quinta-feira, outubro 12, 2006

On n'est pas sérieux quand on a dix-sept - ou cinquante-sept:)? - ans.

Maria,
Aí vai o texto. Fiquei enternecido por ainda te lembrares dele, escrevi-o há tanto tempo! Mas ainda mais por dizeres que tens saudades do maroto que te ensinei a ouvir. Também eu. Muitas, sabes? De o ver no Rivoli, furioso por as luzes fraquejarem - "je travaille, merde!" -, mas logo terno como um miúdo para os cabelos brancos de Maria na plateia. Anos depois, tu sorrindo, o CD na mão, o dedo em riste - "esta falará de nós enquanto eu estiver em Londres...". Tinhas razão. Porque por mail, carta ou sms, a mensagem será sempre a mesma Quand tu me liras - sem ti, cambaleio como um Bateau Ivre. Fica bem.








NO SEU ENTERRO


LÉO FERRÉ

(Variações sobre À mon enterrement)

Um fracasso, o enterro do velho leão. De resto previsível, não lembra ao Diabo compor o próprio funeral, ficamos sujeitos a qualquer pequeno contratempo, a má-língua ao fundo do cortejo, “eu não dizia?, enganou-se em toda a linha”. Mesmo assim há limites, foi humilhante até para quem não passava de mirone, “ah, sim!, o cantor, vestido de preto, cabelos brancos, cheio de tiques, já devia ter uma idadezita”. Não acertou em nada. Potros azuis? Nem vê-los!; e não me venham com a história da cor, liberdades de poeta, negros teriam sido bem mais adequados. O certo é que não apareceram, correndo livres por planícies não toscanas. Fizeram bem; os homens não resistem a domesticar beleza e movimento para os mostrar a visitas dominicais ou públicas ululantes; fizeram bem.
Mas…, e os pops? Onde se meteram as guitarras? Já nem digo flores libertas de espartilhos de coroas, raio de ideia, arranjos estereotipados para celebrar experiência única - nascemos sós mas não notamos, de qualquer modo passamos para o lado de cá, sussurros e carapins cedo nos integram; a morte, essa, põe-nos verdadeiramente ao espelho unidireccional, quem espia através dele, verme ou divindade? Não vieram e deviam, tocaram juntos e correu bem, flirt descarado entre poesia e electricidade, momentos breves, como convém a futuras recordações. É preciso resistir à tentação de mudar secantes em círculos sobrepostos, separam-se como os arcos dos ilusionistas, “senhoras e senhores vou pedir a esta menina da primeira fila que os experimente”, (“aqui há truque, será filha dele?”.
Mulheres de passe também não. Muito menos rapariguinhas de doze anos que o ultraje encheu, talvez nem sequer existam - o homem era um provocador… - em Itália ou França, perdão!, na CEE. Pouco lógico que alguém o conhecesse nas Filipinas e se desse ao trabalho de vir, mesmo aí não é certo, as cadeias de televisão são capazes de tudo por uma boa reportagem, nada nos garante que não sejam mais velhas. E as outras? Seguramente a dormir após noite dura ou amuadas por ele ter abandonado Paris e escolhido quinta mulher única, facto é que não vieram. O cangalheiro nada tem a ver com o previsto, não admira, quem já viu um cangalheiro de dezoito anos e com seis de vagabundagem? Melhor assim, suponhamos que por artes diabólicas cumpria a promessa, comitiva aterrorizada, o cadáver de súbito a estoirar de vida e a fazer amor com o miúdo, trajecto interrompido, “porque parámos?, não olhes, uma vergonha”. Não teve até ao fim um coração de ferro, asseguram os médicos, desde o João Semana da aldeia (grande apreciador do seu vinho) até aos especialistas do hospital; se fez sozinho o troço derradeiro, seguramente não foi de táxi, quanto ao Inferno…, adiante.
E não berrou, senhores, não berrou, embora fosse das profecias a mais esperada, até da morte se duvidava que tivesse coragem para calar o desbragado e os seus verbos activos. (Chamava-lhes poesia, um homem para quem o estilo se abrigava em cu de mulher não devia ter direito a empregar a palavra.) Teve bons mestres: Baudelaire, Rimbaud, Apollinaire, não por acaso apelidados de malditos. Ele sempre a desculpá-los, pior!, a incensá-los, falinhas mansas para os meter pelos nossos ouvidos dentro quando falava de Saint-Germain-des-Prés, até o turismo se pode ressentir de tais coisas. Sempre a falar de ordenadores e cartões perfurados, e as imagens…, melhor fora, um rio é um rio, desagua na foz e pronto, que ideia mais infeliz supor o mar enjoado por ver chegar outras águas, silencioso por decoro. O rio não tem culpa, profundas carências científicas (até um miúdo sabe que a responsabilidade é da Lua), o vento sopra e pára, mas não se estatela em pedras.
E como poderia, por definição, um morto ver? Outros mortos, ideia macabra. Se algo viu, e ninguém jamais o saberá, foram vivos e poucos. Alguns por obrigação, alguns por devoção, mas nada de pintores ou artistas. Silêncio nem pensar – é caso raro no mundo de hoje – e o Sol pregou-lhe a partida, brilhava intensamente, o negro que desejava por todo o lado era apenas uma pequena mancha que se arrastava através do carro (cinzento), perdida no meio da paisagem, as cores da Toscânia não cedem o seu lugar para satisfazer os caprichos de uma anarquista de Mercedes. Quanto a considerar tudo aquilo a última metáfora da ofensa… , talvez se julgasse ao abrigo das leis da vida, se todos recebemos o mesmo veredicto, por que não ele? Em suma: fiasco horrível, as primeiras das suas últimas vontades desrespeitadas em frente de todos, a família nada pôde fazer.
Maria, a seu lado o mais velho, Mathieu, as raparigas mais atrás, é natural, promovido a chefe de família, foi ele que o ensinou a lidar com as crianças, precisava de ter as coisas para as amar. Fim da tarde, a Itália não é a América, cemitérios pequenos mais eriçados, desconhecem o hábito de negar a morte, relvados para passeios e piqueniques de domingo, bandeira ao meio, a terra por baixo fervilhando de vida morta, o american way of life. O sol espreita ainda por trás dos jazigos a poente, muitas pessoas partiram com alívio, quilómetros a fazer, os amigos sabem que é hora de solidão.
Maria olha em volta – inútil ofender alguém! -, para o lixo com toda a hortaliça, como ele dizia no fim dos espectáculos, pedra lisa sem mais nada, amanhã começará a vir de vez em quando, sem dia certo para não cair nas malhas do ritual, sentada ao pé do seu homem, a propósito de homem, quem é aquele? Esguio, de pé à cabeceira da campa, silencioso, de um negro que, esse sim, parecia querer cegar, ficou para trás ou chega agora?

- Maria.

E ela de estremecer, além de mulher é espanhola, aquela voz, desumana de tão doce, recorda-lhe algo, o choro baixo de crianças pelas ruas esburacadas de Barcelona, os pássaros de ventre assassino já partiram, cada corpo é virado com uma prece, Senhor faz com que não seja. Ele já ali, ao pé dela e dos miúdos, olhos estranhos, azul de céu, cabelos brancos como os de…

- Maria, vim buscá-lo.

O espanto dos garotos não surpreende, os garotos!, que arrogância, Mathieu vai nos vinte e quatro, Maria nos dezanove, Manuela nos quinze, homem feito e mulherzinhas. Isto apesar desse hábito das mulheres crescerem mais depressa, como se soubessem que terão de olhar pelos homens, ocupados a provar(-se) que o são, só crescem quando param de o tentar à viva força. Foi difícil deixar de os tratar pelo diminutivos, eles ofendidos, pior seria se soubessem de luzes acesas até passos ressoarem no empedrado do jardim, Léo dizia à mulher, preocupada, que o tempo deve ser gasto a viver, entrava nela docemente, ria baixinho, tinha graça se ficasses à espera de outro à espera deles, tolo, sabes a minha idade?, não acredito nisso, a vida é um milagre e não um favor de hormonas, chhh…, que já chegaram. E daí talvez surpreenda, o pai ensinou-lhes que acarretamos a transcendência dentro de nós, chamar-lhe Deus ou outra coisa é indiferente, admirava-o mais a certeza dos ateus - mas existe disso no mundo? -, talvez gente que perdeu a fé no conteúdo mas continua escrava da forma e da forma, pois se não existem outras à mão… Mas foi um dia longo e triste, se milagre esperaram foi no hospital, tudo o resto chega atrasado, os olhos viram-se para Maria.

- Eu sei.

E a certeza da resposta só pode chocar quem a não conhecer, viveu muito, de Espanha a guerra, viu desfilar os estrangeiros, nem uma palavra do seu idioma sabiam mas chegavam, alguns mortos de medo, é preciso, apenas o principio, ganhar aqui será evitar o resto, ao contrário do teatro, se o ensaio geral correr bem não haverá espectáculo. Bem para os amigos dela, não para os outros que também traziam estrangeiros, cor morena e vestes longas, de Marrocos vinham os defensores da civilização ocidental, comandados por um general hesitante que a morte de outro atirara para a ribalta. Maria assistiu a tudo, os anarquistas em marcha para salvar Madrid e parando para voltar, que a pressa era muita mas não suficiente para enterrar princípios, saiu caro, nos exércitos vencedores raramente as ordens são discutidas, muito menos se alteram, a prova está aí, reproduções pelas paredes, Guernica agonizante, a Pasionaria enganou-se, passaram mesmo. E quem viu isso já viu tudo, sabe que no Céu ou Inferno não existe surpresa que chegue ao porquê em face de crianças mortas, praças de touros convertidas em cemitérios. Nem sequer resta a certeza de antanho, também amigos dela sujaram mãos, lá em baixo, nesse país que ele amava e nos faz tremer pela violência de amores e ódios, se um general grita “viva la muerte!” é natural que haja um Lorca a tombar. Maria tranquilizou os filhos, carimbando a frase do estranho, ele vem buscar o pai. Aos quinze anos o medo e a estranheza rapidamente cedem a passo à curiosidade, Manuela não resistiu,

- És um anjo?

Ele sorriu, divertido, os olhos azuis faziam contraste nítido com os cabelos brancos, jovens de mais para eles, e para jovens foi a resposta – quem não jogou assim um dia? - , calor e frio ao leme, podes tentar outra vez.

- Quente, Manuela, quente.

E a miúda, plácida, vá de tirar a conclusão lógica da resposta, não admira, os computadores não a assustam, o pai não fazia disso finca-pé, os tempos modernos, desde que mantenha a distância saudável cabeça e coração… Ela assim faz, lógica quanto baste, esconde paixão assolapada pelo filho de um arquitecto de Milão – conheceu-o quando Léo decidiu dirigir orquestra a sério, a sério não o levaram mas levou a dele avante -, só o cinzento da cidade a preocupa, tudo o resto lhe parece claro, é o adolescente da sua vida.

- Então és Deus.

Olhar entre triste e enfastiado,

- De certo modo, sim.

Mathieu explodiu, disposto a perdoar a mentira, jamais a heresia.

- Manuela, pois não vês que se diverte à tua custa? E você, desapareça.

Para si próprio, com uma ponta de orgulho, pensou que se alguém viesse pelo pai teria de ser o Diabo, mesmo em dia triste o sorriso iluminou-lhe o rosto, pois não era evidente? Diabólico seria o homem(?), pareceu adivinhar-lhe o pensamento.

- Não deixas de ter razão, Mathieu. Também de certo modo. E compreendo as tuas dúvidas, não se pode acreditar no primeiro que aparece e diz coisas dos outro mundo. Preferes o Diabo? Pois seja.

Só os olhos mudaram, ma a ninguém lembraria de o acusar de preguiça ou ineficácia, azuis eram e azuis ficaram, a expressão… Sem maldade ou ameaça, pior, uma labareda terrível de frieza, arrepio geral e passo atrás, Maria, baixo, mas firmemente,

- Não os assustes.

Vergonha de garoto em falta.

- Desculpa.

E foi Mathieu a salvá-lo do embaraço, mais cordato, a curiosidade da irmã, enorme, acabava de engolir outra vítima.

- És os dois ao mesmo tempo?

- Inevitavelmente.

- Inevitalvelmente? Mas…

E ele sentou-se junto à campa, os miúdos – e é que não consigo tratá-los de outra forma! – fizeram o mesmo, nem se consultaram com o olhar, à sua volta, conta, só Maria ficou de pé, dir-se-ia que já conhece a história.

- Sabem vocês, quando os homens descobriram a morte ficaram assustados. Não só por saberem que iam morrer, a espera tornava-se insuportável, podia ser hoje, amanhã, depois… Mas a vida também não era assim tão alegre, dúvidas e medos, toda a gente à procura de segurança e muito poucos com alguma para partilhar. Não vos aborreço com os pormenores, inventaram-me a mim.

E evitando embora grandes detalhes explicou-lhes como de filho da angústia deles passara a pai bondoso ou severo conforme as circunstâncias, mas sempre fonte de alívio por estar “lá” e ser possível chamá-lo, até de formas estranhas, como o insulto ou a indiferença. Falou-lhes de adoradores fanáticos que o atavam ao mais insignificante acontecimento, mãos no peito logo abertas esperando benesses e, com mais ternura, de gente humilde à cata de um pouco de sorte neste mundo e não no outro, mas em surdina, não fosse a revolta notar-se. Mostrou-se complacente para os que juravam a sua inexistência com tanto ardor que viviam agarrados a si como lapas e admitiu um fraquinho especial pelos que não discutiam o assunto e mantinham a secreta esperança de estarem sempre a tempo de rever posições, depois se vê.

E Maria, a filha, atreveu-se, em tom de ralhete afectuoso,

- Manuela tinha razão, és Deus e quiseste pregar um susto a Mathieu.

- Mas não conseguiu – resmungou o irmão.

O estranho sorriu.

- Já vos disse que os homens me inventaram, mas não nasci para ser escravo, tenho direitos, saio a meus pais, sou humano. O Diabo, como vo-lo ensinaram, é um subordinado revoltoso, mau como as cobras, desejando o meu lugar, aliciando almas para acções que as levariam direitinhas para o Inferno, local, aliás, aparentemente bem mais divertido do que o Céu que me tinham destinado. Mas as pessoas alucinam o que já existe dentro delas, o que o homem juntou ninguém pode separar, Deus e o Diabo são as duas faces do seu criador.

Decididamente a conversa tornava-se enfadonha para a caçula, a sua costela lógica fazia-a pensar nas mortes pelo mundo e no velho que filosofava com os irmãos, Manuela pasmava com o número de idas e vindas, paciência verdadeiramente divina.

- E vens tu próprio buscar todas as pessoas?

- Não me ouviste dizer que sou humano? Só os meus favoritos. Para os outros existe pessoal competente. Angelical, como tu dirias.

- E porquê o pai?

Mathieu não adivinhava o pensamento, mas era filho prestas a viver com recordações e fotografias, discos também, elogios vindos de tão estranho personagem dariam mais força à imagem que guardava dentro de si.

- Conheces bem as canções dele?

- Bom…

Ele riu a bom rir, as miúdas também, raparigas, estudos e rock deixavam pouco tempo a Mathieu, conhecia as mais importantes.

- É suficiente. Algumas são belas, outras duras, já para não falar daquele senso de humor ácido, o papa, por exemplo, não é propriamente fã do teu pai. Não te escondo também que fui sujeito a pressões, lá onde venho, os poetas que musicou, Allende – prometeu ir acordá-lo um dia -, homens de negro a quem compôs um hino, uma senhora também de negro vestida e chamada Piaf. Tudo isso conta, mas bastaria uma só canção para me fazer vir. Sabes qual é?

Mathieu olhou-o com malícia.

- A solidão.

E ele acusou o toque,

- Essa não acrescentou nada ao que eu já sabia. Não, meu rapaz, a Idade Dourada bastaria para me fazer vir pessoalmente.

O leãozinho fez um esforço, recordou-se e estranhou, pois não era uma canção bem mais de esperança para os homens cá em baixo? A mãe, risonha, Léo, é a utopia!, mas claro, minha querida, como se pode viver sem ela? No lugar do outro roer-se-ia de inveja se o pai acertasse e um dia viessem pão e vinho, sangue a correr por veias adormecidas, segundas-feiras transformadas em domingos. Leitos de areia, frutos de quintais vizinhos, pássaros em terra. Mar e estrelas ombro a ombro, cigarras cantando no Inverno. O amor misturado aos problemas e todos os discursos terminando por “amo-te”, o pai tinha razão, se fosse assim…, que viesse a Idade Dourada.

- Não percebo.

E ele, que lhe acompanhara os pensamentos, fez-lhe uma carícia no rosto e explicou,

- Quando tudo isso acontecer, talvez percebam e me deixem em paz, voltarei para dentro deles, nunca de lá devia ter saído. Porque tudo está nos homens, Mathieu: bem e mal, liberdade e solidão, sou apenas um pretexto para não olhar o espelho. Vão ficando comigo, justos e pecadores (são palavras deles), sem elogio ou reprimenda, até ao dia em que finalmente ganhem juízo.

A expressão era triste e cansada, o olhar vagueou pela montanha atrás da qual se escondera o sol, ergueu-se lentamente, são horas, a vossa mãe que conte o resto. Ou não… Dirigiu-se a Maria e segredou-lhe algo ao ouvido, pôs-lhe o braço pelos ombros, nem sequer fitou a campa e partiu sem espalhafato pelo caminho, passo lento, um velho como tantos outros, os miúdos voltaram a ter dúvidas quanto ao seu estado mental, cabeça e mãos inquietas, parecia falar com alguém, cabelos brancos parecidos com os de…
Mathieu e uma ternura súbita, resolveu brincar com ele, o grito,

- Thank you Satan.

E a estrada ressoou com duas gargalhadas, uma delas era conhecida, atroava a quinta ainda há pouco tempo, camisa negra e lenço vermelho, os miúdos viraram-se para a mãe - ela tinha o braço levantado e acenava, como nas estações de comboios, cabeças à janela, até à vista, já morro de saudades, tranquilizou-os,

- O pai está bem, já vão a discutir.

quarta-feira, outubro 11, 2006

É por isso que nós homens falamos pouco de amor - acendemos:)!

Amor Mudo

Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!

Herberto Helder.

terça-feira, outubro 10, 2006

É justo.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.

Herberto Helder.

sábado, outubro 07, 2006

É a vida!, como diria o primeiro:).

Sócrates em defesa do aborto
2006/10/06 23:59

Líder socialista apresentou moção ao congresso e diz que partido «não é neutro». Por isso, deve fazer campanha no referendo em defesa da despenalização da interrupção voluntária da gravidez

A moção política que José Sócrates subscreve no XV Congresso do PS defende que o partido «não é neutro» na questão do aborto e deve fazer campanha no referendo em defesa da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, escreve a agência Lusa.
«Neste referendo o PS não é neutro e tem uma posição clara» garante o texto, no qual se recorda que a consulta popular a realizar em 2007 nasceu de uma iniciativa socialista.
O documento defende que «o PS deve continuar a defender a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, desde que efectuada até às dez semanas e em estabelecimento legalmente autorizado».
«O PS deve, pois, participar na mobilização social para a despenalização e contribuir para uma vitória do SIM no referendo», refere a moção, que se manifesta «contra a ameaça de prisão das mulheres e contra o aborto clandestino».


P.S. (que adequado...) - Ainda bem que Sócrates não deixou margem para dúvidas, o contrário ter-me-ia surpreendido. Mas muitos que se mantiveram quietinhos e em silêncio para agradarem a um engenheiro, vão agora devorar quilómetros em devota militância para satisfazerem outro. As voltas que o mundo e as consciências dão...

sexta-feira, outubro 06, 2006

Mais do que justo!

Gulbenkian rendeu-se a Anne Sofie von Otter

2006/10/05 11:19

Sueca, cujo reportório vai da ópera barroca ao pop, foi aplaudida de pé

Uma série de prolongados aplausos e três extras coroaram a actuação da meia-soprano sueca Anne Sofie von Otter em Lisboa, quarta-feira à noite, na abertura da nova temporada de música da Fundação Gulbenkian, noticia a agência Lusa.
Depois de ter interpretado as vinte canções do programa, acompanhada por um conjunto de nove instrumentistas, Anne Sofie von Otter voltou ao palco três vezes, para cantar mais três temas, um dos quais sem microfone, e ao despedir-se do público, comentou: «Foi uma noite maravilhosa».
Anne Sofie von Otter, 51 anos, é uma das mais aclamadas cantoras líricas da actualidade e com um reportório que vai da ópera barroca às canções pop.
«É um verdadeiro camaleão, capaz de cantar tudo, da música pré-histórica até aos Beatles», disse o maestro Marc Minkowsky acerca de Anne Sofie von Otter.
Quarta-feira à noite, von Otter cantou várias músicas dos Abba, o mais famoso grupo pop sueco, muito popular no final dos anos setenta, e canções de Kurt Weil, Elvis Costello e Charles Trenet.
O espectáculo, esgotado há várias semanas, chamava-se «I Let The Music Speak», que é também o título do seu último disco.
A nova temporada de música da Gulbenkian, que decorre até Junho de 2007, é uma das mais importantes de sempre, com 128 concertos e um ciclo de piano que trará a Lisboa os principais intérpretes mundiais.

PortugalDiário.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Um trovador anticlerical.

Les clercs se donnent pour des bergers
et ce sont des assassins
sous des airs de sainteté.
Quand je les vois se vêtir
il me souvient de messire
Ysengrin qui voulut un jour
entrer dans une bergerie
mais par crainte des chiens
il endossa une peau de mouton
et trompa leur surveillance
puis il dévora par trahison
les bêtes qui lui plurent.

Peire Cardenal (1205-1272).

Ai o calor da vida no campo!

Alfândega russa descobre pipeline de vodka para a LetóniaAs autoridades alfandegárias russas descobriram um pipeline com mais de 1,5 kms usado por contrabandistas para enviar vodka para a Letónia.
O oleoduto de vodka foi descoberto quando funcionários da câmara municipal de Buholovo, localidade russa junto à fronteira, estavam a plantar árvores.
«O esquema poderia funcionar durante décadas se não fosse termos aberto buracos para plantar as árvores», referiu um responsável policial russo.
As autoridades estão agora a investigar o caso após terem descoberto que o pipeline ligava duas casas arrendadas que se encontravam vazias aquando das rusgas policiais.
04-10-2006 9:58:55
DiárioDigital

terça-feira, outubro 03, 2006

Esclarecimento.

1 - As azeitonas assassinam-me a vesícula.
2 - Mas estas são musicais e gente simpática.
3 - O meu filho João toca com elas de quando em vez.
4 - Uma das vezes é no tema Sílvia Alberto.
5 - Por coincidência decidi meter o link no Murcon.
6 - Não consigo localizar a dita Sílvia Alberto nas minhas recordações.
7 - Razão pela qual não decidi ainda se acompanho Os Azeitonas em paixão tão fulgurante que lhes chega a entrecortar as vozes (Si-si-si...).

segunda-feira, outubro 02, 2006

A pedido de várias famílias:).

Children who are born to or adopted by 1 member of a same-sex couple deserve the security of 2 legally recognized parents. Therefore, the American Academy of Pediatrics supports legislative and legal efforts to provide the possibility of adoption of the child by the second parent or coparent in these families.

Children deserve to know that their relationships with both of their parents are stable and legally recognized. This applies to all children, whether their parents are of the same or opposite sex. The American Academy of Pediatrics recognizes that a considerable body of professional literature provides evidence that children with parents who are homosexual can have the same advantages and the same expectations for health, adjustment, and development as can children whose parents are heterosexual.19 When 2 adults participate in parenting a child, they and the child deserve the serenity that comes with legal recognition.

Children born or adopted into families headed by partners who are of the same sex usually have only 1 biologic or adoptive legal parent. The other partner in a parental role is called the "coparent" or "second parent." Because these families and children need the permanence and security that are provided by having 2 fully sanctioned and legally defined parents, the Academy supports the legal adoption of children by coparents or second parents. Denying legal parent status through adoption to coparents or second parents prevents these children from enjoying the psychologic and legal security that comes from having 2 willing, capable, and loving parents.

Several states have considered or enacted legislation sanctioning second-parent adoption by partners of the same sex. In addition, legislative initiatives assuring legal status equivalent to marriage for gay and lesbian partners, such as the law approving civil unions in Vermont, can also attend to providing security and permanence for the children of those partnerships.
Many states have not yet considered legislative actions to ensure the security of children whose parents are gay or lesbian. Rather, adoption has been decided by probate or family courts on a case-by-case basis. Case precedent is limited. It is important that a broad ethical mandate exist nationally that will guide the courts in providing necessary protection for children through coparent adoption.

Coparent or second-parent adoption protects the child’s right to maintain continuing relationships with both parents. The legal sanction provided by coparent adoption accomplishes the following:

Guarantees that the second parent’s custody rights and responsibilities will be protected if the first parent were to die or become incapacitated. Moreover, second-parent adoption protects the child’s legal right of relationships with both parents. In the absence of coparent adoption, members of the family of the legal parent, should he or she become incapacitated, might successfully challenge the surviving coparent’s rights to continue to parent the child, thus causing the child to lose both parents.

Protects the second parent’s rights to custody and visitation if the couple separates. Likewise, the child’s right to maintain relationships with both parents after separation, viewed as important to a positive outcome in separation or divorce of heterosexual parents, would be protected for families with gay or lesbian parents.

Establishes the requirement for child support from both parents in the event of the parents’ separation.

Ensures the child’s eligibility for health benefits from both parents.

Provides legal grounds for either parent to provide consent for medical care and to make education, health care, and other important decisions on behalf of the child.

Creates the basis for financial security for children in the event of the death of either parent by ensuring eligibility to all appropriate entitlements, such as Social Security survivors benefits.

On the basis of the acknowledged desirability that children have and maintain a continuing relationship with 2 loving and supportive parents, the Academy recommends that pediatricians do the following:

Be familiar with professional literature regarding gay and lesbian parents and their children.
Support the right of every child and family to the financial, psychologic, and legal security that results from having legally recognized parents who are committed to each other and to the welfare of their children.

Advocate for initiatives that establish permanency through coparent or second-parent adoption for children of same-sex partners through the judicial system, legislation, and community education.

COMMITTEE ON PSYCHOSOCIAL ASPECTS OF CHILD AND FAMILY HEALTH, 2000–2001
Joseph F. Hagan, Jr, MD, Chairperson
William L. Coleman, MD
Jane M. Foy, MD
Edward Goldson, MD
Barbara J. Howard, MD
Ana Navarro, MD
J. Lane Tanner, MD
Hyman C. Tolmas, MD
LIAISONS
F. Daniel Armstrong, PhD
Society of Pediatric Psychology
David R. DeMaso, MD
American Academy of Child and Adolescent Psychiatry
Peggy Gilbertson, RN, MPH, CPNP
National Association of Pediatric Nurse Practitioners
Sally E. A. Longstaffe, MD
Canadian Paediatric Society
CONSULTANTS
George J. Cohen, MD
Ellen C. Perrin, MD
STAFF
Karen Smith

domingo, outubro 01, 2006

Mais um passo...

Casal homossexual adopta criança
2006/09/30 23:57
PortugalDiário
Primeiro caso em Espanha. Maioria dos pedidos é de casais masculinos

Um casal homossexual de Barcelona conseguiu adoptar uma criança, o primeiro caso em Espanha, ao abrigo da nova lei, que dá aos casais homossexuais os mesmos direitos do que os heterossexuais, avançam os órgãos de comunicação social espanhóis.
Segundo Carme Figueras, conselheira do bem-estar e da família da Catalunha, 28 casais homossexuais tinham efectuado a inscrição para adoptar de acordo com a nova lei. A maioria dos pedidos é de casais do sexo masculino.
Já existem casos em Espanha de casais homossexuais que se tornaram pais legais de crianças de um dos homens, mas esta é a primeira vez que a adopção é concedida a um casal sem laços sanguíneos com a criança.
«O mais importante na adopção é que a criança seja a beneficiada, que ele ou ela seja amada, cuidada, respeitada e não maltratada», disse Carme Figueras.
A legalização do casamento «gay» foi uma das medidas introduzidas pelo primeiro-ministro socialista José Luiz Rodriguez Zapatero quando assumiu o poder em 2004.


P.S. O Murcon tornou-se um pouco o meu Diário da República:). Alguns de vocês podem, por casualidade, ter ouvido um comentário meu na Antena1 a propósito do Dia da Música. Nele falava de uma investigação levada a cabo por um colega do Porto sobre tipos de música jovem, as drogas que lhes estão preferencialmente associadas e as perspectivas sociológicas a retirar desses fenómenos. Por incúria, esqueci-me de referir o nome do autor do estudo. A Antena1 prometeu fazê-lo, mas nunca se sabe o que acontece na lufa-lufa da edição. Portanto, aqui fica o seu a seu dono - referia-me ao Mestre Victor Silva da Comunidade Terapêutica do Norte.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Aves nocturnas.

Ontem trabalhei até tarde. E num intervalo de referências bibliográficas, slides e requebros de Power-Point dei comigo a fitar o telefone a horas em que o receamos - "o que terá acontecido e a quem?". Não foi difícil puxar o rabo da nostalgia escondida com ele de fora, era do meu Velho que desejava escutar a voz. Também ele ave nocturna, falava a horas obscenas com um entusiasmo juvenil - "então que tal o dia, meu querido filho?". Ouvia distraído e arrastava-me para a sua amada política. Esteja onde estiver - e eu penso que não está em lugar nenhum, a não ser em alguns neurónios que migraram para corações que o amavam... -, ainda bem que não ligou. Porque lhe falaria de angústias que o deixariam aflito e eu não gostava de o saber assim. Nas poucas vezes em que o fiz, o silêncio era tão pesado que eu mordia a língua, arrependido. Lá do fundo, sem artifícios que me ofenderiam, a voz saía-lhe triste e meiga, "veja se ao menos descansa".
Ainda bem que não ligou.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Três milhões...

"A excisão, como o cinto de castidade, é o medo que o homem tem da mulher" (Entrevista a Khady Koita, activista)



Três milhões de meninas são excisadas a cada ano. Na chamada África Negra, mas também na Indonésia, no Egipto e até na Europa. Há entre 130 e 150 milhões de mulheres no mundo a quem o clitóris foi cortado e esta senegalesa muçulmana a viver na Bélgica é uma delas. Em Lisboa para promover o seu livro e participar num seminário, fala deste crime e de como combatê-lo.Conta no seu livro como foi excisada, aos sete anos, "de surpresa": o clitóris "serrado" a sangue frio com uma lâmina velha enquanto três mulheres a seguravam, a dor, o sangue, o silêncio dos adultos. Quando é que alguém lhe explicou o que tinha acontecido e porquê?Nunca. Ninguém me explicou porque, suponho, quem faz isso também não sabe porque o faz. E eu também não fiz perguntas. Mas quando começamos a investigar, quando se lê sobre isso e se fala com os "velhos", temos várias respostas: faz-se para que a rapariga possa chegar virgem ao casamento, para que a mulher seja fiel ao marido; outros dizem que é preciso tirar "aquilo" porque se o marido lhe tocar morre, ou então é o bebé ao nascer que pode morrer... A maioria dir-lhe-á que é feito para agradar ao marido. Em nome da honra e dignidade do homem. Para que a mulher não seja demasiado gulosa por sexo...A origem da prática está identificada? É costume associá-la ao islamismo e a África. Sabe-se que já no tempo dos faraós se fazia a infibulação, que é a forma de excisão mais brutal, em que se corta tudo e se cose a vagina à mulher - foram encontradas múmias assim. Aliás no Egipto, ainda hoje, 97% das mulheres são excisadas. Em África faz-se no Iémen, no Djbuti, na Eritreia, na Somália. Mas faz-se também na Indonésia e no Curdistão iraquiano - não é uma prática só africana. E não é feita só pelos muçulmanos. Também os cristãos e os animistas a praticam. Não há uma religião específica dos que a fazem nem textos religiosos - não está no Corão nem na Bíblia - a preconizá-la. Mas como as mulheres de um modo geral não sabiam ler, disseram- -lhes que era um preceito religioso, e elas acreditaram que tinha de ser feito. Sobretudo porque foram educadas na ideia de que se não fossem excisadas não casavam, e se não casassem, não existiam. Por isso, a luta contra a excisão passa também por alfabetizar as mulheres. Desde que possam ler e escrever, começam a reflectir. Mas se alguém acredita num deus que teria feito tudo o que existe, e portanto as mulheres tal como nascem, como defender que teria criado todas as mulheres "com defeito"?Claro: se Deus fez as mulheres com clitóris, é porque acha que faz falta. É por isso que digo aos homens: "São vocês que instigam isto; é uma ideia vossa". É como o cinto de castidade que foi inventado na Europa, como quando os médicos europeus queimavam o clitóris das raparigas para, supostamente, lhes curar a histeria. O propósito é o mesmo: controlar a sexualidade da mulher. Vem do medo que os homens têm das mulheres .Quando é que começou a questionar-se sobre isso?Já adulta. Bastante tempo depois de ir viver para França. Escreve que as relações sexuais eram penosas e dolorosas com o seu primeiro marido. É possível ter prazer sendo excisada?Em todo o lado - talvez à excepção da Europa actual - espera-se que o homem tenha prazer no sexo, mas a mulher não, e menos ainda quando casada contra vontade, como no meu caso. Eu nem sequer participava no acto. Quanto à dor, depende da forma como se foi excisada. Umas mulheres têm-na, outras não. Mas mesmo sem clitóris é possível ter prazer sexual - depende do parceiro. E hoje em dia há médicos que reconstroem o clitóris. Resulta em alguns casos. Fala também de problemas no parto devido à mutilação. Aquela zona está cicatrizada, perdeu a elasticidade, o que implica que as mulheres fiquem todas rasgadas e tenham dores horríveis. Mas nos primeiros partos eu não sabia que isso se devia à excisão, ninguém me disse "você foi mutilada e vai ter este e aquele problema". Nenhum dos médicos que me seguiu mencionou sequer o assunto. Isto em França! Tinha 15 anos quando dei à luz pela primeira vez e a médica que me viu não me fez uma única observação sobre a cicatriz que viu no lugar do clitóris. Só depois da morte de três meninas, em França, nos anos 80, é que isso começou a mudar. A mais mediatizada foi a de uma bebé do Mali, de três meses, em 1982. Na sequência disso começou a haver formação nessa área entre os médicos e o pessoal da assistência social.Três das suas filhas foram excisadas em França, nos anos setenta, por uma amiga sua, que nem sequer lhe pediu permissão. Mas escreve que se ela tivesse perguntado, teria assentido...Nessa época, o meu espírito não estava preparado para criticar, ou mesmo para questionar a prática. Nunca me tinha perguntado se estava bem ou mal. Era normal e era preciso fazê-lo. Foi muito mais tarde, quando comecei a envolver-me, como intérprete, na luta contra a violência sobre as mulheres que conheci, nos hospitais, uma associação que combate a excisão e da qual fazem parte muitas médicas, que me explicaram as consequências nefastas da excisão. Como vê, hoje, a atitude dos médicos que se calaram?É o relativismo cultural, aquela ideia "É a cultura deles, não temos nada a ver com isso". Mas há cultura e cultura! A mutilação sexual feminina tem de ser vista no contexto dos direitos humanos. E aí não há cores nem culturas. Não se pode fazer discriminação em termos de direitos humanos, dizer que são só para alguns. Mas são também as comunidades imigrantes que dizem: "vivemos aqui mas não queremos ser como vocês, não queremos adoptar os vossos valores". E aí há um conflito, como no caso da interdição do véu muçulmano nas escolas públicas francesas. Eu sou muçulmana e não uso véu. No meu país não se usa. E acho que se deve respeitar o direito da escola. Se são essas as regras da escola laica, se eu a frequento devo respeitá-las. Tal como, se estou num país, tenho de respeitar os seus valores, adaptar-me. Claro que há conflitos. Mas penso que nos países em que os imigrantes não vivem todos ao molho, em gueto, as coisas funcionam melhor. Que devem os países europeus fazer?Não é essencial fazer leis específicas contra a excisão: creio que em nenhum lugar da Europa é permitido mutilar qualquer parte do corpo. O que é preciso é ter atenção a essa realidade. Por exemplo, em França, todas as crianças dos zero aos seis anos são examinadas, incluindo o sexo, nas consultas pediátricas, e tudo é anotado na ficha respectiva. E explica-se à família tudo o que há a explicar sobre a excisão em termos de saúde, sublinhando que é uma prática interdita, ilegal, e que se a criança aparecer excisada o médico será obrigado a comunicar o facto ao ministério público. Em França há mais de 30 processos por esse motivo. E na Suécia houve um processo contra um pai que fez excisar a filha de 13 anos na Somália.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Não necessariamente a física...

Jogos para adiar a morte

Descobrir em outro
a palavra precisa,
a desolada matéria do sonho,
imóvel, fixa sobre o papel.
Palavra que nomeia fantasmas
mas também labaredas de vida
e - ao fundo - o eco do mar,
a sua perdurável presença momentânea,
ondas e horas, sílabas e símbolos.
Tudo o que nos resta, tudo e nada:
jogos para adiar a morte.

Juan Luis Panero, Poemas.

Ele chamou isso ao Petit??????:)))))).

Gays ingleses exigem pedido de desculpas a Scholes por comentário feito no jogo com o Benfica
[ 2006/09/27 15:58 ] Redacção MaisFutebol
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A comunidade gay inglesa exige que Paul Scholes apresente um pedido de desculpas, depois de um alegado comentário homofóbico feito esta terça-feira, no jogo da Liga dos Campeões com o Benfica.
Tudo aconteceu logo aos dez minutos de jogo. O médio do Manchester United cometeu uma falta sobre Petit e foi admoestado com o cartão amarelo pelo árbitro belga Frank de Bleeckere. Terá sido então que Scholes soltou a expressão «fucking poof».
O comentário não agradou aos gays ingleses, que não só exigem um pedido de desculpas do jogador, como pretendem que a UEFA actue contra estes casos da mesma forma que faz com o racismo.
«Os comentários homofóbicos são tão inaceitáveis quanto os racistas. É chocante que a UEFA não tenha agido face ao comentário do Scholes. Se tivesse sido um comentário racista, a UEFA ou a federação inglesa agiam logo disciplinarmente. Exigimos que o Paul Scholes peça desculpa», disse o activista Peter Tatchell.

terça-feira, setembro 26, 2006

A saga continua.

Mesmo levando em conta o futebol praticado desde o início da época, a segunda parte do Benfica no jogo de hoje só justifica um adjectivo: degradante. Quanto à estratégia de substituições de Fernando Santos, ela define um treinador deprimente. O Manchester? Veio para empatar e saiu-lhe a lotaria. Demonstrou por que razão Mourinho será de novo campeão lá para Novembro:).

O embaixador.

Não fosse cá o meco e em Outubro não havia tacho para ninguém, ó maralhal! As datas são todas péssimas, vai daí expliquei ao patraozinho que trabalhando à tarde e indo ao jantar do Murcon à noite empochava mais um álibi para se pirar cedo. Como de costume, rendeu-se à minha lógica (não de ferro, mas granítica, estamos no Puoorto, carago!). Anuncio portanto ao maralhal interessado que estaremos disponíveis (nós os dois, ainda não falo em plural majestático...) a 28 de Outubro. A Gertrudes não vai, prefere o sossego de Cantelães. (Começo a pensar se não estará acabadota para um homem tão cheio de vida como eu... Sim, porque depois de levar o patraozinho a casa, vou para a noite!)

segunda-feira, setembro 25, 2006

Perguntar não ofende.

Não prometo marés vivas, já fugiu o meu Agosto - terás praia encharcada, ventre seco e dunas rijas. Trago o peito carcomido, o vento mudado em brisa - ofereço vela enfunada, casco podre e mão ladina. Queres-me até aparecer o príncipe encantado?

domingo, setembro 24, 2006

Domingo de chuva.

Maria,
Domingo de chuva. Conheces-me - trabalho espojado no tapete. As armadilhas da memória. Tu no sofá, um "degrau" acima. Lendo o jornal, preguiçosa e marota, ave de rapina abençoada por este lagarto de sangue já frescote:(. A tua voz, neutra e falsa; como o olhar, perdido no trigésimo quarto suplemento do semanário - "vão sendo horas...". Os amigos à espera e nós contentes por isso, que bom desejá-los pela companhia e não para disfarçarem silêncios fúnebres que tivessem invadido a relação. Igualar o teu bluff, "tens razão, vamos lá". Esse riso, tão vivo ainda que o alucino, ei-lo no ecrã, espera!, pronto - também no computador és o wallpaper da minha vida. Vamos lá, dizia eu; mas não, vinhas tu. Escorregavas do sofá e disfarçavas o teu desejo de esmola ao meu, "acho que te vou abrir o apetite". Os nossos corpos, exasperados. A televisão em fundo; a porta da vizinha; o relógio honesto mas benevolente. A pressa descomposta. Os olhos procurando-se no carro. A minha mão risonha na tua coxa, à revelia do cansaço mole que me encanta a preguiça e entristece a gula, dedo ante dedo..., "está quieto", a voz trémula desautorizava a ordem. O restaurante. A malta. O dono, ele próprio velho amigo. E, como de costume!, eu dava a alma à tua palmatória - de tão saciado, morria de fome:).

sexta-feira, setembro 22, 2006

É o mesmo por todo o lado:(.

Tem 31 anos? É velho demais
2006/09/22 | 16:45 || Tatiana Alegria
Para ser comissário de bordo da TAP o limite é 30 anos. Na British Airways pode candidatar-se até aos 65. A Iberia não impõe limite máximo. Empregadores podem excluir os candidatos «mais maduros»? Juristas dizem que se trata de uma «zona cinzenta»

Tem 31 anos? Então é velho demais para ser comissário de bordo da TAP. Os candidatos ao cargo não podem ter mais de 30 anos, lê-se no site da companhia aérea.

Qual o fundamento desta limitação? «Trata-se de uma prática internacional, justificada pelo tipo de funções exercidas e pelo equilíbrio que tem de existir entre experiência e juventude», explica o porta-voz da TAP, António Monteiro, ao PortugalDiário.

No entanto, esta «prática internacional» não é aplicada na British Airways. «A idade limite para recrutamento de comissários de bordo da British Airways é de 55 anos, mas a lei laboral no Reino Unido está a mudar neste momento e, a partir de 1 de Outubro, a idade máxima será de 65 anos», esclarece o gabinete de imprensa da empresa ao PortugalDiário.

Já na companhia de aviação Iberia não existe um limite máximo de idade nestas candidaturas, adianta a assessoria de imprensa da empresa espanhola. Mas aos 55 anos os comissários de bordo podem pedir para trabalhar em terra, acrescenta o porta-voz da Iberia.

Por vezes o limite máximo de idade não existe no papel, mas aplica-se na prática. «Muitas companhias não aceitam comissários de bordo com mais de 26 anos», conta um funcionário de uma companhia aérea internacional, contactado pelo PortugalDiário. «No início de carreira, os comissários de bordo chegam a fazer sete escalas por dia. É muito stressante e eles só querem jovens», descreve o trabalhador.

Mas nem todos aceitam que a fasquia etária seja tão baixa. Paulo Pintassilgo tem 31 anos e não se considera «velho demais» para o cargo de comissário de bordo. Trabalha actualmente na British Airways «onde não existem discriminações», mas sente-se indignado por saber que estas limitações são impostas na TAP, onde vários amigos nem sequer tiveram oportunidade de apresentar uma candidatura.

«Podem sempre levar a questão aos tribunais europeus, mas muitos não estão para se chatear», desabafa. Paulo Pintassilgo conta ao PortugalDiário que no ano passado o mesmo concurso discriminava em função do sexo. «Impunha uma altura mínima de 170 cm para os homens e 160cm para as mulheres. Levei a questão à Comissão Europeia e este ano a empresa corrigiu este requisito da candidatura».

A TAP está a discriminar em função da idade ao impor um limite máximo de idade? Especialistas em direito laboral contactados pelo PortugalDiário defendem tratar-se de uma «zona cinzenta», mas sublinham que qualquer critério de exclusão tem de ser muito bem fundamentado. «A experiência laboral pode ser critério de avaliação mas nunca um critério de exclusão», afirma o advogado Rui Assis ao PortugalDiário.

A discriminação em função da idade «a mais» é um tema muito actual, defende o jurista. Por um lado, a sociedade está cada vez mais competitiva, por outro, as «almofadas» das pré-reformas estão a desaparecer, argumenta.

Candidatos internos podem ser «mais maduros»

Mas nem todos os «trintões» estão excluídos da candidatura ao cargo de comissário de bordo da TAP. Os funcionários da própria companhia não estão sujeitos a este limite máximo de idade «porque os instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho a tal obrigam a empresa e porque a política da empresa vai no sentido da mobilidade interna aproveitando conhecimentos e capacidades já revelados ao seu serviço», explica António Monteiro, porta-voz da TAP, ao PortugalDiário.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Sem dúvida! Ainda ontem comi um. Não no Império, mas na capital do mesmo:).

Da relevância do bife



Ruben de Carvalho
Jornalista rubencarvalho@mail.telepac.pt

Para que se não critique o carácter aparentemente prosaico do tema desta crónica, invoquemos em defesa o facto de ter sido ele nos idos de 60 objecto de um celebrado ensaio de Roland Barthes nas suas Mitologias: trata-se do... bife.

Em rigor, o bife até é relativamente acessório no tocante às conclusões que se pretende apresentar, mas pode dizer-se que, de facto, ao princípio era o bife! Em concreto, o bife à café, inventado ao que consta nas cozinhas do oitocentista café Marrare. Como se sabe, a esmagadora maioria dos cafés alfacinhas foi sucumbindo, as saudosas frigideiras dando lugar a cofres fortes bancários, secretárias e arquivos, aprestos todos eles incompatíveis com bifes e respectivos molhos. Resistiu um - o Império.

Há alguns meses os lisboetas foram confrontados com a perspectiva desse último baluarte do lombo e da vazia passar a adjacência da IURD.

Verificou-se aquilo a que é hábito chamar um sobressalto colectivo, sendo de elementar justiça sublinhar que papel determinante foi desempenhado pelos trabalhadores da casa, ali profissionais há anos e anos de casa e com aquela ligação ao "seu sítio", que é um dos mais fascinantes traços de identidade humana dessas pessoas que acabam a fazer parte da nossa vida, ali ao lado das mesas onde nos habituamos a jantar e almoçar.

Moções na câmara, artigos nos jornais, gente do património, enfim, alguma coisa se conseguiu. A IURD lá terá recuado e o Império foi anunciado como salvo. Fizeram obras.

Pode ter-se dúvidas sobre uns neons que andam por lá, mas as soluções de cozinha foram inteligentes; o grande ecrã é uma opção que a alguns desagradará, mas o mobiliário é agradável. E, sobretudo, o bife lá está - e o Império.

Isto já seriam tudo boas notícias, mas há melhor. É que, segundo tudo indica, a reabertura foi um êxito, excedeu todas as expectativas, já foi necessário admitir mais pessoal e, na realidade, 15 dias depois de reaberto o café até já adquiriu o ar de normalidade de sempre lá ter estado!

Nestes tempos em que preocupações se acumulam, uma vitória, mesmo no bife - ora pois andávamos a precisar disto.

Até porque, leia-se Roland Barthes, o bife é mitologicamente relevante...

terça-feira, setembro 19, 2006

Poema para fim de dia cansativo.

Completas


A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina.


P.S. E eu sem saber que em Cantelães, do outro lado do riacho, havia bombas...

segunda-feira, setembro 18, 2006

A Aspásia é linguareira:).

Pronto, confesso:

1) Fui a um casamento.
2) (Não era o meu.)
3) Usei fato e gravata.
4) (Eram meus porque os comprei de propósito.)
5) Quando me ia pirar a horas decentes para regressar a Cantelães fui interceptado pela minha nora.
6) (Nunca discuto as "sugestões" dela.)
7) Fui dançar (?) twist e rock.
8) (Como de costume, fi-lo mal e porcamente.)
9) Diverti-me imenso e pulei como um desalmado.
10)(No dia seguinte as minhas pernas eram autênticas vítimas de violência doméstica praticada por esta cabeça desmiolada.)
11) Enterneceu-me ver a geração dos meus filhos sorrir, complacente, perante o desatino galhofeiro da velhada:).

sexta-feira, setembro 15, 2006

Volver.

Vi o último Almodóvar. E lembrei-me do que aqui disse sobre o Ney - gostei muito deste Almodóvar, com menos "plumas". Não duvido que o argumento seja dele, mas a impressão que o filme dá é a de alguém que observa, maravilhado, o mundo das mulheres. Ou como diz uma das protagomistas - "são coisas nossas". É verdade. Por isso esperarei sempre por Maria, sabendo que nunca "voltará":).

quinta-feira, setembro 14, 2006

"Não existem medicamentos contra o problema no mercado": a frase retrata uma civilização!

Pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, anunciaram ter comprovado a eficácia e a segurança do primeiro medicamento especialmente desenvolvido para tratar da ejaculação precoce.
Em um estudo publicado na revista médica The Lancet, o cientistas descrevem que a substância ativa da droga, a dapoxetina, aumenta de três a quatro vezes a duração de uma relação sexual.

A ejaculação precoce é um problema que afeta cerca de 30% dos homens, e não existem medicamentos contra o problema no mercado.

O tratamento normalmente envolve aconselhamento psicológico e o uso de antidepressivos da família da dapoxetina, os chamados inibidores seletivos de recaptação de serotonina (SSRI, na sigla em inglês).

Alguns especialistas, no entanto, já expressaram preocupação com o uso desses antidepressivos, por causa dos efeitos colaterais que eles provocam, como alteração no peso e reações cutâneas.

A dapoxetina não é tão forte quando os demais SSRI usados contra a depressão, e foi especialmente criada para tratar a ejaculação precoce.

Segundo os cientistas, ela pode ser usada cada vez que for necessária e dispensa a ingestão por um tempo prolongado.

Três minutos

Na pesquisa da Universidade de Minesotta, os estudiosos combinaram dois testes com o medicamento.

Foram analisados mais de 2,6 mil homens com problemas de ejaculação precoce em grau moderado a grave. Eles receberam dosagens de 30 mg ou 60 mg de dapoxetina, ou ainda um placebo.

No início do estudo, em média, esses homens ejaculavam menos de um minuto após a penetração.

Doze semanas depois, esse tempo subiu para 1min45 naqueles que tomaram placebo, 2min47 entre os que foram medicados com 30 mg de dapoxetina, e 3min19 nos que ingeriram 60 mg da droga.

"A dapoxetina também melhorou a percepção dos pacientes no controle da ejaculação e sua satisfação com a relação sexual", afirmou Jon Pryor, coordenador da pesquisa.

"Suas parceiras também se beneficiaram, sentindo-se mais satisfeitas com a relação sexual", explicou Pryor.

'Segura'

A dapoxetina foi desenvolvida pela Alza Corporation, uma afiliada da Johnson & Johnson, mas o uso da droga ainda não foi liberado em vários países.

Mesmo assim, em um editorial que acompanhou o artigo na The Lancet, o urologista italiano Francesco Montorsi afirmou que o medicamento se mostrou seguro e tolerável.

"A esperança é de que a dapoxetina se torne uma droga importante para oferecer aos pacientes que sofrem de ejaculação precoce", afirmou.

Organizações que lidam com a saúde masculina elogiaram os testes. "Realmente existem poucos tratamentos para o problema, então qualquer medicamento que ajude é bem-vindo", disse Peter Baker, do Forum para a Saúde do Homem.

"Mas temos que nos lembrar que um dos maiores obstáculos ao tratamento é convencer os homens a procurar ajuda", afirmou. "Muitos ainda se sentem envergonhados em falar com seus médicos sobre o assunto."

Vide in aqui

P.S. Peço desculpa por não ter referido o autor do post de ontem. Como a esmagadora maioria terá adivinhado, trata-se de uma citação da Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera.

P.S.1 - Em 30 anos fartei-me de resolver ejaculações prematuras sem meter anti-depressivos ao barulho:).

quarta-feira, setembro 13, 2006

Porque na TVI se fala de swing:).

"Estava numa situação dr onde não havia saída: aos olhos das amantes, marcado pelo selo infamante do seu amor por Tereza; aos olhos de Tereza, pelos estigmas das suas aventuras com as amantes".

Continuo a achar que os triângulos são mais frequentes:).

segunda-feira, setembro 11, 2006

Fidbek imediato:).

Pede-me o patraozinho que informe o maralhal da sua disponibilidade para iniciar o complexo processo de negociações com vista a marcar o próximo jantar murcónico. Pela sua parte, poderá ser em Matosinhos-sur-Mer ou Porto-sur-la-rivière. Se o Benfica continuar a jogar assim, atreve-se a sugerir que a hora do repasto coincida com a do jogo da semana, para não se incomodar com a transmissão televisiva.


Souzá, le chauffeur, the butler, o amigo.

domingo, setembro 10, 2006

A rir-se de tudo e de todos aos 98? Que privilégio:).

El Pais: Filme de Oliveira é «decrépito, simpático e marciano»

«Belle Toujours», do realizador Manoel de Oliveira, é a película «mais trash, decrépita, simpática, descarada e marciana« exibida na edição deste ano da Mostra de Veneza, escreve esta sexta-feira o enviado do El Pais ao certame.

«Há que ter 98 anos e ser Manoel de Oliveira para realizar com dois duros e quatro amigos algo parecido com um epílogo de Belle de Jour, a conhecida obra de Luis Buñuel, e sair bem do intento», observa Enric González.

Na crónica sobre o novo filme do veterano realizador português enviada de Veneza, González lembra que Oliveira começou a filmar em 1931 e criou ao longo destes anos «um estilo próprio», cujo mérito «consiste na mistura de pincel fino e trincha gorda, na atenção aos pormenores importantes e no desinteresse pelo secundário, no humor quase libertino com que simula levar a sério as suas personagens».

Concretamente sobre «Belle Toujours», o crítico classifica-o como «uma obrazinha menor», um «entremez de pouco mais de uma hora» sobre o encontro de duas das personagens do filme de Buñuel- que Oliveira homenageia - 38 anos depois.

Ele (Michel Piccoli) - descreve González - é «um velho alcoólico» e ela (Bulle Ogier, porque Catherine Deneuve «se recusou a participar») é «uma senhora viúva, arrependida dos seus antigos entretenimentos masoquistas e desejosa de entrar num convento». Há ainda uma «personagem sentenciosa» (um criado) que explica a trama.

«Com velhos actores, móveis antigos, escassas luzes e câmaras estáticas - prossegue González - , a um director normal sairia, no melhor dos casos, um filme deprimente. Oliveira, pelo contrário, nem sequer se permite um momento de nostalgia crepuscular».

Oliveira, escreve a concluir, «lança mão a uns quantos fetiches buñuelianos (a caixa dentro da qual zumbe uma misteriosa mosca, o galo no hotel de luxo) e acaba a rir-se sadicamente, com o riso de Piccoli, de tudo e de todos».

«Belle Toujours» foi apresentado em Veneza fora de competição.

Diário Digital / Lusa

08-09-2006 15:01:00


P.S. O Benfica continua em pré-época. A vitória sobre os bons rapazes do Áustria foi um doce - e lucrativo... - sonho de noite de Verão. Receio que o resto da temporada também seja "shakespeareano":))))))).

sexta-feira, setembro 08, 2006

Outonal.

Maria,

Em Cantelães, o Verão já se esgueira para o riacho. À medida que o sigo, enroscado na varanda, noto que a encosta por trás do moinho vai mudando de toilette - o castanho, com doçura inexorável, empurra o amarelo para o próximo ano. Das gargalhadas dos miúdos resta o eco, divertido e amargo; e um hamburger virgem, astutamente escondido no sofá, "mãe, já comi!". Levanto-me. A sala e a Cabreira. Os moinhos, fantasmagóricos; obedecem a vento ou luar? O retrato. A blusa comprada na feira, dia de sol, a mulherzinha sorridente, "fica-lhe tão bem, menina!". É verdade. O que torna esta demora mais exasperante, promete que chegas com o Outono:(. Entretanto vou buscar um xaile para esses ombros, Maria. Corre uma aragem pela casa, pode arrepiar-te os ombros e apagar o sorriso...

quinta-feira, setembro 07, 2006

Mais um passinho.

Alzheimer: descoberta «proteína da memória»
2006/09/07 | 17:49
Em Portugal, estima-se que mais de 50 mil pessoas sofrem da doença

Investigadores norte-americanos descobriram uma proteína com funções cruciais de mensageira química do cérebro, que proporciona a capacidade de reconhecer objectos e pessoas. A notícia é avançada pela Agência Lusa.

Quando os níveis dessa proteína se reduzem, o indivíduo começa a perder a memória e a apresentar sintomas semelhantes aos do mal de Alzheimer, uma doença neurológica progressiva e incurável.

Segundo os cientistas do Centro Médico da Universidade de Duke, a proteína recicla uma substancia chamada «acetilcolina», que transporta as mensagens entre os neurónios.

Num artigo publicado na revista Neuron, os cientistas revelam que os animais modificados geneticamente com defeitos nessa proteína demonstraram sintomas parecidos com os de Alzheimer, entre os quais a incapacidade de reconhecer caras familiares.

«Utilizando ratos geneticamente modificados como modelos para Alzheimer, podemos aprender mais acerca do circuito neuronal do cérebro», disse Marc Caron, professor de biologia celular do Centro Médico, que participou na investigação.

O investigador acrescentou que esta descoberta poderá conduzir ao desenvolvimento de novas formas de aliviar os sintomas da doença.

Segundo Marco Prado, professor de farmacologia da Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil) e outro dos investigadores, estes resultados poderão também ajudar na procura de medicamentos que melhorem a função da acetilcolina no cérebro.

«Isto é importante porque se acredita que a diminuição da acetilcolina reduz a função cognitiva nos idosos e está associada aos sintomas cognitivos e de conduta na doença de Alzheimer», afirmou.

Na sua imparável progressão, o mal de Alzheimer, que afecta principalmente homens e mulheres com mais de 65 anos, provoca a demência e por último a morte.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Nunca voltes a um restaurante onde foste feliz?:).

Antes da Marisa fui a um restaurante da minha juventude que não frequento há um ror de tempo. Correu tudo mal:( - a carne bem passada vinha mal passada, "aquele" prato não havia, a água natural pedida jorrou fresca, o vinho estava a "passar para o lado de lá", a manga entrara em plena terceira idade. E as pessoas de uma gentileza inexcedível, a cada pensamento desiludido ainda me sentia culpado por cima... Enquanto esperava pelo início do espectáculo fui pensando se não será melhor saborear as recordações em vez de as pôr em risco:).

terça-feira, setembro 05, 2006

King Mercury, como dizia Macca.

Mercury faria hoje sessenta anos. Sempre gostei mais de o ouvir do que de o ver, por vezes tantas coroas, mantos e microfones em riste faziam-me correr para o leitor de CDs. Mas Made in Heaven, por exemplo, está em permanência no meu carro. Porque é preciso enorme coragem e dignidade para gravar um disco daqueles a entrar e a sair de um hospital à espera do fim.

P.S. Vou descer ao povoado para ouvir Marisa Monte ao vivo. Espero não ficar com saudades dos CDs:).

segunda-feira, setembro 04, 2006

Isto é um bocado arrepiante...

Sexo desprotegido pode acelerar cancro
2006/09/01 | 14:20
Sémen contém substâncias que acerelam cancro cervical e do útero
As relações sexuais sem preservativo podem acelerar o avanço do cancro cervical e do útero, devido à elevada concentração no sémen de umas substâncias chamadas prostaglandinas, segundo uma investigação tornada pública esta sexta-feira no Reino Unido.
Uma equipa de cientistas do Conselho Britânico para a Investigação Médica, dirigido por Henry Jabbour, descobriu que os dois tumores se desenvolviam na presença dessas substâncias.
As prostaglandinas encontram-se em todos os tecidos dos mamíferos e líquidos biológicos e em quase todas as células do organismo, com excepção dos glóbulos vermelhos.
Estas substâncias também se encontram de forma natural nos órgãos reprodutores femininos, mas a sua presença é até mil vezes mais concentrada no sémen, revela o estudo, publicado hoje na revista médica «Journal of Endocrinology and Human Reproduction».
Os investigadores examinaram os efeitos das prostaglandinas no crescimento do tecido canceroso.
«O que demonstrámos é que os níveis dos receptores» - moléculas da superfície celular ou do citoplasma que encaixam noutras moléculas como uma chave na sua fechadura - «para a prostaglandina eram elevados nesses cancros. Esse elevado nível do receptor conduz ao crescimento do tumor», explicou Henry Jabbour.
«Mesmo que bloqueemos a síntese (produção) de prostaglandinas nos órgãos reprodutores, tal não impede a evolução do tumor, se a mulher tiver uma vida sexual activa», acrescentou.
Por isso, está demonstrado que é a prostaglandina presente no sémen que causa o crescimento do tumor.
O especialista recomenda às mulheres que possam sofrer este tipo de tumores que utilizem preservativos nas suas relações sexuais.

domingo, setembro 03, 2006

Ao lusco-fusco.

Nestes últimos dias Cantelães tem sido como eu sonhara - família e amigos entram e saem com as respectivas crias, barafunda e mesas cheias:). A outra face da moeda vivo-a agora, ao lusco-fusco, a cinza cai sobre a piscina, o céu permanece avermelhado sem que o sol tenha culpas no cartório e helicópteros passam de quando em vez. Olho em redor. O medo de ver destruído o que eu imaginei e o Guilherme realizou. Talvez uma noite longa em perspectiva, o meu pessimismo espreguiça-se e namora o acelerador. Pensar, como dizia Vergílio Ferreira. A importância de manter os rituais -tomar um banho e assumir a presidência da mesa, há faces risonhas e esfomeadas para cuidar:).


Sousa,
Assim estamos mal, homem! Então não me avisa que a Nova Gente já saiu?:(. Para que lhe pago, carago? (Sou um poeta...).

sexta-feira, setembro 01, 2006

Raios e coriscos!, há mais de 25 anos que ensino o contrário:).

Personalidade não interfere com o coração


As pessoas impacientes e irascíveis podem ter problemas de relacionamento com os outros, mas não correm mais risco de sofrer ataques cardíacos, revela um estudo inédito internacional, em que participou um investigador português.

Nesta investigação, os cientistas analisaram mais de seis mil pessoas entre os 14 e os 102 anos, estudaram a relação entre a personalidade e as doenças coronárias e concluíram que os calmos não estão mais a salvo de ter um ataque cardíaco do que os que se irritam facilmente.

Esta conclusão pode parecer surpreendente, na medida em que algumas pessoas sofrem ataques cardíacos quando fazem um esforço físico suplementar ou atravessam uma situação de tensão.

Porém, tal deve-se a problemas coronários já existentes e não ao facto de a pessoa ter uma natureza tranquila ou agitada, revela o estudo publicado na edição deste mês da revista norte-americana "Public Library of Science Genetics".

Assim, a investigação deve deixar mais aliviados os indivíduos com personalidade de "tipo A", caracterizada pela impaciência, competitividade e facilidade para o aborrecimento.

Após uma análise exaustiva da saúde e do comportamento de 6.148 pessoas, os investigadores concluíram que as pessoas às quais incham as veias e ferve o sangue quando estão presas nas filas de trânsito, quando a sua equipa de futebol perde ou quando são contrariadas não correm mais risco do que os calmos de ter uma paragem cardíaca.

"Uma pessoa que se chateia mais frequentemente não tem maior probabilidade de sofrer um ataque de coração", resume o investigador português Gonçalo Abecasis, professor da Universidade de Michigan, que participou na elaboração do estudo.

Os cientistas descobriram que os genes que exercem influência sobre o comportamento são diferentes dos que afectam as funções cardiovasculares, pelo que não existe um vínculo biológico entre ambos.

Esta conclusão contradiz alguns estudos anteriores, sobretudo um realizado nos anos 50, que define o tipo de personalidade A e lança a hipótese de que essa classe de pessoas tem mais probabilidades de sofrer um ataque de coração. Esses investigadores tentaram provar a sua tese através da análise de 166 homens de tipo A (os agressivos) e B (os tranquilos), mas as suas conclusões foram criticadas porque os A fumavam mais do que os B, e o tabaco é uma causa directa de problemas vasculares.

Estudos posteriores chegaram a resultados contraditórios, tendo o número de participantes sido sempre pequeno.

Neste estudo agora publicado, uma equipa de 20 cientistas escolheu quatro povos da ilha mediterrânica da Sardenha para analisar a influência dos genes na vida do ser humano.

quinta-feira, agosto 31, 2006

A reboque da Angie:).

É verdade - prefiro a rádio, sobretudo nocturna. Porque a palavra e o significado reinam, ao abrigo das tropelias do olhar, sempre volúvel:). Não sei se calar a televisão foi um lapso freudiano, mas cálculo não, seguramente. Se um projecto me agradar, voltarei ao ecrã com prazer, mas confesso que câmaras, luzes e maquilhagem não me despertam tanto carinho como microfones, auscultadores e pernas em cima da mesa, moldura ideal para amena cavaqueira.

segunda-feira, agosto 28, 2006

À falta de barro e costelas:).

"Vou fazer-te existir na realidade da minha palavra. Da minha imaginação."

Vergílio Ferreira, Para Sempre.

domingo, agosto 27, 2006

Esclarecimento.

Lamento, não fui claro:(. O vazio educacional de que falava era ao nível da educação (sexual). Sou 200% a favor da pílula do dia seguinte, mas não como método contraceptivo "habitual", "normal", "inócuo". Acresce que sou psiquiatra: preocupam-me os mecanismos de defesa que permitem a negação da responsabilidade erótica. Esta não compromete o romantismo, a espontaneidade, o desejo. Limita-se a assumi-los, carago!:).

sábado, agosto 26, 2006

Breve.

A evolução dos números referentes à utilização da pílula do dia seguinte é deprimente. Pelo que traduz de vazio educacional, de recusa em assumir o planeamento da vida erótica, de opção por uma via considerada mais fácil e sem consequências. Alguns preferirão apostrofar a decadência moral em vez de enfrentar o problema. É pena. E é perigoso...

quinta-feira, agosto 24, 2006

Que assim seja!

Investigação: Mais reacções positivas




A comunidade científica está satisfeita com a descoberta sobre a produção de células estaminais.

24/08/2006


(12:53) De recordar que cientistas norte-americanos desenvolveram uma forma de produzir células estaminais sem destruir os embriões.

Para Raquel Almeida, investigadora do IPATIMUP - Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto -, estes avanços poderão eventualmente fazer desaparecer os obstáculos à utilização de células, o que pode ajudar na pesquisa e tratamento de algumas doenças como Alzheimer, Parkinson ou problemas cardíacos.

"Vai permitir que a objecção à utilização linhas celulares de células estaminais, eventualmente, possa ser ultrapassada e se possa passar a fazer investigação em linhas celulares de células estaminais de forma mais fácil, mais pessoas possam utilizar linhas celulares de células estaminais", disse.

Também Mário de Sousa, especialista em medicina da reprodução e que há anos investiga a cultura de tecidos, nomeadamente no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), onde é docente, não hesita em classificar a descoberta como "uma revolução".

Já o geneticista Carolino Monteiro considerou que produzir células estaminais embrionárias sem destruir o embrião é uma "descoberta importante" porque escapa às questões éticas, dando mais um passo na direcção da terapêutica de doenças sem cura.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Ainda Grass.

Os juízes de Günter Grass


Diogo Pires Aurélio
Professor universitário



Uma certa "inteligência" abateu-se, justiceira, sobre Günter Grass, no dia em que este, antecipando a sua autobiografia, confessou a um jornal ter pertencido, na adolescência, às Waffen SS, uma força de elite das tropas hitlerianas. O libelo acusatório tem vindo a crescer. Primeiro, foi o crime de haver integrado tais milícias. Segue-se o ter, durante toda a vida, mantido silêncio a esse respeito, coisa imperdoável em alguém que acusava o povo alemão de não se querer confrontar com o passado recente. Por fim, vem o ter aguardado que lhe dessem o Nobel para fazer a revelação da ignomínia: no entender dos novos cátaros, a obra jamais justificaria o prémio se não fosse esse apêndice, tão caro aos académicos de Estocolmo quanto alheio à literatura, que é o facto de o autor estar ligado a "causas", ainda por cima de esquerda.

O processo já teve eco em toda a Europa, inclusive aqui, e é algo deprimente. À direita, aproveita-se para desancar, por grosso, todo o percurso político de Günter Grass, desde as SS ao pacifismo antiamericano, passando pela militância social-democrata, como se fosse tudo a mesma coisa. À es- querda, condena-se-lhe a falta de transparência, num tempo em que o ter de se "assumir" virou mandamento, sobretudo para quem invocou a moral possível a seguir a uma guerra que fazia crer ser impossível voltar a pensar qualquer valor universal. Pelo meio, há ainda o ressentimento e o mero cretinismo, que não lhe perdoam o sucesso e que reduzem o episódio a uma operação de promoção. Gente que dá erros de ortografia, mas que não se coíbe de cacarejar sentenças sobre o estilo de Grass.

As opiniões políticas do romancista interessam-me pouco. Julgo que teve algum papel na Alemanha dos anos 60 e 70, ao lado de Willy Brandt, mas que, a partir da chamada crise dos mísseis, se colocou sistematicamente do lado errado. A sua adolescência nazi é, obviamente, um pesadelo de que talvez já não consiga libertar-se e uma culpa que só agora foi capaz de confessar. Não sei se terá perdão, sobretudo por parte dos que foram vítimas das SS. Mas sei duas coisas simples. Sei que as ideias que ele sustentou não ficaram piores nem melhores por se saber a dimensão do recalcamento que tinham por lastro. E sei, sobretudo, que não trocaria uma página d'O Tambor pelas obras completas de nenhum dos seus críticos.


P.S. Também eu considero a obra digna do Nobel e ponto final. Para quem acarretava este segredo, acho que apostrofou de mais a recusa de outros à memória, embora o psi compreenda o mecanismo (in)consciente. Já quanto ao timing da revelação..., enfim, sou um céptico.

P.S.2 - A referência aos cátaros, como é óbvio, deliciou-me:).

Lamechice.

Já sei que nos limitámos a cumprir a nossa obrigação, mas foi muito bom ver a alegria do Rui Costa e a resposta do Estádio inteiro:). Sou um sentimentalão incorrigível:(.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Da mesma obra.

Porque o bom professor não é aquele que sabe muito, mas sim aquele que sabe ensinar muito.

domingo, agosto 20, 2006

O machismo no seu melhor:).

"Eu não gostava de Dorita a não ser por ser mulher. E já se sabe, que, com as mulheres, onde não há desejo é suficiente a ocasião."

Luis Landero, O Guitarrista.


P.S. Este tipo de mensagem cultural enche os sexólogos de clientes, sobretudo quando se debatem com os rituais de passagem para o que julgam ser a adultícia macha...

sexta-feira, agosto 18, 2006

Se não foi golpe publicitário..., pareceu!

Lech Walesa furioso com Gunter Grass
2006/08/18 | 16:21
Antigo presidente polaco recusa partilhar título de cidadão honorário de Gdansk com o escritor, que disse ter pertencido às SS nazis


O antigo presidente polaco Lech Walesa ameaçou esta sexta-feira renunciar ao título de cidadão honorário de Gdansk para não partilhar a distinção com o escritor alemão Gunter Grass, que confessou há uma semana ter pertencido às SS nazis, tendo ingressado em 1945, com 17 anos.

«É preciso que esta situação seja esclarecida. Sem essas explicações, eu próprio renunciarei à cidadania e não poderei ficar na companhia do senhor Grass», disse Walesa à cadeia de televisão privada TVN24.

«Será difícil cumprimentar um homem das SS que contribuiu para morte do meu pai e de outras pessoas, e para a destruição de Gdansk. Foi aqui que a guerra começou», em 1939, acrescentou.

Gunter Grass nasceu em 1927 em Gdansk, uma cidade que na altura se cham ava Dantzig e era maioritariamente habitada por alemães. Segundo Lech Walesa, o escritor alemão, galardoado em 1999 com o Prémio Nobel da Literatura, «não teria recebido o título de cidadão honorário de Gdansk se o seu passado nas SS fosse conhecido». «Foi a outro Grass que demos o título», disse.

Segundo a Lusa, o antigo presidente polaco e Nobel da Paz acusou Gunter Grass de «querer fazer publicidade» em torno da sua autobiografia, «Ao Descascar a Cebola», cuja primeira edição, lançada quarta-feira passada, esgotou em apenas um dia. «Ele queria vender o seu livro e vê-se que vendeu bem, porque já está a ser preparada uma segunda edição», afirmou.

«Posso compreender as confissões de um ponto de vista cristão. É preciso compreender as pessoas, ajudá-las. Mas se as pessoas querem fazer publicidade, não quero participar nisso», acrescentou.

domingo, agosto 13, 2006

Sem modificação dos papéis de género interiorizados por cada sexo, nada feito:(.

Crim E 50 mulheres mortas por companheiros em dois anos





Nuno Miguel Maia

crim E 50 mulheres mortas por companheiros em dois anos

Em apenas quatro dias do que se leva do mês de Agosto, o país foi surpreendido com a morte de três mulheres às mãos dos seus companheiros e com uma outra tentativa falhada de homicídio. O ciúme é o fio que une quase todos os casos. A surpresa, porém, só pode resultar do facto de um tema como estes não dar lugar a um debate que os números claramente reclamam nos últimos dois anos, cerca de 50 mulheres foram assassinadas pelos seus companheiros e registaram-se 37 tentativas de homicídio. As histórias de vida contadas na página seguinte de três víitimas ajudam a perceber os motivos da matança.

De resto, o número de queixas por violência doméstica tem vindo a crescer de ano para ano, segundo dados da PSP e da GNR. Só que isso não significa que tenham aumentado os incidentes de agressões entre os casais. Elza Pais, presidente da Estrutura de Missão Contra a Violência Doméstica (EMCVD), acredita que Portugal está perante o "destapar de um iceberg". A crescente visibilidade do assunto tem encorajado as mulheres a denunciarem o que se passa dentro das paredes de casa.

Crime público

"A sistematização da resposta junto das autoridades também terá contribuído para o aumento de denúncias. Mas é preciso ver que, desde 2000, o crime passou a ser público, não dependendo de queixa", refere ao JN a professora universitária, líder de uma comissão sob tutela conjunta da Presidência do Conselho de Ministros e do Ministério da Segurança Social.

O fenómeno do homicídio conjugal é o "extremo no âmbito da violência doméstica" e um estado que o Governo procura atacar preventivamente. No âmbito do Plano Nacional Contra a Violência Doméstica, iniciado em 2003 e que termina no final do corrente ano, estão já implantados núcleos de atendimento a vítimas em metade do território nacional - Bragança e Viseu são as últimas inaugurações - e também já funcionam 32 casas de acolhimento. Que, no ano passado, receberam 900 pessoas, entre mulheres e filhos alvo de violência.

Duas motivações

Autora de uma tese de mestrado precisamente sobre homicídios conjugais, Elza Pais, chegou à conclusão de que, em 1998, esta tipificação de crime significou "15 por cento" do total de homicídios. Quanto às motivações dos crimes, existem duas justificações principais "Ou são casos de agressões continuadas, por vezes durante anos, com todos os tipos de violência que começam até antes do casamento e terminam com a morte da vítima. Ou são casos em que os agressores não toleram que as vítimas os abandonem, por vezes devido precisamente a agressões. Vários casos de homicídios conjugais acontecem já depois do fim do casamento", explica Elza Pais, reforçando que, precisamente, para os casos de maior perigo, é que existem as casas de abrigo. "Esta medida é tomada com grande ponderação, porque obriga à desinserção das vítimas do local onde residem.

Em preparação, além do balanço quanto ao plano contra a violência doméstica que vigorou desde 2006, está a o terceiro plano. A também líder da Comissão para a Igualdade e Defesa das Mulheres adianta que os planos estão a ser delineados com vista a um "maior envolvimento" por parte das organizações não-governamentais, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, por exemplo. Tudo para que a intervenção contra a violência doméstica seja menos política e mais comunitária.


PS e GNR com normas

Desde Janeiro que a PSP e a GNR têm de cumprir o designado "estatuto processual da vítima", quando recebem pessoas afectadas por violência doméstica. Trata-de normas de comportamento das autoridades perante este tipo de casos.



Prevenção nas escolas

A EMCVD está a promover junto das escolas, desde Junho passado, a exibição de um vídeo com um teatro alusivo à violência doméstica. Trata-se de uma experiência construída num agrupamento escolar de Setúbal que visa contribuir para a discussão e sensibilização, entre os menores, sobre o tema. A iniciativa em Setúbal terá já contribuído para um aumento de denúncias, por parte de crianças.



Alterações

O projecto de alterações ao Código Penal em discussão no Parlamento cria o crime de violência doméstica, alargando o conceito de maus-tratos a cônjuges aos namorados e a outras pessoas que vivam em economia comum. As penas podem ir até aos 10 anos de prisão.



Casas de abrigo

Existem, neste momento, espalhadas pelo país, um total de 32 casas de abrigo destinadas a vítimas de violência doméstica. De acordo com a EMCVM, no ano passado cerca de 900 pessoas passaram por aquelas estruturas de acolhimento, que podem ser geridas por entidades não directamente dependentes do Governo.



Radiografia em curso

No final do ano deverá estar concluído um estudo encomendado pela EMCVM com vista a "tirar uma radiografia e perceber a dimensão real e actual" sobre a violência doméstica, que inclui também a violência psicológica, esta muito mais difícil de quantificar, diz Elza Pais. Em preparação está um terceiro Plano Nacional Contra a Violência Doméstica, de 2007 até 2010.

sábado, agosto 12, 2006

Pois, o jardim à beira-mar plantado com os seus brandos costumes...

A morte das mulheres



António Costa Pinto
Professor universitário acpinto53@hotmail.com

Já sabemos há muito que o crime "passional" é uma prática favorita dos homens portugueses e os números estão aí para o ilustrar, mas de vez em quando a sequência é horripilante. Segundo comunicado da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, em quatro dias de Agosto tivemos três assassínios e uma tentativa do mesmo, entre 11 facadas e uns tiros a tempo. As idades das vítimas andavam entre 26 e 74 anos. As localidades também dizem qualquer coisa. Começamos por Alcobaça, subimos à Anadia e terminamos entre Mira de Aire e Mirandela.

A publicitação destes crimes é neste caso de grande importância, pois elimina o estereótipo, herdado do salazarismo, do pacífico e cordato povo português, incapaz da violência societal dos vizinhos do lado. A verdade nunca foi essa, muito embora a censura nos desse a imagem de "paraíso triste". Qualquer consulta aos relatórios do que a comissão de censura "cortava", ou às estatísticas policiais, ilustra rapidamente a violência explícita de muitos sectores da sociedade portuguesa. Mesmo com o controlo social da Igreja Católica, hoje mais desvanecido, a sociedade rural do passado não era flor que se cheirasse e parte da urbana também não.

Os sociólogos especialistas do fenómeno encontrarão certamente grupos de risco privilegiados. Os mais moralistas dirão que ele é característico de todas as classes sociais. Os mais atentos às estatísticas declaradas encontram neste meio rural- -urbano em mobilidade social e com uma das maiores taxas de participação das mulheres no mercado de trabalho uma parte da explicação. Depois vem a escolaridade, no geral mais baixa, dos actores destes crimes mais violentos. A seguir o alcoolismo, que deve pesar certamente. Depois a conjuntura de divórcio ou ameaça de separação. Mas o sinistro é que a violência doméstica continua a ser a causa do maior número de mortes de mulheres em Por-tugal, entre os 16 e os 44 anos, como salientava o plano de combate à violência doméstica do Governo anterior.

Como os factores societais não vão mudar amanhã, o que é que se poderá fazer para além da prevenção e das campanhas de sensibilização? Aqui até os liberais de direita pedirão ao Estado que esteja mais presente e à justiça menos relativismo desculpabilizador na condenação.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Para desanuviar o ambiente:).

«Aqui não há bufos»
2006/08/10 | 11:51
Jardim apela a empresários para transferirem o domícilio fiscal para a Madeira

MAIS:
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Jardim proíbe lista de devedores
«Quem fez a revolução contra Salazar foram os madeirenses e não aqueles maricas»
Governo está a levar Portugal «para o abismo»

Alberto João Jardim apela «aos empresários do Continente que não estejam satisfeitos com aquilo que lá se passa para transferirem o seu domícilio fiscal para a Região Autónoma da Madeira. Aqui nem sequer há bufos», afirmou.

Segundo o DN, Jardim garante sigilo fiscal, já que, na Madeira, ninguém corre o risco de ver o nome incluído em listas publicadas na comunicação social «como querem os socialistas», que é «voltar ao gonçalvismo».

Para Jardim, «a Madeira reúne todas as condições para que as empresas que o desejem transfiram para a Madeira o seu domicílio fiscal». A Madeira pratica uma tabela de impostos «no limite mínimo que a lei portuguesa, ainda, nos permite mas já é alguma diferença» quando comparada com os valores em vigor no restante território nacional (excepção para os Açores).

Em termos de IRC, a Madeira cobra 22,5 por cento enquanto no Continente atinge os 25 por cento. O IVA varia entre os 15 por cento, 8 por cento e 4 por cento na região contra 21 por cento, 12 por cento e 5 por cento aplicados de norte a sul do País. No IRS a diferença representa menos 6 pontos percentuais no escalão máximo.

Sou alérgico a notícias destas:(.

Investigação: Estudo associa alergias a Parkinson




As pessoas alérgicas aos ácaros e aos animais domésticos correm três vezes mais riscos de contrair a doença de Parkinson,indica um estudo publicado pela revista norte-americana "Neurology".


10/08/2006

(10:10) Segundo os investigadores da Clínica Mayo de Rochester (EUA), quem sofre de rinite alérgica - uma inflamação nasal causada pelo contacto com pó, ácaros ou escamas da pele de animais domésticos - parece ter mais probabilidades de contrair aquela doença degenerativa.

O estudo, que se prolongou por 20 anos, centrou-se em 196 pacientes que contraíram Parkinson e num número semelhante de pessoas da mesma idade e género sem sintomas da doença.

Segundo as conclusões dos investigadores, os pacientes com Parkinson que tinham sofrido anteriormente de rinite alérgica corriam 2,9 vezes mais riscos de desenvolver aquela doença do que os outros.

Não foi encontrada nenhuma ligação semelhante com outras doenças inflamatórias, como o lúpus ou a artrite reumatóide, embora isso possa dever-se, segundo os autores do estudo, ao número relativamente pequeno de pacientes com esses problemas na amostra em estudo.

Na perspectiva do neurologista James Brower, autor do trabalho, quem sofre de rinite alérgica "gera uma resposta imunológica às suas alergias e pode gerar também uma resposta imunológica no cérebro, o que produziria inflamação".

Essa inflamação, explicou, "pode libertar certas substâncias químicas no cérebro e, inadvertidamente, matar neurónios, como acontece na doença de Parkinson".

quarta-feira, agosto 09, 2006

Confessem lá se fazem parte dos 250 milhões:).

Lucros da pornografia ultrapassam os de Hollywood

Os estúdios de filmes pornográficos norte-americanos têm mais lucros que a indústria de Hollywood.
Nos dados da Industria Cinematográfica Porno dos Estados Unidos da América (EUA), os filmes pornográficos para adultos têm mais saída que os filmes convencionais de Hollywood.

Os americanos gastam dez mil milhões de dólares anuais em bilhetes para assistir a filmes pornográficos.

Os Estados Unidos são os maiores produtores deste género cinematográfico no mundo. O núcleo mais consumista situa-se em San Fernando Valley, Los Angeles e Califórnia.

O aluguer de vídeos passou dos 450 milhões em 1992 para 800 milhões em 2002.

No mundo estima-se que 250 milhões de pessoas assistam, com regularidade, a cinema pornográfico.

Os dados revelados pela revista «Adult Video News» excluem os consumidores por Internet e desenhos animados pornográficos.

09-08-2006 14:58:17

Ainda mais antigo:) (Domingos, Sábados e outros Dias).

PAULINHO


JOHN LENNON (I)


O gajo tem qualquer coisa de especial. Ivan só tinha dito que era bom guitarrista e um tipo fixe, mas também não admira, o querido Vaughn está longe de ser um prodígio de sensibilidade. E contudo parece um filhinho da mamã típico, aquilo do casaco branco não se mete na cabeça de ninguém; e as calças… Ora!, as calças, aposto que as aperta depois de sair de casa para não ter a velha a moer-lhe o seixo – “Paulinho, já sabes!, não te quero vestido como esses teddy-boys que por aí andam”. Helen achou-o um puto bonito e riu-se-me na cara quando olhei para ela espantado. Ciúmes, eu? Mas quem entende as mulheres? Ou se atiram descaradamente a marmanjos mais velhos – falam de coisas que nós não entendemos, claro!, somos umas bestas, só pensamos em cerveja - ou a querubins sem barba e ar desamparado. Será instinto maternal ou desejo de desviar menores? Não sei. Estou de acordo, é um puto de catorze anos, lá se é bonito… Só faltava apreciar homens!, quando me vejo à rasca para sacar raparigas que se queiram divertir um bocado sem a pergunta sacramental – “mas tens mesmo a certeza que gostas de mim?” Claro que gosto. Delas todas, aliás, as minhas hormonas devem ter um coração enorme.
Qualquer coisa. O miúdo não estava à vontade, tudo gente desconhecida, entrou logo numa de exibição, deixei-me estar, fui entornando uns copos e vendo-lhe as habilidades. Não deixa de ser contra o meu feitio, se aparecer de novo tenho de lhe explicar quem é o chefe por estes lados. Mas o sacana tocou Twenty Flight Rock na perfeição e eu abismado, passei dias à procura dos acordes certos, se calhar é mais fácil para os canhotos. A seguir corrigiu a nossa versão de Be Bop A Lula com o ar mais natural deste mundo, ainda por cima tinha razão (a Helen tornou a ser foleira e disse que além de razão tinha ouvido…). E mais! Brindou-nos com uma imitação do Little Richard de tirar fôlego a qualquer um, apetecia pintá-lo de negro e cobrar bilhetes aos pacóvios; só visto… Como é evidente, não o deixei perceber que me impressionara, limitei-me a dizer-lhe que Twenty Flight Rock era uma das minhas canções favoritas. Devo ter feito bem, pôs um ar solene e concordou em silêncio. Foi estranho, por um momento pareceu que tudo o resto desaparecera à nossa volta.
Vamos por partes – Pete é o meu melhor amigo e vai sê-lo até à morte. Rimos juntos, fomos expulsos de meia-Liverpool juntos, andámos à pancada juntos. Coisas que ligam os homens. E depois…, aceita-me como chefe e eu preciso disso. Mas às vezes penso que nos prejudicamos, talvez seja mau conhecer outra pessoa bem de mais? Ele não nota, limita-se a dizer “está bem, John” e a seguir-me como um cachorrinho obediente.
Este gajo é feito de outro material. Para começar, toca melhor do que eu, o que pode tornar-se um problema. Mas também um desafio, tê-lo na banda ia obrigar-nos a progredir e a malta gostou dele. Sossegado, um bocadinho parecido com o Elvis… Só preciso ter atenção e não permitir que grimpe muito, trazê-lo curto (e, já agora, à Helen por tabela!). Estes anjinhos de falas mansas e sucesso com as mulheres são perigosos. É difícil lidar com tipos escorregadios, quando já arregaçámos as mangas saem-se com palavras apaziguadoras e fica-nos a raiva pendurada. Bom, está decidido, o miúdo entra, mas em liberdade vigiada. Tenho um pressentimento que podemos fazer coisas giras juntos, já compôs duas ou três canções, se ele é capaz tu também tens de ser, John Winston. Quem sabe?, podemos vir a ser famosos – McCartney e Lennon. Hum… Nem pensar. Lennon e McCartney, soa bem melhor. E que não soasse! Boa noite, John.

terça-feira, agosto 08, 2006

Voo raso:(.

Já sei que marcar fora é bom (e que golo!); já sei que basta empatar zero a zero; já sei que alguns jogadores do Benfica levantaram os braços em sinal de alegria no fim; já sei que somos favoritos; já sei que os lesionados vão recuperar; já sei isso tudo..., mas IRRA!, é preciso "talento" para não ganhar aqueles onze bons rapazes:(.

segunda-feira, agosto 07, 2006

O velho Luiz Pacheco "num dia em que se achou mais pachorrento":).

...
Mulher não queiras sabida
nem com vício desusado,
que podes perder a vida
na estafa de dar ao rabo.
...

domingo, agosto 06, 2006

Já postei esta velharia?

Da raiva e outras defesas



O psiquiatra esboçou um sorriso oblíquo,
- Talvez não fosse má ideia...
Bateu a porta enfurecido, “nunca mais cá ponho os pés, o tipo aboleta-se com uma pipa de massa e ainda goza à minha custa, se não é má ideia que o faça ele!”. A empregada e o habitual sorriso untuoso e plastificado, “até para a semana, senhor engenheiro”. Grunhiu um “talvez” de mau agoiro e diagnosticou-lhe aspecto foleiro, o cabelo oxigenado já vira melhores dias, os pés de galinha à volta dos olhos também. Imaginou que o iluminado clínico lhe punha a mão nas horas vagas e assim a impedira de arranjar marido, cheirava a quarentona encalhada a milhas de distância. A tarde cinzenta. No parque de estacionamento os carros já eram poucos. O seu piscou, obediente, à ordem do controlo remoto, para onde? Não lhe apetecia jantar sozinho, muito menos em casa. Folheou agenda e nomes: X - boa conversadora, mas péssima na cama; Y - exactamente o contrário, talvez passasse por casa dela ao fim da noite para uma rapidinha, aturar-lhe banalidades ao jantar é que não lembraria ao Diabo; Z – casara. Pôs um sinal de interrogação à frente do nome, quanto tempo levaria a fartar-se do marido?; ficava em espera; B - perfeita, se não exigisse relação “com futuro”; C – pedal a mais, impossível ter a certeza de quem fora o último a petiscá-la, estava sem pachorra para a ginástica do preservativo.
Bom, alimentar a máquina rapidamente e decidir depois o rumo a dar à noite. O restaurante às moscas e o criado favorito ausente. Morrera-lhe um familiar, explicou, indiferente, um colega tão pálido que também parecia prestes a bater a bota. Um arrepio desconfortável nas costas, “traga maduro tinto”. O bife mal passado e contudo anémico. Batatas gordurosas. Decidiu beber a taça até ao fim - além da garrafa... -, “uma salada de frutas”. De lata... O empregado imperturbável, “o senhor engenheiro deseja mais alguma coisa?”. A canelada imediata - “só se fosse um frasco de sais de fruto, não acha?”. Como única reacção, olhadela trocista à garrafa vazia; o parvalhão não tencionava abanar a preguiça porque um cliente bebera demais, provavelmente tinha a patroa à espera para assistirem juntos à terceira novela da noite e depois mergulharem na cama. Ele com a mesma camisola interior suada que usara nos últimos três dias, ela com as banhas mal disfarçadas pela combinação preta que uma vizinha prometera ser remédio santo para o desinteresse sexual do marido. Não ia funcionar, ele estava apaixonado pela cozinheira. Bem feito! Desligou a fantasia e saiu.
Para casa? Não, beber um copo. Sentir a adrenalina de passar junto à bófia com a certeza de não se poder dar ao luxo de soprar ao balão. Esticando a corda, parou e abriu a janela, “o senhor guarda desculpe, não sou de cá, vou bem para a Foz velha?”. Escutou as indicações com ar atento, quase humilde, agradeceu e seguiu Boavista abaixo. Virou à esquerda no Castelo do Queijo, por que não a Foz velha? O barzinho estava cheio, coisa rara aquela hora, parzinhos de namorados, curtidores ou lá como se chamam no dialecto de hoje. Alguns tipos da sua idade galando miúdas anoréxicas que não pareciam muito interessadas nos seus cavaleiros andantes imberbes. Talvez já não chamassem pelas maezinhas em situação de aperto, longe vai a época do “a menina dança?” nos bailes do Ateneu. Às vezes tinha de se pedir primeiro a autorização dos papás, quatro olhos inspeccionavam o candidato a abraçar por uns minutos a virginal filha, o sim apenas permitia liberdade a prazo e limitada, nada de faces demasiado próximas. Moral de comerciantes!, era preciso salvaguardar o valor de troca da mercadoria...
Uma das rapariguinhas navegou até ao balcão. Decidiu que se tratava de incitamento divino e ensaiou abordagem clássica, “não a conheço de algum sítio?”. Talvez demasiado clássica para a catraia, que esboçou um sorriso enquanto disparava em tiro raso, “credo!, julguei que esse tipo de engate já não existia, é melhor você candidatar-se a um curso de reciclagem”. Para depois o inspeccionar com mais atenção e fazer xeque-mate, “se ainda for a tempo!”. Encolheu os ombros, you can’t win them all. De qualquer forma não se via a ministrar-lhe curso de educação sexual, têm muito speed mas pouca arte, para a cama nada como balzaquianas assustadas pela idade ou desiludidas por namoros longos e chatos, têm pressa de viver. Saiu. Suficientemente sóbrio para saber que o não estava, fugiu à Brigada metendo pelas ruelas da Foz velha em direcção ao Campo Alegre, depois seguiu disciplinada e clandestinamente atrás de outro carro, só lhe abandonou a sombra protectora para virar em Guerra Junqueiro.
A casa. Arriscando um pé fora da rotina, não ligou de imediato a televisão. O silêncio pareceu-lhe aterrador, os programas – se mereciam tal nome! – eram catastróficos, mas o quadrado enganava a solidão. Por vezes seria incapaz de repetir o que vira, accionava o comando a ritmo digno de metralhadora, os canais acotovelavam-se, reality show atrás de reality show, bloco publicitário atrás de bloco publicitário. “Aquilo” mexia, preenchendo o amuo do telefone, silencioso. Certas noites pagaria bom dinheiro por um toque da secretária a lembrar-lhe reunião para a manhã seguinte. À falta de melhor..., para onde tinham fugido os amigos? Ou para onde fugira ele sem sair da cidade, para assim os perder vista e ouvido? Rendeu-se. E a caixinha que mudou o mundo desiludiu a sua esperança de ver o seu um pouco mais alegre, tudo decorria normalmente - filmes de bolinha alternavam com grupos de concorrentes que se batiam ou amavam conforme as instruções das produtoras.
Que fazer? Lembrou-se da canção do Abrunhosa, talvez... Sorriu e pegou no telefone, do outro lado a voz ensonada resistiu, “a esta hora? Vem cá tu se quiseres”. Não queria, se o desejo ganisse podia sempre voltar aos tempos do colégio, quando a rapaziada se masturbava alegremente, o sexo era tão sociável como o snooker. Por que não ler? Pelo simples gozo da coisa e não a reboque da preparação de um qualquer seminário profissional. Vasculhou a estante - só velhos conhecidos. O pai costumava lembrar a frase de um académico francês, já no fim da vida: “je ne lis plus, je relis”. Não lhe apetecia reler.
Ouvir música. Como dizia o sobrinho? Pôr um som... Beatles? Atrás viriam os bailes de garagem, os amores de praia, a estranha sensação de se haver traído. Mozart? E com ele regresso a Salzburgo, Viena, Praga, os concertos em cada esquina, alegres viagens em turística que antecederam outras em executiva para enfadonhas reuniões. Sérgio Godinho? Paz, pão, habitação... Como se passa de hippie furioso a yuppie obcecado, com breve passagem pelo processo revolucionário em curso e os seus bailes trotsquistas cheios de envergonhadas filhas da burguesia? Olhos fechados, indicador em riste, regressou à infância: “pim, pam, pum, cada bola mata um, pr’á galinha e pr’ó peru, quem se lixa és tu!”. Estremeceu ao ver a pontaria da sorte (o sacana do psi falaria de inconsciente...) – Dave Matthews Band.
Decidiu não recuar e pôs os auscultadores. Minutos depois a cabeça explodiu e com ela a andropausa, o vinho, o calmante que se esquecera de tomar, o jogging da manhã seguinte, a tromba do cliente a quem decidira apertar os calos nos preços para se oferecer o último todo-o-terreno da Mercedes, as mulheres desejadas sem paciência, o criado indolente; tudo.
Levantou-se, percorreu o corredor e abriu a porta do quarto pela primeira vez em muito tempo. A empregada cumprira a sua obrigação, parecia um museu. Olhou em volta: os posters, a guitarra, o computador, a colecção de latas de cerveja, a fotografia que a namorada nunca viera buscar. Quase imaginava Paulo a qualquer momento regressando de vadiagem nocturna, “ainda a pé, velho?”. Sempre paternal, o miúdo. Quando as horas fugiam, brindava-o com telefonema, “vou chegar às quinhentas, não te preocupes”. Até ao dia em que o aparelho tocara e não era ele, mas sim um dos amigos - óleo na estrada, despiste, urgência. Morto. A Mãe aos gritos, “a culpa é tua, por que lhe emprestaste o carro?”. Nunca mais lhe falara, não precisava da sua ajuda para se sentir culpado. Uma solidão horrenda, o puto não era “apenas” o amor da sua vida, mas também o público, buscava-lhe o orgulho e a aprovação com desespero, para os outros estava-se nas tintas.
Fechou os olhos. A voz do psiquiatra, “ninguém consegue esquecer uma coisa dessas, é preciso digeri-la. Em dois anos já o vi afundado em trabalho, a trocar de mulher como quem troca de camisa, a meter uma em casa do dia para a noite e a pô-la de lá para fora da noite para o dia semanas depois, a correr o mundo em férias sem descanso ou paz, a mudar de carro de três em três meses, a moer a cabeça dos outros e a sua, mas nunca o vi a encarar de frente a tristeza. Não acha estranho?”. E que sabia ele de amargura, na sua petulância de especialista? “Há muitas formas de estar triste. Qual é o seu conselho? Pôr a minha vida em stand-by e chorar? Como essas mulherzinhas histéricas que se sentam na beira do sofá e torcem o lenço na mão?”. A resposta do tipo.
Por acaso havia dois magníficos sofás no quarto, mas as lágrimas surpreenderam-no enroscado na cama do pequeno.

sábado, agosto 05, 2006

Lamento muito, mas arrepia-me.

UE: Legislação autoriza empresas a recusar contratar fumadores

Uma empresa que se recuse a contratar uma pessoa unicamente por ser fumadora não está a violar a legislação europeia contra a discriminação no trabalho, considerou este sábado a Comissão Europeia (CE).

O executivo comunitário respondia à euro-deputada trabalhista britânica Catherine Stihler, que requereu a sua opinião relativamente a uma oferta de emprego de uma empresa irlandesa que advertia os fumadores a não se apresentarem como candidatos.

O comissário europeu do Trabalho e Assuntos Sociais, Vladimir Spidla, recordou que a legislação europeia proíbe a discriminação com base em raça, etnia, deficiência, idade, orientação sexual, religião ou crença.

Uma oferta de emprego como a que foi alvo de estudo da Comissão, referiu Stihler, não parece ter relação com qualquer dos tipos de discriminação proibidos.

A porta-voz do comissário, Katharina Von Schnurbein, confirmou, em declarações à agência de notícias espanhola EFE, que «a discriminação laboral relativamente a fumadores não está contemplada na legislação europeia».

O facto de a legislação europeia não proibir tal política de contratação, disse a porta-voz, não impede que os Estados membros que assim o desejem possam dotar-se de normas nacionais que a proíba.

Diário Digital / Lusa

quinta-feira, agosto 03, 2006

Sem "motivos objectivos"...

Tribunal não encontrou razão do crime
José Carmo

Menores já estão internados nos centros educativos em regime semiaberto, apesar de dois recursos


Leonor Paiva Watson, e Nuno Miguel Maia

Três meses de investigação e 16 audiências no Tribunal de Menores do Porto não chegaram para encontrar as razões pelas quais 13 menores ligados às Oficinas de São José e ao Centro Juvenil de Campanhã agrediram o transexual Gisberta, vindo a causar-lhe a morte por afogamento no fundo de um poço de um prédio inacabado no Porto.

No texto da decisão final, o colectivo de juízes apenas dá como não provado que os rapazes tivessem actuado por "intolerância perante as opções sexuais do ofendido e perante as diferenças fisionómicas". E, em contrapartida, assume que as agressões aconteceram "por razões que não se conseguiram aqui apurar".

O próprio juiz-presidente, Carlos Portela, reconheceu, no final da leitura do acórdão, a sua perplexidade por não terem sido encontrados os motivos objectivos das agressões com paus, pedradas e ao pontapé - o que, aliás, foi assumindo ao longo das sessões iniciadas a 3 de Julho passado.

Funeral em grupo

Num processo em que a prova assentou sobretudo nas confissões e versões dos menores, estes, quando interrogados, apenas respondiam não saber enumerar razões que justifiquem os factos. O máximo que alguns assumiram foi o facto de estarem "em grupo".

Terá sido em grupo (pelo menos seis), também, que resolveram encenar um funeral para Gisberta, num momento em que a julgavam já morta. De acordo com a versão dos menores, o "funeral" propriamente dito era não deixar a vítima apodrecer naquele local. Atirá-la ao fundo do poço - três deles usaram luvas e sacos de plástico para transportar o "cadáver" ao longo de 100 metros - no prédio inacabado na Avenida Fernão de Magalhães, no Porto, foi uma alternativa a um enterro num cemitério, que serviria em simultâneo para a ocultar a responsabilidade do grupo no sucedido.

A ideia do fenómeno de grupo viria, aliás, a ser reforçada pelo depoimento de testemunhas com formação em psicologia e sociologia.

Elementos ligados à instituição "Qualificar para Incluir", que colaboravam com as Oficinas de São José, adiantaram ainda que este local de acolhimento da maioria dos jovens era palco de vários problemas.

Denunciaram a "existência de grupos organizados de outros jovens ali institucionalizados que exercem uma pressão e uma influência muito negativa sobre os mais novos, onde se incluem muitos dos que estão neste processo". E atribuíram a esta "cultura" da instituição a causa do sucedido nas agressões ao transexual. Cultura esta que, asseguraram, "nunca foi colocada em causa pelos responsáveis máximos da instituição".

O teor destes três depoimentos, conjugado com um outro que refere a existência de queixas, por parte dos menores - quanto à forma como são tratados pelos "mais velhos e pelos tutores" -, está na origem da extracção de uma certidão para o Departamento de Investigação e Acção Penal do Ministério Público do Porto, tal como noticiou ontem o JN. Tudo com vista a apurar a eventual responsabilidade penal dos responsáveis das Oficinas de São José, no Porto.

Durante o dia de ontem, o JN tentou contactar responsáveis da das Oficinas, mas foi informado de que todos os membros da Direcção se encontram "de férias" até ao final do mês.

Amizade e agressões

Outra interrogação do colectivo de juízes expressa no acórdão prende-se com a mudança de comportamento de três jovens que inicialmente mantinham relações de amizade e ajudavam o transexual, já debilitado em consequência de doenças como sida e tuberculose.

"Ainda nos intriga a razão pela qual numa primeira fase três deles [...], chegaram a levar-lhe [a Gisberto] géneros alimentares e a confeccionar-lhes refeições, nomeadamente arroz no local onde 'vivia', para, de um momento para o outro, passarem a ser também parte dos que o começaram a agredir", questionam-se os juízes, admitindo a mesma dúvida perante a "maior parte da sociedade". Apesar de considerarem não ter sido encontrada resposta cabal para as motivações do crime - cujas agressões, recorde-se, acabaram por não ser tidas como causa directa da morte da vítima, já em estado de grande fraqueza por causa da doença, tal como revelou o relatório da autópsia e o perito médico-legal -, o colectivo de juízes foi muito crítico para com o sistema de protecção de menores.

"A instituição ou instituições onde cada um deles estava protegido, pensava o comum dos cidadãos, não lhes soube transmitir os mais elevados valores morais e regras de vivência social que muito certamente teriam evitado este tipo de comportamento", consideram, censurando, depois, o facto de muitos jovens serem colocados em instituições a centenas de quilómetros das famílias, o que só se justifica nos casos em que as famílias os maltratam ou negligenciam. No caso deste processo, vários dos rapazes têm a família em Lisboa, ou outras zonas distantes do Porto, tal como explicado, nestas páginas, no perfil de cada um dos jovens.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Adeus francesinhas e cervejola. Restam os tremoços:(.

Obesidade aumenta risco de cancro da próstata
2006/08/02 | 17:46
Investigadores portugueses apontam os factores de perigo

A obesidade associada a uma vida sedentária poderá estar relacionada com o aparecimento do cancro da próstata, doença que todos os anos apresenta mais dois a três mil novos casos, aponta uma investigação hoje apresentada, citada pela agência Lusa.

O estudo foi desenvolvido por um grupo de especialistas do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e do Instituto português de Oncologia do Porto (IPO) e publicado numa revista norte-americana da especialidade.

Em declarações à agência Lusa, Rui Medeiros, um dos investigadores responsáveis pelo estudo, explicou que a investigação pretendeu demonstrar que «a exposição ao longo da vida a factores ambientais associados a variações do genoma humano predispõe para a obesidade, aumentando o risco do cancro da próstata, sobretudo a forma mais agressiva».

O grupo de investidores demonstrou assim que os indivíduos com maior obesidadee, simultaneamente, portadores da variante genética no gene da leptina (hormona responsável por informar o cérebro sobre o estado das reservas energéticas de gordura), apresentam maior proliferação de células cancerígenas da próstata e facilitação de metastização.

Concluiu-se, desta forma, que os conselhos para uma «boa alimentação, associada a uma vida ao ar livre e a exercício físico» são válidos também para diminuir o risco de aparecimento de cancro na próstata.

O cancro da próstata é uma doença muito frequente nos homens com idades a partir dos 45 anos e responsável por uma elevada taxa de mortalidade. De acordo com Rui Medeiros, surgem todos os anos entre 2.000 e 3.000 novos casos de homens com esta doença.

terça-feira, agosto 01, 2006

Sinistro.

Blogs encerrados por motivos políticos
2006/08/01 | 14:01
Obra de poetisa tibetana está censurada na China. Jornalistas protestam

Os «blogs» da poetisa tibetana Woeser, cuja obra está censurada na China, foram repentinamente encerrados na passada sexta-feira, informou esta terça-feira a organização Repórteres sem fronteiras (RSF). A notícia é avançada pela Agência Lusa.

Num comunicado, o grupo expressa indignação por este acto censório e reclama a reabertura dos «blogs», lembrando que a poesia de Woeser «está proibida na China» e «as suas páginas pessoais (na Internet) são o único meio que tem de expressar-se».

Acusando as autoridades chinesas de quererem reduzir a cultura tibetana a «simples folclore turístico», a RSF chama a atenção para o facto de Pequim estar a aplicar uma controlo informativo cada vez mais férreo.

Há dias, Pequim ordenou o encerramento do portal «Dijing- democracy.net», do marido da poetisa, o escritor chinês Wang Lixiong, e bem assim o do «Century China», muito popular nos círculos intelectuais do país.

«Uma vez mais pedimos às autoridades que respeitem a liberdade de expressão, um direito garantido pela Constituição», diz a RSF.

A poetisa, conhecida também como Oser e Wei Se, em chinês, tinha dois «blogs» - http://oser.tibelcult.nete http://blog.daiqi.com/weise-, através dos quais divulgava poemas da sua autoria, ensaios sobre a cultura tibetana e artigos do marido.

Segundo responsáveis das páginas, a decisão governamental fundamentou-se nos temas tratados, que incluíam comentários sobre o problema da SIDA no Tibete, o impacto que terá sobre o povo tibetano a recente inauguração do comboio Pequim-Lhasa e uma mensagem de parabéns ao Dalai Lama pelo seu aniversário.

Woeser é uma das poucas escritoras tibetanas que utilizam o mandarim como veículo de expressão. Segundo a RSF, a maioria dos visitantes das suas páginas eram estudantes apostados em não perder a sua identidade cultural.

O seu livro «Notas sobre o Tibete» foi censurado em 2004, por falar em termos positivos do Dalai Lama - ousadia que lhe valeu o despedimento e ter de escrever uma carta de auto-censura a reconhecer os seus «erros políticos».

P.S. O título deste post seria o mesmo se me referisse ao começo de época do Benfica. A diferença é que aceitaria um :) à frente...