sexta-feira, março 31, 2006

E eu digo: Salut i força al canut:)!

Catalunha dá mais um passo rumo à sua autogovernação
Bernat Armangue/AP

Pascual Maragall, presidente do Partido Socialista da Catalunha, aplaude a aprovação do novo Estatuto


Vítor Pinto Basto

A pós sete horas de debate, os deputados espanhóis aprovaram, ontem, um documento inédito ao aceitarem pela primeira vez que uma Comunidade Autónoma espanhola seja considerada "uma nação". Os nacionalistas catalães dão assim mais um passo rumo à autogovernação.

O novo Estatuto da Catalunha foi aprovado por maioria absoluta, com os votos de 189 dos 345 deputados. Por razões diametralmente opostas, votaram contra (154 votos) os independentistas da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) e o Partido Popular (PP); a eles juntou-se o deputado basco da EA.

Os independentistas catalães queriam mais competências, mais autogoverno e dizem que votaram contra porque o documento, segundo o seu porta-voz, Joan Puigcercos, "não consagra a Catalunha como uma nação, apesar daquela palavra aparecer escrita no estatuto.

Os populares, pelo contrário, queriam conceder menos autogoverno autonómico. O seu líder, Mariano Rajoy, diz que, com a aprovação daquele texto, começou para a Espanha o início de uma nova fase da sua vida institucional "O início do fim do Estado espanhol".

O texto deverá ser, agora, levado ao Senado espanhol, onde poderá ser alterado antes de ser adoptado definitivamente pelos deputados. Depois, será votado, em referendo, pelo povo catalão.

O novo Estatuto, com 223 artigos, significa um avanço significativo no autogoverno da Catalunha, sobretudo se tivermos em conta o teor do documento anterior, datado de 1979, estava a Espanha, morto o ditador Franco, a dar os primeiros passos da democracia e a dividir o país em comunidades autónomas, cada uma com o seu Estatuto. Agora, Zapatero tem pela frente um conjunto de propostas de alteração desses estatutos e o seu futuro político depende, segundo os analistas, da maneira como vai gerir esse complexo dossiê. Complexidade que se acentuará quando for discutido o do País Basco, onde os nacionalistas exigem ter direito à autodeterminação.

Na Catalunha, o presidente do Governo espanhol envolveu-se pessoalmente nas difíceis negociações e conseguiu reduzir substancialmente as reivindicações dos nacionalistas num documento que foi aprovado, por 90% dos deputados catalães, no passado mês de Setembro (novamente o PP votou contra).

No Parlamento espanhol, José Luíz Zapatero contou com o apoio dos nacionalistas democratas-cristãos da Convergência i União (CiU). O partido de Artur Mas foi batido nas eleições regionais de 2003 pelos socialistas e pelos independentistas da ERC mas, ontem, voltou a traçar os destinos da Catalunha ao ajudar a aprovar um documento que não agradará a uma parte substancial da população catalã, que quer mais autogoverno para gerir a sua riqueza. Riqueza que Zapatero quer ver distribuída, com "espírito de solidariedade" por outras comunidades espanholas. Como manda a Constituição espanhola.

quinta-feira, março 30, 2006

Em abstracto sou contra. Na prática parece-me temporariamente indispensável.

PS e BE aprovam quotas de um terço de mulheres

PS e BE aprovaram esta quinta-feira, na generalidade, com a oposição do PSD, PCP, CDS/PP e PEV, quatro projectos para impor quotas de um terço de cada género nas listas eleitorais, para aumentar a representação das mulheres.



As quotas serão aplicadas nas legislativas, autárquicas e europeias, obrigando os partidos a adoptarem a regra interna do PS e candidatarem pelo menos 33,3% de mulheres, sendo rejeitadas as listas que não a cumprirem.
O projecto de Lei da Paridade do PS e os três diplomas do Bloco de Esquerda (BE) que alteram, respectivamente, as leis eleitorais da Assembleia da República, das autarquias locais, do Parlamento Europeu, serão agora discutidos na especialidade.

Quando entrar em vigor, a nova legislação não garantirá, porém, a presença de um terço de mulheres no Parlamento, porque apenas impede que «mais de dois candidatos do mesmo sexo» sejam «colocados consecutivamente» e nada determina quanto aos cabeças-de-lista.

PS e BE justificaram um sistema legal de quotas com a existência de obstáculos ao acesso das mulheres aos cargos políticos, que não foram detalhados, enquanto PSD, PCP e CDS/PP contestaram que o género seja considerado na escolha dos candidatos.

Apesar do voto contra da bancada social-democrata, a deputada do PSD Ana Manso anunciou que apresentará uma declaração de voto em conjunto com outros deputados, depois de a aprovação dos diplomas ter sido aplaudida pelos grupos parlamentares do PS e do BE.

Diário Digital / Lusa

30-03-2006 17:46:00

quarta-feira, março 29, 2006

O ramo de oliveira (onde pousa a Vitória).

Sousa,

Recebi o SMS, mas de ficção científica estou farto, ainda há momentos ouvi o líder parlamentar do PP sugerir que para salvar a maternidade de Elvas bastava convencer as mulheres espanholas a virem lá ter as suas criancinhas. Factos, quero factos, tão palpáveis como os 50 milhões de chineses - pelo menos... - que fazem fila para se tornarem sócios do Glorioso. Está você arrependido? Pois tire as devidas conclusões do sentimento - assine a propostazinha, compre o kit e a t-shirt. Porque na próxima Quarta-Feira, cá em casa, não haverá lugar para duplicidades: levaremos cinco todos ou todos seremos abençoados pelo Deus do Moretto. Estou-me nas tintas para a liberdade de expressão, o desportivismo, a sadia convivência, o relativismo cultural e até o direito à diferença, aqui só entram benfiquistas, analfabetos futebolísticos como a Gertrudes ou objectoras de consciência ao futebol como a menina Maria. Lá fora é outra coisa: como já teve a oportunidade de verificar, sou amigo do Miguel Sousa Tavares e mantenho uma relação muito cordial com o Sr. Jorge Nuno Pinto da Costa. Sem problemas, reparou? Sabe porquê? Porque não me planto em casa deles a rezar Terços para o FCP perder! É pegar ou largar - cá em casa só dentro do meu quadrado, como diria o Manuel Alegre (por acaso benfiquista). Ou mesmo o senhor engenheiro José Sócrates!, não me diga que não lhe ouviu o entusiástico optimismo para Barcelona depois do jogo de ontem. Vai ver o jogo em Angola! Em Angola, percebeu? O Primeiro-Ministro nem em viagem oficial esquece os seus deveres para com a Nação benfiquista e compreende-se - ela confunde-se com a outra, a portuguesa.
Decida-se.

P.S. A menina Maria acaba de telefonar, intercedendo pela Gertrudes, que não por si. Compreendo-a, afinal você é um porco chauvinista que mantém a sua mulher num estatuto de dependência incompreensível para um homem igualitário, paritário e feminista como eu. Por ela - pobre fêmea escravizada aos seus apetites, caprichos e mordomias! - aceitarei outra modalidade: em dias de jogos do Benfica você ficará confinado ao quarto por cima da garagem, o qual a menina Maria se prontificou a revestir a cortiça e a dotar de vidros duplos para que nenhuma heresia me chegue aos ouvidos. (Como a menina Maria vive com dificuldades em Inglaterra e eu estou a planear uma OPA sobre o Sporting, o preço das obras será deduzido do seu chorudo ordenado).
É tudo.

Machado Vaz, A Águia Magnânima.

terça-feira, março 28, 2006

SMS.

Patraozinho,
FOI PENALTI, FOI PENALTI, FOI PENALTI!!!!!!!!!!!
Lá, sem o Robert e com o Moretto proibido de pôr o pé na bola... ganhamos!!!!! (Ao que eu chego, meu S.Juon do Puorto, carágu, para ele me perdoar, mas já não aguento tanto xuxi, ssója e vanvú:().
Posso voltar, patraozinho? Posso?

Sousa-san.

Este timing pode ser um tiro no pé da esquerda:(

Filme político de Moretti gera polémica em Itália



José Mário Silva

Aestreia na passada sexta-feira, a pouco mais de duas semanas das eleições legislativas italianas, que se realizam nos dias 9 e 10 de Abril, de um filme anti-Berlusconi, assinado por Nani Moretti - um realizador assumidamente de esquerda, que gosta de trazer a política para o centro dos seus filmes - está a gerar acesa controvérsia em Itália, sobretudo dentro dos partidos que vivem, com uma certa ansiedade, a aproximação de um dos mais renhidos plebiscitos dos últimos tempos.

O senador Michele Bonatesta, da Aliança Nacional (partido de Gianfranco Fini, o segundo maior do governo de coligação liderado pela Força Itália), não se coibiu de afirmar que Il Caimano [O Caimão], último trabalho de Moretti, é "a quintessência do tédio e do ódio a Berlusconi", procurando apenas transformar-se no "emblema da criminalização e demonização do primeiro-ministro".

Já Francesco Rutelli, líder de uma das forças (Margarita) com maior peso na oposição parlamentar ao Cavalieri, revelou-se bastante evasivo: "Não creio que tenha tempo de o ver [ao filme] antes das eleições." Igualmente cauteloso, Romano Prodi, ex-presidente da Comissão Europeia e principal favorito (segundo as sondagens) à vitória nas eleições de Abril, à frente da plataforma Oliveira (centro-esquerda), limitou-se a desejar que o impacto de Il Caimano seja "útil e não provoque danos na campanha eleitoral".

Essa parece ser também a vontade do próprio Moretti, que se manteve bastante discreto nos últimos dias, assistindo apenas a uma das várias projecções promocionais do filme e reduzindo as entrevistas radiofónicas e televisivas ao mínimo indispensável.

Por seu lado, o primeiro-ministro, novamente "debaixo de fogo" no celulóide (depois da ficção Bye Bye Berlusconi, do alemão Jan Henrik Stahlberg, apresentada em Fevereiro no Festival de Cinema de Berlim), reagiu ao seu estilo. Quando os jornalistas lhe perguntaram se tenciona ver a obra de Moretti, respondeu com rispidez: "Não, claro que não, absolutamente não."

As resistências a Il Caimano - um termo que foi cunhado pelo jurista Franco Cordero nas páginas do La Repubblica - não se resumem contudo aos partidos envolvidos no frenesim pré-eleitoral. Todas as estações televisivas, mesmo as poucas que estão fora da esfera de influência de Berlusconi, ignoraram olimpicamente a estreia do filme. E se os canais pertencentes ao grupo Mediaset (Rete 4, Italia 1, Canal 5) nem sequer se deram ao trabalho de explicar porquê, a TG2 (pública) apresentou uma nota, lida no telejornal da noite, em que justificava o silêncio como forma de respeitar a igualdade na gestão do tempo de antena das várias coligações que concorrem ao próximo acto eleitoral.

Não por acaso, Il Caimano, produzido pela Sacher, é a primeira obra do autor de Palombella Rossa que nem sequer se candidatou aos financiamentos públicos da RAI, assim garantindo uma total independência e liberdade criativa.

Após uma espécie de interregno em O Quarto do Filho, melancólica reflexão sobre o impacto da morte de um adolescente numa família de classe média, que arrebatou a Palma de Ouro em Cannes (2001), Moretti regressa ao tom mordaz, humorístico e assumidamente "esquerdista" de Abril (1998), rodado entre a primeira vitória de Berlusconi (1994) e a sua única derrota (1996), às mãos de Romano Prodi.

Il Caimano acompanha os muitos obstáculos encontrados por uma jovem realizadora (Margherita Buy) e um produtor de filmes série B (Silvio Orlando) quando tentam fazer um filme sobre Berlusconi, começando pela dificuldade em encontrar um actor disposto a assumir o papel do líder da Força Itália.

Em entrevista à revista L'Espresso, em Agosto de 2005, Moretti previu que o centro-esquerda, caso vença estas eleições, encontrará um "país armadilhado economicamente e de rastos do ponto de vista psicológico, constitucional e moral".


DN.

domingo, março 26, 2006

De regresso.

Maria,
Cheguei do Algarve e do Congresso de Diabetologia com uma sensação estranha de apaziguamento. Nos últimos anos, os convites para falar em reuniões especificamente médicas ou de profissionais de saúde multiplicaram-se. O que enternece o "fugitivo" das enfermarias que fui. Hoje, tanto tempo volvido, penso que a psiquiatria não era a única solução, talvez a medicina familiar não corasse de vergonha por me abrigar. Facto é que sou psi, alguns vêem-nos como os últimos moicanos da arte - ou charlatanice... - que recusa o método experimental. Não satisfeito, ensino Sociologia Médica. Disciplina suspeita por tentar reflectir sobre a instituição, suas práticas e ideologias, recusando a linearidade do velho e reconfortante "contra factos não há argumentos". E é a este marginalzito que os colegas abrem os braços e deixam o prazer/angústia de escolher os temas das suas conferências. Estará a idade a tornar-me respeitável? Não sei. Mas revi gente que não encontrava desde os anfiteatros da faculdade e escutei intervenções sublinhando a urgência da educação médica, sobretudo na vertente relacional. Que mais poderia desejar? Pois se até a paella na Marina foi um sucesso... Desculpa, não me lembrei que estás farta da comida inglesa:(. Pronto, está decidido - amanhã mando-te uma francesinha por correio-expresso!
Um beijo e boa noite.

sábado, março 25, 2006

Mais um passinho...

Homossexuais portugueses já podem dar sangue

Os homossexuais portugueses já podem dar sangue, depois de o Instituto Português do Sangue (IPS) ter retirado a homossexualidade dos critérios de exclusão, avança o Diário de Notícias este sábado. O presidente do organismo, Almeida Gonçalves, explica a decisão com a existência de uma nova geração de análises, mais fiável no despiste de doenças infecciosas como a SIDA ou as hepatites.



Falando ao DN, Almeida Gonçalves adianta que «a tendência actual é de igualdade de critérios para todas as orientações sexuais, há uma recapitulação em termos internacionais nesta matéria». Segundo o responsável, já foi retirado do site do Instituto o critério de exclusão «homens que têm sexo com homens».
A decisão foi tomada no fim de 2005, mas até ao momento, nem as associações de defesa dos direitos dos homossexuais tinham conhecimento. A alteração da política foi explicada com a existência de um novo tipo de análises, os testes de ampliação de ácidos nucleicos – TAN. «Pelo seu grau de fiabilidade muito superior aos antes utilizado, estes testes permitem despistar com muito mais segurança a existência de infecções como a do HIV/sida ou das hepatites», afirma Almeida Gonçalves.

Questionado durante anos sobre a validade desta interdição o responsável admitie agora que se tratou de uma estigmatização sem fundamento científico. «Penso que isso se deveu ao facto de o problema da sida ter começado na comunidade gay americana. Hoje, em Portugal e em quase todo o mundo, a principal via de infecção do HIV é heterossexual», disse.

25-03-2006 14:16:18

sexta-feira, março 24, 2006

Ora aqui está uma boa notícia!

Café Piolho reabre e regressa às tertúlias



Joana de Belém

Fechado há três meses para obras, o centenário Piolho (1909) reabre portas de cara lavada e com vontade de retomar a tradição das tertúlias.

Longe vão os tempos em que os oponentes ao fascismo se reuniam no Piolho, café onde se discutiam ideias e realizavam tertúlias nas noites do Porto. Local associado aos estudantes universitários, tem como característica fundamental a clientela diversificada e o ambiente informal: ao lado do professor pode estar um aluno, junto ao advogado ou arquitecto o desempregado, a freira que aparece à tarde apanha com o fumo do cigarro do "mitra".

Hoje é a primeiro noite em que o Âncora D'Ouro (nome original do espaço, adulterado pelos estudantes durante os anos 50 que, diz-se, chamavam "piolhice" aos docentes universitários que também frequentavam o café) se apresenta à cidade, mas não para todos. Apenas na segunda-feira abre para o público em geral, os fiéis habitués de um espaço que deixou e vai continuar a deixar marcas em várias gerações.

Esta noite, a casa entrega-se ao espírito da tertúlia, com convidados como Germano da Silva, Paulo Valadas e Paulo Morais, ex-vice- -presidente da Câmara do Porto, mas foram muitos outros os que receberam a convocatória para um momento que se pretende espoletador de uma nova dinâmica.

Edgar Gonçalves, um dos proprietários há já 25 anos, cresceu com a casa. "Vim para aqui com 19 anos", corria o ano de 1979, conta ao DN. Edgar Gonçalves não teve outra vida durante os três meses que duraram as obras. "Necessitávamos mesmo de melhorar isto em termos de espaço público, o cliente gostava do Piolho como era mas não tínhamos grandes condições de trabalho".

"Mataram o Piolho", ouviu já da boca de alguns clientes que vão passando para ver o andamento das obras. "Mantive sempre isto meio aberto para que as pessoas pudessem ver o que estava a ser feito", conta Edgar, que faz questão de ressalvar que quis manter a traça do café da Parada Leitão, praça que o acolhe.

O pequeno restaurante deixa de existir, alargando-se o espaço, mas o mobiliário mantém a dimensão característica, embora substituído. No caso específico das cadeiras foram reproduzidas as originais do Piolho - em madeira, com o assento coberto a pele negra e uma âncora em relevo. "Tentamos não ferir aquilo de que o cliente gosta."

Edgar Gonçalves lamenta apenas a legislação que não lhes permite manter a esplanada aberta durante o horário do café. "Comprámos a residencial por cima por causa do barulho, mas temos de retirar as mesas e cadeiras do exterior à meia-noite [a duas horas do fecho do café] e as pessoas amontoam-se no passeio".

*com Sara Novais

quinta-feira, março 23, 2006

Sem prolongar desnecessariamente...

Medicamento pode inverter Alzheimer
2006/03/23 | 12:47
Estudo revela que o genérico Donepezilo pode melhorar as faculdades cognitivas dos pacientes em casos mais graves da doença.

Um medicamento com o nome genérico de Donepezilo pode inverter os efeitos da doença de Alzheimer nos pacientes mais gravemente afectados, segundo um estudo publicado esta quinta-feira pela revista médica britânica The Lancet, noticiou a agência Lusa.

O estudo foi realizado por médicos do prestigioso Instituto Karolinska, da Suécia, que compararam o efeito do Donepezilo (disponível em Portugal) em 99 pacientes a quem foi administrado o fármaco durante seis meses e noutros 95 tratados só com um placebo. Todos sofriam de demência severa, uma condição que afecta um em cada cinco doentes de Alzheimer.

«O nosso estudo demonstra que o Donepezilo pode melhorar as faculdades cognitivas e conservar essas funções nos pacientes afectados por Alzheimer grave», afirmam os autores do estudo.

Uma preocupação dos estudiosos de Alzheimer é que os tratamentos com fármacos podem permitir a sobrevivência do paciente num estado de demência e prolongar assim desnecessariamente o seu sofrimento.

«A administração prolongada de inibidores de colinesterase (de que é exemplo este fármaco) não afecta a sobrevivência», dizem os autores do estudo.

No seu entendimento, «este tratamento deveria ser uma opção disponível porque pode ajudar os pacientes em fase avançada de demência sem prolongar desnecessariamente o tempo em que sofrerão de Alzheimer grave».

Ó mundo cruel!

Para onde fugiu o Murcon?:(.

quarta-feira, março 22, 2006

Gould.

(velharia).


Da serenidade


Trouxe, de mais uma catastrófica visita à FNAC!, as duas Variações Goldberg de Bach por Glenn Gould: de 55 e 81. E vocês – sobretudo os que não deitam nada fora! – invocam artigos em que assumi total cegueira de ouvido e acusam-me, risonhos ou ácidos, de novo-riquismo – “deu-lhe para fingir que percebe de música clássica”. Não percebo. O ouvido continua mais duro que o diamante. E contudo guloso... Porque saboreio intensamente a beleza da música, apesar de não conseguir reproduzir um acorde sem, ofendido, ver a família rebolando-se num choro convulsivo de gargalhadas respeitosas – que talento para assim desafinar! A humilhação pior é a solitária: em diversas situações uma melodia irrompe e eu rosno que a conheço e guardo na estante, paredes-meias com os livros, mas sou incapaz de a baptizar e a quem a compôs. Enfim...
Um texto sublinha as diferenças entre as interpretações. O que me interessou, como se reflectiria o trajecto de vinte e seis anos de vida no teclado? Antes de procurar, triste aluno aplicado e espesso, as nuances que outros notam espontaneamente, uma frase do pianista saltou-me à vista. Dizia ele que “o objectivo da arte não é a libertação de uma momentânea descarga de adrenalina, mas antes a construção, gradual e ao longo de uma vida, de um estado de encantamento e serenidade”. Dei comigo a pensar que talvez o objectivo de arte e vida fosse o mesmo: quando temos sorte - ou a procuramos? -, também a segunda evolui de picos afectivos jamais esquecidos para uma certa acalmia. Cujo sossego não mata à fome as velas da nossa embarcação; a viagem continua.
Reza a crónica que nove anos após a gravação de 55 Gould abandonou os palcos. Devolvendo-lhe a palavra: “A tecnologia tem o poder de criar um clima de anonimato e conceder ao artista o tempo e a liberdade para preparar a sua concepção de uma obra levando ao limite as suas capacidades”. O psiquiatra em mim desconfiou de segundo coelho morto com a mesma cajadada, não seria o homem avesso à angústia provocada por mil olhos atentos nas salas de concerto? Pouco importa, decidiu que precisava de isolamento para extrair o melhor de si próprio e fê-lo. A segunda gravação leva Tim Page, autor do texto, a falar de uma interpretação “profundamente pessoal e contemplativa”. Gould fez cinquenta anos a 25 de Setembro de 1982 e sofreu um acidente vascular fatal a 27. Page diz que tivera a sensação do círculo a fechar-se com a morte de um homem que lhe parecera, na última entrevista, “pronto a metamorfosear-se em puro espírito”. E cita T.S. Eliot: “Não pararemos de explorar/E o fim de toda a nossa exploração/Será chegarmos onde começámos/E conhecer esse lugar pela primeira vez”.
Terá Gould alcançado alguma forma de encantamento e serenidade? Os musicólogos o saberão. Eu, resignado à incapacidade de apreciar devidamente as mais ou menos subtis diferenças de interpretação, pedi boleia e ajuda a música e poema - não será a vida assim, a busca da paz que nos deixe revisitar o passado? Com ternura, mas também com a distância que permite apreciá-lo a salvo das armadilhas de afectos violentos?
Como é óbvio, a parelha Bach/Gould não foi o meu único capricho. No saco, ladrão despudorado com ademanes de inocência baratinha, viajou colectânea magnífica de Pablo Milanés. Uma das canções chama-se “O tempo é implacável”. Nela se fala do tempo, “o implacável, o que passou”, das “recordações que, quando menos se imagina, afloram”, de “marcas impossíveis de apagar”. A serenidade é uma estação de chegada, talvez nunca atingida; seguramente longínqua, apesar do caminho ser breve. Se Gould estava pronto para morrer, não sei. Mas foi capaz de tocar “outras” Variações Goldberg, apoiado no que vivera o rapaz genial de vinte e dois anos para se transformar no homem genial de quarenta e nove. Poliu a obra de juventude sem a amordaçar. E se a vida permitisse o mesmo? Voltaríamos atrás para percorrer outra veredas, guardando na estante – em DVD! – os trambolhões dados na primeira viagem.
Mas para comparar com os da segunda! Porque a vida não apresenta o magnífico rigor de uma partitura de Bach e nós a “tocamos” de ouvido, órfãos de génio e ensaios. Em contrapartida, público não falta...

terça-feira, março 21, 2006

Sábado à tarde.

Maria,
Perguntas-me pelo fim-de-semana em Cantelães. Choveu a cântaros. E eu esfreguei as mãos, tinha de trabalhar e o sol não me piscava o olho cá fora. Depois o Gaspar enroscou-se no meu colo e sorriu. Não trabalhei. Não saí. Não arredei pé do tapete. Senta-te, para evitar um desmaio às cavalitas do gargalhar - vi o canal Panda! Que é sinistro... Para onde fugiram os desenhos animados do meu tempo? Porque reinam criancinhas cruéis e ululantes, com traços faciais a meio-caminho entre Washington e Tóquio? Que se dane, o miúdo sorria, abraçado a mim:).

segunda-feira, março 20, 2006

O que torna a prevenção muito difícil, acrescento eu.

Drogas


Leonel de Castro

Três estilos de música electrónica, pessoas diferentes, cada uma com as suas drogas de eleição. O psicólogo Vítor Silva percorreu, durante dois anos, festas de "trance", "house" e "techno" e confirmou que o uso recreativo de drogas nestes ambientes é distinto.

"O uso das drogas está muito associado aos estilos destas três subculturas de música. Há policonsumo em todas e o haxixe surge como o refogado de um prato psicotrópico em que se juntam todas as outras", explicou.

No entanto, há as drogas rainhas de cada estilo. "O 'trance' está ligado à espiritualidade, logo as drogas de eleição são as psicadélicas (LSD, cogumelos mágicos). O 'house', muito associado à sensualidade, privilegia o consumo da cocaína e da pastilha, enquanto o 'techno' está completamente ligado à energia e ao consumo de pastilhas", resumiu Vítor Silva.

Esta conclusão foi apresentada em tese de mestrado, na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, e sugere outras diferenças a nível cultural e socioeconómico, as primeiras a serem detectadas pelo psicólogo que quis entender os consumos recreativos.

"O 'techno' é o parente pobre. As pessoas que frequentam as festas têm um nível cultural mais baixo, poucas são as que têm a escolaridade obrigatória. Muitos são desempregados. Gostam de fazer esta distinção, porque normalmente dedicam-se ao pequeno tráfico", referiu Vítor Silva, adiantando que são festas frequentadas por gente muito jovem, com 16 anos.

Os adeptos da música "trance" são, "talvez, os que melhor planeiam o consumo, porque o entendem como oferendas dos deuses, com objectivos específicos, associados à transcendência e os excessos provocam os castigos". São normalmente da classe média e estudantes universitários ligados às áreas das humanidades, com um nível cultural elevado.

Para Vítor Silva, o "house" foi o estilo mais difícil de definir, "é muito heterogéneo. "Por um lado, temos um grupo de pessoas mais velhas, até aos 40 anos, com poder económico, que consome cocaína. Os mais novos, entre os 16 e os 25 anos, optam pelas pastilhas, provavelmente ecstasy".

Excessos

Em qualquer um dos casos, a maior preocupação revelada é o excesso de consumo. "São consumos contextualizados, em ambientes de festa, e normalmente demonstram conhecimentos sobre os efeitos de cada uma das drogas. Por exemplo, que não devem consumir mais do que uma determinada quantidade e o que não devem misturar, isto de acordo com os questionários que elaborei ao longo do trabalho", afirmou.

No entanto, "na prática, fazem o contrário. Há quem fale em consumos de 12 pastilhas por festa, ou mesmo em 'minar a bebida', ou seja, desfazer ecstasy numa bebida alcoólica quando apenas devem beber água". Por outro lado, sublinhou, além do consumo exagerado e mal associado, "há ainda a questão de não se saber, por exemplo, de que são feitas as pastilhas. Estão muito adulteradas e representam um risco para a saúde pública mais grave do que o MDMA (que deu origem ao ecstasy)". Verificou que, além do ecstasy, também consomem anfetaminas.

"Era importante apostar nas políticas de proximidade, fazer o que se faz na Holanda onde se facilita os testes às pastilhas. Correm-se menos riscos. Basta ver alguns pela manhã a delirar ou a não conseguir andar".

"É importante lembrar que se tratam de consumos exagerados, mas não são toxicodependentes e não se vêem como tal", concluiu.

sábado, março 18, 2006

Os homens...:).

Telefonema escrito (Dezembro 2000)



António,


Achei melhor escrever-te. Há assuntos impróprios para o sinistro regateio dos nossos advogados, mas infelizmente os últimos telefonemas não foram um modelo de civismo, talvez ainda não estejamos preparados para falar sem duas pedras na mão. Concordarás que utilizando o plural recuso o papel da desgraçadinha cujo marido partiu e, não satisfeito com abandoná-la, lhe desliga o telemóvel na cara. Também eu já o fiz e quanto aos insultos, bem…, penso que vêm sendo democraticamente distribuídos. Dito isto, não penses que o Senhor me iluminou e tenciono fazer parte desse teu lamentável plano para apresentar ao mundo a separação como resultado de um acordo entre “duas pessoas adultas”. Não sei se somos adultos, mas tenho a certeza de que tu és adúltero ( não me admiraria se no caso dos homens os dois termos fossem sinónimos! ). Pelo que farás o favor de te amanhar com as consequências dos teus actos, seja a nível da sacrossanta família – a minha está elucidada… - ou dessa corja de machos latinos endinheirados a quem chamas, com assinalável optimismo e uma certa melodia siciliana, os “rapazes”. Os “rapazes”, diga-se de passagem, dirigem fábricas lucrativas, jogam ténis sem grandes resultados para o pneu e cobrem as costas uns dos outros quando saem à noite, mas não abandonam as queridas mulherzinhas. António, a tua fogachada vai contra as regras vigentes na tua própria equipa.
O que me intriga. Das outras vezes – ou pensas que não estou a par das tropelias anteriores? – foste sempre previsível: passarinho novo, uns dias de trabalho fora do país sem hotéis e países devidamente identificados, chocolates e sexo ( ainda mais ) distraído para mim, ego satisfeito, fim de semana em família na casa da Póvoa, jantar a dois no Casino. Até à próxima… Não estou particularmente orgulhosa por ter aturado essa rotina, mas também não me refugiarei no papel da defensora do bem estar dos miúdos. Continuámos juntos porque não desejava perder-te para uma qualquer flausina que as minhas cenas arvorassem em segunda mulher da tua vida - suponho que ainda te lembras de me considerar a única -, depois de saíres de casa o teu orgulho adolescente impediria uma reconciliação. No fundo cometi um erro habitual: amar o marido, aturá-lo como um filho traquina e esperar a acalmia dos anos.
Embora me revolva as tripas, sou obrigada a aceitar o diagnóstico dos que te conhecem o derriço: a rapariguinha está apaixonada por ti e não merece as frases que aliviam o fígado e preparam o perdão, género “a cabra roubou-mo porque os homens são uns anjinhos, sobretudo quando começam a envelhecer”. Sabes, é difícil abrir mão dessas frases feitas. As mulheres utilizam-nas para salvaguardar os seus homens e a intenção de lhes perdoar. Fazem-no à custa de os considerar débeis mentais, mas fazem-no, transformam-nos em pobres escravos das hormonas que outras, mais jovens e apetecíveis, manobram a seu bel prazer. Não te darei o benefício de tal ofensa, seria atentar contra a estatística. Ao longo dos anos coleccionaste estagiárias, clientes e muito provavelmente, bom…, senhoras da noite, agrada-te o eufemismo? Perante uma colecção para todas as estações seria ridículo partir do princípio que sistematicamente foste seduzido e abandonado. O inverso também não é verdade, por vezes penso que os homens casados têm mais saída do que os solteiros, talvez comprometam menos esta liberdade compulsiva que as miúdas de hoje tanto prezam.
A verdade é que por esta saíste de casa (a expressão “abandono do lar” não me parece adequada, atendendo ao registo de cama-mesa-e-roupa-lavada em que vinhas funcionando). Como já disse, pelo que de ti conheço o regresso está fora de questão, mesmo que o comodismo o exigisse, o tal orgulho macho não o permitiria. Deve ser cansativo, António, provar todos os dias que se é homem. E não às mulheres!, que não partilham os vossos critérios. Aos outros homens, quantas vezes me senti um pretexto para esses concursos de galos. Porque não arreiam simplesmente as calças e medem as gaitas? Afinal pensam com elas…
Não digo neste caso, já admiti que todos me dizem ter a miúda cabeça, para além de um corpo de anúncio televisivo. Mas terá sido “apenas” isso, descobriste pessoa inteira e não boneca insuflável de carne e osso? Porque não te limitaste a conceder-lhe os intervalos entre a fábrica e nós? As viagens de negócios, verdadeiras e fictícias? Por que arriscas a amizade dos amigos que, não a meu pedido!, se recusam a receber-vos? E o habitual desmaio da tua mãe? Fez-te descobrir coisas novas ou recuperaste com ela o que perdemos há muito? Vais partir noutra direcção ou regressar sem mim à estaca zero da nossa estrada? Em melhor companhia…, afinal ela tem menos vinte anos do que eu e outros tantos quilos, com inveja amargurada o digo! Porque neste mundo de homens vocês podem envelhecer tranquilamente e nós não, tudo o que a meia-idade traz de bom fica na penumbra da vossa rendição à imagem física. Mesmo que ultrapassemos incólumes os anos, as gravidezes, os problemas, mesmo que vivamos nos health-clubs os breves momentos entre as aulas dos miúdos e o trabalho chato e inacabado que nunca reconheceis, o vosso olhar embacia-se, sofre de “miopia conjugal”. Tirei um curso de Românicas para acabar tua mulher a tempo inteiro, mas ainda recordo Ovídio: “Eis a causa que impede as esposas legítimas de serem amadas; os maridos vêem-nas quando querem”. E onde está a alternativa, para uma dona de casa que tem de a manter a funcionar sobre rodas? Ir de férias com as amigas? Arranjar um amante com as vossas justificações habituais na manga, “querido, ele não significou nada para mim, já nem recordo a sua cara, sabes como são estas coisas, estava com a malta e tinha bebido muito, depois o tipo não me largava e eu cheia de medo que tu e os miúdos viessem a saber…”?. Merda, António, quase ficamos com a sensação de ter de vos agradecer as mentiras!
E como competir? Vocês saem a correr de manhã e deixam-nos em roupão, atarantadas, hesitantes entre os restos dos vossos pequenos almoços e o atraso dos miúdos, sempre avessos a deixar a cama. Na qual pensamos em plena correria, “há quantas semanas não fazemos amor e como o temos feito?”. Os homens acreditam com demasiada facilidade nas mentiras piedosas com que os sossegamos. Não imaginas as conversas que se ouvem num ginásio depois de uns quilómetros no tapete e um duche bem quente! As mesmas parvas que aturam as queixas de cansaço e a rotina erótica do Sábado à noite – fazes alguma ideia de há quanto tempo não me surpreendes? – suspiram pelo tapete da sala ou por automóvel de namoro, odeiam-vos a pressa já ensonada que as deixa despertas e a ferver. Entretanto suas excelências quedam-se, embasbacados, perante miúdas que vivem em casa dos pais e todas se aperaltam para o emprego. Dá-lhes vinte anos como os que vivi e veremos o que resta da sua frescura! Mas os homens não pensam nisso, vivem a meia-idade com desespero, procuram recuperar nelas um pouco do vigor que lhes sentem fugir. Supõe que chegas a velho - e espero que sim, os miúdos não merecem ficar órfãos, apesar do pouco que lhes vens ligando -, achas que a lua de mel será eterna? Ou tencionas pô-la também na beira do prato quando o hábito vos atacar? E ela, acompanhar-te-á sem dúvidas? Neste momento és o homem poderoso que por si abandonou uma família e lhe mostra o mundo, mas estará disposta a apagar-se contigo? Exigirá crianças? Admitirá como eu que durmas no quarto de hóspedes porque “tens de trabalhar” no dia seguinte? Que voltes à tua única paixão duradoura, a fábrica, e chegues ao fim da tarde para mergulhar no sofá e no zapping? E como reagirás tu à sua juventude? Com orgulho ou suspeitas? A menos que as cenas de ciúmes sejam um privilégio meu, é preciso ter lata para abandonar a mulher e depois largar-lhe remoques por ela ter ido ao cinema com um amigo de longa data. Meu pobre António, não me sinto hoje obrigada à discrição, se quisesse enganar-te poderia fazê-lo com alguns dos teus companheiros de borga, rondam como abutres. Aparentemente a famosa solidariedade masculina também abre brechas, algumas das escapadas no passado foram-me contadas por amigos teus, preocupados com o meu bem-estar e prontos a consolar-me. Não penses que preparo declaração da minha superioridade moral, não o fiz pela mais prosaica das razões: nunca me apeteceu. Escandalizado? As mulheres, meu caro, finalmente perceberam que apenas são mais fiéis do que os homens porque eles as convenceram de que eram assim. Não sou mulher de um homem só; gostava só de um homem.
Desculpa, acho que me passei, isto parece um telefonema por escrito, ainda aí estás? Espero que sim, precisamos de ter cuidado. António, vivemos numa terreola, em país pequenino. Como pensaste que poderias dizer aos miúdos que não os levavas à neve porque tinhas de sair em trabalho? E a esperteza saloia de fazer as reservas noutra agência de viagem e mudar de estância de Inverno! O gerente ficou eufórico com a hipótese de passar a ter-te por cliente e falou disso ao jantar, os filhos dele são colegas dos nossos, mas com menos dinheiro, vai daí quiseram ir à neve por interposta pessoa e perguntaram aos garotos como era em…, como se chama o sítio…?, pois, Courchevel. Os putos não têm culpa, António, deixaste-me a mim, não a eles, percebes? Vais afundá-los em presentes e jantares em restaurantes finos? Deixá-los com os Avós enquanto vives em lua-de-mel? Eu sei que andam difíceis, mas fugir ao seu amuo não é solução, afinal ninguém os consultou sobre este circo, compreendem como quase adultos e sofrem como crianças. O amuo serve apenas para te fazer insistir, precisam de ter a certeza que desejas a sua companhia. Por favor, pensa. Usa a cabeça e o dinheiro, pára duas semanas e divide-as irmamente entre os miúdos e a garota (não deixa de ser irónico como ela está mais próxima da geração deles do que da tua!).
Faz o que quiseres, mas não apenas o que te apetecer. Resolve o problema. Ou juro por Deus que não resistirei à tentação de desempenhar o papel da mãe sofredora e maltratada e virá-los contra ti. Que coisa horrível de dizer… Vês? António, precisamos de ter cuidado, toda esta amargura e ressentimento entre nós pode acabar mal. Como nós…
Escrevo-te ao fim do dia. Vinte anos atrás vinhas a correr da fábrica e fazíamos amor. Tinhas um brilho agarotado no olhar. Não me deixavas pôr a mesa, eu fingia um protesto, mas era pegar no casaco e partir rumo ao marisco de Matosinhos ou às tripas do Leonardo na Póvoa, de regresso a casa adormecíamos; abraçados e tarde. Quem sabe?, talvez eu encontre alguém, refazemos os dois as nossas vidas depois da nossa vida a dois. Que acabou. Mas António, não deixámos de ser pais por isso. Tem cuidado. Por eles, mas também por ti - a mim deixaste-me, a eles podes perdê-los. Estás preparado para isso?

Lena.

sexta-feira, março 17, 2006

Dizia-se que fora vencida...

Luta à tuberculose tem de regressar às origens
Política de combate à doença no país falhou. Comissão defende mais unidades específicas para acompanhar doentes




O acompanhamento feito em Portugal aos tuberculosos falhou. Esta é a conclusão da comissão encarregue de elaborar o Programa Nacional de Luta Contra a Tuberculose, que defende a criação de mais estruturas vocacionadas só para o tratamento da doença. "Um espécie de descendentes dos antigos SLAT (Serviços de Luta Anti-Tuberculose) que foram fechados por erro político", defende Agostinho Marques, membro da comissão e director do serviço de Pneumologia do Hospital de S. João, no Porto.

O estudo, que será apresentado ao Governo perto do Verão, defende que estas estruturas deveriam ter duas valências. Por um lado, o diagnóstico em fase muito precoce "por forma a que, entre as primeiras queixas e as segundas, não se ande a contagiar pessoas", acrescenta o especialista. Por outro lado, a obrigação de levar o tratamento de cada doente até ao fim. "Este poderá até ser feito em casa".

Pelo meio, fica o rastreio, ou seja, "a partir do momento em que se diagnostica esta doença, é preciso saber se mais alguém na família, ou no ambiente que o doente frequenta, está infectado", alerta o médico.

Agostinho Marques avança ainda que o estudo propõe que as equipas de enfermagem nestas unidades sejam em número suficiente. "É preciso saber onde anda cada doente e, se falta ao tratamento, a razão por que faltou", justifica. O documento não esquece o internamento destes doentes nos hospitais e avisa que é urgente que se definam espaços próprios para que o contágio não se espalhe pelos outros pacientes. "Não esqueçamos que esta é uma doença altamente contagiosa", relembra.

Mas antes de mais, a comissão propõe legislação para enquadrar a tuberculose e definir regras "muito concretas de método e tratamento", diz.

As propostas a fazer ao Governo pretendem inverter uma tendência que demonstra que a tuberculose em Portugal tem vindo a diminuir menos do que no resto da Europa. Apesar do número de casos, a nível nacional, decrescer todos os anos, "não tem decrescido como deveria", garante o director do serviço de Pneumologia do S.João, acrescentando que "as últimas estatísticas da Direcção Geral de Saúde revelam que Portugal tem o triplo de casos relativamente à Europa dos 15.

Aliada fiel da pobreza

Recorde-se que esta estatística demonstrava que, em Portugal, por cada 100 mil habitantes, há 34 a sofrer de tuberculoses. Numa população de 10 milhões, temos 3500 tuberculoses. Os distritos mais atingidos pela doença são o Porto, Lisboa e Setúbal, estando a cidade invicta na liderança. Dentro deste distrito é a própria cidade do Porto, na área oriental, que alberga o maior número de casos. "Repare, é um fenómeno que vai a todas as camadas sociais, mas preferencialmente às zonas mais pobres e esse é o caso de Campanhã, Bonfim, Paranhos", explica.

Destaque-se ainda que a sessão de amanhã, na Fundação Cupertino de Miranda, no Porto, do XIII Congresso de Pneumologia, será dedicada à tuberculose.


JN

quarta-feira, março 15, 2006

Para acalmar as hostes.

Caríssimos benfiquistas,
Tenho o prazer de anunciar que no princípio de Abril o nosso calvário terminará. (Excepção feita à luta titânica para assegurarmos o terceiro lugar!). A responsabilidade - como é evidente! - cabe em exclusivo às equipas de arbitragem.

Perdidos? Nós? São intrigas da oposição!

Homens não admitem estar perdidos


Um estudo realizado para o Royal Automobile Club (RAC), que presta um serviço de seguros e assistência automóvel na Grã-Bretanha, revelou ontem que os condutores britânicos do sexo masculino sempre tiveram problemas em admitir que estão perdidos e, normalmente, demoram duas vezes mais que as mulheres a perguntar o caminho.

Os homens esperam até 20 minutos antes de se decidirem a perguntar o caminho, enquanto que as mulheres não esperam, em média, mais que 10 minutos. Os 10 minutos de diferença, segundo a sondagem, causam um aumento de tensão entre os casais, como revela a maioria dos inquiridos, cerca de 64%, que admitiram já ter discutido no carro por essa razão.

No total, a resistência dos homens britânicos em admitir que estão perdidos fá-los desperdiçar, em média, perto de seis milhões de horas por ano no carro. Apesar deste facto, apenas 27% dos casais inquiridos pelo RAC revela preparar a viagem com alguma antecedência.


JN.

terça-feira, março 14, 2006

Serviço Público:).

Tiago Sousa Dias

As chamadas para linhas de valor acrescentado foram realizadas durante dois meses e meio
O ex-presidente de uma junta de freguesia do concelho da Guarda deixou levar-se pelo famoso “me liga vai” e terá gasto 49 mil euros em chamadas telefónicas para linhas eróticas, em menos de três meses. Quando chegou a factura, o autarca demitiu-se e a Portugal Telecom (PT) penhorou três terrenos para recuperar a dívida. Os bens foram vendidos ontem em Tribunal.

Correio da Manhã.

segunda-feira, março 13, 2006

Quem não arrisca..., não prova os bolos de bacalhau da Mindinha:).

Abuso de menor (Fevereiro2001)




- O João?
Olhos azuis-bebé em bebé envelhecido de alguns anos. Faces apetitosas e gorduchas, a Tia Amélia costumava chamar-lhe o seu leitaozinho porque dava ganas de o comer, acompanhado por batatinhas loiras - como ele… - e salada mista. Mordiscava-o com ternura carente de viúva longa mas não convencida, a sobrinha e protesto risonho, “ó Tia, parece impossível!”. Os mares assim espremidos, em forma de amêndoa, herdara-os do pai. Que os cuidasse bem!, nada mais restava do Pedro… Talvez o miúdo o pressentisse, quando exibia proeza aprendida com as avós - tinham-lhe ensinado a abrir os braços com ar desprotegido, deixar pender a cabecita para um dos lados e gemer lamento: “fuxiu…”. Dizia-o do gato, animal coerentemente esquivo e autónomo, senhor de si, nada sensível a chamamentos dos teóricos donos. Era habitante da casa com direito a cama, mesa e roupa lavada, mas tais privilégios básicos não o faziam sentir-se obrigado a responder presente a caprichos ditatoriais dos humanos. Dessa distância altaneira mas solidária não se podia gabar o Pedro, fugira como um rato. Ela sentada em banco de jardim para lhe dar as novidades - ou a falta delas! –, e ele pálido como os lençóis que não tinham partilhado, tudo acontecera prosaicamente no automóvel, depois de muitos copos e outros tantos bares. Atenção!, nunca utilizara o facto como desculpa. Também seria masoquismo falar de curte anónima de Sábado à noite, naquele tempo tê-lo-ia definido como namorado, hoje não, cada idade segrega os seus critérios para conceder estatuto de companheiro a alguém. Ele era bonito para além dos olhos, a cabeça não chocava por oca, mas sobretudo fazia-a sentir-se desejada, confundira isso com ser mulher. Não era. À distância dos anos via-se jovem e inexperiente, ansiosa por pequenas liberdades, como sair à noite, e grandes sonhos, como amor para toda a vida. Este não o confessava, por pouco cool. Mas lá no fundo de si, ele ria das frases definitivas derramadas sobre a mesa do café, “não quero amarras antes dos trinta, há muita vida por viver”. Sorriu. Que vivera com o Pedro, sobretudo naquela madrugada? O amor nem pensar, ao menos o desejo e o prazer? Para um não tivera tempo e mesmo o outro, muito sexo feliz depois, defini-lo-ia mais como curiosidade. Afinal as amigas falavam dele como profissionais, são precisos anos para descobrirmos todas as mentiras ditas nas conversas adolescentes. E é tão cansativo resistir fim-de-semana após fim-de-semana à insegurança macha dos homens, ansiosos por estarem à altura das loas exibidas nas mesas de outros cafés, quando não do mesmo. Tinham curtido. E a pergunta sinistra rodando-lhe na cabeça, “é só isto?”. À cautela não lho perguntara. Quanto ao prazer dele, não sabia. Curto fora de certeza!, egoísta como o de certos homens feitos que se estão nas tintas; e o de outros rapazolas, nervosos e apressados, de uma incompetência que seria ternurenta se não deixasse corpo e alma das mulheres a meio caminho. Como cantava a miúda na pimbalhada de Domingo?, ah, sim, a chuchar no dedo! O que lhe faltara de gozo tivera-o de medo, o imbecil nem um preservativo sabia utilizar decentemente, mas calara-se caladinho. Calada mirava ela incrédula o calendário, para quando o sangue tranquilizador? Não veio. Deu consigo na situação daquelas meninas dos anúncios patéticos da TV, no fim do exame olham com um sorriso pitonísico para a câmara, a quem vê de decidir a razão da alegria silenciosa. No seu caso não teriam dúvidas, chorara como uma Madalena arrependida. Bom, talvez mais surpreendida, não pensara que lhe pudesse acontecer, quem pensa, ainda por cima na primeira vez? O olhar dos pais diferente, pelo menos na cabeça dela, a todo o momento pressentia o dedo acusador e a pergunta, retórica por apenas exigir a confirmação da catástrofe. Já o Pedro não desconfiara de nada, aparecera com o sorriso habitual, a moto habitual, a inconsciência habitual. O movimento de recuo e o olhar acossado, “que vais fazer?”. Não tivera a delicadeza de empregar o plural, entrar no comboio sem travões que a levava mundo abaixo, a participação dele no evento terminara no preciso momento em que puxara as calças para cima. Ela não estava ainda preocupada com a decisão, antes disso precisava do mimo que lhe provasse não ter de se afligir sozinha. Tão sozinha como ele a deixara, para depois telefonar com um discurso de inspiração materna - “somos novos, os estudos, quem sabe um dia?, mas não agora, tenho um número de telefone…”. Literalmente – puta que o pariu! Considerara a hipótese do aborto seriamente, defendia-o em abstracto e em concreto dera o voto pela sua despenalização. (Não chegara porque muitos tinham preferido a praia e outros lavavam as mãos como Pilatos enquanto se crucificavam pobres mulheres.) Tinha a certeza que o teria aconselhado a qualquer amiga nas suas condições, mas uma raiva solitária a invadira, depois dele fora vez do pai se pôr de fora. Acontecia sempre assim em alturas de crise, preferia saber e depois fingir que não sabia, a mãe falava pelos dois em ar de mistério, “se o teu pai sabe…”. E também acabara por a deixar sozinha, porque no meio dos argumentos do costume deixara cair frase lamentosa que a reduzia a apêndice mal comportado, “como foste capaz de nos fazer isto?”. Um desejo imenso de ter alguém consigo e para si, não é uma boa razão para encomendar uma criança à cegonha, mas fizera-o. O sofrimento teatral dos pais abafando o seu e ela de imediato inflexível, “vou trabalhar”, precisava de independência para os olhar de frente. Pelas costas viu o Pedro, balbuciando promessas vagas, correndo para a mamã, porque raio há-de ser fértil o esperma de putos assim? Anos duros e órfãos de homem. Trabalhava com uma ferocidade automática, regressara aos estudos à noite, a mãe agradecera a Deus o álibi para gozar o neto algumas horas por dia, o puto reconciliara a família à sua volta, o pai sempre desejara um rapaz e a mãe afogava a solidão em remédios para os nervos. Mas quem não casa quer casa, resistira aos apelos deles e alugara o seu apartamentozinho, o único luxo fora a aparelhagem estereofónica, quem consegue viver sem música? Sem homem sobrevivera bem. Nem sequer à espera de príncipe encantado ou refugiada no ressentimento que os define como todos iguais apesar de só se ter conhecido um. Repartia-se entre o trabalho e o miúdo, adormeciam apaixonados todas as noites. Até aparecer o João. Moreno e sisudo, avesso a motos, palavras raras, um olhar meigo que a admirava, longínquo, da secretária ao lado da sua; as mulheres sentem essas coisas. E assim ficara, mudo durante meses, até o convite pressentido se ter tornado improvável e as colegas já não se meterem com ela, quase caíra quando lhe propusera um cinema. O namoro que conhecia dos livros, João era gentil, com as suas flores roubadas pelos canteiros e mãos suaves, descobriu que o corpo lhe uivava de fome em silêncio no apartamento dele. Quase igual ao seu, com vergonha o admitia – um pouco mais arrumado. O primeiro passeio com o filho e este desconfiado, farejando concorrente, quando chegaram a casa espetara o dedo, solene, “agora vais-te embora”. E João fora, perdido de riso. E humilde voltou, acedeu em seduzir dois ao mesmo tempo, ela preocupada, “será que o puto um dia aceita?”. Dentro de pouco tempo o ciúme transferira-se para ela, o filho encetara namoro descarado ao par de calças que de vez em quando apareciam lá por casa e João, esse, transformava-se por completo, era preciso interceptar os chocolates e os brinquedos, “olha que o estragas!”. O que fazia na mesma, oferecendo-se em substituição das guloseimas e rebolando pela alcatifa em coboiadas trepidantes que terminavam com tiros definitivos - ele jazia mais quieto do que após o amor, e o puto escrevia-lhe o epitáfio com voz triunfante, “morreste”. Até necessitar de parceiro para a próxima brincadeira e o ressuscitar, com a naturalidade de quem ainda não descobriu a outra morte e apenas conhece a dos bonecos na televisão, engraçada de tão reversível. Anos bons, com uma só regra - de futuro não se falava. Não porque ela o não pensasse, mas porque desenvolvera uma espécie de superstição que a fazia sacrificar os sonhos longínquos para beber um niquinho mais de vida no presente. E fora ele a romper o acordo, “porque não vivemos juntos?”. A economia do seu lado, com o dinheiro poupado sempre poderiam respirar um bocadinho melhor; viajar. Mas o medo era mais forte, “não quero”. E ele, sempre manso, empertigara-se, “não gostas de mim”. Do que ela também se queixara de imediato, toda a gente sabe que não há saída dessas discussões, ambos mal amados ou certos disso, vai dar ao mesmo. A primeira zanga séria, até aí só conheciam arrufos que apimentavam a noite seguinte, ele de súbito muito calmo, “pensa e depois diz-me alguma coisa”. Ela pensando há semanas e o miúdo desconfiado. No emprego eram corteses, mas João ia deslizando para a frieza e ela utilizava-a como desculpa para se convencer de que o melhor era ficarem como estavam, se ele não queria paciência, tudo tem um fim. O medo pânico de um dia, quando já não conseguisse viver sem ele, vê-lo partir. Era independente à custa de dentes cerrados, se o deixasse mimá-la ainda mais poderia não ter coragem para arrancar de novo sozinha.
- O João?
E o telefone logo ali, a cama vazia juntando-se ao miúdo, o medo ganindo avisos, a tentação pintando-lhe trio feliz, quem sabe?, um irmão para o puto, que os filhos únicos são egoístas até mais não.
- O João?
O abuso de menores.
- Queres telefonar-lhe?
O garoto arrulhando ao telefone e estendendo-lho. Do outro lado um João tenso,
- Sei que isto não é correcto, mas podemos ir dar um passeio, eu e ele? Acho que o miúdo gostava e eu tenho saudades.
Também ela tinha, disse que sim. E quando João chegou, seguiu o filho carripana dentro e admirou-lhes em silêncio o abraço apertado.
João fazendo das tripas coração para não engolir o orgulho,
- Deixo-te onde?
E ela a coberto do riso,
- Livra-te de o fazeres nos próximos cinquenta anos.
Ele mudou-se à noite. Deitaram-se tarde porque o miúdo estava excitado e nunca mais adormecia. Seguiram-lhe o exemplo.
Felizmente havia pouco trabalho no escritório na manhã seguinte.

domingo, março 12, 2006

Drama na Mindinha!

O almoço do Murcon na Mindinha foi uma delícia. Para mim, sem querer diminuir o rstaurante que com tanta gentileza nos tem recebido em Matosinhos, houve um "sabor a casa" muito especial, sinto-me como peixe na água naquele matriarcado:). Velha raposa, não me deixei tentar pelo cozido e enteguei-me a um despautério de bolos de bacalhau, vitela assada e até ginja com chocolate! A única mancha aconteceu no fim, já pelas 17.30:(. A Mindinha, demonstrando enorme sangue frio, chamou-me à parte e disse que o Sousa telefonara, com um riso alucinado, afiançando que amigos seus do bas-fond tinham colocado uma bomba na cave! Vi-me assim obrigado a deixar a sala de forma sigilosa para evitar o pânico dos convivas em geral e do Noise em particular, já tocado por fortíssima Coca-Cola. Encontrei o engenho atrás das garrafas de Muralhas na adega e desactivei-a com extrema habilidade e um pouco de sorte. Infelizmente, quando regressei ao restaurante, já todos tinham partido:(. Resta-me a consolação de ter evitado uma catástrofe que deixaria o blog mais pobre...

P.S. Caríssimos benfiquistas: pró ano há mais!:).