segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Breves.

Maria,

1 - 70.000 novos desempregados em Janeiro.

2 - 5.000 euros de multa por corrupção activa provada.

3 - Uma gentil menina perguntou-me se a borracha insuflável será a solução para o crescente isolamento sexual.

4 - Penn ganhou o Óscar e um crítico encontrou a expressão certa - ele dissolveu-se no personagem.

5 - A Elisa esteve bem na Alfândega, ao discurso de grande solidez que lhe conhecia juntou um sorriso de genuína comoção. Vai precisar de ambos... (A propósito: ao contrário do que gostavas de insinuar, o PM sempre teve por ela a maior admiração. Até pelo seu mau génio!)

6 - No top ten dos heróis americanos, Obama ultrapassou Jesus Cristo. Pobre Lennon, que foi crucificado por dizer que era mais conhecido...

7 - Em 24 horas uma graça ao Magalhães foi proibida, autorizada e satisfez todos os envolvidos pela publicidade que trouxe ao Carnaval de Torres. Acho bem, deve sair mais barato do que trazer estrelas de telenovelas. E contudo...

domingo, fevereiro 22, 2009

Da memória e outras raízes.

Frustração


Fútil viagem
de que restam
sílabas
que não latejam.


António Ramos Rosa, Estrias.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

A desatenção.

So,

So you think you can tell

Heaven from Hell,Blue skies from pain

Can you tell a green fieldFrom a cold steel rail?

A smile from a veil?Do you think you can tell?

Did they get you to tradeYour heroes for ghosts?

Hot ashes for trees?Hot air for a cool breeze?

Cold comfort for change?Did you exchange

A walk on part in the warFor a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here

We're just two lost soulsSwimming in a fish bowl,Year after year,

Running over the same old ground.What have we found?

The same old fears

Wish you were here

Maria,

Uma vez mandaste o poema. Sem uma palavra tua como legenda ou bala ... E eu, cheio de fúria injusta e culpa honesta, aterrado por me ver ao espelho na triste doçura de canção favorita, parti e ceguei. Ou ao contrário... Certo é que me escapou um pormenor singular - o plural!
"We're just...". Acossado, soltei garras e velas, sem perceber que nunca abandonaras o navio, era também dos teus medos que falavas.
Aquele plural, mais a alma em que não acredito, o aquário claustrofóbico e os anos em sessão contínua poderiam ter-nos mantido juntos, se este umbigo medroso não me hipnotizasse:(.
De acordo, Maria, "os mesmos velhos medos...". Acredita, por favor, desejo de todo o coração que não seja hoje o caso. Por a vida em geral e um amor em particular terem estilhaçado os que te assombravam. Os meus? Wish they were gone...

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

TVC3.

James Dean. A Leste do Paraíso. E uma frase de Tyrone Power sobre ele: "Teve sorte, morreu sem conhecer o declínio". Talvez. Eu lembro-o com mais ternura do que a opulenta Marylin e os seus Kennedys e DiMaggio. "Too fast to live, too young to die", cantavam os Eagles.
Demasiado rebelde para não ser lembrado com saudade neste mundo cinzentão, digo eu...

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Milk...

... é um tributo magnificente ao homem e à luta. E no entanto..., com os seus "perigos". Já ouvi os elogios ditirâmbicos - e merecidos... - ao desempenho de Penn desaguarem no horror pelo que ainda podia acontecer "naquele tempo", afinal "só passaram trinta anos".
Tenho más notícias, péssimas notícias!, para as nossas alvas consciências - uma nórdica lésbica no Poder não assegura a Primavera da aceitação, sobra caminho por andar:(.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Soltas.

Maria,

Notícias da nossa querida parvónia:

1 - O senhor Stanley Ho teve prejuízos na ordem dos 90%. Resultado catastrófico - passou da posição 89 para a 113 na lista dos mais ricos do mundo. Um dia destes está na sopa dos pobres:(.

2 - Trabalhadores da Amorim foram despedidos. Notícia de alguns jornais: o português mais rico também despede. Acho incrível que estes trabalhadores manchem assim uma reputação!

3 - O Augusto Santos Silva entusiasmou-se e disse que gostava de malhar na Oposição. Depois explicou que era uma questão de contexto. A todo o momento se espera um esclarecimento sobre os locais em que utilizaria os verbos zurzir e debater...

4 - Manuel Alegre desancou-o - não sei se o verbo é o correcto... - e Augusto Santos Silva declarou-se um pigmeu perante ele.

5 - Aproveitando este bom ambiente no PS, o PSD apressou-se a ultrapassá-lo na descida nas sondagens. Há quem diga que o Dr. Luís Filipe Menezes se verá obrigado - mais uma vez... - a romper o silêncio que jurara depois da sua demissão.

6 - Surpreendentemente, o CDS prepara-se para apoiar Santana Lopes na corrida por Lisboa. As más línguas dizem que, para compensar esse afastamento de uma rigorosa equidistância, o Dr. Paulo Portas só pôe uma condição para se aliar a um Governo PS minoritário - ser convidado.

7 - Vamos ter chips nos carros, mas ainda não é público quem vai lucrar com a decisão.

8 - Afinal parece que toda a gente no universo BPN conhecia a existência do Banco Insular. Talvez até aquele senhor que em Novembro declarou na televisão que não era um homem rico e depois afirmou que detinha seis milhões de euros em acções...

9 - Está frio.

10 - Sinto-me frio. E não é do frio...

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Boa noite.

Maria,

O teu riso. E a insegurança que me tomava na alvorada de nós - "de que te ris?". O olhar severo, ao arrepio da voz, perigosamente doce - "de prazer, Júlio, de prazer. Não te agrada?". A vergonha macha, eu fantasiava gemidos e esgares hollywoodescos em resposta a uma arte que sabia não dominar. Mas o riso..., o riso surpreendia-me, de tão humilhante para ego frágil; "com outros era melhor...".
"Agrada e muito!". O teu sorriso, cavalgando o meu rubor. Sabias; perdoavas; e esse corpo em arco, anunciando de novo a gargalhada, espasmódica e não solitária, porque a ela se juntava...
Se continuo não consigo adormecer:(.
Boa noite, querida.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Boa noite.

Maria,

O cansaço, como a doença e a velhice, tem o condão de pôr a vida em perspectiva. (Talvez por com elas partilhar uma certa melancolia distanciada). Por isso me quedo a desejar-te, baixo-relevo cravado no silêncio da casa. E dos dois sou eu o fantasma precário, assombrando a tua memória, granítica por eterna. Como o amor...

domingo, janeiro 18, 2009

Feliz aniversário, Eugénio!

Os joelhos

Considerai os joelhos com doçura:
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde beijo a beijo foi acesa.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Se bem me lembro, S.Francisco de Assis falava do "irmão lobo", mas não neste registo:(.

Cardeal Patriarca alerta jovens portuguesas para «montes de sarilhos» de casarem com muçulmanos
O Cardeal Patriarca de Lisboa surpreendeu na noite de terça-feira o auditório do Casino da Figueira da Foz ao advertir as jovens portuguesas para o «monte de sarilhos» de se casarem com muçulmanos


Falando na tertúlia «125 minutos com Fátima Campos Ferreira», que decorreu no Casino da Figueira da Foz, D. José Policarpo deixou um conselho às jovens portuguesas quanto a eventuais relações amorosas com muçulmanos, afirmando: «Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam».
Questionado por Fátima Campos Ferreira se não estava a ser intolerante perante a questão do casamento das jovens com muçulmanos, D. José Policarpo disse que não.
«Se eu sei que uma jovem europeia de formação cristã, a primeira vez que vai para o país deles é sujeita ao regime das mulheres muçulmanas, imagine-se lá» , ripostou D. José Policarpo à jornalista e anfitriã da tertúlia, manifestando conhecer «casos dramáticos» que, no entanto, não especificou.
Na sua intervenção, o Cardeal Patriarca de Lisboa considerou «muito difícil» o diálogo com os muçulmanos em Portugal, observando que o diálogo serve para a comunidade muçulmana demarcar os seus espaços num país maioritariamente católico.
«Só é possível dialogar com quem quer dialogar, por exemplo com os nossos irmãos muçulmanos o diálogo é muito difícil» , disse D. José Policarpo durante a tertúlia.
Respondendo a uma pergunta da anfitriã sobre se o diálogo inter-religioso em Portugal tem estado bem acautelado, o Cardeal Patriarca sublinhou que, no caso da comunidade muçulmana, «estão-se a dar os primeiros passos».
«Mas é muito difícil porque eles não admitem sequer [encarar a crítica de que pensam] que a verdade deles é única e é toda» , sustentou.
Sublinhou ainda que o diálogo serve para os muçulmanos, num país maioritariamente católico, «como fazem os lobos na floresta, demarcarem os seus espaços e terem os espaços que eu lhes respeito».
Mais tarde, quase no final de mais de duas horas de conversa e respondendo, na altura, a uma pergunta da assistência sobre a presença muçulmana na Europa, lembrou que a comunidade muçulmana de Lisboa representa cerca de 100 mil fiéis «centrados à volta de três grandes mesquitas» e definindo as relações com o Patriarcado como «habitualmente boas e muito simpáticas».
No entanto, e noutro registo, alertou para a necessidade de existir «respeito e conhecimento» sobre a religião muçulmana enquanto "primeira atitude fundamental" para o diálogo.
«Nós somos muito ignorantes, queremos dialogar com muçulmanos e não gastámos uma hora da nossa vida a perceber o que é que eles são. Quem é que em Portugal já leu o Alcorão?» , inquiriu.
«Se queremos dialogar com muçulmanos temos de saber o bê-a-bá da sua compreensão da vida, da sua fé. Portanto, a primeira coisa é conhecer melhor, respeitar» , acrescentou D. José Policarpo.
Outra atitude a praticar na relação com os muçulmanos, sublinhou o Cardeal Patriarca é «não ser ingénuo», afirmação que ilustrou com a visão que alegadamente possuem de que o sítio onde se reúnem para rezar «fica sempre deles».
«Os muçulmanos têm uma visão na sua religião que o sítio onde se reúnem para rezar fica na posse deles, é o sítio onde Alá se encontrou com eles portanto mais ninguém pode rezar naquele sítio» , disse D. José Policarpo.
Lembrou, a propósito, um «problema sério» ocorrido na Catedral de Colónia, na Alemanha, cedida pelo Cardeal da cidade à comunidade muçulmana local para uma cerimónia no Ramadão.
«Depois consideravam a Catedral posse deles, foi preciso a intervenção da polícia para resolver aquilo (...) Não sejamos ingénuos na maneira de trabalhar com eles» , argumentou.
Lusa / SOL

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Crianças em fundo branco.

Maria,

O sofá do corredor gozando o sol aberto, alheio ao frio que reinava para lá do vidro, mas se via desafiado, mesmo portas afora, pelo gozo dos miúdos. Os cães, filosoficamente enroscados junto a mim, a sesta preguiçosa nem um pouco impressionada pelos caprichos meteorológicos. Cantelães vestida de um branco único de tão espesso, imagina que me abraçava os tornozelos! O livro cambaleante nas minhas mãos, sem remorso contagiadas pela modorra canina. O pensamento em nevoenta roda livre - o silêncio morno e aconchegado de aquário é herança tua. Que me obrigaste a cultivar o ócio tribal até reconhecer a evidência - morrer é não parar.

terça-feira, janeiro 06, 2009

De partida.

Maria,

A estrada. O nervoso miudinho, há trinta e sete anos que entra nos anfiteatros empoleirado no meu ombro. E contudo... Antigamente deixava-os a tricotar dúvidas monótonas: gostaram?; aprenderam alguma coisa?; fui simples e não simplista? Hoje, o público mais severo acoita-se dentro de mim. Acontece terminar uma conferência e ouvir, espantado, elogios. Pois não perceberam - como eu! - que discurso e pensamento avançavam (?) aos solavancos?
Quando estavas e ficavas... Eu dizia não me apetecer partir e buscava esse colo, ao mesmo tempo maternal e excitante. O sorriso; a mão à solta pelos meus cabelos; o beijo na testa, que fugi aos meus lábios, ansiosos por atraso, desculpa de última hora, recuo, desfazer do saco que tu supervisionavas para eu não me passear disfarçado de mendigo.
"Quando voltares, para mim e para o Porto...", dizias. E eu apontava à estrada, calando o ciúme pelo arquitecto que te arrastava a asa quando me sabia ausente e não só, eu forçado a admitir que fosses tu minha filha e to aconselharia em vez de mim, péssimo partido e duvidoso amante; impróprio para consumo, até em sociedade que nele se lança de olhos fechados e carteiras escancaradas.
Espero que a A1 me devolva ao Porto. Mas sei que me receberá de braços abertos e sobrolho franzido, "e ela?". Porque sempre me vê partir com a firme convicção de que a única boa razão para o deixar és tu - disposta, por fim, a regressar. E como não duvida do teu amor, volta ao granítico cinzento com a certeza de quem é o culpado do vosso divórcio. É verdade, conheço-te. Saia eu da cidade - ou em definitivo da tua cabeça... - e voltarás.
Quase me apetece buscar refúgio em Gaia, diluir-me na paisagem, sacar dos binóculos e esperar. Pois não fazem assim os amantes das aves?

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Circular personalizada.

Gente,

Confesso que não me dou bem com alegrias, decisões ou rituais de passagem com data marcada:). Mas é sempre boa altura para vos desejar 365 dias de luz. Mesmo que literal ou alegoricamente vacilante, como a do meu Porto:). Um abraço grato a todos!

quinta-feira, dezembro 25, 2008

A Alucinada Família.

Maria,

O estalar da madeira no silêncio da casa, que me acolheu sem perguntas na ressaca de mais um Natal. A mesa que se espreguiça, para meu espanto. As cadeiras multiplicam-se nas margens dela. Apago a televisão, desligo o computador e espero, não acredito em caprichos da mobília sem objectivo ou lugares vazios para a eternidade. Não foi preciso esperar tanto...
Minha Mãe à cabeceira. Um sorriso doce na minha direcção, antes de sondar as frinchas da porta em busca de correntes de ar assassinas. O gesto de satisfeita aprovação. Um último relance em volta, o aquecedor já crepita, "Júlio, querido, podes vir sentar-te".
O meu Velho e a sua lendária elegância: casaco, gravata, colete, botões de punho, vinco das calças, a risca intransigente que lhe separa os belos cabelos brancos. "Obrigado, Maria". (Também a trata assim...). O afecto menos pacífico do que o de minha Mãe, somos amantes circunspectos, os dedos afloram-me o rosto quase a medo e correm para o refúgio do dela, que todo se ilumina. Assim, lado a lado, sem um gesto, transformam o mundo em redor num gigantesco armazém de adereços inúteis.
Ou talvez não... Minha Avó chega por sua vez. O genro saúda-a com graça carinhosa, "ah, a Rainha Mãe". Ela desafia-o com a arrogância divertida que a trouxe de uma viuvez próxima da miséria aos camarins dos teatros em que a filha cantava e ele as conheceu; a paixão foi a dois, mas o casamento a três. Observa-me cuidadosamente, se parecer magro ou triste ficarei em maus lençóis!, o menino dela ofende-a se não irradiar felicidade.
Os outros... O segundo marido de minha Avó, ensinou-me a fazer palavras cruzadas e a ver um homem que chora sem vergonha, mansamente; o Pierre, olha para o caos reinante e abana a cabeça, o melhor amigo é um caso perdido; o Zé Gabriel, a mão gulosa avança para o leitor de CDs e recua, a minha toma o seu lugar, sem música não ficará.
E os outros depois dos outros! Os meus Avós paternos, o Rui Alcobia, George Harrison, John Lennon, Zeca Afonso, Ballester..., a mesa, de tão longa, não permite que os reconheça sem viagem longa. Mais tarde. Agora ocupo a outra cabeceira e espero.
Meus Pais fazem um sinal, tão entrelaçado como os corpos de Fred Astaire e Ginger Rogers, e o Natal começa, Maria, a realidade é a velhice da imaginação! Repara no lugar vazio a meu lado, querida, espera por ti.
E eles também...:).

sábado, dezembro 20, 2008

Domingo à noite.

Maria,



A severidade risonha que eu amava, por o ralhete já esconder o afago e o "nem penses" o "porque esperas?":).
Cheguei de Cantelães e saboreei uma vez mais Mystic River. Tudo o que me rodeia desagua em ti... O bar, os amigos, o comentário de alguém, "adorei As Pontes de Madison County". O meu vício pelos consensos fáceis e as frases feitas por outros - "É o último dos grandes". Aquele sorriso com que me fazias sentir um puto superficial, o meu amuo, o esquecimento. E um outro filme do velho Clint, a minha provocação, "mais um silêncio snob, querida?". E tu, manipulando a minha frase -´"É o único dos grandes que se tornou grande". Tinhas razão, claro, ambos o pressentíramos, extasiados, depois de ver o espantoso e inesperado Bird. O homem passou para trás da câmara e deixou de ser um ícone, "entreteve-se" a realizar obras-primas. Como Mystic River: uma história, a narração, os actores e o absurdo da vida, quem precisa de efeitos especiais?
A severidade risonha que eu amava. Este desejo apressado, a cumplicidade obediente do comando. O sobrolho franzido, "terás reparado que estava a ver o filme?". E a minha resposta, digna de uma daquelas vozes mecânicas que anunciam os pacotes da TVCabo: "Não há problema, estão sempre a repetir". O teu riso maroto, a voz já misturada com o meu pescoço, "és capaz de fazer o mesmo?".
O sim da minha paixão adolescente:).
A prece humilde do meu corpo envelhecido...

terça-feira, dezembro 16, 2008

A dois tempos.

Maria,

Quando escrevia a um cinzentão qualquer, teclado e mãos revoltaram-se e meia-resposta desarvorou. Conheces a minha assinalável ignorância tecnológica, não culpei azar ou praga divina, seguramente premi ao de leve teclas que deram o tiro de partida. A funda humilhação; o medo à flor da pele - que declínio cerebral acelerado espreita por entre dedos trôpegos?
Como sempre, o olhar na direcção da tua ausência, em busca de auxílio. (Pareço católico órfão, rezando a nicho de onde fugiu um dos burocratas nascidos da explosão demográfica de santidade, cujo epicentro se situa no Vaticano.) E a pintura canhestra de cenário mais doce para os factos, ambos sabemos como dependem do contexto.
Alucinei-te. Recebendo, no princípio de nós, mail meu. Titilante e desafiador, essa cabecinha ordenada em batalha clandestina com o coração, mais atento à sabedoria epidérmica e menos ao espartilho da geometria racional. Os dedos trémulos, aflorando teclado e desejo, seria injusto crucificá-los pelo deslize. Os minutos de reflexão; as mulheres conhecem os lapsos freudianos desde a eternidade, não precisaram da auto-análise do estóico senhor vienense, que não rejeitou a cigarrilha quando o cancro explodiu, sabia que o amor é um assassino em potência, e no entanto merecedor de grata amnistia.
A decisão. As palavras rápidas, de tão evidentes, a declaração, não de princípios, seguramente de interesses:). O último relance, medroso e aliviado, " que se dane, é verdade, espero que a mereça". Send... As luzes apagadas, o corpo desperto, o sono à espera de uma última interrogação, que ameaça invadir os sonhos - amanhã é mais um dia ou "o" dia?
A minha resposta. O fim do princípio, diria Churchill. A seguir vieram sangue, suor e lágrimas. Mas não só, Maria, não só:).

domingo, dezembro 14, 2008

Domingo.

Maria,

O baptizado correu bem. Um frio de rachar, tiveram de aquecer a água para o pimpolho:). A satisfação de reencontrar o Padre Baptista em forma. Leitura escolhida - o famoso "Deixai vir a mim as criancinhas". O vício da associação livre e as Confissões de Santo Agostinho pelas tortuosas veredas do meu espírito. A opinião pouco lisonjeira sobre os mesmos putos e a sua alegada inocência, não passariam de adultos em miniatura, com os defeitos inerentes. A triste interpretação da frase de Jesus... Lembras-te do que uma vez contei? Um padre amigo, mente brilhante, sorriso amarelado nos lábios - "Santo Agostinho fez-nos muito mal:(". E eu, que o li menos do que devia, arrisco dizer que a luta contra os seus demónios era titânica e infectou-lhe a visão de Deus, Paraíso e Mundo.
Pronto, já me calei. Imagino-te, severa, a corrigir-me, do alto da Fé que não partilho. Pronto, já me calei. Mas não, caramba!, ainda deixo uma pequena provocação - adoraria ter sido o teu pecado original:).

sexta-feira, dezembro 12, 2008

O beijo que vinha do frio.

Maria,

A Mãe sobreviveu a outra ida à Urgência. Análises normais, espírito no céu republicano em que o seu amor a espera há anos. É curioso como sempre te escondi o que vos unia. E não falo de traços de personalidade rebuscados ou construídos pelo meu Édipo, ansioso por não deixar vago de realidade o seu lugar. Falo de tiques, ademanes, gestos prosaicos que vos tornam gémeas, como se o papel vegetal da minha adolescência tivesse ressuscitado. O beijo de esquimó, por exemplo. Quando me presenteaste com esse equivalente antropológico - e gelado... - de um honesto, apaixonado e húmido "french kiss" (esta parolice nacional...), fiquei espantado, ela fazia o mesmo! E ria do meu incómodo, nunca lera Freud ou Lacan, e do Vaticano apreciava a Pietà e a fé dos homens. Nunca to disse, mas descia para os teus lábios com um vagar excitado e temeroso, imaginava-te as mãos cravadas no meu peito, o olhar escandalizado e a sua legenda - "como te atreves?". Daí o suspiro de alívio que calava quando a tua boca se abria à maroteira da minha e do seu arauto, esta língua que tantos com menos direito do que tu decretaram afiada e intrometida:). Tu não, limitavas-te (?) a acolhê-la e a despir-lhe a paixão do frenesim. Até me afastares o rosto para melhor o ver. E sorridente me desafiares para o degrau seguinte, "vem".

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Baiona.

Maria,

Regressei a Baiona depois de longa ausência. Sou suspeito, quem resiste a confirmar profecias próprias?, mas quase rosnei ao espelho, "eu tinha avisado...". A sombra do Pierre por todo o lado: ancoradouro, Jaquevi, Mosquito, a marginal. Os olhos azuis risonhos, o branco ruborizado da face, o loiro cabelo nórdico, a barriga desafiante; o abraço de urso. As saudades que tenho dele... Egoísta, vejo-as desaguar nas de ti. O silêncio compreensivo; a mão pelos meus cabelos; o braço rodeando-me a cintura, e sem alarde ao leme, como te poderia recusar brisa e velas? Esse corpo à flor do meu, numa gentil mas firme avidez. O embaraço que te diverte. E o tropeço nas palavras que o agrava, "deixa-me, chata". O riso de quem despe a ordem e abraça o apelo - "Nem penses". Nem pensar... Fazer-te a vontade, Maria, e apenas sentir. Ainda e sempre as saudades do Pierre, mas sobre o pano de fundo do desejo de ti.

terça-feira, dezembro 02, 2008

A neve.

Maria,

A Casa do Vale coberta de neve como nunca a vira. Ainda mal refeito do encantamento, já a grossa chuva branca recomeçava a tombar. E com ela ramos no caminho, a "viagem" até à estrada principal devolveu-me à atmosfera das aventuras dos Cinco:). Depois chegaram os miúdos, numa algazarra de feliz surpresa que contagiou a cadela, sempre mais sociável com eles, sabe-se lá os adultos que conheceu... Vê-los partir foi doloroso, a casa mergulhou num sossego diferente do que os acolhera; melancólico. Na manhã seguinte, o sol. Que derreteu a neve, excepto nos recantos a coberto das árvores mais agasalhadas. E num local de todo improvável, solitário no meio do terreno, sem creme ou sombra a protegê-lo do calor friorento do meio-dia - o tecto da casinha dos miúdos, à janela da qual o Tiago me vende hamburgers imaginados a preços de usurário empedernido. Imaginei-te o sorriso indulgente, perante a minha dúvida "científica" - pensar com o coração, dizias, pensar com o coração e sentir, para depois compreender. Pedi ajuda à tua fotografia, essa procuradora da ausência. Tinhas razão, querida, o erro era meu e do mundo a preto e branco que abrigo e me abriga. E tu colorias, quando... Deixa, voltemos à neve, que resistia à lógica, aristotélica ou outra. Porque nada tinha contra o sol, mas ainda guardava - e preferia! - a esperança de toda se derreter à carícia do extraordinário calor vital dos miúdos regressados:).