A férrea doçura de minha Mãe transformou os Machado Vaz em satélites agradecidos. Marido, filho e netos habituaram-se à opinião firme e não cortante, a apoio certo mas jamais incondicional, ao colo acolhedor e contudo sempre temporário, ela não permitia que a sua força atrasasse o futuro de ninguém. Quando o primeiro bisneto nasceu, embalou-o com o enlevo que reservava a todas as crianças, mas já não o reconheceu como herdeiro e fiel depositário da lenda familiar.
O meu Pai sofreu o primeiro enfarte e a Mãe disse, com envergonhada firmeza: “se morrer, apenas fico por tua causa e dos meninos, a vida sem ele não faz sentido. Desculpa”. Abracei-a em silêncio, nada havia a desculpar - eu fora testemunha, fruto e voyeur invejoso de um árduo amor perfeito durante cinquenta anos. Quando a velha dama risonha cantada por Neil Young tentou de novo seduzir meu Pai, a vida dela rendeu-se ao horror permanente de o perder: vigiava-lhe passos, queixas, esgares e mesmo a sesta, inventava pretextos para o acordar porque lhe parecera demasiado quieto e a cabeça, derrotada, pendia sobre o peito. Como a fina inteligência!, após o segundo enfarte ele baloiçava entre a venerada lucidez e um estado confusional embrutecido, que o deixava frente à televisão em permanente e cego zapping. Enquanto o jornal amado permanecia virgem ao alcance da mão, de súbito analfabeta….
Eu abria a porta e perguntava como se sentia ela, que de imediato me chamava à (sua) realidade com um “como achas o Pai?” sem réplica possível. Entretanto, e sem eu saber, começara a perder-se na rua e a gerir o quotidiano à custa de papelinhos e aflitos regressos a super-mercados, oficialmente decretados meros esquecimentos. E o filho psiquiatra, obediente, observava-o a ele… Até que um dia reparei no seu cabelo e percebi que minha Mãe mudara, a palavra desleixo não constava no seu vocabulário. Ofereci-me para a levar ao cabeleireiro – “ele fica sozinho”…, “estou cá eu, um dos rapazes leva-te”…”não, deixa-me”. Aos gritos de raiva, face escondida nas mãos, choro convulsivo, como pudera ser tão néscio?
E à terceira foi de vez, o seu homem partiu; num sofrimento que envergonhou a Medicina, ela aconchegava-lhe os lençóis, “o Pai ainda se constipa…”. Quando lhe dei a notícia, uma calma estranha invadiu o quarto e expulsou o delírio em que vivia, disfarçou a ordem de pedido, “levas-me?”. Perante o meu olhar atónito beijou-lhe a testa e velou-o com a minha entre as suas mãos, afiançando-me que ambos trataríamos de tudo “para proteger os meninos”.
Todos fomos sendo esquecidos, talvez pelo esforço titânico para o manter a ele algures. E um dia as costas endireitaram-se, nos olhos faiscou de novo aquele verde que me assustava e enternecia, “por favor, ajuda-me a acabar com isto”. Pedia auxílio e consentimento, era incapaz de trair, “fico por tua causa e dos meninos…”. Não consegui e ela regressou às catacumbas do cérebro. O corpo resistiu doze anos, o espírito há muito que se juntara a meu Pai. Agora, espera-me em Cantelães. Onde lhe reencontrarei o colo. E bálsamo para a culpa não culpada que ainda sinto. Só ela o pode fazer, “vem, menino”. Abrindo sorriso e braços, lá onde repousa - no meio das (outras) flores.
domingo, março 28, 2010
sexta-feira, março 19, 2010
Dia do Pai.
Releio A Cidade e as Serras e em em cada esquina das palavras sussurra a voz de meu Pai: o diagnóstico do velho Grilo - "Sua Excelência sofre de fartura"; Sua Alteza de partida, incitando o anfitrião do 202 - "O peixe, Jacinto, desencalha o peixe!"; Efraim e o capitalismo selvagem explicado numa frase - "esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!... Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!"; Jacinto em desesperada busca do natural - "Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!".
Meu Pai amava Eça, de quem dizia, num contentamento educativo - "está lá tudo". E as suas citações favoritas arvoram-se em banda sonora da saudade que não esmaece. Se tivesse de escolher uma para legenda de memória nossa, iria buscá-la a este livro. Porque quase até ao fim da vida, raras foram as vezes em que meu Pai tropeçou no filho embrenhado no desafio do Verbo e não murmurou, enquanto aflorava com dedos tímidos a minha nuca - "faz bem, lembre-se do Jacinto - há que ler, há que ler...".
Mas "Quase até ao fim" traduz aceitação reflexa - logo não meditada, o que sobremaneira o escandalizaria! - de um conceito de vida que a vida me foi fazendo recusar com redobrado vigor: a sua identificação a funções vitais necessárias mas não suficientes. "Até ao fim", deveria ter escrito. Porque o meu Velho só deixou de assim me exortar à leitura quando já não desdobrava o jornal que minha Mãe religiosamente colocava a seu lado todas as manhãs.
E a partir desse momento, testemunha que sou do brilho e eterna curiosidade da sua inteligência, seria de lamentável mau gosto dizê-lo vivo. A ninguém ocorre chamar ainda navio aos destroços que salpicam as águas depois do naufrágio:(.
Meu Pai amava Eça, de quem dizia, num contentamento educativo - "está lá tudo". E as suas citações favoritas arvoram-se em banda sonora da saudade que não esmaece. Se tivesse de escolher uma para legenda de memória nossa, iria buscá-la a este livro. Porque quase até ao fim da vida, raras foram as vezes em que meu Pai tropeçou no filho embrenhado no desafio do Verbo e não murmurou, enquanto aflorava com dedos tímidos a minha nuca - "faz bem, lembre-se do Jacinto - há que ler, há que ler...".
Mas "Quase até ao fim" traduz aceitação reflexa - logo não meditada, o que sobremaneira o escandalizaria! - de um conceito de vida que a vida me foi fazendo recusar com redobrado vigor: a sua identificação a funções vitais necessárias mas não suficientes. "Até ao fim", deveria ter escrito. Porque o meu Velho só deixou de assim me exortar à leitura quando já não desdobrava o jornal que minha Mãe religiosamente colocava a seu lado todas as manhãs.
E a partir desse momento, testemunha que sou do brilho e eterna curiosidade da sua inteligência, seria de lamentável mau gosto dizê-lo vivo. A ninguém ocorre chamar ainda navio aos destroços que salpicam as águas depois do naufrágio:(.
quinta-feira, março 11, 2010
Quase...
Rabugento, quase adormecer-te no colo. As crianças resistem, negam, fazem birra, nós sorrimos e comentamos - "está perdido de sono". Talvez, mas dormir parece-lhes um crime desleixado, antes mesmo de o saberem já consideram obsceno passar um terço da vida fora dela, sonhar?, não é a mesma coisa!, quem precisa de alucinar outros com brinquedos de carne e osso no quarto ao lado?
Por isso resisto a essa mão pelos meus cabelos, aos olhos enevoados e à promessa de ouro de lei - "depois...". Não, querida, agora, o cansaço vem de dentro e longe, não se renderá a duas ou três horas de sono inquieto. Agora. E depois... Depois... Depois pedimos meças aos contorcionistas do circo da minha infância, entalados entre palhaços deprimentes e leões deprimidos, e adormecemos no colo um do outro:).
Por isso resisto a essa mão pelos meus cabelos, aos olhos enevoados e à promessa de ouro de lei - "depois...". Não, querida, agora, o cansaço vem de dentro e longe, não se renderá a duas ou três horas de sono inquieto. Agora. E depois... Depois... Depois pedimos meças aos contorcionistas do circo da minha infância, entalados entre palhaços deprimentes e leões deprimidos, e adormecemos no colo um do outro:).
segunda-feira, março 08, 2010
TVC1
O processo de Eichmann. A ladainha clássica - "obedeci a ordens"... "Hitler"... Quando visitei Dachau recordei as experiências feitas com universitários americanos, que administravam (teóricos) choques eléctricos a actores implorando misericórdia. Porque tinham recebido ordens para o fazer... O Mal como visão ontológica é um mito que nos protege de um espelho perturbador - os maiores crimes podem ser cometidos por gente banal. Adjectivá-la de monstruosa não a transforma em extra-terrestre. Por muito que nos custe, o horror de que falava Conrad é, pelo contrário, simplesmente humano:(.
domingo, fevereiro 28, 2010
Domingo à noite.
Gostei de Whatever works, do velho Woody. Estou de acordo com a maioria dos críticos: o maroto foi buscar um "capanga" capaz de ser mais credível no azedume e agressividade, sem perder a ternura. A mensagem parece traduzir a prioridade que resiste - ou surge... - após um trajecto de vida: estamos sozinhos "cá em baixo" e o caos é a ordem reinante, logo, cada réstia de céu azul relacional deve ser aproveitada enquanto dura... Nada de novo em Allen, o fim de Annie Hall ia na mesma direcção. Claro que as combinações apresentadas no filme porão os cabelos em pé a muitos, que as decretarão sinais de um intolerável relativismo ético. Para gáudio dele, desconfio:).
Este fim-de-semana revisitei Shadowlands com Hopkins e Debra Winger. Continuo a ter aquela sensação estranha de que certos actores - lembro-me de Olivier, Gielgud e Burton, por exemplo... - nos fizeram um enorme favor não se limitando ao teatro. Claro que não foi assim, não resistiram a Hollywood. Mas ver Hopkins para lá do enorme sucesso de O Silêncio dos Inocentes é um privilégio raro, Despojos do Dia parece-me outro espectáculo fabuloso de representação "ferozmente ascética". E não deixa de ser curioso que a mensagem é muito semelhante: viver o aqui e agora, aceitando que o sofrimento futuro faz parte da felicidade actual.
P.S. Tive uma epifania - sou sportinguista desde pequenino:).
Este fim-de-semana revisitei Shadowlands com Hopkins e Debra Winger. Continuo a ter aquela sensação estranha de que certos actores - lembro-me de Olivier, Gielgud e Burton, por exemplo... - nos fizeram um enorme favor não se limitando ao teatro. Claro que não foi assim, não resistiram a Hollywood. Mas ver Hopkins para lá do enorme sucesso de O Silêncio dos Inocentes é um privilégio raro, Despojos do Dia parece-me outro espectáculo fabuloso de representação "ferozmente ascética". E não deixa de ser curioso que a mensagem é muito semelhante: viver o aqui e agora, aceitando que o sofrimento futuro faz parte da felicidade actual.
P.S. Tive uma epifania - sou sportinguista desde pequenino:).
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
Vão espreitar!
Peter Sellers no TVC2, Bem-vindo Mr. Chance. Uma alegoria genial à sociedade de aparências que já então se desenhava. E o epílogo ideal para o meu dia:).
domingo, fevereiro 21, 2010
Projecto de vida.
Subir ainda uma vez a Quéribus e esperar. Porque é estúpido procurar respostas neste frenesim acéfalo. Subir a Quéribus e esperar. Não por Deus, romano ou cátaro; por mim.
terça-feira, fevereiro 09, 2010
O filho da Mãe.
Por vezes, ao longo dos anos, houve momentos ou breves minutos durante aulas em que senti uma paz "cósmica", que me fazia bordejar a transcendência, se a expressão me é permitida. Ouvia-me dizer exactamente o que desejava da forma que desejava e a dúvida gania - "não vai durar". Com efeito, o encanto era de vida breve:(. Ficava a esperança... Como se mulher muito querida me afagasse o cabelo garantisse, quase coquette - "eu volto". Sorrio perante a comparação. Ela traduz uma profunda idealização da figura feminina e minha Mãe está-lhe na origem, como é óbvio. Acredito que neste deserto cinzento, são as mulheres a saber por trás de que dunas se escondem os oásis.
Mas só guiam quem lhes dá na real gana, as marotas:).
Mas só guiam quem lhes dá na real gana, as marotas:).
terça-feira, fevereiro 02, 2010
A violação.
“Meu querido,
Não te digo metade (a metade graaaande:) ) do que penso, quando penso em ti . E é muito!, porque moras em todos os meus pensamentos. Pelo menos os bons… Gostava de te guardar no bolso e partir à (nossa) descoberta here, there and everywhere, de Porto Covo a Berlim. Quando alucino uma casinha – eu sei, tresanda a XutosJ -, ela tem um sofá inundado pelo sol onde te enroscas e ao qual eu me encosto, livros espalhados pelo chão e os cabelos pelos teus dedos. Assustadora a fantasia, de tão “conjugal”? Estás enganado, acontece que te levo sempre comigo, das caminhadas na Ericeira aos jantares com amigos no Bairro Alto, os sítios e as pessoas ficam mais bonitos porque vistos por olhos que te procuram e recordam. Se estivesses a meu lado falaríamos de tudo – eu, pelo menos, falaria de tudo! -, não escapavas a poema, notícia ou até coscuvilhice – credo… - escutada, lida ou pressentida. E com razão me decretarias chata, mas com um requebro doce na voz.
Não sei o que o futuro nos reserva; gosto de ti; tenho medo(s)... Principalmente o medo de não saber o que poderia fazer melhor por e para nósL. Gostava de estar nos teus braços e explorar mais de perto esse cheiro por trás do perfume que prefiro acreditar escolhido por amiga de peito...; de ter a certeza que me escutas e não apenas ouves; de te acolher os segredos, os beijos cegos e as mãos em abençoada vagabundagem, talvez um riso infantil e grato em face das prendas ridículas – agora cheira a Pessoa… - com que me imagino a inundar-te.
A verdade é que não te digo metade da metade da metade…, ah!, basta dizer(-te) que adormeço a pensar em nós e tal abraço não é opcional. Boa noite, um beijo grande. Amanhã dir-te-ei bom dia num qualquer corredor e o beijo que trocaremos, acredita!, não passará de uma versão a preto e branco e burocrática deste, mesmo a solo.”
Fechou o diário, à culpa juntava-se um remorso pungente, sem fim à vista. De volta à sala e ao marido, cujos receios exibiam agora a moldura da impaciência.
- Então?
E ela admitiu para si mesma que fora cúmplice da devassa. A rapariga sozinha em Lisboa, as notas a baixarem, as olheiras húmidas, as fugas para o quarto em fins-de-semana, “vão vocês”. O medo deles como álibi, mas sem justificar absolvição. Em voz surda,
- Não são drogas, é doença de amor.
O alívio optimista e amnésico dele,
- Óptimo, isso desaparece com a idade.
A teoria do aquecimento global em definitivo descartada, jorrou de coração e lábios gelo suficiente para uma vida inteira.
- A doença ou o amor?
Ele já regressara ao telejornal.
Não te digo metade (a metade graaaande:) ) do que penso, quando penso em ti . E é muito!, porque moras em todos os meus pensamentos. Pelo menos os bons… Gostava de te guardar no bolso e partir à (nossa) descoberta here, there and everywhere, de Porto Covo a Berlim. Quando alucino uma casinha – eu sei, tresanda a XutosJ -, ela tem um sofá inundado pelo sol onde te enroscas e ao qual eu me encosto, livros espalhados pelo chão e os cabelos pelos teus dedos. Assustadora a fantasia, de tão “conjugal”? Estás enganado, acontece que te levo sempre comigo, das caminhadas na Ericeira aos jantares com amigos no Bairro Alto, os sítios e as pessoas ficam mais bonitos porque vistos por olhos que te procuram e recordam. Se estivesses a meu lado falaríamos de tudo – eu, pelo menos, falaria de tudo! -, não escapavas a poema, notícia ou até coscuvilhice – credo… - escutada, lida ou pressentida. E com razão me decretarias chata, mas com um requebro doce na voz.
Não sei o que o futuro nos reserva; gosto de ti; tenho medo(s)... Principalmente o medo de não saber o que poderia fazer melhor por e para nósL. Gostava de estar nos teus braços e explorar mais de perto esse cheiro por trás do perfume que prefiro acreditar escolhido por amiga de peito...; de ter a certeza que me escutas e não apenas ouves; de te acolher os segredos, os beijos cegos e as mãos em abençoada vagabundagem, talvez um riso infantil e grato em face das prendas ridículas – agora cheira a Pessoa… - com que me imagino a inundar-te.
A verdade é que não te digo metade da metade da metade…, ah!, basta dizer(-te) que adormeço a pensar em nós e tal abraço não é opcional. Boa noite, um beijo grande. Amanhã dir-te-ei bom dia num qualquer corredor e o beijo que trocaremos, acredita!, não passará de uma versão a preto e branco e burocrática deste, mesmo a solo.”
Fechou o diário, à culpa juntava-se um remorso pungente, sem fim à vista. De volta à sala e ao marido, cujos receios exibiam agora a moldura da impaciência.
- Então?
E ela admitiu para si mesma que fora cúmplice da devassa. A rapariga sozinha em Lisboa, as notas a baixarem, as olheiras húmidas, as fugas para o quarto em fins-de-semana, “vão vocês”. O medo deles como álibi, mas sem justificar absolvição. Em voz surda,
- Não são drogas, é doença de amor.
O alívio optimista e amnésico dele,
- Óptimo, isso desaparece com a idade.
A teoria do aquecimento global em definitivo descartada, jorrou de coração e lábios gelo suficiente para uma vida inteira.
- A doença ou o amor?
Ele já regressara ao telejornal.
quarta-feira, janeiro 27, 2010
Flashback.
Os saltos (mais) altos e a mini que corrias a abraçar entre o dia de trabalho e o meu olhar, tão ávido como enternecido. O "gira lá para dentro", dito por mim, exigido em silêncio por ti. O amor, que não se faz, mas sente. A tua cabeça no meu ombro, a minha recente paz no teu colo. O caminho inesperado entre desejo e gratidão. As saudades, que entravam antes de saíres. E me davam certeza agridoce - se um dia não voltasses, aceitava; mas nem Deus, nem amo, como diria o velho Ferré, me obrigariam a concordar.
domingo, janeiro 17, 2010
Faz-me tanta pena:(.
Dezasseis anos depois de ter sido criada, a Fundação Eugénio de Andrade está em vias de extinção.
Confrontado com uma situação financeira insustentável, o Conselho Directivo da fundação enviou ao Governo, em meados de Dezembro, um pedido de extinção. A questão estará a ser analisada pela Presidência do Conselho de Ministros. De acordo com o jornal Público, a Fundação começou a receber, em 1997, um subsídio do Ministério da Cultura (era ministro Manuel Maria Carrilho) através do Instituto Português do Livro e da Biblioteca, que terá oscilado entre os 12 mil e 19 mil euros anuais. No entanto, em 2005, quando a ministra Isabel Pires de Lima tomou posse, percebeu que não havia qualquer protocolo assinado e que o subsídio seria, então, ilegal. O cancelamento deste apoio veio contribuir para estrangular ainda mais a situação financeira da fundação que já se encontrava debilitada pela falência sucessiva dos distribuidores e do co-editor das obras do escritor falecido em 2005. A verdade é que a instituição tinha apenas direito a uma pequena percentagem dos direitos de autor e, uma vez que não tem qualquer outra fonte de rendimento para além do apoio da Câmara do Porto, a instituição encontra-se na falência.
Tags: Artes DN.
Confrontado com uma situação financeira insustentável, o Conselho Directivo da fundação enviou ao Governo, em meados de Dezembro, um pedido de extinção. A questão estará a ser analisada pela Presidência do Conselho de Ministros. De acordo com o jornal Público, a Fundação começou a receber, em 1997, um subsídio do Ministério da Cultura (era ministro Manuel Maria Carrilho) através do Instituto Português do Livro e da Biblioteca, que terá oscilado entre os 12 mil e 19 mil euros anuais. No entanto, em 2005, quando a ministra Isabel Pires de Lima tomou posse, percebeu que não havia qualquer protocolo assinado e que o subsídio seria, então, ilegal. O cancelamento deste apoio veio contribuir para estrangular ainda mais a situação financeira da fundação que já se encontrava debilitada pela falência sucessiva dos distribuidores e do co-editor das obras do escritor falecido em 2005. A verdade é que a instituição tinha apenas direito a uma pequena percentagem dos direitos de autor e, uma vez que não tem qualquer outra fonte de rendimento para além do apoio da Câmara do Porto, a instituição encontra-se na falência.
Tags: Artes DN.
terça-feira, janeiro 12, 2010
O capitalismo é pragmático:). Por isso alguns escreveram que a (r)evolução sexual dos anos 60 era inevitável.
"Uma lufada de ar fresco." É isso que a aprovação da união entre pessoas do mesmo sexo pode significar para a "indústria dos casamentos", admite o director da Exponoivos, António Brito. Por isso, as empresas presentes na feira deste ano, que começa hoje em Lisboa, "estão já preparadas para surpreender os casais homossexuais", com opções para este "nicho de mercado", acrescenta.
António Brito prefere não "levantar o véu" sobre as novidades para estes casais, mas diz que as empresas estão a tentar antecipar tendências para chegar a este nicho de mercado, que pode ser criado hoje se o Parlamento aprovar o acesso dos homossexuais ao casamento civil (mais informação nas páginas 1 e 2).
Aliás, esse é um dos motivos que levam as empresas do sector a ter "expectativas muito positivas para 2010". Até porque se trata de "pessoas que estão há muito tempo à espera por esta hipótese e geralmente têm poder de compra", conclui.
O responsável não duvida de que "os casamentos entre pessoas do mesmo sexo vão ser uma mais--valia para o sector", tal como aconteceu em Espanha, sobretudo depois de dois anos complicados.
É que em 2008, e sobretudo em 2009, a crise acabou por afectar também as bodas. Por um lado, as pessoas casam-se cada vez menos. O número de novos matrimónios tem descido de forma constante - enquanto em 2002 houve 56 457; em 2008, apenas 43 228. Por outro, as empresas sentiram que quem se casou teve mais contenção nos gastos. "Há uns anos era mais comum um casamento ter 200, 300 convidados. Agora, os noivos convidam 120, 130", explica António Brito. Isso afecta sobretudo as empresas que alugam salões para banquetes e as quintas que organizam os copos-d'água, mas também as floristas, cabeleireiros e muitos dos negócios que giram à volta de um casamento.
Há cerca de 200 empresas na Exponoivos deste ano, mas o director da feira estima que existam De 2000 a 3000 empresas directamente ligadas a este negócio. Na maioria, microempresas, que criam De 20 a 30 mil postos de trabalho. "Há mais de 45 subprodutos que estão associados à festa", acrescenta. Do vestido de noiva à lua-de-mel, passando pelas prendas, música, decoração, cabeleireiro, entre outros, que quem nunca casou dificilmente se lembrará sozinho.
E há também instituições de crédito para quem precisar de ajuda para pagar a festa. Afinal, em média, cada casal gasta cerca de 20 mil euros - para um casamento com cem convidados -, diz o director da Exponoivos. Sem pensar em extravagâncias, como as que começam a ser importadas de outras partes do mundo. "No México a moda é criar e libertar borboletas, como símbolo de felicidade e de fertilidade. Começam a aparecer pedidos deste tipo", conta. E empresas para os satisfazer. Até domingo, algumas vão estar no Centro de Congressos de Lisboa.
António Brito prefere não "levantar o véu" sobre as novidades para estes casais, mas diz que as empresas estão a tentar antecipar tendências para chegar a este nicho de mercado, que pode ser criado hoje se o Parlamento aprovar o acesso dos homossexuais ao casamento civil (mais informação nas páginas 1 e 2).
Aliás, esse é um dos motivos que levam as empresas do sector a ter "expectativas muito positivas para 2010". Até porque se trata de "pessoas que estão há muito tempo à espera por esta hipótese e geralmente têm poder de compra", conclui.
O responsável não duvida de que "os casamentos entre pessoas do mesmo sexo vão ser uma mais--valia para o sector", tal como aconteceu em Espanha, sobretudo depois de dois anos complicados.
É que em 2008, e sobretudo em 2009, a crise acabou por afectar também as bodas. Por um lado, as pessoas casam-se cada vez menos. O número de novos matrimónios tem descido de forma constante - enquanto em 2002 houve 56 457; em 2008, apenas 43 228. Por outro, as empresas sentiram que quem se casou teve mais contenção nos gastos. "Há uns anos era mais comum um casamento ter 200, 300 convidados. Agora, os noivos convidam 120, 130", explica António Brito. Isso afecta sobretudo as empresas que alugam salões para banquetes e as quintas que organizam os copos-d'água, mas também as floristas, cabeleireiros e muitos dos negócios que giram à volta de um casamento.
Há cerca de 200 empresas na Exponoivos deste ano, mas o director da feira estima que existam De 2000 a 3000 empresas directamente ligadas a este negócio. Na maioria, microempresas, que criam De 20 a 30 mil postos de trabalho. "Há mais de 45 subprodutos que estão associados à festa", acrescenta. Do vestido de noiva à lua-de-mel, passando pelas prendas, música, decoração, cabeleireiro, entre outros, que quem nunca casou dificilmente se lembrará sozinho.
E há também instituições de crédito para quem precisar de ajuda para pagar a festa. Afinal, em média, cada casal gasta cerca de 20 mil euros - para um casamento com cem convidados -, diz o director da Exponoivos. Sem pensar em extravagâncias, como as que começam a ser importadas de outras partes do mundo. "No México a moda é criar e libertar borboletas, como símbolo de felicidade e de fertilidade. Começam a aparecer pedidos deste tipo", conta. E empresas para os satisfazer. Até domingo, algumas vão estar no Centro de Congressos de Lisboa.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Mais um passo.
O debate não foi particularmente estimulante, convenhamos. Dei comigo a recuar 18 anos - credo... - e a recordar um determinado programa do Sexualidades. Dois homossexuais seropositivos de costas para a câmara e eu a pronunciar em on e off palavras proibidas: casal, família... O Diabo feito vaca, dizia-se no meu tempo! - ameaças de morte, insultos, um par de cumprimentos não retribuídos em restaurantes da Invicta. Nada de importante a médio prazo. Que eles não chegaram a viver:(. Hoje lembrei-me dessa tarde. Porque é tão lenta e acidentada a viagem entre a oblíqua tolerância e a fraternal aceitação?
terça-feira, janeiro 05, 2010
Ser homem e hetero compensa:). Ainda por cima, "cientificamente" falando...
A infidelidade masculina é boa para o casamento e deve ser praticada, garante uma das mais famosas psicólogas francesas, citada pela «BBC Brasil».
No livro «Les hommes, lamour, la fidélité («Os homens, o amor, a fidelidade»), que lançou recentemente, Maryse Vaillant refere que a maioria dos homens precisa do «seu próprio espaço» e que para eles «a infidelidade é quase inevitável».
De acordo com a autora, as mulheres podem viver uma experiência «libertadora» ao aceitarem que «os pactos de fidelidade não são naturais, mas culturais» e que a infidelidade é «essencial para o funcionamento psíquico» de muitos homens que não deixam por isso de amar as suas mulheres.
As declarações polémicas de Vaillant, divorciada há 20 anos, visam, segundo a própria, «resgatar a infidelidade», já que, assegura, «39 por cento dos homens franceses já foram infiéis às suas mulheres em algum momento da vida».
«A maioria dos homens não faz isso por não amar a sua mulher, eles simplesmente precisam de um espaço próprio», defende.
«Para estes homens, que são na verdade profundamente monogâmicos, a infidelidade é quase inevitável», sentencia.
A psicóloga vai mais longe ao afirmar que os homens que não têm casos extra-conjugais podem sofrer de «uma fraqueza de carácter».
«Eles são normalmente homens cujo pai era fisicamente ou moralmente ausente. Estes homens têm uma visão completamente idealizada da figura do pai e da função paternal. Não têm flexibilidade e são prisioneiros de uma imagem idealizada das funções do homem», conclui.
No livro «Les hommes, lamour, la fidélité («Os homens, o amor, a fidelidade»), que lançou recentemente, Maryse Vaillant refere que a maioria dos homens precisa do «seu próprio espaço» e que para eles «a infidelidade é quase inevitável».
De acordo com a autora, as mulheres podem viver uma experiência «libertadora» ao aceitarem que «os pactos de fidelidade não são naturais, mas culturais» e que a infidelidade é «essencial para o funcionamento psíquico» de muitos homens que não deixam por isso de amar as suas mulheres.
As declarações polémicas de Vaillant, divorciada há 20 anos, visam, segundo a própria, «resgatar a infidelidade», já que, assegura, «39 por cento dos homens franceses já foram infiéis às suas mulheres em algum momento da vida».
«A maioria dos homens não faz isso por não amar a sua mulher, eles simplesmente precisam de um espaço próprio», defende.
«Para estes homens, que são na verdade profundamente monogâmicos, a infidelidade é quase inevitável», sentencia.
A psicóloga vai mais longe ao afirmar que os homens que não têm casos extra-conjugais podem sofrer de «uma fraqueza de carácter».
«Eles são normalmente homens cujo pai era fisicamente ou moralmente ausente. Estes homens têm uma visão completamente idealizada da figura do pai e da função paternal. Não têm flexibilidade e são prisioneiros de uma imagem idealizada das funções do homem», conclui.
sexta-feira, janeiro 01, 2010
Aí está o Parecer, venha a tertúlia:).
PARECER DO COLÉGIO DE ESPECIALIDADE DE PSIQUIATRIA DA ORDEM
DOS MÉDICOS RELATIVO AO PEDIDO DO SR. BASTONÁRIO EM CARTA DE
14/05/2009
Concordando globalmente com o parecer do Bastonário da Ordem dos Médicos, em
carta datada de 14 de Maio de 2009, e em resposta ao pedido que nela se expressa, o
Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos esclarece o seguinte:
1. É generalizado o consenso entre os médicos psiquiatras de que não existe qualquer
tratamento para a homossexualidade, pois esta designação não se refere a uma doença,
mas sim a uma variante do comportamento sexual. Considerar a possibilidade de um
“tratamento” da homossexualidade implicaria, nos tempos actuais, a violação de normas
constitucionais e de direitos humanos. Seria, aliás, o mesmo que falar de um
“tratamento da heterossexualidade”.
2. Este facto não pode omitir que o comportamento sexual é um dos mais complexos
e menos conhecidos do ser humano, embora seja dos que mais leva a conflitos intrapessoais,
inter-pessoais ou mesmo a comportamentos legalmente sancionáveis. Estes
factos não podem ser desprezados pelos médicos e têm levado a diversas terapêuticas
sexuais, alguma das quais pretendem ou pretenderam interferir na orientação sexual.
3. A maioria destas últimas terapêuticas, descritas na literatura científica e recorrendo
geralmente ao condicionamento aversivo, decorreram nas décadas de 60 e 70. Muitos
dos artigos que as descrevem são estudos de caso, outros têm uma metodologia
científica pouco rigorosa. Para além disso realizaram-se em condições pouco límpidas,
por exemplo, com alguns pacientes a serem enviados pelos tribunais. Os resultados,
mesmo assim, não eram brilhantes, com cerca de metade dos pacientes a reduzirem o
desejo ou comportamento sexuais para com o mesmo sexo, mas uma percentagem
muito mais baixa a envolverem-se sexualmente ou aumentarem o desejo pelo sexo
oposto. Também eram referidos efeitos perturbadores, tais como redução global do
desejo, depressão, ansiedade e comportamento auto-destrutivo.
4. Com a despatologização da homossexualidade, primeiro pela Associação
Americana de Psiquiatria (APA), em 1973, depois pela Organização Mundial de Saúde,
estes estudos foram desaparecendo. Entretanto, os tratamentos sexológicos evoluíram,
nomeadamente na tentativa de resolução das perturbações do desejo sexual (parafilias),
melhorando os seus protocolos e também o conhecimento dos factores implicados que,
em geral, resultam de aprendizagem. No entanto, tem-se apercebido de que existem
muitos aspectos diferentes, nem sempre coerentes entre si, ligados ao comportamento
sexual – e também ao homossexual – como as fantasias, o desejo, o comportamento
sexual (e masturbatório), os relacionamentos íntimos e a identidade.
5. Em 1998 e em 2000, a Associação Americana de Psiquiatria publicou Declarações
de Princípios (Position Statement) sobre as tentativas para mudar a orientação sexual
(também chamadas terapias reparadoras ou de conversão). Nestas declarações, condena-se
a sua execução “baseada na suposição de que homossexualidade por si é uma
desordem mental ou baseada na suposição apriorística de que um paciente deveria
mudar sua orientação”. Apesar disso, reconhece-se que “no curso de um tratamento
psiquiátrico corrente podem existir indicações clínicas apropriadas para tentar mudar
comportamentos sexuais”. Acrescentam que “Os debates políticos e morais que
envolvem este assunto obscureceram os dados científicos, pondo em questão os motivos
e mesmo o carácter dos protagonistas de ambos os lados”. Finalmente reconhece a
pobreza científica dos estudos sobre benefícios e prejuízos, para “encorajar e apoiar a
comunidade acadéica a pesquisar a „erapia reparadora‟no sentido de determinar os
riscos contra os benefícios”.
6. A terapia “reparadora” ou “conversiva” (o próprio nome tem causado controvérsia
pelas conotações que pode ter) era usada como tentativa de resolver a
“homossexualidade egodistónica” que a Associação de Psiquiatria Americana, sob
influência dos activistas LBG (Lésbicas, Gays, Bissexuais), fizera desaparecer da
DSM3-R, em 1987, mas que se manteve na Classificação Internacional das Doenças da
Organização Mundial de Saúde. Do ponto de vista do movimento LBG que, entretanto,
recorria aos seus próprios terapeutas, o sofrimento causado pela homossexualidade
egodistónica resolver-se-ia com uma terapêutica de afirmação LBG, incluindo activismo
social e político com vista à aceitação social das minorias sexuais.
7. Na sequência das declarações da APA foram publicados, já neste século, artigos
sobre a mudança de orientação sexual e suas terapias. Em geral, os seus autores
limitam-se a indagar pacientes que passaram ou estão a passar por esta terapia. Embora
os resultados não sejam muito diferentes na sua substância, é fácil descortinar o
posicionamento dos seus autores, procurando uns acentuar os efeitos positivos, outros
os problemas decorrentes e falta de ética. Um dos estudos mais conhecidos é o de
Robert Spitzer – um credibilizado membro dos comités responsáveis pelo
desaparecimento da homossexualidade como doença –, publicado em 2003 nos Archives
of Sexual Behavior que, depois de anunciar resultados claramente positivos numa
amostra, provavelmente enviesada, de 146 ex-gays e 47 ex-lésbicas suscitou, na mesma
revista, 26 respostas de 42 especialistas. Mais do que o artigo, a discussão que ele
provocou foi deveras interessante, revelando posicionamentos diversos e suscitando
novas questões, como a possibilidade da mutação espontânea da orientação sexual. Na
verdade, Spitzer foi criticado por não ter amostra de controlo, pelo que alguns dos seus
elementos poderiam ter mudado independentemente da terapia. Alguns destes casos
eram, entretanto, descritos.
7. Os ecos do artigo de Spitzer permaneceram nos anos seguintes, levando ao
interesse pela investigação destes pacientes. Os dados levantados procuravam as
motivações para tal “terapia” (muitas vezes ligadas ao conflito com as convicções
religiosas), mas revelavam também a complexidade da questão da homossexualidade
que, longe de ser preto no branco, apresentava graus variados e componentes que iam
desde a orientação, atracção, desejo e fantasias sexuais, até ao comportamento sexual e
a identidade baseada na orientação sexual. Para alem disso, o procedimento
“terapêutico”, frequentemente ministrado dentro de comunidades religiosas, incluía
várias técnicas comportamentais não aversivas mas, sobretudo, terapia e suporte de
grupo, aconselhamento, psicoterapia e intensa participação em novas comunidades
8. No pólo oposto a Robert Spitzer, um dos seus críticos é Lee Becksted, um exmissionário
Mórmon com um doutoramento em Psicologia do Aconselhamento. Ele
próprio envolvido nos dilemas da fé religiosa, fez uma investigação semelhante à de
Spitzer onde, porém, não aparecem resultados sobre a eficácia. Com o pressuposto de
que a homossexualidade é imutável, apresenta apenas resultados qualitativos que
mostram as vantagens de trabalhar antes com a identidade, numa perspectiva rogeriana
de auto-aceitação. Mostra assim que é possível trabalhar, caso a caso, o tema das
identidades, com diversas evoluções satisfatórias, em alternativa às terapêuticas de
afirmação e activismo gay, ou ainda às “terapias reparadoras” tomadas a cargo de
associações religiosas, como Exodus International, que perseguem radicalmente a
homossexualidade e a tentam mudar a todo o custo.
9. As ideias de Lee Becksted tiveram uma influência decisiva num relatório elaborado
por uma task force, à qual ele pertenceu, sobre “As respostas terapêuticas adequadas à
orientação sexual”. Desse relatório resultou uma resolução que acaba de ser aprovada
pela Associação dos Psicólogos Americanos. O relatório admite que apesar de evidência
insuficiente para suportar o uso de intervenções psicológicas para mudar a orientação
sexual, “alguns indivíuos modificam a sua identidade relativa à orientação sexual,
comportamento e valores, fazendo-o de diversas formas e com diversas e imprevisíveis
evoluções, algumas delas temporárias” (p. 120). Neste sentido, oferece uma alternativa
terapêutica ligada à exploração e desenvolvimento da identidade (“affirmative
multiculturally competent treatment”) para aquelas pessoas que procuram mudar a sua
orientação sexual (p. 121).
10. Apesar de tudo, alguns clínicos continuam a tentar mudar a orientação sexual dos
pacientes que assim o desejam. Num estudo datado deste ano, Annie Bartlett, Glenn
Smith e Michael King indagaram 1300 clínicos ingleses certificados. Embora apenas
4% declarassem que tentariam mudar a orientação sexual se o seu paciente lhe pedisse,
17% deles descreveram 413 pessoas onde esse procedimento fora executado. Entre os
289 psiquiatras do estudo, 9 deles estariam dispostos a ajudar a mudar a orientação
sexual, e 45 referenciariam os pacientes a um colega que o pudesse fazer. A maioria,
porém, ajudaria tal paciente a aceitar a sua sexualidade, a controlá-la melhor, ou enviálo-
ia a um colega com experiência no assunto. Entre psicólogos, conselheiros e
psicoterapeutas as respostas percentuais não eram muito diferentes senão na menor
tendência a referenciá-los a outros colegas.
11. O mais interessante deste estudo são as razões invocadas para tal terapia. Mais de
metade das respostas referiam a confusão sobre a identidade social, sendo menos
frequentes as que referiam pressão familiar, crenças religiosas e problemas mentais
secundários. Também eram referidas a confusão de género, relações heterossexuais
difíceis, pressões legais e vitimização por relações abusivas. Quer isto dizer que, na
vida real, quando um doente pede ao clínico para intervir na sua orientação sexual, as
razões são bem mais complexas do que a suposta ficção de um homossexual que um dia
resolveu tornar-se heterossexual (ou vice-versa, porque não?).
7. De facto, o comportamento e desejo sexuais, e não só o homossexual, são
frequentemente fonte de conflitos e sofrimento, razão pela qual os pacientes podem
recorrer ao seu médico, psiquiatra ou psicoterapeuta. Estas situações devem ser
consideradas caso a caso, de acordo com a legis artis, sem ferir as convicções e crenças
dos pacientes e ajudando-os, sempre que possível, na sua autodeterminação, depois de
esclarecimento completo e no âmbito do consentimento informado. Desse
esclarecimento constará, por parte do médico, indagar sobre a autenticidade das
decisões do paciente. Este, por sua vez, deverá ser informado de que não existe
evidência científica que suporte uma intervenção que resulte na completa mudança da
orientação sexual.
8. Aliás, a Classificação Internacional das Doenças (ICD10) tipifica a patologia
ligada à sexualidade nos seus items F52 (Disfunção sexual), F64 (Transtornos de
identidade sexual), F65 (Transtornos de preferência sexual) e F66 (transtornos
psicológicos e de comportamento associados ao desenvolvimento e orientação sexuais).
Embora os problemas também possam passar pelos outros items, é sobretudo o grupo
F66 que interessa no âmbito desta discussão.
9. Assim, em F66.1 (Perturbação do amadurecimento sexual) esclarece-se que “O
indivíduo sofre de incerteza sobre a sua identidade de género ou orientação sexual, o
que causa ansiedade ou depressão. Mais frequentemente, esta situação ocorre em
adolescentes que não estão seguros se têm uma orientação homossexual, heterossexual
ou bissexual, mas também em indivíduos que, depois de um período de orientação
sexual aparentemente estável, muitas vezes com um relacionamento de longa duração,
descobrem que a sua orientação sexual está a mudar.”
10. Em F66.2 (Orientação sexual egodistónica) define-se: “Não existe dúvida sobre a
identidade de género ou preferência sexual, mas o indivíduo gostaria que ela fosse
diferente, por causa das perturbações psicológicas e comportamentais associadas, e
pode procurar tratamento para a mudar.”
11. Finalmente, em F66.2 (Perturbação do relacionamento sexual) indica-se que as
“Anomalias da identidade de género ou preferência sexual são responsáveis por
dificuldades em estabelecer ou manter um relacionamento com um parceiro sexual.”
12. Para cada uma destas tipificações, bem como para F66.2 (Outros transtornos do
desenvolvimento psico-sexual) e F66.9 (transtorno não especificado de
desenvolvimento psico-sexual) um quinto dígito deve especificar: 0 – Heterossexual; 1
– Homossexual; 2 – Bissexual. Esta última codificação retira, à partida, qualquer
discriminação, admitindo que, tanto uma homossexualidade, como bissexualidade ou
heterossexualidade podem ser, por exemplo, egodistónicas (embora esta última
circunstância seja, de facto, rara).
13. Se qualquer destas situações pode levar ao pedido de conselho e ajuda médica, é no
problema da egodistonia que se podem colocar as maiores dúvidas. Assim, um médico
pode, por exemplo, fazer com que a homossexualidade (ou heterossexualidade) se torne
egossintónica, com plena aceitação e afirmação das suas tendências e, portanto, com
mudança na sua personalidade, mas também pode preservar aspectos mais decisivos da
personalidade e, se for possível, ajudar o doente a resolver os comportamentos, desejos
ou fantasias contraditórias com a sua identidade. Aliás, pode ser difícil avaliar todos os
aspectos em jogo, incluindo a autenticidade da sua orientação sexual. Em qualquer caso,
deve respeitar-se a vontade do doente, embora ele deva decidir na posse da informação
disponível.
14. A informação, porém, escasseia. Um dos aspectos em que não existe consenso é
sobre a definição de homossexualidade e da sua possível variabilidade. De tudo quanto
se sabe da clínica, a homossexualidade não é uniforme nem unidimensional. Entre a
homo e a heterossexualidade também existe a bissexualidade, pelo que tudo leva a crer
que as pessoas se podem dispor num contínuo entre os dois pólos. Assim, podem existir
orientações sexuais imutáveis, enquanto que outras não o serão. Perante qualquer caso
que se lhe apresente, o clínico terá de fazer um juízo sobre a situação presente e as
possibilidades de evolução, tendo em conta a história individual do paciente, os
condicionamentos actuais e o seu projecto de vida. Cada caso, então, será um caso único.
O médico não trabalha com grupos sociológicos, mas trabalha com pacientes
individuais.
15. Seria importante que o clínico se orientasse de acordo com bases científicas
consensuais. No entanto, como se viu, a investigação neste tema tem sido difícil, entre
outras razões, porque acaba por sucumbir pelo ruído mediático e pelas violentas paixões
que o cercam. Assim, mesmo que neste campo ainda dominem alguns dogmas assentes
em posições religiosas, ideológicas e politicas, cabe ao clínico estar sempre atento ao
pedido do seu doente singular e preocupar-se em estabelecer um diagnóstico da situação,
quer de natureza médica quer de natureza psicológica, antes de propor qualquer tipo de
intervenção ou abster-se dela.
DOS MÉDICOS RELATIVO AO PEDIDO DO SR. BASTONÁRIO EM CARTA DE
14/05/2009
Concordando globalmente com o parecer do Bastonário da Ordem dos Médicos, em
carta datada de 14 de Maio de 2009, e em resposta ao pedido que nela se expressa, o
Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos esclarece o seguinte:
1. É generalizado o consenso entre os médicos psiquiatras de que não existe qualquer
tratamento para a homossexualidade, pois esta designação não se refere a uma doença,
mas sim a uma variante do comportamento sexual. Considerar a possibilidade de um
“tratamento” da homossexualidade implicaria, nos tempos actuais, a violação de normas
constitucionais e de direitos humanos. Seria, aliás, o mesmo que falar de um
“tratamento da heterossexualidade”.
2. Este facto não pode omitir que o comportamento sexual é um dos mais complexos
e menos conhecidos do ser humano, embora seja dos que mais leva a conflitos intrapessoais,
inter-pessoais ou mesmo a comportamentos legalmente sancionáveis. Estes
factos não podem ser desprezados pelos médicos e têm levado a diversas terapêuticas
sexuais, alguma das quais pretendem ou pretenderam interferir na orientação sexual.
3. A maioria destas últimas terapêuticas, descritas na literatura científica e recorrendo
geralmente ao condicionamento aversivo, decorreram nas décadas de 60 e 70. Muitos
dos artigos que as descrevem são estudos de caso, outros têm uma metodologia
científica pouco rigorosa. Para além disso realizaram-se em condições pouco límpidas,
por exemplo, com alguns pacientes a serem enviados pelos tribunais. Os resultados,
mesmo assim, não eram brilhantes, com cerca de metade dos pacientes a reduzirem o
desejo ou comportamento sexuais para com o mesmo sexo, mas uma percentagem
muito mais baixa a envolverem-se sexualmente ou aumentarem o desejo pelo sexo
oposto. Também eram referidos efeitos perturbadores, tais como redução global do
desejo, depressão, ansiedade e comportamento auto-destrutivo.
4. Com a despatologização da homossexualidade, primeiro pela Associação
Americana de Psiquiatria (APA), em 1973, depois pela Organização Mundial de Saúde,
estes estudos foram desaparecendo. Entretanto, os tratamentos sexológicos evoluíram,
nomeadamente na tentativa de resolução das perturbações do desejo sexual (parafilias),
melhorando os seus protocolos e também o conhecimento dos factores implicados que,
em geral, resultam de aprendizagem. No entanto, tem-se apercebido de que existem
muitos aspectos diferentes, nem sempre coerentes entre si, ligados ao comportamento
sexual – e também ao homossexual – como as fantasias, o desejo, o comportamento
sexual (e masturbatório), os relacionamentos íntimos e a identidade.
5. Em 1998 e em 2000, a Associação Americana de Psiquiatria publicou Declarações
de Princípios (Position Statement) sobre as tentativas para mudar a orientação sexual
(também chamadas terapias reparadoras ou de conversão). Nestas declarações, condena-se
a sua execução “baseada na suposição de que homossexualidade por si é uma
desordem mental ou baseada na suposição apriorística de que um paciente deveria
mudar sua orientação”. Apesar disso, reconhece-se que “no curso de um tratamento
psiquiátrico corrente podem existir indicações clínicas apropriadas para tentar mudar
comportamentos sexuais”. Acrescentam que “Os debates políticos e morais que
envolvem este assunto obscureceram os dados científicos, pondo em questão os motivos
e mesmo o carácter dos protagonistas de ambos os lados”. Finalmente reconhece a
pobreza científica dos estudos sobre benefícios e prejuízos, para “encorajar e apoiar a
comunidade acadéica a pesquisar a „erapia reparadora‟no sentido de determinar os
riscos contra os benefícios”.
6. A terapia “reparadora” ou “conversiva” (o próprio nome tem causado controvérsia
pelas conotações que pode ter) era usada como tentativa de resolver a
“homossexualidade egodistónica” que a Associação de Psiquiatria Americana, sob
influência dos activistas LBG (Lésbicas, Gays, Bissexuais), fizera desaparecer da
DSM3-R, em 1987, mas que se manteve na Classificação Internacional das Doenças da
Organização Mundial de Saúde. Do ponto de vista do movimento LBG que, entretanto,
recorria aos seus próprios terapeutas, o sofrimento causado pela homossexualidade
egodistónica resolver-se-ia com uma terapêutica de afirmação LBG, incluindo activismo
social e político com vista à aceitação social das minorias sexuais.
7. Na sequência das declarações da APA foram publicados, já neste século, artigos
sobre a mudança de orientação sexual e suas terapias. Em geral, os seus autores
limitam-se a indagar pacientes que passaram ou estão a passar por esta terapia. Embora
os resultados não sejam muito diferentes na sua substância, é fácil descortinar o
posicionamento dos seus autores, procurando uns acentuar os efeitos positivos, outros
os problemas decorrentes e falta de ética. Um dos estudos mais conhecidos é o de
Robert Spitzer – um credibilizado membro dos comités responsáveis pelo
desaparecimento da homossexualidade como doença –, publicado em 2003 nos Archives
of Sexual Behavior que, depois de anunciar resultados claramente positivos numa
amostra, provavelmente enviesada, de 146 ex-gays e 47 ex-lésbicas suscitou, na mesma
revista, 26 respostas de 42 especialistas. Mais do que o artigo, a discussão que ele
provocou foi deveras interessante, revelando posicionamentos diversos e suscitando
novas questões, como a possibilidade da mutação espontânea da orientação sexual. Na
verdade, Spitzer foi criticado por não ter amostra de controlo, pelo que alguns dos seus
elementos poderiam ter mudado independentemente da terapia. Alguns destes casos
eram, entretanto, descritos.
7. Os ecos do artigo de Spitzer permaneceram nos anos seguintes, levando ao
interesse pela investigação destes pacientes. Os dados levantados procuravam as
motivações para tal “terapia” (muitas vezes ligadas ao conflito com as convicções
religiosas), mas revelavam também a complexidade da questão da homossexualidade
que, longe de ser preto no branco, apresentava graus variados e componentes que iam
desde a orientação, atracção, desejo e fantasias sexuais, até ao comportamento sexual e
a identidade baseada na orientação sexual. Para alem disso, o procedimento
“terapêutico”, frequentemente ministrado dentro de comunidades religiosas, incluía
várias técnicas comportamentais não aversivas mas, sobretudo, terapia e suporte de
grupo, aconselhamento, psicoterapia e intensa participação em novas comunidades
8. No pólo oposto a Robert Spitzer, um dos seus críticos é Lee Becksted, um exmissionário
Mórmon com um doutoramento em Psicologia do Aconselhamento. Ele
próprio envolvido nos dilemas da fé religiosa, fez uma investigação semelhante à de
Spitzer onde, porém, não aparecem resultados sobre a eficácia. Com o pressuposto de
que a homossexualidade é imutável, apresenta apenas resultados qualitativos que
mostram as vantagens de trabalhar antes com a identidade, numa perspectiva rogeriana
de auto-aceitação. Mostra assim que é possível trabalhar, caso a caso, o tema das
identidades, com diversas evoluções satisfatórias, em alternativa às terapêuticas de
afirmação e activismo gay, ou ainda às “terapias reparadoras” tomadas a cargo de
associações religiosas, como Exodus International, que perseguem radicalmente a
homossexualidade e a tentam mudar a todo o custo.
9. As ideias de Lee Becksted tiveram uma influência decisiva num relatório elaborado
por uma task force, à qual ele pertenceu, sobre “As respostas terapêuticas adequadas à
orientação sexual”. Desse relatório resultou uma resolução que acaba de ser aprovada
pela Associação dos Psicólogos Americanos. O relatório admite que apesar de evidência
insuficiente para suportar o uso de intervenções psicológicas para mudar a orientação
sexual, “alguns indivíuos modificam a sua identidade relativa à orientação sexual,
comportamento e valores, fazendo-o de diversas formas e com diversas e imprevisíveis
evoluções, algumas delas temporárias” (p. 120). Neste sentido, oferece uma alternativa
terapêutica ligada à exploração e desenvolvimento da identidade (“affirmative
multiculturally competent treatment”) para aquelas pessoas que procuram mudar a sua
orientação sexual (p. 121).
10. Apesar de tudo, alguns clínicos continuam a tentar mudar a orientação sexual dos
pacientes que assim o desejam. Num estudo datado deste ano, Annie Bartlett, Glenn
Smith e Michael King indagaram 1300 clínicos ingleses certificados. Embora apenas
4% declarassem que tentariam mudar a orientação sexual se o seu paciente lhe pedisse,
17% deles descreveram 413 pessoas onde esse procedimento fora executado. Entre os
289 psiquiatras do estudo, 9 deles estariam dispostos a ajudar a mudar a orientação
sexual, e 45 referenciariam os pacientes a um colega que o pudesse fazer. A maioria,
porém, ajudaria tal paciente a aceitar a sua sexualidade, a controlá-la melhor, ou enviálo-
ia a um colega com experiência no assunto. Entre psicólogos, conselheiros e
psicoterapeutas as respostas percentuais não eram muito diferentes senão na menor
tendência a referenciá-los a outros colegas.
11. O mais interessante deste estudo são as razões invocadas para tal terapia. Mais de
metade das respostas referiam a confusão sobre a identidade social, sendo menos
frequentes as que referiam pressão familiar, crenças religiosas e problemas mentais
secundários. Também eram referidas a confusão de género, relações heterossexuais
difíceis, pressões legais e vitimização por relações abusivas. Quer isto dizer que, na
vida real, quando um doente pede ao clínico para intervir na sua orientação sexual, as
razões são bem mais complexas do que a suposta ficção de um homossexual que um dia
resolveu tornar-se heterossexual (ou vice-versa, porque não?).
7. De facto, o comportamento e desejo sexuais, e não só o homossexual, são
frequentemente fonte de conflitos e sofrimento, razão pela qual os pacientes podem
recorrer ao seu médico, psiquiatra ou psicoterapeuta. Estas situações devem ser
consideradas caso a caso, de acordo com a legis artis, sem ferir as convicções e crenças
dos pacientes e ajudando-os, sempre que possível, na sua autodeterminação, depois de
esclarecimento completo e no âmbito do consentimento informado. Desse
esclarecimento constará, por parte do médico, indagar sobre a autenticidade das
decisões do paciente. Este, por sua vez, deverá ser informado de que não existe
evidência científica que suporte uma intervenção que resulte na completa mudança da
orientação sexual.
8. Aliás, a Classificação Internacional das Doenças (ICD10) tipifica a patologia
ligada à sexualidade nos seus items F52 (Disfunção sexual), F64 (Transtornos de
identidade sexual), F65 (Transtornos de preferência sexual) e F66 (transtornos
psicológicos e de comportamento associados ao desenvolvimento e orientação sexuais).
Embora os problemas também possam passar pelos outros items, é sobretudo o grupo
F66 que interessa no âmbito desta discussão.
9. Assim, em F66.1 (Perturbação do amadurecimento sexual) esclarece-se que “O
indivíduo sofre de incerteza sobre a sua identidade de género ou orientação sexual, o
que causa ansiedade ou depressão. Mais frequentemente, esta situação ocorre em
adolescentes que não estão seguros se têm uma orientação homossexual, heterossexual
ou bissexual, mas também em indivíduos que, depois de um período de orientação
sexual aparentemente estável, muitas vezes com um relacionamento de longa duração,
descobrem que a sua orientação sexual está a mudar.”
10. Em F66.2 (Orientação sexual egodistónica) define-se: “Não existe dúvida sobre a
identidade de género ou preferência sexual, mas o indivíduo gostaria que ela fosse
diferente, por causa das perturbações psicológicas e comportamentais associadas, e
pode procurar tratamento para a mudar.”
11. Finalmente, em F66.2 (Perturbação do relacionamento sexual) indica-se que as
“Anomalias da identidade de género ou preferência sexual são responsáveis por
dificuldades em estabelecer ou manter um relacionamento com um parceiro sexual.”
12. Para cada uma destas tipificações, bem como para F66.2 (Outros transtornos do
desenvolvimento psico-sexual) e F66.9 (transtorno não especificado de
desenvolvimento psico-sexual) um quinto dígito deve especificar: 0 – Heterossexual; 1
– Homossexual; 2 – Bissexual. Esta última codificação retira, à partida, qualquer
discriminação, admitindo que, tanto uma homossexualidade, como bissexualidade ou
heterossexualidade podem ser, por exemplo, egodistónicas (embora esta última
circunstância seja, de facto, rara).
13. Se qualquer destas situações pode levar ao pedido de conselho e ajuda médica, é no
problema da egodistonia que se podem colocar as maiores dúvidas. Assim, um médico
pode, por exemplo, fazer com que a homossexualidade (ou heterossexualidade) se torne
egossintónica, com plena aceitação e afirmação das suas tendências e, portanto, com
mudança na sua personalidade, mas também pode preservar aspectos mais decisivos da
personalidade e, se for possível, ajudar o doente a resolver os comportamentos, desejos
ou fantasias contraditórias com a sua identidade. Aliás, pode ser difícil avaliar todos os
aspectos em jogo, incluindo a autenticidade da sua orientação sexual. Em qualquer caso,
deve respeitar-se a vontade do doente, embora ele deva decidir na posse da informação
disponível.
14. A informação, porém, escasseia. Um dos aspectos em que não existe consenso é
sobre a definição de homossexualidade e da sua possível variabilidade. De tudo quanto
se sabe da clínica, a homossexualidade não é uniforme nem unidimensional. Entre a
homo e a heterossexualidade também existe a bissexualidade, pelo que tudo leva a crer
que as pessoas se podem dispor num contínuo entre os dois pólos. Assim, podem existir
orientações sexuais imutáveis, enquanto que outras não o serão. Perante qualquer caso
que se lhe apresente, o clínico terá de fazer um juízo sobre a situação presente e as
possibilidades de evolução, tendo em conta a história individual do paciente, os
condicionamentos actuais e o seu projecto de vida. Cada caso, então, será um caso único.
O médico não trabalha com grupos sociológicos, mas trabalha com pacientes
individuais.
15. Seria importante que o clínico se orientasse de acordo com bases científicas
consensuais. No entanto, como se viu, a investigação neste tema tem sido difícil, entre
outras razões, porque acaba por sucumbir pelo ruído mediático e pelas violentas paixões
que o cercam. Assim, mesmo que neste campo ainda dominem alguns dogmas assentes
em posições religiosas, ideológicas e politicas, cabe ao clínico estar sempre atento ao
pedido do seu doente singular e preocupar-se em estabelecer um diagnóstico da situação,
quer de natureza médica quer de natureza psicológica, antes de propor qualquer tipo de
intervenção ou abster-se dela.
quinta-feira, dezembro 24, 2009
Um Bom Natal para todos e obrigado pela ternura:).
Calcorreou centros comerciais, alfarrabistas, mercados, galerias de arte, discotecas e até o sótão lá de casa, que o pó guarda tesouros merecedores de laçarote feito e olhado com sorriso. Nada. Verdade que a ambição era de monta - presente que fosse arauto e espelho de sentimento profundo e cálido. O ridículo de voltar a casa de mãos vazias, quando as dos outros não chegavam para tanto embrulho:(. Ridículo... Pessoa... "Aquelas" cartas... A hesitação perante os riscos de um strip-tease verdadeiro e não disfarçado pela nudez. A secretária, o caderno de argolas promovido a papel de carta. As palavras. Primeiro tímidas e enferrujadas, depois em galope de rio tão ávido que desagua na outra margem do oceano. A mão cansada antes delas. A cabeça exigindo balanço, eventual correcção ou voo para o lixo, enfim!, pretextos para meter (alguma) ordem no coração. A difícil leitura de uma escrita vulcânica, sinuosa, aqui e ali hieroglífica, tal a pressa de chegar à palavra certa; definitiva. O desconsolo. E no entanto...
Um P.S. lento e diligente, herdeiro dos cadernos da escola primária, só faltava a língua espreitando à janela dos lábios - "Procurei que estas linhas desenhassem o que tento e não consigo dizer. Nem de um esboço chegaram perto:(. Mas repara bem - algures no seu entrançado caótico, elas abrigam o que te cose a mim. Feliz Natal."
Os versos finais da canção do Chico esgueirando-se, invisíveis, envelope dentro:
"O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar
Por que todos os risos vão desafiar
Por que todos os sinos irão repicar
Por que todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo..."
Suspirou. Porque não se vende talento, nem sequer nas floristas? Porque não é passageiro obrigatório do Amor? Talvez para O tornar mais humano e democrático. O pensamento era reconfortante...
... Mas o tempo, esse, não era de torpor contemplativo, levantou-se de um pulo - a que horas fechariam os Correios?
Um P.S. lento e diligente, herdeiro dos cadernos da escola primária, só faltava a língua espreitando à janela dos lábios - "Procurei que estas linhas desenhassem o que tento e não consigo dizer. Nem de um esboço chegaram perto:(. Mas repara bem - algures no seu entrançado caótico, elas abrigam o que te cose a mim. Feliz Natal."
Os versos finais da canção do Chico esgueirando-se, invisíveis, envelope dentro:
"O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar
Por que todos os risos vão desafiar
Por que todos os sinos irão repicar
Por que todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo..."
Suspirou. Porque não se vende talento, nem sequer nas floristas? Porque não é passageiro obrigatório do Amor? Talvez para O tornar mais humano e democrático. O pensamento era reconfortante...
... Mas o tempo, esse, não era de torpor contemplativo, levantou-se de um pulo - a que horas fechariam os Correios?
domingo, dezembro 20, 2009
Boa noite.
Assim como, embora de forma irónica, zurzi forte e feio o Benfica de Olhão, hoje digo que os rapazes me deixariam orgulhoso, mesmo se um qualquer ressalto originasse o empate. Pelo que jogaram e pela forma como se bateram. Não exijo mais.
Boa noite.
Cantelães. O frio é severo, e no entanto acolhedor. Nem minha Mãe, agora anfitriã, permitiria que fosse de outro modo...
quarta-feira, dezembro 16, 2009
Boa noite.
Escrever-te sem te escrever, eis o segredo! Porque a simples fantasia da entrega do correio me inibe o pensamento, as palavras, os sinais de fumo, os innuendos. Aproveitar o facto de sempre me habitares coração terno e entranhas exasperadas e falar "para dentro", sem barreiras, como o amor no filme com música do Bernstein, "Maria, I just met a girl...". E alucinar, querida. A tua severa doçura refugiada num sorriso maroto e à boleia atrevendo-se a responder às pequenas loucuras que segredo aterrorizado, "e se lhe magoo a timidez?". O murmúrio tão desejado que dele duvido, "eu também". A custo meu, uns centímetros em brasa entre nós. Esses olhos nublados pelo desejo, todas as outras razões são possíveis, todas me empurram para longe. O meu silêncio indeciso, as tuas mãos, escandalizadas e risonhas, sorvendo-me para o teu colo, "eu também, ou duvidas?". É óbvio que duvido, mas tenho a certeza que não o direi. Se aqueles pouco centímetros me doeram, como arriscaria a demora de um ralhete? Mergulho em ti, ainda e sempre na esperança de ir tão fundo que seja impossível regressar à tona e com a verdade te engano - "claro que não".
E rezo para que tão descarada mentira prove, sem margem para dúvidas, quão genuíno é o apelo para que não afrouxes o teu abraço.
E rezo para que tão descarada mentira prove, sem margem para dúvidas, quão genuíno é o apelo para que não afrouxes o teu abraço.
terça-feira, dezembro 15, 2009
Referenciado na sequência de inúmeras...
Uma mulher de 42 anos foi ontem baleada pelo ex-marido, em Leça da Palmeira, Matosinhos, na sequência de uma violenta discussão. O ataque aconteceu de madrugada e o agressor, de 47 anos, suicidou-se momentos depois nas traseiras da Exponor. Até à hora de fecho desta edição, a mulher continuava internada no Hospital de São João, no Porto, em morte cerebral.O casal vivia um complicado processo de divórcio litigioso. Ontem o homem resolveu terminar pelas próprias mãos o caso que se arrastava em tribunal. Ao final do dia, esperou que a mulher saísse do trabalho, em Leça da Palmeira. Pelas 23h45, o filho mais novo ligou à mãe: parecia assustada e confirmou estar com o ex-marido, o que levou o jovem de 15 anos a pedir a ajuda da PSP, confirmou ao i fonte policial. O homem estava já referenciado na sequência de inúmeras ameaças e actos de violência doméstica.A PSP enviou carros-patrulha a pontos-chave da cidade, mas não conseguiu detectar o automóvel do agressor, que entretanto já se deslocava para Aveleda, Vila do Conde. Antes, ligou a um irmão contando que ia matar a mulher e suicidar-se. A família contactou as autoridades, mas já era tarde. A mulher terá levado um tiro na cabeça na sequência de uma violenta discussão, contou ao i fonte policial. O seu corpo foi depois transportado, na Renault Express, até à Rua da Agra Nova, em Aveleda, onde foi abandonado. O marido voltou então a Matosinhos, estacionando no parque da Exponor. Após a meia-noite, a PSP foi chamada ao local, onde encontrou o homem morto a tiro na carrinha, com a pistola ao lado. Ao mesmo tempo, GNR e Cruz Vermelha de Vila do Conde eram avisados por condutores da presença de alguém ferido na via pública, em Aveleda. A mulher - que tem outro filho, de 20 anos - entrou no hospital de São João às 3h00, já em morte cerebral.
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