Canção tonta
Mamã.
Eu quro ser de prata.
Filho,
terás muito frio.
Mamã.
Eu quero ser de água.
Filho,
terás muito frio.
Mamã.
Borda-me em tua almofada.
Está bem!
Agora mesmo!
Federico García Lorca, Antologia Poética.
terça-feira, fevereiro 28, 2006
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
Em tempo de máscaras.
Mascarados de cidadãos, mentem a si próprios; não os consegue descrever de outro modo. Ali ou pelas ruas, manada a galope matinal ou em bichas vespertinas de matadouro, ombros vergados, o maldito autocarro sem chegar e eles desejando o aconchego cinzento da casa em dormitório dos subúrbios. E para quê? Uma côdea em frente do televisor, chinelam rumo a leito de casal que o não é há muito, barrigas obscenas por abuso de cervejas e gravidezes. Vegetam.
Patéticos. De tão repetitivos, foi necessário arranjar-lhes rótulo que a todos incluísse: o povo, habitando o país real. Sorriu. O povo… E os seus ditados cretinos, a democracia conseguida a pulso, o voto como arma, tudo por arrastamento de palavra que enche de orgulho o peito de imbecis mascarados de cidadãos. Cidadãos? Seria preciso reconhecer-lhes primeiro o direito de se intitularem pessoas. Afinal que ambiciona essa gentinha? Electrodomésticos e carro novos a prestações, férias empacotadas no Algarve ou em Tenerife, casar bem as filhas. Diz-se que Marx tinha a mesma preocupação... Ideia peregrina a dele, revolucionar o mundo a partir desta mole que apenas ambiciona manjedoura quotidiana mais confortável e algum dinheiro no banco. Que os ricos acumulam e a nobreza falida recorda. Pormenores. Exibem as máscaras nas revistas sociais, comem e vivem melhor, mas a espessura mental é a mesma, não passam de povo a fugir do povo.
O anfitrião, serviçal,
- Quando quiser…
O teatro-circo cheio, a turba fazendo voltear as bandeiras, música exaltante que inebria corações e os junta na crença de que tudo é possível quando se marcha atrás do homem certo que a Providência escolheu.
Começou ameno, voz baixa e sorriso cúmplice,
- Amigos…
O toque local, cai sempre bem, fá-los sentir especiais,
- Sabeis que sempre aqui me senti em casa…
Um discurso equilibrado, as múltiplas promessas intercaladas por dois ou três avisos responsáveis,
- Tempos difíceis, há que reconhecê-lo…
E o passe de mágica,
- Mas temos soluções para os problemas…
As farpas clinicamente distribuídas, evitando aparentar quebra da necessária solidadiedade nacional,
- Nós, pelo contrário, não cultivamos a arrogância, colaboraremos com todos sem excepção de uma forma construtiva…
A afirmação de desapego,
- Não desejamos o poder pelo poder, mas sim para servir o país, seria mais fácil cruzar os braços…
As promessas finais, que amarram de tão concretas,
- No dia seguinte à eleição será lançado o concurso da nova ponte e a primeira pedra do Centro Social…
O reconhecimento humilde, o futuro nas mãos deles,
- Mas respeitaremos a vossa decisão livremente expressa…
A apoteose com hino e v de vitória,
- Obrigado, o vosso apoio dá-me forças para continuar…
Um momento de repouso no camarim antes do regresso ao hotel. O jovem com planos de futuro, obsequioso,
- Deseja uma bebida? Um discurso galvanizador, aqui está no papo…
Com receio de parecer modesto nas previsões,
- Aqui e em todo o lado, já ganhámos!
Palmada solidária nas costas e a prova do ascentismo que assenta como luva aos predestinados,
- Apenas um copo de água.
O último estímulo,
- Não se esqueça de dar o número do seu telemóvel à minha secretária.
Os barões da terra esperando fora para o cumprimentar, portadores da lista de benesses para a manhã seguinte ao triunfo, todas indispensáveis ao bem estar do povo. (Indispensáveis também eles para as levar à prática; o costume.) Prometeu-lhes tudo; o costume.
Uma leve repugnância entediada, porquê toda aquela penosa liturgia, o cheiro a suor, as sardinhas e o vinho tinto, as criancinhas e as suas lambuzadelas, os quilómetros. Felizmente as campanhas vão-se aligeirando, as frases mais apelativas programadas para os telejornais das oito, os peritos aperfeiçoando imagem e palavras de ordem, mas ainda tanto desperdício de tempo! Precioso, para obter consensos e conseguir alianças nos corredores onde a decisão do povo é decidida e se escolhem as sondagens que a influenciarão.
Mascarados de cidadãos e pessoas. Todos. E sem o perceberem, máscara e mentira agradam-lhes, gostam de se olhar no espelho e pensar que são alguém e a sua opinião importa. Sobrevivem rastejantes ao quotidiano, mas afirmam com orgulho que à boca dar urnas todos somos iguais e nos equivalemos, como na morte. Os pobres diabos…
Também olhou um espelho. Sorriu agradado, apesar de algum cansaço o aspecto era bom. E máscaras nem vê-las!, os actos falariam por si e pela sua coerência. Nada a esconder e de nada se escondendo - o rosto nu de um político fidedigno que a multidão de mascarados leva ao poder.
Patéticos. De tão repetitivos, foi necessário arranjar-lhes rótulo que a todos incluísse: o povo, habitando o país real. Sorriu. O povo… E os seus ditados cretinos, a democracia conseguida a pulso, o voto como arma, tudo por arrastamento de palavra que enche de orgulho o peito de imbecis mascarados de cidadãos. Cidadãos? Seria preciso reconhecer-lhes primeiro o direito de se intitularem pessoas. Afinal que ambiciona essa gentinha? Electrodomésticos e carro novos a prestações, férias empacotadas no Algarve ou em Tenerife, casar bem as filhas. Diz-se que Marx tinha a mesma preocupação... Ideia peregrina a dele, revolucionar o mundo a partir desta mole que apenas ambiciona manjedoura quotidiana mais confortável e algum dinheiro no banco. Que os ricos acumulam e a nobreza falida recorda. Pormenores. Exibem as máscaras nas revistas sociais, comem e vivem melhor, mas a espessura mental é a mesma, não passam de povo a fugir do povo.
O anfitrião, serviçal,
- Quando quiser…
O teatro-circo cheio, a turba fazendo voltear as bandeiras, música exaltante que inebria corações e os junta na crença de que tudo é possível quando se marcha atrás do homem certo que a Providência escolheu.
Começou ameno, voz baixa e sorriso cúmplice,
- Amigos…
O toque local, cai sempre bem, fá-los sentir especiais,
- Sabeis que sempre aqui me senti em casa…
Um discurso equilibrado, as múltiplas promessas intercaladas por dois ou três avisos responsáveis,
- Tempos difíceis, há que reconhecê-lo…
E o passe de mágica,
- Mas temos soluções para os problemas…
As farpas clinicamente distribuídas, evitando aparentar quebra da necessária solidadiedade nacional,
- Nós, pelo contrário, não cultivamos a arrogância, colaboraremos com todos sem excepção de uma forma construtiva…
A afirmação de desapego,
- Não desejamos o poder pelo poder, mas sim para servir o país, seria mais fácil cruzar os braços…
As promessas finais, que amarram de tão concretas,
- No dia seguinte à eleição será lançado o concurso da nova ponte e a primeira pedra do Centro Social…
O reconhecimento humilde, o futuro nas mãos deles,
- Mas respeitaremos a vossa decisão livremente expressa…
A apoteose com hino e v de vitória,
- Obrigado, o vosso apoio dá-me forças para continuar…
Um momento de repouso no camarim antes do regresso ao hotel. O jovem com planos de futuro, obsequioso,
- Deseja uma bebida? Um discurso galvanizador, aqui está no papo…
Com receio de parecer modesto nas previsões,
- Aqui e em todo o lado, já ganhámos!
Palmada solidária nas costas e a prova do ascentismo que assenta como luva aos predestinados,
- Apenas um copo de água.
O último estímulo,
- Não se esqueça de dar o número do seu telemóvel à minha secretária.
Os barões da terra esperando fora para o cumprimentar, portadores da lista de benesses para a manhã seguinte ao triunfo, todas indispensáveis ao bem estar do povo. (Indispensáveis também eles para as levar à prática; o costume.) Prometeu-lhes tudo; o costume.
Uma leve repugnância entediada, porquê toda aquela penosa liturgia, o cheiro a suor, as sardinhas e o vinho tinto, as criancinhas e as suas lambuzadelas, os quilómetros. Felizmente as campanhas vão-se aligeirando, as frases mais apelativas programadas para os telejornais das oito, os peritos aperfeiçoando imagem e palavras de ordem, mas ainda tanto desperdício de tempo! Precioso, para obter consensos e conseguir alianças nos corredores onde a decisão do povo é decidida e se escolhem as sondagens que a influenciarão.
Mascarados de cidadãos e pessoas. Todos. E sem o perceberem, máscara e mentira agradam-lhes, gostam de se olhar no espelho e pensar que são alguém e a sua opinião importa. Sobrevivem rastejantes ao quotidiano, mas afirmam com orgulho que à boca dar urnas todos somos iguais e nos equivalemos, como na morte. Os pobres diabos…
Também olhou um espelho. Sorriu agradado, apesar de algum cansaço o aspecto era bom. E máscaras nem vê-las!, os actos falariam por si e pela sua coerência. Nada a esconder e de nada se escondendo - o rosto nu de um político fidedigno que a multidão de mascarados leva ao poder.
domingo, fevereiro 26, 2006
Tragédia em Cantelães!
Relatório preliminar da GNR de Vieira do Minho:
Aos 39 minutos da primeira parte do Benfica-Porto, o dr. Machado Vaz gritou, alegadamente, "ganda ifeito, caragu!", ao que o motorista respondeu "só marcaram com o Baía distraído a festejar os 400 jogos no Campeonato!". Ao que parece, o ambiente tornou-se muito pesado e a 2 minutos do fim o dr. Machado Vaz vociferou contra o árbitro por um alegado pernalti - pois teria sido com a perna... - sobre Petit, mais conhecido pelo Pittbull. O motorista, Sousa de seu nome, terá apelidado o patrão de ceguinho fanático, ao que se seguiu uma acesa discussão, interrompida pela governanta, que entrou na sala e disse "olha, acabou!". Nessa altura o dr. Machado Vaz terá gritado ao senhor Sousa uma obscenidade do género "sou ceguinho, mas..., mas..., bom, lixei-te, Sousa". (Não foi bem isto que ele disse, mas na Guarda não se dizem, escrevem ou fazem certas coisas!) O dito Sousa perdeu então a cabeça e tentou acertar na do patrão com um toro retirado da lareira. Tendo falhado, aquele foi buscar o sabre do Trisavô e perseguiu-o corredor fora, escadas abaixo e campos fora. Neste momento, os bombeiros continuam as buscas, guiados pelos gritos que provêm dos bosques e alternam entre o "eu mato-te, sacana" e "com essa barriga nem de jipe me apanha". A governanta, Gertrudes do seu nome, tem estado a falar com a reportagem da TVI e já se sabe que a situação será descrita como "arrepiante" no próximo telejornal. Entretanto, uma menina telefonou de Londres e perguntou o que se passava. Perante a descrição feita pela nossa - escultural, se posso acrescentar... -
porta-voz, largou um suspiro e disse uma frase estranha: "Desisto, vou ficar aqui de vez". Pelo sim, pelo não, convocámo-la para prestar declarações como testemunha ocular...
Aos 39 minutos da primeira parte do Benfica-Porto, o dr. Machado Vaz gritou, alegadamente, "ganda ifeito, caragu!", ao que o motorista respondeu "só marcaram com o Baía distraído a festejar os 400 jogos no Campeonato!". Ao que parece, o ambiente tornou-se muito pesado e a 2 minutos do fim o dr. Machado Vaz vociferou contra o árbitro por um alegado pernalti - pois teria sido com a perna... - sobre Petit, mais conhecido pelo Pittbull. O motorista, Sousa de seu nome, terá apelidado o patrão de ceguinho fanático, ao que se seguiu uma acesa discussão, interrompida pela governanta, que entrou na sala e disse "olha, acabou!". Nessa altura o dr. Machado Vaz terá gritado ao senhor Sousa uma obscenidade do género "sou ceguinho, mas..., mas..., bom, lixei-te, Sousa". (Não foi bem isto que ele disse, mas na Guarda não se dizem, escrevem ou fazem certas coisas!) O dito Sousa perdeu então a cabeça e tentou acertar na do patrão com um toro retirado da lareira. Tendo falhado, aquele foi buscar o sabre do Trisavô e perseguiu-o corredor fora, escadas abaixo e campos fora. Neste momento, os bombeiros continuam as buscas, guiados pelos gritos que provêm dos bosques e alternam entre o "eu mato-te, sacana" e "com essa barriga nem de jipe me apanha". A governanta, Gertrudes do seu nome, tem estado a falar com a reportagem da TVI e já se sabe que a situação será descrita como "arrepiante" no próximo telejornal. Entretanto, uma menina telefonou de Londres e perguntou o que se passava. Perante a descrição feita pela nossa - escultural, se posso acrescentar... -
porta-voz, largou um suspiro e disse uma frase estranha: "Desisto, vou ficar aqui de vez". Pelo sim, pelo não, convocámo-la para prestar declarações como testemunha ocular...
sábado, fevereiro 25, 2006
Menina Maria, socorro!
Ó menina Maria, por amor de Deus! Hoje acordámos com o terreno coberto de neve e o senhor doutor entrou em transe. Só dizia "é um sinal, é um sinal" e ajoelhou-se no corredor a rezar. Cá para mim, aquilo foi falta de respeito, a menina que me perdoe -no senhor doutor manda como lhe apetece, mas no tempo só Deus, Cristo, a Virgem Maria e - talvez... - aquele senhor da televisão que fala tão bem sobre o anti-ciclone dos Açores! Mas admito que possa estar enganada. O Sousa não se quis atravessar com uma opinião firme, disse que as mulheres eram filhas de Eva e por isso primas direitas do Maligno, que podiam muito bem influenciar as condições atmosféricas. Ó menina Maria, por favor, diga-me a verdade - não está feita com Lúcifer, pois não? Nevou porque tinha de nevar e ponto final, não é? E mande um mail por amor de Deus!, o senhor doutor entrou no regato - que está de enregelar a Linda Lovelace antes de se converter... -, sempre a bater no peito e a gritar que é um pecador porque duvidou do amor da menina e cobiçou uma enfermeira no episódio 347 do Serviço de Urgência no AXN. O Sousa ficou muito impressionado e veio-me com uma história muito esquisita acerca de uma senhora que se sentou no mesmo banco que ele no Jardim da Cordoaria. Diz que, pelo sim pelo não, é melhor usarmos preservativo nos próximos tempos porque o Maligno assume muitas formas e pode ter-lhe amandado um feitiço para que eu duvide do que ele faz quando vai à Universidade buscar o correio! Cheirou-me a esturro e fui perguntar ao senhor doutor. Com sua licença, sabe como são os homens - apesar das diferenças nos estudos defendem-se uns aos outros. Ouvi logo que o Sousa seria incapaz de me enganar e que se sentisse alguma coisa na boca do corpo era devido às piscinas municipais, o senhor doutor até me mostrou o pé de atleta. (Mas com muito respeito, só tirou a meia...). Menina Maria, se teve alguma coisa a ver com isto da neve - ou do preservativo... - por favor não me deixe na dúvida. Sem si é muito difícil aturar estes dois, por mais que goste deles. Ainda agora o senhor doutor desatou aos berros no riacho, disse que a neve foi um sinal divino através de si e decretou que se o Benfica ganhasse amanhã ao Porto seria por sua influência e que a menina viria visitar-nos, para festejar, caminhando sobre as águas do canal da Mancha, o que me parece uma rematada heresia. O meu Sousa começou a bater com as mãos no peito e prometeu - baixinho... - que se o Benfica perdesse voltava ao Jardim da Cordoaria, para convencer a enviada do Maligno a regressar ao bom caminho, com paragem numa pensão da Rua Escura. Ó menina, eles estão mesmo estranhos, pior só o Alberto João Jardim que não vai desfilar no Carnaval da Madeira! Vou à lenha e tento falar-lhe sem eles perceberem, o senhor doutor continua roxo no ribeiro e o Sousa foi à farmácia comprar um champô para os cabelos gordurosos, mas os dele são quebradiços. Isto cheira-me a esturro:(. Socorro, menina!
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
Do exagero e outras infantilidades.
Maria,
Já estou em Cantelães. O portão está de boa saúde e a caldeira também. Mas um dos focos da sala recusou-se a acender e havia água na despensa. Tive uma reacção inesperada - entrei em pânico. Lembras-te do poema da Bautista? Nunca me preocupou. A hipótese de morrer antes dos rapazes é tão monstruosa que não me assola. Mas de repente veio-me um pensamento angustiante, e se esta casa envelhecesse antes de mim? Imagino o teu sorriso, tenho a certeza do teu comentário/ralhete - as coisas que sou capaz de prever para infernizar a vida. Talvez. Mas sabes como Cantelães passou a escorar o meu viver. Não suportaria assistir-lhe à decadência, competindo com a minha. Preciso de a saber viva depois de mim, abraçando o Gaspar e o Tiago, cuidada pelo Guilherme e pelo João. O foco está substituído, a prateleira seca. E a calma não vem, que ferida mortal poderá escancarar-se amanhã, para a semana, um dia? O candeeiro solar brilha, ténue, lá fora. Vigio-o, como ave de rapina supersticiosa. Decido que enquanto viver a casa resistirá e com ela os Machado Vaz. Eu sei, this is rubbish. O Carnaval marimba-se na minha indiferença e mascara-me de pitonisa cobarde. Se tiveres razão, a calma regressará de braço dado com Quarta-Feira de cinzas, ou seja, quando eu estiver de volta ao Porto. Escreve e obriga-me a sossegar antes disso. Para que a minha angústia não perturbe o majestoso rodar dos moinhos da Cabreira. Fazemos assim: se amanhã a geada cobrir o terreno, decretá-la-ei sinal teu, mesmo sem mail. E o medo animal de ver o berço inventado da família estilhaçar-se perante os meus olhos, aterrorizados e sem futuro, desaparecerá naquele branco esverdeado. Deixando semente, tronco, ramo e flores que anunciarão a Primavera. Uma Primavera. Das muitas que sobreviverão ao meu Outono.
Dorme bem.
Já estou em Cantelães. O portão está de boa saúde e a caldeira também. Mas um dos focos da sala recusou-se a acender e havia água na despensa. Tive uma reacção inesperada - entrei em pânico. Lembras-te do poema da Bautista? Nunca me preocupou. A hipótese de morrer antes dos rapazes é tão monstruosa que não me assola. Mas de repente veio-me um pensamento angustiante, e se esta casa envelhecesse antes de mim? Imagino o teu sorriso, tenho a certeza do teu comentário/ralhete - as coisas que sou capaz de prever para infernizar a vida. Talvez. Mas sabes como Cantelães passou a escorar o meu viver. Não suportaria assistir-lhe à decadência, competindo com a minha. Preciso de a saber viva depois de mim, abraçando o Gaspar e o Tiago, cuidada pelo Guilherme e pelo João. O foco está substituído, a prateleira seca. E a calma não vem, que ferida mortal poderá escancarar-se amanhã, para a semana, um dia? O candeeiro solar brilha, ténue, lá fora. Vigio-o, como ave de rapina supersticiosa. Decido que enquanto viver a casa resistirá e com ela os Machado Vaz. Eu sei, this is rubbish. O Carnaval marimba-se na minha indiferença e mascara-me de pitonisa cobarde. Se tiveres razão, a calma regressará de braço dado com Quarta-Feira de cinzas, ou seja, quando eu estiver de volta ao Porto. Escreve e obriga-me a sossegar antes disso. Para que a minha angústia não perturbe o majestoso rodar dos moinhos da Cabreira. Fazemos assim: se amanhã a geada cobrir o terreno, decretá-la-ei sinal teu, mesmo sem mail. E o medo animal de ver o berço inventado da família estilhaçar-se perante os meus olhos, aterrorizados e sem futuro, desaparecerá naquele branco esverdeado. Deixando semente, tronco, ramo e flores que anunciarão a Primavera. Uma Primavera. Das muitas que sobreviverão ao meu Outono.
Dorme bem.
Um homem reservado.
Se o vento leva as palavras, como podem ser o garante do amor?
Sonhou-o para si. Vivera o suficiente para decidir o destino a dar aos afectos, vira-os fazer ricochete em armaduras e destruir colunas vertebrais demasiado frágeis, nem mais uma lágrima ou afago desperdiçados; chega. Cortou laços familiares teóricos, sempre a espantara a mitificação do sangue. O amor verdadeiro resulta de uma escolha e não da pertença a uma árvore genealógica, a seiva não anula a distância entre raízes e copa. A família unida por definição é a cobardia dos que procuram refúgio em certezas biológicas contra as dúvidas que nos tornam humanos, não passam de formigas letradas.
Construiu um nicho afastado de tudo, pagou o anonimato asséptico que a tecnologia proporciona e sentiu-o crescer, os dedos percorrendo o ventre em busca de movimento brusco ou requebro. O parto foi o primeiro e último contacto mundano que lhe permitiu, os sonhos dele poderiam destruir os seus, era preciso impedir-lhes os pretextos e esses…, vêm de fora.
Depois a festa: árvore e ramo, desejo e olhar, água e fonte, ilha e oceano, acima acima gajeiro!, da barca já se avista a fusão das almas, os corpos simulam independência para melhor se entrelaçarem. Tudo em silêncio. Não porque não lhe apetecesse a carícia do som ritmado, as exclamações de júbilo provocante, o sussurro a ouvidos que cambaleiam rumo ao sono, a cabecita refugiada no pescoço materno - pronto, pronto…Sacrifício indispensável em nome do futuro, ao palrar seguem-se as palavras que trazem as perguntas e a atrofia dos sentidos, o delírio da razão invade tudo, vai um passo da tabuada ao cogumelo de Hiroxima. O amor reduzido a complementaridades bioquímicas, mãe e filho com destino tipificado, baboseiras do género “mãe só há uma” e “carne da minha carne” não impediriam a separação. Com sorte vê-lo-ia ao Domingo pela tardinha, a reboque de outra mulher, sempre dona da última palavra, pois os homens antes do sexo prometem tudo e depois dele de tudo podem ser convencidos para garantir a paz. Obsceno! Escolhera inventar um amor perfeito, não o ia pôr em risco permitindo as escolhas do seu menino. Viveriam no silêncio total, sem meandros traiçoeiros.
O sonho tornou-se realidade - miúdo, adolescente e homem foram todos seus. E as feridas sararam, os tabus não chegaram a nascer, ensinou-lhe um amor magnífico que ela própria desconhecia e foi aprendendo sem pressas, as palavras domesticadas e prisioneiras namorando os olhos que com pena as traduziam - “meu querido…”, o eco não tardava, imenso por analfabeto. Quando pressentiu a morte, chegou a encarar partida a dois, afinal o mesmo aconteceu aos amantes dignos desse nome ao longo da história, mas algo lhe faltava. Vivendo com os outros, experimentado-lhes a pequenez, o filho aperceber-se-ia verdadeiramente do paraíso perdido. Não estava preparada para abrir mão da saudade dele, queria sobreviver na memória de um homem só.
Quando ela morreu, pela primeira vez a porta se abriu. Encadeado pelo brilho do sol e a curiosidade de próximos que não amava foi entregue aos médicos. Não lhe arrancaram nada, a não ser vagidos assustados e um “mamã” cambaleante, não lhe ensinara mais. O diagnóstico impunha-se: regressão psicológica maciça em indivíduo sujeito a tremendo choque pela morte da mãe. Prognóstico reservado.
Reservado… Uma palavra que sempre lhe assentara como uma luva.
Sonhou-o para si. Vivera o suficiente para decidir o destino a dar aos afectos, vira-os fazer ricochete em armaduras e destruir colunas vertebrais demasiado frágeis, nem mais uma lágrima ou afago desperdiçados; chega. Cortou laços familiares teóricos, sempre a espantara a mitificação do sangue. O amor verdadeiro resulta de uma escolha e não da pertença a uma árvore genealógica, a seiva não anula a distância entre raízes e copa. A família unida por definição é a cobardia dos que procuram refúgio em certezas biológicas contra as dúvidas que nos tornam humanos, não passam de formigas letradas.
Construiu um nicho afastado de tudo, pagou o anonimato asséptico que a tecnologia proporciona e sentiu-o crescer, os dedos percorrendo o ventre em busca de movimento brusco ou requebro. O parto foi o primeiro e último contacto mundano que lhe permitiu, os sonhos dele poderiam destruir os seus, era preciso impedir-lhes os pretextos e esses…, vêm de fora.
Depois a festa: árvore e ramo, desejo e olhar, água e fonte, ilha e oceano, acima acima gajeiro!, da barca já se avista a fusão das almas, os corpos simulam independência para melhor se entrelaçarem. Tudo em silêncio. Não porque não lhe apetecesse a carícia do som ritmado, as exclamações de júbilo provocante, o sussurro a ouvidos que cambaleiam rumo ao sono, a cabecita refugiada no pescoço materno - pronto, pronto…Sacrifício indispensável em nome do futuro, ao palrar seguem-se as palavras que trazem as perguntas e a atrofia dos sentidos, o delírio da razão invade tudo, vai um passo da tabuada ao cogumelo de Hiroxima. O amor reduzido a complementaridades bioquímicas, mãe e filho com destino tipificado, baboseiras do género “mãe só há uma” e “carne da minha carne” não impediriam a separação. Com sorte vê-lo-ia ao Domingo pela tardinha, a reboque de outra mulher, sempre dona da última palavra, pois os homens antes do sexo prometem tudo e depois dele de tudo podem ser convencidos para garantir a paz. Obsceno! Escolhera inventar um amor perfeito, não o ia pôr em risco permitindo as escolhas do seu menino. Viveriam no silêncio total, sem meandros traiçoeiros.
O sonho tornou-se realidade - miúdo, adolescente e homem foram todos seus. E as feridas sararam, os tabus não chegaram a nascer, ensinou-lhe um amor magnífico que ela própria desconhecia e foi aprendendo sem pressas, as palavras domesticadas e prisioneiras namorando os olhos que com pena as traduziam - “meu querido…”, o eco não tardava, imenso por analfabeto. Quando pressentiu a morte, chegou a encarar partida a dois, afinal o mesmo aconteceu aos amantes dignos desse nome ao longo da história, mas algo lhe faltava. Vivendo com os outros, experimentado-lhes a pequenez, o filho aperceber-se-ia verdadeiramente do paraíso perdido. Não estava preparada para abrir mão da saudade dele, queria sobreviver na memória de um homem só.
Quando ela morreu, pela primeira vez a porta se abriu. Encadeado pelo brilho do sol e a curiosidade de próximos que não amava foi entregue aos médicos. Não lhe arrancaram nada, a não ser vagidos assustados e um “mamã” cambaleante, não lhe ensinara mais. O diagnóstico impunha-se: regressão psicológica maciça em indivíduo sujeito a tremendo choque pela morte da mãe. Prognóstico reservado.
Reservado… Uma palavra que sempre lhe assentara como uma luva.
Obrigado:).
Parece ter voltado tudo à primeira forma. Por estes que a terra há-de comer, não tinha mudado nada no tal de settings, comments ou lá o que foi! Aqui anda manobra da reacção...
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
Comunicado ao maralhal.
Não faço a mínima ideia do que aconteceu à caixa dos comentários:(. Noise, Viktor, socorro!
Sai velharia para evitar os protestos do Sindicato:).
A Penitência
Faltava uma criança.
A frase traduz erro de cronista pouco atento e rigoroso, fazendo o leitor pensar em vitral incompleto, órfão de último vidro colorido que permitisse a entrada triunfante da luz do Senhor. Erro e erro crasso - eram felizes e bastavam-se. Sem precisarem de mensageiro doméstico, bálsamo para feridas conjugais ou herdeiro que lhes permitisse a vida por procuração. Durante o longo namoro, nem palavra sobre filhos, nomes, padrinhos, casamentos ou copos de água, o presente com as suas descobertas sempre os trouxera alegremente ocupados. Não planeavam o futuro, preferiam bebê-lo à medida que jorrava.
Não se arrependeram. Ainda namorados deram consigo no altar, o padre que para o ritual os preparou, sem grande receio pediu, sorridente, a benevolência divina. Para si e para eles, com tanto de maus alunos como de bons cristãos no concreto, abençoou-os com a certeza de que fariam ninho seguro em ramo perto do céu. Não apareceriam muito na igreja…? Deixá-lo, óptimo pretexto para os visitar, ralhete meigo em punho, “então já não se visita os amigos, nem sequer para anunciar a cegonha”?
Namorados continuaram depois do casamento, há quem diga não ser a regra. Nem ponta de desleixo no vestir ou no sentir, ciúme q.b., fins-de- semana ciosamente a salvo de patrões e famílias, as pequenas loucuras indispensáveis à vitória sobre a rotina. Eram uma espécie de Mont de St. Michel à portuguesa - de vez em quando a maré da paixão engolia a estrada e de península acolhedora passavam a ilha. De onde se acena e grita: “agora só há barco amanhã!”. E assim, ao sabor de marés cujo vai-vem eles próprios - e não a Lua… - decidiam, se foram amando.
Até um dia. E manda a verdade admitir que nada de muito heróico ou romântico aconteceu, constipação vulgar os atacou. Defenderam-se com não menos vulgar antibiótico, de médico e de louco todos temos um pouco e a propaganda dos laboratórios faz o resto - primeiro tratamo-nos em casa e só em caso de falhanço recorremos aos Centros de Saúde. ( As listas de espera também incitam a pecados diletantes:(.) Seria exagero dizer que morreram da cura. Na realidade, ele ficou como novo, mas nas entranhas dela remédio e contraceptivo se travaram de razões e o último fez greve. E o incómodo, no dizer da Tia Laurinda, faltando ao encontro no mês seguinte…
Acabaram por levar ao médico não a constipação mas uma surpresa alegremente desconfiada, dois tinham marcado a consulta e de lá saíram três. Cada coisa a seu tempo: visitaram o jardim do primeiro beijo e ofereceram-se um bom jantar, o rapazito que vendia flores teve sorte e foi dormir mais cedo, ficaram-lhe com o ramo. Calarei a noite, por inveja pudibunda. Na manhã seguinte, pelo telefone, anúncio oficial aos recentes Avós, que em casas separadas deixaram escapar em coro um “até que enfim” de alívio. Com esta gente nova nunca se sabe, o tempo ia passando, já basta que o entardecer se aproxime, quanto mais suportá-lo sem o riso de crianças. Aquela, mais do que fervorosamente desejada, foi aceite com alegria tranquila, para ser espelho do amor e não a sua argamassa.
E os nove meses foram vividos ainda e sempre em namoro por acaso legalizado, ele acompanhou-a às consultas e satisfez-lhe caprichos alimentares que os faziam rir. O desejo, ao invés do contraceptivo, não fez greve, uniu as inseguranças de um corpo aumentando, paulatino, às do outro, ávido mas com receio de não ser bem-vindo. Era! Ressuscitando regra matemática, por ambos quase esquecida e agora aplicada à gravidez: menos por menos dava mais. O prazer, invejoso, também parecia obedecer ao preceito bíblico e multiplicar-se.
Ele insistiu em assistir ao parto, vencendo alguma resistência da parte dela. Momento mágico mas também algo inestético, o olhar pode ser cruel e de memória longa, tu é que sabes... Que disparate!, claro que sabia. De mãos juntas - e crispadas, por razões diversas… - o viram chegar. Não cederam a chantagem meiga dos Avós, deram-lhe nome próprio próprio e não herdado, queriam-no com eles e não deles, quanto ao futuro..., aí sim, projectavam vida em fotocópia das suas. Pois não o desejariam também feliz?
Bons pulmões, decretara o médico. Facto era que as noites se enchiam de saudável berraria que só a proximidade da mãe acalmava. Outro facto não desprezível sendo o trabalho, que permite o cheque mensal mas exige olhos abertos e chegada a horas decentes, o pai mudou provisoriamente de quarto, decisão “lógica” de adultos razoáveis (?). E o miúdo chorando, agora avesso e logo agarrado ao peito, sonos caprichosos e um arfar sibilante que obrigou o clínico a fazer marcha-atrás e avançar com diagnóstico pesado: asma.
Ela protegendo o filho, até quase à volta dele se fechar. E quase amante não a desejava o marido, cada vez mais a encontrando mãe e não mulher. O beijo na face substituiu os outros, o espasmo não lhe apetecia, jantares e cinemas passaram a recordações porque nem aos pais confiava o garoto. O miúdo tornou-se um rival, amado embora. A competição envergonhada e não assumida trouxe o amuo clandestino, ao vê-los simbióticos retirava-se, começou a ler todos os semanários e a deixá-la só na cozinha a pretexto do telejornal das oito. Dormiam juntos e acompanhados, o berço à espreita e escuta, suspiros de amor cada vez mais improváveis.
Dar tempo ao tempo à espera de outros tempos. Impaciente, saiu a terreiro escudado em teorias educativas - o infantário esperava. Ela por convencer, mãe de família sem esforço, esforço faz o miúdo para respirar e pouco se esforça tanta gente nesses depósitos de crianças, quanto ao dinheiro…, gasta-se menos. Firme - não fico descansada. Ele não cedeu. Infantário durante o dia e quarto próprio à noite, santa aliança com o médico e os quatro Avós, aquele invocando o saber profissional, estes o de experiência feita ao longo de vidas longas.
A partida ganha. Já podia amá-la em sossego, ela de volta à das fotografias espalhadas pela casa, abraços sorridentes. Santa ingenuidade! Passou a exibir pequenos achaques, a de antes não regressava. Corpo frio; ressentimento fervendo; adultério permanente, com ele mesmo o enganava. Chorando o amante compreensivo que partira, guardou sorrisos e carícias para o futuro homem da sua vida.
Ele não arranjou um ombro no emprego, muito menos fez de paixão por passarinho novo álibi para dizer, como nos carrosséis de infância, “mais uma voltinha…”. Trabalho duro, futebol ao Domingo e remoques de café aos políticos lhe serviram de escape. Ela foi mãe extremosa de criança e adolescente, filha e nora sem mácula, sogra a perfeita distância. Paralelos. Por sua causa ninguém descarrilaria, mas só por ilusão de óptica poderiam ser vistos juntos ao longe. Basta acrescentar duas letras ao epílogo habitual das histórias de fadas para os definir: viveram (in)felizes para sempre. Mas o sempre que abarcamos finda na morte, vou-lhes contar o resto.
Chegaram ao cruzamento da eternidade com pouco tempo de intervalo, para o que nos ocupa não interessa quem esperou por quem.
Pedro leu o processo em diagonal, coisa simples, pergunta retórica, “entram?”.
O Senhor, doçura firme, “não”.
E Pedro, estranhando tal severidade, “mas porquê?”.
“Desiludiram-Me”.
O homem que servira de base à Igreja, conciliador e pragmático, “mas é gente boa, se apenas deixássemos entrar os que cumprem à risca os preceitos religiosos…”.
Calou-se. No ar pairava a fantasia de um Paraíso às moscas.
“Pedro, sabes que o ritual Me diz pouco, à sombra de altares e em Meu Nome foram planeadas e cometidas as maiores atrocidades. Outro é o pecado deles: traíram o amor”.
Pedro, não convencido, brandiu o processo.
“Em nenhuma página se lê relato de ofensa ao próximo…”.
O Senhor sorriu, condescendente.
“Próximos estiveram um do outro e deixaram escapar por entre os dedos tal milagre. Envia-os cem anos para a sala de espera”.
“Para onde?”.
“Para a sala de espera, Pedro, ainda não aprendeste como Roma é volúvel? Depois de os inventar desistiu de Inferno e Purgatório. Pois seja, adoptaremos nomenclatura mais impessoal”.
Pedro de regresso à pele de funcionário diligente.
“Cem anos na sala de espera… Ora vejamos: deve corresponder a cerca de quatro milhões de Ave Marias e ainda vai sobrar tempo para uns Terços, ora se vai!”. E rapou da máquina de calcular.
O Senhor, peremptório: “Nem penses! Não os quero culpados e arrependidos, percebes? Quero-os como antes”.
“Mas então…?”.
“Cem anos a namorar!”.
Pedro petrificado. Recordou o mar da Galileia e a faina da pesca, André a seu lado. O Filho dissera-lhe para O seguir e ele tornara-se pescador de homens. Nunca se arrependera. Mas levara consigo, até à cruz do martírio, a seu pedido fazendo o pino por respeito ao Mestre, memórias doces de mulher. Fins de tarde com barcos órfãos de peixe e uns braços embalando-lhe a tristeza, “amanhã será melhor”. E Simão, chamado Pedro, entrava nela e em porto seguro, de onde se erguia uma vaga imensa que o punha em fogo e…
Cem anos a namorar? De sorriso largo,
“Palavra do Senhor!”.
O Qual soltou gargalhada irónica.
“Por favor, Pedro, não achas que neste caso seria mais adequado um Seja feita a Nossa Vontade?”.
Pedro não O ouviu, ainda na Galileia.
O Senhor, que por definição lhe conhecia os pensamentos, achou de profundo mau gosto separar os corpos dançando na sua cabeça. Iria Ele, de qualquer forma precisava de fazer exercício. Assobiando a Flauta Mágica dirigiu-se ao cruzamento para os informar da penitência que lhes reservara.
Mas não estaria a ser demasiado brando? Talvez melhor duzentos anos de namoro…
Faltava uma criança.
A frase traduz erro de cronista pouco atento e rigoroso, fazendo o leitor pensar em vitral incompleto, órfão de último vidro colorido que permitisse a entrada triunfante da luz do Senhor. Erro e erro crasso - eram felizes e bastavam-se. Sem precisarem de mensageiro doméstico, bálsamo para feridas conjugais ou herdeiro que lhes permitisse a vida por procuração. Durante o longo namoro, nem palavra sobre filhos, nomes, padrinhos, casamentos ou copos de água, o presente com as suas descobertas sempre os trouxera alegremente ocupados. Não planeavam o futuro, preferiam bebê-lo à medida que jorrava.
Não se arrependeram. Ainda namorados deram consigo no altar, o padre que para o ritual os preparou, sem grande receio pediu, sorridente, a benevolência divina. Para si e para eles, com tanto de maus alunos como de bons cristãos no concreto, abençoou-os com a certeza de que fariam ninho seguro em ramo perto do céu. Não apareceriam muito na igreja…? Deixá-lo, óptimo pretexto para os visitar, ralhete meigo em punho, “então já não se visita os amigos, nem sequer para anunciar a cegonha”?
Namorados continuaram depois do casamento, há quem diga não ser a regra. Nem ponta de desleixo no vestir ou no sentir, ciúme q.b., fins-de- semana ciosamente a salvo de patrões e famílias, as pequenas loucuras indispensáveis à vitória sobre a rotina. Eram uma espécie de Mont de St. Michel à portuguesa - de vez em quando a maré da paixão engolia a estrada e de península acolhedora passavam a ilha. De onde se acena e grita: “agora só há barco amanhã!”. E assim, ao sabor de marés cujo vai-vem eles próprios - e não a Lua… - decidiam, se foram amando.
Até um dia. E manda a verdade admitir que nada de muito heróico ou romântico aconteceu, constipação vulgar os atacou. Defenderam-se com não menos vulgar antibiótico, de médico e de louco todos temos um pouco e a propaganda dos laboratórios faz o resto - primeiro tratamo-nos em casa e só em caso de falhanço recorremos aos Centros de Saúde. ( As listas de espera também incitam a pecados diletantes:(.) Seria exagero dizer que morreram da cura. Na realidade, ele ficou como novo, mas nas entranhas dela remédio e contraceptivo se travaram de razões e o último fez greve. E o incómodo, no dizer da Tia Laurinda, faltando ao encontro no mês seguinte…
Acabaram por levar ao médico não a constipação mas uma surpresa alegremente desconfiada, dois tinham marcado a consulta e de lá saíram três. Cada coisa a seu tempo: visitaram o jardim do primeiro beijo e ofereceram-se um bom jantar, o rapazito que vendia flores teve sorte e foi dormir mais cedo, ficaram-lhe com o ramo. Calarei a noite, por inveja pudibunda. Na manhã seguinte, pelo telefone, anúncio oficial aos recentes Avós, que em casas separadas deixaram escapar em coro um “até que enfim” de alívio. Com esta gente nova nunca se sabe, o tempo ia passando, já basta que o entardecer se aproxime, quanto mais suportá-lo sem o riso de crianças. Aquela, mais do que fervorosamente desejada, foi aceite com alegria tranquila, para ser espelho do amor e não a sua argamassa.
E os nove meses foram vividos ainda e sempre em namoro por acaso legalizado, ele acompanhou-a às consultas e satisfez-lhe caprichos alimentares que os faziam rir. O desejo, ao invés do contraceptivo, não fez greve, uniu as inseguranças de um corpo aumentando, paulatino, às do outro, ávido mas com receio de não ser bem-vindo. Era! Ressuscitando regra matemática, por ambos quase esquecida e agora aplicada à gravidez: menos por menos dava mais. O prazer, invejoso, também parecia obedecer ao preceito bíblico e multiplicar-se.
Ele insistiu em assistir ao parto, vencendo alguma resistência da parte dela. Momento mágico mas também algo inestético, o olhar pode ser cruel e de memória longa, tu é que sabes... Que disparate!, claro que sabia. De mãos juntas - e crispadas, por razões diversas… - o viram chegar. Não cederam a chantagem meiga dos Avós, deram-lhe nome próprio próprio e não herdado, queriam-no com eles e não deles, quanto ao futuro..., aí sim, projectavam vida em fotocópia das suas. Pois não o desejariam também feliz?
Bons pulmões, decretara o médico. Facto era que as noites se enchiam de saudável berraria que só a proximidade da mãe acalmava. Outro facto não desprezível sendo o trabalho, que permite o cheque mensal mas exige olhos abertos e chegada a horas decentes, o pai mudou provisoriamente de quarto, decisão “lógica” de adultos razoáveis (?). E o miúdo chorando, agora avesso e logo agarrado ao peito, sonos caprichosos e um arfar sibilante que obrigou o clínico a fazer marcha-atrás e avançar com diagnóstico pesado: asma.
Ela protegendo o filho, até quase à volta dele se fechar. E quase amante não a desejava o marido, cada vez mais a encontrando mãe e não mulher. O beijo na face substituiu os outros, o espasmo não lhe apetecia, jantares e cinemas passaram a recordações porque nem aos pais confiava o garoto. O miúdo tornou-se um rival, amado embora. A competição envergonhada e não assumida trouxe o amuo clandestino, ao vê-los simbióticos retirava-se, começou a ler todos os semanários e a deixá-la só na cozinha a pretexto do telejornal das oito. Dormiam juntos e acompanhados, o berço à espreita e escuta, suspiros de amor cada vez mais improváveis.
Dar tempo ao tempo à espera de outros tempos. Impaciente, saiu a terreiro escudado em teorias educativas - o infantário esperava. Ela por convencer, mãe de família sem esforço, esforço faz o miúdo para respirar e pouco se esforça tanta gente nesses depósitos de crianças, quanto ao dinheiro…, gasta-se menos. Firme - não fico descansada. Ele não cedeu. Infantário durante o dia e quarto próprio à noite, santa aliança com o médico e os quatro Avós, aquele invocando o saber profissional, estes o de experiência feita ao longo de vidas longas.
A partida ganha. Já podia amá-la em sossego, ela de volta à das fotografias espalhadas pela casa, abraços sorridentes. Santa ingenuidade! Passou a exibir pequenos achaques, a de antes não regressava. Corpo frio; ressentimento fervendo; adultério permanente, com ele mesmo o enganava. Chorando o amante compreensivo que partira, guardou sorrisos e carícias para o futuro homem da sua vida.
Ele não arranjou um ombro no emprego, muito menos fez de paixão por passarinho novo álibi para dizer, como nos carrosséis de infância, “mais uma voltinha…”. Trabalho duro, futebol ao Domingo e remoques de café aos políticos lhe serviram de escape. Ela foi mãe extremosa de criança e adolescente, filha e nora sem mácula, sogra a perfeita distância. Paralelos. Por sua causa ninguém descarrilaria, mas só por ilusão de óptica poderiam ser vistos juntos ao longe. Basta acrescentar duas letras ao epílogo habitual das histórias de fadas para os definir: viveram (in)felizes para sempre. Mas o sempre que abarcamos finda na morte, vou-lhes contar o resto.
Chegaram ao cruzamento da eternidade com pouco tempo de intervalo, para o que nos ocupa não interessa quem esperou por quem.
Pedro leu o processo em diagonal, coisa simples, pergunta retórica, “entram?”.
O Senhor, doçura firme, “não”.
E Pedro, estranhando tal severidade, “mas porquê?”.
“Desiludiram-Me”.
O homem que servira de base à Igreja, conciliador e pragmático, “mas é gente boa, se apenas deixássemos entrar os que cumprem à risca os preceitos religiosos…”.
Calou-se. No ar pairava a fantasia de um Paraíso às moscas.
“Pedro, sabes que o ritual Me diz pouco, à sombra de altares e em Meu Nome foram planeadas e cometidas as maiores atrocidades. Outro é o pecado deles: traíram o amor”.
Pedro, não convencido, brandiu o processo.
“Em nenhuma página se lê relato de ofensa ao próximo…”.
O Senhor sorriu, condescendente.
“Próximos estiveram um do outro e deixaram escapar por entre os dedos tal milagre. Envia-os cem anos para a sala de espera”.
“Para onde?”.
“Para a sala de espera, Pedro, ainda não aprendeste como Roma é volúvel? Depois de os inventar desistiu de Inferno e Purgatório. Pois seja, adoptaremos nomenclatura mais impessoal”.
Pedro de regresso à pele de funcionário diligente.
“Cem anos na sala de espera… Ora vejamos: deve corresponder a cerca de quatro milhões de Ave Marias e ainda vai sobrar tempo para uns Terços, ora se vai!”. E rapou da máquina de calcular.
O Senhor, peremptório: “Nem penses! Não os quero culpados e arrependidos, percebes? Quero-os como antes”.
“Mas então…?”.
“Cem anos a namorar!”.
Pedro petrificado. Recordou o mar da Galileia e a faina da pesca, André a seu lado. O Filho dissera-lhe para O seguir e ele tornara-se pescador de homens. Nunca se arrependera. Mas levara consigo, até à cruz do martírio, a seu pedido fazendo o pino por respeito ao Mestre, memórias doces de mulher. Fins de tarde com barcos órfãos de peixe e uns braços embalando-lhe a tristeza, “amanhã será melhor”. E Simão, chamado Pedro, entrava nela e em porto seguro, de onde se erguia uma vaga imensa que o punha em fogo e…
Cem anos a namorar? De sorriso largo,
“Palavra do Senhor!”.
O Qual soltou gargalhada irónica.
“Por favor, Pedro, não achas que neste caso seria mais adequado um Seja feita a Nossa Vontade?”.
Pedro não O ouviu, ainda na Galileia.
O Senhor, que por definição lhe conhecia os pensamentos, achou de profundo mau gosto separar os corpos dançando na sua cabeça. Iria Ele, de qualquer forma precisava de fazer exercício. Assobiando a Flauta Mágica dirigiu-se ao cruzamento para os informar da penitência que lhes reservara.
Mas não estaria a ser demasiado brando? Talvez melhor duzentos anos de namoro…
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Parabéns e obrigado:).
CELEBRAÇÃO
"1, 2, 3, 4, 5 minutos de jazz" há 40 anos na rádio nacional
arquivo jn
José Duarte consegue, desde 1966, fazer o impensável um programa radiofónico com apenas cinco minutos de duração Ao longo das últimas quatro décadas foi escutado por três gerações de ouvintes
Há 40 anos, um jovem diletante era convidado para fazer um programa de jazz na Rádio Renascença. Esse jovem era José Duarte e o programa, "Cinco minutos de jazz", viria a tornar-se numa autêntica lenda da rádio nacional não há outro que tenha durado tanto tempo.
"1, 2, 3, 4, 5 minutos de jazz", a frase com que José Duarte imortalizou o programa, esteve na Rádio Renascença até 1975, altura em que sofreu uma interrupção forçada para regressar na Rádio Comercial, em 1983. A partir de 1993, passou a integrar a programação da RDP Antena 1, onde hoje pode ser ouvido, de segunda a sexta, às 18.50, 22.50 e 1.50 horas.
José Duarte, que ao longo dos anos se tornou num dos grandes divulgadores da música negro-americana no nosso país, lembra que "tudo partiu de um convite de João Martins, que faleceu em Outubro passado - era meu amigo de infância - , o radialista mais importante das décadas de 60 e 70, que tinha um programa que toda a gente ouvia, sem excepção, que se chamava "23ª hora". Convidou-me para fazer um programa, mas só me dava cinco minutos. Discuti com ele, pedi 10, 20, 30 minutos, nada...Ele insistiu nos cinco e parece que tinha razão..."
Realizar um programa de rádio em cinco minutos é algo de impensável. Mas José Duarte nunca se atrapalhou e "consigo fazer a abertura, ler um texto, meter um disco, ler outro texto e meter o fecho." Mas os programas nunca têm só cinco minutos. "Normalmente sou respeitado até aos oito. A partir daí os colegas começam a chatear-me..."
Antigamente era mais fácil respeitar os cinco minutos, porque "os discos tinham todos três minutos. Agora, nos modernos, sou obrigado a fazer excertos, que é uma coisa contra o meu feitio. Por exemplo, no tempo do free jazz, cada tema ocupava um lado inteiro de um LP, eram 20 e tal minutos. Era complicado..."
As reacções dos ouvintes nem sempre foram as melhores, mas mesmo assim José Duarte nunca esmoreceu. "Lembro-me que nas primeiras mensagens que recebi, nos anos 60, chamavam-me amante de batuques, racista , amigo dos pretos e que a minha atitude punha em perigo a unidade nacional...Uma senhora insultou-me ao telefone porque chamei concerto a um espectáculo de jazz. Ela dizia-me o senhor não sabe o que são concertos! Na altura achei ofensivo e hoje estou plenamente de acordo com ela: um concerto de jazz é um grande espectáculo."
"Cinco minutos de jazz " deixa José Duarte satisfeito por várias razões e uma em particular "atingiu três gerações."
Uma pequena história do jazz
Os 40 anos dos "Cinco minutos de jazz" são devidamente assinalados a partir de hoje através de uma colectânea de quatro discos, onde José Duarte incluiu algumas das faixas jazzísticas que considera marcantes. Funciona como uma espécie de pequena história do jazz, versão José Duarte."É um conjunto de faixas de que gosto e que considero importantes. São anteriores a 1956 para evitar as demoras com as autorizações das editoras . Por exemplo, os americanos umas vezes diziam que sim, outras que não..."
Incluiu "aquelas obras fundamentais que toda a gente gosta e que considera boas para as quais já não é necessário falar com as editoras, embora paguemos aos autores, via SPA."
Nesta colecção de quatro discos, que a partir de hoje e nas próximas três quartas-feiras poderá adquirir com o JN, vai poder conviver com a música de Monk, Coltrane, Ellington,Miles, Parker, entre muitos, muitos outros.
"1, 2, 3, 4, 5 minutos de jazz" há 40 anos na rádio nacional
arquivo jn
José Duarte consegue, desde 1966, fazer o impensável um programa radiofónico com apenas cinco minutos de duração Ao longo das últimas quatro décadas foi escutado por três gerações de ouvintes
Há 40 anos, um jovem diletante era convidado para fazer um programa de jazz na Rádio Renascença. Esse jovem era José Duarte e o programa, "Cinco minutos de jazz", viria a tornar-se numa autêntica lenda da rádio nacional não há outro que tenha durado tanto tempo.
"1, 2, 3, 4, 5 minutos de jazz", a frase com que José Duarte imortalizou o programa, esteve na Rádio Renascença até 1975, altura em que sofreu uma interrupção forçada para regressar na Rádio Comercial, em 1983. A partir de 1993, passou a integrar a programação da RDP Antena 1, onde hoje pode ser ouvido, de segunda a sexta, às 18.50, 22.50 e 1.50 horas.
José Duarte, que ao longo dos anos se tornou num dos grandes divulgadores da música negro-americana no nosso país, lembra que "tudo partiu de um convite de João Martins, que faleceu em Outubro passado - era meu amigo de infância - , o radialista mais importante das décadas de 60 e 70, que tinha um programa que toda a gente ouvia, sem excepção, que se chamava "23ª hora". Convidou-me para fazer um programa, mas só me dava cinco minutos. Discuti com ele, pedi 10, 20, 30 minutos, nada...Ele insistiu nos cinco e parece que tinha razão..."
Realizar um programa de rádio em cinco minutos é algo de impensável. Mas José Duarte nunca se atrapalhou e "consigo fazer a abertura, ler um texto, meter um disco, ler outro texto e meter o fecho." Mas os programas nunca têm só cinco minutos. "Normalmente sou respeitado até aos oito. A partir daí os colegas começam a chatear-me..."
Antigamente era mais fácil respeitar os cinco minutos, porque "os discos tinham todos três minutos. Agora, nos modernos, sou obrigado a fazer excertos, que é uma coisa contra o meu feitio. Por exemplo, no tempo do free jazz, cada tema ocupava um lado inteiro de um LP, eram 20 e tal minutos. Era complicado..."
As reacções dos ouvintes nem sempre foram as melhores, mas mesmo assim José Duarte nunca esmoreceu. "Lembro-me que nas primeiras mensagens que recebi, nos anos 60, chamavam-me amante de batuques, racista , amigo dos pretos e que a minha atitude punha em perigo a unidade nacional...Uma senhora insultou-me ao telefone porque chamei concerto a um espectáculo de jazz. Ela dizia-me o senhor não sabe o que são concertos! Na altura achei ofensivo e hoje estou plenamente de acordo com ela: um concerto de jazz é um grande espectáculo."
"Cinco minutos de jazz " deixa José Duarte satisfeito por várias razões e uma em particular "atingiu três gerações."
Uma pequena história do jazz
Os 40 anos dos "Cinco minutos de jazz" são devidamente assinalados a partir de hoje através de uma colectânea de quatro discos, onde José Duarte incluiu algumas das faixas jazzísticas que considera marcantes. Funciona como uma espécie de pequena história do jazz, versão José Duarte."É um conjunto de faixas de que gosto e que considero importantes. São anteriores a 1956 para evitar as demoras com as autorizações das editoras . Por exemplo, os americanos umas vezes diziam que sim, outras que não..."
Incluiu "aquelas obras fundamentais que toda a gente gosta e que considera boas para as quais já não é necessário falar com as editoras, embora paguemos aos autores, via SPA."
Nesta colecção de quatro discos, que a partir de hoje e nas próximas três quartas-feiras poderá adquirir com o JN, vai poder conviver com a música de Monk, Coltrane, Ellington,Miles, Parker, entre muitos, muitos outros.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Bizarrias...
Como sabem não sou apoiante de Rui Rio, pelo que me sinto livre para considerar "absurda" um adjectivo suave. A situação parece-me descabelada, embora julgue compreender os fundamentos legais. Mas não será uma visão "mecânica" da Justiça? Depois de um acordo alcançado faz algum sentido uma acusação? Enfim...
O Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) retirou na passada semana todas as queixas apresentadas à Procuradoria-Geral da República, afirmou ao PortugalDiário fonte próxima do processo. O caso do Túnel de Ceuta opôs Rui Rio e o IPPAR durante um ano, mas há um mês a autarquia e o instituto chegaram a acordo.
Apesar de o IPPAR ter retirado as queixas contra a Gestão de Obras Públicas da Câmara do Porto, o presidente da autarquia foi constituído arguido, esta terça-feira, e ouvido ao final da manhã no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP). É que, apesar da retirada da queixa, o Ministério Público considera que é insusceptível de desistência, tendo em conta que o desrespeito do embargo é um crime público.
À saída do DIAP, onde foi ouvido, Rui Rio considerou que a situação era «absurda». «Estou constituído arguido e respondi nessa condição. O dossier tem a ver com o Túnel de Ceuta e o crime de que potencialmente poderei ser acusado pelo Ministério Público é o de ter desrespeitado o embargo decretado pelo IPPAR e de ter lesado o Museu Soares dos Reis».
Recorde-se que o diferendo entre as duas partes começou em inícios de 2005 com o «chumbo», pelo IPPAR, da proposta que a Câmara do Porto tinha já em execução no terreno sem a necessária aprovação prévia daquele instituto. A construção do túnel entre o Hospital de Santo António e a Rua D. Manuel II foi «chumbada» pelo IPPAR por uma das rampas de saída se situar na zona de protecção do Palácio das Carrancas, onde está instalado o Museu Nacional Soares dos Reis. Rui Rio procurou continuar as obras, apesar das ilegalidades de que elas estavam alegadamente feridas, o que obrigou o IPPAR a proceder ao seu embargo em tribunal.
Após muita polémica, várias acusações e algumas reformulações, o novo projecto do túnel, apresentado ao IPPAR pela GOP, acabaria por ser aprovado já este mês pelas várias instâncias legalmente obrigatórias. Apresentado publicamente no passado dia 9 pelas direcções do IPPAR e da GOP, o novo projecto mantém no mesmo sítio a polémica saída do túnel junto ao Museu Soares dos Reis, mas com limitação de velocidade.
O Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) retirou na passada semana todas as queixas apresentadas à Procuradoria-Geral da República, afirmou ao PortugalDiário fonte próxima do processo. O caso do Túnel de Ceuta opôs Rui Rio e o IPPAR durante um ano, mas há um mês a autarquia e o instituto chegaram a acordo.
Apesar de o IPPAR ter retirado as queixas contra a Gestão de Obras Públicas da Câmara do Porto, o presidente da autarquia foi constituído arguido, esta terça-feira, e ouvido ao final da manhã no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP). É que, apesar da retirada da queixa, o Ministério Público considera que é insusceptível de desistência, tendo em conta que o desrespeito do embargo é um crime público.
À saída do DIAP, onde foi ouvido, Rui Rio considerou que a situação era «absurda». «Estou constituído arguido e respondi nessa condição. O dossier tem a ver com o Túnel de Ceuta e o crime de que potencialmente poderei ser acusado pelo Ministério Público é o de ter desrespeitado o embargo decretado pelo IPPAR e de ter lesado o Museu Soares dos Reis».
Recorde-se que o diferendo entre as duas partes começou em inícios de 2005 com o «chumbo», pelo IPPAR, da proposta que a Câmara do Porto tinha já em execução no terreno sem a necessária aprovação prévia daquele instituto. A construção do túnel entre o Hospital de Santo António e a Rua D. Manuel II foi «chumbada» pelo IPPAR por uma das rampas de saída se situar na zona de protecção do Palácio das Carrancas, onde está instalado o Museu Nacional Soares dos Reis. Rui Rio procurou continuar as obras, apesar das ilegalidades de que elas estavam alegadamente feridas, o que obrigou o IPPAR a proceder ao seu embargo em tribunal.
Após muita polémica, várias acusações e algumas reformulações, o novo projecto do túnel, apresentado ao IPPAR pela GOP, acabaria por ser aprovado já este mês pelas várias instâncias legalmente obrigatórias. Apresentado publicamente no passado dia 9 pelas direcções do IPPAR e da GOP, o novo projecto mantém no mesmo sítio a polémica saída do túnel junto ao Museu Soares dos Reis, mas com limitação de velocidade.
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Reposição da verdade.
Depois do concerto na Casa da Música encontrei o senhor Director da RTPN, que teve a amabilidade de me convidar para almoçar, visando esclarecer alguns "mal-entendidos". Fiz-lhe notar que há dois meses atrás me chamara objectivamente mentiroso ao aceitar a versão de um colaborador seu contra a minha, no que dizia respeito ao fim do Estes Difíceis Amores. Mais acrescentei que tivera ele testemunhos da veracidade das minhas palavras e que isso não acontecera ontem, mas a seguir aos factos em discussão. O senhor Director da RTPN retorquiu - e por isso abordo o tema aqui - que também eu era responsável por inverdades que publicara neste blog. Perante a minha estupefacção, referiu ter eu afirmado que trabalhara de graça para a RTPN. Lembrei-lhe a colaboração - semelhante à de outros! - nos programas de opinião liderados pelo Carlos Magno. A resposta do senhor Director foi "isso passou-se antes do meu tempo". É verdade. E poderia ter acrescentado que o nome do canal era então NTV e não RTPN. Para mim tratou-se sempre da mesma Casa, da mesma cidade, do mesmo sonho. Mas é verdade. Não trabalhei de graça para a RTPN e sim para a NTV. Um facto permanece - o senhor Director decretou-me de novo mentiroso sem ouvir a minha versão. Pensou-o durante dois meses, não sentindo qualquer necessidade de me desmentir ou escutar. Respeito a sua decisão, mas não a entendo. Disse-lhe com toda a clareza que neste caso o velho ditado "não há duas sem três" não se aplicaria e desandei. A partir daí, o conteúdo e forma do diálogo (?) não honra nenhum de nós: o senhor Director afirmou que eu gostava de me fazer de vítima e ouviu como resposta que a sua educação deixava a desejar. Penso poder assumir que num ponto estamos de acordo - a nenhum de nós apetece reencontrar o outro.
Mas a verdade formal deve ser reposta, pois nunca menti neste blog: a partir do momento em que o senhor Director assumiu o leme da RTPN nunca trabalhei de graça para o referido canal de televisão. O seu a seu dono.
Mas a verdade formal deve ser reposta, pois nunca menti neste blog: a partir do momento em que o senhor Director assumiu o leme da RTPN nunca trabalhei de graça para o referido canal de televisão. O seu a seu dono.
De partida para ouvir Mozart na Casa da Música:). A eterna dúvida...
To be or not to be (Maio 2001 - Estes Difíceis Amores).
Minha querida, se soubesses! Lembras-te da canção do Zé Mário? “O que eu andei p’ra aqui chegar…”. Foi quase isso. Um caminho longo e penoso, mas fi-lo parado. Três anos vivendo como um autómato cinzento - o que nem é difícil, tantos o fazem… -, apenas a memória a cores fortes. Porque à noite, em casa, no escuro, punha os auscultadores e pintava-nos obsessivamente com a música por moldura. E os quadros amontoavam-se na minha cabeça, tão límpidos como o génio agarotado do teu querido Mozart.
Que ouvias em altos berros! Ainda tinha o chaveco e ao fim da tarde, quando te ia buscar, das janelas escancaradas jorrava a Flauta Mágica, inundando a floreira e as plantas, sedentas e cultas. Tocava à campainha, a voz no intercomunicador, riso escondido, “desço ou ainda sobes?”. O ainda era tão prometedor…; “subo”. O olhar maroto, “estás com muita fome?”. Às vezes. A de ti, pelo contrário, gemia sempre alto nas entranhas, à medida que o crepúsculo da sala afagava esse andar de mulher madura, cruel de tão lenta, sabendo-me na sombra maravilhada dos seus passos. O rodopio gaiato, que só não fazia adejar a saia porque ela se agarrava, teimosa, às ancas. Enquanto, mais livres, duas coxas de luto alegre lhe fugiam, elegantes, rumo ao chão. “Vai daí…?”. O sorriso, de tão aberto, substituía convite de mãos ou boca. E tu à espera, maliciosa; eu a custo segurando as rédeas do desejo, toda a pressa me tornaria culpado e vítima de crime aceitável nos garotos mas assassino em quem já desce a outra encosta dos anos. Seria como ter pressa de chegar ao último verso de um poema... A cabeça inclinada para trás, o cabelo em liberdade pelo chão, o pescoço longo, arqueado por solidariedade com os rins e à mercê da minha língua, escondendo gemidos que acabavam por se escapar, para meu alívio e orgulho infantis. Botão a botão, até os dedos se perderem por montes e vales, os teus por perto, às vezes ensinando-lhes o caminho, crispados ao anúncio da carícia desejada; e partindo, ligeiros, a libertar-me também de prisões o corpo, que se juntava à nudez completa e agradecida que vestia a alma. O requebro da cintura e a saia, como por milagre, na alcatifa, entre nós e a lareira, apagada por inveja do fogo a seu lado. Meias, rendas, os sapatos altos com tiras que suportam os pés das mulheres sem os vestir, tudo se juntava à saia com lentidão suave, sem momentos penosos de atrapalhação canhestra; como se já tivéssemos nascido entrelaçados. As palavras tontas. A que só respondias, com alegre vergonha, quando afundavas em mim lábios e dentes. Uma vez, de tão juntos no acorde, sussurrámos “fala comigo” ao mesmo tempo e ainda sorrimos, antes de inventar diálogo obsceno noutras circunstâncias, mas sagrado quando o desejo esfarrapa as regras que ordenam os dias tristes e as cabeças normalizadas. A explosão que orlava as testas de suor e fazia apetecer o colo do outro. (Bom sinal!, a meiguice nem sempre acompanha o espasmo.) A tua mão distraída, passeando pelo meu peito, cheio de um estranho cansaço, juvenil e impaciente, “estou de rastos e quero mais”.
Será isso o amor?
O silêncio. Até me beijares ao de leve e te escapulires por momentos, para reapareceres tão fresca como antes, “cavalheiro, já abusou de mim, agora leve-me a jantar”. A carripana transfigurada pela conversa prazenteira, a tua ópera preferida no compacto, a eterna hesitação sobre restaurante primeiro e ementa depois. O olhar carinhoso dos empregados das minhas tascas de sempre, teus fãs incondicionais, prontos a franzir o cenho quando me viam chegar sozinho, “a senhora não vem?”. A rua e as noites húmidas do Porto, essa garrida forma de me enfiares o braço que trazia recordações de férias, quando atalhavas os meus protestos preguiçosos e exigias que te mostrasse o mundo, “só desisti das minhas queridas praias alentejanas porque prometeste fazer de mim uma rapariga culta”. O desvio, no caminho do regresso, para uma visita a amigos com beijo prometido há meses. Enterrado no sofá, bebia a golos avarentos o fascínio pelo teu modo preguiçoso de cruzar as pernas, acender um cigarro, sorrir. Com os olhos procuravas os meus, através de sala e conversas, carinho mudo. Quando, a alguma anedota minha mais desbragada, alguém risonhamente se te queixava, fazias um gesto de impotência, “os homens são todos assim”, mas perdoavas ao teu.
Será isso o amor?
Chegado a tua casa, simplesmente ficar. Ver-te o gozo em último cigarro e meia dúzia de bolachas, pecavas com a consciência tranquila de quem decidiu viver a vida e não prolongá-la a todo o custo. O quarto impecável, envergonhando o meu, órfão no outro extremo da cidade. A figura esguia recortada na porta, “fecho a janela?”. Ainda e sempre os códigos, o “não” anunciava o triunfo do desejo sobre as horas, eu pasmava com o adolescente ressuscitado dentro de mim. Um sexo, como direi?, gentil, mas não menos intenso. A conversa adormecendo e nós com ela; abraçados. Sempre fui o terror dos lençóis e a delícia dos psicanalistas, sonhos terríficos abanando-me, e no entanto dava comigo, manhã cedo, enroscado à tua volta, na mesma posição em que segredara “dorme bem”. E sobretudo sem o movimento de repulsa que os corpos errados despertam nos acordares surpresos que se seguem a noites demasiado optimistas, às vezes queremos dormir com uma pessoa, mas não partilhar o sono com ela. Passara por isso antes, é sinistro ter mulher adormecida junto a nós e pensar “o que estou aqui a fazer?”. O pequeno almoço que me ensinaste a apreciar. Sumo de laranja, compota, o pão favorito que guardavas no congelador, e eu sem medo de fazer batota, inventando-te defeitos que me libertassem. Pelo contrário!, seguindo a fronteira entre o roupão e o teu peito com um frémito aprovador dentro do meu, quando dizia “até logo” era exactamente isso que pensava, “volto logo e vai ser bom; tudo”.
Será isso o amor?
Talvez, quem sabe? Por que não te perguntei? Decidias o rótulo, se dissesses amor ficava assim decretado, as mulheres sabem mais dessas coisas. Teria feito diferença? Estaríamos ainda juntos? Bem vês, quando pediste para discutir o futuro, desejei muito que estivesse cheio daquele presente. Tu com outros planos, expuseste-os com tremenda clareza, antes de deixares cair um “se verdadeiramente gostas de mim…” que soava a ameaça implorada. Vivermos juntos… Será isso o amor ou uma forma de amor que ponha outras em perigo?
Eu não tinha a certeza, mas como advogado já vira muita coisa. As pessoas esbarram umas nas outras constantemente e rilham, rilham, os amantes transformam-se em animais domésticos, vivendo ao ritmo das telenovelas e do futebol. Um dia a saudade do que foram pousa num colega do trabalho que sente o mesmo e acabam no meu escritório, convencidos de que a felicidade os espera no próximo “sim”, laico ou profano; acontece tudo outra vez. Ou não!, verdade é que eu tinha um medo enorme de encurtar as pequenas distâncias que me faziam correr para ti, sou um bicho instável, receio tanto o abandono como o sufoco. Bolinei com palavras sinuosas. Tu em silêncio dorido, eu sentindo-o como acusador. Fechados, cada um em sua concha, paranóicos e mal amados, dissemos adeus com um pretexto ignóbil que não recordo, mas foi o silêncio ressentido a liquidar-nos. A solidão. Outras mulheres, ignorantes do pano de fundo sobre o qual se moviam; inocentes. O sexo mecânico. A culpa por nem culpa sentir, apenas uma saudade imensa da tua silhueta na porta, “fecho a janela?”. Será isso o amor?
Eis-nos aqui. Domingo de sol, passeio junto ao mar, esses olhos azuis que o desejo nublava fitam-me transparentes, agressivos de tão risonhos, “como estás?”. Como estou? E tu que achas, vendo-te assim acompanhada? Ele tem bom aspecto, sorriso franco, nada indica ciúme de paixão mal resolvida da tua parte, sente-se seguro. Esqueceste-me. Pior!, já és minha amiga. Pronto, querida, vou ser politicamente correcto, “bem”. O tempo, o amigo comum que encontraste e me acha cansado, a etiqueta, “este é o…”. Que interessa o nome?, é o teu homem, “muito prazer”. Ele sorri, sabe que não sinto a frase, mas compreende, afinal sou o tipo que ficou sem a mulher que ele não dispensa, “muito prazer”. Um silêncio constrangido entre os dois que resolves com à-vontade, “foi bom ver-te”. Era necessário humilhar-me tanto? Uma vontade imensa de te abanar – “sou eu, lembras-te?, tinhas a certeza que era o amor da tua vida…” -, acorda!, ainda podemos… Os dois afastando-se, o braço dele sobre os teus ombros, o segredo ao ouvido e esse cabelo, onde me perdia, volteando ao ritmo da gargalhada. Serias incapaz da chacota a meu respeito, é outra a razão, simples e infernal - estás feliz. E uma parte de mim, ainda tímida, quase clandestina, deixa cair os braços. Reconhece derrota e culpa, fica grata pelo que vivemos e murmura um “boa sorte” que todo o resto do que sou fita horrorizado.
Será isto, finalmente, o amor?
Minha querida, se soubesses! Lembras-te da canção do Zé Mário? “O que eu andei p’ra aqui chegar…”. Foi quase isso. Um caminho longo e penoso, mas fi-lo parado. Três anos vivendo como um autómato cinzento - o que nem é difícil, tantos o fazem… -, apenas a memória a cores fortes. Porque à noite, em casa, no escuro, punha os auscultadores e pintava-nos obsessivamente com a música por moldura. E os quadros amontoavam-se na minha cabeça, tão límpidos como o génio agarotado do teu querido Mozart.
Que ouvias em altos berros! Ainda tinha o chaveco e ao fim da tarde, quando te ia buscar, das janelas escancaradas jorrava a Flauta Mágica, inundando a floreira e as plantas, sedentas e cultas. Tocava à campainha, a voz no intercomunicador, riso escondido, “desço ou ainda sobes?”. O ainda era tão prometedor…; “subo”. O olhar maroto, “estás com muita fome?”. Às vezes. A de ti, pelo contrário, gemia sempre alto nas entranhas, à medida que o crepúsculo da sala afagava esse andar de mulher madura, cruel de tão lenta, sabendo-me na sombra maravilhada dos seus passos. O rodopio gaiato, que só não fazia adejar a saia porque ela se agarrava, teimosa, às ancas. Enquanto, mais livres, duas coxas de luto alegre lhe fugiam, elegantes, rumo ao chão. “Vai daí…?”. O sorriso, de tão aberto, substituía convite de mãos ou boca. E tu à espera, maliciosa; eu a custo segurando as rédeas do desejo, toda a pressa me tornaria culpado e vítima de crime aceitável nos garotos mas assassino em quem já desce a outra encosta dos anos. Seria como ter pressa de chegar ao último verso de um poema... A cabeça inclinada para trás, o cabelo em liberdade pelo chão, o pescoço longo, arqueado por solidariedade com os rins e à mercê da minha língua, escondendo gemidos que acabavam por se escapar, para meu alívio e orgulho infantis. Botão a botão, até os dedos se perderem por montes e vales, os teus por perto, às vezes ensinando-lhes o caminho, crispados ao anúncio da carícia desejada; e partindo, ligeiros, a libertar-me também de prisões o corpo, que se juntava à nudez completa e agradecida que vestia a alma. O requebro da cintura e a saia, como por milagre, na alcatifa, entre nós e a lareira, apagada por inveja do fogo a seu lado. Meias, rendas, os sapatos altos com tiras que suportam os pés das mulheres sem os vestir, tudo se juntava à saia com lentidão suave, sem momentos penosos de atrapalhação canhestra; como se já tivéssemos nascido entrelaçados. As palavras tontas. A que só respondias, com alegre vergonha, quando afundavas em mim lábios e dentes. Uma vez, de tão juntos no acorde, sussurrámos “fala comigo” ao mesmo tempo e ainda sorrimos, antes de inventar diálogo obsceno noutras circunstâncias, mas sagrado quando o desejo esfarrapa as regras que ordenam os dias tristes e as cabeças normalizadas. A explosão que orlava as testas de suor e fazia apetecer o colo do outro. (Bom sinal!, a meiguice nem sempre acompanha o espasmo.) A tua mão distraída, passeando pelo meu peito, cheio de um estranho cansaço, juvenil e impaciente, “estou de rastos e quero mais”.
Será isso o amor?
O silêncio. Até me beijares ao de leve e te escapulires por momentos, para reapareceres tão fresca como antes, “cavalheiro, já abusou de mim, agora leve-me a jantar”. A carripana transfigurada pela conversa prazenteira, a tua ópera preferida no compacto, a eterna hesitação sobre restaurante primeiro e ementa depois. O olhar carinhoso dos empregados das minhas tascas de sempre, teus fãs incondicionais, prontos a franzir o cenho quando me viam chegar sozinho, “a senhora não vem?”. A rua e as noites húmidas do Porto, essa garrida forma de me enfiares o braço que trazia recordações de férias, quando atalhavas os meus protestos preguiçosos e exigias que te mostrasse o mundo, “só desisti das minhas queridas praias alentejanas porque prometeste fazer de mim uma rapariga culta”. O desvio, no caminho do regresso, para uma visita a amigos com beijo prometido há meses. Enterrado no sofá, bebia a golos avarentos o fascínio pelo teu modo preguiçoso de cruzar as pernas, acender um cigarro, sorrir. Com os olhos procuravas os meus, através de sala e conversas, carinho mudo. Quando, a alguma anedota minha mais desbragada, alguém risonhamente se te queixava, fazias um gesto de impotência, “os homens são todos assim”, mas perdoavas ao teu.
Será isso o amor?
Chegado a tua casa, simplesmente ficar. Ver-te o gozo em último cigarro e meia dúzia de bolachas, pecavas com a consciência tranquila de quem decidiu viver a vida e não prolongá-la a todo o custo. O quarto impecável, envergonhando o meu, órfão no outro extremo da cidade. A figura esguia recortada na porta, “fecho a janela?”. Ainda e sempre os códigos, o “não” anunciava o triunfo do desejo sobre as horas, eu pasmava com o adolescente ressuscitado dentro de mim. Um sexo, como direi?, gentil, mas não menos intenso. A conversa adormecendo e nós com ela; abraçados. Sempre fui o terror dos lençóis e a delícia dos psicanalistas, sonhos terríficos abanando-me, e no entanto dava comigo, manhã cedo, enroscado à tua volta, na mesma posição em que segredara “dorme bem”. E sobretudo sem o movimento de repulsa que os corpos errados despertam nos acordares surpresos que se seguem a noites demasiado optimistas, às vezes queremos dormir com uma pessoa, mas não partilhar o sono com ela. Passara por isso antes, é sinistro ter mulher adormecida junto a nós e pensar “o que estou aqui a fazer?”. O pequeno almoço que me ensinaste a apreciar. Sumo de laranja, compota, o pão favorito que guardavas no congelador, e eu sem medo de fazer batota, inventando-te defeitos que me libertassem. Pelo contrário!, seguindo a fronteira entre o roupão e o teu peito com um frémito aprovador dentro do meu, quando dizia “até logo” era exactamente isso que pensava, “volto logo e vai ser bom; tudo”.
Será isso o amor?
Talvez, quem sabe? Por que não te perguntei? Decidias o rótulo, se dissesses amor ficava assim decretado, as mulheres sabem mais dessas coisas. Teria feito diferença? Estaríamos ainda juntos? Bem vês, quando pediste para discutir o futuro, desejei muito que estivesse cheio daquele presente. Tu com outros planos, expuseste-os com tremenda clareza, antes de deixares cair um “se verdadeiramente gostas de mim…” que soava a ameaça implorada. Vivermos juntos… Será isso o amor ou uma forma de amor que ponha outras em perigo?
Eu não tinha a certeza, mas como advogado já vira muita coisa. As pessoas esbarram umas nas outras constantemente e rilham, rilham, os amantes transformam-se em animais domésticos, vivendo ao ritmo das telenovelas e do futebol. Um dia a saudade do que foram pousa num colega do trabalho que sente o mesmo e acabam no meu escritório, convencidos de que a felicidade os espera no próximo “sim”, laico ou profano; acontece tudo outra vez. Ou não!, verdade é que eu tinha um medo enorme de encurtar as pequenas distâncias que me faziam correr para ti, sou um bicho instável, receio tanto o abandono como o sufoco. Bolinei com palavras sinuosas. Tu em silêncio dorido, eu sentindo-o como acusador. Fechados, cada um em sua concha, paranóicos e mal amados, dissemos adeus com um pretexto ignóbil que não recordo, mas foi o silêncio ressentido a liquidar-nos. A solidão. Outras mulheres, ignorantes do pano de fundo sobre o qual se moviam; inocentes. O sexo mecânico. A culpa por nem culpa sentir, apenas uma saudade imensa da tua silhueta na porta, “fecho a janela?”. Será isso o amor?
Eis-nos aqui. Domingo de sol, passeio junto ao mar, esses olhos azuis que o desejo nublava fitam-me transparentes, agressivos de tão risonhos, “como estás?”. Como estou? E tu que achas, vendo-te assim acompanhada? Ele tem bom aspecto, sorriso franco, nada indica ciúme de paixão mal resolvida da tua parte, sente-se seguro. Esqueceste-me. Pior!, já és minha amiga. Pronto, querida, vou ser politicamente correcto, “bem”. O tempo, o amigo comum que encontraste e me acha cansado, a etiqueta, “este é o…”. Que interessa o nome?, é o teu homem, “muito prazer”. Ele sorri, sabe que não sinto a frase, mas compreende, afinal sou o tipo que ficou sem a mulher que ele não dispensa, “muito prazer”. Um silêncio constrangido entre os dois que resolves com à-vontade, “foi bom ver-te”. Era necessário humilhar-me tanto? Uma vontade imensa de te abanar – “sou eu, lembras-te?, tinhas a certeza que era o amor da tua vida…” -, acorda!, ainda podemos… Os dois afastando-se, o braço dele sobre os teus ombros, o segredo ao ouvido e esse cabelo, onde me perdia, volteando ao ritmo da gargalhada. Serias incapaz da chacota a meu respeito, é outra a razão, simples e infernal - estás feliz. E uma parte de mim, ainda tímida, quase clandestina, deixa cair os braços. Reconhece derrota e culpa, fica grata pelo que vivemos e murmura um “boa sorte” que todo o resto do que sou fita horrorizado.
Será isto, finalmente, o amor?
domingo, fevereiro 19, 2006
Sorry, maralhal:(.
Não desapareci por causa do Benfica. Ao que me disseram, quem joga assim pertence ao meio da tabela. Estive o dia todo em Congresso. Trabalhei e - bem mais importante! - revi velhos amigos. Alguns a passarem momentos maus, outros curiosos sobre os meus, todos de sorriso aberto. Os veteranos da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica encontram-se cada vez menos. Mas continuam a repartir enorme carinho. Estive quase para não ir, arrepiou-me trocar Cantelães por Lisboa. E no entanto, em plena auto-estrada, exausto e chateado pela miséria que me relatavam de Guimarães, uma parte de mim ansiava pelo conforto da Invicta e outra congratulava-se por ter ido. Palmilhámos escolas, anfiteatros e bibliotecas. Como eles, orgulho-me das gerações que nos substituíram. E enquanto tiver genica para o fazer irei ter com eles a todo o lado, incluindo o Inferno. Sobretudo porque vejo o futuro com apreensão. A Sexologia arrisca-se a ser "engolida" pela Medicina Sexual, o que me horroriza. Se tal acontecer, a perspectiva multidisciplinar será substituída por uma visão terapêutica e anatomo-fisiológica que nunca chegará perto da palavra erotismo. (Muito menos do conceito, da realidade ou da sua representação, como em Romeu e Julieta de Zeffirelli...). Não imaginam como desejo estar enganado!
Sorry, maralhal, I missed you too.
But the bitch is back:)))))))))))).
Sorry, maralhal, I missed you too.
But the bitch is back:)))))))))))).
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Sai velharia!
O enxovalho
Por Deus!, quem assim enxovalhou a minha Galiza?
Sim, quem; não falem das culpas de navio com nome de cartão de crédito, os lemes não decidem a solo que vagas sulcar. Muito menos invoquem petróleo, fuel, crude e outros negrumes pelos quais os homens matam, numa avidez que os faz chamar-lhes ouro negro. A amargura que pressinto nos olhares, os espaços vazios na garagem do hotel, as juras angustiadas acerca do marisco no restaurante cheio de mesas órfãs, o “almejas no hay”, não nasceram de rotas enlouquecidas e inundações de asfalto marítimo. Não, aqui houve mãos de homens, displicentes e criminosas. Homens que dormem como justos sobre a miséria de outros, transformados em capachos feitos de lágrimas, pragas, suor e medo; ilusionistas, que despem o sofrimento de emoções e lhe penduram ao pescoço hipócritas números estatísticos; cobardes, que tentam fazer esquecer a sua ausência do local da tragédia com anúncios espampanantes de apoios futuros; censores envergonhados, que minimizam a dimensão dos factos em declarações raquíticas e impessoais.
A minha Galiza mudou - há revolta nas faces, o vento uiva de dor e também de raiva, parece chamar às armas. Não das que disparam, matam e – felizmente! - se gastam. (Mas são substituídas por outras, filhas de homens sem nome que dirigem fábricas com nomes inocentes, em cujas linhas de produção trabalham pessoas sem nome que não vêem um cêntimo dos lucros que mortes longínquas geram.) Não, como armas apenas possuem gargantas roucas e camionetas em direcção a Madrid, auto-colantes dizendo “nunca mais” nos vidros dos automóveis, a coragem anónima e exausta que os leva, teimosos, a praias de luto pesado e viscoso.
Luto estranho, porque não morreu ninguém com enterro vulgar, cortejo lento e choroso, sinos dobrados pelo desgosto. Não morreu ninguém e morreram todos um bocadinho, por isso rosnam impropérios, pudessem eles morder as mãos que se não estenderam quando precisas! Mas que regressarão, esquecidas e bem abertas, quando for tempo de vindimar votos. Porque a democracia – imagine-se! – continua, imperfeita e maçadora, a impor fingir escutar a voz do povo de x em x anos para assumir o estatuto de seu representante. Os papeizinhos caem nas urnas, e, mal contados, lá ficam: quedos; mudos; paleolíticos; ridicularizados; inúteis.
Os acontecimentos da Galiza exemplificam tristemente o desencanto da pessoa vulgar em face do corte da ligação, suposta umbilical, entre eleitores e eleitos; a sua crença de não passar de um peão, de uma baixa prevista na luta pelo poder político ou entre as televisões pelas audiências; a sensação de revolta impotente que fragiliza a democracia e a torna mais vulnerável aos ataques dos que lhe utilizam os direitos na esperança de um dia os abolirem.
Talvez seja necessário encher mais camionetas, e não só rumo a Madrid. Nas manifestações de rua, barulhentas ou mudas, imperiosamente ordeiras, é preciso lembrar aos que governam em nosso nome - e não apesar de nós! – que exigimos ser ouvidos. Sobre as decisões que tomam e as aflições que ignoram, não basta afirmarem-se à mercê do próximo acto eleitoral na Galiza, em Portugal ou nos Estados Unidos. Os rituais básicos da democracia não devem ser invocados para silenciar no entretanto a voz da gente de carne e osso que, ao menos teoricamente!, ainda lhe serve de ponto de partida e chegada. E digo teoricamente porque já me interrogo se o sistema funciona para defender os interesses dos votantes ou apenas para os utilizar como biombo púdico, que esconde reuniões dos conselhos de administração de multinacionais.
Na Galiza deram à costa o crude, a tristeza e a impotência, mas sobretudo o enxovalho feito de desprezo e indiferença. Infelizmente, não se trata de um episódio isolado, mas de outro sinal do exílio da democracia para as suas dimensões formais. Processo que a tornará, se não tivermos cuidado, num esqueleto patético, fora do armário por simples razões de cosmética e oportunismo.
Por Deus!, quem assim enxovalhou a minha Galiza?
Sim, quem; não falem das culpas de navio com nome de cartão de crédito, os lemes não decidem a solo que vagas sulcar. Muito menos invoquem petróleo, fuel, crude e outros negrumes pelos quais os homens matam, numa avidez que os faz chamar-lhes ouro negro. A amargura que pressinto nos olhares, os espaços vazios na garagem do hotel, as juras angustiadas acerca do marisco no restaurante cheio de mesas órfãs, o “almejas no hay”, não nasceram de rotas enlouquecidas e inundações de asfalto marítimo. Não, aqui houve mãos de homens, displicentes e criminosas. Homens que dormem como justos sobre a miséria de outros, transformados em capachos feitos de lágrimas, pragas, suor e medo; ilusionistas, que despem o sofrimento de emoções e lhe penduram ao pescoço hipócritas números estatísticos; cobardes, que tentam fazer esquecer a sua ausência do local da tragédia com anúncios espampanantes de apoios futuros; censores envergonhados, que minimizam a dimensão dos factos em declarações raquíticas e impessoais.
A minha Galiza mudou - há revolta nas faces, o vento uiva de dor e também de raiva, parece chamar às armas. Não das que disparam, matam e – felizmente! - se gastam. (Mas são substituídas por outras, filhas de homens sem nome que dirigem fábricas com nomes inocentes, em cujas linhas de produção trabalham pessoas sem nome que não vêem um cêntimo dos lucros que mortes longínquas geram.) Não, como armas apenas possuem gargantas roucas e camionetas em direcção a Madrid, auto-colantes dizendo “nunca mais” nos vidros dos automóveis, a coragem anónima e exausta que os leva, teimosos, a praias de luto pesado e viscoso.
Luto estranho, porque não morreu ninguém com enterro vulgar, cortejo lento e choroso, sinos dobrados pelo desgosto. Não morreu ninguém e morreram todos um bocadinho, por isso rosnam impropérios, pudessem eles morder as mãos que se não estenderam quando precisas! Mas que regressarão, esquecidas e bem abertas, quando for tempo de vindimar votos. Porque a democracia – imagine-se! – continua, imperfeita e maçadora, a impor fingir escutar a voz do povo de x em x anos para assumir o estatuto de seu representante. Os papeizinhos caem nas urnas, e, mal contados, lá ficam: quedos; mudos; paleolíticos; ridicularizados; inúteis.
Os acontecimentos da Galiza exemplificam tristemente o desencanto da pessoa vulgar em face do corte da ligação, suposta umbilical, entre eleitores e eleitos; a sua crença de não passar de um peão, de uma baixa prevista na luta pelo poder político ou entre as televisões pelas audiências; a sensação de revolta impotente que fragiliza a democracia e a torna mais vulnerável aos ataques dos que lhe utilizam os direitos na esperança de um dia os abolirem.
Talvez seja necessário encher mais camionetas, e não só rumo a Madrid. Nas manifestações de rua, barulhentas ou mudas, imperiosamente ordeiras, é preciso lembrar aos que governam em nosso nome - e não apesar de nós! – que exigimos ser ouvidos. Sobre as decisões que tomam e as aflições que ignoram, não basta afirmarem-se à mercê do próximo acto eleitoral na Galiza, em Portugal ou nos Estados Unidos. Os rituais básicos da democracia não devem ser invocados para silenciar no entretanto a voz da gente de carne e osso que, ao menos teoricamente!, ainda lhe serve de ponto de partida e chegada. E digo teoricamente porque já me interrogo se o sistema funciona para defender os interesses dos votantes ou apenas para os utilizar como biombo púdico, que esconde reuniões dos conselhos de administração de multinacionais.
Na Galiza deram à costa o crude, a tristeza e a impotência, mas sobretudo o enxovalho feito de desprezo e indiferença. Infelizmente, não se trata de um episódio isolado, mas de outro sinal do exílio da democracia para as suas dimensões formais. Processo que a tornará, se não tivermos cuidado, num esqueleto patético, fora do armário por simples razões de cosmética e oportunismo.
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Pérolas na sombra de diamantes.
Abençoado zapping:) - a cena final de Manhattan no Hollywood! Uma miúda de 18 anos a dizer a um quarentão: "Nem todos se corrompem. Precisas de ter um pouco de fé nas pessoas", antes de uma separação de seis meses. Tenho um carinho muito especial por este filme, acho que sofreu por sair depois de um êxito como Annie Hall. Algo de semelhante ao que aconteceu a Wish You Were Here, assombrado pelo mítico Dark Side of The Moon. O sorriso do velho Allen, dando razão à mulher madura que espreita sob os cabelos longos da adolescente. A música de Gershwin. Nova Iorque mais bela do que nunca, por filmada a preto branco. Abençoado zapping:).
The day after.
Maria,
Desculpa! Sei que te deitas cedo e foi um susto ouvir a campainha. Mas tenta compreender, odeio esta merda consumista do Dia dos Namorados. Mas ao mesmo tempo... Todos os argumentos são bons para te mimar, sabes? Por isso falei para essa empresa - caríssima! - de entregas ao domicílio em Londres e me esfalfei para arranjar os cocos que, como o meu Pai, adoras. E dei instruções específicas - à meia noite e cinco, nunca antes. Bom dia seguinte ao Dia dos Namorados, querida. Mas não feliz, por favor. Afinal..., eu não estou aí.
Desculpa! Sei que te deitas cedo e foi um susto ouvir a campainha. Mas tenta compreender, odeio esta merda consumista do Dia dos Namorados. Mas ao mesmo tempo... Todos os argumentos são bons para te mimar, sabes? Por isso falei para essa empresa - caríssima! - de entregas ao domicílio em Londres e me esfalfei para arranjar os cocos que, como o meu Pai, adoras. E dei instruções específicas - à meia noite e cinco, nunca antes. Bom dia seguinte ao Dia dos Namorados, querida. Mas não feliz, por favor. Afinal..., eu não estou aí.
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Vou atirar-me da ponte, não suporto tal espelho da minha decrepitude:(.
Kanye West diz ser viciado em sexo
O cantor Kanye West admitiu a um jornal britânico ser viciado em sexo.
O músico de 28 anos comentou alguns aspectos da sua vida privada a um tablóide inglês, neste caso o The Sun, que não hesitou em citá-lo.
Sexo «é o meu único vício», disse o artista, recém-premiado com dois Grammy. «Tenho pornografia comigo sempre», acrescentou.
Mesmo dando algum desconto à forma como o The Sun explora a temática e o quanto o rapper gosta de alimentar polémicas, Kanye West terá esclarecido que, em média, precisa de fazer sexo quatro vezes por noite e uma pela manhã, sustentando que gosta de mulheres que vejam filmes pornográficos.
14-02-2006
O cantor Kanye West admitiu a um jornal britânico ser viciado em sexo.
O músico de 28 anos comentou alguns aspectos da sua vida privada a um tablóide inglês, neste caso o The Sun, que não hesitou em citá-lo.
Sexo «é o meu único vício», disse o artista, recém-premiado com dois Grammy. «Tenho pornografia comigo sempre», acrescentou.
Mesmo dando algum desconto à forma como o The Sun explora a temática e o quanto o rapper gosta de alimentar polémicas, Kanye West terá esclarecido que, em média, precisa de fazer sexo quatro vezes por noite e uma pela manhã, sustentando que gosta de mulheres que vejam filmes pornográficos.
14-02-2006
Lá diz o povo: "Quanto mais alto se sobe...".
Casais dão o nó no topo do Empire State Building
2006/02/14 | 00:35
São 14 e de origem norte-americana, alemã e britânica. Querem mostrar o seu amor
Catorze casais norte-americanos, alemães e britânicos vão hoje, Dia dos Namorados, dar o nó ou renovar os votos no topo do Empire State Building, em Nova Iorque, numa altura em que a cidade está coberta de neve.
De acordo com representantes do emblemático arranha-céus nova-iorquino, citados pela agência Lusa, as cerimónias deverão ter lugar no 80º andar do edifício, antes de os casais se juntarem no 86º andar para uma taça de champanhe conjunta.
Estas iniciativas decorrem todos os anos por ocasião do Dia de São Valentim (Dia dos Namorados) e os candidatos são escolhidos pela carta que enviam ao site da Internet do Empire State Building até dia 30 de Novembro do ano anterior.
Os casais vão brindar com champanhe na varanda do 86º andar do arranha-céus, numa altura em que as temperaturas na cidade são negativas e que Nova Iorque regista o recorde de queda de neve dos últimos 137 anos.
Domingo, Nova Iorque atingiu o recorde de queda de neve desde 1869, com o Central Park coberto com 68,3 centímetros de neve e os três aeroportos nova-iorquinos encerrados ao tráfego.
2006/02/14 | 00:35
São 14 e de origem norte-americana, alemã e britânica. Querem mostrar o seu amor
Catorze casais norte-americanos, alemães e britânicos vão hoje, Dia dos Namorados, dar o nó ou renovar os votos no topo do Empire State Building, em Nova Iorque, numa altura em que a cidade está coberta de neve.
De acordo com representantes do emblemático arranha-céus nova-iorquino, citados pela agência Lusa, as cerimónias deverão ter lugar no 80º andar do edifício, antes de os casais se juntarem no 86º andar para uma taça de champanhe conjunta.
Estas iniciativas decorrem todos os anos por ocasião do Dia de São Valentim (Dia dos Namorados) e os candidatos são escolhidos pela carta que enviam ao site da Internet do Empire State Building até dia 30 de Novembro do ano anterior.
Os casais vão brindar com champanhe na varanda do 86º andar do arranha-céus, numa altura em que as temperaturas na cidade são negativas e que Nova Iorque regista o recorde de queda de neve dos últimos 137 anos.
Domingo, Nova Iorque atingiu o recorde de queda de neve desde 1869, com o Central Park coberto com 68,3 centímetros de neve e os três aeroportos nova-iorquinos encerrados ao tráfego.
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Com a Administração Bush..., é sair da frente:).
Casa Branca atrapalha-se em explicações
2006/02/13 | 18:43
Dick Cheney feriu acidentalmente a tiro um companheiro de caçada. Administração demorou a contar o sucedido
A Casa Branca tentou hoje, um tanto atabalhoadamente, justificar o tempo que levou a anunciar que o vice-presidente Dick Cheney ferira acidentalmente a tiro um advogado, seu companheiro durante uma caçada, sábado, no Texas.
A administração, normalmente tão lesta a dar a conhecer os menores actos e gestos do Presidente e do vice-presidente, confiou à proprietária do rancho onde se realizou a caçada, Katharine Armstrong, a tarefa de revelar os pormenores do acidente e isso apenas no dia seguinte.
Grande amante de caça, Dick Cheney feriu gravemente Harry Whittington durante uma caçada à codorniz num dos maiores ranchos privados do Texas, que é também o Estado do Presidente George W. Bush.
Whittington, 78 anos, foi atingido por chumbos no rosto, no pescoço e no peito, tendo dado entrada na unidade de cuidados intensivos do Christus Spohn Hospital, de Corpus Christi, mas o seu estado é considerado bom, não correndo risco de vida.
O acidente ocorreu cerca das 17h30 de sábado, mas só na manhã seguinte Katharine Armstrong, cuja família é tida como próxima da maioria republicana, avisou o pequeno jornal local, o Corpus Christi Caller Times.
A notícia chegou à tarde a Washington e fez hoje as primeiras páginas dos jornais críticos ou sarcásticos.
Whittington, importante contribuidor financeiro da campanha de reeleição de Bush-Cheney, cruzou a trajectória dos cartuchos disparados por Cheney quando uma outra codorniz levantou, disse Katharine Armstrong, que testemunhou o acidente.
O porta-voz da Casa Branca Scott McClellan tentou hoje justificar que «a primeira prioridade era assegurar que Whittington recebia os cuidados médicos de que tinha necessidade».
Com os jornalistas a insistirem que isso não impedia que a notícia fosse tornada pública, McClellan escudou-se na repartição de tarefas entre os serviços: «Era o gabinete da vice-presidência», e não a presidência, «que dirigia as operações para fazer sair a informação. Isso implicava o vice-presidente não sei que mais vos dizer».
Admitiu que ele próprio e o Presidente Bush foram informados no sábado.
McClellan não soube também explicar porque a administração confiara à anfitriã da caçada a tarefa de informar o jornal local.
Entretanto, uma porta-voz do hospital afirmou hoje que Whittington «está de boa saúde e evolui bem».
Adiantou que o ferido «foi atingido no ombro, no alto do corpo, no peito e em certas zonas do pescoço».
«Não se tratou de um impacto directo», mas sim de vários chumbos dispersos que o atingiram, referiu a porta-voz hospitalar.
2006/02/13 | 18:43
Dick Cheney feriu acidentalmente a tiro um companheiro de caçada. Administração demorou a contar o sucedido
A Casa Branca tentou hoje, um tanto atabalhoadamente, justificar o tempo que levou a anunciar que o vice-presidente Dick Cheney ferira acidentalmente a tiro um advogado, seu companheiro durante uma caçada, sábado, no Texas.
A administração, normalmente tão lesta a dar a conhecer os menores actos e gestos do Presidente e do vice-presidente, confiou à proprietária do rancho onde se realizou a caçada, Katharine Armstrong, a tarefa de revelar os pormenores do acidente e isso apenas no dia seguinte.
Grande amante de caça, Dick Cheney feriu gravemente Harry Whittington durante uma caçada à codorniz num dos maiores ranchos privados do Texas, que é também o Estado do Presidente George W. Bush.
Whittington, 78 anos, foi atingido por chumbos no rosto, no pescoço e no peito, tendo dado entrada na unidade de cuidados intensivos do Christus Spohn Hospital, de Corpus Christi, mas o seu estado é considerado bom, não correndo risco de vida.
O acidente ocorreu cerca das 17h30 de sábado, mas só na manhã seguinte Katharine Armstrong, cuja família é tida como próxima da maioria republicana, avisou o pequeno jornal local, o Corpus Christi Caller Times.
A notícia chegou à tarde a Washington e fez hoje as primeiras páginas dos jornais críticos ou sarcásticos.
Whittington, importante contribuidor financeiro da campanha de reeleição de Bush-Cheney, cruzou a trajectória dos cartuchos disparados por Cheney quando uma outra codorniz levantou, disse Katharine Armstrong, que testemunhou o acidente.
O porta-voz da Casa Branca Scott McClellan tentou hoje justificar que «a primeira prioridade era assegurar que Whittington recebia os cuidados médicos de que tinha necessidade».
Com os jornalistas a insistirem que isso não impedia que a notícia fosse tornada pública, McClellan escudou-se na repartição de tarefas entre os serviços: «Era o gabinete da vice-presidência», e não a presidência, «que dirigia as operações para fazer sair a informação. Isso implicava o vice-presidente não sei que mais vos dizer».
Admitiu que ele próprio e o Presidente Bush foram informados no sábado.
McClellan não soube também explicar porque a administração confiara à anfitriã da caçada a tarefa de informar o jornal local.
Entretanto, uma porta-voz do hospital afirmou hoje que Whittington «está de boa saúde e evolui bem».
Adiantou que o ferido «foi atingido no ombro, no alto do corpo, no peito e em certas zonas do pescoço».
«Não se tratou de um impacto directo», mas sim de vários chumbos dispersos que o atingiram, referiu a porta-voz hospitalar.
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