domingo, novembro 29, 2009

Boa noite.

Se me exigires palavras, dar-tas-ei. Mas repara, são as dos poetas que abrigam espelhos, mortais ou lisonjeiros. As minhas só te darão uma certeza: nenhum Cyrano mas ensina. (É justo, não possuo a beleza de Christian para as emoldurar.) Posso fazer uma sugestão? Pede antes salvo-conduto para os meus olhos. De acordo, são escuros, mas as respostas moram lá. Porque uma coisa te garanto, amor: se o povo acertou e são janelas da alma, fita-me bem e verás que os meus tentam desesperadamente oferecer-te uma varanda escancarada sobre o coração:).

segunda-feira, novembro 23, 2009

Boa noite.

O cabelo e tu atrás, enroscada nas margens do meu peito. A mania de esticar a sorte, "deixas-me ouvir-te?". A súbita rouquidão de voz frágil e corpo retesado, "depois, vou de viagem". E essa boca que por mim todo vagueia, as hesitações de há mil anos transformaram-se em ritmos imprevisíveis e provocantes, quem diz ritmo diz canção, o que nós andámos para aqui chegar!:). O transbordar para a minha esquerda, "vem". Cobrir-te. Pasmar ainda uma vez por o desejo abrigar ternura e violência de mãos dadas, um esgar teu, pressentido ou alucinado, e o amante chama o amigo em altos berros silenciosos, "cuida dela, por favor". Entrar na fonte do mundo. Sentir lábios no ouvido, "gosto do teu peso". Calar, guloso, a resposta. Ser recompensado por espera tão interesseira, afogar-me na torrente das palavras que depois me proibirás de repetir, com um sorriso corado e travesso, "nunca o disse". E que me importa, se o ouvi e tu - no mínimo... - o pensaste?:).

sexta-feira, novembro 20, 2009

Boa noite.

A continuação de Guilherme Oliveira Martins é uma réstia de azul no céu carregado de suspeitas desencantadas que cobre este país:(.

domingo, novembro 15, 2009

Os patriarcas.

O estatuto de patriarca é curioso: quando o silêncio reina, à calma junta-se o medo da inutilidade; se chovem telefonemas e mails, lançamo-nos à estrada com dúvida rumorejante - "serei capaz?". E se somos, tememos o futuro de quem amamos; megalómanos entoamos pergunta com odor festivaleiro, "e depois de nós?".

A resposta é simples: o amanhã. Sem ficarem sós:).

domingo, novembro 08, 2009

Claro que posso:).

Quero antes de mais pedir desculpas pelo abuso. Obtive o seu email quando percorria, não pela primeira vez o seu BLOG, e decidi contactá-lo. Não a título pessoal, apesar de conhecer o seu trabalho, mas em benefício da entidade com que colaboro.

Somos uma IPSS com sede no Centro Hospital de Gaia, prestamos apoio não só dentro do meio hospital ( através do voluntariado) como também contribuimos para a humanização dos espaços, e prestação de cuidados ao domicílio.

Poderei, se desejar enviar-lhe toda a informação referente à nossa Instituição.

Estamos a aproximar-nos da quadra natalícia e temos por habito proceder a uma pequena venda de Natal, de forma a angariar alguns fundos para a Liga. A nossa subsistência depende apenas do valor das cotas dos sócios ( os que pagam) e tem por valor base 1€. Como temos mensalmente gastos acima dos 1000€ e apenas temos 1500 sócios ( alguns dos quais nao pagantes), tentamos ao máximo "fazer dinheiro".

É no seguimento do que escrevi a cima que o contacto. Poderia dispensar-nos alguns dos seus livros para vendermos( estamos aptos a passar recibo de doação ao abrigo da Lei do Mecenato) ? Poderá de alguma forma contribuir connosco? Poderá, por exemplo, no seu blog ajudar-nos a publicitar a Liga?

quarta-feira, novembro 04, 2009

Os trintões rejuvenescem cá dentro:).

Os meus filhos, pai e tio.
Um estampa-se nas ondas de Matosinhos, fica logicamente amolgado, eu tremo e não resisto a apelo cobarde e inútil - "deixa-te disso, pá, mete a reforma". Fui zurzido com justiça, ainda perde outra batalha feroz com o mar só para me punir...
Outro regressa de Londres e presenteia-me com fotografia mentirosa, "homem com grades e prédio por trás". Mas que prédio, meu Deus - os estúdios de Abbey Road! Olho a minha parede: os quatro atravessam a mais famosa passadeira do mundo, John de branco, Paul descalço, Ringo de farpela, George com a ganga que me acompanha há mais de quarenta anos. O malandreco soube exactamente como abrir a gaveta da nostalgia orgulhosa...
Os meus filhos, pai e tio, com as preocupações de Carlos Carvalhas sobre o programa de Governo em fundo. Perdão!, agora o Júdice. Os meus filhos de calções, saco de roupa às costas, de uma fidelidade que eu não merecia, prontos para o fim-de-semana com um pai que os enchia de filetes do Capitão Iglo. Claro que são homens e como tal procuro tratá-los, mas lá escreveu o Eugénio - não esqueci nada. Muito menos esta gratidão enternecida, que tantas vezes foi o combustível que me permitiu arrancar para um novo dia.

domingo, novembro 01, 2009

O preço certo?

O céu de Cantelães marcou-me falta e os benfiquitas perceberam que é cedo para festejos. A chuva transformou-se num "bónus" desnecessário, o meu humor já seria negro sem ela:). E no entanto... Num dia longínquo, depois de uma conferência longínqua, numa cidade nesses tempos longínqua de tão órfã de auto-estrada, um padre sorriu e disse - "você é simplesmente um católico que não acredita em Deus". Eu teria preferido o diagnóstico de cristão, mas há verdade na frase. Por exemplo, na convicção pré-consciente de que todo o prazer tem um preço.
O Sérgio ao telefone, "estás bem, pá? Queres ir...?". Ele sabia a resposta, lembro-me de assistir não apenas ao espectáculo, mas também ao ensaio, enroscado no escuro da plateia do Rivoli, "como consegue o gajo enfiar tantas palavras na melodia?". Claro que fui. O Coliseu como um ovo e o meu filho músico fitando-os como ave de rapina, a minha canção favorita do Sérgio é o "Que há-de ser de nós?" e a resposta está neles, nos mais novos e no regaço das suas memórias. (Regaço é uma palavra doce, faz pensar em cabelos afagados por mãos de mulher que segundos antes nos exasperavam o corpo, "obrigado, querida, shh, não sejas tonto".)
Nunca fui um revolucionário, não mitifico o PREC ou qualquer um dos responsáveis pelos Três Cantos. Aposto que são feitos de sol e sombra, como eu. Tenho saudades de cirandar por Lisboa com o Sérgio e algumas pessoas nos perguntarem se éramos família, "há uma parecença qualquer...". Família, obviamente! Ele escrevera-me para o Sexualidades, "cá em casa vemos todos, quando apareces?". E eu não demorei, a sua música embalava-me há muito, o jantar decretou-nos velhos amigos com atraso. As ruelas de Lisboa, os tascos de Matosinhos, mesmo assim vemo-nos raramente, pecado nosso. Os outros dois são amigos que não conheço:).
Saí do concerto e não quis interromper o Sérgio, a adrenalina baixa preguiçosa, a cada um de escolher como, eu prefiro a solidão. Enviei sms. E de repente apercebi-me de que lhe agradecera o privilégio crepuscular. Não apaguei a expressão. Porque a nossa geração canta, fala e escreve sobre um pano de fundo já crepuscular. Não é uma tragédia. Mas transforma cada ritual num bem precioso, que seria criminoso desperdiçar.
Talvez as saudades de Canteláes e a tristeza pelo Benfica não sejam um preço assim tão exagerado:).

quinta-feira, outubro 22, 2009

Associação livre de psiquiatra agnóstico ensonado acerca do folhetim da moda ou como a silly season invadiu o Outono:).

A Vida é um Jogo no Hollywood, com Paul Newman. Ainda apenas (?) bonito, sem o charme do segundo capítulo, que lhe valeria o óscar - A Cor do Dinheiro. A vida é um jogo... Saramago, por exemplo, tenciona jogá-lo até ao fim. Mesmo correndo o enorme risco de ver as suas palavras tomadas por choque vitamínico de campanha publicitária. Quanto às críticas, pouco lhe importam, muito menos o horror virtuoso do eurodeputado que sugere troca de cidadania para limpar honra e fé lusas. E no entanto... Aqui e ali, há no discurso de Saramago uma tonalidade provocatória que desagua em apelo não menos sedutor que o da serpente a Eva. O ateu desafia o (outro?) Senhor a deixar a toca celeste e trovejar - "Que andas dizendo a Meu respeito?".
Insolúvel drama o deste homem, não acredita no único interlocutor que aceitaria como par...

sábado, outubro 17, 2009

Obrigado malta:).

When I get older losing my hair,
Many years from now,
Will you still be sending me a valentine
Birthday greetings bottle of wine?
If I'd been out till quarter to three
Would you lock the door,Will you still need me,
will you still feed me,When I'm sixty-four?
oo oo oo oo oo oo oo oooo
You'll be older too, (ah ah ah ah ah)
And if you say the word,I could stay with you.
I could be handy mending a fuse
When your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside
Sunday mornings go for a ride.
Doing the garden, digging the weeds,Who could ask for more?
Will you still need me, will you still feed me,When I'm sixty-four?
Every summer we can rent a cottageIn the Isle of Wight,
if it's not too dear
We shall scrimp and save
Grandchildren on your kneeVera, Chuck, and Dave
Send me a postcard, drop me a line,Stating point of view.
Indicate precisely what you mean to say
Yours sincerely, Wasting Away.
Give me your answer, fill in a form
Mine for evermore
Will you still need me, will you still feed me,When I'm sixty-four?
Whoo!

terça-feira, outubro 13, 2009

Boa noite.

Como a Vida é um fogacho, consentido pelo Nada a que regressa, também as palavras desaguam no silêncio. Com uma diferença, ao menos para o não crente: a Vida precisa de si mesma para ficar, sem a memória alheia apaga-se; as palavras carregam o duro privilégio de moldarem o tipo de silêncio que delas brota. É o da intimidade que exige a mais hábil esgrima prévia...

segunda-feira, outubro 12, 2009

A sugestão.

Maria,

Escrever???? Peço-te ombro, conselho ou terapêutica e tu sugeres que escreva???? Não invoques lucidez, catarse ou sublimação, é de um castigo que se trata, a escrita dói:(. E não permite os requebros da palavra dita; sobrevive, acusadora, em papel ou word. Como esta nossa correspondência esquizofrénica de ex-amantes e futuros conhecidos, que escapa ao alívio do delete por eu preferir o murmúrio ténue ao silêncio atroador. E a este louco equilíbrio tu defendes que junte a ficção...? Nem pensar, minha querida, a realidade recusa-se a ceder-lhe o lugar, mesmo travestida.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Associação livre.

Bartolomeu levanta uma questão interessante - e quando o pássaro volta? Confesso que alucinei sobre ave sem retorno, mas compreendo a dúvida, há amores que regressam. Intocados? Por outros alguéns ou pelo que os levou a deixar-nos? Se por outros alguéns, como reagimos nós? Depende do que sentiram ou fizeram? Nós homens, temos reputação de reagir de forma diversa quando quem amamos conheceu alguém no sentido bíblico do termo:). E no entanto há paixões vestidas, até longínquas!, que modificam - às vezes para sempre... - o olhar de quem volta. Pobres de nós quando nos batemos contra essas rivais - castas na Carne, sem esperança ou desejo de cura para o delírio que lhes rói e salva o espírito.
Em outras ocasiões não houve ninguém entre nós e nós. Mas o que fez voar o pássaro, impotente embora para evitar o seu regresso, chega e sobra para o manter em guarda. Contra nós, que porventura o magoámos, mas também contra si mesmo, que baloiça entre o alívio deliciado e faminto por nos reencontrar e uma sensação amarga de cedência, por acreditar piamente que o não merecemos ou amamos bem. Quando existe tal ambivalência, a bonança que sucede à tempestade anuncia nova tormenta...
Compreendo a parcimónia de Bartolomeu em face de aves migratórias. E contudo, quantos se podem gabar de nunca ter consultado relógio de pulso ou calendário, na esperança de ver alguém pousar de novo na área bem pouco protegida do seu peito:)?

terça-feira, outubro 06, 2009

Boa noite.

A melancolia é uma tristeza tão subtil que passa por bom senso; e nos permite continuar à varanda depois de terem levantado voo o riso das crianças e o pássaro do amor.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Ainda as eleições:).

Maria,

Que tristeza, querida!:( - voas propositadamente de Londres para votar e absténs-te dos meus braços? Sinto-me inútil, em branco, nulo; mais minoritário a cada viagem e silêncio teus. Ouve, não peço grandes compromissos, legislaturas garantidas, coligação à prova de bala ou terceiros que a façam cair. Mas nem um acordozito pontual? Maria, não (te) governes sem mim...

segunda-feira, setembro 28, 2009

Breves.

1 - Sócrates ganhou, como seria inevitável, dada a alternativa. Não creio que tenha encarado seriamente a hipótese de nova maioria absoluta, mas acredito que aspirasse a um resultado a beijar os 40%. A governar em minoria, a partir desse "trampolim" e com uma vitimização bem feita no velho registo do "deixem-nos trabalhar".., quem sabe? Assim, o pulo parece maior do que a perna. Espero que descubra as virtudes da negociação parlamentar e resista a tentações de estabilidade contra natura para um Partido Socialista.

2 - Manuela Ferreira Leite colheu o que (não) semeou. Escrevi aqui acerca da minha estima pessoal por ela e do agrado com que lhe observei a ascensão à chefia do PSD. Surpreendeu-me que se tivesse "resignado" a esperar que o descontentamento popular com Sócrates lhe colocasse a vitória no regaço. Talvez pudesse ter acontecido sem a monumental e catárctica tareia das Europeias, mas mesmo assim duvido, o vazio da estratégia (?) laranja foi demasiado evidente. Embora algumas facas e vozes já tenham visto a luz dos holofotes, presumo que o lume permanecerá brando até ao dia seguinte às autárquicas.

3 - Portas é um profissional muito trabalhador. Tudo me separa dele politicamente, mas sei apreciar uma campanha eficaz, imune a "distracções" e ainda por cima potenciada pelo descalabro dos vizinhos. Falar depois de Sócrates foi o primeiro sinal do estatuto que persegue - alcançar o Poder, formal ou não. Se o PSD não ganhar juízo, a erosão pode continuar nas próximas eleições.

4 - O Bloco cresceu muito. E no entanto... O PP é um espinho atravessado, claro, mas os riscos são outros. Decretar consolidada a votação seria um erro monumental, negar o voto de amuado protesto pode ser o primeiro passo para o perder no futuro. E diga-se que ela poderia ter sido maior, Louçã foi trucidado por Sócrates na TV porque o subestimou, pensando que a conversa reproduziria os diálogos na Assembleia: ele ao ataque com casos pontuais - e na TV um dos ases na manga revelou-se um fiasco... - e Sócrates a exibir o seu escândalo perante a "demagogia" e a "superioridade moral". Erro crasso, o Engenheiro Sócrates sabia que a melhor defesa era o ataque. Precisamente por causa do sucesso, a "adolescência política" faz parte do passado, o Bloco vai ter de responder pelas suas propostas e lidar com notícias como a do Expresso sobre os PPR e em ambas as situações Louçã tremeu.

5 - Jerónimo é o campeão da simpatia pessoal, o homem preenche todas as condições para ser recebido de braços abertos em Cantelães, pois se até joga bem a sueca!:). É verdade que a CDU tem mais um deputado e - creio... - dez mil votos, mas quem ouviu Ruben de Carvalho percebeu - é na rua que o PC tenciona provar que se está nas tintas para o top five da Assembleia.

6 - Entre abstenção e votos em branco e nulos o desencanto do eleitorado é evidente.

7 - Se o Presidente da República se sair bem da comunicação de amanhã tiro-lhe o chapéu, porque não consigo imaginar como...

8 - Apesar de algumas provocações risonhas, considerei que declarar o meu sentido de voto poderia ser entendido como um apelo à mobilização dos murcónicos:). Limitei-me, assim, a esboçar a geografia eleitoral que desejava para ontem à noite. Mas hoje, não gostaria que os velhos "accionistas" do Murcon e as mais recentes "aquisições" pensassem que cultivo a ambiguidade - o tipo que já votou branco, PC, Bloco e - na maioria das vezes... - PS, ontem (and the winner was!:)) pôs a cruzinha no Bloco.

9 - Em verdade vos digo que, com esta declaração solene, que me veda as portas do próximo Governo (snif, snif), dou por terminada a minha incursão pelas entediantes veredas eleitorais, razão pelas qual reafirmo desde já o meu voto em Elisa Ferreira nas autárquicas e fecho a loja até às presidenciais!:).

quinta-feira, setembro 24, 2009

Les jeux sont faits.

Para mim a vitória do PS é um dado adquirido, como previa. A campanha do PSD e o apelo ao voto útil podem torná-la bem mais robusta do que pensei. Neste momento a minha curiosidade é outra - qual a relação de forças dos outros partidos e os seus resultados absolutos? Porque já afirmei desejar um Governo minoritário forçado - palavra triste... - a acordos pontuais à esquerda. Mas com os números das sondagens e a habitual superação do PP um fantasma começa a desenhar-se - a maioria PS/PP, que abomino. Ou alguém ignora a maleabilidade pragmática e programática de Paulo Portas quando se trata do "superior interesse do País" (leia-se, partilha do Poder)?

terça-feira, setembro 22, 2009

Breves.

1 - Os termos em que Mário Soares se referiu a Manuela Ferreira Leite são - no mínimo... - infelizes.

2 - A presença de Jerónimo de Sousa nos Gatos confirmou a minha impressão - de todos os líderes, seria a ele que convidaria para uma "excursão punitiva" aos meus restaurantes favoritos:).

3 - Tantos notáveis do PSD à volta de Manuela Ferreira Leite pedindo uma "vitória clara" fazem pensar em noite de velório e facas longas, não de vitória.

4 - Se o fosso entre PS e PSD nas sondagens aumentar, o apelo ao voto útil por parte de Sócrates tropeçará em maiores resistências.

5 - A demissão do assessor do Presidente sem qualquer tipo de explicação - pese embora os apelos do meu velho amigo Pacheco Pereira:) - é mais uma peça no vitral exótico da política portuguesa.

6 - Porque milagre ficam os políticos sem rugas nos cartazes que polvilham a cidade?

7 - Participei ontem numa iniciativa do Bloco no Porto. Devo acrescentar que fui convidado para ir à Convenção do PS e propus um depoimento gravado, não podendo deslocar-me a Lisboa por questões familiares. Depois disso, e no seguimento de um segundo e amável telefonema que recebi, coloquei-me à disposição do PS para qualquer intervenção no Porto. A razão é simples - sou independente, não mudo o discurso de acordo com os meus anfitriões e jamais recusei a minha opinião... a quem verdadeiramente a deseje ouvir:).

terça-feira, setembro 15, 2009

O referendo.

Um bom amigo do PS perguntava-(se/me): "mas tu consegues imaginar o eleitorado a querer um Governo chefiado por aquela Senhora?". Esta angústia existencial pressupôe uma chaveta que não considero correcta - no dia 27 as pessoas decidiriam entre PS e PSD, salvo as que se lançassem no que agora se apelida de "franjas". Da minha varanda o cenário parece outro: sem ofensa para os eleitores-laranja convictos, a situação faz-me lembrar um referendo. Na realidade até poderíamos roubar a sigla do último e falar de IVG, leia-se, Interrupção Voluntária da Governação:). Porque o resultado se jogará à esquerda, no diálogo entre o ressentimento pela governação do PS e o voto útil contra a Direita por parte de eleitores temporariamente (?) vacinados contra maiorias absolutas de qualquer origem. Por alguma razão as sondagens retratam o PS como um verdadeiro mãos-largas, distribuindo votos. Qual noiva, de costas lançando o bouquet para mãos ávidas que se estendem no ar... Depois de dia 27 veremos se haverá noivo e casamento ou amizades coloridas pontuais:).

quarta-feira, setembro 09, 2009

Continuemos...

Devo dizer que o meu desejo para a "geografia política" pós-eleitoral, ao contrário do sentido de voto, está perfeitamente definido - maioria relativa do PS e reforço dos partidos à sua esquerda. Na minha opinião, o PS não resistiu melhor do que no passado o PSD à vertigem do poder da maioria absoluta. Nos momentos de maior conflitualidade crispou-se e confundiu, por exemplo, duas atitudes bem diversas - não ceder à rua e não escutar a rua. E não me refiro apenas a manifestações gigantescas para a nossa dimensão, mas também ao motorista de táxi, à senhora do autocarro, à incomparável peixeira do Bolhão, ao tisnado agricultor. Em determinados casos, à posição política juntou-se outra questão - a personalidade dos intervenientes. Na política, idealmente, é preciso manter as costas direitas, mas tal não pode traduzir-se pela agressividade bem pouco encapotada na postura e no discurso, algumas intervenções da Senhora Ministra da Educação no Parlamento exemplificaram tal confusão. Adiante...
Pois, maioria relativa. E devo dizer que a angústia do PS, atendendo à oposição em absoluto lamentável, silenciosa, quase patética com que se vem deparando por parte do PSD, diz muito da desilusão de largas fatias do eleitorado. O reforço à sua esquerda acarretaria a necessidade de acordos pontuais, de negociação, de política, irra! Mas aqui a chaveta do Thora ocupa a boca de cena - como jogar pelo seguro? Fazemos um plenário com todos os indecisos, pedimos ajuda a quem de números percebe e organizamos as hostes?: tantos mil votam PS para garantir a vitória e os outros... exerçam a sua liberdade como entenderem. Já agora com um enorme piquenique, a reunião seria longa, eu juntava-lhe duas ou três bandas rock para descomprimir:). Não dá, gente:(. Como cantaria Sandy Denny, se ressuscitasse e por lá aparecesse - ain't life a solo? Não sei, espero que não mais vezes do que as necessárias, mas a decisão de voto é.

Porque escrevo no dia seguinte ao debate Sócrates-Louçã, aí vai a minha opinião: o PM ganhou-o. Foi eficaz na estratégia de encostar as propostas do BE a uma política fiscal que penaliza a classe média e Louçã fez uma defesa algo pastosa das nacionalizações e do papel da CGD. Sócrates não desdenharia resultado semelhante com Manuela Ferreira Leite, creio. O problema é que o "eleitorado flutuante" de esquerda não se preocupa muito com o que o Bloco ou o PC fariam se... tivessem eles próprios maioria absoluta:). Não os imagina a governar em vez do PS, mas sim a influenciar-lhe a governação. E por isso, sobretudo para o Bloco, a próxima legislatura será muuuuito delicada - claro que algum do seu crescimento se deve a "voto consolidado", mas também há ali muito voto de protesto. E esse baterá as asas em novas eleições se as pessoas considerarem que o Bloco não assumiu as suas responsabilidades nos acordos pontuais de que acima falei.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Voto útil.

Um certo sabor a redundância... Pois, não é o voto sempre útil? Bom, no sentido de eficaz, apenas se a Democracia funcionar, lembro-me de votações para a Presidência da República em que o inenarrável Almirante Américo Tomaz entusiasmava de tal modo os apoiantes - estrategicamente colocados... - que acabava a ganhar por 110% em não poucas mesas de voto:). Mas quando não existem tais "excessos de zelo em defesa da pátria" não se justifica a pergunta?


Útil para quem ou quê? Parece-me consensual que o partido beneficiado por "aquele" boletim o considera muuuito útil, afinal a voto dado não se olha ao dente! Mas a expressão tornou-se um êxito de bilheteira por traduzir uma realidade diversa - o voto útil resulta da análise fria das possíveis geografias pós-eleitorais e de uma decisão que não coincide com o primeiro e espontâneo movimento da alma que comanda a mão, patroa da esferográfica cuja tinta vai colorir um anémico quadradinho, ao abrigo de uma cortina que já viu melhores e mais limpos dias.


Ou seja: alguém que se inclina para a abstenção, o voto em branco ou em determinado partido, molha o dedo em água ou cuspo e averigua de onde e para onde sopram os ventos políticos; franze o sobrolho; cofia a barba ou acaricia pele lisa; suspira; e decide que valores mais altos se alevantam.


Em geral, o episódio não prima pela originalidade - trata-se de evitar que a vitória bafeje quem não a merece ou - sobretudo... - ameaça transformá-la numa realidade mais penalizante do que a actual; algo do género "para melhor está bem, está bem, para pior já basta assim". Mas também pode tratar-se de uma avaliação dos votos necessários para eleger mais um deputado por este ou aquele partido da nossa área política, à luz dos resultados das últimas eleições. Neste caso ouve-se muito a expressão "não desperdiçar o voto".


A política portuguesa é deprimente a vários níveis, escolhamos um - raramente o poder é conquistado pela sedução exercida por um programa político, oposição bem feita ao longo de uma legislatura ou mesmo a confiança despertada por um líder. Em Portugal, o mais das vezes, não se ganham eleições, os outros perdem-nas. Tal facto explica a postura expectante e silenciosa da oposição, no fundo perguntando simplesmente "não estão fartos deles? Nós somos a alternativa!".


(Em vários períodos ao longo dos últimos trinta e cinco anos a palavra "alternativa" aplicada ao PS e PSD justificaria uma análise mais aprofundada...).


Como funciona então o discurso apelativo? Mais ou menos assim - "só o PS e o PSD podem formar Governo, gente, isto é entre nós e eles!". (Uma formulação mais económica e narcísica da questão leva a reduzir as eleições à escolha de um Primeiro-Ministro...). "Alguns de vocês não gostam do que fizemos no Poder ou do que nos propomos fazer com ele, mas já imaginaram a consequência do vosso amuo se traduzir em voto alheio? "Eles" ganham! E por culpa vossa...".



Deixemos a evidente tonalidade chantagista do discurso e concentremo-nos nas consequências: se acontece navegarmos nas águas de um dos dois maiores partidos, as possibilidades de escolha são inexistentes. (Poderão contrapor que as angústias também:)). Se aplaudimos a sua prática votamos neles porque merecem; se estamos afectados pelo célebre amuo também votamos, para impedir a vitória do outro. No limite, chega a ser um desperdício caro e fatigante a existência dos outros partidos, da abstenção e do voto em branco! Tudo se poderia reduzir a um tête-à-tête entre o PS e o PSD, melhor dizendo entre o Engenheiro Sócrates e a Dra. Manuela Ferreira Leite, imagem que me delicia:).



Nesta argumentação surgem palavras como estabilidade, governabilidade, arco do poder, etc..., que seguramente voltaremos a encontrar. A basezinha, creio, é a seguinte: um voto de acordo com a nossa consciência também pode ser muuuito útil. Para quem? Para nós:). Que também contamos!, é bom não esquecer que fazemos parte do povo que todos os políticos juram ser quem mais ordena, nunca o Zeca imaginou ter coro tão afinado a acompanhá-lo:(. Dos dois principais partidos, o que perder melhor faria em pôr-se ao espelho, em vez de culpar a irresponsabilidade de quem nele não votou.

P.S. O Gonçalo tem razão, o PS sempre foi a referência familiar, desde o meu Avô. Mas eu esperneio mesmo muito e por isso já votei em branco e noutros partidos, só a abstenção me está vedada:). Quando isso aconteceu, fiquei triste. Mas sem remorsos...

Da próxima vez falarei de cenários pós-eleitorais.