segunda-feira, fevereiro 28, 2011
sábado, fevereiro 26, 2011
The quiet one. RIP...
George Harrison, um dos quatro famosos de Liverpool, nasceu a 25 de Fevereiro de 1943. Faria hoje 68 anos.
George Harrison nasceu a 25 de Fevereiro de 1943, em Liverpool, na Inglaterra, e faleceu a 29 de Novembro de 2001, em Los Angeles, vítima de cancro.
Apesar de nunca ter desfrutado de um mediatismo comparável a John Lennon ou Paul McCartney, George Harrison foi um músico de grande nível e uma peça fundamental dos "Fab Four", tendo assinado alguns temas marcantes da banda como "while my guitar gently weeps", ou "Something", entre muitos outros.
George Harrison nasceu a 25 de Fevereiro de 1943, em Liverpool, na Inglaterra, e faleceu a 29 de Novembro de 2001, em Los Angeles, vítima de cancro.
Apesar de nunca ter desfrutado de um mediatismo comparável a John Lennon ou Paul McCartney, George Harrison foi um músico de grande nível e uma peça fundamental dos "Fab Four", tendo assinado alguns temas marcantes da banda como "while my guitar gently weeps", ou "Something", entre muitos outros.
domingo, fevereiro 20, 2011
Boa noite.
Colin Firth é admirável em O Discurso do Rei. Imagino-lhe a satisfação, por se vir a afirmar como um actor que não está aprisionado a um género de filmes, Filadélfia deve ter tido o mesmo efeito em Tom Hanks. Além disso casou com a nossa Lúcia Moniz em O Amor Acontece, é um bocadinho tuga:).
Mas em verdade vos digo: controlasse eu os votos da Academia e o Óscar iria para Jeff Bridges em Indomável. Admito o fraquinho que sempre tive por ele desde o Great Lebowsky, mas este Marshall é um hino a alguma natureza humana, no que tem de assustador, terno, crepuscular e irredutível face ao rolo compressor da homogeneização. O bom do John Wayne deve estar a roer-se de inveja:).
P.S. O Dr. Passos Coelho tranquilizou a Nação - o PSD não tem pressa de ir ao pote. Nas próximas eleições estará do outro lado da barricada um Primeiro-Ministro que, se não me falha a memória, no Parlamento sussurrou ao circunspecto Dr. Louçã - "manso é a tua tia". Não sei se o pote continua no fim do arco-íris; não sei se ainda resta algum ouro; mas sei que ficará ao cuidado de quem se move no registo popularucho como peixe na água.
Recuso-me a acreditar que o FMI não leve isso em conta...:).
Mas em verdade vos digo: controlasse eu os votos da Academia e o Óscar iria para Jeff Bridges em Indomável. Admito o fraquinho que sempre tive por ele desde o Great Lebowsky, mas este Marshall é um hino a alguma natureza humana, no que tem de assustador, terno, crepuscular e irredutível face ao rolo compressor da homogeneização. O bom do John Wayne deve estar a roer-se de inveja:).
P.S. O Dr. Passos Coelho tranquilizou a Nação - o PSD não tem pressa de ir ao pote. Nas próximas eleições estará do outro lado da barricada um Primeiro-Ministro que, se não me falha a memória, no Parlamento sussurrou ao circunspecto Dr. Louçã - "manso é a tua tia". Não sei se o pote continua no fim do arco-íris; não sei se ainda resta algum ouro; mas sei que ficará ao cuidado de quem se move no registo popularucho como peixe na água.
Recuso-me a acreditar que o FMI não leve isso em conta...:).
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
O jornal ao balcão da manhã.
Como tantas outras vezes, li com prazer a crónica de Rui Tavares no Público. A sua análise do anúncio da moção de censura do BE parece-me correcta. Pouco me importa em que percentagens se misturaram os condimentos: antecipar-se ao PCP ou marcar distâncias com os (improváveis e dolorosos) compagnons de route na campanha presidencial, leia-se, o PS. O resultado em termos de imagem pública é catastrófico – tacticismo político puro e duro, em nada devedor ao exercício do mesmo “acto cívico” pela Direita, que só aguarda sondagens mais reconfortantes, revolta social aberta ou o jackpot de uma intervenção presidencial. Companheiro do BE em várias lutas, seu votante “oportunista” nas últimas Legislativas, por enfado com um PS que não jogou limpo, prevejo-lhe um futuro difícil, a maturidade tarda. Iniciativas como esta dão armas a quem nota a ausência de uma estratégia global e cola o Bloco a “meras” iniciativas parcelares, por mais justas e necessárias que tenham sido. (E foram!) Os sinais de desconforto interno são evidentes. O modo como serão resolvidos, e a resultante programática do confronto das diversas opiniões, dirão muito sobre a capacidade de auto-crítica de quem é mais igual do que os outros e terá reflexos na fixação de eleitorado. Porque um dia o PS pode lembrar-se que é um partido de esquerda e agir em conformidade – eu sei, eu sei, pareço um John Lennon de vão de escada e demenciado: you may say I’m a dreamer, but I’m the only one:)))) –, colocando o Bloco perante uma evidência - não é só ao Centro que existe eleitorado flutuante! Juntem-lhe o voto útil contra uma Direita unida e homogeneizada por lancinantes saudades do Poder e o espectro de um Partido do Táxi à esquerda é menos surrealista do que parece…
terça-feira, fevereiro 15, 2011
Circular.
Como vocês sabem, o Murcon é o meu "Diário da República". Por isso não me imagino a agradecer e pedir desculpa noutro sítio. Agradecer, por centenas de pessoas terem "entupido" o site em que ontem respondi a questões sobre Sexologia; pedir desculpa por a informática não ter aguentado - apesar do esforço de tanta gente! - e muitos terem ficado sem resposta:(.
Mas nada substitui o face a face, gente, desculpem a caretice:))))))).
Mas nada substitui o face a face, gente, desculpem a caretice:))))))).
quinta-feira, fevereiro 10, 2011
Que majestoso ralhete...
"Não foi nenhum tipo de vocação que me fez, jovem rapariga, aceitar a austeridade do claustro, mas apenas a vossa ordem, e se não mereço gratidão por isso, podeis avaliar como os meus esforços foram em vão. Não posso esperar de Deus recompensa por eles, porque é certo que até agora nada fiz por amor Dele. Quando vos apressásteis na Sua direcção, segui-vos, na realidade, fui a primeira a tomar o véu - talvez estivésseis a pensar como a mulher de Lot olhou para trás quando me obrigásteis a vestir o hábito religioso e tomar os votos antes de vos oferecerdes a Deus. Esta vossa falta de confiança em mim, confesso, encheu-me de dor e vergonha. Eu não teria hesitado, sabe-o Deus, em seguir-vos, ou, a ordem vossa, ser a primeira dos dois a afrontar as chamas do Inferno... Peço-vos, pensai no que me deveis, escutai os meus apelos, e eu terminarei uma longa carta com um breve epílogo: adeus, meu único amor. "
Heloísa a Abelardo.
Heloísa a Abelardo.
domingo, fevereiro 06, 2011
A mulher que sabe demais, como diria o velho Alfred:).
Maria,
Estás pronta? E lembra-te - não vale pensar!
Domingo à noite...
Bach.
Saudades...
Cantelães.
Tu...
Interdito a menores de vinte e cinco anos.
Rendo-me, continuo a ser um livro escancarado para ti:).
Estás pronta? E lembra-te - não vale pensar!
Domingo à noite...
Bach.
Saudades...
Cantelães.
Tu...
Interdito a menores de vinte e cinco anos.
Rendo-me, continuo a ser um livro escancarado para ti:).
segunda-feira, janeiro 31, 2011
Naco de uma correspondência fascinante:).
"Não sei se se apercebeu da ligação secreta que existe entre "Análise pelos não-médicos" e"O Futuro de uma Ilusão". Num, quero proteger a Análise dos médicos, no outro dos padres. Gostaria de lhe proporcionar um estatuto que ainda não existe, o estatuto de pastores seculares de almas, que não teriam a necessidade de ser médicos nem o direito de ser padres".
Freud a Pfister, Novembro de 1928.
Freud a Pfister, Novembro de 1928.
quarta-feira, janeiro 26, 2011
A espera.
Maria,
Os Machado Vaz abraçados, de novo perante o destino, o intervalo foi curto:(. Faço o que está nas minhas mãos e não chega. Se cá estivesses!... O sol na tua sala, no nosso abraço, no meu coração. E o sussurro, "vai correr bem". Maria, amar-te é uma dádiva egoísta, o que (sh...!,ainda) te dou fica a anos-luz do que recebi...
Os Machado Vaz abraçados, de novo perante o destino, o intervalo foi curto:(. Faço o que está nas minhas mãos e não chega. Se cá estivesses!... O sol na tua sala, no nosso abraço, no meu coração. E o sussurro, "vai correr bem". Maria, amar-te é uma dádiva egoísta, o que (sh...!,ainda) te dou fica a anos-luz do que recebi...
domingo, janeiro 23, 2011
Breves.
1 - Regresso da mediocridade política à linha de base após o sobressalto eleitoral.
2 - Vitória pouco entusiástica de Cavaco Silva. Derrota muuuito light de José Sócrates, não acredito que seja noite de anti-ácidos. Tão light como o entusiasmo do suave e politicamente correcto Passos Coelho, os números e a personalidade do Presidente não indiciam a bomba atómica que ele próprio não deseja, mas os próximos boys exigem para ontem.
3 - O episódio terceiro-mundista dos cartões de cidadão e a comparação desadequada com a segunda vitória de Jorge Sampaio servirão para disfarçar o inexorável avanço do desencanto dos portugueses.
4 - Aceito que Manuel Alegre tenha pago um preço pelo apoio do Partido no Governo em tempos de vacas magras e espremidas. Mas a minha megalomania não chega ao ponto de me considerar o único português de esquerda que ficou chocado pelos "rituais de acasalamento político" a que se entregou com o Engenheiro Sócrates e pelos equilibrismos entre PS e BE.
5 - O meu estimável colega Fernando Nobre herdou muito do seu capital "anti-sistema" - para empregar a terminologia futeboleira -, mas receio que lhe siga os passos (perdidos) na interpretação optimista dos resultados.
2 - Vitória pouco entusiástica de Cavaco Silva. Derrota muuuito light de José Sócrates, não acredito que seja noite de anti-ácidos. Tão light como o entusiasmo do suave e politicamente correcto Passos Coelho, os números e a personalidade do Presidente não indiciam a bomba atómica que ele próprio não deseja, mas os próximos boys exigem para ontem.
3 - O episódio terceiro-mundista dos cartões de cidadão e a comparação desadequada com a segunda vitória de Jorge Sampaio servirão para disfarçar o inexorável avanço do desencanto dos portugueses.
4 - Aceito que Manuel Alegre tenha pago um preço pelo apoio do Partido no Governo em tempos de vacas magras e espremidas. Mas a minha megalomania não chega ao ponto de me considerar o único português de esquerda que ficou chocado pelos "rituais de acasalamento político" a que se entregou com o Engenheiro Sócrates e pelos equilibrismos entre PS e BE.
5 - O meu estimável colega Fernando Nobre herdou muito do seu capital "anti-sistema" - para empregar a terminologia futeboleira -, mas receio que lhe siga os passos (perdidos) na interpretação optimista dos resultados.
quinta-feira, janeiro 20, 2011
Boa noite.
Para alguns de nós, a amargura é um apeadeiro obrigatório no caminho para a lucidez. So be it. A alternativa é humilhante - embaciar o espelho e mentir. Não quero escandalizar ninguém, mas para mim a questão moral nem se chega a pôr, tal hipótese é esteticamente inaceitável.
sexta-feira, janeiro 14, 2011
Dicas.
Últimas informações ABSOLUTAMENTE INDISPENSÁVEIS para decidir o sentido de voto:
1) A reforma da Primeira Dama é de 800 euros, o que a faz depender do trabalho do marido.
2) Manuel Alegre em nenhum momento do comício de Castelo Branco esteve em desacordo com o Engenheiro José Sócrates. (Cinco anos é muito tempo...).
3) O Dr. Passos Coelho não deseja o poder das mãos do Presidente da República, mas das dos portugueses. Suponho, portanto, que recusará ser Primeiro-Ministro por nomeação...
4) Segundo o candidato José Manuel Coelho, a Presidência da República portuguesa é mais cara do que a Casa Real espanhola. Mesmo sem iate...
1) A reforma da Primeira Dama é de 800 euros, o que a faz depender do trabalho do marido.
2) Manuel Alegre em nenhum momento do comício de Castelo Branco esteve em desacordo com o Engenheiro José Sócrates. (Cinco anos é muito tempo...).
3) O Dr. Passos Coelho não deseja o poder das mãos do Presidente da República, mas das dos portugueses. Suponho, portanto, que recusará ser Primeiro-Ministro por nomeação...
4) Segundo o candidato José Manuel Coelho, a Presidência da República portuguesa é mais cara do que a Casa Real espanhola. Mesmo sem iate...
domingo, janeiro 09, 2011
Boa noite.
Em verdade vos digo: pensava que a campanha nunca deixaria o registo sonolento. Enganei-me, ei-la merecedora de outro adjectivo - pífia. Soube o Professor Cavaco Silva que beneficiava de um "preço de amigo", privilégio recusado várias vezes pelo General Ramalho Eanes? Que meio de comunicação obterá o ambicionado exclusivo com a secretária de Manuel Alegre que levou o cheque ao BPP? (Não o primeiro, o segundo, pós-transferência bancária, que por isso acarretou a declaração em IRS).
Mas os portugueses, Senhor, porque os castigais?
Mas os portugueses, Senhor, porque os castigais?
segunda-feira, janeiro 03, 2011
sábado, janeiro 01, 2011
Como foi o primeiro dia?:).
Cortar o tempo
Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.
Carlos Drummond de Andrade
Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.
Carlos Drummond de Andrade
domingo, dezembro 26, 2010
Porque alguém pode não ler os comentários!
...Em meados do ano passado tive um sonho. Era a continuação, eu e ele estávamos a acabar a bancada da oficina. As mãos dele eram mesmo as mãos dele, fortes, morenas, dedos compridos e nas palmas as linhas eram fundas. Nesse dia acordei com a ideia de acabar a bancada. Estava decidido o meu novo projecto: resolver o antigo. Fui comprando material, tomadas, parafusos, dobradiças.. Nas férias grandes construí a bancada, pintei-a com uma tinta de epoxy, organizei as ferramentas, pintei o tecto e as paredes, instalei umas luzes novas. No fim faltava o torno, igual ao dele que eu parti com uma investida de marreta enquanto me armava em serralheiro. Talvez um dia compre, quando estiver mais folgado. Acho que ele ia gostar do resultado final, no entanto só lhe ia sacar um "Tiveste bem, moço!" :)
Thora.
Thora.
sexta-feira, dezembro 24, 2010
Ritual privado.
Meu Pai desespera com os noticiários fotocopiados. Solta o olhar pelos livros em exagerada liberdade e vacila entre o alívio de os notar gastos e a desaprovação pela falta de compostura. Vence o primeiro, "há que ler, há que ler", nele a frase não abriga réstia do spleen de Jacinto, traduz uma filosofia de vida.
Minha Mãe guarda-o, campânula que sem esforço renova oxigénio e carinho, "tens frio? Vou-te buscar a manta." A Michelle não a larga por um momento, desafia-a com o mesmo empenho que a faz descrever círculo gordo para lhe evitar o marido, desde o primeiro dia farejou a reticência do medo sem esperança de ponto final.
A Avó Sorgue desceu à Ribeiro, menos por guloseima do que pela baixa perigosa dos níveis de contacto humano, regressa de lá com novas amizades e um aceno aprovador para as convicções políticas do Senhor Álvaro, "o teu Avô já dizia o mesmo, isto precisa de uma grande volta". No fundo não acredita na raça diletante dos intelectuais, cala o diagnóstico por amor à filha, mas cita-a com volúpia, "tu e o teu Pai só servem para estudar".
O Pierre vocifera no outro extremo do arco político, embora neste momento o faça ao telefone, jura que não baixa um cêntimo ao preço enquanto os olhos nórdicos riem a bandeiras despregadas, a margem de lucro deve ser obscena. Do outro lado a voz não paga para ver o bluff, mas sim para lhe engordar a conta bancária, desliga e resmunga contra o frio, "Júlio, vens quinze dias para o anexo do jardim e eu arranjo quem transforme esta pocilga num arremedo de casa, irra!, já é masoquismo". Reprova aos intelectuais não saberem ganhar dinheiro e gozar a vida, mas não os mete todos no mesmo saco, "pelo menos o teu Pai respira classe". O querido maroto não resiste a picar-me...
O Zé Gabriel cerra o punho deliciado, a avaria do meu leitor de CDs rende-se com orgulho ao mestre do som. De imediato lança mãos à obra, a sala é invadida por ritmos dolentes e sinuosos, órfãos de corpos enlaçados que lhes façam as honras, ondula ele sozinho, é de olhos semi-cerrados que me lança aviso tantas vezes repetido, "não vá a África, doutor, garanto que não volta".
O relógio força-me a abandonar o regaço das nítidas sombras, em questões de memória Natal é mesmo quando um homem quer - e até quando não quer! -, estarão aqui amanhã, "tenho de ir...". Meu Pai e dialecto esquecido, "dê um beijo aos petizes, diga-lhes que as saudades doem"; minha Avó e a psicopatia amorosa, "não podes dizer que estás doente e ficar connosco?"; o Pierre e a amizade pragmática, "que não se metam em aventuras, o dinheirinho longe da Bolsa"; o Zé e o eterno amor, "uma boa colecção de jazz na FNAC e nada cara"; minha Mãe oferecendo a asa livre, "estás agasalhado?".
E aproveitando a quadra eu retenho-a com desculpa de armistício de cores entre jeans e camisola, a pergunta a medo que já desagua no terror, "estou perdoado?". Aqueles imensos lagos verdes, por natureza avessos à mentira, cravados nos meus, "não, mil vezes não, tinhas o dever de pôr fim aquele horror". Os dedos afloram-me o rosto, "rega as plantas, amo-te muito".
Michelle seca esta lágrima que exige irmãs em altos berros e também mergulha no fundo de mim.
O único ainda escravo do ranger de portas...
Minha Mãe guarda-o, campânula que sem esforço renova oxigénio e carinho, "tens frio? Vou-te buscar a manta." A Michelle não a larga por um momento, desafia-a com o mesmo empenho que a faz descrever círculo gordo para lhe evitar o marido, desde o primeiro dia farejou a reticência do medo sem esperança de ponto final.
A Avó Sorgue desceu à Ribeiro, menos por guloseima do que pela baixa perigosa dos níveis de contacto humano, regressa de lá com novas amizades e um aceno aprovador para as convicções políticas do Senhor Álvaro, "o teu Avô já dizia o mesmo, isto precisa de uma grande volta". No fundo não acredita na raça diletante dos intelectuais, cala o diagnóstico por amor à filha, mas cita-a com volúpia, "tu e o teu Pai só servem para estudar".
O Pierre vocifera no outro extremo do arco político, embora neste momento o faça ao telefone, jura que não baixa um cêntimo ao preço enquanto os olhos nórdicos riem a bandeiras despregadas, a margem de lucro deve ser obscena. Do outro lado a voz não paga para ver o bluff, mas sim para lhe engordar a conta bancária, desliga e resmunga contra o frio, "Júlio, vens quinze dias para o anexo do jardim e eu arranjo quem transforme esta pocilga num arremedo de casa, irra!, já é masoquismo". Reprova aos intelectuais não saberem ganhar dinheiro e gozar a vida, mas não os mete todos no mesmo saco, "pelo menos o teu Pai respira classe". O querido maroto não resiste a picar-me...
O Zé Gabriel cerra o punho deliciado, a avaria do meu leitor de CDs rende-se com orgulho ao mestre do som. De imediato lança mãos à obra, a sala é invadida por ritmos dolentes e sinuosos, órfãos de corpos enlaçados que lhes façam as honras, ondula ele sozinho, é de olhos semi-cerrados que me lança aviso tantas vezes repetido, "não vá a África, doutor, garanto que não volta".
O relógio força-me a abandonar o regaço das nítidas sombras, em questões de memória Natal é mesmo quando um homem quer - e até quando não quer! -, estarão aqui amanhã, "tenho de ir...". Meu Pai e dialecto esquecido, "dê um beijo aos petizes, diga-lhes que as saudades doem"; minha Avó e a psicopatia amorosa, "não podes dizer que estás doente e ficar connosco?"; o Pierre e a amizade pragmática, "que não se metam em aventuras, o dinheirinho longe da Bolsa"; o Zé e o eterno amor, "uma boa colecção de jazz na FNAC e nada cara"; minha Mãe oferecendo a asa livre, "estás agasalhado?".
E aproveitando a quadra eu retenho-a com desculpa de armistício de cores entre jeans e camisola, a pergunta a medo que já desagua no terror, "estou perdoado?". Aqueles imensos lagos verdes, por natureza avessos à mentira, cravados nos meus, "não, mil vezes não, tinhas o dever de pôr fim aquele horror". Os dedos afloram-me o rosto, "rega as plantas, amo-te muito".
Michelle seca esta lágrima que exige irmãs em altos berros e também mergulha no fundo de mim.
O único ainda escravo do ranger de portas...
quinta-feira, dezembro 23, 2010
O reverso da medalha.
Um amigo triste depois de um jantar alegre. Porque não acredito no clássico "ano novo, vida nova"? Talvez por o conhecer bem demais:(.
domingo, dezembro 19, 2010
Cuidado com as generalizações:).
"Eu tinha 20 anos. Não consentirei que ninguém diga que é a idade mais bela da vida". Paul Nizan.
quinta-feira, dezembro 16, 2010
Ontem à noite...
... fui ver o caçula tocar com Os Azeitonas no Sá da Bandeira. Que tantas vezes demandei com minha Mãe, ansiosa por reencontrar os amados companheiros de cena, à qual fora subtraída pela paixão por e de meu Pai. Mas antes abanquei no Buraco, o senhor Manuel fizera empadão e trouxas de batata em honra deste Machado Vaz fugidio, mas nunca ingrato. Acabara de cumprimentar os anfitriões e já pulava da mesa para abraçar o Alexandre Alves Costa. Sentei-me e novo pulo, era o Sérgio Fernandes. Chegaram as trouxas, de oito sobravam seis, o Alexandre invocara uma ida tormentosa ao dentista para roubar duas em trânsito! Os sms com o Rui Veloso, "depois do espectáculo...". Que começou com um atraso finérrimo e de mau agoiro, a dor de cabeça de hoje perfilava-se no horizonte. Não fosse eu o ouvido mais duro da cidade e do clube de fãs e já estaria pronto a substituir qualquer um dos Azeitonas (com excepção da garota coleante...). O João e o sorriso enlevado que apenas adivinho nestas circunstâncias. O Rui, sempre solidário, a curtir uma jam session com os seus protégés. E no fim a invasão pacífica do palco, naquela multidão um andar que afiançam jovem e elástico, mas - tirando isso...:( - igual ao meu, ali estava o Guilherme em dueto com o irmão, fazendo uma perninha na percussão. Foi uma delícia vê-los assim:). Quarenta anos depois da primeira aula teórica, ainda não me convenci que passei dois terços da vida em palco, maravilho-me com quem dá prazer ao público e com ele o partilha. E voltei para casa agradecido por outra razão - à entrada caíra nos braços do Carlos Prata, cúmplice de meio-século, e ao ensonado pedido de desculpas o Rui respondeu "fica para a próxima, pá". Não sou apenas o Pai babado de dois tipos encantadores e talentosos; tenho amigos que os podem guiar nas suas áreas profissionais, gostar deles por eles!, mas também por serem filhos de um compincha. Cuidá-los, se, antes do que gostaria, encontrar nalguma esquina a old laughing lady do velho Neil Young. A quem - noblesse oblige... - brindaria com um sorriso amarelo, antes de perguntar - "miúda, quem és tu?":).
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