quarta-feira, dezembro 31, 2008

Circular personalizada.

Gente,

Confesso que não me dou bem com alegrias, decisões ou rituais de passagem com data marcada:). Mas é sempre boa altura para vos desejar 365 dias de luz. Mesmo que literal ou alegoricamente vacilante, como a do meu Porto:). Um abraço grato a todos!

quinta-feira, dezembro 25, 2008

A Alucinada Família.

Maria,

O estalar da madeira no silêncio da casa, que me acolheu sem perguntas na ressaca de mais um Natal. A mesa que se espreguiça, para meu espanto. As cadeiras multiplicam-se nas margens dela. Apago a televisão, desligo o computador e espero, não acredito em caprichos da mobília sem objectivo ou lugares vazios para a eternidade. Não foi preciso esperar tanto...
Minha Mãe à cabeceira. Um sorriso doce na minha direcção, antes de sondar as frinchas da porta em busca de correntes de ar assassinas. O gesto de satisfeita aprovação. Um último relance em volta, o aquecedor já crepita, "Júlio, querido, podes vir sentar-te".
O meu Velho e a sua lendária elegância: casaco, gravata, colete, botões de punho, vinco das calças, a risca intransigente que lhe separa os belos cabelos brancos. "Obrigado, Maria". (Também a trata assim...). O afecto menos pacífico do que o de minha Mãe, somos amantes circunspectos, os dedos afloram-me o rosto quase a medo e correm para o refúgio do dela, que todo se ilumina. Assim, lado a lado, sem um gesto, transformam o mundo em redor num gigantesco armazém de adereços inúteis.
Ou talvez não... Minha Avó chega por sua vez. O genro saúda-a com graça carinhosa, "ah, a Rainha Mãe". Ela desafia-o com a arrogância divertida que a trouxe de uma viuvez próxima da miséria aos camarins dos teatros em que a filha cantava e ele as conheceu; a paixão foi a dois, mas o casamento a três. Observa-me cuidadosamente, se parecer magro ou triste ficarei em maus lençóis!, o menino dela ofende-a se não irradiar felicidade.
Os outros... O segundo marido de minha Avó, ensinou-me a fazer palavras cruzadas e a ver um homem que chora sem vergonha, mansamente; o Pierre, olha para o caos reinante e abana a cabeça, o melhor amigo é um caso perdido; o Zé Gabriel, a mão gulosa avança para o leitor de CDs e recua, a minha toma o seu lugar, sem música não ficará.
E os outros depois dos outros! Os meus Avós paternos, o Rui Alcobia, George Harrison, John Lennon, Zeca Afonso, Ballester..., a mesa, de tão longa, não permite que os reconheça sem viagem longa. Mais tarde. Agora ocupo a outra cabeceira e espero.
Meus Pais fazem um sinal, tão entrelaçado como os corpos de Fred Astaire e Ginger Rogers, e o Natal começa, Maria, a realidade é a velhice da imaginação! Repara no lugar vazio a meu lado, querida, espera por ti.
E eles também...:).

sábado, dezembro 20, 2008

Domingo à noite.

Maria,



A severidade risonha que eu amava, por o ralhete já esconder o afago e o "nem penses" o "porque esperas?":).
Cheguei de Cantelães e saboreei uma vez mais Mystic River. Tudo o que me rodeia desagua em ti... O bar, os amigos, o comentário de alguém, "adorei As Pontes de Madison County". O meu vício pelos consensos fáceis e as frases feitas por outros - "É o último dos grandes". Aquele sorriso com que me fazias sentir um puto superficial, o meu amuo, o esquecimento. E um outro filme do velho Clint, a minha provocação, "mais um silêncio snob, querida?". E tu, manipulando a minha frase -´"É o único dos grandes que se tornou grande". Tinhas razão, claro, ambos o pressentíramos, extasiados, depois de ver o espantoso e inesperado Bird. O homem passou para trás da câmara e deixou de ser um ícone, "entreteve-se" a realizar obras-primas. Como Mystic River: uma história, a narração, os actores e o absurdo da vida, quem precisa de efeitos especiais?
A severidade risonha que eu amava. Este desejo apressado, a cumplicidade obediente do comando. O sobrolho franzido, "terás reparado que estava a ver o filme?". E a minha resposta, digna de uma daquelas vozes mecânicas que anunciam os pacotes da TVCabo: "Não há problema, estão sempre a repetir". O teu riso maroto, a voz já misturada com o meu pescoço, "és capaz de fazer o mesmo?".
O sim da minha paixão adolescente:).
A prece humilde do meu corpo envelhecido...

terça-feira, dezembro 16, 2008

A dois tempos.

Maria,

Quando escrevia a um cinzentão qualquer, teclado e mãos revoltaram-se e meia-resposta desarvorou. Conheces a minha assinalável ignorância tecnológica, não culpei azar ou praga divina, seguramente premi ao de leve teclas que deram o tiro de partida. A funda humilhação; o medo à flor da pele - que declínio cerebral acelerado espreita por entre dedos trôpegos?
Como sempre, o olhar na direcção da tua ausência, em busca de auxílio. (Pareço católico órfão, rezando a nicho de onde fugiu um dos burocratas nascidos da explosão demográfica de santidade, cujo epicentro se situa no Vaticano.) E a pintura canhestra de cenário mais doce para os factos, ambos sabemos como dependem do contexto.
Alucinei-te. Recebendo, no princípio de nós, mail meu. Titilante e desafiador, essa cabecinha ordenada em batalha clandestina com o coração, mais atento à sabedoria epidérmica e menos ao espartilho da geometria racional. Os dedos trémulos, aflorando teclado e desejo, seria injusto crucificá-los pelo deslize. Os minutos de reflexão; as mulheres conhecem os lapsos freudianos desde a eternidade, não precisaram da auto-análise do estóico senhor vienense, que não rejeitou a cigarrilha quando o cancro explodiu, sabia que o amor é um assassino em potência, e no entanto merecedor de grata amnistia.
A decisão. As palavras rápidas, de tão evidentes, a declaração, não de princípios, seguramente de interesses:). O último relance, medroso e aliviado, " que se dane, é verdade, espero que a mereça". Send... As luzes apagadas, o corpo desperto, o sono à espera de uma última interrogação, que ameaça invadir os sonhos - amanhã é mais um dia ou "o" dia?
A minha resposta. O fim do princípio, diria Churchill. A seguir vieram sangue, suor e lágrimas. Mas não só, Maria, não só:).

domingo, dezembro 14, 2008

Domingo.

Maria,

O baptizado correu bem. Um frio de rachar, tiveram de aquecer a água para o pimpolho:). A satisfação de reencontrar o Padre Baptista em forma. Leitura escolhida - o famoso "Deixai vir a mim as criancinhas". O vício da associação livre e as Confissões de Santo Agostinho pelas tortuosas veredas do meu espírito. A opinião pouco lisonjeira sobre os mesmos putos e a sua alegada inocência, não passariam de adultos em miniatura, com os defeitos inerentes. A triste interpretação da frase de Jesus... Lembras-te do que uma vez contei? Um padre amigo, mente brilhante, sorriso amarelado nos lábios - "Santo Agostinho fez-nos muito mal:(". E eu, que o li menos do que devia, arrisco dizer que a luta contra os seus demónios era titânica e infectou-lhe a visão de Deus, Paraíso e Mundo.
Pronto, já me calei. Imagino-te, severa, a corrigir-me, do alto da Fé que não partilho. Pronto, já me calei. Mas não, caramba!, ainda deixo uma pequena provocação - adoraria ter sido o teu pecado original:).

sexta-feira, dezembro 12, 2008

O beijo que vinha do frio.

Maria,

A Mãe sobreviveu a outra ida à Urgência. Análises normais, espírito no céu republicano em que o seu amor a espera há anos. É curioso como sempre te escondi o que vos unia. E não falo de traços de personalidade rebuscados ou construídos pelo meu Édipo, ansioso por não deixar vago de realidade o seu lugar. Falo de tiques, ademanes, gestos prosaicos que vos tornam gémeas, como se o papel vegetal da minha adolescência tivesse ressuscitado. O beijo de esquimó, por exemplo. Quando me presenteaste com esse equivalente antropológico - e gelado... - de um honesto, apaixonado e húmido "french kiss" (esta parolice nacional...), fiquei espantado, ela fazia o mesmo! E ria do meu incómodo, nunca lera Freud ou Lacan, e do Vaticano apreciava a Pietà e a fé dos homens. Nunca to disse, mas descia para os teus lábios com um vagar excitado e temeroso, imaginava-te as mãos cravadas no meu peito, o olhar escandalizado e a sua legenda - "como te atreves?". Daí o suspiro de alívio que calava quando a tua boca se abria à maroteira da minha e do seu arauto, esta língua que tantos com menos direito do que tu decretaram afiada e intrometida:). Tu não, limitavas-te (?) a acolhê-la e a despir-lhe a paixão do frenesim. Até me afastares o rosto para melhor o ver. E sorridente me desafiares para o degrau seguinte, "vem".

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Baiona.

Maria,

Regressei a Baiona depois de longa ausência. Sou suspeito, quem resiste a confirmar profecias próprias?, mas quase rosnei ao espelho, "eu tinha avisado...". A sombra do Pierre por todo o lado: ancoradouro, Jaquevi, Mosquito, a marginal. Os olhos azuis risonhos, o branco ruborizado da face, o loiro cabelo nórdico, a barriga desafiante; o abraço de urso. As saudades que tenho dele... Egoísta, vejo-as desaguar nas de ti. O silêncio compreensivo; a mão pelos meus cabelos; o braço rodeando-me a cintura, e sem alarde ao leme, como te poderia recusar brisa e velas? Esse corpo à flor do meu, numa gentil mas firme avidez. O embaraço que te diverte. E o tropeço nas palavras que o agrava, "deixa-me, chata". O riso de quem despe a ordem e abraça o apelo - "Nem penses". Nem pensar... Fazer-te a vontade, Maria, e apenas sentir. Ainda e sempre as saudades do Pierre, mas sobre o pano de fundo do desejo de ti.

terça-feira, dezembro 02, 2008

A neve.

Maria,

A Casa do Vale coberta de neve como nunca a vira. Ainda mal refeito do encantamento, já a grossa chuva branca recomeçava a tombar. E com ela ramos no caminho, a "viagem" até à estrada principal devolveu-me à atmosfera das aventuras dos Cinco:). Depois chegaram os miúdos, numa algazarra de feliz surpresa que contagiou a cadela, sempre mais sociável com eles, sabe-se lá os adultos que conheceu... Vê-los partir foi doloroso, a casa mergulhou num sossego diferente do que os acolhera; melancólico. Na manhã seguinte, o sol. Que derreteu a neve, excepto nos recantos a coberto das árvores mais agasalhadas. E num local de todo improvável, solitário no meio do terreno, sem creme ou sombra a protegê-lo do calor friorento do meio-dia - o tecto da casinha dos miúdos, à janela da qual o Tiago me vende hamburgers imaginados a preços de usurário empedernido. Imaginei-te o sorriso indulgente, perante a minha dúvida "científica" - pensar com o coração, dizias, pensar com o coração e sentir, para depois compreender. Pedi ajuda à tua fotografia, essa procuradora da ausência. Tinhas razão, querida, o erro era meu e do mundo a preto e branco que abrigo e me abriga. E tu colorias, quando... Deixa, voltemos à neve, que resistia à lógica, aristotélica ou outra. Porque nada tinha contra o sol, mas ainda guardava - e preferia! - a esperança de toda se derreter à carícia do extraordinário calor vital dos miúdos regressados:).

domingo, novembro 30, 2008

Bloqueado pela neve em Cantelães, chega uma velharia pel Net:).

Que há-de ser de nós
Júlio Machado Vaz, Novembro 1991

Como todos os que passaram pelo divã, recebo as coincidências com grunhidos de suspeita. Entendamo-nos: a Alda de Sousa (que me pediu a prosa) parece-me inocente, a culpa, existindo, só pode refugiar-se algures do meu pescoço para cima. Porque lá estranho é, um tipo senta-se para escrever um artigo sobre Sexualidade e repara que faz 41 anos e pôs no Compacto o "Que há-de ser de nós" do Sérgio Godinho. Cheira a esturro. Não se trata da sensação de envelhecimento, mas precisamente da sua ausência, a cada aniversário verifico ser mais radical o divórcio entre ácido úrico e colesterol por um lado e a cabeça por outro. Aqueles, paulatinos, sobem para valores respeitáveis, fronteiriços, de meia-idade; ela peca por arrogância e vive fora do tempo. À espera.
Existem razões para isso, o bilhete de identidade não traduz o percurso único de um ser homogéneo, como podem ser três da tarde na profissão e dez da manhã na Sexualidade?
Não falo de sexo, esse é um velho companheiro de sonhos apetitosos e camas desfeitas, espreitando por cima do ombro maroto do desejo. Estimo-o muito. Deus e/ou a testosterona permitam que não se canse das minhas birras e vá habitar alguém menos insuportável, mas os anos corroeram o triângulo. Eu, o Desejo e o Sexo, era tudo tão simples! Na cabeça, claro, só adultos esquecidos falam de adolescência cor de rosa, mas quando penso em mim há vinte e cinco anos lembro-me das boas livrarias—uma prateleira para cada tema. Assim era eu. Amor, Felicidade e Justiça, as grandes palavras que nos tornam infelizes, escrevia Joyce. O sexo, com letra pequena por força de uma educação conservadora tanto mais eficaz quanto sugerida e não imposta, o sexo, dizia eu, baloiçava entre amores verdadeiros, logo justificativos, e outros falsos, falsos, mas que passavam por idóneos, não fosse a ideia do prazer pelo prazer aflorar à superfície.

Procurar a intimidade
E depois um tipo cresce ou simplesmente envelhece. Um orgasmo é um orgasmo e já não chega, as fronteiras entre Paixão, Amor e Ternura vão-se esbatendo, a ligação erótica recusa as grades da cama ou dos bancos de trás dos automóveis e invade a sala, reclamando livros conversados ou discos velhos ouvidos por entre candeeiros mortos; a gente fica assim, cúmplice, espreitando as pessoas do prédio em frente, a vida em contraluz. Ganapos que se recusam a açoites merecidos, jantares aquecidos por atrasados, estiradores vazios de inspiração, um ou outro afago mais brejeiro, quem nos imagina aqui no escuro, à espreita? A armadilha es«á pronta, mas não para eles. Para nós.
Na realidade, de supetão ou laboriosamente ao longo dos anos, vão-se abrindo portas e olhos, deslizou-se da paixão pelo outro e pelo amor para a busca de algo bem mais megalómano – a intimidade. Também no sexo, como é evidente. O antes e o depois recusam a tirania do durante e as fantasias eróticas de um tacteiam as do outro, porque não existe pior vergonha que a de não explorar o amor com alguém de quem se gosta. Que não chega, resmunga o diabito que se nos enrosca nas entranhas. Pronto a admitir que a felicidade não existe, reivindica fascínios subtis que resistam ao quotidiano, a esses computadores, bichas e panelas que subtilmente vão empurrando o amor para o sábado à noite.

Recomeçar ao microfone
E contudo, nem sempre é fácil acreditar que a vida começa aos quarenta. Falta-nos a disponibilidade, tão preocupados estamos em sobreviver, espremidos entre uma geração que enfrenta a morte e outra morta por viver. Nessa agitação frenética, as pausas, nossas, parecem quase inacreditáveis, culpadas.
«O Sexo dos Anjos» tornou-se, para mim, num desses momentos em que, como diz Woody Allen, consigo por um breve instante focar a Vida.
Impossível, dir-me-ão, como se pode retomar o fôlego em associação livre com um público do outro lado do microfone? Parece estranho, eu sei. No início havia tensão no ar, a ideia tinha sido do Aurélio e preocupava-me a hipótese de o deixar ficar mal. Depois vieram as cartas e os telefonemas e eu comecei a fazer menos chavetas e a deixar-me ir. Às vezes arrependo-me quando ouço o programa, noto as repetições, os fios soltos, as oportunidades falhadas. Para falar com franqueza não me arrependo... arrepio-me! Mas o «Sexo dos Anjos» não pretende ser uma sucessão de aulas, mas de conversas sobre isto e aquilo, até Sexualidade. Hoje em dia entro no estúdio quase com alívio e arrisco-me a dizer que o Aurélio e o Zé Gabriel também, somos amigos. O público... quando se passa muitos anos na clínica quase se pensa que o nosso mundo ficou aprisionado entre quatro paredes, por isso o programa foi uma lufada de ar fresco. As pessoas sugerem, perguntam, criticam e um tipo sente-se vivo, em movimento. Em questão também. Por vezes dizem que me exponho demasiado e eu sorrio; a opinião dos outros interessa-me, mas não me assusta (vantagens da idade). É em mim que está o perigo.
Só a gravação dura uma hora, a cabeça está-se nas tintas para noticiários e compromissos comerciais, a associação livre tem o mau hábito de nos conduzir a temas presos, enrolados na garganta. Que há-de ser de nós? Os versos do Sérgio, estes sobretudo, fascinam-me. Ansiar corpos ausentes, o mais longo beijo, o fogo e a chuva na voz... quem dá aos poetas o direito de tratar por tu o amor? E assim, muitas vezes, abro a porta da Rádio Nova fechado para balanço, sentindo que o tempo foge enquanto falo do amor dos outros.

Ir à ribeira
Receio que não seja este o tom adequado para um jornal como o COMBATE, mas Ferré disse um dia que a revolução na cabeça deveria, obrigatoriamente, preceder a da rua. Sou um burguês típico - o meu (pequeno) ardor revolucionário não sobreviveu à Universidade. Na minha profissão, ao menor descuido, esquece-se a Sociedade e raramente se ultrapassa o nível do casal ou da família. Em Sexologia, não perguntando, quase nunca distingo um tipo de direita de um de esquerda, um religioso de um ateu. Ouço-os. E os lutos por fazer sucedem-se a ódios temporários, a falta de desejo disfarça-se de enxaqueca, choro e riso sacodem os mesmos ombros. Aqui e ali, por competência ou sorte (e que me importa?), as coisas correm bem e faz-se de novo luz em olhos baços. Porta fechada, o cliente seguinte atrasado, perco-me através da janela no cinzento do meu Porto. Que é também o do Sérgio. Estarei velho ou sábio? Ajudo os outros a viver ou sobrevivo através deles? Há quanto tempo não vou à Ribeira ao fim da tarde, não-sozinho, mas fascinado por um riso?
Coincidências. Muitas. O Compacto programado para repetir a mesma música até à (minha) exaustão, a zaragata dos miúdos ao telefone gritando feliz aniversário, o PARA SEMPRE do Vergílio brilhando negro entre os Kunderas vestidos de branco sujo, o silêncio que paira para lá da voz do Sérgio. Que há-de ser de nós?

terça-feira, novembro 25, 2008

O tipo que os selvagens dos meus netos adoram:).

Ontem à noite os Machado Vaz partiram em romaria a dar um abraço ao Octávio Cunha, que apresentava o seu último livro na Árvore. Belo jantar no Uma Rosa nas Virtudes, o prazer de tropeçar numa sala... à cunha:). E sobretudo pela criançada, alegremente desprezando toques de recolher para dar beijos repenicados num grande amigo disfarçado de competentíssimo pediatra. O Octávio é um homem bom e cidadão exemplar. Por isso me dão tanto gozo as suas visitas a Cantelães, as palavras apaziguadas de dois homens para lá da curva da vida não ferem a magnífica e silenciosa moldura natural. Ambos já vivemos o suficiente para lhe dar o justo valor...

sexta-feira, novembro 21, 2008

O episódio mais recente da saga educativa.

A conferência de imprensa que se seguiu ao Conselho de Ministros não trouxe o inesperado. Como aqui todos previmos, o Governo recuou sem recuar; a Ministra avaliou a avaliação e não reagiu às pressões; o espírito de diálogo é absoluto, etc, etc... Nada tendo de pessoal contra a Senhora, foi desconfortável assistir à deglutição de alguns sapos, mas a verdade é que a sua completa inabilidade política tornou este degrau obrigatório (seria ingénuo empregar a palavra desfecho...). Porque além de defender - e impor... - as suas legítimas opiniões sobre metodologias de avaliação, um Ministro deve ser capaz de fazer política. Não me refiro a nenhum exercício de hipocrisia ou contorcionismo de coluna vertebral, é necessária a atenção ao Outro e a pacificação narcísica que permitem auscultar os diversos agentes, esgrimir argumentos, reanalisar os próprios à luz dos que não tinham sido contemplados e decidir com firmeza, mas sem rigidez dogmática. Penso que uma das dificuldades de todo este processo reside na evidente crispação relacional da Ministra, bem evidente nos diálogos (?) mantidos com os jornalistas que a confrontem com realidades diversas da que anuncia e embala.
Para mim, houve apenas um momento de verdadeiro interesse no episódio. Pedro Silva Pereira iniciou-o num registo compreensível - dado o tema, microfones, holofotes e perguntas destinavam-se à Ministra da Educação. E contudo... Mal a Política veio à baila, ei-lo que se lança na "tradução" da laboriosa - e entrecortada por vários papeizinhos! - intervenção da Ministra. Em três penadas, tudo foi explicitado, com enorme clareza e eficácia televisiva. Objectivamente quase cruel, o seu gesto era necessário. E confirmou a ideia que sempre me invade quando o escuto - Silva Pereira é a Eminência bem pouco parda deste Governo. A placidez da postura corporal e os decibéis recatados do discurso emolduram neurónios muito, muito rápidos. E peritos - imagine-se! -em redução de danos:).
Enfim, delírios de psi...

terça-feira, novembro 18, 2008

Ya lo veremos.

Segui com atenção a entrevista de Elisa Ferreira ao Porto Canal. Nas últimas autárquicas votei Francisco Assis, mas não escondi que a preferia como candidata. Talvez o seja agora. Estou de acordo? Sim. Optimista? Não. Razões? Eis algumas: pelo andar da carruagem, a oportunidade punitiva - e lúdica... - para zurzir o Governo nas autárquicas será aproveitada pelo eleitorado até ao osso; a atitude exterior comatosa do PS portuense, aliada a entusiastas lutas intestinas, transformaram a honestidade do Dr. Rui Rio, a sua distanciação do futebol e desconfiança das elites culturais em trunfos mais do que suficientes para o tornarem favorito, se candidato (acredito que o será, embora algumas afirmações extraordinárias da Dra. Manuela Ferreira Leite pareçam destinadas a forçá-lo a antecipar os timings no que à liderança do partido diz respeito); segundo leio nos jornais, o PS, na prática, está mais ocupado em contemplar, horrorizado, o que pode ser um remake de Famalicão em Matosinhos do que em mobilizar-se para vencer no Porto; mesmo que eu esteja enganado, seria necessário que estabelecesse pontes com cidadãos, movimentos e partidos, sem reservas mentais ou exigências hegemónicas; deseja fazê-lo?; alberga protagonistas credíveis que num tal processo não deixem a candidata a falar sozinha e obrigada a equilíbrios precários e "provas de lealdade"?
Elisa Ferreira é uma boa candidata. Dar-lhe-ão hipótese de corporizar uma boa candidatura? Não sei. Mas duvido...

segunda-feira, novembro 17, 2008

Gentileza do Luís!

"Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…)."

"Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações."

Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: "A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho."

"Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo."

Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque "a honra eleva as artes."

"Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade."

"I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência
Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.

II. 20. Manter o entusiasmo dos professores
O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos."
Ratio Studiorum da Companhia de Jesus (1599).


P.S. A tentativa de redução de danos já começou: simplex para a avaliação, legislação ao Domingo, muita, muita abertura, flexibilidade, recados de um PS dentro do PS que não desdenharia o papel de mediador... Receio que seja tarde - vai haver vencedores e vencidos, mesmo com a habitual oratória cosmética que se seguirá.

quinta-feira, novembro 13, 2008

O amigo madeirense.

Fecho os olhos e deleito-me - Sócrates entra em casa, desfaz o nó da gravata, tira o casaco que ainda não é da marca Obama e vê o noticiário. Da pérola do Atlântico jorra o maná: avaliação instantânea e governamental dos professores e curso intensivo sobre como degradar a Democracia na Assembleia Regional. Quando o sempre vociferante e pletórico Jardim surge no ecrã, Sócrates não resiste e levanta o polegar na sua direcção, "porreiro, pá!". Mas a gratidão sentida é para ser mostrada! Ei-lo que pousa, enlevado, o Magalhães 1 no colo e surge o mail - "Meu caro Alberto...".

E não seria justo, digo eu? O homem permite que o meio-sorriso de Vitalino Canas emoldure a pergunta "cândida" - é este o modelo que o PSD...? Rumo ao grand final da maioria dos comentadores, "o silêncio de Manuela Ferreira Leite acerca da assembleia Regional da Madeira é atroador e mina a sua autoridade moral". Devo confessar que o não esperava, embalei a esperança de a ver quebrar a cumplicidade, longa e deprimente, com todos os caprichos e dislates do "ganhador insular", que salvará o PSD nacional quando lho solicitarem por unanimidade e aclamação.

Como devo confessar que, num registo diverso, também esperava mais de Cavaco Silva. Não duvido que assista, arrepiado, à última traquinice de quem o apelidou de Senhor Silva; não duvido que no recato dos gabinetes pressione; não duvido sequer da eficácia de tal pressão. Mas quando atropelos desta gravidade são cometidos, espero do Presidente palavras serenas e firmes, bastar-me-ia qualquer coisa como "a legalidade democrática deve ser restabelecida o mais depressa possível".

Eu sei, fui sábio por não ter enveredado pela política:). Institucionalizada!..., pois é política o que fazemos no Murcon.

quarta-feira, novembro 12, 2008

As "desculpas".

Primeiro foi no carro - quase juro ter pressentido um sabor a triunfo na voz do locutor, "a Ministra pediu desculpa aos professores". Depois foi o rodapé, em marcha lenta para a minha esquerda, a jurar que o ramo de oliveira estivera presente na Assembleia da República, ao arrepio da reportagem. Da qual eu não precisava, assisti em directo. Quando alguém se "desculpa" pelo incómodo provocado aos docentes, acrescentando ser ele necessário em nome dos alunos, do País e da Escola, não estende a mão aberta e sim o indicador ex-cathedra. Os professores são definidos como quem apenas se preocupa com o seu bem-estar e ignora a rapaziada que devia justificar-lhes a existência profissional, a Instituição formativa que deles depende, a Mãe Pátria, no futuro liderada pelos mesmos que agora desleixam. Pedido de desculpas? Credo!, foi uma pífia tentativa de bofetada de luva encardida:).

Dou comigo soterrado por consciências tranquilas. Fátima Felgueiras, Victor Constâncio, Bruno Paixão, Manuel Pinho, Maria de Lurdes Rodrigues, John McCain - essa também! - e mais trinta e cinco mil personagens não encontram razões para vasculharem espelhos interiores. Seja. Mas em verdade vos digo - nem sequer exijo um pecador arrependido, já absolveria um que embalasse dúvidas, esses pormaiores que nos tornam humanos...

segunda-feira, novembro 10, 2008

Perguntas soltas...

É possível que 120.000 pessoas se deixem manipular? Ou simplesmente desejem evitar qualquer forma de avaliação? Os professores que ouço no consultório mentem? A culpa é minha, incapaz de lhes diagnosticar os delírios? Manuela Ferreira Leite, cuja eleição aqui saudei pela credibilidade que assegurava, não diz uma palavra acerca do último Carnaval na Madeira e "mergulha" no autocarro número 701 da manifestação na véspera à noite? Um partido que se reclama socialista pode suportar uma lufa-lufa na Assembleia da República, alegadamente para modificar o sentido de voto de alguns dos seus deputados?

sexta-feira, novembro 07, 2008

E se ele for apenas Clark Kent?

As expectativas em face de Obama já ultrapassaram o registo da idealização, mergulhando numa hipnose messiânica. O despertar vai ser duro... Felizmente existirá alternativa para os desiludidos na próxima eleição: uma Sarah Palin que acreditava ser África um país e a África do Sul parte dele! Provavelmente no extremo norte...:).

quarta-feira, novembro 05, 2008

Vou dormir.

Pensamento (mórbido) de quem viu cair dois Kennedys e Luther King - Obama já ganhou, esperemos que se mantenha vivo...

sábado, outubro 25, 2008

Olhares.

Quase todos os professores com muita "estrada" vos dirão o mesmo - os críticos mais severos acoitam-se dentro de nós. Porque os anos ensinaram rotinas que maquilham a falta de inspiração e o consequente triste debitar da matéria, sem chama que desperte a curiosidade dos alunos. Mas aula acabada, espelhos íntimos não mentem - fomos medíocres e não medianos. E no entanto... Quinta-Feira, durante o Curso que ministro em Serralves, vi aparecer um dos meus filhos. E ao gosto da sua visita deu a mão um receio agudo de o desiludir. Bautista, como tantas vezes aqui lembrei, aponta a obscenidade de um filho morrer antes dos pais, mas além desse "drama absoluto" existem outros, comezinhos - sentem uma ponta de orgulho ao ouvir-nos?; desejariam voltar se constassem na pauta?; dirão um dia que "era bom aprender com o velho"? A lenda familiar responderá um dia a essas perguntas. Quando a minha presença e a gentileza deles já não influenciarem as respostas:).

domingo, outubro 19, 2008

Um homem que sempre fala de aceitação:).

"Para o Cardeal Carlo M. Martini, a Igreja deve trabalhar no desenvolvimento de uma nova cultura da sexualidade e da relação, pois esta encíclica (Humanae Vitae) é, em parte, responsável por muitos já não tomarem a sério a Igreja como interlocutora ou como mestra. Aos jovens dos países ocidentais, já quase não lhes passa pela cabeça recorrer a representantes da Igreja para os consultar sobre questões de planificação familiar ou de sexualidade. Muitas pessoas afastaram-se da Igreja e a Igreja afastou-se dos seres humanos. Ficou muito prejudicada com esta atitude.
Este Cardeal deseja uma nova encíclica, na qual o magistério diga algo de positivo sobre a sexualidade. Ele próprio faz sugestões e aponta um método de diálogo para que, nesse documento, não sejam dadas respostas a perguntas que não existem.
No Dia das Missões, é importante ter presente a advertência de Jesus: não adianta percorrer mar e terra só para fazer prosélitos. É preciso, antes de mais, fazer da Igreja um lugar habitável para mulheres e homens, jovens e adultos, sejam eles hetero ou homossexuais. Toda a realidade humana é ambígua. A sexualidade também é terra de evangelização."

Frei Bento Domingues, Público, 08/10/19.