Calcorreou centros comerciais, alfarrabistas, mercados, galerias de arte, discotecas e até o sótão lá de casa, que o pó guarda tesouros merecedores de laçarote feito e olhado com sorriso. Nada. Verdade que a ambição era de monta - presente que fosse arauto e espelho de sentimento profundo e cálido. O ridículo de voltar a casa de mãos vazias, quando as dos outros não chegavam para tanto embrulho:(. Ridículo... Pessoa... "Aquelas" cartas... A hesitação perante os riscos de um strip-tease verdadeiro e não disfarçado pela nudez. A secretária, o caderno de argolas promovido a papel de carta. As palavras. Primeiro tímidas e enferrujadas, depois em galope de rio tão ávido que desagua na outra margem do oceano. A mão cansada antes delas. A cabeça exigindo balanço, eventual correcção ou voo para o lixo, enfim!, pretextos para meter (alguma) ordem no coração. A difícil leitura de uma escrita vulcânica, sinuosa, aqui e ali hieroglífica, tal a pressa de chegar à palavra certa; definitiva. O desconsolo. E no entanto...
Um P.S. lento e diligente, herdeiro dos cadernos da escola primária, só faltava a língua espreitando à janela dos lábios - "Procurei que estas linhas desenhassem o que tento e não consigo dizer. Nem de um esboço chegaram perto:(. Mas repara bem - algures no seu entrançado caótico, elas abrigam o que te cose a mim. Feliz Natal."
Os versos finais da canção do Chico esgueirando-se, invisíveis, envelope dentro:
"O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar
Por que todos os risos vão desafiar
Por que todos os sinos irão repicar
Por que todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo..."
Suspirou. Porque não se vende talento, nem sequer nas floristas? Porque não é passageiro obrigatório do Amor? Talvez para O tornar mais humano e democrático. O pensamento era reconfortante...
... Mas o tempo, esse, não era de torpor contemplativo, levantou-se de um pulo - a que horas fechariam os Correios?
quinta-feira, dezembro 24, 2009
domingo, dezembro 20, 2009
Boa noite.
Assim como, embora de forma irónica, zurzi forte e feio o Benfica de Olhão, hoje digo que os rapazes me deixariam orgulhoso, mesmo se um qualquer ressalto originasse o empate. Pelo que jogaram e pela forma como se bateram. Não exijo mais.
Boa noite.
Cantelães. O frio é severo, e no entanto acolhedor. Nem minha Mãe, agora anfitriã, permitiria que fosse de outro modo...
quarta-feira, dezembro 16, 2009
Boa noite.
Escrever-te sem te escrever, eis o segredo! Porque a simples fantasia da entrega do correio me inibe o pensamento, as palavras, os sinais de fumo, os innuendos. Aproveitar o facto de sempre me habitares coração terno e entranhas exasperadas e falar "para dentro", sem barreiras, como o amor no filme com música do Bernstein, "Maria, I just met a girl...". E alucinar, querida. A tua severa doçura refugiada num sorriso maroto e à boleia atrevendo-se a responder às pequenas loucuras que segredo aterrorizado, "e se lhe magoo a timidez?". O murmúrio tão desejado que dele duvido, "eu também". A custo meu, uns centímetros em brasa entre nós. Esses olhos nublados pelo desejo, todas as outras razões são possíveis, todas me empurram para longe. O meu silêncio indeciso, as tuas mãos, escandalizadas e risonhas, sorvendo-me para o teu colo, "eu também, ou duvidas?". É óbvio que duvido, mas tenho a certeza que não o direi. Se aqueles pouco centímetros me doeram, como arriscaria a demora de um ralhete? Mergulho em ti, ainda e sempre na esperança de ir tão fundo que seja impossível regressar à tona e com a verdade te engano - "claro que não".
E rezo para que tão descarada mentira prove, sem margem para dúvidas, quão genuíno é o apelo para que não afrouxes o teu abraço.
E rezo para que tão descarada mentira prove, sem margem para dúvidas, quão genuíno é o apelo para que não afrouxes o teu abraço.
terça-feira, dezembro 15, 2009
Referenciado na sequência de inúmeras...
Uma mulher de 42 anos foi ontem baleada pelo ex-marido, em Leça da Palmeira, Matosinhos, na sequência de uma violenta discussão. O ataque aconteceu de madrugada e o agressor, de 47 anos, suicidou-se momentos depois nas traseiras da Exponor. Até à hora de fecho desta edição, a mulher continuava internada no Hospital de São João, no Porto, em morte cerebral.O casal vivia um complicado processo de divórcio litigioso. Ontem o homem resolveu terminar pelas próprias mãos o caso que se arrastava em tribunal. Ao final do dia, esperou que a mulher saísse do trabalho, em Leça da Palmeira. Pelas 23h45, o filho mais novo ligou à mãe: parecia assustada e confirmou estar com o ex-marido, o que levou o jovem de 15 anos a pedir a ajuda da PSP, confirmou ao i fonte policial. O homem estava já referenciado na sequência de inúmeras ameaças e actos de violência doméstica.A PSP enviou carros-patrulha a pontos-chave da cidade, mas não conseguiu detectar o automóvel do agressor, que entretanto já se deslocava para Aveleda, Vila do Conde. Antes, ligou a um irmão contando que ia matar a mulher e suicidar-se. A família contactou as autoridades, mas já era tarde. A mulher terá levado um tiro na cabeça na sequência de uma violenta discussão, contou ao i fonte policial. O seu corpo foi depois transportado, na Renault Express, até à Rua da Agra Nova, em Aveleda, onde foi abandonado. O marido voltou então a Matosinhos, estacionando no parque da Exponor. Após a meia-noite, a PSP foi chamada ao local, onde encontrou o homem morto a tiro na carrinha, com a pistola ao lado. Ao mesmo tempo, GNR e Cruz Vermelha de Vila do Conde eram avisados por condutores da presença de alguém ferido na via pública, em Aveleda. A mulher - que tem outro filho, de 20 anos - entrou no hospital de São João às 3h00, já em morte cerebral.
Quando os números são de carne e osso:(.
A minha ex-empregada foi morta pelo ex-marido, que se suicidou a seguir. Antes disso fora agredida em privado e em público várias vezes. Pediu ajuda e ela não veio. Amanhã ou no fim do mês será um número nas estatísticas. Cá em casa era uma mulher pálida, triste, às vezes queixosa, nunca esperançada. Quando eu entrava a horas inesperadas, tinha de me anunciar em voz alta para que não entrasse em pânico. Deixou de vir porque morava longe. Morreu porque uma sociedade inteira vivia longe dela:(.
domingo, dezembro 13, 2009
A deformação profissional:).
Hoje convidei o psi para assistir ao jogo do Benfica lado a lado com o maluquinho da bola. Disse-lhe que certo jogo com o Trofense ainda me assombrava as noites e talvez precisasse de uma opinião dele. Quando o paupérrimo e trauliteiro espectáculo de Olhão terminou, perguntei - "E que me diz?". O tipo olhou-me de revés, sorveu mais um golo... - ui, que acto falhado, diria ele:) - de chá de tília e diagnosticou: imaturidade emocional colectiva, baixíssima tolerância à frustração com explosões de agressividade, prováveis tendências suicidárias, é de recear descompensação grave na quadra natalícia.
"Jesus", gemi eu. Já a caminho da porta, ainda murmurou - "esse também me pareceu desorientado e com alucinações ao descrever o jogo... Quer que volte no Domingo?". Agradeci o gentil oferecimento, mas recusei, o sofá tem dois lugares e acho mais seguro ter comigo um cardiologista!
"Jesus", gemi eu. Já a caminho da porta, ainda murmurou - "esse também me pareceu desorientado e com alucinações ao descrever o jogo... Quer que volte no Domingo?". Agradeci o gentil oferecimento, mas recusei, o sofá tem dois lugares e acho mais seguro ter comigo um cardiologista!
quinta-feira, dezembro 10, 2009
Boa noite.
Reviver o passado em Brideshead. A série televisiva fascinou-me tanto que não consigo apreciar o filme com isenção, mesmo com a extraordinária - e não surpreendente... - representação de Emma Thompson. Irónicos, versos dos Floyd dentro de mim:
"Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say."
The English way????? Mas quem lhes concedeu tal monopólio?:).
"Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say."
The English way????? Mas quem lhes concedeu tal monopólio?:).
terça-feira, dezembro 08, 2009
Boa continuação:).
Zapping pós-prandial. Sonolento, por pós-bacalhau e tintol alentejano. (Como sou homem não notei o efeito afrodisíaco que recente artigo anuncia para as mulheres:(. E de todas a regiões vinícolas!). Cinema Paraíso... Há muitos anos escrevi um texto sobre o filme que releio hoje com alguma nostalgia - o meu encantamento era então mais arrebatado e a culpa não pertence ao filme, perdi fogo interior. O sono levantou voo, o riso e a lamechice apresentaram-se ao serviço, como em todas as n vezes em que vi a fita. Que já utilizei para falar de amor adolescente, fugas ao passado, dores de crescimento, lutos por gente viva, idealizações perigosas, paixão pela paixão do outro, etc... Mas hoje limitei-me a ir indo, vendo, aprendendo. E invejando aquele extraordinário Noiret!, um homem que faz o Cinema Paraíso e O Carteiro de Pablo Neruda pode roubar-lhe a frase e gritar do Céu dos artistas - confesso que vivi:).
terça-feira, dezembro 01, 2009
Boa noite.
Uma equipa apresenta-me uma proposta terapêutica consensual. A argumentação é sólida, concordo com ela. Tenho a certeza que a decisão será a melhor no que ao futuro diz respeito. E no entanto, o meu "faça-se" empurrou uma criança para longe de quem amava e o amava a ele, receio que esta tenha sido uma noite de lágrimas para o petiz. Que não compreende sequer o significado das palavras "argumentação" e "futuro" e se pergunta o que fez de mal para perder afagos e cuidados maternais, oficialmente baptizados de apoio técnico.
Fiz o que devia.
Tenho a consciência tranquila.
Sei que angústias longínquas o desgosto do miúdo espicaçou dentro de mim.
Mas nada suaviza a tristeza culpada com que o recordo.
Fiz o que devia.
Tenho a consciência tranquila.
Sei que angústias longínquas o desgosto do miúdo espicaçou dentro de mim.
Mas nada suaviza a tristeza culpada com que o recordo.
domingo, novembro 29, 2009
Boa noite.
Se me exigires palavras, dar-tas-ei. Mas repara, são as dos poetas que abrigam espelhos, mortais ou lisonjeiros. As minhas só te darão uma certeza: nenhum Cyrano mas ensina. (É justo, não possuo a beleza de Christian para as emoldurar.) Posso fazer uma sugestão? Pede antes salvo-conduto para os meus olhos. De acordo, são escuros, mas as respostas moram lá. Porque uma coisa te garanto, amor: se o povo acertou e são janelas da alma, fita-me bem e verás que os meus tentam desesperadamente oferecer-te uma varanda escancarada sobre o coração:).
segunda-feira, novembro 23, 2009
Boa noite.
O cabelo e tu atrás, enroscada nas margens do meu peito. A mania de esticar a sorte, "deixas-me ouvir-te?". A súbita rouquidão de voz frágil e corpo retesado, "depois, vou de viagem". E essa boca que por mim todo vagueia, as hesitações de há mil anos transformaram-se em ritmos imprevisíveis e provocantes, quem diz ritmo diz canção, o que nós andámos para aqui chegar!:). O transbordar para a minha esquerda, "vem". Cobrir-te. Pasmar ainda uma vez por o desejo abrigar ternura e violência de mãos dadas, um esgar teu, pressentido ou alucinado, e o amante chama o amigo em altos berros silenciosos, "cuida dela, por favor". Entrar na fonte do mundo. Sentir lábios no ouvido, "gosto do teu peso". Calar, guloso, a resposta. Ser recompensado por espera tão interesseira, afogar-me na torrente das palavras que depois me proibirás de repetir, com um sorriso corado e travesso, "nunca o disse". E que me importa, se o ouvi e tu - no mínimo... - o pensaste?:).
sexta-feira, novembro 20, 2009
Boa noite.
A continuação de Guilherme Oliveira Martins é uma réstia de azul no céu carregado de suspeitas desencantadas que cobre este país:(.
domingo, novembro 15, 2009
Os patriarcas.
O estatuto de patriarca é curioso: quando o silêncio reina, à calma junta-se o medo da inutilidade; se chovem telefonemas e mails, lançamo-nos à estrada com dúvida rumorejante - "serei capaz?". E se somos, tememos o futuro de quem amamos; megalómanos entoamos pergunta com odor festivaleiro, "e depois de nós?".
A resposta é simples: o amanhã. Sem ficarem sós:).
A resposta é simples: o amanhã. Sem ficarem sós:).
domingo, novembro 08, 2009
Claro que posso:).
Quero antes de mais pedir desculpas pelo abuso. Obtive o seu email quando percorria, não pela primeira vez o seu BLOG, e decidi contactá-lo. Não a título pessoal, apesar de conhecer o seu trabalho, mas em benefício da entidade com que colaboro.
Somos uma IPSS com sede no Centro Hospital de Gaia, prestamos apoio não só dentro do meio hospital ( através do voluntariado) como também contribuimos para a humanização dos espaços, e prestação de cuidados ao domicílio.
Poderei, se desejar enviar-lhe toda a informação referente à nossa Instituição.
Estamos a aproximar-nos da quadra natalícia e temos por habito proceder a uma pequena venda de Natal, de forma a angariar alguns fundos para a Liga. A nossa subsistência depende apenas do valor das cotas dos sócios ( os que pagam) e tem por valor base 1€. Como temos mensalmente gastos acima dos 1000€ e apenas temos 1500 sócios ( alguns dos quais nao pagantes), tentamos ao máximo "fazer dinheiro".
É no seguimento do que escrevi a cima que o contacto. Poderia dispensar-nos alguns dos seus livros para vendermos( estamos aptos a passar recibo de doação ao abrigo da Lei do Mecenato) ? Poderá de alguma forma contribuir connosco? Poderá, por exemplo, no seu blog ajudar-nos a publicitar a Liga?
Somos uma IPSS com sede no Centro Hospital de Gaia, prestamos apoio não só dentro do meio hospital ( através do voluntariado) como também contribuimos para a humanização dos espaços, e prestação de cuidados ao domicílio.
Poderei, se desejar enviar-lhe toda a informação referente à nossa Instituição.
Estamos a aproximar-nos da quadra natalícia e temos por habito proceder a uma pequena venda de Natal, de forma a angariar alguns fundos para a Liga. A nossa subsistência depende apenas do valor das cotas dos sócios ( os que pagam) e tem por valor base 1€. Como temos mensalmente gastos acima dos 1000€ e apenas temos 1500 sócios ( alguns dos quais nao pagantes), tentamos ao máximo "fazer dinheiro".
É no seguimento do que escrevi a cima que o contacto. Poderia dispensar-nos alguns dos seus livros para vendermos( estamos aptos a passar recibo de doação ao abrigo da Lei do Mecenato) ? Poderá de alguma forma contribuir connosco? Poderá, por exemplo, no seu blog ajudar-nos a publicitar a Liga?
quarta-feira, novembro 04, 2009
Os trintões rejuvenescem cá dentro:).
Os meus filhos, pai e tio.
Um estampa-se nas ondas de Matosinhos, fica logicamente amolgado, eu tremo e não resisto a apelo cobarde e inútil - "deixa-te disso, pá, mete a reforma". Fui zurzido com justiça, ainda perde outra batalha feroz com o mar só para me punir...
Outro regressa de Londres e presenteia-me com fotografia mentirosa, "homem com grades e prédio por trás". Mas que prédio, meu Deus - os estúdios de Abbey Road! Olho a minha parede: os quatro atravessam a mais famosa passadeira do mundo, John de branco, Paul descalço, Ringo de farpela, George com a ganga que me acompanha há mais de quarenta anos. O malandreco soube exactamente como abrir a gaveta da nostalgia orgulhosa...
Os meus filhos, pai e tio, com as preocupações de Carlos Carvalhas sobre o programa de Governo em fundo. Perdão!, agora o Júdice. Os meus filhos de calções, saco de roupa às costas, de uma fidelidade que eu não merecia, prontos para o fim-de-semana com um pai que os enchia de filetes do Capitão Iglo. Claro que são homens e como tal procuro tratá-los, mas lá escreveu o Eugénio - não esqueci nada. Muito menos esta gratidão enternecida, que tantas vezes foi o combustível que me permitiu arrancar para um novo dia.
Um estampa-se nas ondas de Matosinhos, fica logicamente amolgado, eu tremo e não resisto a apelo cobarde e inútil - "deixa-te disso, pá, mete a reforma". Fui zurzido com justiça, ainda perde outra batalha feroz com o mar só para me punir...
Outro regressa de Londres e presenteia-me com fotografia mentirosa, "homem com grades e prédio por trás". Mas que prédio, meu Deus - os estúdios de Abbey Road! Olho a minha parede: os quatro atravessam a mais famosa passadeira do mundo, John de branco, Paul descalço, Ringo de farpela, George com a ganga que me acompanha há mais de quarenta anos. O malandreco soube exactamente como abrir a gaveta da nostalgia orgulhosa...
Os meus filhos, pai e tio, com as preocupações de Carlos Carvalhas sobre o programa de Governo em fundo. Perdão!, agora o Júdice. Os meus filhos de calções, saco de roupa às costas, de uma fidelidade que eu não merecia, prontos para o fim-de-semana com um pai que os enchia de filetes do Capitão Iglo. Claro que são homens e como tal procuro tratá-los, mas lá escreveu o Eugénio - não esqueci nada. Muito menos esta gratidão enternecida, que tantas vezes foi o combustível que me permitiu arrancar para um novo dia.
domingo, novembro 01, 2009
O preço certo?
O céu de Cantelães marcou-me falta e os benfiquitas perceberam que é cedo para festejos. A chuva transformou-se num "bónus" desnecessário, o meu humor já seria negro sem ela:). E no entanto... Num dia longínquo, depois de uma conferência longínqua, numa cidade nesses tempos longínqua de tão órfã de auto-estrada, um padre sorriu e disse - "você é simplesmente um católico que não acredita em Deus". Eu teria preferido o diagnóstico de cristão, mas há verdade na frase. Por exemplo, na convicção pré-consciente de que todo o prazer tem um preço.
O Sérgio ao telefone, "estás bem, pá? Queres ir...?". Ele sabia a resposta, lembro-me de assistir não apenas ao espectáculo, mas também ao ensaio, enroscado no escuro da plateia do Rivoli, "como consegue o gajo enfiar tantas palavras na melodia?". Claro que fui. O Coliseu como um ovo e o meu filho músico fitando-os como ave de rapina, a minha canção favorita do Sérgio é o "Que há-de ser de nós?" e a resposta está neles, nos mais novos e no regaço das suas memórias. (Regaço é uma palavra doce, faz pensar em cabelos afagados por mãos de mulher que segundos antes nos exasperavam o corpo, "obrigado, querida, shh, não sejas tonto".)
Nunca fui um revolucionário, não mitifico o PREC ou qualquer um dos responsáveis pelos Três Cantos. Aposto que são feitos de sol e sombra, como eu. Tenho saudades de cirandar por Lisboa com o Sérgio e algumas pessoas nos perguntarem se éramos família, "há uma parecença qualquer...". Família, obviamente! Ele escrevera-me para o Sexualidades, "cá em casa vemos todos, quando apareces?". E eu não demorei, a sua música embalava-me há muito, o jantar decretou-nos velhos amigos com atraso. As ruelas de Lisboa, os tascos de Matosinhos, mesmo assim vemo-nos raramente, pecado nosso. Os outros dois são amigos que não conheço:).
Saí do concerto e não quis interromper o Sérgio, a adrenalina baixa preguiçosa, a cada um de escolher como, eu prefiro a solidão. Enviei sms. E de repente apercebi-me de que lhe agradecera o privilégio crepuscular. Não apaguei a expressão. Porque a nossa geração canta, fala e escreve sobre um pano de fundo já crepuscular. Não é uma tragédia. Mas transforma cada ritual num bem precioso, que seria criminoso desperdiçar.
Talvez as saudades de Canteláes e a tristeza pelo Benfica não sejam um preço assim tão exagerado:).
O Sérgio ao telefone, "estás bem, pá? Queres ir...?". Ele sabia a resposta, lembro-me de assistir não apenas ao espectáculo, mas também ao ensaio, enroscado no escuro da plateia do Rivoli, "como consegue o gajo enfiar tantas palavras na melodia?". Claro que fui. O Coliseu como um ovo e o meu filho músico fitando-os como ave de rapina, a minha canção favorita do Sérgio é o "Que há-de ser de nós?" e a resposta está neles, nos mais novos e no regaço das suas memórias. (Regaço é uma palavra doce, faz pensar em cabelos afagados por mãos de mulher que segundos antes nos exasperavam o corpo, "obrigado, querida, shh, não sejas tonto".)
Nunca fui um revolucionário, não mitifico o PREC ou qualquer um dos responsáveis pelos Três Cantos. Aposto que são feitos de sol e sombra, como eu. Tenho saudades de cirandar por Lisboa com o Sérgio e algumas pessoas nos perguntarem se éramos família, "há uma parecença qualquer...". Família, obviamente! Ele escrevera-me para o Sexualidades, "cá em casa vemos todos, quando apareces?". E eu não demorei, a sua música embalava-me há muito, o jantar decretou-nos velhos amigos com atraso. As ruelas de Lisboa, os tascos de Matosinhos, mesmo assim vemo-nos raramente, pecado nosso. Os outros dois são amigos que não conheço:).
Saí do concerto e não quis interromper o Sérgio, a adrenalina baixa preguiçosa, a cada um de escolher como, eu prefiro a solidão. Enviei sms. E de repente apercebi-me de que lhe agradecera o privilégio crepuscular. Não apaguei a expressão. Porque a nossa geração canta, fala e escreve sobre um pano de fundo já crepuscular. Não é uma tragédia. Mas transforma cada ritual num bem precioso, que seria criminoso desperdiçar.
Talvez as saudades de Canteláes e a tristeza pelo Benfica não sejam um preço assim tão exagerado:).
quinta-feira, outubro 22, 2009
Associação livre de psiquiatra agnóstico ensonado acerca do folhetim da moda ou como a silly season invadiu o Outono:).
A Vida é um Jogo no Hollywood, com Paul Newman. Ainda apenas (?) bonito, sem o charme do segundo capítulo, que lhe valeria o óscar - A Cor do Dinheiro. A vida é um jogo... Saramago, por exemplo, tenciona jogá-lo até ao fim. Mesmo correndo o enorme risco de ver as suas palavras tomadas por choque vitamínico de campanha publicitária. Quanto às críticas, pouco lhe importam, muito menos o horror virtuoso do eurodeputado que sugere troca de cidadania para limpar honra e fé lusas. E no entanto... Aqui e ali, há no discurso de Saramago uma tonalidade provocatória que desagua em apelo não menos sedutor que o da serpente a Eva. O ateu desafia o (outro?) Senhor a deixar a toca celeste e trovejar - "Que andas dizendo a Meu respeito?".
Insolúvel drama o deste homem, não acredita no único interlocutor que aceitaria como par...
Insolúvel drama o deste homem, não acredita no único interlocutor que aceitaria como par...
sábado, outubro 17, 2009
Obrigado malta:).
When I get older losing my hair,
Many years from now,
Will you still be sending me a valentine
Birthday greetings bottle of wine?
If I'd been out till quarter to three
Would you lock the door,Will you still need me,
will you still feed me,When I'm sixty-four?
oo oo oo oo oo oo oo oooo
You'll be older too, (ah ah ah ah ah)
And if you say the word,I could stay with you.
I could be handy mending a fuse
When your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside
Sunday mornings go for a ride.
Doing the garden, digging the weeds,Who could ask for more?
Will you still need me, will you still feed me,When I'm sixty-four?
Every summer we can rent a cottageIn the Isle of Wight,
if it's not too dear
We shall scrimp and save
Grandchildren on your kneeVera, Chuck, and Dave
Send me a postcard, drop me a line,Stating point of view.
Indicate precisely what you mean to say
Yours sincerely, Wasting Away.
Give me your answer, fill in a form
Mine for evermore
Will you still need me, will you still feed me,When I'm sixty-four?
Whoo!
Many years from now,
Will you still be sending me a valentine
Birthday greetings bottle of wine?
If I'd been out till quarter to three
Would you lock the door,Will you still need me,
will you still feed me,When I'm sixty-four?
oo oo oo oo oo oo oo oooo
You'll be older too, (ah ah ah ah ah)
And if you say the word,I could stay with you.
I could be handy mending a fuse
When your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside
Sunday mornings go for a ride.
Doing the garden, digging the weeds,Who could ask for more?
Will you still need me, will you still feed me,When I'm sixty-four?
Every summer we can rent a cottageIn the Isle of Wight,
if it's not too dear
We shall scrimp and save
Grandchildren on your kneeVera, Chuck, and Dave
Send me a postcard, drop me a line,Stating point of view.
Indicate precisely what you mean to say
Yours sincerely, Wasting Away.
Give me your answer, fill in a form
Mine for evermore
Will you still need me, will you still feed me,When I'm sixty-four?
Whoo!
terça-feira, outubro 13, 2009
Boa noite.
Como a Vida é um fogacho, consentido pelo Nada a que regressa, também as palavras desaguam no silêncio. Com uma diferença, ao menos para o não crente: a Vida precisa de si mesma para ficar, sem a memória alheia apaga-se; as palavras carregam o duro privilégio de moldarem o tipo de silêncio que delas brota. É o da intimidade que exige a mais hábil esgrima prévia...
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