O DIAMANTE LOUCO
ROGER WATERS (I)
Não deixa de ter piada: fama e proveito de liderar a banda de rock mais preguiçosa do mundo e aqui estou eu, metido no estúdio ao fim-de-semana, os técnicos de som iam tendo um enfarte quando lhes telefonei. Claro que estou atrasado, mas isso não passa de justificação oficial, angustia-me pensar o disco pronto. Ando a dar com toda a gente em doida com as minhas incertezas - uma palavra aqui, um baixo diferente acolá, estico ou encolho a segunda parte de Shine On You Crazy Diamond? Tive um sonho horrível: Syd aparecia-me com o disco debaixo do braço, plantava-se à minha frente em silêncio e nem um pedacinho de papel ou vinil ficava para amostra; tudo pelo ar, confetis de Carnaval. Uma versão enorme dos pisa-papéis da minha infância, o velho trouxera-os da Suiça, sacudia-se e recomeçava a nevar. Os olhos frios, um desdém acusador, o meu psiquiatra falou de projecção da culpa. Para o inferno, ele e o busto de Freud por cima da lareira. Já não suporto a teoria brilhante de críticos azedos, eu e David não somos nenhuns meninos de coro, mas acusar-nos de empurrar Syd para a loucura não lembra ao Diabo. Es-qui-zo-fre-ni-a. Ali, no papel do internamento, ninguém a sabe explicar e ponto final. Os palavrões são o que menos importa, há meses e meses uma sombra o invadia, olhares perdidos, exigências estranhas, aferrolhado no camarim antes do palco, desaparecido logo a seguir. E os risos, solitários, a despropósito – “não é nada”, dizia -, mas olhava-nos como se percebesse coisas escondidas atrás de nós ou disfarçadas por frases inocentes; fazia medo. Cada vez mais longe. Vi-o partir com pena e alívio, sempre o visitei pouco, a loucura verdadeira – sem ajudas químicas e bilhete e regresso – assusta-me. Como a morte, nunca se sabe quem vai a seguir. E no entanto, depois do sucesso de Dark Side, fui assaltado por uma nostalgia enorme - ele desejara o êxito como nós, fomos lentos. Mas custou muito trabalho a encontrar o equilíbrio. Ou talvez não, se calhar só naquela altura tínhamos crescido o suficiente para nos darmos ao luxo de vender milhares de discos sem paranóias de ter traído. Nós; ele não. Teria desatado aos berros, feito um discurso acerca de música comercial e efeitos habilidosos, até acabar no meio da sala a perguntar se nos esquecêramos do rock. Foi a ele que traímos, afinal. À sua música, bem mais desesperada do que a minha, cheia de roupagens e fantasmas. Syd compunha à base de dor e guitarras roufenhas, o coração da capa do disco poderia ser o dele, mas com uma montanha de calmantes em cima. Tenho saudades. Shine On surgiu naturalmente, é uma canção mentirosa, ele não voltará a brilhar. Mas durante semanas a primeira frase perseguiu-me, quase escrevi “recorda quando éramos jovens”, tudo o resto são imagens enganadoras e vazias, só voltei a sentir a caneta firme quando escrevi as linhas finais, seria eu capaz de trocar o triunfo por uma brisa calma a seu lado? Era um perdigueiro magnífico, sempre à procura, nada lhe servia abaixo da verdade e do delírio. Não sei, e se continuar metido neste quarto de banho a escrever e a charrar também não vou descobrir. Chamar os outros não seria solução, é do que foram que sinto a falta, não do seu presente dourado. Quem me dera que estivéssemos todos juntos como antigamente, antes de Syd buscar refúgio dentro de si. Apetece-me escrever uma canção sobre o engano monstruoso que consiste em confundir contas bancárias e sabedoria, arrogância e fuga dos velhos medos, agitação e movimento. Uma melodia simples, a letra como um falso diálogo. Por trás de Syd e dos outros é comigo que falo, às voltas num aquário, as respostas fazem-me negaças. Vasculho música e dinheiro e tenho saudades de um riso franco de mulher, cabelos ao vento, dedo em riste, acusando-me de autopiedade… Jesus, que solidão! Existirá resposta? Fora de mim?
terça-feira, novembro 21, 2006
segunda-feira, novembro 20, 2006
Os malefícios da tecnologia? Não, as oportunidades que proporciona.
"Caso pode chegar à justiça
Jovem italiano encena morte para acabar com relação na Net
Um adolescente italiano, de 14 anos, simulou a própria morte para terminar uma relação que mantinha via Internet, noticiou a Ansa.
O jovem, residente em Vicebellignano, uma localidade com apenas 1300 habitantes, situada na província de Cremona, no norte de Itália, encarregou a irmã de enviar uma SMS para o telemóvel da ciber-parceira para a informar da suposta morte, causada por um alegado acidente de viação.
A irmã continuou a história, acrescentando que o irmão tinha sido submetido a várias cirurgias, entrado em coma e, por último, havia falecido.
A mentira arquitectada pelos irmãos para romper a relação transformou-se numa tragédia para a jovem enamorada, que «se desfez em lágrimas ao saber da morte do parceiro» , contou a mãe.A irmã do «falecido» pediu à jovem que não fosse ao funeral, mas que enviasse uma coroa de flores para ser depositada no túmulo.
Desconsolada, a jovem descobriu, no entanto, a mentira, depois da mãe ter telefonado para o registo civil e para um jornal local de Cremona para obter informações sobre o funeral.
A família da jovem considera agora denunciar os irmãos à polícia e entrar com um processo judicial."
Vide in http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Tecnologia/Interior.aspx?content_id=10099
Jovem italiano encena morte para acabar com relação na Net
Um adolescente italiano, de 14 anos, simulou a própria morte para terminar uma relação que mantinha via Internet, noticiou a Ansa.
O jovem, residente em Vicebellignano, uma localidade com apenas 1300 habitantes, situada na província de Cremona, no norte de Itália, encarregou a irmã de enviar uma SMS para o telemóvel da ciber-parceira para a informar da suposta morte, causada por um alegado acidente de viação.
A irmã continuou a história, acrescentando que o irmão tinha sido submetido a várias cirurgias, entrado em coma e, por último, havia falecido.
A mentira arquitectada pelos irmãos para romper a relação transformou-se numa tragédia para a jovem enamorada, que «se desfez em lágrimas ao saber da morte do parceiro» , contou a mãe.A irmã do «falecido» pediu à jovem que não fosse ao funeral, mas que enviasse uma coroa de flores para ser depositada no túmulo.
Desconsolada, a jovem descobriu, no entanto, a mentira, depois da mãe ter telefonado para o registo civil e para um jornal local de Cremona para obter informações sobre o funeral.
A família da jovem considera agora denunciar os irmãos à polícia e entrar com um processo judicial."
Vide in http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Tecnologia/Interior.aspx?content_id=10099
sexta-feira, novembro 17, 2006
O Power-Point em 33 rotações.
Maria,
Estou a acabar a conferência para Santiago. Penosamente... A princípio não percebi porquê, facto não muito elogioso para a minha perspicácia! Velhos temas, slides novos, discurso remendado, de onde nasciam os solavancos? Do pano de fundo, é óbvio, o apóstolo coraria se nos visse por aquelas ruas. Eu inventava pretextos para me atardar na montra de uma livraria, só para te ver navegar à minha frente. Confesso que nunca percebi a obsessão apressada dos homens pela nudez. O seu tempo chega, quando as mulheres assim o decidem, concedeste-ma vezes sem conta. Mas antes..., antes havia esse andar ondulante, os jeans que te não davam um dedo de liberdade a partir da anca, o blusão curto que a sublinhava, o cabelo arrapazado de miúda gaiata, os tacões que ressoavam indolentes na pedra e exasperantes dentro de mim. Meia-volta, o sorriso, "assim me trocas pelos livros, Júlio? Quem me protegerá dos belos galegos?". Eu não, Maria, jamais acreditei em amores enjaulados; eu, não. Na Galiza, em Inglaterra ou no Inferno, sentir-me-ás o braço pelos ombros para mimar, nunca para reter. Naqueles tempos a decisão era tua, hoje ainda o é. Ainda... Porque estou cansado de te imaginar a sair de um avião, talvez seja melhor seguir em frente e recordar-nos pelas ruas de Santiago.
Estou a acabar a conferência para Santiago. Penosamente... A princípio não percebi porquê, facto não muito elogioso para a minha perspicácia! Velhos temas, slides novos, discurso remendado, de onde nasciam os solavancos? Do pano de fundo, é óbvio, o apóstolo coraria se nos visse por aquelas ruas. Eu inventava pretextos para me atardar na montra de uma livraria, só para te ver navegar à minha frente. Confesso que nunca percebi a obsessão apressada dos homens pela nudez. O seu tempo chega, quando as mulheres assim o decidem, concedeste-ma vezes sem conta. Mas antes..., antes havia esse andar ondulante, os jeans que te não davam um dedo de liberdade a partir da anca, o blusão curto que a sublinhava, o cabelo arrapazado de miúda gaiata, os tacões que ressoavam indolentes na pedra e exasperantes dentro de mim. Meia-volta, o sorriso, "assim me trocas pelos livros, Júlio? Quem me protegerá dos belos galegos?". Eu não, Maria, jamais acreditei em amores enjaulados; eu, não. Na Galiza, em Inglaterra ou no Inferno, sentir-me-ás o braço pelos ombros para mimar, nunca para reter. Naqueles tempos a decisão era tua, hoje ainda o é. Ainda... Porque estou cansado de te imaginar a sair de um avião, talvez seja melhor seguir em frente e recordar-nos pelas ruas de Santiago.
quinta-feira, novembro 16, 2006
O velho Rei Lagarto.
PARIS, FRANÇA
JIM MORRISON
Foi como se tivesse caído uma bomba no estúdio, um cogumelo atómico de silêncio. As palavras surgiram a custo, tangenciais, ninguém lhe pronunciou o nome, dizia-se simplesmente que “ele” não voltaria. Os outros três apareceram pouco tempo depois, amáveis mas silenciosos, a aura desaparecera, seria uma imagem demasiado fácil dizer que a porta dos fascínios se fechara para sempre. Calei a minha ausência de surpresa, gosto de passar despercebido, a posteriori qualquer besta se pode arrogar em Nostradamus, mas uma cena voltou-me à memória - Ray ao piano, quando lhe dissemos que L.A. Woman estava pronto. Um sorriso amargo e breve, o olhar (docemente de través) pousado em Jim, mãos distraídas por teclas que sussurraram um The End clandestino. Ao reparar em mim, parou de imediato e escondeu a verdade proclamando outra – “belo disco, não é? Como antigamente…” Não foi por acaso que o rei Lagarto nunca gravou a solo, os críticos tinham razão, algo se passava entre os quatro que impedia a fuga. Jim era a face visível e bela de um todo, para lhe sobreviverem os outros tiveram de se resignar ao cinzento do quotidiano. De repente transformavam-se em pessoas vulgares, sombras de sonhos, nós esperávamos e eles estavam já de regresso. Sem azedume ou espanto.
Não sei como souberam, talvez ele próprio o dissesse, mas duvido, conheciam-se demasiado bem para dependerem de grandes palavras. Eu tive a certeza durante as gravações. Um disco engana muito, os indícios mais importantes não se encontram nas canções de maior sucesso. Não moravam em L.A. Woman ou Riders on the Storm, mas no começo, quando pedia que o vissem mudar. Versos estranhos esses, “nunca estive tão falido que não pudesse deixar a cidade”. Jim não partira porque não quisera, obstinado como estava em encontrar a resposta nesta América a quem dedicou um mural sonoro pintado a garrafas de whisky.
Aceito o resultado da autópsia, já é de admirar que o coração tenha aguentado tantas tropelias, mais meia dúzia de anos e seria o fígado a comprar os bilhetes para a viagem. Mas não engulo essas tretas da procura da verdade e das musas até ao fim, Morrison tinha desistido e sabia-o. Porquê Paris? Sou suspeito, é uma resposta que guardo para quando reservar um quarto duplo e vir a minha garota sentada na cama, pernas chinesas e migalhas por tudo o que é lençol, assassinando os famosos croissants. Coisas de miúdos, meu pai – com a ajuda de mais alguns! – libertou a cidade e desconfio que alguma fez por lá, sempre me disse, ar solene e nostálgico, que os franceses eram péssimos soldados mas tinham razão - Paris só devia ser visitada em estado de graça amorosa.
De certo modo, penso que Jim raciocinou ao contrário - partiu para voltar apaixonado. A relação deles foi morrendo enquanto os rituais de palco a engoliam, os sumo-sacerdotes de qualquer religião têm vidas familiares difíceis. Magoaram-se muito, Paris diria se demasiado, não era uma segunda lua-de-mel, mas um balanço, talvez final. Dos Doors, levou ele poetas que rumorejavam sob versos americanos, Baudelaire, Rimbaud, os malditos. Pam…, não sei; muitas vezes a surpreendi desenhando horas a fio durante as gravações. Um dia perguntei-lhe de que se tratava e ela mostrou-me esboços de uma casa térrea e lançou-se na descrição entusiástica de relva, cães e miúdos. Devo ter ficado tão boquiaberto que a envergonhei, sentiu-se obrigada a murmurar um “não é para já, só depois…”.
Da próxima digressão, completei eu, de volta ao planeta Terra. Guardou os rabiscos e riu silenciosa, quase convulsa, dobrada sobre si própria, um murmúrio quase imperceptível – “só depois de ele entender”. Que o caminho não era aquele, mais vale um dia de vida nossa, mesmo nossa, do que anos a catalisar o êxtase dos outros. Deve ter compreendido, recusou a estrada depois de L.A. Woman. Jim foi a Paris à procura de dois miúdos perdidos nas praias da Califórnia onde se tinham encontrado antes da história do Rei Lagarto começar. E morreu porque tinha desaprendido a arte de chegar a ela face a face, em dueto, manhãs, tardes e noites sem groupies, ensaios, produtores; os outros três. As drogas e o álcool eram muletas para o medo de engordar, a falta de inspiração, o passado, ferozmente escondido. Aposto que subiu as doses para estar perto dela numa boa, sem paranóias, a felicidade na ponta da agulha. E penso isso porque a vi há tempos e ela me sorriu enquanto eu engolia em seco, atrapalhado. Meteu os sacos de compras no carro e arrancou. Semanas mais tarde recebi um postal com uma daquelas fotografias de Jim que faziam sonhar as adolescentes, o texto era breve – “Este é vosso e todo-poderoso, exibam-no para sempre. O outro ficou em Paris e era uma criança amedrontada, mas eu amava-o. Ele não conseguia acreditar”, Pam. Seis anos depois estava morta.
JIM MORRISON
Foi como se tivesse caído uma bomba no estúdio, um cogumelo atómico de silêncio. As palavras surgiram a custo, tangenciais, ninguém lhe pronunciou o nome, dizia-se simplesmente que “ele” não voltaria. Os outros três apareceram pouco tempo depois, amáveis mas silenciosos, a aura desaparecera, seria uma imagem demasiado fácil dizer que a porta dos fascínios se fechara para sempre. Calei a minha ausência de surpresa, gosto de passar despercebido, a posteriori qualquer besta se pode arrogar em Nostradamus, mas uma cena voltou-me à memória - Ray ao piano, quando lhe dissemos que L.A. Woman estava pronto. Um sorriso amargo e breve, o olhar (docemente de través) pousado em Jim, mãos distraídas por teclas que sussurraram um The End clandestino. Ao reparar em mim, parou de imediato e escondeu a verdade proclamando outra – “belo disco, não é? Como antigamente…” Não foi por acaso que o rei Lagarto nunca gravou a solo, os críticos tinham razão, algo se passava entre os quatro que impedia a fuga. Jim era a face visível e bela de um todo, para lhe sobreviverem os outros tiveram de se resignar ao cinzento do quotidiano. De repente transformavam-se em pessoas vulgares, sombras de sonhos, nós esperávamos e eles estavam já de regresso. Sem azedume ou espanto.
Não sei como souberam, talvez ele próprio o dissesse, mas duvido, conheciam-se demasiado bem para dependerem de grandes palavras. Eu tive a certeza durante as gravações. Um disco engana muito, os indícios mais importantes não se encontram nas canções de maior sucesso. Não moravam em L.A. Woman ou Riders on the Storm, mas no começo, quando pedia que o vissem mudar. Versos estranhos esses, “nunca estive tão falido que não pudesse deixar a cidade”. Jim não partira porque não quisera, obstinado como estava em encontrar a resposta nesta América a quem dedicou um mural sonoro pintado a garrafas de whisky.
Aceito o resultado da autópsia, já é de admirar que o coração tenha aguentado tantas tropelias, mais meia dúzia de anos e seria o fígado a comprar os bilhetes para a viagem. Mas não engulo essas tretas da procura da verdade e das musas até ao fim, Morrison tinha desistido e sabia-o. Porquê Paris? Sou suspeito, é uma resposta que guardo para quando reservar um quarto duplo e vir a minha garota sentada na cama, pernas chinesas e migalhas por tudo o que é lençol, assassinando os famosos croissants. Coisas de miúdos, meu pai – com a ajuda de mais alguns! – libertou a cidade e desconfio que alguma fez por lá, sempre me disse, ar solene e nostálgico, que os franceses eram péssimos soldados mas tinham razão - Paris só devia ser visitada em estado de graça amorosa.
De certo modo, penso que Jim raciocinou ao contrário - partiu para voltar apaixonado. A relação deles foi morrendo enquanto os rituais de palco a engoliam, os sumo-sacerdotes de qualquer religião têm vidas familiares difíceis. Magoaram-se muito, Paris diria se demasiado, não era uma segunda lua-de-mel, mas um balanço, talvez final. Dos Doors, levou ele poetas que rumorejavam sob versos americanos, Baudelaire, Rimbaud, os malditos. Pam…, não sei; muitas vezes a surpreendi desenhando horas a fio durante as gravações. Um dia perguntei-lhe de que se tratava e ela mostrou-me esboços de uma casa térrea e lançou-se na descrição entusiástica de relva, cães e miúdos. Devo ter ficado tão boquiaberto que a envergonhei, sentiu-se obrigada a murmurar um “não é para já, só depois…”.
Da próxima digressão, completei eu, de volta ao planeta Terra. Guardou os rabiscos e riu silenciosa, quase convulsa, dobrada sobre si própria, um murmúrio quase imperceptível – “só depois de ele entender”. Que o caminho não era aquele, mais vale um dia de vida nossa, mesmo nossa, do que anos a catalisar o êxtase dos outros. Deve ter compreendido, recusou a estrada depois de L.A. Woman. Jim foi a Paris à procura de dois miúdos perdidos nas praias da Califórnia onde se tinham encontrado antes da história do Rei Lagarto começar. E morreu porque tinha desaprendido a arte de chegar a ela face a face, em dueto, manhãs, tardes e noites sem groupies, ensaios, produtores; os outros três. As drogas e o álcool eram muletas para o medo de engordar, a falta de inspiração, o passado, ferozmente escondido. Aposto que subiu as doses para estar perto dela numa boa, sem paranóias, a felicidade na ponta da agulha. E penso isso porque a vi há tempos e ela me sorriu enquanto eu engolia em seco, atrapalhado. Meteu os sacos de compras no carro e arrancou. Semanas mais tarde recebi um postal com uma daquelas fotografias de Jim que faziam sonhar as adolescentes, o texto era breve – “Este é vosso e todo-poderoso, exibam-no para sempre. O outro ficou em Paris e era uma criança amedrontada, mas eu amava-o. Ele não conseguia acreditar”, Pam. Seis anos depois estava morta.
quarta-feira, novembro 15, 2006
O primeiro dominó em África.
África do Sul legaliza casamentos homossexuais
2006/11/14 16:11
É o primeiro país africano a legalizar união entre pessoas do mesmo sexo
O Parlamento sul-africano aprovou esta terça-feira uma lei que autoriza os casamentos homossexuais, tornando-se no primeiro país do continente africano a legalizar a união entre duas pessoas do mesmo sexo, noticia a agência France Press.
A lei foi aprovada com 230 votos, 41 contra e três abstenções, após um debate aceso e polémico sobre a legislação relativa à união civil.
A nova legislação, que autoriza a oficialização das uniões entre pessoas do mesmo sexo pelo casamento ou pela união civil, foi contestada pelas organizações religiosas, conservadores e tradicionalistas.
Apesar da contestação, o Governo sul-africano considera que a nova legislação faz parte do seu compromisso de combater toda a forma de discriminação contra os homossexuais em matéria de matrimónio. «Rompendo com o nosso passado, necessitamos de lutar e resistir a todas as formas de discriminação e preconceitos, incluindo a homofobia», afirmou a ministra do Interior sul-africana, Nosiviwe Mapisa-Nqakula, antes da votação da lei.
A adopção da nova lei já foi saudada pelas associações de defesa dos direitos dos homossexuais, como a Joint Working Group, uma coligação nacional formada por 17 grupos de lésbicas, homossexuais e bissexuais.
«A lei simboliza a rejeição das tentativas de classificar as lésbicas e homossexuais como cidadãos de segunda categoria», defendeu, em comunicado, Kikile Vilakazi, porta-voz da Joint Working Group. Para a coligação, a decisão de hoje «é uma demonstração de empenho dos parlamentares em garantir que todos os seres humanos são tratados com dignidade».
A alteração legislativa começou a ganhar forma depois de o Tribunal Constitucional do país ter considerado inconstitucional a anterior lei do casamento, baseada na «união entre um homem e uma mulher», por ser contrária ao preceito constitucional que garante os mesmos direitos para todos os cidadãos.
2006/11/14 16:11
É o primeiro país africano a legalizar união entre pessoas do mesmo sexo
O Parlamento sul-africano aprovou esta terça-feira uma lei que autoriza os casamentos homossexuais, tornando-se no primeiro país do continente africano a legalizar a união entre duas pessoas do mesmo sexo, noticia a agência France Press.
A lei foi aprovada com 230 votos, 41 contra e três abstenções, após um debate aceso e polémico sobre a legislação relativa à união civil.
A nova legislação, que autoriza a oficialização das uniões entre pessoas do mesmo sexo pelo casamento ou pela união civil, foi contestada pelas organizações religiosas, conservadores e tradicionalistas.
Apesar da contestação, o Governo sul-africano considera que a nova legislação faz parte do seu compromisso de combater toda a forma de discriminação contra os homossexuais em matéria de matrimónio. «Rompendo com o nosso passado, necessitamos de lutar e resistir a todas as formas de discriminação e preconceitos, incluindo a homofobia», afirmou a ministra do Interior sul-africana, Nosiviwe Mapisa-Nqakula, antes da votação da lei.
A adopção da nova lei já foi saudada pelas associações de defesa dos direitos dos homossexuais, como a Joint Working Group, uma coligação nacional formada por 17 grupos de lésbicas, homossexuais e bissexuais.
«A lei simboliza a rejeição das tentativas de classificar as lésbicas e homossexuais como cidadãos de segunda categoria», defendeu, em comunicado, Kikile Vilakazi, porta-voz da Joint Working Group. Para a coligação, a decisão de hoje «é uma demonstração de empenho dos parlamentares em garantir que todos os seres humanos são tratados com dignidade».
A alteração legislativa começou a ganhar forma depois de o Tribunal Constitucional do país ter considerado inconstitucional a anterior lei do casamento, baseada na «união entre um homem e uma mulher», por ser contrária ao preceito constitucional que garante os mesmos direitos para todos os cidadãos.
terça-feira, novembro 14, 2006
Aposto que o outro Nuno Grande está de acordo:).
"... Rui Rio mete todos os criadores - os bons e os maus, que também os há - no mesmo "saco" de subsídio-dependentes ingratos, e militantes desse odioso partido que é o "cultural". Num anacronismo incompreensível, a sua acção populista procura ressuscitar uma retórica neo-conservadora, insistindo em ver, como "desperdício", o que outros países, bem mais liberais do que Portugal, consideram ser absolutamente estratégico - o incentivo à criação artística contemporânea."
Nuno Grande, Arquitecto e Docente Universitário, Público.
Nuno Grande, Arquitecto e Docente Universitário, Público.
segunda-feira, novembro 13, 2006
A propósito...
Esteticamente, gosto muito do poema. Se ele traduz uma "ideologia" - não é obrigatório... -, não a partilho. Posso ver um amigo afastar-se e não pronunciar palavra, mas cá dentro grito. Posso acolher outro depois de ausência por explicar, mas um dos meus pés fica-se pelo cais. Nunca aceitarei uma visão blasée e quase tangencial da amizade. Exijo muito, gosto de acreditar que ofereço outro tanto. Porque não me chega partilhar a sede da alegria - quero-a beber, mesmo amarga. E sendo amigos..., pela mesma taça! Porque na amizade é preciso bebê-la até ao fim.
domingo, novembro 12, 2006
Aplicável aos amores?
Os Amigos
Oa amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham;
a nenhum perguntava
porque partia;
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.
Eugénio de Andrade.
Oa amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham;
a nenhum perguntava
porque partia;
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.
Eugénio de Andrade.
sábado, novembro 11, 2006
Quinta-Feira à noite, cheio de sono.
Quinta-Feira à noite fui ao Clube Literário do Porto ouvir poesia. A dormir em pé... O que foi um erro, com o Carlos Magno a moderar. O maroto obrigou-me a intervir e eu disse uma caterva de asneiras, que felizmente esqueci. Excepto uma promessa suicidária: levar um livro da próxima vez e ler um poema. Há quase vinte anos que leio poesia na rádio e na televisão, há mais para os meus alunos. E no entanto nunca me senti a lê-la "em público". Os alunos são família, as câmaras inocentes, nunca imagino gente de carne e osso para lá delas. Acontece que eu gosto muito do Carlos. Dele e do jovem conviva dos almoços com o meu Pai, de onde o meu velho regressava consolado, "o rapaz é inteligente e culto". Por isso o Magno é sagrado para mim, "um amigo de infância que só conheci na idade adulta". E da próxima vez levo poemas do Eugénio ou da Amalia Bautista e assassino-os em voz alta. De graça! Para alívio do Dr. Rui Rio...
sexta-feira, novembro 10, 2006
Não só. Mas também!
Especialistas dizem que os pais renunciam à imposição da autoridade
Especialistas em educação defenderam esta sexta-feira que o aumento da violência escolar se deve em parte a uma crise de autoridade familiar, onde os pais renunciam a impor disciplina aos filhos, remetendo-a para os professores.
Vários especialistas internacionais estão reunidos na cidade espanhola de Valência a analisar até sábado o assunto «Família e Escola: um espaço de convivência».
Os participantes no encontro, dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas, o que obriga a «um esforço conjunto da sociedade», refere a agência Lusa.
«As crianças não encontram em casa a figura de autoridade», um elemento fundamental para o seu crescimento, disse na conferência inaugural do congresso o filósofo Fernando Savater.
«As famílias não são o que eram antes, um núcleo muito amplo e hoje o único que muitas crianças contactam é a televisão, que está sempre em casa», sublinhou.
Para Savater os pais continuam a «não querer assumir qualquer autoridade», preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos «seja alegre» e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinar quase exclusivamente para os professores.
No entanto e quando os professores tentam ter esse papel disciplinador, «são os próprios pais e mães que não exerceram essa autoridade sobre os filhos que intentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os».
«O abandono da sua responsabilidade retira aos pais a possibilidade de protestar e exigir depois. Quem não começa por tentar defender a harmonia no seu ambiente, não tem razão para depois se ir queixar», sublinha.
Os professores, afirma, não podem ser deixados sós, e a liberdade «exige um componente de disciplina» que obriga a que os docentes não estejam desamparados e sem apoio, nomeadamente das famílias e da sociedade.
«A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara», afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, «uma oportunidade e um privilégio».
Savater explicou que é essencial perceber que as crianças hoje não são mais violentas ou mais indisciplinadas que antes, mas que hoje «têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos».
"Deixaram de ver os adultos como fontes de experiência e de ensinamento para os passarem a ver como uma fonte de incómodo. Isso leva-os à rebeldia", afirmou.
Daí que mais do que reformas aos códigos legislativos ou às normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade, admitindo que «mais vale dar uma palmada, no momento certo» do que permitir as situações que depois se criam.
Como alternativa à palmada, oferece outras, como suprimir privilégios, alargar os deveres ou trabalhos de casa.
Especialistas em educação defenderam esta sexta-feira que o aumento da violência escolar se deve em parte a uma crise de autoridade familiar, onde os pais renunciam a impor disciplina aos filhos, remetendo-a para os professores.
Vários especialistas internacionais estão reunidos na cidade espanhola de Valência a analisar até sábado o assunto «Família e Escola: um espaço de convivência».
Os participantes no encontro, dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas, o que obriga a «um esforço conjunto da sociedade», refere a agência Lusa.
«As crianças não encontram em casa a figura de autoridade», um elemento fundamental para o seu crescimento, disse na conferência inaugural do congresso o filósofo Fernando Savater.
«As famílias não são o que eram antes, um núcleo muito amplo e hoje o único que muitas crianças contactam é a televisão, que está sempre em casa», sublinhou.
Para Savater os pais continuam a «não querer assumir qualquer autoridade», preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos «seja alegre» e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinar quase exclusivamente para os professores.
No entanto e quando os professores tentam ter esse papel disciplinador, «são os próprios pais e mães que não exerceram essa autoridade sobre os filhos que intentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os».
«O abandono da sua responsabilidade retira aos pais a possibilidade de protestar e exigir depois. Quem não começa por tentar defender a harmonia no seu ambiente, não tem razão para depois se ir queixar», sublinha.
Os professores, afirma, não podem ser deixados sós, e a liberdade «exige um componente de disciplina» que obriga a que os docentes não estejam desamparados e sem apoio, nomeadamente das famílias e da sociedade.
«A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara», afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, «uma oportunidade e um privilégio».
Savater explicou que é essencial perceber que as crianças hoje não são mais violentas ou mais indisciplinadas que antes, mas que hoje «têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos».
"Deixaram de ver os adultos como fontes de experiência e de ensinamento para os passarem a ver como uma fonte de incómodo. Isso leva-os à rebeldia", afirmou.
Daí que mais do que reformas aos códigos legislativos ou às normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade, admitindo que «mais vale dar uma palmada, no momento certo» do que permitir as situações que depois se criam.
Como alternativa à palmada, oferece outras, como suprimir privilégios, alargar os deveres ou trabalhos de casa.
quinta-feira, novembro 09, 2006
Ainda meto cá o Domingos, Sábados e outros Dias todo:).
O PRESENTE
ROGER WATERS (II)
Roger,
Cá recebi o exemplar de Wish You Were Here e o recado que tiveste a amabilidade de transmitir ao porteiro. Conheço-te demasiado bem! “Não incomode a menina”, em ti, significa apenas que não tencionavas subir, o disco fará o trabalho sujo de um modo asséptico, nada de gritos ou silêncios intermináveis. Parabéns, foste maquiavélico. Posso tocá-lo, projectar o vídeo das últimas férias, parar a imagem quando brindas a câmara com um olhar de esguelha, imaginar-te pela sala experimentando rimas coxas. Essa tua arte de transformar remoques em ponto de partida para canções… David disse-me um dia que tinha a estranha impressão de viver comigo em palco, de tal forma és incapaz de compor à revelia do teu umbigo e das tuas obsessões. E eu fui – sou! – uma delas, não é verdade? Às vezes preferia ter sido algo de prosaico, namorada por exemplo; mas contigo ninguém vive como as pessoas da rua ao lado. Shine On é bonito, sempre amaste Syd bem mais do que admites, às vezes cheguei a pensar que te envergonhavas por não o ter acompanhado na sua viagem para a face escura da Lua. Algumas das letras, das músicas e dos arranjos pareciam flirts descarados com a loucura, era assim que o visitavas sem ir ao hospital. Compreendo-te - era horrível ver aqueles olhos risonhos e travessos vazios de qualquer expressão, buracos negros de noites que não respeitam manhãs. De uma saudade passaste para outra, não foi? As cartas têm vantagens, se te dissesse isto cara a cara acabava a frase a dialogar com as tuas costas, porta batida com estrondo, consegues abrir-te com milhões, nunca a dois. Nas montras das lojas, em quartos de jovens que te decifram de acordo com os seus próprios fantasmas, nesses concertos raros e curtos, os homens das luzes proibidos de iluminar as primeiras filas porque não te podes dar ao luxo de distinguir os contornos de uma só face. Assim, protegido pelo barulho à tua volta, por essa montanha de gente que tratas amavelmente para lhes pedir desculpa por não os notares, assim, Roger, constróis um diálogo satânico a uma só voz, sem me dares hipótese de resposta. A não ser que me pendure na tua campainha e peça para subir. Pobre de quem não tenha talento, fica reduzido às formas de comunicação das pessoas normais, tu compões-me um disco e eu escrevo-te uma carta em papel de bloco… Não precisavas de mo oferecer, eu tê-lo-ia comprado e percebido, Wish You Were Here foi escrito a pensar em mim e não em Syd ou nos outros, é demasiado agressivo e doloroso, cheio de sinais que apenas eu posso entender - cheio de nós. Também posso fazer batota, sabes?, basta não enviar a carta e a liberdade é total, o amor-próprio fica protegido. O amor próprio e o outro – solitário, sem adjectivo; teu. Não o confessaria se aqui estivesses, duvido que te permita lê-lo, mas acertaste em cheio, somos duas almas perdidas nadando em círculos, ano após ano, acabo sempre ao espelho do nosso quarto, remirando o medo. Como tremia, quando exigi que saísses! Uma esperançazinha de te ver recusar, depois viriam gritos e lágrimas, silêncios fatigados, o desejo renascendo dos escombros, não existem vencedores ou vencidos quando o primeiro gesto é órfão e os dedos se encontram a meio caminho. Sorrir no escuro da tua respiração tranquila e imaginar a manhã seguinte, sempre resmungona, a inveja, meiga e lamurienta, “levei hoooras a adormecer”. Nunca foste assim, meu querido, desmaiavas como um bebé, mas – justiça te seja feita! –ainda foste mais rápido a sair, não me deste sequer tempo para me arrepender da expressão de fúria. Que deve ter sido assustadora, de acordo, a jarra ficou em mil pedaços e a porta ainda tem marcas, mesmo depois de pintada. E no entanto, juraria que esperei uma fracção de segundo, o estritamente necessário para te saber do outro lado, a salvo. Dir-se-ia a história da minha relação contigo: bater o mais possível sem te destruir, exigir a tua presença e certificar-me de que mantinha uma certa distância, para sobreviver sem me diluir em ti. A letra é muito bonita, Roger, e a resposta um “não” melancólico a todos os sarcasmos. Vi-te partir há meses e não consigo distinguir o Céu do Inferno ou um sorriso de um véu, mas – infelizmente! – ninguém conseguiu fazer-me trocar heróis por fantasmas ou as nossas longas guerras por qualquer forma de poder numa dessa jaulas em que os ingleses são felizes. “Sitting in an english garden…” dizia John. (Aqui entre nós não acho que tenha ido para melhor com aquela japonesa metida a intelectual.) Estou na mesma e sozinha. Pronto, já me decidi, agora tenho a certeza que não lerás a carta, nunca saberei qual de nós era mais orgulhoso. Amo-te. Pensei que tudo desaparecesse com o tempo, os copos, os amigos, até chegar a altura de novas paixões - boas, adequadas, com futuro. Tive medo de ser engolida, trocada por uma groupie qualquer, eu sei lá!, tive medo das mil e uma maneiras de ficar sem ti, a sós com a tua recordação, sem amanhãs. Queria paz, uma vida normal, filhos, alguém que os meus velhos não olhassem de lado quando os visitasse em Folkestone. Não fui a tempo, nunca teria ido a tempo, estes meses frente ao espelho acabaram por me fazer acreditar em baboseiras românticas: és a praga e o homem da minha vida. Roger, acertaste em cheio - quem me dera que estivesses aqui.
ROGER WATERS (II)
Roger,
Cá recebi o exemplar de Wish You Were Here e o recado que tiveste a amabilidade de transmitir ao porteiro. Conheço-te demasiado bem! “Não incomode a menina”, em ti, significa apenas que não tencionavas subir, o disco fará o trabalho sujo de um modo asséptico, nada de gritos ou silêncios intermináveis. Parabéns, foste maquiavélico. Posso tocá-lo, projectar o vídeo das últimas férias, parar a imagem quando brindas a câmara com um olhar de esguelha, imaginar-te pela sala experimentando rimas coxas. Essa tua arte de transformar remoques em ponto de partida para canções… David disse-me um dia que tinha a estranha impressão de viver comigo em palco, de tal forma és incapaz de compor à revelia do teu umbigo e das tuas obsessões. E eu fui – sou! – uma delas, não é verdade? Às vezes preferia ter sido algo de prosaico, namorada por exemplo; mas contigo ninguém vive como as pessoas da rua ao lado. Shine On é bonito, sempre amaste Syd bem mais do que admites, às vezes cheguei a pensar que te envergonhavas por não o ter acompanhado na sua viagem para a face escura da Lua. Algumas das letras, das músicas e dos arranjos pareciam flirts descarados com a loucura, era assim que o visitavas sem ir ao hospital. Compreendo-te - era horrível ver aqueles olhos risonhos e travessos vazios de qualquer expressão, buracos negros de noites que não respeitam manhãs. De uma saudade passaste para outra, não foi? As cartas têm vantagens, se te dissesse isto cara a cara acabava a frase a dialogar com as tuas costas, porta batida com estrondo, consegues abrir-te com milhões, nunca a dois. Nas montras das lojas, em quartos de jovens que te decifram de acordo com os seus próprios fantasmas, nesses concertos raros e curtos, os homens das luzes proibidos de iluminar as primeiras filas porque não te podes dar ao luxo de distinguir os contornos de uma só face. Assim, protegido pelo barulho à tua volta, por essa montanha de gente que tratas amavelmente para lhes pedir desculpa por não os notares, assim, Roger, constróis um diálogo satânico a uma só voz, sem me dares hipótese de resposta. A não ser que me pendure na tua campainha e peça para subir. Pobre de quem não tenha talento, fica reduzido às formas de comunicação das pessoas normais, tu compões-me um disco e eu escrevo-te uma carta em papel de bloco… Não precisavas de mo oferecer, eu tê-lo-ia comprado e percebido, Wish You Were Here foi escrito a pensar em mim e não em Syd ou nos outros, é demasiado agressivo e doloroso, cheio de sinais que apenas eu posso entender - cheio de nós. Também posso fazer batota, sabes?, basta não enviar a carta e a liberdade é total, o amor-próprio fica protegido. O amor próprio e o outro – solitário, sem adjectivo; teu. Não o confessaria se aqui estivesses, duvido que te permita lê-lo, mas acertaste em cheio, somos duas almas perdidas nadando em círculos, ano após ano, acabo sempre ao espelho do nosso quarto, remirando o medo. Como tremia, quando exigi que saísses! Uma esperançazinha de te ver recusar, depois viriam gritos e lágrimas, silêncios fatigados, o desejo renascendo dos escombros, não existem vencedores ou vencidos quando o primeiro gesto é órfão e os dedos se encontram a meio caminho. Sorrir no escuro da tua respiração tranquila e imaginar a manhã seguinte, sempre resmungona, a inveja, meiga e lamurienta, “levei hoooras a adormecer”. Nunca foste assim, meu querido, desmaiavas como um bebé, mas – justiça te seja feita! –ainda foste mais rápido a sair, não me deste sequer tempo para me arrepender da expressão de fúria. Que deve ter sido assustadora, de acordo, a jarra ficou em mil pedaços e a porta ainda tem marcas, mesmo depois de pintada. E no entanto, juraria que esperei uma fracção de segundo, o estritamente necessário para te saber do outro lado, a salvo. Dir-se-ia a história da minha relação contigo: bater o mais possível sem te destruir, exigir a tua presença e certificar-me de que mantinha uma certa distância, para sobreviver sem me diluir em ti. A letra é muito bonita, Roger, e a resposta um “não” melancólico a todos os sarcasmos. Vi-te partir há meses e não consigo distinguir o Céu do Inferno ou um sorriso de um véu, mas – infelizmente! – ninguém conseguiu fazer-me trocar heróis por fantasmas ou as nossas longas guerras por qualquer forma de poder numa dessa jaulas em que os ingleses são felizes. “Sitting in an english garden…” dizia John. (Aqui entre nós não acho que tenha ido para melhor com aquela japonesa metida a intelectual.) Estou na mesma e sozinha. Pronto, já me decidi, agora tenho a certeza que não lerás a carta, nunca saberei qual de nós era mais orgulhoso. Amo-te. Pensei que tudo desaparecesse com o tempo, os copos, os amigos, até chegar a altura de novas paixões - boas, adequadas, com futuro. Tive medo de ser engolida, trocada por uma groupie qualquer, eu sei lá!, tive medo das mil e uma maneiras de ficar sem ti, a sós com a tua recordação, sem amanhãs. Queria paz, uma vida normal, filhos, alguém que os meus velhos não olhassem de lado quando os visitasse em Folkestone. Não fui a tempo, nunca teria ido a tempo, estes meses frente ao espelho acabaram por me fazer acreditar em baboseiras românticas: és a praga e o homem da minha vida. Roger, acertaste em cheio - quem me dera que estivesses aqui.
terça-feira, novembro 07, 2006
Tributo a Roy Orbison.
NÃO VÁ O CORAÇÃO TECÊ-LAS…
Bruce,
Escrevo-te “just in case”. Vim dar um beijo à velhota – queixava-se de não me ver há muito tempo – e não resisti a uma tarde com os aeromodelos. Imagino o teu sorriso, coisas de putos, não é? Passei grande parte da vida em aviões e sem ponta de prazer, quando a porta se fechava o destino do velho Otis fazia-me chamar a hospedeira e emborcar rapidamente o primeiro whisky de uma longa série terapêutica. Ah, mas estes são diferentes, é fascinante premir um botão e vê-los revolutear, pássaros que brincam uma última vez antes de partir rumo ao sul. Quando aterram, gingam sobre a relva como marinheiros saudosos de mar, gosto de os trazer até mim e pegar-lhes devagar, acaricio-os como aos cachorrinhos da minha infância. A nossa cabeça é engraçada - aqui estou eu a falar do princípio e preocupado com o fim, a máquina lançou o primeiro aviso. Um senhor apertão no peito, como um torno, o médico rosnou qualquer coisa acerca de provável isquemia, deve estar por aí a chegar a ambulância para me levar ao hospital, conheces o paleio dos queridos doutores, “mera precaução”.
Talvez, mas não é o meu palpite. E seria injusto partir sem dizer obrigado, sei que nunca o fiz, embora tenhas tido a amabilidade de não tomar conhecimento oficial do facto. Durante muitos anos sobrevivi à custa de um orgulho feroz, agressivo, quanto mais baixo descia de mais alto olhava as pessoas, e nestes últimos tempos, quando quis soltar a ternura, descobri que era tarde - as palavras não saíam e eu refugiava-me em frases como “eles sabem” ou “entre nós essas coisas são desnecessárias”.Cortinas de fumo para esconder pontes levadiças que já não sabia baixar… A gratidão é um sentimento estranho, o rancor segue-o a curta distância, ansioso por liquidar a imagem dos credores, suspiro de alívio, “estamos quites”.
Enternece-me poder garantir que tal nunca se verificou no que te diz respeito. Quando me deste a mão no Hall of Fame e depois na Califórnia, a dúvida nem sequer surgiu - acreditei que o fazias por amizade. Talvez esse físico de camionista tenha ajudado, joga mal com hipocrisias, lembro-me de um dos roadies – não direi o nome – afirmar que a alcunha de Boss te calhava às mil maravilhas, só era necessário um sindicato para proteger os que contigo trabalham. Disse-o furioso, mas ao ver-me soltou uma gargalhada e admitiu que não lhe apetecia trabalhar para outro patrão. Sabes bem como esses dois espectáculos mudaram a minha vida, e não estou a falar só do aspecto material, foi bom ver o George de novo - sempre avaro de palavras, tímido, balançando-se à minha frente, hipnotizado pelas biqueiras dos sapatos, qualquer coisa acerca de uma ideia que tivera e da qual falara a Bob e Tom. Se eu estivesse interessado e não interpretasse mal o convite… Dos quatro Beatles, George foi sempre o meu favorito, costumava assistir à minha parte do espectáculo nos bastidores, noite após noite, antes de me crivar de perguntas sobre o sucesso, como lidar com ele, o penúltimo acorde daquela canção, a razão dos óculos escuros, que considerava uma descoberta genial da minha parte destinada a construir uma imagem misteriosa. Ele era um perfeccionista, o seu talento cheirava a suor, ia até ao fim das coisas com uma teimosia pacífica. Não me surpreendeu que depois de todo aquele barulho se virasse para dentro e partisse em busca de Deus. Quando O encontrar, os ensaios lá em cima serão mais obsessivos, com a perfeição promovida a mero ponto de partida.
Naquela noite, tu e eu tocando juntos, vinte anos da minha vida atravessaram a sala com o brilho desses laser que vocês tanto usam. Lembras-te da frase de Tyrone Power sobre James Dean? – “Teve sorte, morreu sem conhecer a decadência”. Cruel, mas verdadeiro. Bruce…, não podes imaginar! Os clubes cada vez mais rascas, camarins minúsculos que fediam, patrões arrogantes, nunca perdendo a oportunidade e lembrar que me estavam a dar uma chance, o velho Roy já não enchia salas como em 63 ou 64. O barulho distraído dos copos, risos, horríveis por nem sequer maldosos, a completa indiferença pelas canções novas que ninguém queria gravar. Gente de meia-idade exigindo Pretty Woman para recuperar o fascínio de bailes longínquos, cinturas estreitas, cabelos fartos, promessas ao fim da noite, “amanhã telefono…” Hotéis de estrelas raras e pouco brilhantes, anúncios intermitentes pela janela, muito álcool, toneladas de recordações.
Sabes, nunca fui um rocker na verdadeira acepção da palavra e os primeiros tempos foram difíceis, as baladas na gaveta e esta voz lamentosa a tentar desesperadamente imitar Elvis. Como lhe invejei os quadris saltitantes que a TV considerava obscenos! Em 1956 já estava arrependido de ter deixado a Universidade e a gravidez de Claudette não melhorou as coisas, a grande dúvida residia em que papel falharia mais miseravelmente, cantor ou pai de família. Valeu-me o Phil, fez de Claudette o lado B de All I Have To do Is Dream, durante quatro anos escrevi para outros o que a editora não considerava adequado para mim, os desígnios dos senhores do vinil são realmente imperscrutáveis. Quando em 1960 me permitiram gravar Only The Lonely, senti que o futuro dependia daquele single, a porta já estava entreaberta e o pontapé armado. Lixei-os. Naquele tempo havia espaço para baladas, Elvis perdera o fôlego e os velhos rockers eram respeitáveis mas não imperialistas. Foram quatro anos bons e não deixa de ser engraçado ter sido eu a apadrinhar na estrada os meus coveiros. Não fui apanhado de surpresa, a primeira vez que os vi, numa qualquer cidadezita inglesa, dei-me conta de que eram especiais e arrasariam tudo o resto, os putos tinham encontrado os sacerdotes de fúria e candura.
Os Beatles foram os mestres dos equilíbrios impossíveis entre duas gerações e- como eu! – muitos outros passaram a viver no arame. É verdade que nunca fui um tipo alegre, os óculos escuros pareciam-me filhos legítimos dos neurónios, mas há pessoas abençoadas que nos fazem explodir o riso e enternecer o olhar. Claudette aceitava a minha melancolia, mas nunca se rendeu a ela, metia-me a vida pela boca abaixo à força, não existem piores tiranos do que os amados. “Roy”, dizia ela, “a depressão pertence ao palco – e ainda bem! -, alimenta-nos a conta bancária, mas eu e os miúdos queremos fazer um piquenique com relva, sol e formigas, vais ter de dar o braço a torcer e admitir que somos felizes”. E éramos.
Quando teve o acidente tudo se desmoronou, a força vinha dela, costumava chamar ao declínio “esta fase mazita por que estamos a passar”. Em 68 os miúdos morreram no incêndio e o meu primeiro pensamento foi “se ela estivesse aqui nada disto teria acontecido”. Sabes tu, os filhos chegam em vantagem, são nossos, foram desejados – às vezes! -, parecem-se connosco na opinião das avós, toda a sociedade vela para que sintamos bem como seria desnaturado não os amar. São paixões inevitáveis, pequenos favoritismos não alteram a placidez do quadro familiar, até quando os punimos o fazemos para seu bem, o amor parental aspira à condição de instinto. Mas uma mulher… Tanta gente por aí, escolher e ser escolhido, razões bem pouco respeitáveis, um riso, o ajeitar do cabelo, silêncios consonantes, a descoberta surpresa de pequenos-almoços sem relógio, uma forma diversa de nos rezar o desejo ao ouvido. Um amor divinamente livre, casual, a necessitar de paciência mas sem nunca se esgotar nela, duas pessoas na corda bamba, recusando a rede dos laços sanguíneos, um amanhã de cada vez. Perdoa a palavra megalómana, mas foram dez anos de felicidade, quando olho à minha volta chego a pensar que perdi mulher e dois filhos e mesmo assim fui um privilegiado.
Também agora, dor e ambulância chegam juntas, e contudo esperaram o tempo necessário. Desculpa os gatafunhos, creio ter escrito em contagem decrescente, ainda bem que não sou canhoto, o braço esquerdo aderiu à revolta do peito. Se acontecer o que pressinto, agradece aos outros por mim, sobretudo pelo prazer imenso de nos reunirmos de novo em palco, holofotes pesados e sorrisos cúmplices, o pivete dos charros de Bob, a voz cambaleante de George. Tomem conta de vocês e não fiquem tristes, no Céu ou no Inferno Claudette espera, cabelo curto e Harley-Davidson impaciente, vai-me obrigar a desistir para sempre dos óculos escuros. E seja qual for a estrada, vou percorrê-la de cara ao vento e olhos nus, mesmo próximos de mais. Um do outro e dos dela…
Bruce,
Escrevo-te “just in case”. Vim dar um beijo à velhota – queixava-se de não me ver há muito tempo – e não resisti a uma tarde com os aeromodelos. Imagino o teu sorriso, coisas de putos, não é? Passei grande parte da vida em aviões e sem ponta de prazer, quando a porta se fechava o destino do velho Otis fazia-me chamar a hospedeira e emborcar rapidamente o primeiro whisky de uma longa série terapêutica. Ah, mas estes são diferentes, é fascinante premir um botão e vê-los revolutear, pássaros que brincam uma última vez antes de partir rumo ao sul. Quando aterram, gingam sobre a relva como marinheiros saudosos de mar, gosto de os trazer até mim e pegar-lhes devagar, acaricio-os como aos cachorrinhos da minha infância. A nossa cabeça é engraçada - aqui estou eu a falar do princípio e preocupado com o fim, a máquina lançou o primeiro aviso. Um senhor apertão no peito, como um torno, o médico rosnou qualquer coisa acerca de provável isquemia, deve estar por aí a chegar a ambulância para me levar ao hospital, conheces o paleio dos queridos doutores, “mera precaução”.
Talvez, mas não é o meu palpite. E seria injusto partir sem dizer obrigado, sei que nunca o fiz, embora tenhas tido a amabilidade de não tomar conhecimento oficial do facto. Durante muitos anos sobrevivi à custa de um orgulho feroz, agressivo, quanto mais baixo descia de mais alto olhava as pessoas, e nestes últimos tempos, quando quis soltar a ternura, descobri que era tarde - as palavras não saíam e eu refugiava-me em frases como “eles sabem” ou “entre nós essas coisas são desnecessárias”.Cortinas de fumo para esconder pontes levadiças que já não sabia baixar… A gratidão é um sentimento estranho, o rancor segue-o a curta distância, ansioso por liquidar a imagem dos credores, suspiro de alívio, “estamos quites”.
Enternece-me poder garantir que tal nunca se verificou no que te diz respeito. Quando me deste a mão no Hall of Fame e depois na Califórnia, a dúvida nem sequer surgiu - acreditei que o fazias por amizade. Talvez esse físico de camionista tenha ajudado, joga mal com hipocrisias, lembro-me de um dos roadies – não direi o nome – afirmar que a alcunha de Boss te calhava às mil maravilhas, só era necessário um sindicato para proteger os que contigo trabalham. Disse-o furioso, mas ao ver-me soltou uma gargalhada e admitiu que não lhe apetecia trabalhar para outro patrão. Sabes bem como esses dois espectáculos mudaram a minha vida, e não estou a falar só do aspecto material, foi bom ver o George de novo - sempre avaro de palavras, tímido, balançando-se à minha frente, hipnotizado pelas biqueiras dos sapatos, qualquer coisa acerca de uma ideia que tivera e da qual falara a Bob e Tom. Se eu estivesse interessado e não interpretasse mal o convite… Dos quatro Beatles, George foi sempre o meu favorito, costumava assistir à minha parte do espectáculo nos bastidores, noite após noite, antes de me crivar de perguntas sobre o sucesso, como lidar com ele, o penúltimo acorde daquela canção, a razão dos óculos escuros, que considerava uma descoberta genial da minha parte destinada a construir uma imagem misteriosa. Ele era um perfeccionista, o seu talento cheirava a suor, ia até ao fim das coisas com uma teimosia pacífica. Não me surpreendeu que depois de todo aquele barulho se virasse para dentro e partisse em busca de Deus. Quando O encontrar, os ensaios lá em cima serão mais obsessivos, com a perfeição promovida a mero ponto de partida.
Naquela noite, tu e eu tocando juntos, vinte anos da minha vida atravessaram a sala com o brilho desses laser que vocês tanto usam. Lembras-te da frase de Tyrone Power sobre James Dean? – “Teve sorte, morreu sem conhecer a decadência”. Cruel, mas verdadeiro. Bruce…, não podes imaginar! Os clubes cada vez mais rascas, camarins minúsculos que fediam, patrões arrogantes, nunca perdendo a oportunidade e lembrar que me estavam a dar uma chance, o velho Roy já não enchia salas como em 63 ou 64. O barulho distraído dos copos, risos, horríveis por nem sequer maldosos, a completa indiferença pelas canções novas que ninguém queria gravar. Gente de meia-idade exigindo Pretty Woman para recuperar o fascínio de bailes longínquos, cinturas estreitas, cabelos fartos, promessas ao fim da noite, “amanhã telefono…” Hotéis de estrelas raras e pouco brilhantes, anúncios intermitentes pela janela, muito álcool, toneladas de recordações.
Sabes, nunca fui um rocker na verdadeira acepção da palavra e os primeiros tempos foram difíceis, as baladas na gaveta e esta voz lamentosa a tentar desesperadamente imitar Elvis. Como lhe invejei os quadris saltitantes que a TV considerava obscenos! Em 1956 já estava arrependido de ter deixado a Universidade e a gravidez de Claudette não melhorou as coisas, a grande dúvida residia em que papel falharia mais miseravelmente, cantor ou pai de família. Valeu-me o Phil, fez de Claudette o lado B de All I Have To do Is Dream, durante quatro anos escrevi para outros o que a editora não considerava adequado para mim, os desígnios dos senhores do vinil são realmente imperscrutáveis. Quando em 1960 me permitiram gravar Only The Lonely, senti que o futuro dependia daquele single, a porta já estava entreaberta e o pontapé armado. Lixei-os. Naquele tempo havia espaço para baladas, Elvis perdera o fôlego e os velhos rockers eram respeitáveis mas não imperialistas. Foram quatro anos bons e não deixa de ser engraçado ter sido eu a apadrinhar na estrada os meus coveiros. Não fui apanhado de surpresa, a primeira vez que os vi, numa qualquer cidadezita inglesa, dei-me conta de que eram especiais e arrasariam tudo o resto, os putos tinham encontrado os sacerdotes de fúria e candura.
Os Beatles foram os mestres dos equilíbrios impossíveis entre duas gerações e- como eu! – muitos outros passaram a viver no arame. É verdade que nunca fui um tipo alegre, os óculos escuros pareciam-me filhos legítimos dos neurónios, mas há pessoas abençoadas que nos fazem explodir o riso e enternecer o olhar. Claudette aceitava a minha melancolia, mas nunca se rendeu a ela, metia-me a vida pela boca abaixo à força, não existem piores tiranos do que os amados. “Roy”, dizia ela, “a depressão pertence ao palco – e ainda bem! -, alimenta-nos a conta bancária, mas eu e os miúdos queremos fazer um piquenique com relva, sol e formigas, vais ter de dar o braço a torcer e admitir que somos felizes”. E éramos.
Quando teve o acidente tudo se desmoronou, a força vinha dela, costumava chamar ao declínio “esta fase mazita por que estamos a passar”. Em 68 os miúdos morreram no incêndio e o meu primeiro pensamento foi “se ela estivesse aqui nada disto teria acontecido”. Sabes tu, os filhos chegam em vantagem, são nossos, foram desejados – às vezes! -, parecem-se connosco na opinião das avós, toda a sociedade vela para que sintamos bem como seria desnaturado não os amar. São paixões inevitáveis, pequenos favoritismos não alteram a placidez do quadro familiar, até quando os punimos o fazemos para seu bem, o amor parental aspira à condição de instinto. Mas uma mulher… Tanta gente por aí, escolher e ser escolhido, razões bem pouco respeitáveis, um riso, o ajeitar do cabelo, silêncios consonantes, a descoberta surpresa de pequenos-almoços sem relógio, uma forma diversa de nos rezar o desejo ao ouvido. Um amor divinamente livre, casual, a necessitar de paciência mas sem nunca se esgotar nela, duas pessoas na corda bamba, recusando a rede dos laços sanguíneos, um amanhã de cada vez. Perdoa a palavra megalómana, mas foram dez anos de felicidade, quando olho à minha volta chego a pensar que perdi mulher e dois filhos e mesmo assim fui um privilegiado.
Também agora, dor e ambulância chegam juntas, e contudo esperaram o tempo necessário. Desculpa os gatafunhos, creio ter escrito em contagem decrescente, ainda bem que não sou canhoto, o braço esquerdo aderiu à revolta do peito. Se acontecer o que pressinto, agradece aos outros por mim, sobretudo pelo prazer imenso de nos reunirmos de novo em palco, holofotes pesados e sorrisos cúmplices, o pivete dos charros de Bob, a voz cambaleante de George. Tomem conta de vocês e não fiquem tristes, no Céu ou no Inferno Claudette espera, cabelo curto e Harley-Davidson impaciente, vai-me obrigar a desistir para sempre dos óculos escuros. E seja qual for a estrada, vou percorrê-la de cara ao vento e olhos nus, mesmo próximos de mais. Um do outro e dos dela…
Olha para o que eu digo...
Reverendo assume «imoralidade sexual»
2006/11/05 22:17
Era contra gays, mas admitiu ter relações com prostituto
O presidente da Associação de Igrejas Evangélicas dos Estados Unidos, Ted Haggard, um destacado opositor dos casamentos homossexuais, declarou-se hoje culpado de «imoralidade sexual», após ter sido acusado de manter relações com um prostituto, noticia a Lusa.
Numa carta à sua congregação da Igreja da Nova Vida em Colorado Srpings (Colorado), Haggard assegurou que há muito tempo que luta contra essa «parte repulsiva» da sua vida. «Sou culpado de imoralidade sexual. Sou um mentiroso e um embusteiro. Há uma parte da minha vida que é muito obscura e repulsiva, e durante toda a minha vida adulta combati contra ela», referiu o reverendo.
Haggard demitiu-se sábado de líder da sua Igreja e da Associação Nacional de Evangélicos - que agrupa 30 milhões de fiéis - depois de uma investigação interna o considerar culpado de «conduta sexual imoral».
O prostituto masculino Mike Jones acusou esta semana Haggard de lhe ter pago durante três anos para manter relações sexuais. Jones assegurou que se sentiu traído depois de inteirar-se que a pessoa que ele conhecia como «Art» era, na realidade, um destacado pastor evangélico que clamava contra o matrimónio homossexual nas suas aparições na televisão.
O reverendo negou as acusações num primeiro momento, tendo admitido depois ter pago a Jones para lhe fornecer metanfetaminas e uma massagem num hotel de Denver (Colorado). Na carta à sua congregação, Haggard declara-se envergonhado da sua conduta e pede desculpa aos fiéis, exortando-os a perdoarem também quem o acusou.
Haggard, 50 anos, casado e pai de cinco filhos, e uma das pessoas mais destacadas do movimento evangelista nos Estados Unidos, foi incluído pela revista Time na sua lista de 25 líderes evangélicos mais influentes tendo assessorado a Casa Branca.
2006/11/05 22:17
Era contra gays, mas admitiu ter relações com prostituto
O presidente da Associação de Igrejas Evangélicas dos Estados Unidos, Ted Haggard, um destacado opositor dos casamentos homossexuais, declarou-se hoje culpado de «imoralidade sexual», após ter sido acusado de manter relações com um prostituto, noticia a Lusa.
Numa carta à sua congregação da Igreja da Nova Vida em Colorado Srpings (Colorado), Haggard assegurou que há muito tempo que luta contra essa «parte repulsiva» da sua vida. «Sou culpado de imoralidade sexual. Sou um mentiroso e um embusteiro. Há uma parte da minha vida que é muito obscura e repulsiva, e durante toda a minha vida adulta combati contra ela», referiu o reverendo.
Haggard demitiu-se sábado de líder da sua Igreja e da Associação Nacional de Evangélicos - que agrupa 30 milhões de fiéis - depois de uma investigação interna o considerar culpado de «conduta sexual imoral».
O prostituto masculino Mike Jones acusou esta semana Haggard de lhe ter pago durante três anos para manter relações sexuais. Jones assegurou que se sentiu traído depois de inteirar-se que a pessoa que ele conhecia como «Art» era, na realidade, um destacado pastor evangélico que clamava contra o matrimónio homossexual nas suas aparições na televisão.
O reverendo negou as acusações num primeiro momento, tendo admitido depois ter pago a Jones para lhe fornecer metanfetaminas e uma massagem num hotel de Denver (Colorado). Na carta à sua congregação, Haggard declara-se envergonhado da sua conduta e pede desculpa aos fiéis, exortando-os a perdoarem também quem o acusou.
Haggard, 50 anos, casado e pai de cinco filhos, e uma das pessoas mais destacadas do movimento evangelista nos Estados Unidos, foi incluído pela revista Time na sua lista de 25 líderes evangélicos mais influentes tendo assessorado a Casa Branca.
domingo, novembro 05, 2006
Em homenagem à sua Teresa, este fds de visita a Cantelães.
O homem do silêncio doce
E de repente aparece/um silêncio entretecido/em que já nada apetece./Em que tudo tem sentido. (Pedro Tamen).
O Zé Gabriel morreu.
Em 1989, o Aurélio Gomes desafiou-me para um programa na Rádio Nova. Nasceu assim O Sexo dos Anjos, projecto para três meses que durou oito anos. O diálogo, inicialmente direccionado para a educação sexual, cedo descambou – o Aurélio perguntou-me que livro trazia debaixo do braço, eu respondi A Insustentável Leveza do Ser e nunca mais parámos de falar sobre tudo. O João Gobern disse-o melhor do que ninguém – tratava-se de uma clara erotização da palavra.
E no entanto esse delírio verbal de trapezistas amadores jogava pelo seguro; bem ou mal, voávamos a coberto da rede que o silêncio do Zé Gabriel estendia. Aquele homem doce jamais procurou o crescente protagonismo que nós e os ouvintes lhe impusemos. Dedicava-se ao que amava apaixonadamente – o som. Aguentando com bom humor as nossas provocações, raramente acedendo a fazer um comentário no ar, aturando com estoicismo a minha incapacidade para estar quieto à frente de um microfone. E sendo ele próprio nos intervalos.
Aos poucos, reparei que lhe buscava o apoio do polegar virado para cima quando emitia uma opinião controversa, dava comigo a pedir-lhe conselho sobre as cartas a abordar, ouvia-me sistematicamente perguntar “e tu que achas?”. Ele achava muito e bem, mas sobretudo de um modo carinhoso. Lembro-me de dia triste e eu com canção do Sérgio Godinho debaixo do braço, “O que há-de ser de nós?”. À saída, abraçou-me sem perguntas e disse: “bela música. Vai ser o hino do programa” (tinha razão, acabámo-lo ao som dela). Recordo o seu prognóstico risonho – “nunca vá a África, doutor, olhe que não volta!”. Era um elogio, porque ele amava a sua Angola, as distâncias oferecidas aos olhos, o tempo recusando a pressa estéril, o erotismo da dança que, paciente, me ensinava. Enquanto o Aurélio, perdido de riso, dizia aos ouvintes que cenas menos próprias se passavam no estúdio!
Tornámo-nos amigos de infância que se conheceram já adultos. Atrasos que acontecem... Também as mulheres podem chegar atrasadas e ainda a tempo, a rapariguinha que um dia pediu para assistir à gravação não foi de modas – encheu-lhe o silêncio com as palavras de amor que nele pressentia. E eu acabei todo enfarpelado e padrinho de casamento!
Mas a doença chegara. E as perguntas dos ouvintes, que rapidamente se aperceberam de que lhes mentíamos a eles na tentativa de nos enganarmos também. Revejo o Zé no corredor do Hospital de Santo António, soro a reboque, não desejava receber-nos na cama. Orgulhoso, nunca lhe ouvi um queixume, só dizia “eu volto”. Com efeito. Para ser soterrado pelas cartas de boas vindas chegadas de todo o país. Que ele juntou às outras, a salvo da minha distracção, argumentando que eu deveria escrever a partir delas. Entretanto o programa acabou, o Aurélio procurara outros desafios e a Nova decidiu – bem! - não o substituir. Cerca de dois anos depois, após avanços e recuos vários, fui convidado a regressar. Tivemos uma longa conversa. Disse-lhe que podia estar enganado, mas achava que a minha presença não era pacífica para todos, previ o fim do programa na primeira esquina. E ele respondeu: “não lhe apetece fazer rádio comigo? Enquanto durar é bom”. Eu acertei, mas ele tinha razão - cada minuto foi uma festa, sob o olhar da Marta Santos, indecisa sobre a idade mental daqueles cinquentões. Quando, por sua vez, ela voou para outras paragens, foi-nos dito que o programa seria suspenso até à elaboração da nova grelha. Da qual, obviamente!, faríamos parte. O telefone jamais tocou. E devia, ao menos por simples educação, “desculpem lá, mas...”. Disse-o cara a cara a quem de direito, sem rancor: o Zé, ainda por cima a caminho do fim, não merecia tal desfeita.
Nos últimos tempos vimo-nos pouco. Se eu protestava, respondia sempre o mesmo: iríamos jantar quando melhorasse. Contrariado, aceitei-lhe religiosamente o pudor. Levou-o ao extremo, morrendo comigo em férias. A notícia chegou e sentei-me numa praça de Granada; pensando, egoísta, que já perdi dois amigos íntimos e é muito duro viver sem eles. Mas ao Zé, se houver um Juízo Final, tenho a certeza de revê-lo. Quando o anjo de serviço se dirigir ao microfone para anunciar os veredictos, fatalmente perguntará a alguém – “fazemos ensaio de som?”. E eu só precisarei de descobrir a nuvem de que se levantará um polegar, seguramente embalado por trauteio de música africana!
E de repente aparece/um silêncio entretecido/em que já nada apetece./Em que tudo tem sentido. (Pedro Tamen).
O Zé Gabriel morreu.
Em 1989, o Aurélio Gomes desafiou-me para um programa na Rádio Nova. Nasceu assim O Sexo dos Anjos, projecto para três meses que durou oito anos. O diálogo, inicialmente direccionado para a educação sexual, cedo descambou – o Aurélio perguntou-me que livro trazia debaixo do braço, eu respondi A Insustentável Leveza do Ser e nunca mais parámos de falar sobre tudo. O João Gobern disse-o melhor do que ninguém – tratava-se de uma clara erotização da palavra.
E no entanto esse delírio verbal de trapezistas amadores jogava pelo seguro; bem ou mal, voávamos a coberto da rede que o silêncio do Zé Gabriel estendia. Aquele homem doce jamais procurou o crescente protagonismo que nós e os ouvintes lhe impusemos. Dedicava-se ao que amava apaixonadamente – o som. Aguentando com bom humor as nossas provocações, raramente acedendo a fazer um comentário no ar, aturando com estoicismo a minha incapacidade para estar quieto à frente de um microfone. E sendo ele próprio nos intervalos.
Aos poucos, reparei que lhe buscava o apoio do polegar virado para cima quando emitia uma opinião controversa, dava comigo a pedir-lhe conselho sobre as cartas a abordar, ouvia-me sistematicamente perguntar “e tu que achas?”. Ele achava muito e bem, mas sobretudo de um modo carinhoso. Lembro-me de dia triste e eu com canção do Sérgio Godinho debaixo do braço, “O que há-de ser de nós?”. À saída, abraçou-me sem perguntas e disse: “bela música. Vai ser o hino do programa” (tinha razão, acabámo-lo ao som dela). Recordo o seu prognóstico risonho – “nunca vá a África, doutor, olhe que não volta!”. Era um elogio, porque ele amava a sua Angola, as distâncias oferecidas aos olhos, o tempo recusando a pressa estéril, o erotismo da dança que, paciente, me ensinava. Enquanto o Aurélio, perdido de riso, dizia aos ouvintes que cenas menos próprias se passavam no estúdio!
Tornámo-nos amigos de infância que se conheceram já adultos. Atrasos que acontecem... Também as mulheres podem chegar atrasadas e ainda a tempo, a rapariguinha que um dia pediu para assistir à gravação não foi de modas – encheu-lhe o silêncio com as palavras de amor que nele pressentia. E eu acabei todo enfarpelado e padrinho de casamento!
Mas a doença chegara. E as perguntas dos ouvintes, que rapidamente se aperceberam de que lhes mentíamos a eles na tentativa de nos enganarmos também. Revejo o Zé no corredor do Hospital de Santo António, soro a reboque, não desejava receber-nos na cama. Orgulhoso, nunca lhe ouvi um queixume, só dizia “eu volto”. Com efeito. Para ser soterrado pelas cartas de boas vindas chegadas de todo o país. Que ele juntou às outras, a salvo da minha distracção, argumentando que eu deveria escrever a partir delas. Entretanto o programa acabou, o Aurélio procurara outros desafios e a Nova decidiu – bem! - não o substituir. Cerca de dois anos depois, após avanços e recuos vários, fui convidado a regressar. Tivemos uma longa conversa. Disse-lhe que podia estar enganado, mas achava que a minha presença não era pacífica para todos, previ o fim do programa na primeira esquina. E ele respondeu: “não lhe apetece fazer rádio comigo? Enquanto durar é bom”. Eu acertei, mas ele tinha razão - cada minuto foi uma festa, sob o olhar da Marta Santos, indecisa sobre a idade mental daqueles cinquentões. Quando, por sua vez, ela voou para outras paragens, foi-nos dito que o programa seria suspenso até à elaboração da nova grelha. Da qual, obviamente!, faríamos parte. O telefone jamais tocou. E devia, ao menos por simples educação, “desculpem lá, mas...”. Disse-o cara a cara a quem de direito, sem rancor: o Zé, ainda por cima a caminho do fim, não merecia tal desfeita.
Nos últimos tempos vimo-nos pouco. Se eu protestava, respondia sempre o mesmo: iríamos jantar quando melhorasse. Contrariado, aceitei-lhe religiosamente o pudor. Levou-o ao extremo, morrendo comigo em férias. A notícia chegou e sentei-me numa praça de Granada; pensando, egoísta, que já perdi dois amigos íntimos e é muito duro viver sem eles. Mas ao Zé, se houver um Juízo Final, tenho a certeza de revê-lo. Quando o anjo de serviço se dirigir ao microfone para anunciar os veredictos, fatalmente perguntará a alguém – “fazemos ensaio de som?”. E eu só precisarei de descobrir a nuvem de que se levantará um polegar, seguramente embalado por trauteio de música africana!
sexta-feira, novembro 03, 2006
De regresso à vida real:(.
"Há doentes que são amarrados e dopados em lares e hospitais"Alexandra Inácio, Bruno Simões Castanheira
A demência é assustadora mesmo para os médicos.
Maria do Rosário Reis, presidente da Associação Portuguesa de Familiares e Amigos de Doentes com Alzheimer (APFADA), não tem dúvidas em Portugal são "raríssimos" os técnicos especializados e até mesmo médicos sensibilizados para o tratamento de doentes com Alzheimer. A maioria dos lares, denuncia, não recebe este tipo de pacientes e os que o fazem tratam-nos mal. Hoje faz cem anos que a doença foi descrita pela primeira vez pelo neuropatologista alemão Alois Alzheimer. Em Portugal, apesar de não existirem estatísticas, as extrapolações apontam para mais de 70 mil pacientes com este mal. No Mundo são mais de 25 milhões."Há doentes que são amarrados às camas em lares e hospitais" públicos, denunciou ao JN. Erika Marcelino, uma das psicólogas da APFADA, acrescentando que a falta de preparação do pessoal técnico conduz muitas das vezes ao "excesso de medicação". "A forma mais fácil de controlarem os doentes é entupi-los de medicamentos", afirma.Uma maior comparticipação nos medicamentos ou medidas a pensar nos cuidadores, como a redução de horário, são alterações legislativas pelas quais há muito luta. Maria do Rosário contentava-se, no entanto, se os hospitais permitissem a entrada de acompanhantes com estes doentes. É que alguns, afirma, já chegaram a abandonar as unidades ficando perdidos depois. "O meu pai é capaz de gastar milhares de euros por mês para dar à minha mãe qualidade de vida", confessa Maria do Rosário. Os custos com a doença são enormes. No primeiro semestre de 2005, o Serviço Nacional de Saúde gastou mais de 5,6 milhões de euros em fármacos com indicação para Alzheimer. Em 2004 gastou 9,5. Os doentes pagaram quase onze milhões e mais de 18,6 nos mesmos períodos de acordo com dados do Infarmed.As comparticipações dos medicamentos rondam os 40% e as receitas têm de ser prescritas por neurologistas ou psiquiatras, o que é mais um entrave, alega Maria Rosário. Há poucos especialistas nessas áreas. "Um paciente que vá a um médico privado gasta na consulta o que poupa na comparticipação", afirma. Depois há imensos produtos essenciais que não são comparticipados, como as fraldas ou cremes."Só em medicamentos e fraldas são mais de 300 euros por mês. É sempre a somar". O paciente pode ainda fazer sessões de fisioterapia ou aulas de natação e se frequentar um dos poucos centro de dia existentes no país as despesas aumentam substancialmente (ler texto rodapé). Há ainda o sistema de ajudantes familiares. Formadas nos cursos da associação são consideradas cuidadoras profissionais. E numa fase mais adiantada da doença são necessárias três dessas técnicas para garantirem a vigilância dos pacientes de dia, à noite e aos fins-de-semana.
P.S. Recém-chegado da Mindinha, pasmo em face do luar de Cantelães. É como se Deus me tentasse a acreditar Nele.
A demência é assustadora mesmo para os médicos.
Maria do Rosário Reis, presidente da Associação Portuguesa de Familiares e Amigos de Doentes com Alzheimer (APFADA), não tem dúvidas em Portugal são "raríssimos" os técnicos especializados e até mesmo médicos sensibilizados para o tratamento de doentes com Alzheimer. A maioria dos lares, denuncia, não recebe este tipo de pacientes e os que o fazem tratam-nos mal. Hoje faz cem anos que a doença foi descrita pela primeira vez pelo neuropatologista alemão Alois Alzheimer. Em Portugal, apesar de não existirem estatísticas, as extrapolações apontam para mais de 70 mil pacientes com este mal. No Mundo são mais de 25 milhões."Há doentes que são amarrados às camas em lares e hospitais" públicos, denunciou ao JN. Erika Marcelino, uma das psicólogas da APFADA, acrescentando que a falta de preparação do pessoal técnico conduz muitas das vezes ao "excesso de medicação". "A forma mais fácil de controlarem os doentes é entupi-los de medicamentos", afirma.Uma maior comparticipação nos medicamentos ou medidas a pensar nos cuidadores, como a redução de horário, são alterações legislativas pelas quais há muito luta. Maria do Rosário contentava-se, no entanto, se os hospitais permitissem a entrada de acompanhantes com estes doentes. É que alguns, afirma, já chegaram a abandonar as unidades ficando perdidos depois. "O meu pai é capaz de gastar milhares de euros por mês para dar à minha mãe qualidade de vida", confessa Maria do Rosário. Os custos com a doença são enormes. No primeiro semestre de 2005, o Serviço Nacional de Saúde gastou mais de 5,6 milhões de euros em fármacos com indicação para Alzheimer. Em 2004 gastou 9,5. Os doentes pagaram quase onze milhões e mais de 18,6 nos mesmos períodos de acordo com dados do Infarmed.As comparticipações dos medicamentos rondam os 40% e as receitas têm de ser prescritas por neurologistas ou psiquiatras, o que é mais um entrave, alega Maria Rosário. Há poucos especialistas nessas áreas. "Um paciente que vá a um médico privado gasta na consulta o que poupa na comparticipação", afirma. Depois há imensos produtos essenciais que não são comparticipados, como as fraldas ou cremes."Só em medicamentos e fraldas são mais de 300 euros por mês. É sempre a somar". O paciente pode ainda fazer sessões de fisioterapia ou aulas de natação e se frequentar um dos poucos centro de dia existentes no país as despesas aumentam substancialmente (ler texto rodapé). Há ainda o sistema de ajudantes familiares. Formadas nos cursos da associação são consideradas cuidadoras profissionais. E numa fase mais adiantada da doença são necessárias três dessas técnicas para garantirem a vigilância dos pacientes de dia, à noite e aos fins-de-semana.
P.S. Recém-chegado da Mindinha, pasmo em face do luar de Cantelães. É como se Deus me tentasse a acreditar Nele.
quinta-feira, novembro 02, 2006
Comunicado.
A Comissão Disciplinar faz saber o seguinte:
1 - A falta em causa é grave, ignorar o nosso amado líder pôe em causa os fundamentos da causa murcónica.
2 - Assim, e por deliberação unânime, a ré será obrigada a contentar-se com pão e água no próximo jantar.
3 - Mais lhe serão fornecidos todos os comentários feitos pelo Noise desde o início do blog, os quais deverá recitar sobre um fundo de música sacra tocada pelos Fading Commission.
4 - E AINDA... - caber-lhe-á abrir e fechar as portas do Murcon todos os dias, mesmo que tais momentos sucedam durante a noite ou o funcionamento seja de 24 sobre 24 horas.
Ponto único - Não acatar qualquer dos pontos anteriores implicará morte por esquartejamento, maçã na boca, batatinhas assadas à volta e "posição central" no próximo repasto murcónico. Os restos serão distribuídos pelos convivas em tupperwares, de modo a poderem levar para casa e alimentar os bichanos.
Proceda-se.
"Ó SOUSA, comunique a sentença à acusada no seu covil de Gaya City".
1 - A falta em causa é grave, ignorar o nosso amado líder pôe em causa os fundamentos da causa murcónica.
2 - Assim, e por deliberação unânime, a ré será obrigada a contentar-se com pão e água no próximo jantar.
3 - Mais lhe serão fornecidos todos os comentários feitos pelo Noise desde o início do blog, os quais deverá recitar sobre um fundo de música sacra tocada pelos Fading Commission.
4 - E AINDA... - caber-lhe-á abrir e fechar as portas do Murcon todos os dias, mesmo que tais momentos sucedam durante a noite ou o funcionamento seja de 24 sobre 24 horas.
Ponto único - Não acatar qualquer dos pontos anteriores implicará morte por esquartejamento, maçã na boca, batatinhas assadas à volta e "posição central" no próximo repasto murcónico. Os restos serão distribuídos pelos convivas em tupperwares, de modo a poderem levar para casa e alimentar os bichanos.
Proceda-se.
"Ó SOUSA, comunique a sentença à acusada no seu covil de Gaya City".
quarta-feira, novembro 01, 2006
Chico.
Maria,
Fui ao Chico. Lera que agora se sente confortável em palco. Talvez, mas preferia-o quando tinha de emborcar whisky antes de enfrentar as pessoas para lá do biombo de um projector. Nesses tempos achava-o menos hirto, a timidez invadia-o todo e não apenas o sorriso de menino que conserva. Esquece, não é importante. O público adora-o, já o tinha no coração desde o primeiro disco, o primeiro cartaz nas paredes do Porto, o primeiro acorde, a festa no Coliseu era para ele, não por causa dele. Conheces-me, paguei para ver. E as cartas iniciais não me deixaram optimista, foi preciso ouvi-lo ciciar "Te Perdoo..." para sentir o arrepio que o homem sempre me provocou. Só voltei a tremer no Bye-bye Brasil, mas o cérebro continuou ao volante, quase imperturbável. E de repente, nos encores, desaguou em Tanto Mar... Um soluço inesperado. A necessidade absoluta de saber - mais alguém notava a diferença? Fixei o olhar na sua parceira responsável pelos sintetizadores; órgão; whatever! Ao longo do concerto exibira uma compostura doce, entre a admiração por ele e a solidariedade com a música brasileira em geral. Agora estava diferente. Todo o corpo ensaiando um balanço que o projectava, ondulante, para fora de si mesmo. Ela também preferia as nossas canções, amor! Abri garganta e olhos ao soluço com alívio. Mesmo a tempo, o maroto fez pontaria ao meu coração e disparou - "Agora eu era o herói/e o meu cavalo só falava inglês..." Desfiz-me encostado à parede.
Maria, Sexta chegou mais um avião à cunha de Londres. Desesperadoramente vazio, minha querida. Não aguento, vou mudar de táctica para te convencer a demandares a Inbicta. Sabes como? Liga o telemóvel. Assinarei o próximo sms com nome equestre - Silver, como nos filmes de cow-boys da minha juventude; Blue Diamond, the third, como os pobres bichos que, além de correr, aturam os emproados de Ascot;Mister Ed, como o cavalo falante da série televisiva da minha infância. Acrescentarei bbbrrr e hhiiiiii para dar cor e som locais. E o texto rezará - como eu... - um simples "I love you, will you please come home?"
Por favor, antes de responderes ouve o Chico, recorda-nos e ao Chico, pensa nas mulheres longínquas e esquivas que cantou - Bárbara, Ana de Amsterdam, Carolina - e não faças como elas; vem.
Com adoçante e com afecto,
Júlio.
Fui ao Chico. Lera que agora se sente confortável em palco. Talvez, mas preferia-o quando tinha de emborcar whisky antes de enfrentar as pessoas para lá do biombo de um projector. Nesses tempos achava-o menos hirto, a timidez invadia-o todo e não apenas o sorriso de menino que conserva. Esquece, não é importante. O público adora-o, já o tinha no coração desde o primeiro disco, o primeiro cartaz nas paredes do Porto, o primeiro acorde, a festa no Coliseu era para ele, não por causa dele. Conheces-me, paguei para ver. E as cartas iniciais não me deixaram optimista, foi preciso ouvi-lo ciciar "Te Perdoo..." para sentir o arrepio que o homem sempre me provocou. Só voltei a tremer no Bye-bye Brasil, mas o cérebro continuou ao volante, quase imperturbável. E de repente, nos encores, desaguou em Tanto Mar... Um soluço inesperado. A necessidade absoluta de saber - mais alguém notava a diferença? Fixei o olhar na sua parceira responsável pelos sintetizadores; órgão; whatever! Ao longo do concerto exibira uma compostura doce, entre a admiração por ele e a solidariedade com a música brasileira em geral. Agora estava diferente. Todo o corpo ensaiando um balanço que o projectava, ondulante, para fora de si mesmo. Ela também preferia as nossas canções, amor! Abri garganta e olhos ao soluço com alívio. Mesmo a tempo, o maroto fez pontaria ao meu coração e disparou - "Agora eu era o herói/e o meu cavalo só falava inglês..." Desfiz-me encostado à parede.
Maria, Sexta chegou mais um avião à cunha de Londres. Desesperadoramente vazio, minha querida. Não aguento, vou mudar de táctica para te convencer a demandares a Inbicta. Sabes como? Liga o telemóvel. Assinarei o próximo sms com nome equestre - Silver, como nos filmes de cow-boys da minha juventude; Blue Diamond, the third, como os pobres bichos que, além de correr, aturam os emproados de Ascot;Mister Ed, como o cavalo falante da série televisiva da minha infância. Acrescentarei bbbrrr e hhiiiiii para dar cor e som locais. E o texto rezará - como eu... - um simples "I love you, will you please come home?"
Por favor, antes de responderes ouve o Chico, recorda-nos e ao Chico, pensa nas mulheres longínquas e esquivas que cantou - Bárbara, Ana de Amsterdam, Carolina - e não faças como elas; vem.
Com adoçante e com afecto,
Júlio.
Ponto da situação.
Maralhal,
O porta-voz da Comissão Disciplinar informa-me que as vossas opiniões estão a ser compiladas, de modo a poderem vir a desempenhar o seu papel no processo de decisão. A reunião da Comissão continua e não se prevê hora para o anúncio das medidas disciplinares, sobretudo depois de terem sido vistas a entrar travessas de scones, croissants, chá e caipirinhas:).
O porta-voz da Comissão Disciplinar informa-me que as vossas opiniões estão a ser compiladas, de modo a poderem vir a desempenhar o seu papel no processo de decisão. A reunião da Comissão continua e não se prevê hora para o anúncio das medidas disciplinares, sobretudo depois de terem sido vistas a entrar travessas de scones, croissants, chá e caipirinhas:).
Adivinha.
Quem foi que esteve no jantar do Murcon, saiu do espectáculo do Chico e passou por mim SEM ME CUMPRIMENTAR???
A Comissão Disciplinar Murcónica decidirá em breve a punição exemplar a ser aplicada:).
A Comissão Disciplinar Murcónica decidirá em breve a punição exemplar a ser aplicada:).
terça-feira, outubro 31, 2006
Em que equipa jogava ele?
Sporting: Paulo Bento cita Nietzsche
[ 2006/10/31 14:19 ] Redacção MaisFutebol
Paulo Bento: «O que não nos mata torna-nos mais fortes»
Na conferência de segunda-feira, em Munique, Paulo Bento utilizou a frase «o que não nos mata, deixa-nos mais fortes» para sintetizar o que sentia o Sporting depois do empate em Aveiro e antes do jogo desta terça-feira, frente ao Bayern, para a Liga dos Campeões.
Na altura, Paulo Bento atribuiu a frase a um jogador. É possível que a tenha ouvido, ou lido, de alguém ligado ao futebol. Mas é aceite que o autor de «o que não me mata, deixa-me mais forte» é Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão do século XIX.
Seja como for, a ideia é boa e logo à tarde o Sporting terá oportunidade de provar se, neste caso, é assim mesmo.
[ 2006/10/31 14:19 ] Redacção MaisFutebol
Paulo Bento: «O que não nos mata torna-nos mais fortes»
Na conferência de segunda-feira, em Munique, Paulo Bento utilizou a frase «o que não nos mata, deixa-nos mais fortes» para sintetizar o que sentia o Sporting depois do empate em Aveiro e antes do jogo desta terça-feira, frente ao Bayern, para a Liga dos Campeões.
Na altura, Paulo Bento atribuiu a frase a um jogador. É possível que a tenha ouvido, ou lido, de alguém ligado ao futebol. Mas é aceite que o autor de «o que não me mata, deixa-me mais forte» é Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão do século XIX.
Seja como for, a ideia é boa e logo à tarde o Sporting terá oportunidade de provar se, neste caso, é assim mesmo.
segunda-feira, outubro 30, 2006
O prejudicado por não ser arquitecto.
Às vezes penso que sou injusto com o João. É verdade que os Fading e os Azeitonas constam do Murcon, mas quantas referências aqui fiz à ternura subjacente ao covil de Cantelães, made in Guilherme? Milhentas! E mais do que justas... O caçula é engenheiro, em vias de se tornar psicólogo. E músico. (Não nas horas vagas - nas preferidas:).) E por isso os presentes dele são outros, como estas gravações que deixaram o seu velho enternecido. Beatles forever! Na guitarra do João pelo meu aniversário:).
domingo, outubro 29, 2006
O Senhor João já me disse que gostou da malta:).
Aos que estiveram no jantar, representando todos os que não puderam vir - na vossa companhia é muito mais fácil ver o Benfica perder:). Obrigado.
Lobices,
Seu maroto!, você sabe muito bem que me piro sempre cedo.
Lobices,
Seu maroto!, você sabe muito bem que me piro sempre cedo.
sábado, outubro 28, 2006
Deus+Helton+Fernando Santos+ Defesa - 3 - Benfica -2.
Eu explico:
1 - Um golo de ressalto e outro no poste a ressaltar para dentro.
2 - Duas enormes defesas de Helton na primeira parte.
3 - Uma equipa que não lembra ao Diabo nos primeiros quarenta e cinco minutos, com Nuno Gomes à deriva no meio-campo (?).
4 - A balda do costume nos descontos.
5 - Obrigado à equipa pela segunda parte.
6 - Parabéns ao Presidente por assumir o erro de deixar a equipa sozinha no Dragão.
7 - Uma palavra de espanto pelo amadorismo que deixou os benfiquistas sem bilhetes.
1 - Um golo de ressalto e outro no poste a ressaltar para dentro.
2 - Duas enormes defesas de Helton na primeira parte.
3 - Uma equipa que não lembra ao Diabo nos primeiros quarenta e cinco minutos, com Nuno Gomes à deriva no meio-campo (?).
4 - A balda do costume nos descontos.
5 - Obrigado à equipa pela segunda parte.
6 - Parabéns ao Presidente por assumir o erro de deixar a equipa sozinha no Dragão.
7 - Uma palavra de espanto pelo amadorismo que deixou os benfiquistas sem bilhetes.
sexta-feira, outubro 27, 2006
Colisão.
Maria,
Hoje, dois javardos inconscientes entraram pela traseira do táxi onde eu seguia. A acelerar, Maria, a acelerar! A porra da fila estava parada e eles enfiaram-nos uma trancada que me transformou a cabeça num relógio de pêndulo. Saíram do carro enfastiados, nem sequer perguntaram a nenhum de nós se estávamos bem, debruçaram-se com ternura egoísta sobre a frente do carro deles. "Temos a declaração amigável", disseram. E isso apaga tudo, Maria? Assinar um papel e perder um prémio de seguro permite conduzir (?) assim? Fiquei zonzo. E o motorista preocupou-se, "está bem, doutor?". Chamou um colega, não queria aceitar dinheiro pela corrida interrompida, meti-lhe o dinheiro na mão. O outro chegou e não se fez rogado - "não vai à Urgência? Olhe o Seguro, já vi porradas dessas darem para o torto, os gajos ficam a rir-se, vá por mim..." E eu fui. A jovem colega disse o óbvio - "vou chamar um ortopedista". Depois abriu um sorriso e declarou-se minha aluna no Abel Salazar. Pedi-lhe desculpa por não recordar face e nome e ela soltou riso largo, como poderia eu recordar tantas faces no escuro dos anfiteatros? É verdade, Maria, ensino há trinta e quatro anos. Cada vez mais tropeço em gente que me trata com a deferência que se reserva a um velho conhecido. E o "conhecido" leva a palma ao "velho", instalo-me nos colos deles com gratidão.
Maria, estamos no fim de Outubro e o anfiteatro já se veste de ausências nas minhas aulas. Mas os que ficam sorriem, enlevados, quando lhes recito Ramos Rosa ou Amalia Bautista. Como tu, quando nos conhecemos. Nas suas faces, ávidas de cultura e não apenas do conhecimento necessário para o triste exame, revejo a tua. E nela, estampado até ao ridículo, o meu desejo envelhecido, que transformaste num amor de meia-idade que não envergonhava a juventude que irradiavas. Quantos dias me ouviste no escuro antes de entrar na minha vida? Ah, Maria, nem os dias felizes que vieram depois me farão perdoar-te os desperdiçados antes; tu sabias.
Maldita sejas por adiares um amor inevitável, definitivo.
P.S. A que horas chega o teu avião na Sexta, querida?
Hoje, dois javardos inconscientes entraram pela traseira do táxi onde eu seguia. A acelerar, Maria, a acelerar! A porra da fila estava parada e eles enfiaram-nos uma trancada que me transformou a cabeça num relógio de pêndulo. Saíram do carro enfastiados, nem sequer perguntaram a nenhum de nós se estávamos bem, debruçaram-se com ternura egoísta sobre a frente do carro deles. "Temos a declaração amigável", disseram. E isso apaga tudo, Maria? Assinar um papel e perder um prémio de seguro permite conduzir (?) assim? Fiquei zonzo. E o motorista preocupou-se, "está bem, doutor?". Chamou um colega, não queria aceitar dinheiro pela corrida interrompida, meti-lhe o dinheiro na mão. O outro chegou e não se fez rogado - "não vai à Urgência? Olhe o Seguro, já vi porradas dessas darem para o torto, os gajos ficam a rir-se, vá por mim..." E eu fui. A jovem colega disse o óbvio - "vou chamar um ortopedista". Depois abriu um sorriso e declarou-se minha aluna no Abel Salazar. Pedi-lhe desculpa por não recordar face e nome e ela soltou riso largo, como poderia eu recordar tantas faces no escuro dos anfiteatros? É verdade, Maria, ensino há trinta e quatro anos. Cada vez mais tropeço em gente que me trata com a deferência que se reserva a um velho conhecido. E o "conhecido" leva a palma ao "velho", instalo-me nos colos deles com gratidão.
Maria, estamos no fim de Outubro e o anfiteatro já se veste de ausências nas minhas aulas. Mas os que ficam sorriem, enlevados, quando lhes recito Ramos Rosa ou Amalia Bautista. Como tu, quando nos conhecemos. Nas suas faces, ávidas de cultura e não apenas do conhecimento necessário para o triste exame, revejo a tua. E nela, estampado até ao ridículo, o meu desejo envelhecido, que transformaste num amor de meia-idade que não envergonhava a juventude que irradiavas. Quantos dias me ouviste no escuro antes de entrar na minha vida? Ah, Maria, nem os dias felizes que vieram depois me farão perdoar-te os desperdiçados antes; tu sabias.
Maldita sejas por adiares um amor inevitável, definitivo.
P.S. A que horas chega o teu avião na Sexta, querida?
Até os gatos devem ter ficado arrepiados:(.
Mulheres sem véu incitam ao crime sexual, diz líder islâmico
O principal religioso muçulmano na Austrália, o xeque Taj Aldin al Hilali, está a causar uma forte polémica no país depois de ter afirmado que as mulheres que não usam véu são como «carne descoberta» e incitam assim aos crimes sexuais.
«Se vocês colocam a carne na rua, no jardim ou no parque sem a cobrir, os gatos aparecem para a comer (...). Quem tem a culpa, os gatos ou a carne ao ar livre?», disse perante 500 fiéis, segundo o jornal The Australian.
«A carne ao ar livre, aí está o problema. Se ela tivesse permanecido no seu quarto, na sua casa, vestindo o seu véu, não teria ocorrido qualquer problema», acrescentou o líder religioso muçulmano.
Aquelas declarações desencadearam uma forte polémica, tendo mesmo a representante do governo australiano na Comissão de Luta Contra a Discriminação, Pru Goward, pedido que o líder religioso renuncie e seja expulso do país.
«É uma incitação ao crime (...) Jovens muçulmanos violarão mulheres para defender as suas declarações», considerou.
«Penso que está na hora de pedir que saia e convido as autoridades a questionar se devemos permitir que um homem que incita jovens muçulmanos ao crime permaneça em território» nacional, disse.
A responsável não adiantou se o religioso, de origem egípcia e que chegou à Austrália em 1982, possui ou não a nacionalidade australiana.
Taj Aldin al Hilali defendeu-se explicando que se referia apenas às prostitutas, mas segundo o The Australian tal não foi especificado no sermão que proferiu.
Numerosas mulheres islâmicas em cargos dirigentes já repudiaram as declarações de al Hilali, considerando-as repulsivas e ofensivas.
Também o primeiro-ministro australiano, John Howard, condenou as declarações, afirmando: «A ideia de que as mulheres são culpadas de serem violadas é grotesca».
26-10-2006 12:04:06
O principal religioso muçulmano na Austrália, o xeque Taj Aldin al Hilali, está a causar uma forte polémica no país depois de ter afirmado que as mulheres que não usam véu são como «carne descoberta» e incitam assim aos crimes sexuais.
«Se vocês colocam a carne na rua, no jardim ou no parque sem a cobrir, os gatos aparecem para a comer (...). Quem tem a culpa, os gatos ou a carne ao ar livre?», disse perante 500 fiéis, segundo o jornal The Australian.
«A carne ao ar livre, aí está o problema. Se ela tivesse permanecido no seu quarto, na sua casa, vestindo o seu véu, não teria ocorrido qualquer problema», acrescentou o líder religioso muçulmano.
Aquelas declarações desencadearam uma forte polémica, tendo mesmo a representante do governo australiano na Comissão de Luta Contra a Discriminação, Pru Goward, pedido que o líder religioso renuncie e seja expulso do país.
«É uma incitação ao crime (...) Jovens muçulmanos violarão mulheres para defender as suas declarações», considerou.
«Penso que está na hora de pedir que saia e convido as autoridades a questionar se devemos permitir que um homem que incita jovens muçulmanos ao crime permaneça em território» nacional, disse.
A responsável não adiantou se o religioso, de origem egípcia e que chegou à Austrália em 1982, possui ou não a nacionalidade australiana.
Taj Aldin al Hilali defendeu-se explicando que se referia apenas às prostitutas, mas segundo o The Australian tal não foi especificado no sermão que proferiu.
Numerosas mulheres islâmicas em cargos dirigentes já repudiaram as declarações de al Hilali, considerando-as repulsivas e ofensivas.
Também o primeiro-ministro australiano, John Howard, condenou as declarações, afirmando: «A ideia de que as mulheres são culpadas de serem violadas é grotesca».
26-10-2006 12:04:06
quarta-feira, outubro 25, 2006
Eu também autorizaria, mas psicologicamente vai ser duro. E não apenas para os próprios...
Londres: Autorizado o primeiro transplante completo de rosto
Uma equipa de cirurgiões britânicos recebeu hoje autorização para realizar o primeiro transplante completo de rosto no mundo, que poderá ser feito em alguns meses.
O comité de ética do Royal Free Hospital de Londres acedeu ao pedido de uma equipa liderada pelo professor Peter Butler.
Butler, especialista em cirurgia reconstrutiva, trabalha no projecto há quase 14 anos neste mesmo hospital do norte de Londres.
Em Dezembro de 2005, havia obtido autorização para realizar uma pré-selecção de pacientes capazes psicologicamente de suportar semelhante operação.
Até agora, dois pacientes foram submetidos a um transplante parcial de rosto: Isabelle Dinoire, na França, em Novembro de 2005, e Li Guoxing, um chinês de 30 anos, em Abril deste ano.
25-10-2006 11:26:41
Uma equipa de cirurgiões britânicos recebeu hoje autorização para realizar o primeiro transplante completo de rosto no mundo, que poderá ser feito em alguns meses.
O comité de ética do Royal Free Hospital de Londres acedeu ao pedido de uma equipa liderada pelo professor Peter Butler.
Butler, especialista em cirurgia reconstrutiva, trabalha no projecto há quase 14 anos neste mesmo hospital do norte de Londres.
Em Dezembro de 2005, havia obtido autorização para realizar uma pré-selecção de pacientes capazes psicologicamente de suportar semelhante operação.
Até agora, dois pacientes foram submetidos a um transplante parcial de rosto: Isabelle Dinoire, na França, em Novembro de 2005, e Li Guoxing, um chinês de 30 anos, em Abril deste ano.
25-10-2006 11:26:41
terça-feira, outubro 24, 2006
É esta a hora...
É esta a hora perfeita em que se cala
O confuso murmurar das gentes
E dentro de nós finalmente fala
A voz grave dos sonhos indolentes.
...
É esta a hora em que o tempo é abolido
E nem sequer conheço a minha face.
Sophia.
O confuso murmurar das gentes
E dentro de nós finalmente fala
A voz grave dos sonhos indolentes.
...
É esta a hora em que o tempo é abolido
E nem sequer conheço a minha face.
Sophia.
segunda-feira, outubro 23, 2006
O analfabeto funcional.
http://multimedia.rtp.pt/index.php?prog=2403
http://multimedia.rtp.pt/index.php?prog=1032
Diz-me um amigo que estes são os links para O Amor é... Não sei colocá-los na faixa lateral do Murcon:(.
http://multimedia.rtp.pt/index.php?prog=1032
Diz-me um amigo que estes são os links para O Amor é... Não sei colocá-los na faixa lateral do Murcon:(.
domingo, outubro 22, 2006
Muro das lamentações com fim feliz (acho...).
1 - Telefone avariado. Chamada para a PT. "Na Segunda vemos isso". Mas eu pago chamadas ao fim-de-semana...
2 - Chovia que Deus a dava. Para não telefonar ensopado e ver o guarda-chuva voar, meti-me no carro e fui para o meio do terreno, à procura de cobertura da Optimus. Encontrei-a junto ao riacho.
3 - Quando acabei o "giro comunicativo" disse para mim mesmo, "rápido, a lareira espera!".
4 - O carro estava atolado.
5 - Primeiro apareceu um vizinho solidário com um tractor. Népia.
6 - Depois chamei o ACP. Quando chegaram, viram logo a cena - tentavam ajudar-me e ficavam lá também.
7 - Telefonaram a um amigo que veio com um tractor king size.
8 - Safou-me.
9 - Mas não de quatro horas de espera...
10 - Explicação óbvia para o calvário: a Casa do Vale experimenta o meu afecto! Quando se convencer da constância dele, nunca mais acontecerão estes dramas campestres:).
2 - Chovia que Deus a dava. Para não telefonar ensopado e ver o guarda-chuva voar, meti-me no carro e fui para o meio do terreno, à procura de cobertura da Optimus. Encontrei-a junto ao riacho.
3 - Quando acabei o "giro comunicativo" disse para mim mesmo, "rápido, a lareira espera!".
4 - O carro estava atolado.
5 - Primeiro apareceu um vizinho solidário com um tractor. Népia.
6 - Depois chamei o ACP. Quando chegaram, viram logo a cena - tentavam ajudar-me e ficavam lá também.
7 - Telefonaram a um amigo que veio com um tractor king size.
8 - Safou-me.
9 - Mas não de quatro horas de espera...
10 - Explicação óbvia para o calvário: a Casa do Vale experimenta o meu afecto! Quando se convencer da constância dele, nunca mais acontecerão estes dramas campestres:).
sexta-feira, outubro 20, 2006
Pois, mas o receio de desagradar ao Engenheiro Guterres era demasiado grande:(.
Referendo, aborto e lei de Murphy Ana Sá Lopesana.s.lopes@dn..pt
Se há duas ou mais formas de fazer alguma coisa e uma resultar em catástrofe, então alguém a fará. A primeira lei de Murphy, que se aplica a muita coisa da natureza em geral, também já está (que admiração!) a sobrevoar o processo de referendo sobre o aborto em curso. Estão, mais uma vez, reunidas todas as condições para a catástrofe. Vitalino Canas empenhou-se em contribuir para a possibilidade quando declarou que o PS respeitará os resultados de um referendo não vinculativo onde o "não" seja maioritário (como aconteceu em 1998).Para o porta-voz socialista, mesmo que os portugueses se estejam nas tintas para decidir, valem os votos que apareçam (que não tenha sido por acaso que os constitucionalistas colocaram a necessidade de haver mais de 50 por cento para um referendo ser vinculativo não interessa aos novos juristas do regime).Como ninguém quis retirar uma das mais importantes lições do referendo anterior - a de que o povo maioritário não quer decidir sobre isto e agradece a quem o fizer por si - o porta-voz do PS trouxe esta semana um contributo para o esclarecimento do instituto do referendo em geral e do futuro da despenalização do aborto em particular. Segundo Vitalino Canas, é preciso cumprir a "tradição" de dar um pontapé na Constituição no que respeita à importância do vínculo dos referendos, obrigando-se o Parlamento a ficar amarrado aos resultados, mesmo que tenham sido três cidadãos a votar. Ganhando o "sim", o Governo utiliza a legitimidade parlamentar para fazer avançar a lei da despenalização; ganhando o "não", o PS manda às malvas a convicção dos seus responsáveis "despenalizadores" e - à margem da Constituição, convenhamos - deita ao lixo o poder legislativo que lhe foi dado. Se for um "não" não vinculativo a afogar a legitimidade parlamentar, talvez alguém faça pagar caro a catástrofe ao PS. Quanto a José Sócrates, ser-lhe-á reservado um lugar ao lado de Guterres no altar dos primeiros-ministros que desperdiçaram maiorias de esquerda sem conseguir levar a cabo uma reforma básica (de direitos humanos).
Se há duas ou mais formas de fazer alguma coisa e uma resultar em catástrofe, então alguém a fará. A primeira lei de Murphy, que se aplica a muita coisa da natureza em geral, também já está (que admiração!) a sobrevoar o processo de referendo sobre o aborto em curso. Estão, mais uma vez, reunidas todas as condições para a catástrofe. Vitalino Canas empenhou-se em contribuir para a possibilidade quando declarou que o PS respeitará os resultados de um referendo não vinculativo onde o "não" seja maioritário (como aconteceu em 1998).Para o porta-voz socialista, mesmo que os portugueses se estejam nas tintas para decidir, valem os votos que apareçam (que não tenha sido por acaso que os constitucionalistas colocaram a necessidade de haver mais de 50 por cento para um referendo ser vinculativo não interessa aos novos juristas do regime).Como ninguém quis retirar uma das mais importantes lições do referendo anterior - a de que o povo maioritário não quer decidir sobre isto e agradece a quem o fizer por si - o porta-voz do PS trouxe esta semana um contributo para o esclarecimento do instituto do referendo em geral e do futuro da despenalização do aborto em particular. Segundo Vitalino Canas, é preciso cumprir a "tradição" de dar um pontapé na Constituição no que respeita à importância do vínculo dos referendos, obrigando-se o Parlamento a ficar amarrado aos resultados, mesmo que tenham sido três cidadãos a votar. Ganhando o "sim", o Governo utiliza a legitimidade parlamentar para fazer avançar a lei da despenalização; ganhando o "não", o PS manda às malvas a convicção dos seus responsáveis "despenalizadores" e - à margem da Constituição, convenhamos - deita ao lixo o poder legislativo que lhe foi dado. Se for um "não" não vinculativo a afogar a legitimidade parlamentar, talvez alguém faça pagar caro a catástrofe ao PS. Quanto a José Sócrates, ser-lhe-á reservado um lugar ao lado de Guterres no altar dos primeiros-ministros que desperdiçaram maiorias de esquerda sem conseguir levar a cabo uma reforma básica (de direitos humanos).
quinta-feira, outubro 19, 2006
Como era previsível. E desejável...
Pais já não vão avaliar professores
2006/10/19 19:38 Marta Sofia Ferreira
Negociações param se protestos continuarem, ameaça Ministério
Os pais já não vão avaliar os professores. A alteração dos critérios de avaliação dos docentes foi uma das mudanças propostas pelo Ministério da Educação (ME) na quarta, e última versão, da proposta de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), que a tutela apresentou esta quinta-feira aos sindicatos.
O Governo propõe que os pais só participem no processo de avaliação de um professor se este assim o desejar. No entanto, os encarregados de educação continuam a fazer parte dos conjunto de entidades que vão avaliar a qualidade das escolas.
PortugalDiário
2006/10/19 19:38 Marta Sofia Ferreira
Negociações param se protestos continuarem, ameaça Ministério
Os pais já não vão avaliar os professores. A alteração dos critérios de avaliação dos docentes foi uma das mudanças propostas pelo Ministério da Educação (ME) na quarta, e última versão, da proposta de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), que a tutela apresentou esta quinta-feira aos sindicatos.
O Governo propõe que os pais só participem no processo de avaliação de um professor se este assim o desejar. No entanto, os encarregados de educação continuam a fazer parte dos conjunto de entidades que vão avaliar a qualidade das escolas.
PortugalDiário
quarta-feira, outubro 18, 2006
O velho Séneca.
"A vida divide-se em três épocas: o que foi, o que é e o que será. Das três, a que vivemos é curta; a que viveremos, duvidosa; a que já vivemos, certa."..."Eis o que escapa às pessoas ocupadas; porque não têm tempo para olhar o passado, e se o tivessem, ser-lhes-ia desagradável recordar o que lhes deveria provocar remorsos."..."Ninguém, salvo aquele que submete os seus actos à sua própria censura, sempre infalível, faz de bom grado o regresso ao passado."
A Brevidade da Vida.
A Brevidade da Vida.
segunda-feira, outubro 16, 2006
Back to oldies, a pedido do Noise.
Variações sobre Tonight de Elton John
Esta noite não, por favor! Discussões a mais, estou tão cansado, dormir, por que não é gentil e apaga a luz? Não para evitar o assunto, como poderia eu!?, já decidiu partir de novo à desfilada. Entregue à raiva, pressinto-a antes dele, nos silêncios ameaçadores, na sua cabeça a bonança precede a tempestade. Sempre a mesma, de resto, hoje seria igual à de ontem e à da semana passada, continua à procura do arco-íris e não do ouro que se esconde na terra onde pousa; é a perfeição que persegue. Não lha posso dar, faltam-me tempo e sentidos ágeis, pensei mil vezes explicar-lho numa canção minha, sem a sua ajuda, mas teclas e palavras parecem todas iguais e baças. Não consigo... Ah, não fazer nada, deixar-me correr as cortinas em silêncio e entregar-se, nada de olhares oblíquos, não lhe peço o mundo ou grandes declarações - apenas um sorriso. Amanhã não sei, mas esta noite chegaria. A ele não. Horas de massacre, “porque o fizeste?” Cada nova pergunta me empurra um pouco mais contra a parede, esborrachado como o insecto que nos proíbe o sono, “não gostavas de mim”. É falso. Não como Judas, também esse amava Cristo, mas à vista desarmada admito que traí.
Minhas ou a partir dos outros, as grilhetas nunca cessaram de existir, sorte dele se as não sentiu. O espanto solitário de ver a malta louca atrás de um beijo de rapariga e eu descobrindo o desejo em sonhos onde elas não entravam. O medo, contar a quem? As piadas sujas sobre “esses gajos”, riso amarelo, consciência negra, “desconfio que sou um deles”. Namoros falsos e rápidos, fugir antes de…, “é um pinga-amor”, uma vez tentei, álcool à mistura, ela entristecida, “não te agrado?” Não desse modo, o corpo só acordava junto a quem não devia.
Um tipo deita mão a tudo, o padre jurou que se não matasse o Demónio Lhe faria companhia depois de morto, cada coisa a seu tempo, era o resto da minha vida terrena a preocupar-me. O piano por refúgio, como o deserto para os santos, melodias nuas de versos mas não de sentimentos, amores sem destinatários oficiais, qual é a trilogia?: pensamentos, palavras e obras. Bom, dois terços de mim permaneciam limpos.
Sei que meus pais conversavam, a mãe não tinha pressa, essas galdérias, o meu menino, tão engraçado ao piano, os pés não chegavam ao chão, deixar correr o tempo. Que não, dizia meu pai abanando a cabeça, se não vive agora..., ainda desperta já chefe de família, é preciso que os homens vivam antes para depois não morrerem os casamentos. E eu vivia, mas coisas estranhas. É bizarro apaixonarmo-nos pelo colega de carteira e sofrer quando ele cobiça tranças, pernas e seios espalhados pela sala. Eu ria alto e dobrava a parada, em mim o eco do seu desejo pelas mulheres, só para o manter a meu lado comprei o silêncio de prostitutas, “grande noite pá, temos de vir outra vez, até amanhã nas aulas”. Nunca lhe disse e fiz bem, pai de família, nove às cinco, jardinagem ao fim da tarde, já foi entrevistado pela MTV, “sim, sim, amigos de adolescência, fui o primeiro a intuir o sucesso”.
Enganava-se, ninguém é amigo de bom grado quando deseja mais. Agora sou, já não interessa, quando o encontrar vou convidá-lo para o pub da esquina, a não ser que a moral se lhe encabrite. Quem viaja calmamente no grosso da manada não imagina o que é crescer sem autorização social para namorar – já bastam as negaças próprias do amor -, obrigado a inventar razões cretinas para lágrimas por paixões perdidas e nem sequer jogadas, a normalidade indiscutível por todo o lado, ninguém para nos dizer “comigo foi assim...”; se até inventaram lojas para canhotos, porque não arranjam espaço nas cabeças para tipos como eu?
E um dia este chegou com sons que se enroscaram nas minhas notas, desejei o abismo até ao desespero, “gosto de ti, eu também”, mas seria assim tão simples? Vertigem de queda e surpresa pela calma subsequente, está feito, bem ou mal, chegou a hora da aventura, no singular porque éramos só dois e nos amávamos, as canções estão aí para o provar. E estragar!, com elas vieram êxito e palco, os holofotes não o encontravam mas fizeram de mim um palhaço, o medo atacado a óculos extravagantes, pastilhas e whisky.
Queria parar, “tu que achas?”, a decisão era minha, “porquê?”, “és tu a vedeta”, já não brilhavam os olhos dele nos bastidores, o meu(?) sucesso subira-lhe à cabeça como o mercúrio nos termómetros em dias de calor, concedia-me a liberdade e afiava a guilhotina. Fiel a mim próprio, decidi não decidir nada, the show must go on, sei hoje que esperava pedido ou ordem, um sinal, “vamos pensar em nós”. Até o jornalista ficou surpreso, acho que fez a pergunta por desfastio, outros a tinham posto com ferocidade e rira-me nas suas caras, mas naquele momento confessei o pecado por aproximação, cheio de cansaço, solidão e arrogância, é verdade, jogo para os dois lados, o quarto de banho é a primeira porta à esquerda, caso queira desinfectar-se.
Para o Inferno com público e imprensa, mas ele... Sabia, é evidente, mas sem saber. Das digressões contava-lhe o que esperava ouvir, refastelado em Inglaterra, eu pelas sete partes do mundo, é estranho, passei a conseguir estar com mulheres, sem prazer mas com ternura, protegido, era uma forma de lhe ser fiel. Seguramente também pintava a manta na minha ausência, discreto, não resistiu ao pretexto, eis-me único culpado das águas turvas entre nós, “maldito exibicionista, já não consegues deixar o palco por um segundo”. Furioso, quatro anos de zanga com as justificações habituais no meio, seguir cada um o seu caminho, experimentar coisas novas, amigos como dantes. Quatro anos. Profissionalmente um empate, nenhum de nós conseguiu fazer nada de jeito, os abutres exigiram que caíssemos nos braços um do outro, o encanto desaparecera.
Não olhem para trás, dizia Dylan - casei. À procura de calma, família, almoços de domingo, vida no campo à la McCartney. Ele acelerou à sua maneira, nem sequer nos víamos, mandava-me as letras pelo correio e eu musicava-as como um funcionário público, em série, não sou um génio, mas também não gosto de sentir vergonha do meu trabalho. Ela pressentia-o e calava-se, à espera de melhores noites. Quando se chega ao fundo do poço a única saída é para cima, fui eu a procurá-lo, “já não temos vinte e quatro anos, deixei-a, magoámo-nos muito, é pior sem ti, volta”.
Sinto-me uma aberração - enganei-o com mulher legítima, não na cama, perante o mundo de que nos escondíamos. Deixei-a e para ele não valeu a pena, tivesse ficado e seria também um pulha, nada o satisfaz porque não aceita o passado, teríamos sido felizes se eu não tivesse feito e dito isto ou aquilo, apresenta facturas de despesas pelas quais também foi responsável, estou cansado, nunca me perdoou tê-la e mantê-la, mas viu no divórcio um prenúncio, “primeiro eu, agora ela, deixas toda a gente, vai acontecer outra vez”.
Sou o que está sempre a caminho da porta, mesmo que durma do lado da parede não mereço confiança. E contudo, nunca partirei, é o meu homem. O padre estava enganado - o Inferno deve ser isto e vai continuar. Ao menos esta noite queria sorrir-lhe antes de fechar a luz e adormecer-lhe nos braços, sem discussões, o arco-íris de que fala ainda possível, estou gordo e calvo, mas se me deixar ainda lhe posso compôr uma canção que o satisfaça, carícia sua e mesmo cheio de sono faço-o esta noite.
Finalmente percebi como me enganei em 1976, não sou bissexual, estive com pessoas dos dois sexos, é diferente. Não gosto que me definam pelo sexo de quem partilha o meu leito, se tanto precisam de rótulos, digam então que sou o seu amante. É injusto, também sou músico, adepto de futebol, inglês, de meia-idade. O sexo hipnotiza essa gente, já fui assim, mas hoje nem preciso de tirar a roupa, basta que não expluda e me deixe sorrir. Amanhã trucidar-nos-emos, mas esta noite é nossa.
Esta noite não, por favor! Discussões a mais, estou tão cansado, dormir, por que não é gentil e apaga a luz? Não para evitar o assunto, como poderia eu!?, já decidiu partir de novo à desfilada. Entregue à raiva, pressinto-a antes dele, nos silêncios ameaçadores, na sua cabeça a bonança precede a tempestade. Sempre a mesma, de resto, hoje seria igual à de ontem e à da semana passada, continua à procura do arco-íris e não do ouro que se esconde na terra onde pousa; é a perfeição que persegue. Não lha posso dar, faltam-me tempo e sentidos ágeis, pensei mil vezes explicar-lho numa canção minha, sem a sua ajuda, mas teclas e palavras parecem todas iguais e baças. Não consigo... Ah, não fazer nada, deixar-me correr as cortinas em silêncio e entregar-se, nada de olhares oblíquos, não lhe peço o mundo ou grandes declarações - apenas um sorriso. Amanhã não sei, mas esta noite chegaria. A ele não. Horas de massacre, “porque o fizeste?” Cada nova pergunta me empurra um pouco mais contra a parede, esborrachado como o insecto que nos proíbe o sono, “não gostavas de mim”. É falso. Não como Judas, também esse amava Cristo, mas à vista desarmada admito que traí.
Minhas ou a partir dos outros, as grilhetas nunca cessaram de existir, sorte dele se as não sentiu. O espanto solitário de ver a malta louca atrás de um beijo de rapariga e eu descobrindo o desejo em sonhos onde elas não entravam. O medo, contar a quem? As piadas sujas sobre “esses gajos”, riso amarelo, consciência negra, “desconfio que sou um deles”. Namoros falsos e rápidos, fugir antes de…, “é um pinga-amor”, uma vez tentei, álcool à mistura, ela entristecida, “não te agrado?” Não desse modo, o corpo só acordava junto a quem não devia.
Um tipo deita mão a tudo, o padre jurou que se não matasse o Demónio Lhe faria companhia depois de morto, cada coisa a seu tempo, era o resto da minha vida terrena a preocupar-me. O piano por refúgio, como o deserto para os santos, melodias nuas de versos mas não de sentimentos, amores sem destinatários oficiais, qual é a trilogia?: pensamentos, palavras e obras. Bom, dois terços de mim permaneciam limpos.
Sei que meus pais conversavam, a mãe não tinha pressa, essas galdérias, o meu menino, tão engraçado ao piano, os pés não chegavam ao chão, deixar correr o tempo. Que não, dizia meu pai abanando a cabeça, se não vive agora..., ainda desperta já chefe de família, é preciso que os homens vivam antes para depois não morrerem os casamentos. E eu vivia, mas coisas estranhas. É bizarro apaixonarmo-nos pelo colega de carteira e sofrer quando ele cobiça tranças, pernas e seios espalhados pela sala. Eu ria alto e dobrava a parada, em mim o eco do seu desejo pelas mulheres, só para o manter a meu lado comprei o silêncio de prostitutas, “grande noite pá, temos de vir outra vez, até amanhã nas aulas”. Nunca lhe disse e fiz bem, pai de família, nove às cinco, jardinagem ao fim da tarde, já foi entrevistado pela MTV, “sim, sim, amigos de adolescência, fui o primeiro a intuir o sucesso”.
Enganava-se, ninguém é amigo de bom grado quando deseja mais. Agora sou, já não interessa, quando o encontrar vou convidá-lo para o pub da esquina, a não ser que a moral se lhe encabrite. Quem viaja calmamente no grosso da manada não imagina o que é crescer sem autorização social para namorar – já bastam as negaças próprias do amor -, obrigado a inventar razões cretinas para lágrimas por paixões perdidas e nem sequer jogadas, a normalidade indiscutível por todo o lado, ninguém para nos dizer “comigo foi assim...”; se até inventaram lojas para canhotos, porque não arranjam espaço nas cabeças para tipos como eu?
E um dia este chegou com sons que se enroscaram nas minhas notas, desejei o abismo até ao desespero, “gosto de ti, eu também”, mas seria assim tão simples? Vertigem de queda e surpresa pela calma subsequente, está feito, bem ou mal, chegou a hora da aventura, no singular porque éramos só dois e nos amávamos, as canções estão aí para o provar. E estragar!, com elas vieram êxito e palco, os holofotes não o encontravam mas fizeram de mim um palhaço, o medo atacado a óculos extravagantes, pastilhas e whisky.
Queria parar, “tu que achas?”, a decisão era minha, “porquê?”, “és tu a vedeta”, já não brilhavam os olhos dele nos bastidores, o meu(?) sucesso subira-lhe à cabeça como o mercúrio nos termómetros em dias de calor, concedia-me a liberdade e afiava a guilhotina. Fiel a mim próprio, decidi não decidir nada, the show must go on, sei hoje que esperava pedido ou ordem, um sinal, “vamos pensar em nós”. Até o jornalista ficou surpreso, acho que fez a pergunta por desfastio, outros a tinham posto com ferocidade e rira-me nas suas caras, mas naquele momento confessei o pecado por aproximação, cheio de cansaço, solidão e arrogância, é verdade, jogo para os dois lados, o quarto de banho é a primeira porta à esquerda, caso queira desinfectar-se.
Para o Inferno com público e imprensa, mas ele... Sabia, é evidente, mas sem saber. Das digressões contava-lhe o que esperava ouvir, refastelado em Inglaterra, eu pelas sete partes do mundo, é estranho, passei a conseguir estar com mulheres, sem prazer mas com ternura, protegido, era uma forma de lhe ser fiel. Seguramente também pintava a manta na minha ausência, discreto, não resistiu ao pretexto, eis-me único culpado das águas turvas entre nós, “maldito exibicionista, já não consegues deixar o palco por um segundo”. Furioso, quatro anos de zanga com as justificações habituais no meio, seguir cada um o seu caminho, experimentar coisas novas, amigos como dantes. Quatro anos. Profissionalmente um empate, nenhum de nós conseguiu fazer nada de jeito, os abutres exigiram que caíssemos nos braços um do outro, o encanto desaparecera.
Não olhem para trás, dizia Dylan - casei. À procura de calma, família, almoços de domingo, vida no campo à la McCartney. Ele acelerou à sua maneira, nem sequer nos víamos, mandava-me as letras pelo correio e eu musicava-as como um funcionário público, em série, não sou um génio, mas também não gosto de sentir vergonha do meu trabalho. Ela pressentia-o e calava-se, à espera de melhores noites. Quando se chega ao fundo do poço a única saída é para cima, fui eu a procurá-lo, “já não temos vinte e quatro anos, deixei-a, magoámo-nos muito, é pior sem ti, volta”.
Sinto-me uma aberração - enganei-o com mulher legítima, não na cama, perante o mundo de que nos escondíamos. Deixei-a e para ele não valeu a pena, tivesse ficado e seria também um pulha, nada o satisfaz porque não aceita o passado, teríamos sido felizes se eu não tivesse feito e dito isto ou aquilo, apresenta facturas de despesas pelas quais também foi responsável, estou cansado, nunca me perdoou tê-la e mantê-la, mas viu no divórcio um prenúncio, “primeiro eu, agora ela, deixas toda a gente, vai acontecer outra vez”.
Sou o que está sempre a caminho da porta, mesmo que durma do lado da parede não mereço confiança. E contudo, nunca partirei, é o meu homem. O padre estava enganado - o Inferno deve ser isto e vai continuar. Ao menos esta noite queria sorrir-lhe antes de fechar a luz e adormecer-lhe nos braços, sem discussões, o arco-íris de que fala ainda possível, estou gordo e calvo, mas se me deixar ainda lhe posso compôr uma canção que o satisfaça, carícia sua e mesmo cheio de sono faço-o esta noite.
Finalmente percebi como me enganei em 1976, não sou bissexual, estive com pessoas dos dois sexos, é diferente. Não gosto que me definam pelo sexo de quem partilha o meu leito, se tanto precisam de rótulos, digam então que sou o seu amante. É injusto, também sou músico, adepto de futebol, inglês, de meia-idade. O sexo hipnotiza essa gente, já fui assim, mas hoje nem preciso de tirar a roupa, basta que não expluda e me deixe sorrir. Amanhã trucidar-nos-emos, mas esta noite é nossa.
57 d.j.
Maralhal,
Obrigado pelos parabéns, mas sobretudo pela companhia ao longo deste percurso. Já houve morte, zanga, riso, abandono, reconciliação, enfim!, tudo o que nos permite dizer que estamos vivos e juntos, no respeito absoluto da liberdade de cada um. Fiquem bem.
Obrigado pelos parabéns, mas sobretudo pela companhia ao longo deste percurso. Já houve morte, zanga, riso, abandono, reconciliação, enfim!, tudo o que nos permite dizer que estamos vivos e juntos, no respeito absoluto da liberdade de cada um. Fiquem bem.
domingo, outubro 15, 2006
Públicas "virtudes"...:).
Um em cada três deputados italianos droga-se
2006/10/09 23:51
«Se cão polícia entrasse no Congresso ficava com o nariz entupido»
Um em cada três deputados italianos consome algum tipo de estupefacientes, como o haxixe e a cocaína, segundo uma investigação de programa de televisão que vai para o ar terça-feira, noticia a agência Lusa.
A informação foi adiantada hoje por responsáveis do programa satírico «Le Iene», que é emitido em Itália 1, canal do grupo Mediaset, propriedade do chefe da oposição de centro-direita italiana, Sílvio Berlusconi.
Le Iene apanhou cinquenta deputados com um teste de consumo de droga disfarçado de produto de maquilhagem que se revelou positivo em 16 deles.
A pretexto de interrogar os deputados sobre o projecto de Orçamento em discussão no Parlamento, os animadores do programa limparam-lhes a testa com um produto químico que revela a presença do estupefaciente no suor.
Cinquenta deputados prestaram-se à «armadilha» do programa sem desconfiar de nada e 16 testes deram positivo: para 12 deles tratava-se de cannabis, e os outros quatro de cocaína, dois produtos cujo uso é proibido em Itália.
A investigação baseia-se numa prova conhecida como o «drug wipe», que os responsáveis do programa asseguram ser fiável em cem por cento.
Todavia, alguns peritos médicos consultados pelos media locais que divulga ram a notícia, salientaram que o teste é preliminar, pois permite saber se uma p essoa consumiu alguma droga nas últimas 36 horas, embora essa fiabilidade tenha de ser confirmada depois com outros testes.
«Le Iene» assegura que a investigação permite estabelecer a percentagem dos deputados italianos que usam drogas, 32 por cento.
A emissão, que vai para o ar terça-feira à noite, preservará o anonimato dos culpados, assegurou o seu realizador, Matteo Viviani.
A notícia foi conhecida depois de este ano o Parlamento ter endurecido as penas pelo consumo de drogas.
A informação gerou de imediato reacções, desde haver quem tenha pedido que sejam divulgados os nomes dos deputados cujos testes deram positivo, àqueles que asseguram que é uma violação do direito à privacidade.
Interrogado pela agência Ansa, o toxicólogo Piergiorgio Zuccaro assegurou que o teste é «cientificamente sério», embora tenha apenas um valor indicativo.
Paolo Cento, um representante do partido «Os Verdes» favorável à despenalização do uso da droga denunciou imediatamente «a hipocrisia de uma parte do mundo político que vota leis atentatórias da liberdade enquanto snifa cocaína».
Já o secretário-geral dos Radicais, Daniele Capezzone, ironizou: «se entrasse no Congresso um cão da polícia especializado na detecção de drogas, ficava com o nariz entupido».
P.S. Meu Deus, porque não mostras mais vezes este Benfica aos nossos olhos pecadores?
2006/10/09 23:51
«Se cão polícia entrasse no Congresso ficava com o nariz entupido»
Um em cada três deputados italianos consome algum tipo de estupefacientes, como o haxixe e a cocaína, segundo uma investigação de programa de televisão que vai para o ar terça-feira, noticia a agência Lusa.
A informação foi adiantada hoje por responsáveis do programa satírico «Le Iene», que é emitido em Itália 1, canal do grupo Mediaset, propriedade do chefe da oposição de centro-direita italiana, Sílvio Berlusconi.
Le Iene apanhou cinquenta deputados com um teste de consumo de droga disfarçado de produto de maquilhagem que se revelou positivo em 16 deles.
A pretexto de interrogar os deputados sobre o projecto de Orçamento em discussão no Parlamento, os animadores do programa limparam-lhes a testa com um produto químico que revela a presença do estupefaciente no suor.
Cinquenta deputados prestaram-se à «armadilha» do programa sem desconfiar de nada e 16 testes deram positivo: para 12 deles tratava-se de cannabis, e os outros quatro de cocaína, dois produtos cujo uso é proibido em Itália.
A investigação baseia-se numa prova conhecida como o «drug wipe», que os responsáveis do programa asseguram ser fiável em cem por cento.
Todavia, alguns peritos médicos consultados pelos media locais que divulga ram a notícia, salientaram que o teste é preliminar, pois permite saber se uma p essoa consumiu alguma droga nas últimas 36 horas, embora essa fiabilidade tenha de ser confirmada depois com outros testes.
«Le Iene» assegura que a investigação permite estabelecer a percentagem dos deputados italianos que usam drogas, 32 por cento.
A emissão, que vai para o ar terça-feira à noite, preservará o anonimato dos culpados, assegurou o seu realizador, Matteo Viviani.
A notícia foi conhecida depois de este ano o Parlamento ter endurecido as penas pelo consumo de drogas.
A informação gerou de imediato reacções, desde haver quem tenha pedido que sejam divulgados os nomes dos deputados cujos testes deram positivo, àqueles que asseguram que é uma violação do direito à privacidade.
Interrogado pela agência Ansa, o toxicólogo Piergiorgio Zuccaro assegurou que o teste é «cientificamente sério», embora tenha apenas um valor indicativo.
Paolo Cento, um representante do partido «Os Verdes» favorável à despenalização do uso da droga denunciou imediatamente «a hipocrisia de uma parte do mundo político que vota leis atentatórias da liberdade enquanto snifa cocaína».
Já o secretário-geral dos Radicais, Daniele Capezzone, ironizou: «se entrasse no Congresso um cão da polícia especializado na detecção de drogas, ficava com o nariz entupido».
P.S. Meu Deus, porque não mostras mais vezes este Benfica aos nossos olhos pecadores?
sábado, outubro 14, 2006
quinta-feira, outubro 12, 2006
On n'est pas sérieux quand on a dix-sept - ou cinquante-sept:)? - ans.
Maria,
Aí vai o texto. Fiquei enternecido por ainda te lembrares dele, escrevi-o há tanto tempo! Mas ainda mais por dizeres que tens saudades do maroto que te ensinei a ouvir. Também eu. Muitas, sabes? De o ver no Rivoli, furioso por as luzes fraquejarem - "je travaille, merde!" -, mas logo terno como um miúdo para os cabelos brancos de Maria na plateia. Anos depois, tu sorrindo, o CD na mão, o dedo em riste - "esta falará de nós enquanto eu estiver em Londres...". Tinhas razão. Porque por mail, carta ou sms, a mensagem será sempre a mesma Quand tu me liras - sem ti, cambaleio como um Bateau Ivre. Fica bem.
NO SEU ENTERRO
LÉO FERRÉ
(Variações sobre À mon enterrement)
Um fracasso, o enterro do velho leão. De resto previsível, não lembra ao Diabo compor o próprio funeral, ficamos sujeitos a qualquer pequeno contratempo, a má-língua ao fundo do cortejo, “eu não dizia?, enganou-se em toda a linha”. Mesmo assim há limites, foi humilhante até para quem não passava de mirone, “ah, sim!, o cantor, vestido de preto, cabelos brancos, cheio de tiques, já devia ter uma idadezita”. Não acertou em nada. Potros azuis? Nem vê-los!; e não me venham com a história da cor, liberdades de poeta, negros teriam sido bem mais adequados. O certo é que não apareceram, correndo livres por planícies não toscanas. Fizeram bem; os homens não resistem a domesticar beleza e movimento para os mostrar a visitas dominicais ou públicas ululantes; fizeram bem.
Mas…, e os pops? Onde se meteram as guitarras? Já nem digo flores libertas de espartilhos de coroas, raio de ideia, arranjos estereotipados para celebrar experiência única - nascemos sós mas não notamos, de qualquer modo passamos para o lado de cá, sussurros e carapins cedo nos integram; a morte, essa, põe-nos verdadeiramente ao espelho unidireccional, quem espia através dele, verme ou divindade? Não vieram e deviam, tocaram juntos e correu bem, flirt descarado entre poesia e electricidade, momentos breves, como convém a futuras recordações. É preciso resistir à tentação de mudar secantes em círculos sobrepostos, separam-se como os arcos dos ilusionistas, “senhoras e senhores vou pedir a esta menina da primeira fila que os experimente”, (“aqui há truque, será filha dele?”.
Mulheres de passe também não. Muito menos rapariguinhas de doze anos que o ultraje encheu, talvez nem sequer existam - o homem era um provocador… - em Itália ou França, perdão!, na CEE. Pouco lógico que alguém o conhecesse nas Filipinas e se desse ao trabalho de vir, mesmo aí não é certo, as cadeias de televisão são capazes de tudo por uma boa reportagem, nada nos garante que não sejam mais velhas. E as outras? Seguramente a dormir após noite dura ou amuadas por ele ter abandonado Paris e escolhido quinta mulher única, facto é que não vieram. O cangalheiro nada tem a ver com o previsto, não admira, quem já viu um cangalheiro de dezoito anos e com seis de vagabundagem? Melhor assim, suponhamos que por artes diabólicas cumpria a promessa, comitiva aterrorizada, o cadáver de súbito a estoirar de vida e a fazer amor com o miúdo, trajecto interrompido, “porque parámos?, não olhes, uma vergonha”. Não teve até ao fim um coração de ferro, asseguram os médicos, desde o João Semana da aldeia (grande apreciador do seu vinho) até aos especialistas do hospital; se fez sozinho o troço derradeiro, seguramente não foi de táxi, quanto ao Inferno…, adiante.
E não berrou, senhores, não berrou, embora fosse das profecias a mais esperada, até da morte se duvidava que tivesse coragem para calar o desbragado e os seus verbos activos. (Chamava-lhes poesia, um homem para quem o estilo se abrigava em cu de mulher não devia ter direito a empregar a palavra.) Teve bons mestres: Baudelaire, Rimbaud, Apollinaire, não por acaso apelidados de malditos. Ele sempre a desculpá-los, pior!, a incensá-los, falinhas mansas para os meter pelos nossos ouvidos dentro quando falava de Saint-Germain-des-Prés, até o turismo se pode ressentir de tais coisas. Sempre a falar de ordenadores e cartões perfurados, e as imagens…, melhor fora, um rio é um rio, desagua na foz e pronto, que ideia mais infeliz supor o mar enjoado por ver chegar outras águas, silencioso por decoro. O rio não tem culpa, profundas carências científicas (até um miúdo sabe que a responsabilidade é da Lua), o vento sopra e pára, mas não se estatela em pedras.
E como poderia, por definição, um morto ver? Outros mortos, ideia macabra. Se algo viu, e ninguém jamais o saberá, foram vivos e poucos. Alguns por obrigação, alguns por devoção, mas nada de pintores ou artistas. Silêncio nem pensar – é caso raro no mundo de hoje – e o Sol pregou-lhe a partida, brilhava intensamente, o negro que desejava por todo o lado era apenas uma pequena mancha que se arrastava através do carro (cinzento), perdida no meio da paisagem, as cores da Toscânia não cedem o seu lugar para satisfazer os caprichos de uma anarquista de Mercedes. Quanto a considerar tudo aquilo a última metáfora da ofensa… , talvez se julgasse ao abrigo das leis da vida, se todos recebemos o mesmo veredicto, por que não ele? Em suma: fiasco horrível, as primeiras das suas últimas vontades desrespeitadas em frente de todos, a família nada pôde fazer.
Maria, a seu lado o mais velho, Mathieu, as raparigas mais atrás, é natural, promovido a chefe de família, foi ele que o ensinou a lidar com as crianças, precisava de ter as coisas para as amar. Fim da tarde, a Itália não é a América, cemitérios pequenos mais eriçados, desconhecem o hábito de negar a morte, relvados para passeios e piqueniques de domingo, bandeira ao meio, a terra por baixo fervilhando de vida morta, o american way of life. O sol espreita ainda por trás dos jazigos a poente, muitas pessoas partiram com alívio, quilómetros a fazer, os amigos sabem que é hora de solidão.
Maria olha em volta – inútil ofender alguém! -, para o lixo com toda a hortaliça, como ele dizia no fim dos espectáculos, pedra lisa sem mais nada, amanhã começará a vir de vez em quando, sem dia certo para não cair nas malhas do ritual, sentada ao pé do seu homem, a propósito de homem, quem é aquele? Esguio, de pé à cabeceira da campa, silencioso, de um negro que, esse sim, parecia querer cegar, ficou para trás ou chega agora?
- Maria.
E ela de estremecer, além de mulher é espanhola, aquela voz, desumana de tão doce, recorda-lhe algo, o choro baixo de crianças pelas ruas esburacadas de Barcelona, os pássaros de ventre assassino já partiram, cada corpo é virado com uma prece, Senhor faz com que não seja. Ele já ali, ao pé dela e dos miúdos, olhos estranhos, azul de céu, cabelos brancos como os de…
- Maria, vim buscá-lo.
O espanto dos garotos não surpreende, os garotos!, que arrogância, Mathieu vai nos vinte e quatro, Maria nos dezanove, Manuela nos quinze, homem feito e mulherzinhas. Isto apesar desse hábito das mulheres crescerem mais depressa, como se soubessem que terão de olhar pelos homens, ocupados a provar(-se) que o são, só crescem quando param de o tentar à viva força. Foi difícil deixar de os tratar pelo diminutivos, eles ofendidos, pior seria se soubessem de luzes acesas até passos ressoarem no empedrado do jardim, Léo dizia à mulher, preocupada, que o tempo deve ser gasto a viver, entrava nela docemente, ria baixinho, tinha graça se ficasses à espera de outro à espera deles, tolo, sabes a minha idade?, não acredito nisso, a vida é um milagre e não um favor de hormonas, chhh…, que já chegaram. E daí talvez surpreenda, o pai ensinou-lhes que acarretamos a transcendência dentro de nós, chamar-lhe Deus ou outra coisa é indiferente, admirava-o mais a certeza dos ateus - mas existe disso no mundo? -, talvez gente que perdeu a fé no conteúdo mas continua escrava da forma e da forma, pois se não existem outras à mão… Mas foi um dia longo e triste, se milagre esperaram foi no hospital, tudo o resto chega atrasado, os olhos viram-se para Maria.
- Eu sei.
E a certeza da resposta só pode chocar quem a não conhecer, viveu muito, de Espanha a guerra, viu desfilar os estrangeiros, nem uma palavra do seu idioma sabiam mas chegavam, alguns mortos de medo, é preciso, apenas o principio, ganhar aqui será evitar o resto, ao contrário do teatro, se o ensaio geral correr bem não haverá espectáculo. Bem para os amigos dela, não para os outros que também traziam estrangeiros, cor morena e vestes longas, de Marrocos vinham os defensores da civilização ocidental, comandados por um general hesitante que a morte de outro atirara para a ribalta. Maria assistiu a tudo, os anarquistas em marcha para salvar Madrid e parando para voltar, que a pressa era muita mas não suficiente para enterrar princípios, saiu caro, nos exércitos vencedores raramente as ordens são discutidas, muito menos se alteram, a prova está aí, reproduções pelas paredes, Guernica agonizante, a Pasionaria enganou-se, passaram mesmo. E quem viu isso já viu tudo, sabe que no Céu ou Inferno não existe surpresa que chegue ao porquê em face de crianças mortas, praças de touros convertidas em cemitérios. Nem sequer resta a certeza de antanho, também amigos dela sujaram mãos, lá em baixo, nesse país que ele amava e nos faz tremer pela violência de amores e ódios, se um general grita “viva la muerte!” é natural que haja um Lorca a tombar. Maria tranquilizou os filhos, carimbando a frase do estranho, ele vem buscar o pai. Aos quinze anos o medo e a estranheza rapidamente cedem a passo à curiosidade, Manuela não resistiu,
- És um anjo?
Ele sorriu, divertido, os olhos azuis faziam contraste nítido com os cabelos brancos, jovens de mais para eles, e para jovens foi a resposta – quem não jogou assim um dia? - , calor e frio ao leme, podes tentar outra vez.
- Quente, Manuela, quente.
E a miúda, plácida, vá de tirar a conclusão lógica da resposta, não admira, os computadores não a assustam, o pai não fazia disso finca-pé, os tempos modernos, desde que mantenha a distância saudável cabeça e coração… Ela assim faz, lógica quanto baste, esconde paixão assolapada pelo filho de um arquitecto de Milão – conheceu-o quando Léo decidiu dirigir orquestra a sério, a sério não o levaram mas levou a dele avante -, só o cinzento da cidade a preocupa, tudo o resto lhe parece claro, é o adolescente da sua vida.
- Então és Deus.
Olhar entre triste e enfastiado,
- De certo modo, sim.
Mathieu explodiu, disposto a perdoar a mentira, jamais a heresia.
- Manuela, pois não vês que se diverte à tua custa? E você, desapareça.
Para si próprio, com uma ponta de orgulho, pensou que se alguém viesse pelo pai teria de ser o Diabo, mesmo em dia triste o sorriso iluminou-lhe o rosto, pois não era evidente? Diabólico seria o homem(?), pareceu adivinhar-lhe o pensamento.
- Não deixas de ter razão, Mathieu. Também de certo modo. E compreendo as tuas dúvidas, não se pode acreditar no primeiro que aparece e diz coisas dos outro mundo. Preferes o Diabo? Pois seja.
Só os olhos mudaram, ma a ninguém lembraria de o acusar de preguiça ou ineficácia, azuis eram e azuis ficaram, a expressão… Sem maldade ou ameaça, pior, uma labareda terrível de frieza, arrepio geral e passo atrás, Maria, baixo, mas firmemente,
- Não os assustes.
Vergonha de garoto em falta.
- Desculpa.
E foi Mathieu a salvá-lo do embaraço, mais cordato, a curiosidade da irmã, enorme, acabava de engolir outra vítima.
- És os dois ao mesmo tempo?
- Inevitavelmente.
- Inevitalvelmente? Mas…
E ele sentou-se junto à campa, os miúdos – e é que não consigo tratá-los de outra forma! – fizeram o mesmo, nem se consultaram com o olhar, à sua volta, conta, só Maria ficou de pé, dir-se-ia que já conhece a história.
- Sabem vocês, quando os homens descobriram a morte ficaram assustados. Não só por saberem que iam morrer, a espera tornava-se insuportável, podia ser hoje, amanhã, depois… Mas a vida também não era assim tão alegre, dúvidas e medos, toda a gente à procura de segurança e muito poucos com alguma para partilhar. Não vos aborreço com os pormenores, inventaram-me a mim.
E evitando embora grandes detalhes explicou-lhes como de filho da angústia deles passara a pai bondoso ou severo conforme as circunstâncias, mas sempre fonte de alívio por estar “lá” e ser possível chamá-lo, até de formas estranhas, como o insulto ou a indiferença. Falou-lhes de adoradores fanáticos que o atavam ao mais insignificante acontecimento, mãos no peito logo abertas esperando benesses e, com mais ternura, de gente humilde à cata de um pouco de sorte neste mundo e não no outro, mas em surdina, não fosse a revolta notar-se. Mostrou-se complacente para os que juravam a sua inexistência com tanto ardor que viviam agarrados a si como lapas e admitiu um fraquinho especial pelos que não discutiam o assunto e mantinham a secreta esperança de estarem sempre a tempo de rever posições, depois se vê.
E Maria, a filha, atreveu-se, em tom de ralhete afectuoso,
- Manuela tinha razão, és Deus e quiseste pregar um susto a Mathieu.
- Mas não conseguiu – resmungou o irmão.
O estranho sorriu.
- Já vos disse que os homens me inventaram, mas não nasci para ser escravo, tenho direitos, saio a meus pais, sou humano. O Diabo, como vo-lo ensinaram, é um subordinado revoltoso, mau como as cobras, desejando o meu lugar, aliciando almas para acções que as levariam direitinhas para o Inferno, local, aliás, aparentemente bem mais divertido do que o Céu que me tinham destinado. Mas as pessoas alucinam o que já existe dentro delas, o que o homem juntou ninguém pode separar, Deus e o Diabo são as duas faces do seu criador.
Decididamente a conversa tornava-se enfadonha para a caçula, a sua costela lógica fazia-a pensar nas mortes pelo mundo e no velho que filosofava com os irmãos, Manuela pasmava com o número de idas e vindas, paciência verdadeiramente divina.
- E vens tu próprio buscar todas as pessoas?
- Não me ouviste dizer que sou humano? Só os meus favoritos. Para os outros existe pessoal competente. Angelical, como tu dirias.
- E porquê o pai?
Mathieu não adivinhava o pensamento, mas era filho prestas a viver com recordações e fotografias, discos também, elogios vindos de tão estranho personagem dariam mais força à imagem que guardava dentro de si.
- Conheces bem as canções dele?
- Bom…
Ele riu a bom rir, as miúdas também, raparigas, estudos e rock deixavam pouco tempo a Mathieu, conhecia as mais importantes.
- É suficiente. Algumas são belas, outras duras, já para não falar daquele senso de humor ácido, o papa, por exemplo, não é propriamente fã do teu pai. Não te escondo também que fui sujeito a pressões, lá onde venho, os poetas que musicou, Allende – prometeu ir acordá-lo um dia -, homens de negro a quem compôs um hino, uma senhora também de negro vestida e chamada Piaf. Tudo isso conta, mas bastaria uma só canção para me fazer vir. Sabes qual é?
Mathieu olhou-o com malícia.
- A solidão.
E ele acusou o toque,
- Essa não acrescentou nada ao que eu já sabia. Não, meu rapaz, a Idade Dourada bastaria para me fazer vir pessoalmente.
O leãozinho fez um esforço, recordou-se e estranhou, pois não era uma canção bem mais de esperança para os homens cá em baixo? A mãe, risonha, Léo, é a utopia!, mas claro, minha querida, como se pode viver sem ela? No lugar do outro roer-se-ia de inveja se o pai acertasse e um dia viessem pão e vinho, sangue a correr por veias adormecidas, segundas-feiras transformadas em domingos. Leitos de areia, frutos de quintais vizinhos, pássaros em terra. Mar e estrelas ombro a ombro, cigarras cantando no Inverno. O amor misturado aos problemas e todos os discursos terminando por “amo-te”, o pai tinha razão, se fosse assim…, que viesse a Idade Dourada.
- Não percebo.
E ele, que lhe acompanhara os pensamentos, fez-lhe uma carícia no rosto e explicou,
- Quando tudo isso acontecer, talvez percebam e me deixem em paz, voltarei para dentro deles, nunca de lá devia ter saído. Porque tudo está nos homens, Mathieu: bem e mal, liberdade e solidão, sou apenas um pretexto para não olhar o espelho. Vão ficando comigo, justos e pecadores (são palavras deles), sem elogio ou reprimenda, até ao dia em que finalmente ganhem juízo.
A expressão era triste e cansada, o olhar vagueou pela montanha atrás da qual se escondera o sol, ergueu-se lentamente, são horas, a vossa mãe que conte o resto. Ou não… Dirigiu-se a Maria e segredou-lhe algo ao ouvido, pôs-lhe o braço pelos ombros, nem sequer fitou a campa e partiu sem espalhafato pelo caminho, passo lento, um velho como tantos outros, os miúdos voltaram a ter dúvidas quanto ao seu estado mental, cabeça e mãos inquietas, parecia falar com alguém, cabelos brancos parecidos com os de…
Mathieu e uma ternura súbita, resolveu brincar com ele, o grito,
- Thank you Satan.
E a estrada ressoou com duas gargalhadas, uma delas era conhecida, atroava a quinta ainda há pouco tempo, camisa negra e lenço vermelho, os miúdos viraram-se para a mãe - ela tinha o braço levantado e acenava, como nas estações de comboios, cabeças à janela, até à vista, já morro de saudades, tranquilizou-os,
- O pai está bem, já vão a discutir.
Aí vai o texto. Fiquei enternecido por ainda te lembrares dele, escrevi-o há tanto tempo! Mas ainda mais por dizeres que tens saudades do maroto que te ensinei a ouvir. Também eu. Muitas, sabes? De o ver no Rivoli, furioso por as luzes fraquejarem - "je travaille, merde!" -, mas logo terno como um miúdo para os cabelos brancos de Maria na plateia. Anos depois, tu sorrindo, o CD na mão, o dedo em riste - "esta falará de nós enquanto eu estiver em Londres...". Tinhas razão. Porque por mail, carta ou sms, a mensagem será sempre a mesma Quand tu me liras - sem ti, cambaleio como um Bateau Ivre. Fica bem.
NO SEU ENTERRO
LÉO FERRÉ
(Variações sobre À mon enterrement)
Um fracasso, o enterro do velho leão. De resto previsível, não lembra ao Diabo compor o próprio funeral, ficamos sujeitos a qualquer pequeno contratempo, a má-língua ao fundo do cortejo, “eu não dizia?, enganou-se em toda a linha”. Mesmo assim há limites, foi humilhante até para quem não passava de mirone, “ah, sim!, o cantor, vestido de preto, cabelos brancos, cheio de tiques, já devia ter uma idadezita”. Não acertou em nada. Potros azuis? Nem vê-los!; e não me venham com a história da cor, liberdades de poeta, negros teriam sido bem mais adequados. O certo é que não apareceram, correndo livres por planícies não toscanas. Fizeram bem; os homens não resistem a domesticar beleza e movimento para os mostrar a visitas dominicais ou públicas ululantes; fizeram bem.
Mas…, e os pops? Onde se meteram as guitarras? Já nem digo flores libertas de espartilhos de coroas, raio de ideia, arranjos estereotipados para celebrar experiência única - nascemos sós mas não notamos, de qualquer modo passamos para o lado de cá, sussurros e carapins cedo nos integram; a morte, essa, põe-nos verdadeiramente ao espelho unidireccional, quem espia através dele, verme ou divindade? Não vieram e deviam, tocaram juntos e correu bem, flirt descarado entre poesia e electricidade, momentos breves, como convém a futuras recordações. É preciso resistir à tentação de mudar secantes em círculos sobrepostos, separam-se como os arcos dos ilusionistas, “senhoras e senhores vou pedir a esta menina da primeira fila que os experimente”, (“aqui há truque, será filha dele?”.
Mulheres de passe também não. Muito menos rapariguinhas de doze anos que o ultraje encheu, talvez nem sequer existam - o homem era um provocador… - em Itália ou França, perdão!, na CEE. Pouco lógico que alguém o conhecesse nas Filipinas e se desse ao trabalho de vir, mesmo aí não é certo, as cadeias de televisão são capazes de tudo por uma boa reportagem, nada nos garante que não sejam mais velhas. E as outras? Seguramente a dormir após noite dura ou amuadas por ele ter abandonado Paris e escolhido quinta mulher única, facto é que não vieram. O cangalheiro nada tem a ver com o previsto, não admira, quem já viu um cangalheiro de dezoito anos e com seis de vagabundagem? Melhor assim, suponhamos que por artes diabólicas cumpria a promessa, comitiva aterrorizada, o cadáver de súbito a estoirar de vida e a fazer amor com o miúdo, trajecto interrompido, “porque parámos?, não olhes, uma vergonha”. Não teve até ao fim um coração de ferro, asseguram os médicos, desde o João Semana da aldeia (grande apreciador do seu vinho) até aos especialistas do hospital; se fez sozinho o troço derradeiro, seguramente não foi de táxi, quanto ao Inferno…, adiante.
E não berrou, senhores, não berrou, embora fosse das profecias a mais esperada, até da morte se duvidava que tivesse coragem para calar o desbragado e os seus verbos activos. (Chamava-lhes poesia, um homem para quem o estilo se abrigava em cu de mulher não devia ter direito a empregar a palavra.) Teve bons mestres: Baudelaire, Rimbaud, Apollinaire, não por acaso apelidados de malditos. Ele sempre a desculpá-los, pior!, a incensá-los, falinhas mansas para os meter pelos nossos ouvidos dentro quando falava de Saint-Germain-des-Prés, até o turismo se pode ressentir de tais coisas. Sempre a falar de ordenadores e cartões perfurados, e as imagens…, melhor fora, um rio é um rio, desagua na foz e pronto, que ideia mais infeliz supor o mar enjoado por ver chegar outras águas, silencioso por decoro. O rio não tem culpa, profundas carências científicas (até um miúdo sabe que a responsabilidade é da Lua), o vento sopra e pára, mas não se estatela em pedras.
E como poderia, por definição, um morto ver? Outros mortos, ideia macabra. Se algo viu, e ninguém jamais o saberá, foram vivos e poucos. Alguns por obrigação, alguns por devoção, mas nada de pintores ou artistas. Silêncio nem pensar – é caso raro no mundo de hoje – e o Sol pregou-lhe a partida, brilhava intensamente, o negro que desejava por todo o lado era apenas uma pequena mancha que se arrastava através do carro (cinzento), perdida no meio da paisagem, as cores da Toscânia não cedem o seu lugar para satisfazer os caprichos de uma anarquista de Mercedes. Quanto a considerar tudo aquilo a última metáfora da ofensa… , talvez se julgasse ao abrigo das leis da vida, se todos recebemos o mesmo veredicto, por que não ele? Em suma: fiasco horrível, as primeiras das suas últimas vontades desrespeitadas em frente de todos, a família nada pôde fazer.
Maria, a seu lado o mais velho, Mathieu, as raparigas mais atrás, é natural, promovido a chefe de família, foi ele que o ensinou a lidar com as crianças, precisava de ter as coisas para as amar. Fim da tarde, a Itália não é a América, cemitérios pequenos mais eriçados, desconhecem o hábito de negar a morte, relvados para passeios e piqueniques de domingo, bandeira ao meio, a terra por baixo fervilhando de vida morta, o american way of life. O sol espreita ainda por trás dos jazigos a poente, muitas pessoas partiram com alívio, quilómetros a fazer, os amigos sabem que é hora de solidão.
Maria olha em volta – inútil ofender alguém! -, para o lixo com toda a hortaliça, como ele dizia no fim dos espectáculos, pedra lisa sem mais nada, amanhã começará a vir de vez em quando, sem dia certo para não cair nas malhas do ritual, sentada ao pé do seu homem, a propósito de homem, quem é aquele? Esguio, de pé à cabeceira da campa, silencioso, de um negro que, esse sim, parecia querer cegar, ficou para trás ou chega agora?
- Maria.
E ela de estremecer, além de mulher é espanhola, aquela voz, desumana de tão doce, recorda-lhe algo, o choro baixo de crianças pelas ruas esburacadas de Barcelona, os pássaros de ventre assassino já partiram, cada corpo é virado com uma prece, Senhor faz com que não seja. Ele já ali, ao pé dela e dos miúdos, olhos estranhos, azul de céu, cabelos brancos como os de…
- Maria, vim buscá-lo.
O espanto dos garotos não surpreende, os garotos!, que arrogância, Mathieu vai nos vinte e quatro, Maria nos dezanove, Manuela nos quinze, homem feito e mulherzinhas. Isto apesar desse hábito das mulheres crescerem mais depressa, como se soubessem que terão de olhar pelos homens, ocupados a provar(-se) que o são, só crescem quando param de o tentar à viva força. Foi difícil deixar de os tratar pelo diminutivos, eles ofendidos, pior seria se soubessem de luzes acesas até passos ressoarem no empedrado do jardim, Léo dizia à mulher, preocupada, que o tempo deve ser gasto a viver, entrava nela docemente, ria baixinho, tinha graça se ficasses à espera de outro à espera deles, tolo, sabes a minha idade?, não acredito nisso, a vida é um milagre e não um favor de hormonas, chhh…, que já chegaram. E daí talvez surpreenda, o pai ensinou-lhes que acarretamos a transcendência dentro de nós, chamar-lhe Deus ou outra coisa é indiferente, admirava-o mais a certeza dos ateus - mas existe disso no mundo? -, talvez gente que perdeu a fé no conteúdo mas continua escrava da forma e da forma, pois se não existem outras à mão… Mas foi um dia longo e triste, se milagre esperaram foi no hospital, tudo o resto chega atrasado, os olhos viram-se para Maria.
- Eu sei.
E a certeza da resposta só pode chocar quem a não conhecer, viveu muito, de Espanha a guerra, viu desfilar os estrangeiros, nem uma palavra do seu idioma sabiam mas chegavam, alguns mortos de medo, é preciso, apenas o principio, ganhar aqui será evitar o resto, ao contrário do teatro, se o ensaio geral correr bem não haverá espectáculo. Bem para os amigos dela, não para os outros que também traziam estrangeiros, cor morena e vestes longas, de Marrocos vinham os defensores da civilização ocidental, comandados por um general hesitante que a morte de outro atirara para a ribalta. Maria assistiu a tudo, os anarquistas em marcha para salvar Madrid e parando para voltar, que a pressa era muita mas não suficiente para enterrar princípios, saiu caro, nos exércitos vencedores raramente as ordens são discutidas, muito menos se alteram, a prova está aí, reproduções pelas paredes, Guernica agonizante, a Pasionaria enganou-se, passaram mesmo. E quem viu isso já viu tudo, sabe que no Céu ou Inferno não existe surpresa que chegue ao porquê em face de crianças mortas, praças de touros convertidas em cemitérios. Nem sequer resta a certeza de antanho, também amigos dela sujaram mãos, lá em baixo, nesse país que ele amava e nos faz tremer pela violência de amores e ódios, se um general grita “viva la muerte!” é natural que haja um Lorca a tombar. Maria tranquilizou os filhos, carimbando a frase do estranho, ele vem buscar o pai. Aos quinze anos o medo e a estranheza rapidamente cedem a passo à curiosidade, Manuela não resistiu,
- És um anjo?
Ele sorriu, divertido, os olhos azuis faziam contraste nítido com os cabelos brancos, jovens de mais para eles, e para jovens foi a resposta – quem não jogou assim um dia? - , calor e frio ao leme, podes tentar outra vez.
- Quente, Manuela, quente.
E a miúda, plácida, vá de tirar a conclusão lógica da resposta, não admira, os computadores não a assustam, o pai não fazia disso finca-pé, os tempos modernos, desde que mantenha a distância saudável cabeça e coração… Ela assim faz, lógica quanto baste, esconde paixão assolapada pelo filho de um arquitecto de Milão – conheceu-o quando Léo decidiu dirigir orquestra a sério, a sério não o levaram mas levou a dele avante -, só o cinzento da cidade a preocupa, tudo o resto lhe parece claro, é o adolescente da sua vida.
- Então és Deus.
Olhar entre triste e enfastiado,
- De certo modo, sim.
Mathieu explodiu, disposto a perdoar a mentira, jamais a heresia.
- Manuela, pois não vês que se diverte à tua custa? E você, desapareça.
Para si próprio, com uma ponta de orgulho, pensou que se alguém viesse pelo pai teria de ser o Diabo, mesmo em dia triste o sorriso iluminou-lhe o rosto, pois não era evidente? Diabólico seria o homem(?), pareceu adivinhar-lhe o pensamento.
- Não deixas de ter razão, Mathieu. Também de certo modo. E compreendo as tuas dúvidas, não se pode acreditar no primeiro que aparece e diz coisas dos outro mundo. Preferes o Diabo? Pois seja.
Só os olhos mudaram, ma a ninguém lembraria de o acusar de preguiça ou ineficácia, azuis eram e azuis ficaram, a expressão… Sem maldade ou ameaça, pior, uma labareda terrível de frieza, arrepio geral e passo atrás, Maria, baixo, mas firmemente,
- Não os assustes.
Vergonha de garoto em falta.
- Desculpa.
E foi Mathieu a salvá-lo do embaraço, mais cordato, a curiosidade da irmã, enorme, acabava de engolir outra vítima.
- És os dois ao mesmo tempo?
- Inevitavelmente.
- Inevitalvelmente? Mas…
E ele sentou-se junto à campa, os miúdos – e é que não consigo tratá-los de outra forma! – fizeram o mesmo, nem se consultaram com o olhar, à sua volta, conta, só Maria ficou de pé, dir-se-ia que já conhece a história.
- Sabem vocês, quando os homens descobriram a morte ficaram assustados. Não só por saberem que iam morrer, a espera tornava-se insuportável, podia ser hoje, amanhã, depois… Mas a vida também não era assim tão alegre, dúvidas e medos, toda a gente à procura de segurança e muito poucos com alguma para partilhar. Não vos aborreço com os pormenores, inventaram-me a mim.
E evitando embora grandes detalhes explicou-lhes como de filho da angústia deles passara a pai bondoso ou severo conforme as circunstâncias, mas sempre fonte de alívio por estar “lá” e ser possível chamá-lo, até de formas estranhas, como o insulto ou a indiferença. Falou-lhes de adoradores fanáticos que o atavam ao mais insignificante acontecimento, mãos no peito logo abertas esperando benesses e, com mais ternura, de gente humilde à cata de um pouco de sorte neste mundo e não no outro, mas em surdina, não fosse a revolta notar-se. Mostrou-se complacente para os que juravam a sua inexistência com tanto ardor que viviam agarrados a si como lapas e admitiu um fraquinho especial pelos que não discutiam o assunto e mantinham a secreta esperança de estarem sempre a tempo de rever posições, depois se vê.
E Maria, a filha, atreveu-se, em tom de ralhete afectuoso,
- Manuela tinha razão, és Deus e quiseste pregar um susto a Mathieu.
- Mas não conseguiu – resmungou o irmão.
O estranho sorriu.
- Já vos disse que os homens me inventaram, mas não nasci para ser escravo, tenho direitos, saio a meus pais, sou humano. O Diabo, como vo-lo ensinaram, é um subordinado revoltoso, mau como as cobras, desejando o meu lugar, aliciando almas para acções que as levariam direitinhas para o Inferno, local, aliás, aparentemente bem mais divertido do que o Céu que me tinham destinado. Mas as pessoas alucinam o que já existe dentro delas, o que o homem juntou ninguém pode separar, Deus e o Diabo são as duas faces do seu criador.
Decididamente a conversa tornava-se enfadonha para a caçula, a sua costela lógica fazia-a pensar nas mortes pelo mundo e no velho que filosofava com os irmãos, Manuela pasmava com o número de idas e vindas, paciência verdadeiramente divina.
- E vens tu próprio buscar todas as pessoas?
- Não me ouviste dizer que sou humano? Só os meus favoritos. Para os outros existe pessoal competente. Angelical, como tu dirias.
- E porquê o pai?
Mathieu não adivinhava o pensamento, mas era filho prestas a viver com recordações e fotografias, discos também, elogios vindos de tão estranho personagem dariam mais força à imagem que guardava dentro de si.
- Conheces bem as canções dele?
- Bom…
Ele riu a bom rir, as miúdas também, raparigas, estudos e rock deixavam pouco tempo a Mathieu, conhecia as mais importantes.
- É suficiente. Algumas são belas, outras duras, já para não falar daquele senso de humor ácido, o papa, por exemplo, não é propriamente fã do teu pai. Não te escondo também que fui sujeito a pressões, lá onde venho, os poetas que musicou, Allende – prometeu ir acordá-lo um dia -, homens de negro a quem compôs um hino, uma senhora também de negro vestida e chamada Piaf. Tudo isso conta, mas bastaria uma só canção para me fazer vir. Sabes qual é?
Mathieu olhou-o com malícia.
- A solidão.
E ele acusou o toque,
- Essa não acrescentou nada ao que eu já sabia. Não, meu rapaz, a Idade Dourada bastaria para me fazer vir pessoalmente.
O leãozinho fez um esforço, recordou-se e estranhou, pois não era uma canção bem mais de esperança para os homens cá em baixo? A mãe, risonha, Léo, é a utopia!, mas claro, minha querida, como se pode viver sem ela? No lugar do outro roer-se-ia de inveja se o pai acertasse e um dia viessem pão e vinho, sangue a correr por veias adormecidas, segundas-feiras transformadas em domingos. Leitos de areia, frutos de quintais vizinhos, pássaros em terra. Mar e estrelas ombro a ombro, cigarras cantando no Inverno. O amor misturado aos problemas e todos os discursos terminando por “amo-te”, o pai tinha razão, se fosse assim…, que viesse a Idade Dourada.
- Não percebo.
E ele, que lhe acompanhara os pensamentos, fez-lhe uma carícia no rosto e explicou,
- Quando tudo isso acontecer, talvez percebam e me deixem em paz, voltarei para dentro deles, nunca de lá devia ter saído. Porque tudo está nos homens, Mathieu: bem e mal, liberdade e solidão, sou apenas um pretexto para não olhar o espelho. Vão ficando comigo, justos e pecadores (são palavras deles), sem elogio ou reprimenda, até ao dia em que finalmente ganhem juízo.
A expressão era triste e cansada, o olhar vagueou pela montanha atrás da qual se escondera o sol, ergueu-se lentamente, são horas, a vossa mãe que conte o resto. Ou não… Dirigiu-se a Maria e segredou-lhe algo ao ouvido, pôs-lhe o braço pelos ombros, nem sequer fitou a campa e partiu sem espalhafato pelo caminho, passo lento, um velho como tantos outros, os miúdos voltaram a ter dúvidas quanto ao seu estado mental, cabeça e mãos inquietas, parecia falar com alguém, cabelos brancos parecidos com os de…
Mathieu e uma ternura súbita, resolveu brincar com ele, o grito,
- Thank you Satan.
E a estrada ressoou com duas gargalhadas, uma delas era conhecida, atroava a quinta ainda há pouco tempo, camisa negra e lenço vermelho, os miúdos viraram-se para a mãe - ela tinha o braço levantado e acenava, como nas estações de comboios, cabeças à janela, até à vista, já morro de saudades, tranquilizou-os,
- O pai está bem, já vão a discutir.
quarta-feira, outubro 11, 2006
É por isso que nós homens falamos pouco de amor - acendemos:)!
Amor Mudo
Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!
Herberto Helder.
Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!
Herberto Helder.
terça-feira, outubro 10, 2006
sábado, outubro 07, 2006
É a vida!, como diria o primeiro:).
Sócrates em defesa do aborto
2006/10/06 23:59
Líder socialista apresentou moção ao congresso e diz que partido «não é neutro». Por isso, deve fazer campanha no referendo em defesa da despenalização da interrupção voluntária da gravidez
A moção política que José Sócrates subscreve no XV Congresso do PS defende que o partido «não é neutro» na questão do aborto e deve fazer campanha no referendo em defesa da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, escreve a agência Lusa.
«Neste referendo o PS não é neutro e tem uma posição clara» garante o texto, no qual se recorda que a consulta popular a realizar em 2007 nasceu de uma iniciativa socialista.
O documento defende que «o PS deve continuar a defender a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, desde que efectuada até às dez semanas e em estabelecimento legalmente autorizado».
«O PS deve, pois, participar na mobilização social para a despenalização e contribuir para uma vitória do SIM no referendo», refere a moção, que se manifesta «contra a ameaça de prisão das mulheres e contra o aborto clandestino».
P.S. (que adequado...) - Ainda bem que Sócrates não deixou margem para dúvidas, o contrário ter-me-ia surpreendido. Mas muitos que se mantiveram quietinhos e em silêncio para agradarem a um engenheiro, vão agora devorar quilómetros em devota militância para satisfazerem outro. As voltas que o mundo e as consciências dão...
2006/10/06 23:59
Líder socialista apresentou moção ao congresso e diz que partido «não é neutro». Por isso, deve fazer campanha no referendo em defesa da despenalização da interrupção voluntária da gravidez
A moção política que José Sócrates subscreve no XV Congresso do PS defende que o partido «não é neutro» na questão do aborto e deve fazer campanha no referendo em defesa da despenalização da interrupção voluntária da gravidez, escreve a agência Lusa.
«Neste referendo o PS não é neutro e tem uma posição clara» garante o texto, no qual se recorda que a consulta popular a realizar em 2007 nasceu de uma iniciativa socialista.
O documento defende que «o PS deve continuar a defender a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, desde que efectuada até às dez semanas e em estabelecimento legalmente autorizado».
«O PS deve, pois, participar na mobilização social para a despenalização e contribuir para uma vitória do SIM no referendo», refere a moção, que se manifesta «contra a ameaça de prisão das mulheres e contra o aborto clandestino».
P.S. (que adequado...) - Ainda bem que Sócrates não deixou margem para dúvidas, o contrário ter-me-ia surpreendido. Mas muitos que se mantiveram quietinhos e em silêncio para agradarem a um engenheiro, vão agora devorar quilómetros em devota militância para satisfazerem outro. As voltas que o mundo e as consciências dão...
sexta-feira, outubro 06, 2006
Mais do que justo!
Gulbenkian rendeu-se a Anne Sofie von Otter
2006/10/05 11:19
Sueca, cujo reportório vai da ópera barroca ao pop, foi aplaudida de pé
Uma série de prolongados aplausos e três extras coroaram a actuação da meia-soprano sueca Anne Sofie von Otter em Lisboa, quarta-feira à noite, na abertura da nova temporada de música da Fundação Gulbenkian, noticia a agência Lusa.
Depois de ter interpretado as vinte canções do programa, acompanhada por um conjunto de nove instrumentistas, Anne Sofie von Otter voltou ao palco três vezes, para cantar mais três temas, um dos quais sem microfone, e ao despedir-se do público, comentou: «Foi uma noite maravilhosa».
Anne Sofie von Otter, 51 anos, é uma das mais aclamadas cantoras líricas da actualidade e com um reportório que vai da ópera barroca às canções pop.
«É um verdadeiro camaleão, capaz de cantar tudo, da música pré-histórica até aos Beatles», disse o maestro Marc Minkowsky acerca de Anne Sofie von Otter.
Quarta-feira à noite, von Otter cantou várias músicas dos Abba, o mais famoso grupo pop sueco, muito popular no final dos anos setenta, e canções de Kurt Weil, Elvis Costello e Charles Trenet.
O espectáculo, esgotado há várias semanas, chamava-se «I Let The Music Speak», que é também o título do seu último disco.
A nova temporada de música da Gulbenkian, que decorre até Junho de 2007, é uma das mais importantes de sempre, com 128 concertos e um ciclo de piano que trará a Lisboa os principais intérpretes mundiais.
PortugalDiário.
2006/10/05 11:19
Sueca, cujo reportório vai da ópera barroca ao pop, foi aplaudida de pé
Uma série de prolongados aplausos e três extras coroaram a actuação da meia-soprano sueca Anne Sofie von Otter em Lisboa, quarta-feira à noite, na abertura da nova temporada de música da Fundação Gulbenkian, noticia a agência Lusa.
Depois de ter interpretado as vinte canções do programa, acompanhada por um conjunto de nove instrumentistas, Anne Sofie von Otter voltou ao palco três vezes, para cantar mais três temas, um dos quais sem microfone, e ao despedir-se do público, comentou: «Foi uma noite maravilhosa».
Anne Sofie von Otter, 51 anos, é uma das mais aclamadas cantoras líricas da actualidade e com um reportório que vai da ópera barroca às canções pop.
«É um verdadeiro camaleão, capaz de cantar tudo, da música pré-histórica até aos Beatles», disse o maestro Marc Minkowsky acerca de Anne Sofie von Otter.
Quarta-feira à noite, von Otter cantou várias músicas dos Abba, o mais famoso grupo pop sueco, muito popular no final dos anos setenta, e canções de Kurt Weil, Elvis Costello e Charles Trenet.
O espectáculo, esgotado há várias semanas, chamava-se «I Let The Music Speak», que é também o título do seu último disco.
A nova temporada de música da Gulbenkian, que decorre até Junho de 2007, é uma das mais importantes de sempre, com 128 concertos e um ciclo de piano que trará a Lisboa os principais intérpretes mundiais.
PortugalDiário.
quarta-feira, outubro 04, 2006
Um trovador anticlerical.
Les clercs se donnent pour des bergers
et ce sont des assassins
sous des airs de sainteté.
Quand je les vois se vêtir
il me souvient de messire
Ysengrin qui voulut un jour
entrer dans une bergerie
mais par crainte des chiens
il endossa une peau de mouton
et trompa leur surveillance
puis il dévora par trahison
les bêtes qui lui plurent.
Peire Cardenal (1205-1272).
et ce sont des assassins
sous des airs de sainteté.
Quand je les vois se vêtir
il me souvient de messire
Ysengrin qui voulut un jour
entrer dans une bergerie
mais par crainte des chiens
il endossa une peau de mouton
et trompa leur surveillance
puis il dévora par trahison
les bêtes qui lui plurent.
Peire Cardenal (1205-1272).
Ai o calor da vida no campo!
Alfândega russa descobre pipeline de vodka para a LetóniaAs autoridades alfandegárias russas descobriram um pipeline com mais de 1,5 kms usado por contrabandistas para enviar vodka para a Letónia.
O oleoduto de vodka foi descoberto quando funcionários da câmara municipal de Buholovo, localidade russa junto à fronteira, estavam a plantar árvores.
«O esquema poderia funcionar durante décadas se não fosse termos aberto buracos para plantar as árvores», referiu um responsável policial russo.
As autoridades estão agora a investigar o caso após terem descoberto que o pipeline ligava duas casas arrendadas que se encontravam vazias aquando das rusgas policiais.
04-10-2006 9:58:55
DiárioDigital
O oleoduto de vodka foi descoberto quando funcionários da câmara municipal de Buholovo, localidade russa junto à fronteira, estavam a plantar árvores.
«O esquema poderia funcionar durante décadas se não fosse termos aberto buracos para plantar as árvores», referiu um responsável policial russo.
As autoridades estão agora a investigar o caso após terem descoberto que o pipeline ligava duas casas arrendadas que se encontravam vazias aquando das rusgas policiais.
04-10-2006 9:58:55
DiárioDigital
terça-feira, outubro 03, 2006
Esclarecimento.
1 - As azeitonas assassinam-me a vesícula.
2 - Mas estas são musicais e gente simpática.
3 - O meu filho João toca com elas de quando em vez.
4 - Uma das vezes é no tema Sílvia Alberto.
5 - Por coincidência decidi meter o link no Murcon.
6 - Não consigo localizar a dita Sílvia Alberto nas minhas recordações.
7 - Razão pela qual não decidi ainda se acompanho Os Azeitonas em paixão tão fulgurante que lhes chega a entrecortar as vozes (Si-si-si...).
2 - Mas estas são musicais e gente simpática.
3 - O meu filho João toca com elas de quando em vez.
4 - Uma das vezes é no tema Sílvia Alberto.
5 - Por coincidência decidi meter o link no Murcon.
6 - Não consigo localizar a dita Sílvia Alberto nas minhas recordações.
7 - Razão pela qual não decidi ainda se acompanho Os Azeitonas em paixão tão fulgurante que lhes chega a entrecortar as vozes (Si-si-si...).
segunda-feira, outubro 02, 2006
A pedido de várias famílias:).
Children who are born to or adopted by 1 member of a same-sex couple deserve the security of 2 legally recognized parents. Therefore, the American Academy of Pediatrics supports legislative and legal efforts to provide the possibility of adoption of the child by the second parent or coparent in these families.
Children deserve to know that their relationships with both of their parents are stable and legally recognized. This applies to all children, whether their parents are of the same or opposite sex. The American Academy of Pediatrics recognizes that a considerable body of professional literature provides evidence that children with parents who are homosexual can have the same advantages and the same expectations for health, adjustment, and development as can children whose parents are heterosexual.1–9 When 2 adults participate in parenting a child, they and the child deserve the serenity that comes with legal recognition.
Children born or adopted into families headed by partners who are of the same sex usually have only 1 biologic or adoptive legal parent. The other partner in a parental role is called the "coparent" or "second parent." Because these families and children need the permanence and security that are provided by having 2 fully sanctioned and legally defined parents, the Academy supports the legal adoption of children by coparents or second parents. Denying legal parent status through adoption to coparents or second parents prevents these children from enjoying the psychologic and legal security that comes from having 2 willing, capable, and loving parents.
Several states have considered or enacted legislation sanctioning second-parent adoption by partners of the same sex. In addition, legislative initiatives assuring legal status equivalent to marriage for gay and lesbian partners, such as the law approving civil unions in Vermont, can also attend to providing security and permanence for the children of those partnerships.
Many states have not yet considered legislative actions to ensure the security of children whose parents are gay or lesbian. Rather, adoption has been decided by probate or family courts on a case-by-case basis. Case precedent is limited. It is important that a broad ethical mandate exist nationally that will guide the courts in providing necessary protection for children through coparent adoption.
Coparent or second-parent adoption protects the child’s right to maintain continuing relationships with both parents. The legal sanction provided by coparent adoption accomplishes the following:
Guarantees that the second parent’s custody rights and responsibilities will be protected if the first parent were to die or become incapacitated. Moreover, second-parent adoption protects the child’s legal right of relationships with both parents. In the absence of coparent adoption, members of the family of the legal parent, should he or she become incapacitated, might successfully challenge the surviving coparent’s rights to continue to parent the child, thus causing the child to lose both parents.
Protects the second parent’s rights to custody and visitation if the couple separates. Likewise, the child’s right to maintain relationships with both parents after separation, viewed as important to a positive outcome in separation or divorce of heterosexual parents, would be protected for families with gay or lesbian parents.
Establishes the requirement for child support from both parents in the event of the parents’ separation.
Ensures the child’s eligibility for health benefits from both parents.
Provides legal grounds for either parent to provide consent for medical care and to make education, health care, and other important decisions on behalf of the child.
Creates the basis for financial security for children in the event of the death of either parent by ensuring eligibility to all appropriate entitlements, such as Social Security survivors benefits.
On the basis of the acknowledged desirability that children have and maintain a continuing relationship with 2 loving and supportive parents, the Academy recommends that pediatricians do the following:
Be familiar with professional literature regarding gay and lesbian parents and their children.
Support the right of every child and family to the financial, psychologic, and legal security that results from having legally recognized parents who are committed to each other and to the welfare of their children.
Advocate for initiatives that establish permanency through coparent or second-parent adoption for children of same-sex partners through the judicial system, legislation, and community education.
COMMITTEE ON PSYCHOSOCIAL ASPECTS OF CHILD AND FAMILY HEALTH, 2000–2001
Joseph F. Hagan, Jr, MD, Chairperson
William L. Coleman, MD
Jane M. Foy, MD
Edward Goldson, MD
Barbara J. Howard, MD
Ana Navarro, MD
J. Lane Tanner, MD
Hyman C. Tolmas, MD
LIAISONS
F. Daniel Armstrong, PhD
Society of Pediatric Psychology
David R. DeMaso, MD
American Academy of Child and Adolescent Psychiatry
Peggy Gilbertson, RN, MPH, CPNP
National Association of Pediatric Nurse Practitioners
Sally E. A. Longstaffe, MD
Canadian Paediatric Society
CONSULTANTS
George J. Cohen, MD
Ellen C. Perrin, MD
STAFF
Karen Smith
Children deserve to know that their relationships with both of their parents are stable and legally recognized. This applies to all children, whether their parents are of the same or opposite sex. The American Academy of Pediatrics recognizes that a considerable body of professional literature provides evidence that children with parents who are homosexual can have the same advantages and the same expectations for health, adjustment, and development as can children whose parents are heterosexual.1–9 When 2 adults participate in parenting a child, they and the child deserve the serenity that comes with legal recognition.
Children born or adopted into families headed by partners who are of the same sex usually have only 1 biologic or adoptive legal parent. The other partner in a parental role is called the "coparent" or "second parent." Because these families and children need the permanence and security that are provided by having 2 fully sanctioned and legally defined parents, the Academy supports the legal adoption of children by coparents or second parents. Denying legal parent status through adoption to coparents or second parents prevents these children from enjoying the psychologic and legal security that comes from having 2 willing, capable, and loving parents.
Several states have considered or enacted legislation sanctioning second-parent adoption by partners of the same sex. In addition, legislative initiatives assuring legal status equivalent to marriage for gay and lesbian partners, such as the law approving civil unions in Vermont, can also attend to providing security and permanence for the children of those partnerships.
Many states have not yet considered legislative actions to ensure the security of children whose parents are gay or lesbian. Rather, adoption has been decided by probate or family courts on a case-by-case basis. Case precedent is limited. It is important that a broad ethical mandate exist nationally that will guide the courts in providing necessary protection for children through coparent adoption.
Coparent or second-parent adoption protects the child’s right to maintain continuing relationships with both parents. The legal sanction provided by coparent adoption accomplishes the following:
Guarantees that the second parent’s custody rights and responsibilities will be protected if the first parent were to die or become incapacitated. Moreover, second-parent adoption protects the child’s legal right of relationships with both parents. In the absence of coparent adoption, members of the family of the legal parent, should he or she become incapacitated, might successfully challenge the surviving coparent’s rights to continue to parent the child, thus causing the child to lose both parents.
Protects the second parent’s rights to custody and visitation if the couple separates. Likewise, the child’s right to maintain relationships with both parents after separation, viewed as important to a positive outcome in separation or divorce of heterosexual parents, would be protected for families with gay or lesbian parents.
Establishes the requirement for child support from both parents in the event of the parents’ separation.
Ensures the child’s eligibility for health benefits from both parents.
Provides legal grounds for either parent to provide consent for medical care and to make education, health care, and other important decisions on behalf of the child.
Creates the basis for financial security for children in the event of the death of either parent by ensuring eligibility to all appropriate entitlements, such as Social Security survivors benefits.
On the basis of the acknowledged desirability that children have and maintain a continuing relationship with 2 loving and supportive parents, the Academy recommends that pediatricians do the following:
Be familiar with professional literature regarding gay and lesbian parents and their children.
Support the right of every child and family to the financial, psychologic, and legal security that results from having legally recognized parents who are committed to each other and to the welfare of their children.
Advocate for initiatives that establish permanency through coparent or second-parent adoption for children of same-sex partners through the judicial system, legislation, and community education.
COMMITTEE ON PSYCHOSOCIAL ASPECTS OF CHILD AND FAMILY HEALTH, 2000–2001
Joseph F. Hagan, Jr, MD, Chairperson
William L. Coleman, MD
Jane M. Foy, MD
Edward Goldson, MD
Barbara J. Howard, MD
Ana Navarro, MD
J. Lane Tanner, MD
Hyman C. Tolmas, MD
LIAISONS
F. Daniel Armstrong, PhD
Society of Pediatric Psychology
David R. DeMaso, MD
American Academy of Child and Adolescent Psychiatry
Peggy Gilbertson, RN, MPH, CPNP
National Association of Pediatric Nurse Practitioners
Sally E. A. Longstaffe, MD
Canadian Paediatric Society
CONSULTANTS
George J. Cohen, MD
Ellen C. Perrin, MD
STAFF
Karen Smith
domingo, outubro 01, 2006
Mais um passo...
Casal homossexual adopta criança
2006/09/30 23:57
PortugalDiário
Primeiro caso em Espanha. Maioria dos pedidos é de casais masculinos
Um casal homossexual de Barcelona conseguiu adoptar uma criança, o primeiro caso em Espanha, ao abrigo da nova lei, que dá aos casais homossexuais os mesmos direitos do que os heterossexuais, avançam os órgãos de comunicação social espanhóis.
Segundo Carme Figueras, conselheira do bem-estar e da família da Catalunha, 28 casais homossexuais tinham efectuado a inscrição para adoptar de acordo com a nova lei. A maioria dos pedidos é de casais do sexo masculino.
Já existem casos em Espanha de casais homossexuais que se tornaram pais legais de crianças de um dos homens, mas esta é a primeira vez que a adopção é concedida a um casal sem laços sanguíneos com a criança.
«O mais importante na adopção é que a criança seja a beneficiada, que ele ou ela seja amada, cuidada, respeitada e não maltratada», disse Carme Figueras.
A legalização do casamento «gay» foi uma das medidas introduzidas pelo primeiro-ministro socialista José Luiz Rodriguez Zapatero quando assumiu o poder em 2004.
P.S. O Murcon tornou-se um pouco o meu Diário da República:). Alguns de vocês podem, por casualidade, ter ouvido um comentário meu na Antena1 a propósito do Dia da Música. Nele falava de uma investigação levada a cabo por um colega do Porto sobre tipos de música jovem, as drogas que lhes estão preferencialmente associadas e as perspectivas sociológicas a retirar desses fenómenos. Por incúria, esqueci-me de referir o nome do autor do estudo. A Antena1 prometeu fazê-lo, mas nunca se sabe o que acontece na lufa-lufa da edição. Portanto, aqui fica o seu a seu dono - referia-me ao Mestre Victor Silva da Comunidade Terapêutica do Norte.
2006/09/30 23:57
PortugalDiário
Primeiro caso em Espanha. Maioria dos pedidos é de casais masculinos
Um casal homossexual de Barcelona conseguiu adoptar uma criança, o primeiro caso em Espanha, ao abrigo da nova lei, que dá aos casais homossexuais os mesmos direitos do que os heterossexuais, avançam os órgãos de comunicação social espanhóis.
Segundo Carme Figueras, conselheira do bem-estar e da família da Catalunha, 28 casais homossexuais tinham efectuado a inscrição para adoptar de acordo com a nova lei. A maioria dos pedidos é de casais do sexo masculino.
Já existem casos em Espanha de casais homossexuais que se tornaram pais legais de crianças de um dos homens, mas esta é a primeira vez que a adopção é concedida a um casal sem laços sanguíneos com a criança.
«O mais importante na adopção é que a criança seja a beneficiada, que ele ou ela seja amada, cuidada, respeitada e não maltratada», disse Carme Figueras.
A legalização do casamento «gay» foi uma das medidas introduzidas pelo primeiro-ministro socialista José Luiz Rodriguez Zapatero quando assumiu o poder em 2004.
P.S. O Murcon tornou-se um pouco o meu Diário da República:). Alguns de vocês podem, por casualidade, ter ouvido um comentário meu na Antena1 a propósito do Dia da Música. Nele falava de uma investigação levada a cabo por um colega do Porto sobre tipos de música jovem, as drogas que lhes estão preferencialmente associadas e as perspectivas sociológicas a retirar desses fenómenos. Por incúria, esqueci-me de referir o nome do autor do estudo. A Antena1 prometeu fazê-lo, mas nunca se sabe o que acontece na lufa-lufa da edição. Portanto, aqui fica o seu a seu dono - referia-me ao Mestre Victor Silva da Comunidade Terapêutica do Norte.
Subscrever:
Mensagens (Atom)