Maria,
Que tal vou depois desta maratona de pontes e fins-de-semana alargados? Bom, let's keep it simple, darling:): deixei Cantelães ao som das cigarras, escrevo no Porto com o "ronronar" do frigorífico em fundo. Adivinha onde me sinto melhor? O senhor Augusto plantou castanheiros e insistiu em mostrar-mos. Fiquei ali, especado. Quanto tempo, perguntei? Bastante, disse ele. Maria, lá em cima vivo o ontem do amanhã dos miúdos e isso agrada-me - dá sentido ao hoje.
Love,
Júlio.
segunda-feira, maio 01, 2006
Velharia sobre trabalhadores no dia deles.
Stress ( I )
Domingo o JN falava dele. À noite, na SIC-Notícias, reportagem sobre trabalhadores do Leste em Portugal. O professor de Antropologia Médica espreguiçou-se cá dentro, abordo os dois temas nos diálogos com os alunos. Quando eu estudava, o stress tinha um estatuto modesto, quase mecânico. O organismo reagia aos estímulos e nós à espreita. Mas sobretudo atentos a variáveis fisiológicas, como se aguentavam as hormonas e o aparelho cardio-respiratório? Aos poucos, o combate foi-se deslocando corpo acima, fechou atrás de si as portas do pescoço e invadiu os neurónios. A questão passava a ser como lidávamos psicologicamente com as dificuldades: se resistíamos, deprimíamos ou lançávamos mão de drogas para nos mantermos à tona. E até os discursos acerca do stress iam mudando - especialistas e leigos passaram a empregar a palavra com uma pitada de suspeita e receio na voz, como se ele pairasse sobre a cidade e nos caísse em cima à menor distracção. Uma vez feridos, o substantivo dava lugar a verbo cheio de um desalento passivo, “ando stressado”. A besta roendo-nos as entranhas, como cancro imune a qualquer cirurgia.
Muitas das sugestões terapêuticas referidas na reportagem (massagens, yoga, programas em unidades hoteleiras) denunciam a habitual importância dos cifrões, estão fora do alcance da maioria das bolsas. Já os medicamentos são receitados assaz democraticamente. Também porque os mais desfavorecidos transformam o stress em queixas de sólida aparência física ou nervoso miudinho, em qualquer dos casos a pastilha assume o estatuto de candeia ao fundo do túnel. Para aguentar a corrida sem diminuir a passada, pois toda uma sociedade aceita o frenesim como inevitável. Se repararem, a maior parte das intervenções preconizadas sugere que podemos aprender a suportar melhor os efeitos do stress, não a diminuí-lo. Como se nos resignássemos a combater efeitos e não causas.
A ter eu alguma razão, desse “pecado” estavam inocentes os imigrantes dos países de Leste, se algo os unia era a impotência perante as agressões do meio, da sorte e das mafias que enriquecem à custa do desespero. Portugal sabe o que isso é. Por trás das famosas histórias sobre o talento dos lusitanos para o desenrascanço no estrangeiro, apoiado em reconhecida arte para fintar as armadilhas linguísticas, escondem-se lágrimas e saudades; trabalho duro. Recordo chegada a Paris vindo de Inglaterra, o Sud-Express ainda adormecido, havia tempo para um último capricho. Era manhazinha e as ruas acolhiam, gratas, os jactos de água que as alindavam para os turistas. Fiel à tradição de regressar teso a casa, enchi o peito e disse ao taxista para seguirmos devagar, saboreando a fresca. Ele proporcionou-me curta visita guiada, passei por alguns dos ex-libris parisienses com a distracção criminosa dos personagens de um filme de Tati. De súbito: “regardez, les portugais”. Os que não tinham dinheiro para táxis! Lá estavam, “les portugais”… Em bicha enorme e cinzenta dobrando a esquina, à espera de um milagre em forma de papéis e carimbos oficiais.
Os portugueses sabem o que é partir para calar a fome na boca das crianças ou por se recusarem à mordaça. E por isso conhecem o isolamento, a insegurança face ao desconhecido, a eventual rejeição por parte de quem exige mão de obra, mas franze o sobrolho às pessoas. Das consequências físicas e psíquicas de tais situações falarei para a semana, o apelo para que demonstremos solidariedade a quem nos procura em busca de uma hipótese de sobrevivência deixo-o hoje.
Domingo o JN falava dele. À noite, na SIC-Notícias, reportagem sobre trabalhadores do Leste em Portugal. O professor de Antropologia Médica espreguiçou-se cá dentro, abordo os dois temas nos diálogos com os alunos. Quando eu estudava, o stress tinha um estatuto modesto, quase mecânico. O organismo reagia aos estímulos e nós à espreita. Mas sobretudo atentos a variáveis fisiológicas, como se aguentavam as hormonas e o aparelho cardio-respiratório? Aos poucos, o combate foi-se deslocando corpo acima, fechou atrás de si as portas do pescoço e invadiu os neurónios. A questão passava a ser como lidávamos psicologicamente com as dificuldades: se resistíamos, deprimíamos ou lançávamos mão de drogas para nos mantermos à tona. E até os discursos acerca do stress iam mudando - especialistas e leigos passaram a empregar a palavra com uma pitada de suspeita e receio na voz, como se ele pairasse sobre a cidade e nos caísse em cima à menor distracção. Uma vez feridos, o substantivo dava lugar a verbo cheio de um desalento passivo, “ando stressado”. A besta roendo-nos as entranhas, como cancro imune a qualquer cirurgia.
Muitas das sugestões terapêuticas referidas na reportagem (massagens, yoga, programas em unidades hoteleiras) denunciam a habitual importância dos cifrões, estão fora do alcance da maioria das bolsas. Já os medicamentos são receitados assaz democraticamente. Também porque os mais desfavorecidos transformam o stress em queixas de sólida aparência física ou nervoso miudinho, em qualquer dos casos a pastilha assume o estatuto de candeia ao fundo do túnel. Para aguentar a corrida sem diminuir a passada, pois toda uma sociedade aceita o frenesim como inevitável. Se repararem, a maior parte das intervenções preconizadas sugere que podemos aprender a suportar melhor os efeitos do stress, não a diminuí-lo. Como se nos resignássemos a combater efeitos e não causas.
A ter eu alguma razão, desse “pecado” estavam inocentes os imigrantes dos países de Leste, se algo os unia era a impotência perante as agressões do meio, da sorte e das mafias que enriquecem à custa do desespero. Portugal sabe o que isso é. Por trás das famosas histórias sobre o talento dos lusitanos para o desenrascanço no estrangeiro, apoiado em reconhecida arte para fintar as armadilhas linguísticas, escondem-se lágrimas e saudades; trabalho duro. Recordo chegada a Paris vindo de Inglaterra, o Sud-Express ainda adormecido, havia tempo para um último capricho. Era manhazinha e as ruas acolhiam, gratas, os jactos de água que as alindavam para os turistas. Fiel à tradição de regressar teso a casa, enchi o peito e disse ao taxista para seguirmos devagar, saboreando a fresca. Ele proporcionou-me curta visita guiada, passei por alguns dos ex-libris parisienses com a distracção criminosa dos personagens de um filme de Tati. De súbito: “regardez, les portugais”. Os que não tinham dinheiro para táxis! Lá estavam, “les portugais”… Em bicha enorme e cinzenta dobrando a esquina, à espera de um milagre em forma de papéis e carimbos oficiais.
Os portugueses sabem o que é partir para calar a fome na boca das crianças ou por se recusarem à mordaça. E por isso conhecem o isolamento, a insegurança face ao desconhecido, a eventual rejeição por parte de quem exige mão de obra, mas franze o sobrolho às pessoas. Das consequências físicas e psíquicas de tais situações falarei para a semana, o apelo para que demonstremos solidariedade a quem nos procura em busca de uma hipótese de sobrevivência deixo-o hoje.
domingo, abril 30, 2006
Exactamente, o essencial da fé cristã nunca poderia estar à mercê de tal facto.
Maria Madalena nos textos apócrifos
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
As mulheres têm motivos para uma boa relação com Jesus. Ele, durante a vida, com escândalo de muitos, teve para com elas uma atitude e comportamento de muita simpatia e ternura. Se a Igreja histórica nem sempre lhe seguiu o exemplo, havendo mesmo um forte contencioso das mulheres com a Igreja oficial, isso deve-se a muitas razões, como heresias que desprezavam o corpo, o sexo e o feminino, questões ligadas ao poder e ao machismo.
Para lá dos textos canónicos - aqueles que a Igreja aceitou como regra de fé -, há também os apócrifos, que a Igreja não recebeu, não significando isso que não possam ter importância. Entre eles encontram-se os textos gnósticos, de que tanto se tem falado e acessíveis sobretudo com a descoberta, em 1945, da biblioteca de Nag Hammadi, no Egipto (o Evangelho de Judas insere-se nesta tradição).
Ora, o que dizem os apócrifos sobre Maria Madalena?
A tradição apócrifa, sobretudo gnóstica, tem textos muito controversos sobre a relação entre Jesus e Maria Madalena. Assim, no Evangelho de Filipe, pode ler-se: "A companheira do Salvador é Maria Madalena. O Salvador amava-a mais do que a todos os discípulos e beijava-a frequentemente na boca. Os outros discípulos disseram-lhe: 'Porque a amas mais do que a nós?' O Salvador respondeu-lhes, dizendo: 'Porque não vos amo a vós como a ela?'"
No Evangelho de Maria, Pedro, com animosidade, reconhece que o Mestre a apreciava mais do que às outras mulheres, perguntando inclusivamente: "Falou com uma mulher sem que o soubéssemos, e não manifestamente, de modo que todos devemos escutá-la? Será que a preferiu mais do que a nós?"
Segundo o apócrifo Perguntas de Maria e outros escritos, alguns gnósticos admitiam que Maria foi parceira sexual ou esposa de Jesus. É uma posição exagerada, contestada por outros.
No entanto, é destes textos que deriva o debate à volta da relação matrimonial de Jesus e Maria Madalena.
O que é facto histórico é que Jesus amou as mulheres - isso é testemunhado tanto pelos textos canónicos como pelos apócrifos - e, evidentemente, amou-as como homem, portanto, com a sua sexualidade, não necessariamente genital. Como explica o exegeta Jacinto de Freitas Faria, "os gnósticos viam a união entre o masculino e o feminino numa esfera espiritual de superação da divisão corpórea. Jesus e Madalena eram vistos como exemplo dessa integração. O beijo entre eles era a expressão desse desejo espiritual. Por isso se diz que o beijo comunicava o saber. Um transformava-se no outro". Consequentemente, diz-se que Madalena transmitia os ensinamentos do Amado/Mestre. Assim, embora haja textos em que se afirma a relação matrimonial de Jesus e Maria Madalena, não se pode esquecer o carácter mais tardio desses textos, nem que gnose significa conhecimento profundo e também desprezo pelo corpo e procura da purificação da alma na busca do espírito. O feminino normalmente era considerado negativo. Pode ler-se no Evangelho de Tomé: "Simão Pedro disse-lhe: 'Que Maria saia de entre nós porque as mulheres não são dignas da vida.' Jesus disse: 'Olhai, eu mesmo a impulsionarei para que se torne varão, para que chegue também a ser um espírito vivente semelhante a vós, os varões; porque qualquer mulher que se torne varão, entrará no Reino dos céus.'"
De qualquer modo, a discussão será sempre complexa e não há elementos para solucioná-la de modo definitivo. Concretamente, não se pode ignorar que houve várias correntes na gnose, tendo até algumas delas admitido mestras e sacerdotisas. Por outro lado, nas disputas pelo poder e pelo estabelecimento da ortodoxia nas diferentes tradições do cristianismo, as mulheres foram sendo subalternizadas e marginalizadas.
Seja como for, a pergunta que muitos se colocam e cuja resposta gostariam de saber é se Jesus poderia conhecer uma experiência sexual. Parece evidente que, se era verdadeiramente homem, não se lhe pode retirar a experiência humana do desejo sexual. Se satisfez esse desejo ou não com uma mulher, é questão que historicamente não pode ser decidida. Todos os dados históricos indicam que Jesus não casou. Mas, se isso tivesse acontecido, a fé cristã não ficaria abalada.
Como escreveu o abbé Pierre, fundador dos irmãos de Emaús e a figura mais popular de França, Jesus tanto pode ter satisfeito o desejo sexual num amor partilhado, como não ter satisfeito esse desejo, "o que o não impediu de ser plenamente homem".
"Num e noutro caso, creio que isso nada muda ao essencial da fé cristã."
DN.
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
As mulheres têm motivos para uma boa relação com Jesus. Ele, durante a vida, com escândalo de muitos, teve para com elas uma atitude e comportamento de muita simpatia e ternura. Se a Igreja histórica nem sempre lhe seguiu o exemplo, havendo mesmo um forte contencioso das mulheres com a Igreja oficial, isso deve-se a muitas razões, como heresias que desprezavam o corpo, o sexo e o feminino, questões ligadas ao poder e ao machismo.
Para lá dos textos canónicos - aqueles que a Igreja aceitou como regra de fé -, há também os apócrifos, que a Igreja não recebeu, não significando isso que não possam ter importância. Entre eles encontram-se os textos gnósticos, de que tanto se tem falado e acessíveis sobretudo com a descoberta, em 1945, da biblioteca de Nag Hammadi, no Egipto (o Evangelho de Judas insere-se nesta tradição).
Ora, o que dizem os apócrifos sobre Maria Madalena?
A tradição apócrifa, sobretudo gnóstica, tem textos muito controversos sobre a relação entre Jesus e Maria Madalena. Assim, no Evangelho de Filipe, pode ler-se: "A companheira do Salvador é Maria Madalena. O Salvador amava-a mais do que a todos os discípulos e beijava-a frequentemente na boca. Os outros discípulos disseram-lhe: 'Porque a amas mais do que a nós?' O Salvador respondeu-lhes, dizendo: 'Porque não vos amo a vós como a ela?'"
No Evangelho de Maria, Pedro, com animosidade, reconhece que o Mestre a apreciava mais do que às outras mulheres, perguntando inclusivamente: "Falou com uma mulher sem que o soubéssemos, e não manifestamente, de modo que todos devemos escutá-la? Será que a preferiu mais do que a nós?"
Segundo o apócrifo Perguntas de Maria e outros escritos, alguns gnósticos admitiam que Maria foi parceira sexual ou esposa de Jesus. É uma posição exagerada, contestada por outros.
No entanto, é destes textos que deriva o debate à volta da relação matrimonial de Jesus e Maria Madalena.
O que é facto histórico é que Jesus amou as mulheres - isso é testemunhado tanto pelos textos canónicos como pelos apócrifos - e, evidentemente, amou-as como homem, portanto, com a sua sexualidade, não necessariamente genital. Como explica o exegeta Jacinto de Freitas Faria, "os gnósticos viam a união entre o masculino e o feminino numa esfera espiritual de superação da divisão corpórea. Jesus e Madalena eram vistos como exemplo dessa integração. O beijo entre eles era a expressão desse desejo espiritual. Por isso se diz que o beijo comunicava o saber. Um transformava-se no outro". Consequentemente, diz-se que Madalena transmitia os ensinamentos do Amado/Mestre. Assim, embora haja textos em que se afirma a relação matrimonial de Jesus e Maria Madalena, não se pode esquecer o carácter mais tardio desses textos, nem que gnose significa conhecimento profundo e também desprezo pelo corpo e procura da purificação da alma na busca do espírito. O feminino normalmente era considerado negativo. Pode ler-se no Evangelho de Tomé: "Simão Pedro disse-lhe: 'Que Maria saia de entre nós porque as mulheres não são dignas da vida.' Jesus disse: 'Olhai, eu mesmo a impulsionarei para que se torne varão, para que chegue também a ser um espírito vivente semelhante a vós, os varões; porque qualquer mulher que se torne varão, entrará no Reino dos céus.'"
De qualquer modo, a discussão será sempre complexa e não há elementos para solucioná-la de modo definitivo. Concretamente, não se pode ignorar que houve várias correntes na gnose, tendo até algumas delas admitido mestras e sacerdotisas. Por outro lado, nas disputas pelo poder e pelo estabelecimento da ortodoxia nas diferentes tradições do cristianismo, as mulheres foram sendo subalternizadas e marginalizadas.
Seja como for, a pergunta que muitos se colocam e cuja resposta gostariam de saber é se Jesus poderia conhecer uma experiência sexual. Parece evidente que, se era verdadeiramente homem, não se lhe pode retirar a experiência humana do desejo sexual. Se satisfez esse desejo ou não com uma mulher, é questão que historicamente não pode ser decidida. Todos os dados históricos indicam que Jesus não casou. Mas, se isso tivesse acontecido, a fé cristã não ficaria abalada.
Como escreveu o abbé Pierre, fundador dos irmãos de Emaús e a figura mais popular de França, Jesus tanto pode ter satisfeito o desejo sexual num amor partilhado, como não ter satisfeito esse desejo, "o que o não impediu de ser plenamente homem".
"Num e noutro caso, creio que isso nada muda ao essencial da fé cristã."
DN.
sábado, abril 29, 2006
Já que passei a tarde a ler ao sol...:)
Num exemplar das Geórgicas
Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade.
Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade.
sexta-feira, abril 28, 2006
Sexta à noite, depois de uma semana frenética.
Por fim, Cantelães. Um céu inacreditável. O abraço da Mindinha, "ó senhor doutor, pregou-nos um susto!". Uma leve sensação de culpa para com os lisboetas, como de costume trataram-me com um carinho extraordinário. A satisfação por saber que fui o pretexto para os murcónicos se juntarem de novo. O fascínio por esta parolice portuguesa que enche os telejornais com agradecimentos a Scolari por não ter aceite um convite dos ingleses para integrar a "short list" de potenciais seleccionadores. A melancolia por ver os bispos portugueses definirem a "boa" sexualidade, que justifica o "mal menor" do preservativo, como exclusiva do casamento heterossexual e monogâmico. As outras são perversas? O preservativo é aceitável para os que entram no casamento já seropositivos ou também para os que se infectam depois e não foram tão monogâmicos como isso? O espanto perante as vozes maravilhadas pelo discurso forçosamente consensual do Presidente da República. Pois esperavam assim tão pouco dele? O silêncio interrompido pelo regato. As árvores cortadas do outro lado que preocupam o casadaponte. Como será Turio dentro de cinco anos? Que luzes abafarão os meus candeeeiros solares?
Por fim, Cantelães. Até ao fim, como disse a Teresa Martins Marques. Obrigado, maralhal.
Por fim, Cantelães. Até ao fim, como disse a Teresa Martins Marques. Obrigado, maralhal.
quinta-feira, abril 27, 2006
Back to the past.
Sozinhos, mas não sós
Leio a entrevista ao Público de Jean-Claude Kaufman. Ele tem razão, alguns casais desejam viver juntos, outros preferem não partilhar todos os dias o mesmo tecto. Na coluna ao lado, os respeitáveis números: um em cada três franceses vive só, na Dinamarca há 45% de lares com uma pessoa, em Portugal a percentagem é de 17%, mas vem subindo. Quanto a mim, não preciso das estatísticas oficiais - ouço vidas por profissão.
Muitas apenas teoricamente a solo, há portugueses que vivem sozinhos e não sós, amam sem partilhar a caixa do correio. Alguns já o fizeram, com ou sem papéis assinados. O discurso destes gira, com frequência, à volta da seguinte ideia - “venha o amor, mas juntar outra vez os trapinhos é que não!” Ao escutá-los, é impossível não pensar que desenvolveram – ou simplesmente descobriram? - uma certa “claustrofobia” afectiva e espacial, necessitam de espaço psicológico e físico privado, embora no âmbito de uma relação. Quando esta cresce entre duas pessoas com a mesma opinião, o consenso torna-se fácil e conduz a vida de casal distribuída por dois lares (como é evidente, as exigências económicas envolvidas e o tipo de “lastro cultural” que permite esse arranjo fazem dele quase apanágio das classes média e média alta). Se as duas têm posições divergentes - sobretudo quando não pertencem à mesma geração, sendo a mulher habitualmente mais jovem no caso das relações heterossexuais -, os problemas surgem, com uma a interpretar a relutância da outra em coabitar como sinal de fraco amor. O sofrimento agudiza-se quando a divergência se estende à hipótese de um filho, pois é frequente o mais velho tê-los de uma ligação anterior.
Entre os mais jovens, penso que deveríamos associar a este fenómeno algumas situações em que os filhos permanecem na CP (casa dos pais), apesar de uma autonomia financeira que lhes permitiria sair. Na realidade, ouço muita gente dissertar sobre as vantagens inerentes: poupança, roupa lavada e alimentação de qualidade garantida. Tal opção liberta verbas para um quotidiano mais desafogado e em grande parte livre, mesmo no caso das raparigas, atendendo à mudança de atitudes parentais no que toca a noites, fins- de-semana e férias passadas fora. Alguns, saindo embora, defendem que a transição directa de um agregado familiar para outro seria um erro grave, preferindo um período de autonomia, mais ou menos longo. Fascinante é a aparição nas mulheres jovens de discursos ditos “tipicamente masculinos”, como o que privilegia a ascensão profissional ou – ó supremo despautério em país machista! – o que receia opções afectivas precipitadas, sem experiência suficiente, incluindo sexual (aumentaram exponencialmente as situações em que raparigas fazem marcha-atrás perante um casamento com data marcada, alegando “não terem a certeza” ou “não estarem preparadas para esse tipo de compromisso”). Tudo isto se enquadra num banho cultural que legitima a felicidade e a realização individuais e dessacralizou o casamento, visto como o encaixe de dois projectos de vida e não como uma instituição cujos “direitos” se sobrepõem aos das pessoas. E assim, estas preferem muitas vezes não assinar papéis, ou a eles chegar depois de uma experiência de coabitação e por terem decidido pedir à cegonha que passe lá por casa e povoe um berço.
Uma última palavra em relação aos afectos envolvidos. No nosso país, aqui e ali, ainda ouço apostrofar solitários de mãos dadas por recusarem uma união para o melhor e o pior (a sonoridade católica não engana). O reparo sugere que tais ligações são superficiais, egoístas, imaturas. Algumas, seguramente, como tantos casamentos e uniões de facto. Mas devo dizer que vejo amiúde, em situações de crise, as pessoas envolvidas coabitarem, por ser esse o mecanismo mais adequado para lidar, por exemplo, com uma doença. Problema ultrapassado, regressam ao namoro sob dois tectos. Os arranjos do amor serão cada vez mais diversos, considero inaceitável decretar de segunda os que não “respeitam” os cânones da família nuclear católica ou a perfeição em cinemascope dos filmes da Disney. Inaceitável e sobretudo ingénuo, a qualidade de uma relação não é – nem nunca foi! – assegurada pelo seu modelo estrutural. Como a boa música, ela apoia-se mais em executantes talentosos e afinados do que na acústica do lugar escolhido para o concerto.
Leio a entrevista ao Público de Jean-Claude Kaufman. Ele tem razão, alguns casais desejam viver juntos, outros preferem não partilhar todos os dias o mesmo tecto. Na coluna ao lado, os respeitáveis números: um em cada três franceses vive só, na Dinamarca há 45% de lares com uma pessoa, em Portugal a percentagem é de 17%, mas vem subindo. Quanto a mim, não preciso das estatísticas oficiais - ouço vidas por profissão.
Muitas apenas teoricamente a solo, há portugueses que vivem sozinhos e não sós, amam sem partilhar a caixa do correio. Alguns já o fizeram, com ou sem papéis assinados. O discurso destes gira, com frequência, à volta da seguinte ideia - “venha o amor, mas juntar outra vez os trapinhos é que não!” Ao escutá-los, é impossível não pensar que desenvolveram – ou simplesmente descobriram? - uma certa “claustrofobia” afectiva e espacial, necessitam de espaço psicológico e físico privado, embora no âmbito de uma relação. Quando esta cresce entre duas pessoas com a mesma opinião, o consenso torna-se fácil e conduz a vida de casal distribuída por dois lares (como é evidente, as exigências económicas envolvidas e o tipo de “lastro cultural” que permite esse arranjo fazem dele quase apanágio das classes média e média alta). Se as duas têm posições divergentes - sobretudo quando não pertencem à mesma geração, sendo a mulher habitualmente mais jovem no caso das relações heterossexuais -, os problemas surgem, com uma a interpretar a relutância da outra em coabitar como sinal de fraco amor. O sofrimento agudiza-se quando a divergência se estende à hipótese de um filho, pois é frequente o mais velho tê-los de uma ligação anterior.
Entre os mais jovens, penso que deveríamos associar a este fenómeno algumas situações em que os filhos permanecem na CP (casa dos pais), apesar de uma autonomia financeira que lhes permitiria sair. Na realidade, ouço muita gente dissertar sobre as vantagens inerentes: poupança, roupa lavada e alimentação de qualidade garantida. Tal opção liberta verbas para um quotidiano mais desafogado e em grande parte livre, mesmo no caso das raparigas, atendendo à mudança de atitudes parentais no que toca a noites, fins- de-semana e férias passadas fora. Alguns, saindo embora, defendem que a transição directa de um agregado familiar para outro seria um erro grave, preferindo um período de autonomia, mais ou menos longo. Fascinante é a aparição nas mulheres jovens de discursos ditos “tipicamente masculinos”, como o que privilegia a ascensão profissional ou – ó supremo despautério em país machista! – o que receia opções afectivas precipitadas, sem experiência suficiente, incluindo sexual (aumentaram exponencialmente as situações em que raparigas fazem marcha-atrás perante um casamento com data marcada, alegando “não terem a certeza” ou “não estarem preparadas para esse tipo de compromisso”). Tudo isto se enquadra num banho cultural que legitima a felicidade e a realização individuais e dessacralizou o casamento, visto como o encaixe de dois projectos de vida e não como uma instituição cujos “direitos” se sobrepõem aos das pessoas. E assim, estas preferem muitas vezes não assinar papéis, ou a eles chegar depois de uma experiência de coabitação e por terem decidido pedir à cegonha que passe lá por casa e povoe um berço.
Uma última palavra em relação aos afectos envolvidos. No nosso país, aqui e ali, ainda ouço apostrofar solitários de mãos dadas por recusarem uma união para o melhor e o pior (a sonoridade católica não engana). O reparo sugere que tais ligações são superficiais, egoístas, imaturas. Algumas, seguramente, como tantos casamentos e uniões de facto. Mas devo dizer que vejo amiúde, em situações de crise, as pessoas envolvidas coabitarem, por ser esse o mecanismo mais adequado para lidar, por exemplo, com uma doença. Problema ultrapassado, regressam ao namoro sob dois tectos. Os arranjos do amor serão cada vez mais diversos, considero inaceitável decretar de segunda os que não “respeitam” os cânones da família nuclear católica ou a perfeição em cinemascope dos filmes da Disney. Inaceitável e sobretudo ingénuo, a qualidade de uma relação não é – nem nunca foi! – assegurada pelo seu modelo estrutural. Como a boa música, ela apoia-se mais em executantes talentosos e afinados do que na acústica do lugar escolhido para o concerto.
terça-feira, abril 25, 2006
Sem título.
Maralhal,
Peço desculpa pelo abandono. Ontem à noite, divertido pela animação do Gaspar no banco traseiro, deixei o carro deslizar um pouco em recta e a baixa velocidade. Foi o suficiente para dar cabo de lata e dois pneus nos limitadores de pedra da estrada. Fiquei danado, nunca tive um acidente sério por minha culpa na vida e o barulho não enganava - os estragos eram de monta. Um dos vários passantes que, solícitos, acorreram, disse uma frase estranha: "acabou por ter uma sorte tremenda, doutor". Saí do carro e olhei para lá dos mecos - dez a vinte metros de ravina, se não tivesse corrigido tão rapidamente a trajectória tinha-nos morto a todos. Hoje recebi uma equipa que vinha entrevistar-me a Cantelães e passei o resto do dia a ver os meus netos pintarem a manta. Lá no fundo, o pensamento era sempre o mesmo - por um triz e por minha culpa não estariam na piscina, no relvado, à mesa. Se algum de vocês passou pelo mesmo, sabe a que me refiro. Aos outros, só posso dizer que vir ao blog nem sequer me ocorreu...
Boa noite.
Peço desculpa pelo abandono. Ontem à noite, divertido pela animação do Gaspar no banco traseiro, deixei o carro deslizar um pouco em recta e a baixa velocidade. Foi o suficiente para dar cabo de lata e dois pneus nos limitadores de pedra da estrada. Fiquei danado, nunca tive um acidente sério por minha culpa na vida e o barulho não enganava - os estragos eram de monta. Um dos vários passantes que, solícitos, acorreram, disse uma frase estranha: "acabou por ter uma sorte tremenda, doutor". Saí do carro e olhei para lá dos mecos - dez a vinte metros de ravina, se não tivesse corrigido tão rapidamente a trajectória tinha-nos morto a todos. Hoje recebi uma equipa que vinha entrevistar-me a Cantelães e passei o resto do dia a ver os meus netos pintarem a manta. Lá no fundo, o pensamento era sempre o mesmo - por um triz e por minha culpa não estariam na piscina, no relvado, à mesa. Se algum de vocês passou pelo mesmo, sabe a que me refiro. Aos outros, só posso dizer que vir ao blog nem sequer me ocorreu...
Boa noite.
segunda-feira, abril 24, 2006
"Quem cuidaria dos filhos????". Por amor de Deus!
Sarkozy endurece discurso e critica Ségolène Royal
Patrícia Viegas
O líder da UMP (partido no poder), Nicolas Sarkozy, voltou a endurecer o seu discurso político no último fim-de-semana, em Paris, criticando a esquerda e piscando o olho ao eleitorado da extrema-direita.
Exprimindo-se num encontro de novos militantes, o ministro do Interior francês recuperou a crise do CPE para dizer que "a esquerda sabe explorar os erros [da direita]", mas "não tem lições para dar e é responsável pela subida da Frente Nacional [FN/extrema-direita]".
Sarkozy referia-se às eleições presidenciais de 2002, em que o candidato do Partido Socialista (PS) Lionel Jospin foi eliminado na primeira volta, levando o líder da FN, Jean-Marie Le Pen, a disputar a segunda volta com Jacques Chirac, o actual chefe do Estado francês.
Na sua intervenção, o número dois do Governo assinalou ainda a ausência "de ideias" da deputada socialista Ségolène Royal que , de acordo com uma nova sondagem ontem divulgada pelo instituto CSA, venceria Sarkozy na segunda volta das presidenciais de 2007 com 53% dos votos. O líder da UMP obteria 47%.
Tudo está, no entanto, em aberto. Ségolène, a companheira do líder do PS, François Hollande, com quem tem quatro filhos, admitiu recentemente ao Canal + que, "caso a França continue assim", vai provavelmente ser candidata à substituição de Chirac. Mas mais não disse.
A popularidade da presidente da região de Poitou-Charentes, de 52 anos, reflecte-se também nas capas dos vários jornais franceses, pelo menos cinco até agora. No entanto, caso decida avançar com a candidatura, pode ter de deparar-se não só com Sarkozy, mas com uma sociedade considerada algo "machista" e uma parte do PS. Laurent Fabius, o líder que desafiou a orientação oficial do partido e apoiou o "Não" à constituição europeia, disse sobre ela: "E quem cuidaria dos filhos?".
Na reunião da UMP, Sarkozy dirigiu-se ainda claramente ao eleitorado da extrema-direita, afirmando que "quem não gosta da França, que não hesite em abandoná-la". Hollande reagiu, acusando o ministro do Interior de falar como Philippe de Villiers, o líder do MPF (dissidência da FN) que popularizou o slogan: "A França, ou a amas ou a abandonas".
Villiers, que recusou recentemente a oferta de Le Pen para uma candidatura única da direita "popular, social e nacional" em 2007, foi mais longe e, na entrevista ontem publicada no Le Journal du Dimanche, acusou Sarkozy de "plágio".
O mesmo jornal divulgou uma sondagem em que Chirac e o primeiro-ministro Dominique de Villepin, fragilizado pelo CPE, registam níveis recorde de impopularidade: o primeiro tem o apoio de apenas 29% dos franceses e o segundo 24%. Era esta a taxa de aprovação de Jean- -Pierre Raffarin quando foi demitido, após o chumbo da constituição europeia, a 29 de Maio de 2005.
Patrícia Viegas
O líder da UMP (partido no poder), Nicolas Sarkozy, voltou a endurecer o seu discurso político no último fim-de-semana, em Paris, criticando a esquerda e piscando o olho ao eleitorado da extrema-direita.
Exprimindo-se num encontro de novos militantes, o ministro do Interior francês recuperou a crise do CPE para dizer que "a esquerda sabe explorar os erros [da direita]", mas "não tem lições para dar e é responsável pela subida da Frente Nacional [FN/extrema-direita]".
Sarkozy referia-se às eleições presidenciais de 2002, em que o candidato do Partido Socialista (PS) Lionel Jospin foi eliminado na primeira volta, levando o líder da FN, Jean-Marie Le Pen, a disputar a segunda volta com Jacques Chirac, o actual chefe do Estado francês.
Na sua intervenção, o número dois do Governo assinalou ainda a ausência "de ideias" da deputada socialista Ségolène Royal que , de acordo com uma nova sondagem ontem divulgada pelo instituto CSA, venceria Sarkozy na segunda volta das presidenciais de 2007 com 53% dos votos. O líder da UMP obteria 47%.
Tudo está, no entanto, em aberto. Ségolène, a companheira do líder do PS, François Hollande, com quem tem quatro filhos, admitiu recentemente ao Canal + que, "caso a França continue assim", vai provavelmente ser candidata à substituição de Chirac. Mas mais não disse.
A popularidade da presidente da região de Poitou-Charentes, de 52 anos, reflecte-se também nas capas dos vários jornais franceses, pelo menos cinco até agora. No entanto, caso decida avançar com a candidatura, pode ter de deparar-se não só com Sarkozy, mas com uma sociedade considerada algo "machista" e uma parte do PS. Laurent Fabius, o líder que desafiou a orientação oficial do partido e apoiou o "Não" à constituição europeia, disse sobre ela: "E quem cuidaria dos filhos?".
Na reunião da UMP, Sarkozy dirigiu-se ainda claramente ao eleitorado da extrema-direita, afirmando que "quem não gosta da França, que não hesite em abandoná-la". Hollande reagiu, acusando o ministro do Interior de falar como Philippe de Villiers, o líder do MPF (dissidência da FN) que popularizou o slogan: "A França, ou a amas ou a abandonas".
Villiers, que recusou recentemente a oferta de Le Pen para uma candidatura única da direita "popular, social e nacional" em 2007, foi mais longe e, na entrevista ontem publicada no Le Journal du Dimanche, acusou Sarkozy de "plágio".
O mesmo jornal divulgou uma sondagem em que Chirac e o primeiro-ministro Dominique de Villepin, fragilizado pelo CPE, registam níveis recorde de impopularidade: o primeiro tem o apoio de apenas 29% dos franceses e o segundo 24%. Era esta a taxa de aprovação de Jean- -Pierre Raffarin quando foi demitido, após o chumbo da constituição europeia, a 29 de Maio de 2005.
domingo, abril 23, 2006
Ao lavar dos cestos.
Parabéns a todos os dragões murcónicos, foi merecidíssimo!
P.S. Que falta de educação da minha parte... - aos não murcónicos também:).
P.S. Que falta de educação da minha parte... - aos não murcónicos também:).
sábado, abril 22, 2006
Passo a passo também.
O arcebispo emérito de Milão considerou que, na luta contra a sida, o uso do preservativo pode constituir, «nalgumas situações, um mal menor» e recordou os casais em que um dos cônjuges sofre da doença.
Estas opiniões são expressas pelo cardeal Carlo Maria Martini durante uma longa conversa com o cirurgião Ignazio Marino, publicada hoje no semanário italiano «L¿Espresso» e em que tratam, entre outros, assuntos como as células estaminais, a fecundação assistida e as adopções.
Ao abordar o tema da Sida e a sua expansão, o jesuíta assinala que «há que fazer tudo para combater» a doença.
«Sem dúvida, a utilização do preservativo pode constituir nalgumas situações um mal menor», se, por exemplo, «um dos esposos padecer de sida, fica obrigado a proteger o outro e este deve poder proteger-se».
Religioso e médico falam também de fecundação assistida, dos embriões congelados durante anos sem que se decida o seu destino e a possibilidade de uma mulher ser fecundada com o sémen de um terceiro na impossibilidade de o ser com o do seu cônjuge.
Martini declara-se «prudente» ao falar sobre a fecundação através de uma dador, tal como quando se trata de decidir «sobre a sorte dos embriões, de outra forma, destinados a morrer e cuja implantação no útero de uma mulher, ainda que solteira, pareceria preferível à pura e simples destruição».
Sobre os embriões congelados, que possivelmente nunca serão utilizados e sobre qual deve ser o destino, o arcebispo emérito de Milão sublinha: «onde há um conflito de valores, parecer-me-ia eticamente mais significativo defender uma solução que permita a uma vida expandir-se, em vez de deixá-la morrer. Embora entenda que nem todos sejam da mesma opinião».
Marino, médico de prestígio internacional, interroga-se sobre os embriões congelados, se é melhor «deixá-los morrer no frio» ou usar as células estaminais para investigação.
No terreno, o jesuíta diz que não vê «ser possível pensar» no uso das células estaminais embrionárias para a investigação. «Estaria contra todos os princípios expostos até agora».
Martini reflecte ainda sobre a adopção de crianças por solteiros e assinala que a família composta por homem e mulher é, em primeiro lugar, a que reúne as condições para criar um filho.
Todavia, à falta de um matrimónio, Martini, 79 anos, considera que «no limite, também às pessoas solteiras, se poderia dar algumas garantias essenciais».
A propósito do aborto, o cardeal Martini considera «positivo» que a sua legalização tenha «contribuído para reduzir e tenda a eliminar os abortos clandestinos».
«É difícil que um Estado moderno não intervenha para pelo menos impedir uma situação selvagem e arbitrária», o que não quer dizer autorização de matar, declara, defendendo também que o Estado se esforce por diminuir os abortos por todos os meios.
O prelado, desde sempre um agitador de ideias, é considerado como um espírito livre na hierarquia da Igreja. Foi apresentado o ano passado, por altura da morte de João Paulo II, como o campeão da minoria liberal do colégio de cardeais contra o conservador Joseph Ratzinger, eleito papa sob o nome de Bento XVI.
P.S. Obrigado a todos os murcónicos, presentes ou não nos lançamentos de O Tempo dos Espelhos. Vocês fazem já parte da tribo de que ontem falei na Biblioteca de Matosoinhos.
Estas opiniões são expressas pelo cardeal Carlo Maria Martini durante uma longa conversa com o cirurgião Ignazio Marino, publicada hoje no semanário italiano «L¿Espresso» e em que tratam, entre outros, assuntos como as células estaminais, a fecundação assistida e as adopções.
Ao abordar o tema da Sida e a sua expansão, o jesuíta assinala que «há que fazer tudo para combater» a doença.
«Sem dúvida, a utilização do preservativo pode constituir nalgumas situações um mal menor», se, por exemplo, «um dos esposos padecer de sida, fica obrigado a proteger o outro e este deve poder proteger-se».
Religioso e médico falam também de fecundação assistida, dos embriões congelados durante anos sem que se decida o seu destino e a possibilidade de uma mulher ser fecundada com o sémen de um terceiro na impossibilidade de o ser com o do seu cônjuge.
Martini declara-se «prudente» ao falar sobre a fecundação através de uma dador, tal como quando se trata de decidir «sobre a sorte dos embriões, de outra forma, destinados a morrer e cuja implantação no útero de uma mulher, ainda que solteira, pareceria preferível à pura e simples destruição».
Sobre os embriões congelados, que possivelmente nunca serão utilizados e sobre qual deve ser o destino, o arcebispo emérito de Milão sublinha: «onde há um conflito de valores, parecer-me-ia eticamente mais significativo defender uma solução que permita a uma vida expandir-se, em vez de deixá-la morrer. Embora entenda que nem todos sejam da mesma opinião».
Marino, médico de prestígio internacional, interroga-se sobre os embriões congelados, se é melhor «deixá-los morrer no frio» ou usar as células estaminais para investigação.
No terreno, o jesuíta diz que não vê «ser possível pensar» no uso das células estaminais embrionárias para a investigação. «Estaria contra todos os princípios expostos até agora».
Martini reflecte ainda sobre a adopção de crianças por solteiros e assinala que a família composta por homem e mulher é, em primeiro lugar, a que reúne as condições para criar um filho.
Todavia, à falta de um matrimónio, Martini, 79 anos, considera que «no limite, também às pessoas solteiras, se poderia dar algumas garantias essenciais».
A propósito do aborto, o cardeal Martini considera «positivo» que a sua legalização tenha «contribuído para reduzir e tenda a eliminar os abortos clandestinos».
«É difícil que um Estado moderno não intervenha para pelo menos impedir uma situação selvagem e arbitrária», o que não quer dizer autorização de matar, declara, defendendo também que o Estado se esforce por diminuir os abortos por todos os meios.
O prelado, desde sempre um agitador de ideias, é considerado como um espírito livre na hierarquia da Igreja. Foi apresentado o ano passado, por altura da morte de João Paulo II, como o campeão da minoria liberal do colégio de cardeais contra o conservador Joseph Ratzinger, eleito papa sob o nome de Bento XVI.
P.S. Obrigado a todos os murcónicos, presentes ou não nos lançamentos de O Tempo dos Espelhos. Vocês fazem já parte da tribo de que ontem falei na Biblioteca de Matosoinhos.
sexta-feira, abril 21, 2006
Passo a passo.
Bélgica aprova adopção de crianças por casais homossexuais
21.04.2006 - 10h13 AFP
O Parlamento da Bélgica aprovou ontem à noite um projecto de lei que autoriza a adopção de crianças por casais homossexuais.
Os senadores belgas estavam divididos quanto à proposta, mas acabaram por aprovar o projecto de lei com 34 votos a favor, 33 contra e duas abstenções. Os senadores socialistas e ecologistas votaram a favor; os liberais flamengos do VLD dividiram-se; e os liberais francófonos, os sociais-cristãos do CDH e do CDV e a extrema-direita votaram contra.
O casamento entre pessoas do mesmo sexo é permitido na Bélgica desde 2003. Desde então já se realizaram mais de 2500 uniões homossexuais.
Depois da entrada em vigor da nova lei, os casais do mesmo sexo - casados ou não - estarão sujeitos às mesmas regras dos casais heterossexuais no processo de adopção de crianças. As crianças belgas e estrangeiras poderão ser adoptadas no país por casais do mesmo sexo.
A Inglaterra e o País de Gales aprovaram, em Dezembro do ano passado, uma lei que autoriza os casais solteiros e os casais homossexuais a adoptar crianças.
Também a Espanha e a Suécia aprovaram uma lei que permite a adopção de crianças sem restrições.
A Holanda - o país pioneiro na matéria - adoptou um texto legal em 2001 que permite aos casais do mesmo sexo a adopção de crianças (apenas de nacionalidade holandesa).
A Dinamarca (que foi o primeiro país a autorizar a união entre homossexuais, em 1985) autoriza a adopção de crianças por casais do mesmo sexo, mas apenas nas situações em que a criança seja filha de um dos membros do casal, nascida de relações anteriores.
Público.
21.04.2006 - 10h13 AFP
O Parlamento da Bélgica aprovou ontem à noite um projecto de lei que autoriza a adopção de crianças por casais homossexuais.
Os senadores belgas estavam divididos quanto à proposta, mas acabaram por aprovar o projecto de lei com 34 votos a favor, 33 contra e duas abstenções. Os senadores socialistas e ecologistas votaram a favor; os liberais flamengos do VLD dividiram-se; e os liberais francófonos, os sociais-cristãos do CDH e do CDV e a extrema-direita votaram contra.
O casamento entre pessoas do mesmo sexo é permitido na Bélgica desde 2003. Desde então já se realizaram mais de 2500 uniões homossexuais.
Depois da entrada em vigor da nova lei, os casais do mesmo sexo - casados ou não - estarão sujeitos às mesmas regras dos casais heterossexuais no processo de adopção de crianças. As crianças belgas e estrangeiras poderão ser adoptadas no país por casais do mesmo sexo.
A Inglaterra e o País de Gales aprovaram, em Dezembro do ano passado, uma lei que autoriza os casais solteiros e os casais homossexuais a adoptar crianças.
Também a Espanha e a Suécia aprovaram uma lei que permite a adopção de crianças sem restrições.
A Holanda - o país pioneiro na matéria - adoptou um texto legal em 2001 que permite aos casais do mesmo sexo a adopção de crianças (apenas de nacionalidade holandesa).
A Dinamarca (que foi o primeiro país a autorizar a união entre homossexuais, em 1985) autoriza a adopção de crianças por casais do mesmo sexo, mas apenas nas situações em que a criança seja filha de um dos membros do casal, nascida de relações anteriores.
Público.
Finalmente uma esperança para o País!
"Por 100 euros cada sessão
Empresários portugueses recorrem aos astros para investir
Há cada vez mais empresários portugueses que recorrem aos astros para investir, negociar, contratar colaboradores ou delinear estratégias de marketing.
Uma procura tão forte que, inclusive, levou a mediática taróloga Maya a criar um acesso privado ao seu gabinete e a contratar uma assistente especializada em Economia e Finanças: «neste momento as consultas empresariais são superiores às pessoais», confessa, avança o «JN Negócios».
Em parte, diz, porque também «têm uma vigência mais curta, já que o empresário faz vários investimentos ao longo do ano».
São sobretudo os homens de negócios que procuram o auxílio astral de Maya. A maior parte, garante, tem um «nível sociocultural muito elevado e importantes relações internacionais.
Os pedidos dos empresários giram sempre em torno dos mesmos aspectos. Das cartas de Maya pretendem obter resposta para «o momento mais indicado para investir, se haverá retorno, que perfis deverão ter os colaboradores».
Cada sessão, «sigilosa», custa 100 euros mas a informação que presta aos clientes, comenta Maya, «não tem preço»."
Vide in http://www.agenciafinanceira.iol.pt/noticia.php?id=672179&div_id=1730
Empresários portugueses recorrem aos astros para investir
Há cada vez mais empresários portugueses que recorrem aos astros para investir, negociar, contratar colaboradores ou delinear estratégias de marketing.
Uma procura tão forte que, inclusive, levou a mediática taróloga Maya a criar um acesso privado ao seu gabinete e a contratar uma assistente especializada em Economia e Finanças: «neste momento as consultas empresariais são superiores às pessoais», confessa, avança o «JN Negócios».
Em parte, diz, porque também «têm uma vigência mais curta, já que o empresário faz vários investimentos ao longo do ano».
São sobretudo os homens de negócios que procuram o auxílio astral de Maya. A maior parte, garante, tem um «nível sociocultural muito elevado e importantes relações internacionais.
Os pedidos dos empresários giram sempre em torno dos mesmos aspectos. Das cartas de Maya pretendem obter resposta para «o momento mais indicado para investir, se haverá retorno, que perfis deverão ter os colaboradores».
Cada sessão, «sigilosa», custa 100 euros mas a informação que presta aos clientes, comenta Maya, «não tem preço»."
Vide in http://www.agenciafinanceira.iol.pt/noticia.php?id=672179&div_id=1730
quinta-feira, abril 20, 2006
Se tantos não conseguem segurar um polícia, como será com os criminosos?
Se alguém não alinha no discurso dos "coitadinhos, são novos, não sabem o que fazem e só estão a divertir-se" sou eu. Mas isto é inaceitável!
Um agente da PSP do Porto agrediu repetidamente um jovem, que foi apanhado a vandalizar um sinal de trânsito. A situação foi gravada por um vídeo amador, divulgado pela Sic. O polícia continua a trabalhar mas não faz serviço fora da esquadra.
Na passada quarta-feira, os moradores da rua Andressen Leitão chamaram as autoridades porque viram quatro jovens a vandalizar sinais de trânsito.
Quando os agentes chegaram ao local houve uma troca de palavras mais acessa entre um dos jovens e um agente. Apesar de afastado por um colega, o polícia não desistiu das agressões e foi arranjando forma de contornar os colegas para agredir o jovem.
Nas imagens é possível ver que além dos dois carros patrulha que já estavam no local, chegaram entretanto mais elementos numa carrinha das brigadas de intervenção rápida, mas não conseguiram impedir mais agressões.
Enquanto o jovem agredido continuava a ser interrogado junto ao carro-patrulha, o agente dirige-se para um dos amigos e tenta também agredi-lo.
Os carros-patrulha continuaram a chegar e os jovens foram detidos e começaram a ser levados para uma carrinha.
O agente em causa dirigiu-se novamente ao primeiro rapaz que já tinha agredido e, enquanto este fazia um telefonema, arrancou-lhe o telemóvel das mãos e voltou a agredi-lo a pontapé.
A Sic afirmou que os quatro jovens tinham estado numa festa e teriam bebido em excesso. Apesar disso, não ofereceram resistência. Ainda assim, os 12 agentes que se juntaram no local não conseguiram acalmar o colega que, visivelmente descontrolado, insistia em agredir o jovem.
Confrontado com as imagens, o Comando Metropolitano da PSP Porto afirmou que «este comportamento não é usual na PSP» e que «vai investigar».
Fonte da Direcção-Nacional da PSP avança ao PortugalDiário que o agente em causa «não está a fazer serviço no exterior» mas não foi suspenso. Ou seja, continua a trabalhar mas dentro da esquadra. E no decorrer do inquérito pode vir a ser suspenso.
A Polícia pondera ainda o envio do caso para a IGAI - Inspecção-Geral da Administração Interna.
PortugalDiario.
Um agente da PSP do Porto agrediu repetidamente um jovem, que foi apanhado a vandalizar um sinal de trânsito. A situação foi gravada por um vídeo amador, divulgado pela Sic. O polícia continua a trabalhar mas não faz serviço fora da esquadra.
Na passada quarta-feira, os moradores da rua Andressen Leitão chamaram as autoridades porque viram quatro jovens a vandalizar sinais de trânsito.
Quando os agentes chegaram ao local houve uma troca de palavras mais acessa entre um dos jovens e um agente. Apesar de afastado por um colega, o polícia não desistiu das agressões e foi arranjando forma de contornar os colegas para agredir o jovem.
Nas imagens é possível ver que além dos dois carros patrulha que já estavam no local, chegaram entretanto mais elementos numa carrinha das brigadas de intervenção rápida, mas não conseguiram impedir mais agressões.
Enquanto o jovem agredido continuava a ser interrogado junto ao carro-patrulha, o agente dirige-se para um dos amigos e tenta também agredi-lo.
Os carros-patrulha continuaram a chegar e os jovens foram detidos e começaram a ser levados para uma carrinha.
O agente em causa dirigiu-se novamente ao primeiro rapaz que já tinha agredido e, enquanto este fazia um telefonema, arrancou-lhe o telemóvel das mãos e voltou a agredi-lo a pontapé.
A Sic afirmou que os quatro jovens tinham estado numa festa e teriam bebido em excesso. Apesar disso, não ofereceram resistência. Ainda assim, os 12 agentes que se juntaram no local não conseguiram acalmar o colega que, visivelmente descontrolado, insistia em agredir o jovem.
Confrontado com as imagens, o Comando Metropolitano da PSP Porto afirmou que «este comportamento não é usual na PSP» e que «vai investigar».
Fonte da Direcção-Nacional da PSP avança ao PortugalDiário que o agente em causa «não está a fazer serviço no exterior» mas não foi suspenso. Ou seja, continua a trabalhar mas dentro da esquadra. E no decorrer do inquérito pode vir a ser suspenso.
A Polícia pondera ainda o envio do caso para a IGAI - Inspecção-Geral da Administração Interna.
PortugalDiario.
quarta-feira, abril 19, 2006
P.S.2
A inviabilização pelos deputados da audição de Santos Cabral depois das afirmações de Alberto Costa na Assembleia e o silêncio de José Sócrates sobre o tema das "férias pascais antecipadas" jogam muito mal com o que foi o discurso do PS na oposição. Tenho pena.
Resumo da tradução do Noise:).
• ITÁLIA/ELEIÇÕES
Tribunal confirma vitória de Prodi
O Supremo Tribunal italiano confirmou, esta quarta-feira, a vitória eleitoral da coligação de centro-esquerda liderada por Romano Prodi nas legislativas italianas de 9 e 10 de Abril.
( 14:31 / 19 de Abril 06 )
Segundo a cadeia televisiva Sky Tg24, a confirmação dos resultados baseia-se na recontagem de cerca de 5200 votos que não foram incluídos na primeira contagem por não ser claro o sentido do voto neles expresso.
O anúncio dos resultados oficiais das eleições de09 e 10 de Abril está previsto para as 17:00 locais (16:00 em Lisboa).
Segundo os dados do Ministério do Interior já conhecidos, a União de Prodi venceu a Casa das Liberdades, de Silvio Berlusconi, por uma estreita margem de 25 mil votos no Congresso e de dois lugares no Senado.
No entanto, Berlusconi recusou reconhecer os resultados e impugnou parte do escrutínio, apesar de o Ministério do Interior sustentar que os 5200 votos em causa não iam alterar os resultados finais, mesmo que fossem todos pela Casa das Liberdades.
Terça-feira, o primeiro-ministro italiano pediu ao Supremo Tribunal que «com a exactidão que lhe é própria, e que neste caso é ainda mais necessária, realize todos os controlos necessários para garantir um resultado eleitoral que vá além de qualquer dúvida razoável».
TSF.
P.S. Como o fiz antes com a NTV, desejo o melhor a um canal de televisão do Porto.
Tribunal confirma vitória de Prodi
O Supremo Tribunal italiano confirmou, esta quarta-feira, a vitória eleitoral da coligação de centro-esquerda liderada por Romano Prodi nas legislativas italianas de 9 e 10 de Abril.
( 14:31 / 19 de Abril 06 )
Segundo a cadeia televisiva Sky Tg24, a confirmação dos resultados baseia-se na recontagem de cerca de 5200 votos que não foram incluídos na primeira contagem por não ser claro o sentido do voto neles expresso.
O anúncio dos resultados oficiais das eleições de09 e 10 de Abril está previsto para as 17:00 locais (16:00 em Lisboa).
Segundo os dados do Ministério do Interior já conhecidos, a União de Prodi venceu a Casa das Liberdades, de Silvio Berlusconi, por uma estreita margem de 25 mil votos no Congresso e de dois lugares no Senado.
No entanto, Berlusconi recusou reconhecer os resultados e impugnou parte do escrutínio, apesar de o Ministério do Interior sustentar que os 5200 votos em causa não iam alterar os resultados finais, mesmo que fossem todos pela Casa das Liberdades.
Terça-feira, o primeiro-ministro italiano pediu ao Supremo Tribunal que «com a exactidão que lhe é própria, e que neste caso é ainda mais necessária, realize todos os controlos necessários para garantir um resultado eleitoral que vá além de qualquer dúvida razoável».
TSF.
P.S. Como o fiz antes com a NTV, desejo o melhor a um canal de televisão do Porto.
Em italiano para fazermos de conta que somos cosmopolitas:).
Il verdetto della Cassazione: ha vinto Prodi Confermato l'esito delle consultazioni. All'Unione anche i 45mila voti di Lega Alleanza Lombarda STRUMENTIVERSIONE STAMPABILEI PIU' LETTIINVIA QUESTO ARTICOLO
Romano Prodi (Reuters)
ROMA - Il verdetto arriva in perfetto orario, alle 18. E fa sorridere Romano Prodi. La Cassazione ha stabilito che a vincere le elezioni politiche del 2006 è l'Unione. I giudici della Suprema Corte hanno ultimato i conteggi sulle quasi 5mila schede sott'accusa. I voti esatti attributi alla Camera alla coalizione guidata dal Professore sono stati 19.002.598. Per la Cdl 18.977.843. La differenza tra i due schieramenti è di 24.755 voti. Lo scarto secondo i dati diffusi dal Viminale era di 25.224 voti.
BOCCIATA L'ISTANZA DI CALDEROLI - Dal «palazzaccio» viene anche la parola fine al cosidetto nodo Calderoli. I 44.589 voti conseguiti nella circoscrizione Lombardia 2 dalla lista «Lega per Alleanza Lombarda», contestati dall'ex ministro leghista Roberto Calderoli, sono stati infatti conteggiati tra i voti attribuiti all'Unione. Nella motivazione, la Cassazione spiega che «ogni procedimento, e quindi anche il procedimento elettorale, deve intendersi assoggettato al principio di economia, per il quale ciascun atto è logicamente preordinato all'atto o alla serie di atti successivi, con la conseguenza che non è concepibile l'adozione di atti inutili rispetto alla fase successiva». Pertanto, i giudici della Suprema Corte spiegano, con riferimento al caso sollevato da Calderoli, che «è da escludere che il provvedimento contenente l'elenco dei collegamenti ammessi possa essere considerato inutile, come sarebbe nel caso in cui, ammessa prima delle elezioni la presentazione di una lista in una sola circoscrizione e il relativo collegamento in una coalizione, il voto espresso dagli elettori per quella lista e per quella coalizione venisse messo nel nulla in sede di somma delle cifre elettorali». La Cassazione fa riferimento ad un provvedimento della stessa Corte del 16 marzo scorso con il quale veniva ammessa l'Alleanza lombarda quale lista collegata alla coalizione di Romano Prodi.
LE REAZIONI - Soddisfazione in casa ulivista. All'annuncio della Cassazione, il coordinamento dell'Ulivo ha diffuso uan nota nella quale fra l'altro si legge: «Il teorema di Berlusconi si è rivelato fasullo: i sospetti di brogli ed i veleni, alimentati in questi giorni con toni inaccettabili per un paese democratico, sono stati spazzati via. Ora è tempo di voltare pagina».
19 aprile 2006
Corriere della Sera.
Romano Prodi (Reuters)
ROMA - Il verdetto arriva in perfetto orario, alle 18. E fa sorridere Romano Prodi. La Cassazione ha stabilito che a vincere le elezioni politiche del 2006 è l'Unione. I giudici della Suprema Corte hanno ultimato i conteggi sulle quasi 5mila schede sott'accusa. I voti esatti attributi alla Camera alla coalizione guidata dal Professore sono stati 19.002.598. Per la Cdl 18.977.843. La differenza tra i due schieramenti è di 24.755 voti. Lo scarto secondo i dati diffusi dal Viminale era di 25.224 voti.
BOCCIATA L'ISTANZA DI CALDEROLI - Dal «palazzaccio» viene anche la parola fine al cosidetto nodo Calderoli. I 44.589 voti conseguiti nella circoscrizione Lombardia 2 dalla lista «Lega per Alleanza Lombarda», contestati dall'ex ministro leghista Roberto Calderoli, sono stati infatti conteggiati tra i voti attribuiti all'Unione. Nella motivazione, la Cassazione spiega che «ogni procedimento, e quindi anche il procedimento elettorale, deve intendersi assoggettato al principio di economia, per il quale ciascun atto è logicamente preordinato all'atto o alla serie di atti successivi, con la conseguenza che non è concepibile l'adozione di atti inutili rispetto alla fase successiva». Pertanto, i giudici della Suprema Corte spiegano, con riferimento al caso sollevato da Calderoli, che «è da escludere che il provvedimento contenente l'elenco dei collegamenti ammessi possa essere considerato inutile, come sarebbe nel caso in cui, ammessa prima delle elezioni la presentazione di una lista in una sola circoscrizione e il relativo collegamento in una coalizione, il voto espresso dagli elettori per quella lista e per quella coalizione venisse messo nel nulla in sede di somma delle cifre elettorali». La Cassazione fa riferimento ad un provvedimento della stessa Corte del 16 marzo scorso con il quale veniva ammessa l'Alleanza lombarda quale lista collegata alla coalizione di Romano Prodi.
LE REAZIONI - Soddisfazione in casa ulivista. All'annuncio della Cassazione, il coordinamento dell'Ulivo ha diffuso uan nota nella quale fra l'altro si legge: «Il teorema di Berlusconi si è rivelato fasullo: i sospetti di brogli ed i veleni, alimentati in questi giorni con toni inaccettabili per un paese democratico, sono stati spazzati via. Ora è tempo di voltare pagina».
19 aprile 2006
Corriere della Sera.
terça-feira, abril 18, 2006
Amabilidade do RAM.
"Embracing a literal translation of the Bible, the church members believe that God strikes down the wicked, chief among them gay men and lesbians and people who fail to strongly condemn homosexuality. God is killing soldiers, they say, because of America's unwillingness to condemn gay people and their lifestyles."
New York Times.
Ou seja: aparecem nos funerais dos soldados mortos no Iraque com cartazes demonstrando satisfação por Deus punir assim os EE.UU. pela sua complacência para com os homossexuais...
New York Times.
Ou seja: aparecem nos funerais dos soldados mortos no Iraque com cartazes demonstrando satisfação por Deus punir assim os EE.UU. pela sua complacência para com os homossexuais...
segunda-feira, abril 17, 2006
O Noise é impaciente! (E eu já falava de espelhos naquele tempo:)).
Amantes clandestinos ( IV )
Pois, os homens! Neles, as alterações do funcionamento sexual costumam ser progressivas, o que, idealmente, permite uma melhor adaptação às novas regras do jogo. A maioria dos estudos refere uma diminuição de actividade a partir dos cinquenta anos (ó Diabo!), que se torna mais abrupta a partir dos setenta. Mas vocês sabem como abomino estas generalizações, cada um de nós parece ter nascido para desmentir as estatísticas e ainda bem. Debrucemo-nos sobre os factos: o desejo pode diminuir de intensidade e frequência; a erecção torna-se mais difícil e dependente de maior estimulação física, as fantasias sexuais por si só não dão conta do recado; as contracções orgásmicas são mais fracas e o ejaculado em menor quantidade; o período refractário, ou seja, o tempo necessário para obter uma segunda erecção, aumenta, chegando a estender-se por dias; diminui a frequência das erecções matinais e dos sonhos eróticos. E no entanto alguns homens contam-nos que o passar dos anos lhes resolveu problemas de ejaculação prematura e muitos referem que o prazer aumentou, por serem capazes de uma erotização mais global do corpo e da relação.
Algumas doenças representam claros riscos para a função sexual, como a diabetes, a hipertensão, o alcoolismo, a esclerose múltipla ou a artrite (que pode simplesmente implicar o aconselhamento de outras posições ou a adaptação do horário da toma dos anti-inflamatórios). Certos procedimentos, como a cirurgia prostática ou a radioterapia, podem ter consequências indesejáveis. Quanto às medicações, é bom recordar que o envelhecimento, sobretudo o masculino, aumenta a probabilidade de verdadeiros “ramalhetes medicamentosos”. Salientaria algumas das drogas habitualmente receitadas para a hipertensão, bem como as anti-ulcerosas e as psiquiátricas. Ainda e sempre será arriscado tornar doença ou medicamento o único vilão da fita, a avaliação psicológica e do funcionamento do casal impõe-se em todos os casos. Infelizmente não é raro homens pagarem fortunas por baterias de análises, quando uma história clínica bem cuidada teria de imediato apontado para uma disfunção situacional (o palavrão significa que ele não funciona com um(a) parceiro(a) determinado(a), mas perfeitamente com outro(a)). Estranham os parênteses? É sempre útil lembrar que falamos das pessoas, independentemente da sua orientação sexual.
Com frequência, vemos os homens caírem numa esparrela sedutora: buscar, quase com desespero, uma actividade sexual equivalente ou mesmo superior à do passado. Não pelo prazer obtido, mas como forma de negar, perante si próprios e os outros, o envelhecimento. Ou uma depressão que lhes começa a tornar difícil o arranque matinal e assustadoramente fácil a lágrima ao canto do olho. Acontece. Sobretudo porque o bom macho latino aceita mal que um encontro erótico não termine (ou se inicie!) por uma penetração para a qual deve estar sempre pronto.
E o carrossel das hormonas, constitui duvidoso privilégio das mulheres? No homem, as alterações hormonais influenciam mais o desejo do que a erecção, pelo que nestes casos as terapias mais recentes para a impotência estão condenadas ao fracasso. Uma última palavra para conceito que faz correr rios de tinta: andropausa. Se por ela quisermos entender modificações hormonais sobreponíveis às encontradas nas mulheres aquando da menopausa, retiremo-la do nosso dicionário. Mas se, pelo contrário, a utilizamos para legenda de tempos de balanço sobre o que realizámos dos nossos sonhos e o que sonhamos para o caminho que nos resta, tudo regado com molho feito de alguma nostalgia e dúvidas sobre as nossas capacidades físicas e psicológicas, dir-vos-ei que a “andropausa” é frequente, talvez inevitável. E uso as aspas porque falo de ambos os sexos, afinal quem se pode gabar de não temer o veredicto de espelhos ferozes dentro de si?
Pois, os homens! Neles, as alterações do funcionamento sexual costumam ser progressivas, o que, idealmente, permite uma melhor adaptação às novas regras do jogo. A maioria dos estudos refere uma diminuição de actividade a partir dos cinquenta anos (ó Diabo!), que se torna mais abrupta a partir dos setenta. Mas vocês sabem como abomino estas generalizações, cada um de nós parece ter nascido para desmentir as estatísticas e ainda bem. Debrucemo-nos sobre os factos: o desejo pode diminuir de intensidade e frequência; a erecção torna-se mais difícil e dependente de maior estimulação física, as fantasias sexuais por si só não dão conta do recado; as contracções orgásmicas são mais fracas e o ejaculado em menor quantidade; o período refractário, ou seja, o tempo necessário para obter uma segunda erecção, aumenta, chegando a estender-se por dias; diminui a frequência das erecções matinais e dos sonhos eróticos. E no entanto alguns homens contam-nos que o passar dos anos lhes resolveu problemas de ejaculação prematura e muitos referem que o prazer aumentou, por serem capazes de uma erotização mais global do corpo e da relação.
Algumas doenças representam claros riscos para a função sexual, como a diabetes, a hipertensão, o alcoolismo, a esclerose múltipla ou a artrite (que pode simplesmente implicar o aconselhamento de outras posições ou a adaptação do horário da toma dos anti-inflamatórios). Certos procedimentos, como a cirurgia prostática ou a radioterapia, podem ter consequências indesejáveis. Quanto às medicações, é bom recordar que o envelhecimento, sobretudo o masculino, aumenta a probabilidade de verdadeiros “ramalhetes medicamentosos”. Salientaria algumas das drogas habitualmente receitadas para a hipertensão, bem como as anti-ulcerosas e as psiquiátricas. Ainda e sempre será arriscado tornar doença ou medicamento o único vilão da fita, a avaliação psicológica e do funcionamento do casal impõe-se em todos os casos. Infelizmente não é raro homens pagarem fortunas por baterias de análises, quando uma história clínica bem cuidada teria de imediato apontado para uma disfunção situacional (o palavrão significa que ele não funciona com um(a) parceiro(a) determinado(a), mas perfeitamente com outro(a)). Estranham os parênteses? É sempre útil lembrar que falamos das pessoas, independentemente da sua orientação sexual.
Com frequência, vemos os homens caírem numa esparrela sedutora: buscar, quase com desespero, uma actividade sexual equivalente ou mesmo superior à do passado. Não pelo prazer obtido, mas como forma de negar, perante si próprios e os outros, o envelhecimento. Ou uma depressão que lhes começa a tornar difícil o arranque matinal e assustadoramente fácil a lágrima ao canto do olho. Acontece. Sobretudo porque o bom macho latino aceita mal que um encontro erótico não termine (ou se inicie!) por uma penetração para a qual deve estar sempre pronto.
E o carrossel das hormonas, constitui duvidoso privilégio das mulheres? No homem, as alterações hormonais influenciam mais o desejo do que a erecção, pelo que nestes casos as terapias mais recentes para a impotência estão condenadas ao fracasso. Uma última palavra para conceito que faz correr rios de tinta: andropausa. Se por ela quisermos entender modificações hormonais sobreponíveis às encontradas nas mulheres aquando da menopausa, retiremo-la do nosso dicionário. Mas se, pelo contrário, a utilizamos para legenda de tempos de balanço sobre o que realizámos dos nossos sonhos e o que sonhamos para o caminho que nos resta, tudo regado com molho feito de alguma nostalgia e dúvidas sobre as nossas capacidades físicas e psicológicas, dir-vos-ei que a “andropausa” é frequente, talvez inevitável. E uso as aspas porque falo de ambos os sexos, afinal quem se pode gabar de não temer o veredicto de espelhos ferozes dentro de si?
domingo, abril 16, 2006
Esta loja nunca fecha, mesmo em dia santo:)))).
Amantes clandestinos (III)
É habitual que as mulheres se refiram ao envelhecimento sugerido pelo espelho com voz mais amarga e saudosa. Poderia ser de outra forma? As barrigas de cerveja ou calvícies deles, embora preocupando-os mais do que antigamente, não assumem proporções tão ameaçadoras no “mercado erótico”. A beleza obrigatória (ou pelo menos desejável) permanece duvidoso privilégio feminino. Mas se as consequências estéticas do inexorável passar dos anos já pesam diferentemente sobre ambos os sexos, uma palavra espreita as mulheres em cada esquina: menopausa.
De acordo, a pouco e pouco a terrível equação entre fertilidade e feminilidade vai-se esbatendo, elas sacodem o fardo que lhes foi imposto e percebem que não se esgotam como pessoas nas salas de parto. Mas seria ingénuo admitir que a carga simbólica desapareceu por completo, continuo a escutar mil variações sobre a mesma melodia: “Dr., talvez seja burrice, mas é como se algo acabasse”. Em muitos casos o lamento chega cedo e inesperado, por menopausa relacionada com extracção de útero e/ou ovários ou devida a quimioterapia. Nestas ocasiões, em que a doença, cruel, apressa a Natureza, a melhor preparação dos técnicos de saúde é urgente, demasiadas mulheres juntam ao receio pela vida o de terem morrido para o sexo. Ouço-as em consulta, culpando a mesa de operações pelas queixas sexuais, “estou assim porque me tiraram tudo!”.
Não têm razão, mas importa sublinhar que os caprichos das hormonas – ou almôndegas, como dizia a incomparável cozinheira dos meus Avós! – podem acarretar sintomas bem concretos. A baixa de estrogénios provoca amiúde secura vaginal e aumenta as hipóteses de infecção. Em ambos os casos o coito torna-se doloroso o que, por arrastamento, diminui o desejo sexual. Estas e outras possíveis alterações, como a maior dificuldade em atingir o orgasmo, sublinham a importância de uma consulta médica para discutir a estratégia a seguir, tanto mais que outros problemas, como a osteoporose, são frequentes. Os efeitos colaterais das medicações em curso devem também ser avaliados. O exemplo dos anti-depressivos é clássico, por aumentarem muitas vezes o peso (o que compromete a auto-imagem) e diminuírem o desejo.
Mas a nível sexual, raramente as alterações se devem a causa solitária, importa salientar a dimensão relacional dos sintomas. Sentir menor desejo em corpo e espírito de quem se ama, perceber que o outro beija distraído antes de virar as costas e adormecer pode provocar mossa bem maior do que o envelhecimento das entranhas. E como reage o casal ao abrir de asas dos ganapos? Longe de mim negar as saudades que sofregamente se matam Domingo ao almoço quando visitam casa – e mesa! – dos Pais. Mas como ficou o ambiente depois da sua partida? Deixaram para trás duas pessoas que redescobrem o prazer de um namoro pacífico, cheio das pequenas cumplicidades que o tempo segrega, ou um silêncio pesado entre quem se habituou a só viver alegrias e tristezas provocadas pelo crescimento dos miúdos e já nada mais tem a partilhar? Não raras vezes o casal descobre que se deixou invadir por uma rotina feroz que espezinha tudo. Incluindo o sexo, empurrado para Sábado à noite porque apenas ao Domingo esta vida alucinante permite um acordar mais preguiçoso. E, subtilmente, peso e responsabilidade do quotidiano cinzento caem mais sobre as mulheres, tidas por garantes da “saúde afectiva” do agregado familiar. Ou que pensar das mulheres divorciadas ou viúvas em meios culturais que lhes exigem o “decoro” respeitável e assexuado? Por vezes assisto ao fim do princípio de amores plácidos, elas debitam murmúrios resignados, “os meus filhos são contra”. Tristes, aceitam o seu destino: foram mães de uns, esposas de outros, empregadas de terceiros e pouco - muito pouco! - amigas de si próprias.
Tanto por dizer. Terei coragem para me refugiar nos homens já para a semana?
É habitual que as mulheres se refiram ao envelhecimento sugerido pelo espelho com voz mais amarga e saudosa. Poderia ser de outra forma? As barrigas de cerveja ou calvícies deles, embora preocupando-os mais do que antigamente, não assumem proporções tão ameaçadoras no “mercado erótico”. A beleza obrigatória (ou pelo menos desejável) permanece duvidoso privilégio feminino. Mas se as consequências estéticas do inexorável passar dos anos já pesam diferentemente sobre ambos os sexos, uma palavra espreita as mulheres em cada esquina: menopausa.
De acordo, a pouco e pouco a terrível equação entre fertilidade e feminilidade vai-se esbatendo, elas sacodem o fardo que lhes foi imposto e percebem que não se esgotam como pessoas nas salas de parto. Mas seria ingénuo admitir que a carga simbólica desapareceu por completo, continuo a escutar mil variações sobre a mesma melodia: “Dr., talvez seja burrice, mas é como se algo acabasse”. Em muitos casos o lamento chega cedo e inesperado, por menopausa relacionada com extracção de útero e/ou ovários ou devida a quimioterapia. Nestas ocasiões, em que a doença, cruel, apressa a Natureza, a melhor preparação dos técnicos de saúde é urgente, demasiadas mulheres juntam ao receio pela vida o de terem morrido para o sexo. Ouço-as em consulta, culpando a mesa de operações pelas queixas sexuais, “estou assim porque me tiraram tudo!”.
Não têm razão, mas importa sublinhar que os caprichos das hormonas – ou almôndegas, como dizia a incomparável cozinheira dos meus Avós! – podem acarretar sintomas bem concretos. A baixa de estrogénios provoca amiúde secura vaginal e aumenta as hipóteses de infecção. Em ambos os casos o coito torna-se doloroso o que, por arrastamento, diminui o desejo sexual. Estas e outras possíveis alterações, como a maior dificuldade em atingir o orgasmo, sublinham a importância de uma consulta médica para discutir a estratégia a seguir, tanto mais que outros problemas, como a osteoporose, são frequentes. Os efeitos colaterais das medicações em curso devem também ser avaliados. O exemplo dos anti-depressivos é clássico, por aumentarem muitas vezes o peso (o que compromete a auto-imagem) e diminuírem o desejo.
Mas a nível sexual, raramente as alterações se devem a causa solitária, importa salientar a dimensão relacional dos sintomas. Sentir menor desejo em corpo e espírito de quem se ama, perceber que o outro beija distraído antes de virar as costas e adormecer pode provocar mossa bem maior do que o envelhecimento das entranhas. E como reage o casal ao abrir de asas dos ganapos? Longe de mim negar as saudades que sofregamente se matam Domingo ao almoço quando visitam casa – e mesa! – dos Pais. Mas como ficou o ambiente depois da sua partida? Deixaram para trás duas pessoas que redescobrem o prazer de um namoro pacífico, cheio das pequenas cumplicidades que o tempo segrega, ou um silêncio pesado entre quem se habituou a só viver alegrias e tristezas provocadas pelo crescimento dos miúdos e já nada mais tem a partilhar? Não raras vezes o casal descobre que se deixou invadir por uma rotina feroz que espezinha tudo. Incluindo o sexo, empurrado para Sábado à noite porque apenas ao Domingo esta vida alucinante permite um acordar mais preguiçoso. E, subtilmente, peso e responsabilidade do quotidiano cinzento caem mais sobre as mulheres, tidas por garantes da “saúde afectiva” do agregado familiar. Ou que pensar das mulheres divorciadas ou viúvas em meios culturais que lhes exigem o “decoro” respeitável e assexuado? Por vezes assisto ao fim do princípio de amores plácidos, elas debitam murmúrios resignados, “os meus filhos são contra”. Tristes, aceitam o seu destino: foram mães de uns, esposas de outros, empregadas de terceiros e pouco - muito pouco! - amigas de si próprias.
Tanto por dizer. Terei coragem para me refugiar nos homens já para a semana?
sábado, abril 15, 2006
Bom Domingo de Páscoa, maralhal!
Amantes clandestinos (II)
Regressemos à relação entre sexo e envelhecimento. Antes de mais, para referir que o aconselhamento sexual nesta área é cada vez mais procurado. Seguramente porque as populações envelhecem, as estatísticas e as dores de cabeça governamentais não mentem. Mas também porque alguns mitos se resignaram a ser apenas isso – mitos.
Tomemos o exemplo de um inquérito levado a cabo pelo Conselho Nacional Americano para o Envelhecimento. Das mil pessoas de ambos os sexos entrevistadas, todas com mais de cinquenta anos, 60% estavam satisfeitas com as suas vidas sexuais. Cerca de 61% diziam ser o sexo tão bom ou melhor do que na juventude e 70% tinham relações pelo menos uma vez por semana. Não menos elucidativo, das que afirmavam ser o sexo raro ou inexistente, 34% responsabilizavam pelo facto doenças variadas, a perda do parceiro ou efeitos colaterais de medicações. As queixas sexuais referidas eram semelhantes às dos mais novos, embora a frequência de coito e masturbação fosse menor. Os indivíduos para quem a actividade erótica fora satisfatória no passado continuavam a destacar-lhe a importância, demonstrando como é falso o mito segundo o qual existiria o risco de nos “gastarmos sexualmente” enquanto jovens e depois, velhos falidos, servirmos apenas para mimar netos, vencer campeonatos de sueca ou tricotar junto à lareira.
Mas devemos ter cuidado quando falamos de “pessoas”. Porque em cultura celebrando o individualismo, mas que ao mesmo tempo procura tornar-nos igualmente cinzentos, apáticos e passivos consumidores, torna-se ainda mais necessário evitar generalizações perigosas. Há quem acolha o envelhecimento como uma oportunidade para se retirar de uma vida sexual unicamente encarada no âmbito da procriação ou geradora de conflitos e culpabilidades por diversas razões. Respeitar trajectos e escolhas individuais é obrigatório, sob pena de substituirmos o estereotipo do envelhecimento assexuado por um outro imperialismo, que decretaria anormal quem referisse menor apetência pelo sexo.
A enorme variação de atitudes e comportamentos justifica também uma constatação reconfortante, no passado exagerámos atrozmente a rigidez dos mais velhos, eles aceitam e utilizam as mudanças no mundo que os rodeia. A curiosidade pela Net é um bom exemplo. O sucesso de drogas como o Viagra é outro, bem como a exigência por parte de muitas mulheres de terapêuticas semelhantes para o sexo feminino (outro dia falarei dos riscos que a prescrição eufórica ou simplesmente desonesta de tais medicações comporta). Se conscientes dessa inesperada mas real abertura, os técnicos poderão estar a caminho de deliciosas surpresas. Dizia uma noiva americana de 76 anos ao seu médico: “A nível do sexo, nunca experimentei nada de muito original durante o meu primeiro casamento. Mas se o doutor o recomendar, estou pronta a fazê-lo agora”. O livro não diz que receita o colega lhe passou!
Mas se os mais velhos partilham interesses com os jovens, o mesmo se verifica, infelizmente, com as angústias. As alterações da função sexual relacionadas com o envelhecimento são-lhes desconhecidas e por isso mais assustadoras, não são apenas os adolescentes a precisarem de – pelo menos! – informação de boa qualidade. E imaginem ( os que por lá não passaram ) a angústia de quem fica sozinho e não acredita poder ainda despertar o desejo que fala através de um olhar maroto ou do convite hesitante para jantar. Há gente que sufoca sob uma solidão sofrida e não escolhida, simplesmente porque o espelho confirma os seus receios, “credo!, quem me pode achar piada?”. Os adolescentes dizem o mesmo, a insegurança não tem idade.
Para a semana falarei de problemas sexuais específicos e do seu diferente peso em cada um dos sexos. E começarei pelas mulheres, o caminho para a igualdade não é incompatível com as velhas regras de cortesia. Logo…, primeiro as senhoras!
Regressemos à relação entre sexo e envelhecimento. Antes de mais, para referir que o aconselhamento sexual nesta área é cada vez mais procurado. Seguramente porque as populações envelhecem, as estatísticas e as dores de cabeça governamentais não mentem. Mas também porque alguns mitos se resignaram a ser apenas isso – mitos.
Tomemos o exemplo de um inquérito levado a cabo pelo Conselho Nacional Americano para o Envelhecimento. Das mil pessoas de ambos os sexos entrevistadas, todas com mais de cinquenta anos, 60% estavam satisfeitas com as suas vidas sexuais. Cerca de 61% diziam ser o sexo tão bom ou melhor do que na juventude e 70% tinham relações pelo menos uma vez por semana. Não menos elucidativo, das que afirmavam ser o sexo raro ou inexistente, 34% responsabilizavam pelo facto doenças variadas, a perda do parceiro ou efeitos colaterais de medicações. As queixas sexuais referidas eram semelhantes às dos mais novos, embora a frequência de coito e masturbação fosse menor. Os indivíduos para quem a actividade erótica fora satisfatória no passado continuavam a destacar-lhe a importância, demonstrando como é falso o mito segundo o qual existiria o risco de nos “gastarmos sexualmente” enquanto jovens e depois, velhos falidos, servirmos apenas para mimar netos, vencer campeonatos de sueca ou tricotar junto à lareira.
Mas devemos ter cuidado quando falamos de “pessoas”. Porque em cultura celebrando o individualismo, mas que ao mesmo tempo procura tornar-nos igualmente cinzentos, apáticos e passivos consumidores, torna-se ainda mais necessário evitar generalizações perigosas. Há quem acolha o envelhecimento como uma oportunidade para se retirar de uma vida sexual unicamente encarada no âmbito da procriação ou geradora de conflitos e culpabilidades por diversas razões. Respeitar trajectos e escolhas individuais é obrigatório, sob pena de substituirmos o estereotipo do envelhecimento assexuado por um outro imperialismo, que decretaria anormal quem referisse menor apetência pelo sexo.
A enorme variação de atitudes e comportamentos justifica também uma constatação reconfortante, no passado exagerámos atrozmente a rigidez dos mais velhos, eles aceitam e utilizam as mudanças no mundo que os rodeia. A curiosidade pela Net é um bom exemplo. O sucesso de drogas como o Viagra é outro, bem como a exigência por parte de muitas mulheres de terapêuticas semelhantes para o sexo feminino (outro dia falarei dos riscos que a prescrição eufórica ou simplesmente desonesta de tais medicações comporta). Se conscientes dessa inesperada mas real abertura, os técnicos poderão estar a caminho de deliciosas surpresas. Dizia uma noiva americana de 76 anos ao seu médico: “A nível do sexo, nunca experimentei nada de muito original durante o meu primeiro casamento. Mas se o doutor o recomendar, estou pronta a fazê-lo agora”. O livro não diz que receita o colega lhe passou!
Mas se os mais velhos partilham interesses com os jovens, o mesmo se verifica, infelizmente, com as angústias. As alterações da função sexual relacionadas com o envelhecimento são-lhes desconhecidas e por isso mais assustadoras, não são apenas os adolescentes a precisarem de – pelo menos! – informação de boa qualidade. E imaginem ( os que por lá não passaram ) a angústia de quem fica sozinho e não acredita poder ainda despertar o desejo que fala através de um olhar maroto ou do convite hesitante para jantar. Há gente que sufoca sob uma solidão sofrida e não escolhida, simplesmente porque o espelho confirma os seus receios, “credo!, quem me pode achar piada?”. Os adolescentes dizem o mesmo, a insegurança não tem idade.
Para a semana falarei de problemas sexuais específicos e do seu diferente peso em cada um dos sexos. E começarei pelas mulheres, o caminho para a igualdade não é incompatível com as velhas regras de cortesia. Logo…, primeiro as senhoras!
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