segunda-feira, outubro 13, 2014

Frei Bento...

O frade dominicano continua a ser uma voz incómoda na Igreja e não tem pudor em dizer que o sexo não serve só para procriar
Trouxe a Teologia para os jornais, há mais de 20 anos e numa época em que a Igreja ainda andava às voltas com o debate sobre a evangelização nos meios de comunicação. Frei Bento Domingues fez 80 anos em Agosto e continua a ser uma voz incómoda no clero português. Defende a ordenação de mulheres, a comunhão de divorciados e não tem pudor em afirmar que o ser humano é sexual. "Somos sexo em tudo", diz. Recentemente foi homenageado na Gulbenkian, lançou mais um livro com as crónicas que assina no "Público" desde 1992 e, apesar de ser frade dominicano a viver num convento no Alto dos Moinhos, não se esconde atrás da clausura. A conversa com o i começou pelo sínodo que está a acontecer no Vaticano: bispos de todo o mundo debatem até dia 19 as novas formas de família e a sexualidade. O monge cronista não tem medo de afirmar que "o sexo não é só procriação" e, pelo meio, critica os interesses instalados na política e no mundo empresarial: "Isto não é mundo que se apresente".
A Igreja está a debater a realidade das novas famílias. O que poderá sair, em concreto, deste sínodo?
Há um efeito muito concreto que já teve: dar a palavra.
Ouvir os católicos?
Sim. É evidente que o modelo é coxo, porque a reflexão está centrada só nos bispos e foram convidadas poucas famílias. Mas só o facto de existir receptividade para abrir a discussão já é positivo. Há muitas coisas, sobre a ética sexual e reprodutiva, que estão entorpecidas e encalhadas desde Paulo VI. E que fazem com que os cristãos e a própria Igreja deixem de ter algo a dizer sobre um domínio essencial da vida humana que é a sexualidade. É preciso que a Igreja faça uma redescoberta no campo da sexualidade.
Concorda com a comunhão de divorciados?
Claro que sim. Então podem ir à missa, mas não podem comungar? É como se eu convidasse uma pessoa para jantar - porque o modelo de eucaristia que Jesus escolheu foi uma ceia, é essa a simbólica da eucaristia - e não a deixasse comer.
Isso não faz qualquer sentido.
Mas há a quebra de um compromisso que, segundo a Igreja, seria para toda a vida.
Muitos defendem que se rompeu uma aliança. Mas há situações irreversíveis, pessoas que já não voltam ao companheiro anterior porque não é possível e que entretanto refizeram as suas vidas. Essas pessoas, agora, não precisam de ser alimentadas? A fé e a caminhada delas não necessita de ser acompanhada?
No Evangelho de São Mateus lê-se que o que Deus uniu não pode ser separado pelo homem.
Olhe lá uma coisa... a eucaristia, desde o começo, não é um pedido de perdão? A própria consagração não é pela remissão dos pecados? Chega-se ao pai nosso e não se pede perdão e as pessoas não se reconciliam? Qual é a palavra que, na Bíblia, é mais importante para Deus? É a misericórdia. Deus manifesta o seu poder pelo perdão e pela misericórdia. Jesus foi criticado, no seu tempo, por atender as pessoas que tinham estragado as suas vidas e por andar com aqueles que estavam classificados como pecadores. É com eles que Jesus come.
Relativamente aos homossexuais, a Igreja defende que devem ser acolhidos, desde que sejam celibatários e não pratiquem a homossexualidade. Esta concepção poderá mudar?
Tem-se dado alguns passos. Ainda me lembro, e não foi assim há tantos anos, de os homossexuais serem clandestinos. E não era só na Igreja, era na própria sociedade. Cheguei a atender pessoas, na confissão, angustiadíssimas. Julgo que também neste campo a Igreja precisa de dizer o que é autenticamente humano e acolher bem as pessoas. Mas que não se faça da homossexualidade um cartão-de-visita. Disso eu não gosto. Essas coisas do orgulho gay e afins. O orgulho que deve existir é o de sermos humanos uns com os outros. Uma outra coisa que me parece importante é a questão das uniões de facto. Todos os padres que trabalham nas equipas de preparação do matrimónio sabem que a maioria dos casais já vive em união de facto antes do casamento.
Essas pessoas estão em pecado?
O casamento é uma realidade que vai sendo - o gerúndio é propositado - e há um momento em que o casal decide fazer a grande festa do grande compromisso.
Estas questões são fenómenos das sociedades. E às vezes até há muitos divórcios porque não houve uma descoberta verdadeira antes do matrimónio e a seguir ao casamento as pessoas percebem que não funciona. Viver juntos não é garantia de que o relacionamento depois bata certo. Mas a Igreja e os cristãos - porque a Igreja são os cristãos, servidos e ajudados pela hierarquia - tem de debater estas novas realidades. Sem tabus. A Igreja não pode ser um conjunto de tabus. Muitas pessoas fazem determinadas coisas porque dizem que são um mandamento de Deus. Mas Tomás de Aquino disse: se eu faço uma coisa só porque ela foi mandada por Deus, talvez eu corra o risco de estar enganado. Talvez não seja Deus a mandar, talvez tenha sido eu a inventar. Eu só sou livre e verdadeiramente pessoa humana se tiver consciência de que faço uma coisa porque compreendo que ela é boa e evito outra porque percebo que é má. Jesus resumiu, aliás, todos os mandamentos em dois: amar a Deus e ao próximo.
O Papa Francisco escreveu também sobre a hierarquia das verdades.
Sim. É preciso compreender, mesmo nos nossos credos e catecismos, o que é principal e o que é secundário. Ora o que tem acontecido é que o secundário tem ocupado o espaço todo.
Quando falava, há pouco, da necessidade de a Igreja fazer uma redescoberta da sexualidade, queria dizer exactamente o quê?
Todos os homens e mulheres são sexuais e o episcopado também nasceu de famílias. O problema é descobrir a importância da sexualidade na vida humana. O sexo não se trata só de procriação. A relação entre um homem e uma mulher não é só para ter filhos.
Então não há nada de errado com o prazer?
O prazer é essencial à vida humana. As pessoas cozinham bem porquê? Para terem prazer naquilo que comem. A questão do prazer é essencial à vida humana. Outra coisa completamente diferente é a anarquia dos sentidos.
Uma sexualidade desordenada.
Anárquica. Isto agora apetece-me, dá-me prazer e eu faço, mesmo que fazê-lo implique uma desgraça para a outra pessoa.
Isso é egoísmo, não é prazer. E esse egoísmo pode existir na sexualidade: quero que o outro me dê prazer, mas não quero dar prazer ao outro. É dominação. O prazer é a comunhão de toda a sensibilidade, mas a sensibilidade humana é também intelectual. Não é um afecto desligado. O ser humano é todo ele sexual. Somos sexo em tudo. As mulheres de uma maneira, os homens de outra e os dois para serem a alegria um do outro. Essa descoberta, redescoberta do valor da sexualidade, tem de ser feita. Não podemos andar a olhar para a relação sexual como um pecado. Nós não somos anjos. E o problema da sexualidade é um problema de antropologia. É o descobrir do ser humano nas suas múltiplas facetas. Não podemos pensar no prazer só em termos de pecado.
O que diz aos jovens católicos que lhe confessam que são sexualmente activos apesar de não serem casados?
O que é que lhes hei-de dizer? Não vou dar lições. O problema não é esse. O problema é perceber se o jovem ou a jovem têm uma vida sexual desorganizada, se andam a magoar outras pessoas, a fazer promessas que depois não cumprem. Aí, sim, está o pecado. O pecado na sexualidade, em jovens ou em adultos, é muitas vezes as pessoas servirem-se da sedução para enganar o outro e ter apenas umas horas de prazer.
A ideia de virgindade no casamento está, portanto, ultrapassada?
Não é só ultrapassada. O problema é que se fez da virgindade, que é uma questão biológica, um problema ético. A moral não é um tratado de fisiologia ou biologia. Uma das coisas que eu acho que a Igreja tem de rever é ajudar os casais, os jovens e os grupos a compreender uma coisa simples: tenho de ser responsável pela minha vida sexual. Faço sexo para dominar o outro ou para encontrar uma pessoa para fazer caminho com ela? Porque, às vezes, as pessoas tentam e não calha ficarem com essa pessoa. Mas ninguém deve sair magoado disso. O que eu julgo que é falta de ética são as conquistas apressadas e egoístas: acho gira aquela miúda ou aquele rapaz e vou passar uns tempos com ele ou com ela só para me divertir.
Isto é que é necessário evangelizar.
Mas a questão da virgindade é importante para a Igreja. Jesus, diz-se na oração, foi concebido sem pecado.
Sim, mas repare que no Evangelho isso não é dito. O que os evangelhos da infância pretenderam transmitir é a ideia de que se este homem foi tão excepcional na sua vida adulta, essa excepcionalidade era de nascença. E construíram-se narrativas. Mesmo as genealogias são teológicas, são interpretações. Para no final se concluir que Jesus é fora de série.
E que Maria é, também, fora de série.
Maria é descoberta depois. E tiveram de se encontrar narrativas. O pior que aconteceu aos evangelhos da infância foi transformá-los numa questão biológica. Quando o que queriam dizer é que Jesus não era mais um na série humana. Era tão de Deus que foi logo um fruto do Espírito Santo. Mas as pessoas fizeram leituras hermenêuticas desses textos de tipo biológico. A linguagem toda dos evangelhos é uma linguagem simbólica, não é uma linguagem factual. Há factos, histórias e interpretações simbólicas.
Então Maria e José tiveram sexo?
Podem ter tido ou não. Para mim, se tiveram não há problema nenhum. Maria aparece como uma mulher totalmente dedicada a Jesus e que não o entende. Teve de fazer muitas transformações na sua vida, de entrar na loucura do seu filho e aparece, também ela, no meio dos discípulos à espera do Pentecostes. Maria tem de se tornar cristã, discípula do seu filho. Nos evangelhos da infância não é assim... Maria vai-se habituando à loucura do seu filho. Esta é uma imagem que acontece também nos textos do novo testamento com as mulheres. As mulheres nos evangelhos nunca pedem nada e acompanharam os discípulos quando começaram a andar junto da cruz, foram ao sepulcro fazer as celebrações que se faziam aos mortos e é a elas que Jesus aparece.
Mas na Igreja o papel das mulheres é varrer e pôr flores.
É o grande problema. Porque é que as mulheres não podem ser padres e bispos? Como houve estas sociedades patriarcais ao longo dos séculos... A luta das mulheres conseguiu muitas transformações na sociedade, mas na Igreja isso não aconteceu porque se disse que era contrário ao mandamento de Deus.
E não é nada! A mudança de mentalidades é difícil. A vida humana é uma vida longa. A nossa vida, individualmente, é que é muito curta. O que eu acho é que cada geração deve abrir novas possibilidades às seguintes e não fechá-las. Há pessoas que querem sempre fechar o caminho: isto é irreformável, isto é dogmático, isto não se pode mexer. Ao fim e ao cabo isto é cortar a liberdade a Deus e dizer-lhe: ou passas por aqui ou não passas.
Nunca levou um puxão de orelhas da Igreja por pensar assim?
Nunca tive qualquer problema com o episcopado português. Só tive problemas com o cardeal Cerejeira, que não me deixava pregar. Mas depois do 25 de Abril nunca mais voltei a ter problemas.
Mas é um teólogo reconhecido e já escreveu muito. Não seria natural que, nesta altura da sua vida, tivesse um cargo de grande responsabilidade no episcopado português?
Não. E é uma coisa que nunca me passou sequer pela cabeça. Nunca gostei, quando tive responsabilidades académicas e a outros níveis. Aborrecia-me. Não tenho nada contra a responsabilidade, mas incomodava-me aquela ideia que as pessoas formam: aquele é superior, manda em nós. E há uma coisa que detesto: o carreirismo. Por vezes vejo clero mais jovem a fazer coisas para ver se trepa. Eu acho isso ridículo. Jesus já dizia que os que governam as nações oprimem-nas e ainda querem passar por benfeitores. Devemo-nos pôr ao serviço uns dos outros. Não tenho nada contra os bispos ou os cardeais, só quero que os seus cargos sejam para servir. E não sinto apetite, gosto ou competência por esses lugares.
Acha que nunca foi convidado por ter determinadas opiniões?
Eu sinto que por pensar assim há quem entenda que não posso pregar nesta paróquia ou não posso ir a este sítio. Mas isso não me causa problema nenhum. Se não querem, não querem. Deveras! Não passa mesmo por mim. Há tempos fizeram-me uma homenagem e eu fico sem saber lidar com essas coisas. Acho que a pessoa que gosta de ser lisonjeada está estragada.
Porquê?
É verdade, não gosto de escrever. Gosto é de ler e gosto de debater. Mas as crónicas foram uma grande aventura. Muitas pessoas interpretavam-nas como uma espécie de homilia de domingo.
Os pregadores dos tempos modernos precisam desta ligação aos media?
Quando comecei não havia muita coisa. O padre Rego tinha feito uma coisa pequena no "DN". E o padre Rui Osório, no Porto, que era jornalista, escrevia às vezes no "JN". Havia já muitas iniciativas em França, na Alemanha... uma certa descoberta dos meios de comunicação enquanto veículos de fé. Mas o problema é que ligada à pregação vem aquela ideia de que... aí vem o sermão. Uma espécie de arte da moraleja, estar sempre a insistir no que é proibido e no "deves fazer isto" e "não deves fazer aquilo". A pregação não é isso.
O que é então a pregação?
Não é isso nem é propaganda. É dar voz aos anseios das pessoas e àquilo que, na tradição cristã, interpretamos como o projecto de Jesus. Dar sentido à vida através dele. O problema da pregação é assumir, em cada época, segundo os povos e as culturas, esse projecto de Jesus que, no fundo, é fazer do mundo uma fraternidade.
Se Jesus vivesse no nosso tempo escreveria nos jornais?
Claro. Pregaria em todo o lado. Embora... repare... nós não temos nada escrito por Jesus. Temos escritos de representantes de comunidades. É uma escrita plural. São Paulo tinha mais essa vocação de jornalista, de comunicação, estava sempre em ligação com as comunidades. Escrevendo, escrevendo... Jesus foi o projecto de dizer: é preciso mudar. Este mundo não é mundo que se apresente. Começou a pregar, anunciando que até então reinava a opressão das pessoas e que era preciso o reinado da libertação das pessoas. É este o projecto.
A nossa sociedade precisa de um novo profeta?
Nós temos imensos profetas! A profecia de que precisamos, hoje, é a da dignidade humana.
Em que sentido?
Vivemos num país em que faltam crianças, em que os mais velhos, que sustentavam as famílias, viram os seus rendimentos cortados... O primado que existe no mundo contemporâneo, e não é só em Portugal, é o primado da finança e não o do bem-estar das pessoas.
Sem finança não há bem-estar.
Não. Todos os dias ouvimos falar de como as coisas funcionam ao nível da banca e no mundo dos negócios, os milhões que se ganham e com que se mexe. Não se ouve falar dos milhões de pessoas que estão na miséria. Dignidade humana é perceber que o ser humano tem o direito e o dever de poder viver, sob o ponto de vista do ensino, da saúde, da solidariedade, da constituição da família. E quem tem os meios tem também o dever de ajudar os outros e de construir um país em que o bem de todos venha antes do bem só de alguns magnatas.
O que quer dizer é que existem recursos e que a crise que é de valores ?
Crise de valores e de juízo. As pessoas andam sempre a falar da austeridade e da falta de recursos, mas o problema, creio eu, ainda não é esse e nunca será. O problema é que os interesses financeiros vivem numa lógica que é: que lucro é que eu posso ter com isto? Em vez de se pensar no lucro que a comunidade pode alcançar. Em qualquer decisão económica, financeira ou política deve pensar-se primeiro na dignidade humana e no bem comum. E a política é o mais importante, porque é o que olha por todos. Ou deveria olhar.
A política de hoje só olha ao poder?
O que é o poder? O verdadeiro poder é as pessoas terem saúde, poderem estudar, investigar, terem recursos para levar uma vida digna. A democracia é para dar poder a todos. Mas é algo sempre imperfeito e que é preciso ir sendo corrigida segundo os resultados. A árvore aprecia-se pelos frutos e muitas decisões políticas que se tomam devem ser corrigidas consoante o fruto que deram às populações. Agora em Portugal... esta discussão sobre o SNS, o Estado Social... O que se deve discutir é soluções. Onde estão os recursos? Onde vamos investir? Na educação? Na investigação? Ou naquelas coisas fantasiosas que dão lucro só a determinadas empresas e o resto não conta? É necessário discernimento político.
Saber discernir prioridades e perceber onde podemos encontrar meios.
Há decisões que não competem só aos agentes políticos nacionais.
Então é preciso trabalhar no diálogo político. Há pouco falava da questão dos profetas dos nossos tempos. Profeta é, no sentido bíblico, o Homem clarividente. Estamos perante uma situação em que em vez de as pessoas se calarem e fecharem os olhos é preciso parar e dizer: quais são as causas da actual situação? E como poderemos inverter este caminho? Diz-se que não existem alternativas. Como é que se sabe que não há? Já se experimentou? O profeta é alguém que interpreta os sinais dos tempos. Há um problema de falta de clarividência, com os interesses de grupos, de empresas a serem mais importantes no lucro que alguns vão ter. Mas a prazo não vão ter lucros, vai ser um desastre.
Quem faz esse papel profético em Portugal?
Actualmente há uma carência profética, em parte porque as igrejas se retraem muito para que não se diga que se estão a meter no que é da política. Quando a Igreja, hoje, para ser profética, não pode desvalorizar a política, a economia, a finança. Tem de servir de mediação, dar direcção, ajudar a perceber que há caminhos que levam ao desastre e outros que ajudam a tornar a vida mais feliz. Mas, ainda assim, vai havendo essas vozes proféticas. Há um profetismo enorme nos bairros... as pessoas que se ocupam daqueles que não têm nada para viver, os que se organizam civilmente, os voluntários que servem refeições a quem não tem o que comer. Há vozes, pessoas que compreendem que se pode fazer de outra maneira e que se substituem ao Estado, que tinha essa obrigação. Isto é um profetismo de bases, por assim dizer. Mas há vozes. O Papa Francisco apareceu como uma voz mundial.
Como é que um frade olha para os casos de corrupção que vão sendo descobertos?
Há bocado falou do problema dos valores. Esse problema não é abstracto. Cada pessoa é educada para saber dizer o que mais conta na vida? Kant dizia que o ser humano não tem preço.
Só tem valor. Não pode ser um meio para ser algo melhor do que ele. As coisas é que têm de estar ao seu serviço. As pessoas corrompem-se porque têm apetites desgarrados. Pensam que fazendo este ou aquele golpe vão ser ricos e ser rico, hoje, significa tudo. É esta ideia louca de que sendo rico tenho todas as hipóteses. E nunca penso no importante, que é: como devo fazer para desenvolver as minhas capacidades intelectuais, afectivas, relacionais? Se desde a escola, desde a família, se incutisse nas crianças a honestidade, o sentido do dever, da solidariedade, a importância do desenvolvimento das capacidades individuais para criar um ambiente bom para todos... Mas o pensamento, hoje, é outro: como é que eu posso ser melhor do que o outro? Como posso ir à frente de toda a gente? Estamos a criar uma cultura tecnológica em que as crianças são desde logo habituadas a lidar com ipads, mas que não sabem olhar para a natureza, para o mundo e para os outros. E esta é a maior corrupção: a corrupção das relações humanas. Os pais com os filhos, o marido com a mulher, violência em casa. É-se corrupto porque se tem a inteligência e os desejos e gostos distorcidos.
Mas é mau ter desejos?
Não é mau ter desejos, desde que se deseje aquilo que vale a pena ser desejado. E a primeira coisa que vale a pena desejar é o nosso desenvolvimento com o desenvolvimento dos outros. Muita gente diz- -me que isso é conversa fiada. Mas... E assim como está o mundo... Está bem? Isto não é mundo que se apresente, e como dizia São Paulo, não nos devemos conformar como o mundo está.


domingo, outubro 12, 2014

Once upon a time...

terça-feira, outubro 07, 2014

Trovante - Memórias de Um Beijo

terça-feira, setembro 23, 2014

sábado, setembro 20, 2014

Boa noite, gente.

quarta-feira, setembro 17, 2014

A náusea.

E o neto perguntou ao Avô,
- Como voam os pássaros?
O ancião afagou-lhe os caracóis e corrigiu-lhe a abençoada curiosidade,
- Isso é um problema aerodinâmico, querido. Fascinante, concedo. Mas a pergunta fundamental não é essa.
O miúdo confiava nele.
E por isso,
- Qual é, então?
Abraçando a sua curiosidade,
- Por que voam?
Surpreso,
- Porque são pássaros.
Do alto de tantos anos (sobre)vividos,
- Porque algo os enojou aqui em baixo.
O miúdo não entendeu, mas sentiu que ele dizia a verdade. Refugiou-se-lhe no colo.
E perguntou,
- Como sabes?
Sorriso doce, beijo leve, gratidão a perder de vista,
- Não me deixaram ir com eles.
Aqueles olhos enormes...
- Mas estão à tua espera, querido, estão à tua espera.
E abraçou-o com tranquilo desespero, antes de regressar ao pó que limpara dos calções do miúdo.
Que a pouco e pouco o esqueceu. Mas um dia foi aceite pelos pássaros e nunca experimentou a náusea.

À sombra de Montalbán.

Maria,
Ao fundo dos nossos túneis - com sorte... - há pessoas luminosas.
O famoso barbeiro era no Liceo às 17, fiz um esforço titânico para organizar o dia. Às dez e meia estava no Refugi 307. Eu e mais seis ou sete desperados, a jovem guia perguntou-nos como tínhamos descoberto o sítio, aparentemente grande parte dos habitantes de Barcelona nunca ouviram falar dele. Os livros têm destas coisas... A miúda não o fazia pelo dinheiro, Deus a abençoe, guardava memórias que não lhe pertenciam. Um silêncio respeitoso emoldurando a sua voz: a enfermaria que não tinha médicos, enfermeiros ou espaço; a fonte abençoada; o túnel sinuoso para evitar que eventuais estilhaços tivessem o trajecto escancarado para despedaçar mais corpos; a sala para as crianças que abateu antes de ser usada; a humidade, vestindo as paredes. No pior dos bombardeamentos ficaram lá três dias seguidos... Enquanto os caças de Mussolini pintavam a sua Guernica, "viva la muerte". Saí de lá a sentir-me culpado por coisas que não fiz, como se o horror, democrático, irmanasse algozes e vítimas; filhos e pais; republicanos e franquistas. Valeram as histórias do meu Velho, puxaram-me do nevoeiro para a chaveta "eles e nós", as suas palavras asseguravam que tínhamos Dios de nuestro lado. Saí dos túneis e havia luz, mas não pessoas, perdão!, havia uma - a miúda agradeceu-nos, pediu para contarmos a outros e não aceitou dinheiro; havia uma.
Voltei ao hotel, não foi difícil ficar menos mal vestido. Da recepção confirmaram a reserva. Para as 15, spanish style. E eu lá fui. De peito feito, entro e digo que venho da parte de Pepe Carvalho, "como o que me servirem". Acabei a dizer que tinham telefonado do hotel 1898. A mesa do canto. E na parede o pai de Pepe Carvalho mirou-me com desprezo, Montalbán fazia de Cristo e eu de Pedro, "vais-me negar três vezes antes da sobremesa".
A matriarca e um olhar de benévola Inquisição. Uma palavra ao chefe, que consultou o livro. Eu levantei-me, ela virou-se, encontrámo-nos a meio caminho, o sorriso aberto, "bienvenido señor Ferrêra". Recordara a face e juntara-lhe o nome fornecido pelo hotel, coisa rara, geralmente privilegiam o Machado.
Outra pessoa ao fundo dos meus túneis, Maria.
De novo me falou do marido lusitano, toureiro e morto, eu escutei pela primeira vez, era o mínimo que podia fazer. E no fim da refeição abracei-a e murmurei-lhe ao ouvido o maior elogio que me ocorreu, "Montalbán tinha razão". À saída o olhar da fotografia era mais suave, por um momento pensei que deixaria a parede e ocuparia a mesa favorita. Ela gritaria para cozinha e empregados, todos se precipitariam para Manolo, alegadamente morto em aerogare longínqua, mas ressuscitado e cheio de fome, talvez me deixassem ficar e assistir a um dos festins de Pepe Carvalho, o detective galego amante de Barcelona criado por Montalbán.
Outra pessoa ao fundo dos meus túneis, Maria, nunca deixei que a morte mas roubasse, se não posso evitar a escuridão, posso, pelo menos, escolher as luzes que realça, como diria o Vergílio Ferreira. E mantê-las vivas, quando em tantos corações assisados e realistas se vão apagando, talvez inúteis por selados os túneis.
Por que sobrevivem os meus?
A música no Liceo fez-me pensar numa resposta - porque são as únicas passagens para a outra margem, com licença dos Jafumega.
Dorme bem.

segunda-feira, setembro 08, 2014

O Sancho em falso...

Maria,

Tres voltas a igreja em trote paulatino, cavalo de alta escola chumbado. A tua voz, dentro de mim, sussurra que procuro como guio. O desejo de sobre ti assestar canhoes agressivos que espreitam a minha incompetencia,
- Sei, nao pergunto. Admira-me que nao fales dos homens em geral.
Suavidade de mau agouro,
- Nao disse os homens, mas podía ter dito. Acontece que estas a fumegar e talvez seg...uisses o conselho do querido bardo - agir duas vezes antes de pensar. Ou falar... Brindando-me com alguma barbaridade, a coberto de um dito ciume por amor, do tipo
- Vejo que visitas com frequencia igrejas escoltada por admiradores.
{Era bem possivel o remoque...).
- Como imaginas, e por respeito ao local, o minimo que ouvirias seria que nao tens nada com isso. O minimo.
Encabulado,
- Devias escrever argumentos para telenovelas.
E dirigi-me ao senhor que distribuia velas por senhoras idosas da minha idade.
Tranquilo,
- Ignoro.
Ignorava... Desconhecia o paradeiro do túmulo de Pedro, o Condestavel, que antes de ali o ser o fora em Portugal, intrigas na Corte resolvidas em Alfarrobeira, a sorte caira para o outro lado. Ignorava... Exportamos super-herois desde muito antes do Figo e do CR7, caramba. Descrevi o personagem e sua bela espada, famosa em todo o mundo, e com ele enterrada num raio de poucos metros, pus-lhe o livro debaixo do nariz.
O nariz nao, mas os olhos iluminaram-se,
- Ah, a pedra do portugués.
Tumular, presumi eu. Mal. Um calhau encolhido num canto de capela menor. Olhar interrogativo feroz.
Encolheu os ombros.
- Muita gente enterrada nas paredes da igreja, a pedra seria talvez do túmulo,. nao sei, pedra do portugués para todos.
Retirei-me de rastos, pernas e animo pelas ruas de distraída amargura. Distraidos tambem os neuronios, nao percebi a ternura que me oferecias pela palavra, a frustracao agarrou-se as duas ultimas como uma lapa.
- Deixa, nao encontraste o príncipe, mas eu sim, es o meu cavaleiro da triste figura.
Bastou agir uma vez antes de pensar.
- E tu o meu Sancho...
Em verdade o digo - teria preferido defrontar moinhos de vento sanguinarios do que o teu silencio.
Elegantemente gélido.

domingo, setembro 07, 2014

Bom Domingo.

A mulher de Jesus

por ANSELMO BORGESOntem
DN.

Uma coisa bem natural: querer saber como se relacionou Jesus com a sexualidade. Uma questão que foi por séculos tabu. Até metia medo pensar nisso. Por um lado, afirmava-se que Jesus é verdadeiramente homem, mas, logo a seguir, nem pensar em sexo quando se falava dele. Praticava-se o docetismo, uma heresia que afirmava que Jesus tinha aparência de homem, mas, verdadeiramente, era outra coisa: apenas parecia um homem.
Agora, o tema está sobre a mesa e pergunta-se abertamente: se Jesus era um verdadeiro homem, como viveu a sexualidade, como se relacionou com as mulheres? Numa obra recente, Jesús y las Mujeres, Antonio Piñero, um dos mais respeitados especialistas em cristianismo primitivo, com a vantagem de não ser crente, pergunta inclusivamente se Jesus era homossexual ou bígamo, negando, com fundamento, uma coisa e outra.
Os exegetas mais conceituados reconhecem que, também no que se refere às mulheres, Jesus operou uma revolução. Por princípio, as mulheres não deviam falar com um homem em público, o seu testemunho não tinha força, eram definidas como uma "lua", recebendo o seu brilho do "sol", que era o homem, eram impuras por causa da menstruação. Jesus não atendeu à impureza ritual, falou com a samaritana, uma mulher que tinha tudo contra ela - herética, estrangeira, com vários homens na sua vida -, teve discípulos e discípulas, fazendo-se acompanhar por eles e por elas nas suas tarefas apostólicas. Como escreve o teólogo X. Pikaza, "Jesus rompeu com todas as tradições culturais do seu tempo e trata a mulher como igual"; "homens e mulheres aparecem no seu projecto como iguais, sem prioridade de um sexo sobre o outro"; "não quis sacralizar a sociedade patriarcal da sua época" e "fundou um movimento de homens e mulheres, contra os rabinos da sua época, que não admitiam as mulheres nas suas escolas". E A. Piñero: "Jesus foi um rabino relativamente anómalo no panorama dos doutores da Lei do século I, porque teve um ministério activo no qual as mulheres não só estavam presentes, mas eram discípulas." Inclusivamente constata-se que as mulheres foram as discípulas mais fiéis e destemidas: "De facto, ao chegar a provação da Cruz, os Doze abandonam-no; elas, pelo contrário, permanecem fiéis até ao fim" (Pikaza) e foi Maria Madalena quem primeiro teve a convicção avassaladora de fé de que ele está vivo em Deus.
O Talmude diz: : "Quem não tem mulher é um ser sem alegria, sem bênção, sem felicidade, sem defesas contra a concupiscência, sem paz; um homem sem mulher não é um homem." Mas existe igualmente consenso quanto ao celibato de Jesus, pelo menos durante a vida pública, o tempo da pregação, desde o baptismo até à morte. Escreve o famoso exegeta americano John P. Meier: "Jesus nunca se casou, o que o transforma num ser atípico e, por extensão, marginal na sociedade judaica convencional." Maria Madalena teve um papel especial na sua vida, mas não foi sua mulher. E o famoso papiro, presumivelmente do século IV, em língua copta, de que tanto se fala desde 2012?: "Jesus disse-lhes: a minha mulher.../poderá ser minha discípula..." Conclui A. Piñero: "O cepticismo radical é a posição mais recomendável quanto ao conteúdo deste brevíssimo documento."
Decisivo é que Jesus, infringindo os preceitos patriarcais, deu início a um movimento inclusivo de homens e mulheres, sem discriminação. A Igreja Católica ainda não tirou daí todas as consequências.

sexta-feira, setembro 05, 2014

quinta-feira, setembro 04, 2014

Boa noite, gente.

terça-feira, setembro 02, 2014

Vintage Cohen.

quinta-feira, agosto 21, 2014

Boa noite, gente.

quarta-feira, agosto 20, 2014

Boa noite, gente.

terça-feira, agosto 19, 2014

Boa noite, gente.

segunda-feira, agosto 18, 2014

Boa noite, gente.

sábado, agosto 16, 2014

Boa noite, gente.

Cantavam os Beatles - Ask me why, I'll say I love you...

Tell me...

Some say love's a little boy, 
And some say it's a bird, 
Some say it makes the world go around, 
Some say that's absurd, 
And when I asked the man next-door, 
Who looked as if he knew, 
His wife got very cross indeed, 
And said it wouldn't do. 

Does it look like a pair of pyjamas, 
Or the ham in a temperance hotel? 
Does its odour remind one of llamas, 
Or has it a comforting smell? 
Is it prickly to touch as a hedge is, 
Or soft as eiderdown fluff? 
Is it sharp or quite smooth at the edges? 
O tell me the truth about love. 
Our history books refer to it 
In cryptic little notes, 
It's quite a common topic on 
The Transatlantic boats; 
I've found the subject mentioned in 
Accounts of suicides, 
And even seen it scribbled on 
The backs of railway guides. 

Does it howl like a hungry Alsatian, 
Or boom like a military band? 
Could one give a first-rate imitation 
On a saw or a Steinway Grand? 
Is its singing at parties a riot? 
Does it only like Classical stuff? 
Will it stop when one wants to be quiet? 
O tell me the truth about love. 

I looked inside the summer-house; 
It wasn't over there; 
I tried the Thames at Maidenhead, 
And Brighton's bracing air. 
I don't know what the blackbird sang, 
Or what the tulip said; 
But it wasn't in the chicken-run, 
Or underneath the bed. 

Can it pull extraordinary faces? 
Is it usually sick on a swing? 
Does it spend all its time at the races, or fiddling with pieces of string? 
Has it views of its own about money? 
Does it think Patriotism enough? 
Are its stories vulgar but funny? 
O tell me the truth about love. 

When it comes, will it come without warning 
Just as I'm picking my nose? 
Will it knock on my door in the morning, 
Or tread in the bus on my toes? 
Will it come like a change in the weather? 
Will its greeting be courteous or rough? 
Will it alter my life altogether? 
O tell me the truth about love. 


WH Auden

sexta-feira, agosto 15, 2014

Sendo feriado religioso...

quinta-feira, agosto 14, 2014

Boa noite, gente.

quinta-feira, agosto 07, 2014

Boa noite, gente.

terça-feira, agosto 05, 2014

quinta-feira, julho 31, 2014

Noite serena, gente.

Noite serena, gente.

quarta-feira, julho 30, 2014

Uma noite serena, gente.

God forbid.

Maria,
Vestir essa nudez que alimenta as fantasias de mirones de talho, pendurados em esquinas sujas por eles. Devagar; peça a peça. Oferecer-me o capricho de  pedir meias tão apaixonadas pelas tuas coxas que nelas se detenham, rendadas e rendidas, seria um crime de lesa-desejo cobrir as longas pernas que apontas ao céu, uma de cada vez, alisando o negro que lhes assenta como uma luva e desafia as minhas mãos. Como a tua voz, em aliança irónica e esquiva com os olhos, “que sapatos?” Também negros, sabes a resposta, mas gostas de ma escutar, enrouquecido. A lingerie e mais um toque de risonha crueldade, “ajudas-me?”. E eu faço-o, os dedos debatem-se com o fecho, o mesmo não acontece ao teu pescoço com os meus lábios, aceita-lhes o beijo leve com a naturalidade do senhor feudal que estende o anel ao  vassalo, a imagem, de tão espontânea e imediata, não pode ser casual. O vestido mini-neiro, mais adulto a cada passo pelo corredor, com um gesto rápido o cabelo cobre-te o rosto e volta a escorrer pelas costas que me viram as costas, eis-nos face a face e junto à porta, “escolhes tu o restaurante”, a tua mão entreabre e a minha fecha, “posso escolher a mesa?”.
E sobre ela nos perdermos tão longamente que a noite acabe em assalto ao frigorífico, roupas espalhadas pelo chão e adormecer exausto, mas tranquilo. Não porque tudo está bem quando acaba bem, o sono entrelaçado não é o fim de nada, apenas o tempo que nos separa do abraço matinal. Mas por ambos sabermos que, em ocasiões como esta, raios de luz no cinzento do quotidiano, jamais te ocorrerá dizer “por que me deixaste vestir?”, seria o fim do erotismo e o começo do sexo melancólico e suicidário.

God forbid, Mary.  

terça-feira, julho 29, 2014

Pois...

Construtores do caos
por VIRIATO SOROMENHO MARQUESHoje

DN.

O caso GES-BES tem suscitado uma pergunta simples: como foi possível que gravíssimas práticas fraudulentas tivessem escapado durante anos à vigilância das autoridades de regulação, incluindo à vigilância da troika sobre o setor bancário? A resposta é tão dura quanto simples: nos últimos 30 anos muitos governos (de direita e de esquerda) foram responsáveis pela criação dos alçapões e das opacidades que transformaram o sistema financeiro europeu (e mundial) num campo minado onde aventureiros põem em perigo a segurança de milhões de pessoas. Em 1933, em plena Grande Depressão, o Congresso dos EUA produziu uma lei (Glass-Steagall Act) que restaurou a confiança no sistema financeiro: separou e protegeu os bancos comerciais, face aos bancos de investimento. Por outras palavras: os bancos que recebiam as poupanças dos depositantes e que emprestavam às empresas na economia real não podiam fazer operações especulativas com produtos financeiros. Durante décadas essa higiénica distância permitiu prosperidade económica, a par de visibilidade e eficácia no trabalho dos reguladores. Contudo, o lóbi financista, embalado pelo mantra do neoliberalismo, não descansou enquanto não meteu no bolso os governos e os parlamentos necessários para misturar tudo de novo. Em 1999, o Congresso americano revogou a lei de 1933, regressando à promiscuidade especulativa. Por todo o lado, incluindo a UE, as leis "liberalizaram-se", no sentido de criar obscuridade, onde antes havia transparência. Criaram-se condições para mascarar a exposição da poupança das famílias, no labirinto arriscado das ações, das obrigações e de uma miríade de derivados toxicamente imaginativos. Os políticos que se queixam dos banqueiros deveriam ter vergonha. O caos habita nas leis que eles próprios assinaram. Seria interessante saber como e porquê...

sábado, julho 26, 2014

Boa noite, gente.

sexta-feira, julho 25, 2014

Forças de bloqueio e vistas curtas, seguramente.

A Plataforma Portuguesa das Organizações Não Governamentais para o Desenvolvimento anunciou nesta sexta-feira a suspensão das funções de observadora consultiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), na sequência da adesão da Guiné Equatorial.
Em carta dirigida ao secretário executivo da CPLP, com conhecimento do secretário de Estado da Cooperação, dos embaixadores dos Estados-membros da CPLP e dos restantes observadores consultivos, a Plataforma comunica ainda que, na próxima assembleia-geral, "será levada a votação a proposta de exclusão definitiva como observadora consultiva" da organização lusófona.
"A CPLP não é – nem pode converter-se – num clube de negócios, em que os interesses estritamente económicos de uma elite se sobrepõem aos direitos humanos e à dignidade de muitos", considera a Plataforma, presidida por Pedro Krupenski e que integra várias organizações.
A Plataforma "lamenta profundamente a deliberação unânime sobre a adesão da Guiné Equatorial como membro de pleno direito na CPLP", que, em seu entender, viola os estatutos da organização, regidos pelos princípios do primado da paz, da democracia, do Estado de Direito, dos direitos humanos e da justiça social.
Ora, "os objectivos e princípios orientadores da CPLP são agora – na prática – outros, para os quais não estamos dispostos a contribuir", asseveram os signatários da carta.
Esses princípios "são outros" porque – enumeram – a Guiné Equatorial "mantém a pena de morte no seu ordenamento jurídico"; "executa arbitrariamente os seus cidadãos"; "tem um presidente que cumula o poder presidencial, o executivo, o judicial e o militar"; "encontra-se no topo da lista dos países mais corruptos do mundo, concentrando a riqueza nas suas mãos do presidente, da família e da elite que o rodeia"; e "não tem qualquer abertura à dissidência de opinião, à liberdade de manifestação e associação".
Ao mesmo tempo, e apesar de ser o "terceiro maior produtor de petróleo e o país com o maior PIB per capita do continente africano", a Guiné Equatorial permite que "cerca de 80 por cento da sua população viva abaixo da pobreza", denuncia a Plataforma.
Público.

quinta-feira, julho 24, 2014

Ou seja: esteve sempre em aberto a hipótese do pedido de adesão não ser aceite!... Deve ter sido por isso que a decisão foi tomada "por consenso". O desplante com que fazem de nós estúpidos:(.

Portugal "surpreendido" por "incidência protocolar"

por LUSA

O Presidente da República e o primeiro-ministro declararam quarta feira que foram "surpreendidos" pelo anúncio antecipado da adesão da Guiné Equatorial à CPLP e que desvalorizaram essa "incidência protocolar" em nome do sucesso da Cimeira.
O presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Odiang, foi chamado à mesa pelo protocolo timorense como membro de pleno direito da CPLP, antes da aprovação formal desta adesão, na abertura da Cimeira de Chefes de Estado e de Governo realizada quarta feira em Díli, Timor-Leste.
Questionado sobre este episódio, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, afirmou: "Fomos surpreendidos. Mas o que nós queríamos, acima de tudo, era ajudar Timor-Leste para que esta Cimeira fosse um sucesso, e Portugal deveria ter sempre em mente no seu comportamento e nas suas atitudes quão importante era o sucesso desta cimeira para Timor".
O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, subscreveu as palavras do Presidente da República, acrescentando: "Creio que não há nenhuma necessidade de estar a hipervalorizar um aspeto de incidência protocolar. Nós atribuímos importância às questões de natureza protocolar, evidentemente, mas, como o senhor Presidente aqui referiu, não quereríamos com certeza, do nosso lado, um outro incidente protocolar que criasse uma dificuldade grande a quem está a gerir os trabalhos e tem a presidência da Cimeira".
O chefe do executivo PSD/CDS-PP rejeitou, contudo, que a adesão da Guiné Equatorial à CPLP fosse um facto consumado no início da Cimeira de Díli: "Ficou muito claro, em todo o caso, que uma decisão só foi adotada após uma discussão importante que foi realizada entre os chefes de Estado e de Governo e que foi justamente motivada por uma intervenção do senhor Presidente da República Portuguesa".

quarta-feira, julho 23, 2014

Boa noite, gente.

terça-feira, julho 22, 2014

sábado, julho 19, 2014

Gosto muito de ler este homem...

Pedofilia: tolerância zero
por ANSELMO BORGES

DN.

O que tem acontecido na Igreja Católica quanto à pedofilia é inquietante, inadmissível. É verdade que a maioria dos abusos se dá na família no sentido alargado. Mesmo assim, o número de casos entre o clero "não tranquiliza de modo nenhum" o Papa Francisco, que disse na entrevista ao La Repubblica do passado Domingo que a pedofilia na Igreja se situa nos 2%: "É gravíssimo. Dois por cento de pedófilos são sacerdotes, incluindo bispos e cardeais", e ele compromete-se a agir "com severidade" contra esta "lepra". Tanto mais grave quanto está em causa a confiança que a sociedade, as famílias e as próprias crianças punham na Igreja e nos padres. Foi precisamente essa confiança que foi brutalmente atraiçoada. A Igreja já teve de pagar centenas e centenas de milhões de euros em indemnizações, não sendo de modo nenhum de supor ter sido essa a finalidade das doações dos fiéis. Sobretudo, são as feridas incuráveis que ficaram e que até, por vezes, levaram ao suicídio. E instalou-se a suspeita, porque os responsáveis da Igreja não agiram de modo adequado e a tempo, encobriram e só terão começado a tomar medidas sob a pressão da opinião pública mundial.
Sobretudo por causa da pedofilia e dos escândalos no seu banco, o Vaticano tinha-se tornado um lugar pouco recomendável e mal frequentado. Seguindo o antecessor, Bento XVI, que declarou tolerância zero para a pedofilia - desde então, o Vaticano afastou centenas de padres e alguns bispos -, Francisco está totalmente empenhado em mudar a situação.
No que à pedofilia se refere, não são possíveis palavras mais contundentes do que as utilizadas na semana passada, quando do encontro histórico no Vaticano com seis vítimas, hoje pessoas adultas, três homens e três mulheres, do Reino Unido, Alemanha e Irlanda, em representação de todas as outras. O papa emérito também já tinha recebido vítimas, mas, agora, foi no Vaticano. E houve mais duas novidades: Francisco agradeceu às vítimas "a valentia de exporem a verdade", porque "trouxe luz sobre uma terrível escuridão na vida da Igreja", e, por outro lado, pediu perdão pela "cumplicidade" da Igreja, isto é, pelo "pecado de omissão" cometido por alguns responsáveis da Igreja: "Exprimo a minha dor pelos pecados e crimes graves de abusos sexuais cometidos pelo clero contra vós e humildemente peço perdão", também "pelos pecados de omissão por parte de líderes da Igreja que não responderam adequadamente às denúncias de abuso apresentadas por famílias e por aqueles que foram vítimas do abuso." Essa atitude, que "não tem explicação", trouxe um "sofrimento adicional" a quem tinha sofrido abuso e "pôs em perigo outros menores que estavam em situação de risco".
Francisco mostrou-se implacável: "Não há lugar no ministério da Igreja para aqueles que cometem estes abusos", comprometendo-se "a não tolerar o dano infligido a um menor por parte de ninguém, independentemente do seu estado clerical". "Todos os bispos devem exercer os seus deveres de pastores com sumo cuidado para salvaguardar a protecção de menores e darão contas por esta responsabilidade", sublinhando que deverão continuar "vigilantes na preparação para o sacerdócio".
A Igreja "quer chorar" perante "os actos execráveis de abuso perpetrados contra menores", que "deixaram cicatrizes para toda a vida" e que comparou a "culto sacrílego" e "missas satânicas". Como sinal da seriedade da nova atitude, foi criada a Pontifícia Comissão para a Protecção de Menores, presidida pelo cardeal Sean O"Malley.
Termino, com três notas. Para chamar a atenção para a necessidade de salvaguardar os direitos de defesa dos acusados. Manifestar a esperança de que outros sigam o exemplo da Igreja, como espera Francisco, na entrevista ao Corriere della Sera: "A Igreja Católica foi a única instituição pública a reagir com transparência e responsabilidade. Ninguém fez mais. E ainda assim é a única a ser atacada." Embora se não possa estabelecer uma relação de causa-efeito entre celibato e pedofilia, enquanto se mantiver o celibato obrigatório, a Igreja estará sob o fogo da suspeita.

P.S. meu: O celibato nada tem a ver com a questão. Bom Sábado, gente.

quinta-feira, julho 17, 2014

A colega tem razão...

Capa do JN.

A grande maioria das crianças de quatro anos come doces diariamente e snacks salgados várias vezes por semana. Um estudo concluiu também que apenas 40% ingerem quantidades adequadas de frutas e hortícolas.

As conclusões sobre a alimentação das crianças com quatro anos fazem parte de uma investigação mais abrangente, designada Geração XXI, que está a estudar, desde o nascimento, em 2005, cerca de 8700 crianças, e as respetivas famílias, da região do Grande Porto.

O elevado consumo de alimentos fortemente açucarados - 65% comem bolos ou doces todos os dias - é uma das evidências mais preocupantes, segundo Carla Lopes, investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e uma das autoras do estudo. "O adequado seria que os doces fossem consumidos uma ou duas vezes por semana", sublinha a nutricionista.

Outro indicador da ingestão excessiva de açúcares é a frequência com que as crianças bebem refrigerantes e néctares: 52% fazem-no todos os dias. O ice tea é o mais popular porque há a ideia, falsa, sublinha Carla Lopes, de que é chá, quando na realidade é um refrigerante cheio de açúcar e de calorias vazias de valor nutricional.

Ler mais na versão e-paper ou na edição impressa

domingo, junho 29, 2014

...E ao descampado se chamava tempo...

Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo 
Para enfrentarmos juntos o terror da morte 
Para ver a verdade para perder o medo 
Ao lado dos teus passos caminhei 

Por ti deixei meu reino meu segredo 
Minha rápida noite meu silêncio 
Minha pérola redonda e seu oriente 
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'

Bom Domingo, gente.

sábado, junho 28, 2014

Boa noite, gente.

http://m.youtube.com/watch?v=qbT8Qs1_2Ek

quarta-feira, junho 25, 2014

segunda-feira, junho 23, 2014

Lá porque me deito cedo não sou menos tripeiro. Logo... voem os balões! Boa noite, gente.

A quadra.

Maria,
Beira-rio a conselho médico, trote arquejante, bancos olhados de esguelha - para não ceder à tentação, livro exilado em casa... -, navego entre doces, carrinhos de choque, matrecos e gentes que olham o céu com alívio, S. Pedro não prepara desfeita ao amigo João,  assim protegendo o negócio, “sardinha e broa, euro e meio”. Estivesses aqui e velha discussão nasceria da tua juventude, o meu horror a noitadas e multidões a empurrar-te para os festejos, “levas a chave, acordas-me à chegada e abusas de mim...”. O sobrolho franzido – “das três sugestões aceito duas. Quanto ao resto, prefiro adormecer contigo. Jantamos com a malta e vimos cedo, já te disse que o prazer das noitadas não depende do bilhete de identidade”. Ano após ano, o mesmo ritual: protesto meu, decisão tua, amor nosso.
Mas tu não estás. E assim ficou prejudicada a barraca dos doces, alguns com nomes açucarados que provocariam o teu azedume, falso como Judas, “pois não sabes que ando a tentar...?”. A tentar sim, querida, a conseguir talvez em Londres, que no Porto, viver-te era como trautear o Chico, jamais faltava açúcar e afecto J. Dei comigo a fazer alongamentos batoteiros ao pé dos manjericos, sem grande esperança passei os olhos pelas quadras, lembrei com um sorriso as do meu tempo, muitas não resistiam ao “repenica, repenica...”, o Santo fazia o resto como qualquer normal pecador e nós ríamos, imberbes. Menos fisiológicas as actuais, mas não demasiado inspiradas. Até que...
Chamei a senhora, perguntei o preço. O meu ouvido, cuja dureza já não se satisfaz com a música, a trair – “dois euros e meio?”. Eram doze... Queixei-me sem muita convicção, ela percebeu-o de imediato e iniciou um discurso pausado e didáctico sobre jarros de água, prato por baixo do vaso e longevidade, “dura-lhe até ao Natal!”. Que importa? Que importa se me trouxe a tua imagem a rodopiar, agarotada – “gostas?” -, eu transformado em público tão entusiasta como agradecido, a humidade portuense como álibi para voz rouca, “sim”.
Sim, querida, como resistir à quadra?:
“Quando as saias arregaça,
  Para bailar livremente,
  Maria, cheia de graça,
  Faz a desgraça da gente...”.
Marotos versos tripeiros, irmãos de fantasias minhas.

(Só não gostei muito do plural que “gente” abriga...).

domingo, junho 22, 2014

sábado, junho 21, 2014

Boa noite, gente.

A perder de vista ou de vida?

Maria,
A ternura grata devora os desejos. Sim, no plural. Porque um, descaradamente carnal, exige-te nos meus braços, surda para palavra que não a tua, sussurrada ao meu ouvido – a pedido... -, “vem”. O outro, politicamente correcto, talvez sentido um dia, mas jamais em noites próximas, “que sejas feliz”. Com paixão recuperada ou descoberta, pouco me importa ser substituído por passado refeito ou futuro incomparável, não te habitarei os sonhos acordados, ponto final. A ternura grata sobrevive. Porque o fim do amor sentido não lhe apaga a recordação, transforma-a em pano de fundo deste vazio a perder de vista...

sexta-feira, junho 20, 2014

Boa noite, gente.

quinta-feira, junho 19, 2014

Nunca li nada assim sobre a saudade, que Deus o proteja...

Outro amigo íntimo que por acaso não me conhece:). Parabéns e obrigado, Chico.

Chico Buarque chega aos 70 anos

Cantor conserva brilhantismo de conciliar discrição com um olhar apurado e melódico sobre a história do país




Gabriel de Sá - Correio Braziliense



Quando fez 60 anos, Chico Buarque de Hollanda espalhou que comemoraria a data em Paris, onde tem apartamento. O violonista Guinga passeava pelo Alto Leblon, no Rio de Janeiro, próximo ao dia do aniversário do amigo, quando o viu se exercitando. “Uai, Chico, você não estava viajando?”, questionou. “Que viajando o quê”, gargalhou. O bom humor é traço marcante da personalidade de Chico, assim como a discrição. Criador de mais de 400 canções, é um dos principais expoentes da música popular brasileira. Nesta quinta, chega aos 70 anos e deve passar a data em Paris, onde anda de bicicleta e bate peladas com amigos. É possível que se dedique a escrever um romance — o quinto da carreira. “Ele é muito reservado”, conta o baterista Wilson das Neves, que o acompanha há mais de 30 anos. A reserva social, no entanto, se contrapõe à capacidade de examinar a sociedade e compor tipos capazes de traduzir momentos históricos do país. Ele ergueu um cancioneiro de 400 músicas, pelas quais têm ajudado a narrar importantes aspectos brasileiros. Selecionamos seis personagens para compreender os traços que fazem dele um dos compositores mais geniais de todos os tempos. Nesta quarta e quinta, o Viver conta um pouco da trajetória do artista.

Beatriz e a vida da atriz

“Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz”

A personagem não é unânime. Nem todos se seduziram por Beatriz. Chico demorou a concebê-la. Quando apareceu, em 1982, foi por solicitação. Edu Lobo pediu. Chico aceitou. Mas a recebeu sob outra graça: Agnes, equilibrista. Culpa do poeta Jorge de Lima que, em 1938, escreveu O grande circo místico. Quando o Balé Guaíra, do Paraná, pede montagem sob mesmo nome, Edu bebe na fonte de Jorge de Lima. Chico, leitor de Jorge, prefere outra: Dante Alighieri. Assim, Agnes se torna a Beatriz de Dante, aquela da Divina comédia. Tornaria-se a Beatriz de Chico, surrealista e gerada por impulso psíquico. Até Milton Nascimento tomá-la para si. Embora emprestada a vozes competentes, como Elba Ramalho e Carlos Navas, foi embalada na interpretação de Milton Nascimento no disco de 1983 (o antológico O grande circo místico, como o poema de Jorge de Lima). Ali, descansou.




O malandro e as minorias

“Mas o malandro para valer, não espalha
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal
Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe chacoalha, no trem da central”

Há uma figura constante no imaginário carioca, embora real. O cara das calçadas da Lapa, do barracão das escolas de samba. O que seduz as mulatas, com hálito de cachaça na nuca. Ar de vagabundo, inquieto. As pernas bambas, como de passista na avenida. Suor na testa secado pela toalha de bolso. Olhos marejados pelo samba-canção de Cartola. Respeitado nos morros, aconselha amigos e abraça mendigos. Bebe com as moças, fuma com os parceiros e reza no terreiro. Navalha no bolso, foto na coluna social e amizade na central. No dia, ninguém vê. À noite, impossível não perceber. Não se engane: todo carioca é brasileiro. E ele aparece no país inteiro. O desvalido. O perseguido. Preto, pobre, fedendo a Cashmere Bouquet e a conhaque. O malandro de Chico Buarque.




Pedro Pedreiro e a espera sem fim

“Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espere alguma coisa mais linda que o mundo”

Em 1965, quando Pedro Pedreiro nasceu, Maria Bethânia cantava a saga do carcará, em cima do palco. Pedro teria adorado assistir ao espetáculo Opinião. Quando Bethânia pede para o morro descer a ladeira, ele berraria da plateia: “Já estou aqui!”. Pedro é real. De carne e osso. De canela empoeirada, calça rasgada e sandália nos pés. Mãos calejadas e trocado no bolso. Com quantos Pedros cruzamos hoje? Trabalhador braçal, em pé no ônibus, mangas arregaçadas para pagar as contas. Faz tudo sempre igual. Ele não tem dinheiro para ir a Copacabana. Fica ali, na estação, correndo o risco de apanhar dos militares que tomaram o poder no ano anterior. Proletário não vai ao teatro. Não reclama. Ele segue ali, esperando o trem. Esperando… Esperando… “Amanhã vai ser outro dia”, pensa Pedro. E algo lhe diz que o trem, alguma hora, vai passar!




Angélica e a ditadura militar

“Quem é essa mulher
Que canta sempre
o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar
meu anjo
E deixar seu corpo descansar”

A mãe que busca pelo rebento desaparecido é o tema da melancólica letra de Chico, escrita sobre a melodia de Miltinho, do MPB4. Angélica é a estilista Zuzu Angel, cujo filho, o militante político Stuart, foi preso, torturado e morto pela ditadura militar nos anos 1970. A luta de Zuzu para encontrá-lo tornou-se internacionalmente conhecida. Ela morreu em 1976, um ano após Chico homenageá-la com a canção. Para melhor compreender a ditadura brasileira sob a ótica cultural, Chico é essencial. As metáforas criadas por ele em canções como Cálice e Apesar de você cutucaram o regime com vara curta e ajudaram a dar voz à população reprimida. Ele foi censurado, criou pseudônimo e se autoexilou na Itália.




Maldita Geni


“De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais
do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem
mais nada”

No musical Ópera do malandro, de 1978, Geni aparece como travesti prostituído e marginalizado de uma pequena cidade. A “rainha dos detentos” e dos “moleques do internato” é aquela que “dá pra qualquer um”, e por isso “é boa de cuspir” e deve ser apedrejada, segundo a letra. A personagem é redimida quando se deita com homem que surge em um Zepelim e, prestes a exterminar a cidade, se apaixona por ela. A saga de Geni registra o talento de Chico para histórias, e traz à tona homossexualidade e prostituição. A partir de uma heroína errada, “tão coitada e tão singela”, o compositor suscita discussões sobre preconceito, gênero, poder e falso moralismo. Geni está entre nós.




A Rita, os 20 anos e o coração

“A Rita matou nosso amor de vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos”

As mulheres são um capítulo extenso no cancioneiro de Chico. Da submissa de Com açúcar, com afeto à batalhadora de A violeira, o compositor versa com maestria sobre o universo feminino, revelando nuances menosprezadas por homens menos sensíveis. Rita é uma mulher forte, decidida. Ao sair de casa, deixa o amante devastado e carrega sentimentos e objetos que contam a história dos dois. A Rita é uma das canções mais conhecidas do cantor. Um dos itens carregados por Rita é “um bom disco de Noel (Rosa)”. A referência ao compositor carioca do início do século 20 evidencia a admiração de Chico pelo artista. Os dois, volta e meia, são comparados, pelo caráter cronista de suas obras. Rita “deixa mudo” o violão do artista. Seria uma forma de Chico dizer que, sem a mulher, a inspiração vai embora?




quarta-feira, junho 18, 2014

Boa noite, gente.

terça-feira, junho 17, 2014

Boa noite, gente.

segunda-feira, junho 16, 2014

Boa noite, gente.

domingo, junho 15, 2014

Lembram-se disto?:).

sábado, junho 14, 2014

Boa noite, gente.

... há muitos, muitos anos.

Maria,
Frase de amigo em sonho cruel, "ela já tinha ido embora antes de partir". Aurora sem sol ou paz, mas com memória. O corpo entregue sem desejo; a voz fervente mas sem calor; a sms que chegou mas separava; o mail que me impunha o adeus à boleia de versos que te ensinei.
Sinais claros para o meu nevoeiro teimoso; indícios tentadores para a sua lucidez; sinos que dobravam por nós, assim o adivinhasse eu quando li Hemingway...

sexta-feira, junho 13, 2014

Boa noite, gente.

quinta-feira, junho 12, 2014

Boa noite, gente.

terça-feira, junho 10, 2014

Boa noite, gente.

segunda-feira, junho 09, 2014

Boa noite, gente.

domingo, junho 08, 2014

sábado, junho 07, 2014

Esta é só para mim:).

Boa noite, gente.

sexta-feira, junho 06, 2014

Com a patroa Inês Menezes.


Boa noite, gente.

quinta-feira, junho 05, 2014

Boa noite, gente.

quarta-feira, junho 04, 2014

...

Maria,
Jantei com amigo nosso, de origem teu, partidário de nenhum, antes houvesse campo de batalha a separar-nos e não canal manchado, qualquer fímbria de nortada seria suficiente para trazer voo de gaivota, lençol a corar sem vergonha, palidez medrosa de meu ou teu vilão ou nobre, papel de carta virgem desta pena exausta por não se cansar de te pedir o regresso a capella; um branco dos mil possíveis. E eu declará-lo-ia indiscutível pedido de tréguas e nelas mergulharia com a esperança de serem a antecâmara dos teus braços...
“Ela já tinha ido embora antes de partir”, disse ele. E todo o jantar se tornou em moldura de frase que colocava outras na mesa, indiferentes a baixela não de prata  que pesava como chumbo e garfadas impotentes perante o nó de marinheiro em terra seca e bordejando as lágrimas que me estrangulava a partir de dentro e resistiu com galhardia a vinho bebido sem gozo por medicinal, trouxe o nevoeiro à alma mas não a paz ao corpo inteiro.
As nossas frases. Sibilinas, para não lhes colar adjectivo que rimaria e arrepia – será que nos desejámos de tantos modos que só restava erotizar a separação?  Silêncios nostálgicos de outros, cúmplices. Garras de fora nascidas de unhas que se cravavam nos corpos, “vem”.

Ele tem razão - separámo-nos juntos. E tu fugiste para não dizer adeus. Ou disseste-Lhe? Não acredito, afinal fomos...

terça-feira, junho 03, 2014

segunda-feira, junho 02, 2014

Boa noite, gente.

domingo, junho 01, 2014

Boa noite, gente.