto, avança a edição de quinta-feira do jornal Público.
Para o governante português, o problema reside no facto de este acordo abrir um precedente face a outras regiões do Mundo, o que poderá prejudicar as exportações do produto original.
O acordo sobre vinhos entre os Estados Unidos e os 25 prevê que numa primeira fase, e até que as autoridades de Washington fixem novas designações, os produtos vinícolas americanos possam ser comercializados com as denominações de origem, entre elas Port (e não Porto).
Citação do PortugalDiário.
2005/12/22 | 10:11
Acordo permite a comercialização de vinho americano com as designações vintage, tawny e ruby associadas ao vinho do Porto
O ministro da Agricultura, Jaime Silva pronunciou-se contra o acordo firmado em Setembro pelos Estados Unidos e pela União Europeia que permite a comercialização de vinho americano com as designações vintage, tawny e ruby associadas ao vinho do Porto, avança a edição de quinta-feira do jornal Público.
Para o governante português, o problema reside no facto de este acordo abrir um precedente face a outras regiões do Mundo, o que poderá prejudicar as exportações do produto original.
O acordo sobre vinhos entre os Estados Unidos e os 25 prevê que numa primeira fase, e até que as autoridades de Washington fixem novas designações, os produtos vinícolas americanos possam ser comercializados com as denominações de origem, entre elas Port (e não Porto).
Citação do PortugalDiário.
quarta-feira, dezembro 21, 2005
Que mais iremos ler?:). Já não há revisores de texto?
Política
União Europeia
Candidatura de Alegre acusa RTP de «tratamento imparcial»
A candidatura de Manuel Alegre acusou a RTP de «tratamento imparcial» e de violação das regras da igualdade de oportunidade na sequência do debate transmitido depois do frente-a-frente entre Mário Soares e Cavaco Silva, na terça-feira à noite.
No debate sobre o Estado da Nação, da RTP, o painel de convidados não contemplou um representante da candidatura de Manuel Alegre o que permitiu que, quando um dos comentadores, membro da comissão de honra de um dos candidatos, criticasse a candidatura do deputado poeta, não houvesse defesa.
O deputado socialista fala numa «exclusão inadmissível» de um espaço de debate público.
Este protesto de Manuel Alegre surge depois de, na semana passada, ter anunciado que iria processar a Eurosondagem, por aquilo que apelidou de «sintonia» entre o responsável da empresa e o socialista Jorge Coelho.
União Europeia
Candidatura de Alegre acusa RTP de «tratamento imparcial»
A candidatura de Manuel Alegre acusou a RTP de «tratamento imparcial» e de violação das regras da igualdade de oportunidade na sequência do debate transmitido depois do frente-a-frente entre Mário Soares e Cavaco Silva, na terça-feira à noite.
No debate sobre o Estado da Nação, da RTP, o painel de convidados não contemplou um representante da candidatura de Manuel Alegre o que permitiu que, quando um dos comentadores, membro da comissão de honra de um dos candidatos, criticasse a candidatura do deputado poeta, não houvesse defesa.
O deputado socialista fala numa «exclusão inadmissível» de um espaço de debate público.
Este protesto de Manuel Alegre surge depois de, na semana passada, ter anunciado que iria processar a Eurosondagem, por aquilo que apelidou de «sintonia» entre o responsável da empresa e o socialista Jorge Coelho.
segunda-feira, dezembro 19, 2005
Vigília.
Quando te sinto adormecer e ao meu desejo,
saciados mas famintos de futuro,
procuro medos antigos e não os vejo,
do amor, de ti, do quarto escuro.
Uma criança suspira aliviada,
um rapazinho afaga o louco sonho,
um homem vive a certeza mais inesperada,
um velho não se crê já tão bisonho.
E todos te segredam um "até amanhã" agradecido.
saciados mas famintos de futuro,
procuro medos antigos e não os vejo,
do amor, de ti, do quarto escuro.
Uma criança suspira aliviada,
um rapazinho afaga o louco sonho,
um homem vive a certeza mais inesperada,
um velho não se crê já tão bisonho.
E todos te segredam um "até amanhã" agradecido.
domingo, dezembro 18, 2005
Pelo sim, pelo não...
... rejeito qualquer responsabilidade pelo que possa acontecer no Porto esta noite - a partir da 1.30... - provocado pelos inexauríveis convivas do jantar do Murcon!
Agora a sério - foi muito bom:).
Agora a sério - foi muito bom:).
sexta-feira, dezembro 16, 2005
Directos ao coração.
Maria,
Que coincidência estranha! Recebo o teu mail, cheio de uma tristeza funda e solidária que me faz desejar correr a dar-te colo, e a 2 emite a História dos blues. Um homem e uma guitarra; a dor, o racismo e a pobreza a céu aberto. Compreendo o teu horror à injustiça não mediática que nos rodeia. Mas porque sou bem mais velho, lembro-a nas cruzes do Ku Klux Klan, no discurso de Luther King, na morte anónima de Skip James. Maria, admiro o teu escândalo e a necessidade que sentes de ir à luta. Admiro-te o suficiente para me sentir envergonhado por ouvir blues no conforto da sala. Receio que a velhice também seja isto - refugiar-me nas palavras para esconder a preguiça que torna difícil as barricadas, mesmo simbólicas. Saber-te nelas enche-me de orgulho e receio. Porque me rejuvenesces e afastas ao mesmo tempo. Pouco - muito!:( - importa: fazes o que tem de ser feito, pobre do amor que "dura" à custa do puxar de rédeas de alguém. Vai. Logo veremos se ainda consigo, ao menos, seguir-te à distância de um beijo, de um sorriso, de um olhar. Se não conseguir é porque já não te mereço.
Boa noite e bom caminho.
Que coincidência estranha! Recebo o teu mail, cheio de uma tristeza funda e solidária que me faz desejar correr a dar-te colo, e a 2 emite a História dos blues. Um homem e uma guitarra; a dor, o racismo e a pobreza a céu aberto. Compreendo o teu horror à injustiça não mediática que nos rodeia. Mas porque sou bem mais velho, lembro-a nas cruzes do Ku Klux Klan, no discurso de Luther King, na morte anónima de Skip James. Maria, admiro o teu escândalo e a necessidade que sentes de ir à luta. Admiro-te o suficiente para me sentir envergonhado por ouvir blues no conforto da sala. Receio que a velhice também seja isto - refugiar-me nas palavras para esconder a preguiça que torna difícil as barricadas, mesmo simbólicas. Saber-te nelas enche-me de orgulho e receio. Porque me rejuvenesces e afastas ao mesmo tempo. Pouco - muito!:( - importa: fazes o que tem de ser feito, pobre do amor que "dura" à custa do puxar de rédeas de alguém. Vai. Logo veremos se ainda consigo, ao menos, seguir-te à distância de um beijo, de um sorriso, de um olhar. Se não conseguir é porque já não te mereço.
Boa noite e bom caminho.
quinta-feira, dezembro 15, 2005
Associação livre: Pamina-Shakespeare-Vasco Graça Moura-Petrarca.
"O que costumava amar, já não amo; minto: amo, mas amo menos; ainda assim continuo a mentir: amo, mas mais envergonhadamente, mais tristemente; agora é que disse a verdade. De facto, é assim: amo, mas desejaria não amar o que amo, desejaria odiá-lo; amo todavia, mas sem querer, mas coagido, mas triste e em pranto. E, mísero, em mim mesmo experimento aquele famosíssimo dito: Odiarei se puder; se não, amarei apesar de mim".
Em Vasco Graça Moura, As Rimas de Petrarca.
Em Vasco Graça Moura, As Rimas de Petrarca.
terça-feira, dezembro 13, 2005
Com efeito...
Ofício de suicidas
Poucas as palavras, pequenos seus desígnios,
nomeiam sempre realidades banais,
triviais signos, factos consumados,
e, ao fundo, sórdida presença da morte.
Ofício melancólico, construir estas grades,
estas escassas lápides do tempo que nos passa,
ofício de suicidas, tentar reter
o rasto da luz em sílabas de sombra.
Juan Luis Panero, Poemas.
Poucas as palavras, pequenos seus desígnios,
nomeiam sempre realidades banais,
triviais signos, factos consumados,
e, ao fundo, sórdida presença da morte.
Ofício melancólico, construir estas grades,
estas escassas lápides do tempo que nos passa,
ofício de suicidas, tentar reter
o rasto da luz em sílabas de sombra.
Juan Luis Panero, Poemas.
segunda-feira, dezembro 12, 2005
O outro espírito natalício.
Maria,
Que maldade!, perguntares ao psi como vai a contagem decrescente para o Natal:(. Perguntavas ao Avô e ele te diria que sobreviveu ao Toys'r'us - ou lá como se escreve... - com um sorriso nos lábios e muita paciência na caixa, pensando em mãos e olhares ávidas dos netos. (Nota importante: não exagerar, a miudagem desenvolve uma "ideologia consumista" aterradora.) Mas o psi recebe muita gente que despe as máscaras usadas à luz das lâmpadas na rua. E que teme os holofotes escrutinadores dos outros... Confessam desejar que tudo passe a correr e cheguem os Reis para os libertar de tristeza republicana; recordam fantasmas do passado; viram e reviram os medos do futuro; perguntam, sorriso amargo, se não há uma pastilha que os faça dormir por dentro até Janeiro, enquanto funcionam por fora. Estou soturno e em pleno delírio de auto-piedade? Soturno talvez, mas jamais ouvirás de mim um lamento. É verdade que o riso não abunda na minha profissão ou, quando chega, leva as pessoas porta fora a gastar melhor tempo e dinheiro. Mas não me imagino a fazer outra coisa, sou um ouvidor. Só não te ouço a ti? Perdão, mas é uma surdez selectiva, apenas acontece quando me azucrinas o juízo! Ups... Just kidding, Maria, just kidding.
Júlio, dois ouvidos ao teu dispor:))))).
Que maldade!, perguntares ao psi como vai a contagem decrescente para o Natal:(. Perguntavas ao Avô e ele te diria que sobreviveu ao Toys'r'us - ou lá como se escreve... - com um sorriso nos lábios e muita paciência na caixa, pensando em mãos e olhares ávidas dos netos. (Nota importante: não exagerar, a miudagem desenvolve uma "ideologia consumista" aterradora.) Mas o psi recebe muita gente que despe as máscaras usadas à luz das lâmpadas na rua. E que teme os holofotes escrutinadores dos outros... Confessam desejar que tudo passe a correr e cheguem os Reis para os libertar de tristeza republicana; recordam fantasmas do passado; viram e reviram os medos do futuro; perguntam, sorriso amargo, se não há uma pastilha que os faça dormir por dentro até Janeiro, enquanto funcionam por fora. Estou soturno e em pleno delírio de auto-piedade? Soturno talvez, mas jamais ouvirás de mim um lamento. É verdade que o riso não abunda na minha profissão ou, quando chega, leva as pessoas porta fora a gastar melhor tempo e dinheiro. Mas não me imagino a fazer outra coisa, sou um ouvidor. Só não te ouço a ti? Perdão, mas é uma surdez selectiva, apenas acontece quando me azucrinas o juízo! Ups... Just kidding, Maria, just kidding.
Júlio, dois ouvidos ao teu dispor:))))).
sexta-feira, dezembro 09, 2005
Os Simões em Cantelães:).
Ontem os Simões visitaram os Vazes. O clã é chefiado por alguém que todos vocês conhecem, o Professor Manuel Sobrinho Simões, um dos nossos mais ilustres investigadores e universitários. A reunião das duas famílias - e de dois homens que construíram uma amizade sem uma nuvem ao longo de quase quarenta anos! - só não foi perfeita porque o filho mais velho do Manel e a mulher não vieram por estarem fora de Portugal. Porque os (exagerados) intervalos entre estes rituais à volta de mesas longas e muito povoadas não alteram nada, é como se tivéssemos estado juntos na noite anterior, ainda sem filhos e muito menos netos. O Manel gostou de Cantelães, mas não deixou de fazer notar que "sem mar e com mau tempo...". Compreendo-o, perdi a conta das vezes em que desafiámos céus pesadões em Vila Praia de Âncora e levámos a criançada esticar as pernas à beira-mar. E porque sempre fui eu o citadino, o preguiçoso, o hesitante face a excursões em busca de cogumelos no Camarido, uma frase dele era inevitável - "Ó Vaz, não te imaginava num cenário destes". Também eu tive dúvidas. Acontecia-me recear que passados três ou quatro fins-de-semana para aqui viesse só para não dar o braço a torcer, mas suspirando pela cidade. Não sucedeu, já não acredito que suceda, pequenos (grandes) pormenores o sugerem - o jardineiro, o senhor Augusto, veio trazer batatas, cebolas e ovos, para o caso de "você" - que sou eu:) - "cá não voltar antes do Natal"; o funcionário da farmácia meditou comigo sobre a fórmula a empregar (bom dia ou boa tarde), eu afirmava que passava das doze, ele retorquia que ainda não almoçara; o patrão do Sol da Cabreira descobriu que vive no Porto muito perto do meu consultório; a senhora do café já não precisa de me ouvir, só confirma que jornais desejo reservar. Não, Cantelães não é um capricho efémero, mas um porto de abrigo à la Toyota - veio para ficar:)))))).
Adiante. Porque a visita do Manel y sus muchachos me enterneceu, aqui vos deixo o artigo que lhe dediquei quando ganhou o prémio Pessoa. Escreveu-se a si próprio, como acontece quando falamos da alegria e orgulho que nos despertam os que amamos.
O Manel
Sento-me ao computador e recomeço luta com história que teima em não levantar voo. Em barulho de fundo, cocktail criminoso: Mozart e notícias. De repente, eis o divino Wolfgang transformado em simples actor secundário - o Manel ganhou o Prémio Pessoa! Sei, não é forma de me referir a Catedrático de Medicina. E contudo, sem beliscar a admiração intelectual que nutro pelo Professor Sobrinho Simões, no coração prefiro-lhe o Manel.
Ambos médicos, ele navegava dois cursos antes do meu. Navegar não será o verbo adequado, tal o brilhantismo com que planava acima de aulas e exames que nos esculpiam as olheiras. Abundantes embora, nunca precisei de histórias acerca da sua fina inteligência e célere sentido de humor. Como ele, filho de professor, bastava-me escutar as descrições enlevadas de meu Pai – foi um dos seus alunos favoritos. E não pelas respostas certas, infelizmente o curso de Medicina favorecia(?) o empinanço puro e simples. O meu velho adorava nele, isso sim, o talento para articular meros conhecimentos rumo à sabedoria possível na sua idade e o gozo com que aceitava fazer do programa um simples trampolim para discutir o mundo em geral.
Em contrapartida, pertencíamos à mesma fornada de lagartos ao sol do Molhe. E desaguámos juntos na tropa: eu por lapso de um computador incompetente, ele por não invocar joelhos cambados, que o faziam marchar como marinheiro em terra, para desespero do tonitruante instrutor. Pouco habituado a hierarquias não alicerçadas no mérito, lembro a naturalidade com que me arrastou a invadir a messe dos oficiais em busca de parceiros para um bridge. Fomos informados de que atentáramos contra a disciplina militar, as chefias não se misturavam com recrutas. Paciência!, jogámo-lo sem farda por muita mesa de jogo. Perfeccionistas, debatíamo-nos com problemas diferentes: eu jogava há uns tempos, mas uma crónica distracção impedia-me de ser bom jogador; ele era um neófito, mas dotado e com pressa de dominar os requebros das cartas. Em democrática votação decidimos desactivar essa mistura explosiva, para que eventuais estilhaços não comprometessem o carinho que nos unia.
Mas não se pense que abandonámos o desporto! Antes de mim, o Manel percebeu que as fugas da cidade ao fim de semana se tornavam imperiosas para a manutenção da saúde mental. E refugiava-se em Âncora e Arouca, amiúde pegando no telefone a desafiar-me, “ó, Vaz, anda daí!” E eu ia, com os Machadinhos, rumo a terríveis futeboladas e não menos homéricos banquetes, antecedendo a conversa à lareira ou sob um céu estrelado. E se já antes gostava muito dela, foi nessas escapadas que apreciei a importância fundamental da mulher, a Gu, originária de clã a quem a cidade muito deve - os Areias. O Manel não teria sido o que é, a todos os níveis, sem a sua discreta mas firme doçura, que não raras vezes nos punha a todos em sentido!
Fico muito contente. Pelo amigo, que em triste época da vida me telefonou e disse: “não te quero invadir, quando desejares a porta está aberta”; pelo universitário brilhante, acima de tudo capaz de formar discípulos; pelo homem que sempre mimou a família, apesar de um quotidiano de saltimbanco ao serviço da ciência; pelo tripeiro ferrenho, jamais engaiolado na armadilha do bairrismo; pelo portista doente e agarotado, que me telefonava à gargalhada a oferecer condolências quando o Porto zurzia o Benfica; pelo pai de filhos que cresceram ombro a ombro com os Machadinhos, numa algazarra que só poupava a Joana, a rapariga da geração; pelo avô de futuros netos que os meus já esperam, para continuar esta saga entrelaçada.
O Professor Sobrinho Simões merece amplamente esta homenagem, como cientista e cidadão. Mas o prémio chama-se Pessoa. E como pessoa, o laureado não existe sem o Manel, pois o brilho que justifica o reconhecimento irradia, genuíno, de dentro. Os “outros” não passam de fogachos mediáticos.
Adiante. Porque a visita do Manel y sus muchachos me enterneceu, aqui vos deixo o artigo que lhe dediquei quando ganhou o prémio Pessoa. Escreveu-se a si próprio, como acontece quando falamos da alegria e orgulho que nos despertam os que amamos.
O Manel
Sento-me ao computador e recomeço luta com história que teima em não levantar voo. Em barulho de fundo, cocktail criminoso: Mozart e notícias. De repente, eis o divino Wolfgang transformado em simples actor secundário - o Manel ganhou o Prémio Pessoa! Sei, não é forma de me referir a Catedrático de Medicina. E contudo, sem beliscar a admiração intelectual que nutro pelo Professor Sobrinho Simões, no coração prefiro-lhe o Manel.
Ambos médicos, ele navegava dois cursos antes do meu. Navegar não será o verbo adequado, tal o brilhantismo com que planava acima de aulas e exames que nos esculpiam as olheiras. Abundantes embora, nunca precisei de histórias acerca da sua fina inteligência e célere sentido de humor. Como ele, filho de professor, bastava-me escutar as descrições enlevadas de meu Pai – foi um dos seus alunos favoritos. E não pelas respostas certas, infelizmente o curso de Medicina favorecia(?) o empinanço puro e simples. O meu velho adorava nele, isso sim, o talento para articular meros conhecimentos rumo à sabedoria possível na sua idade e o gozo com que aceitava fazer do programa um simples trampolim para discutir o mundo em geral.
Em contrapartida, pertencíamos à mesma fornada de lagartos ao sol do Molhe. E desaguámos juntos na tropa: eu por lapso de um computador incompetente, ele por não invocar joelhos cambados, que o faziam marchar como marinheiro em terra, para desespero do tonitruante instrutor. Pouco habituado a hierarquias não alicerçadas no mérito, lembro a naturalidade com que me arrastou a invadir a messe dos oficiais em busca de parceiros para um bridge. Fomos informados de que atentáramos contra a disciplina militar, as chefias não se misturavam com recrutas. Paciência!, jogámo-lo sem farda por muita mesa de jogo. Perfeccionistas, debatíamo-nos com problemas diferentes: eu jogava há uns tempos, mas uma crónica distracção impedia-me de ser bom jogador; ele era um neófito, mas dotado e com pressa de dominar os requebros das cartas. Em democrática votação decidimos desactivar essa mistura explosiva, para que eventuais estilhaços não comprometessem o carinho que nos unia.
Mas não se pense que abandonámos o desporto! Antes de mim, o Manel percebeu que as fugas da cidade ao fim de semana se tornavam imperiosas para a manutenção da saúde mental. E refugiava-se em Âncora e Arouca, amiúde pegando no telefone a desafiar-me, “ó, Vaz, anda daí!” E eu ia, com os Machadinhos, rumo a terríveis futeboladas e não menos homéricos banquetes, antecedendo a conversa à lareira ou sob um céu estrelado. E se já antes gostava muito dela, foi nessas escapadas que apreciei a importância fundamental da mulher, a Gu, originária de clã a quem a cidade muito deve - os Areias. O Manel não teria sido o que é, a todos os níveis, sem a sua discreta mas firme doçura, que não raras vezes nos punha a todos em sentido!
Fico muito contente. Pelo amigo, que em triste época da vida me telefonou e disse: “não te quero invadir, quando desejares a porta está aberta”; pelo universitário brilhante, acima de tudo capaz de formar discípulos; pelo homem que sempre mimou a família, apesar de um quotidiano de saltimbanco ao serviço da ciência; pelo tripeiro ferrenho, jamais engaiolado na armadilha do bairrismo; pelo portista doente e agarotado, que me telefonava à gargalhada a oferecer condolências quando o Porto zurzia o Benfica; pelo pai de filhos que cresceram ombro a ombro com os Machadinhos, numa algazarra que só poupava a Joana, a rapariga da geração; pelo avô de futuros netos que os meus já esperam, para continuar esta saga entrelaçada.
O Professor Sobrinho Simões merece amplamente esta homenagem, como cientista e cidadão. Mas o prémio chama-se Pessoa. E como pessoa, o laureado não existe sem o Manel, pois o brilho que justifica o reconhecimento irradia, genuíno, de dentro. Os “outros” não passam de fogachos mediáticos.
quinta-feira, dezembro 08, 2005
Para alívio de alguns e desencanto de outros..., sobrevivi!
Não sei bem como... Vi sozinho em casa, sem apoio médico. Ainda por cima de um modo esquizofrenizante, os vizinhos de cima gritavam golo antes da bola entrar e ela entrava! Suponho que as notícias cheguem mais depressa pela rádio ou a minha televisão trabalha au ralenti:))). Claro que saboreei até ao tutano uma vitória inesperada. Mas se tivesse levado com um balde de água fria nos últimos momentos continuaria a dizer o mesmo: eles bateram-se até à exaustão e essa é a minha única exigência inegociável.
Quanto ao dedo médio de Cristiano Ronaldo, diria que se trata de um caso de dinheiro e bajulação a mais e idade e educação a menos.
Quanto ao dedo médio de Cristiano Ronaldo, diria que se trata de um caso de dinheiro e bajulação a mais e idade e educação a menos.
terça-feira, dezembro 06, 2005
O optimismo da "família mantida".
Admito que sou suspeito. Admito que eu e minha ex-mulher tivemos sorte, os nossos rapazes não nos deram um desgosto, apenas motivos de orgulho. Mas sou psi há 30 anos e tenho visto como é ilusório decidir que a não separação dos pais resulta, por definição, num benefício para os filhos. A família é um espaço emocional, não um somatório de presenças físicas. Os campos de batalha, os silêncios sepulcrais, a aflição de miúdos que se vêem obrigados a tomar partido ou a refugiar-se em quartos ou cafés, nada disso é compatível com um crescimento saudável dos jovens. E devo acrescentar que já ouvi bastantes dizerem a pais, que juram ter ficado juntos por sua causa: "não o pedi e preferia paz em duas casas". Acresce que muitos pais o dizem de boa-fé, mas sem ser verdade - ficaram por medo, remorso, comodismo, ainda esperança... E que seja verdade!, nenhum adolescente pode ser "responsabilizado" pelo arrastar da tristeza parental. Não tenho dúvidas que o divórcio é, muitas vezes, a decisão mais benéfica para todos os envolvidos, desde que o retomar da navegação por parte dos pais não implique o seu afastamento emocional das crias.
segunda-feira, dezembro 05, 2005
A importância do significado atribuído.
Investigadores australianos demonstram impacto do stress na saúde humana
05.12.2005 - 14h08 Lusa
Investigadores australianos do Instituto Garvan de Sydney conseguiram provar cientificamente os efeitos do stress para a saúde humana, que podem gerar desde uma simples constipação ao cancro, indica hoje uma revista médica.
Em períodos de stress, uma hormona libertada no corpo, chamada neuropéptido Y (NPY), afecta o sistema imunitário e torna a pessoa doente, defendem os cientistas.
"Antes havia provas indirectas de uma ligação entre o cérebro e o sistema imunitário. Agora temos a ligação", disse Fabienne Mackay, membro da equipa de investigação.
Durante os períodos de stress, os nervos libertam muito NPY que vai para o sangue, onde inibe as células do sistema imunitário", acrescentou a cientista ao “Journal of Experimental Medicine”.
Herbert Herzog, que também participou na investigação, comentou que o efeito negativo do neuropéptido Y sobre a tensão arterial e o ritmo cardíaco era já conhecido, mas a descoberta do seu impacto no sistema imunitário poderá agora abrir novas portas para combater certas doenças.
A libertação dessa hormona "torna as pessoas mais vulneráveis quando têm uma constipação ou uma gripe e mesmo em situações mais graves, como o cancro", afirmou à estação de rádio ABC.
A artrite reumatóide, a esclerose em placas, a doença de Crohn e a diabetes são também doenças que têm uma ligação ao stress, segundo os investigadores.
Gosto sempre de registar os avanços nesta direcção, a pouco e pouco vão tornando ainda mais obrigatória a abordagem psicossomática da realidade humana que impede o refúgio na velha chaveta espírito/corpo. Mas atenção!, a relação stress psicológico-consequências físicas não é simples e mecânica. Desde logo, por uma razão básica: muitos factores só se tornam stressantes quando o indivíduo os percebe como tal, daí a importância do significado atribuído por cada um às experiências que vivencia.
Nota: como outras vezes, o PortugalDiário pediu a minha opinião sobre dados sociológicos, neste caso do INE sobre casamento e divórcio. As perguntas e respostas descambaram em conversa que, como é óbvio, não poderia ser transcrita na íntegra. O que foi publicado é, assim, asceticamente fiel, excepto num ponto: nunca disse que o divórcio é uma "solução fácil". Jamais o poderia fazer, por experiência pessoal e profissional. Disse, isso sim, que o divórcio é hoje mais fácil por razões culturais e económicas. Mas o divórcio das pessoas de carne e osso muito raramente é um processo isento de dor ou, pelo menos, da frustração pelo fim de um projecto que um dia se julgou com futuro sólido.
05.12.2005 - 14h08 Lusa
Investigadores australianos do Instituto Garvan de Sydney conseguiram provar cientificamente os efeitos do stress para a saúde humana, que podem gerar desde uma simples constipação ao cancro, indica hoje uma revista médica.
Em períodos de stress, uma hormona libertada no corpo, chamada neuropéptido Y (NPY), afecta o sistema imunitário e torna a pessoa doente, defendem os cientistas.
"Antes havia provas indirectas de uma ligação entre o cérebro e o sistema imunitário. Agora temos a ligação", disse Fabienne Mackay, membro da equipa de investigação.
Durante os períodos de stress, os nervos libertam muito NPY que vai para o sangue, onde inibe as células do sistema imunitário", acrescentou a cientista ao “Journal of Experimental Medicine”.
Herbert Herzog, que também participou na investigação, comentou que o efeito negativo do neuropéptido Y sobre a tensão arterial e o ritmo cardíaco era já conhecido, mas a descoberta do seu impacto no sistema imunitário poderá agora abrir novas portas para combater certas doenças.
A libertação dessa hormona "torna as pessoas mais vulneráveis quando têm uma constipação ou uma gripe e mesmo em situações mais graves, como o cancro", afirmou à estação de rádio ABC.
A artrite reumatóide, a esclerose em placas, a doença de Crohn e a diabetes são também doenças que têm uma ligação ao stress, segundo os investigadores.
Gosto sempre de registar os avanços nesta direcção, a pouco e pouco vão tornando ainda mais obrigatória a abordagem psicossomática da realidade humana que impede o refúgio na velha chaveta espírito/corpo. Mas atenção!, a relação stress psicológico-consequências físicas não é simples e mecânica. Desde logo, por uma razão básica: muitos factores só se tornam stressantes quando o indivíduo os percebe como tal, daí a importância do significado atribuído por cada um às experiências que vivencia.
Nota: como outras vezes, o PortugalDiário pediu a minha opinião sobre dados sociológicos, neste caso do INE sobre casamento e divórcio. As perguntas e respostas descambaram em conversa que, como é óbvio, não poderia ser transcrita na íntegra. O que foi publicado é, assim, asceticamente fiel, excepto num ponto: nunca disse que o divórcio é uma "solução fácil". Jamais o poderia fazer, por experiência pessoal e profissional. Disse, isso sim, que o divórcio é hoje mais fácil por razões culturais e económicas. Mas o divórcio das pessoas de carne e osso muito raramente é um processo isento de dor ou, pelo menos, da frustração pelo fim de um projecto que um dia se julgou com futuro sólido.
domingo, dezembro 04, 2005
I'm John.
Gostei do artigo da Pública sobre John Lennon com este título. Quanto à pergunta sobre onde estava quando soube da sua morte, é fácil: a entrar em casa e ouvindo um noticiário. Parte do meu mundo desmoronou-se, e eles estavam separados há 10 anos. Era um amigo que partia, no preciso momento em que reencontrava a sua música e continuava a afagar o sonho de uma reconciliação entre ele e Macca ao nível musical. Essa nostalgia de recomeço, infantil e susceptível de me provocar enorme desilusão, morreu naquele dia. A saudade, embalada ao som da sua música, tornou-se mais forte e perdura.
Das citações de John, saliento uma: "O meu papel na sociedade, ou o papel de qualquer artista ou poeta é tentar expressar o que todos nós sentimos. Não dizer às pessoas como sentir. Não como um pregador, não como um líder, mas como um reflexo de nós todos". Estou de acordo. Acontece que alguns são capazes de escrever ou compor reflexos caleidoscópicos que nos encantam e fazem descobrir facetas desconhecidas...
Das citações de John, saliento uma: "O meu papel na sociedade, ou o papel de qualquer artista ou poeta é tentar expressar o que todos nós sentimos. Não dizer às pessoas como sentir. Não como um pregador, não como um líder, mas como um reflexo de nós todos". Estou de acordo. Acontece que alguns são capazes de escrever ou compor reflexos caleidoscópicos que nos encantam e fazem descobrir facetas desconhecidas...
sábado, dezembro 03, 2005
A caminho da pauta:).
Corrijo exames da pós-graduação organizada pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e nem a paz de Cantelães pode camuflar a realidade - as respostas ao meu grupo de perguntas sofrem de anemia grave. Claro que a matéria será enfadonha para alguns, quem a ministrou merecerá o mesmo diagnóstico por parte de outros, mas receio que mais variáveis entrem no jogo, género "por que raio vou perder tempo com aspectos históricos se o que desejo é ser terapeuta sexual? Que me conste os romanos não tinham clínicas a trabalhar nesta área!". E desconfio disso por encontrar o mesmo raciocínio nas Faculdades de Medicina, laboriosamente produzindo super-especialistas. Trata-se de um erro crasso. Não somos cavalos, qualquer tipo de antolhos não melhora a nossa eficácia, pelo contrário. A cultura (geral e profissional) torna-nos mais capazes de analisar uma queixa - e por arrastamento sobre ela intervir... - por a colocar sobre o pano de fundo de outros olhares. A ela e a quem a sussurra ou grita, gente como nós que não pode ser reduzida a portadora de sintomas. E o olhar romano sobre o género sublinha de modo cristalino como algumas das nossas chavetas, exclusivamente baseadas na orientação sexual, são produzidas num dado momento histórico e não revelações divinas. Elas pareceriam estranhas a um honesto e viril cidadão de Roma, apenas preocupado com um eventual carimbo de passividade numa relação erótica com qualquer um dos sexos.
sexta-feira, dezembro 02, 2005
Isto não é o day after.
Nem o fim do programa - que os três prevíramos para dois anos atrás! -, nem meia-dúzia de comentários mais... acutilantes:) à minha pessoa justificam preocupação, maralhal. O Lobices tem razão e a Camille Paglia também - não há lei na arena (neste caso do Murcon). É um preço baixo a pagar pela tertúlia, não acham? Quanto a mim, ficaria mais preocupado se alguém me tivesse feito o "diagnóstico" que consta do livro A Conspiração contra a América, de Roth (agora já não vale utilizá-lo:)!) - "O inchado filho da mãe sabe tudo: é uma grande pena que não saiba mais nada". Eu conheço alguns e vocês também, seguramente. Bom fim-de-semana, gente. E não se esqueçam: a felicidade não existe, mas ter saúde e falar livremente são privilégios a não olhar com sobranceria, tomando-os como dados adquiridos:).
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Para evitar surpresas.
Se na próxima semana o Estes Difíceis Amores for para o ar será um programa gravado. O mesmo acontecerá se a RTPN decidir mantê-lo na grelha até ao fim do ano. Como os que costumam ver sabem à própria custa, tanto na 2 como na RTPN as surpresas - horários e ausências - foram frequentes. Por causa de jogos de futebol, festejos variados, datas mais ou menos simbólicas, etc... Embora triste com muitas dessas ocorrências, a minha ligação com o "canal da minha terra" falou sempre mais alto. Bem assim como a relação cordial que mantinha - e mantenho! - com quem lá trabalha. Acontece que há limites que não devem ser ultrapassados. Esta semana fui informado da impossibilidade de gravar no dia habitual..., no próprio dia! Proposta: sexta à noite - impossível para mim -, pois não existe um único programa de reserva como ordena a prudência. Não se pode trabalhar desta forma. Sei que os factos não traduzem má vontade contra qualquer um dos três, mas sim a "descontracção" que três anos de trabalho acarretam: "logo se vê", "eles são da casa", trá-lá-lá. E realmente somos da casa. Eu estou na RTPN desde o início e cheguei a trabalhar de graça; o Estes Difíceis Amores é um programa barato, porque nos foi pedida compreensão para a pouca disponibilidade financeira da estação (pedido reiterado quando o programa começou a passar também na 2, RTPi e RTP Internacional sem qualquer ajuste nas remunerações); a este nível, o desprendimento da Leonor Ferreira chegou a ser embaraçoso para todos, durante muito tempo não ganhava para o pitróleo, como se dizia no meu tempo; torcemos as nossas vidas para acatar todas as alterações de gravação, que não foram poucas; fizemos o melhor que pudemos e sabíamos durante três anos; e creio poder dizer que do operador de câmara ao director de antena ninguém ficou com queixas nossas.
Por tudo isso - e por unanimidade:) - decidimos ficar por aqui, sentimo-nos desta vez um bocadinho desleixados de mais. Tenho pena, apetecia-me que os últimos programas fossem alegres, afinal traduzindo o que de melhor guardarei: três anos volvidos, saí sempre das gravações cansado mas divertido, a Leonor e a Gabriela conseguiam abanar-me a preguiça e despertar o prazer da tertúlia. Para elas vão os meus agradecimentos sinceros e o sublinhar da sua competência, com um beijo especial para a Leonor, que se arriscou a conversar com dois velhos amigos que conhecera meia-hora antes da primeira gravação. E para os que nos visitavam, um "até qualquer dia" não menos grato, nenhum programa dura três anos sem o apoio do público.
Fiquem bem.
Por tudo isso - e por unanimidade:) - decidimos ficar por aqui, sentimo-nos desta vez um bocadinho desleixados de mais. Tenho pena, apetecia-me que os últimos programas fossem alegres, afinal traduzindo o que de melhor guardarei: três anos volvidos, saí sempre das gravações cansado mas divertido, a Leonor e a Gabriela conseguiam abanar-me a preguiça e despertar o prazer da tertúlia. Para elas vão os meus agradecimentos sinceros e o sublinhar da sua competência, com um beijo especial para a Leonor, que se arriscou a conversar com dois velhos amigos que conhecera meia-hora antes da primeira gravação. E para os que nos visitavam, um "até qualquer dia" não menos grato, nenhum programa dura três anos sem o apoio do público.
Fiquem bem.
Subscrever:
Mensagens (Atom)