segunda-feira, outubro 13, 2014

Frei Bento...

O frade dominicano continua a ser uma voz incómoda na Igreja e não tem pudor em dizer que o sexo não serve só para procriar
Trouxe a Teologia para os jornais, há mais de 20 anos e numa época em que a Igreja ainda andava às voltas com o debate sobre a evangelização nos meios de comunicação. Frei Bento Domingues fez 80 anos em Agosto e continua a ser uma voz incómoda no clero português. Defende a ordenação de mulheres, a comunhão de divorciados e não tem pudor em afirmar que o ser humano é sexual. "Somos sexo em tudo", diz. Recentemente foi homenageado na Gulbenkian, lançou mais um livro com as crónicas que assina no "Público" desde 1992 e, apesar de ser frade dominicano a viver num convento no Alto dos Moinhos, não se esconde atrás da clausura. A conversa com o i começou pelo sínodo que está a acontecer no Vaticano: bispos de todo o mundo debatem até dia 19 as novas formas de família e a sexualidade. O monge cronista não tem medo de afirmar que "o sexo não é só procriação" e, pelo meio, critica os interesses instalados na política e no mundo empresarial: "Isto não é mundo que se apresente".
A Igreja está a debater a realidade das novas famílias. O que poderá sair, em concreto, deste sínodo?
Há um efeito muito concreto que já teve: dar a palavra.
Ouvir os católicos?
Sim. É evidente que o modelo é coxo, porque a reflexão está centrada só nos bispos e foram convidadas poucas famílias. Mas só o facto de existir receptividade para abrir a discussão já é positivo. Há muitas coisas, sobre a ética sexual e reprodutiva, que estão entorpecidas e encalhadas desde Paulo VI. E que fazem com que os cristãos e a própria Igreja deixem de ter algo a dizer sobre um domínio essencial da vida humana que é a sexualidade. É preciso que a Igreja faça uma redescoberta no campo da sexualidade.
Concorda com a comunhão de divorciados?
Claro que sim. Então podem ir à missa, mas não podem comungar? É como se eu convidasse uma pessoa para jantar - porque o modelo de eucaristia que Jesus escolheu foi uma ceia, é essa a simbólica da eucaristia - e não a deixasse comer.
Isso não faz qualquer sentido.
Mas há a quebra de um compromisso que, segundo a Igreja, seria para toda a vida.
Muitos defendem que se rompeu uma aliança. Mas há situações irreversíveis, pessoas que já não voltam ao companheiro anterior porque não é possível e que entretanto refizeram as suas vidas. Essas pessoas, agora, não precisam de ser alimentadas? A fé e a caminhada delas não necessita de ser acompanhada?
No Evangelho de São Mateus lê-se que o que Deus uniu não pode ser separado pelo homem.
Olhe lá uma coisa... a eucaristia, desde o começo, não é um pedido de perdão? A própria consagração não é pela remissão dos pecados? Chega-se ao pai nosso e não se pede perdão e as pessoas não se reconciliam? Qual é a palavra que, na Bíblia, é mais importante para Deus? É a misericórdia. Deus manifesta o seu poder pelo perdão e pela misericórdia. Jesus foi criticado, no seu tempo, por atender as pessoas que tinham estragado as suas vidas e por andar com aqueles que estavam classificados como pecadores. É com eles que Jesus come.
Relativamente aos homossexuais, a Igreja defende que devem ser acolhidos, desde que sejam celibatários e não pratiquem a homossexualidade. Esta concepção poderá mudar?
Tem-se dado alguns passos. Ainda me lembro, e não foi assim há tantos anos, de os homossexuais serem clandestinos. E não era só na Igreja, era na própria sociedade. Cheguei a atender pessoas, na confissão, angustiadíssimas. Julgo que também neste campo a Igreja precisa de dizer o que é autenticamente humano e acolher bem as pessoas. Mas que não se faça da homossexualidade um cartão-de-visita. Disso eu não gosto. Essas coisas do orgulho gay e afins. O orgulho que deve existir é o de sermos humanos uns com os outros. Uma outra coisa que me parece importante é a questão das uniões de facto. Todos os padres que trabalham nas equipas de preparação do matrimónio sabem que a maioria dos casais já vive em união de facto antes do casamento.
Essas pessoas estão em pecado?
O casamento é uma realidade que vai sendo - o gerúndio é propositado - e há um momento em que o casal decide fazer a grande festa do grande compromisso.
Estas questões são fenómenos das sociedades. E às vezes até há muitos divórcios porque não houve uma descoberta verdadeira antes do matrimónio e a seguir ao casamento as pessoas percebem que não funciona. Viver juntos não é garantia de que o relacionamento depois bata certo. Mas a Igreja e os cristãos - porque a Igreja são os cristãos, servidos e ajudados pela hierarquia - tem de debater estas novas realidades. Sem tabus. A Igreja não pode ser um conjunto de tabus. Muitas pessoas fazem determinadas coisas porque dizem que são um mandamento de Deus. Mas Tomás de Aquino disse: se eu faço uma coisa só porque ela foi mandada por Deus, talvez eu corra o risco de estar enganado. Talvez não seja Deus a mandar, talvez tenha sido eu a inventar. Eu só sou livre e verdadeiramente pessoa humana se tiver consciência de que faço uma coisa porque compreendo que ela é boa e evito outra porque percebo que é má. Jesus resumiu, aliás, todos os mandamentos em dois: amar a Deus e ao próximo.
O Papa Francisco escreveu também sobre a hierarquia das verdades.
Sim. É preciso compreender, mesmo nos nossos credos e catecismos, o que é principal e o que é secundário. Ora o que tem acontecido é que o secundário tem ocupado o espaço todo.
Quando falava, há pouco, da necessidade de a Igreja fazer uma redescoberta da sexualidade, queria dizer exactamente o quê?
Todos os homens e mulheres são sexuais e o episcopado também nasceu de famílias. O problema é descobrir a importância da sexualidade na vida humana. O sexo não se trata só de procriação. A relação entre um homem e uma mulher não é só para ter filhos.
Então não há nada de errado com o prazer?
O prazer é essencial à vida humana. As pessoas cozinham bem porquê? Para terem prazer naquilo que comem. A questão do prazer é essencial à vida humana. Outra coisa completamente diferente é a anarquia dos sentidos.
Uma sexualidade desordenada.
Anárquica. Isto agora apetece-me, dá-me prazer e eu faço, mesmo que fazê-lo implique uma desgraça para a outra pessoa.
Isso é egoísmo, não é prazer. E esse egoísmo pode existir na sexualidade: quero que o outro me dê prazer, mas não quero dar prazer ao outro. É dominação. O prazer é a comunhão de toda a sensibilidade, mas a sensibilidade humana é também intelectual. Não é um afecto desligado. O ser humano é todo ele sexual. Somos sexo em tudo. As mulheres de uma maneira, os homens de outra e os dois para serem a alegria um do outro. Essa descoberta, redescoberta do valor da sexualidade, tem de ser feita. Não podemos andar a olhar para a relação sexual como um pecado. Nós não somos anjos. E o problema da sexualidade é um problema de antropologia. É o descobrir do ser humano nas suas múltiplas facetas. Não podemos pensar no prazer só em termos de pecado.
O que diz aos jovens católicos que lhe confessam que são sexualmente activos apesar de não serem casados?
O que é que lhes hei-de dizer? Não vou dar lições. O problema não é esse. O problema é perceber se o jovem ou a jovem têm uma vida sexual desorganizada, se andam a magoar outras pessoas, a fazer promessas que depois não cumprem. Aí, sim, está o pecado. O pecado na sexualidade, em jovens ou em adultos, é muitas vezes as pessoas servirem-se da sedução para enganar o outro e ter apenas umas horas de prazer.
A ideia de virgindade no casamento está, portanto, ultrapassada?
Não é só ultrapassada. O problema é que se fez da virgindade, que é uma questão biológica, um problema ético. A moral não é um tratado de fisiologia ou biologia. Uma das coisas que eu acho que a Igreja tem de rever é ajudar os casais, os jovens e os grupos a compreender uma coisa simples: tenho de ser responsável pela minha vida sexual. Faço sexo para dominar o outro ou para encontrar uma pessoa para fazer caminho com ela? Porque, às vezes, as pessoas tentam e não calha ficarem com essa pessoa. Mas ninguém deve sair magoado disso. O que eu julgo que é falta de ética são as conquistas apressadas e egoístas: acho gira aquela miúda ou aquele rapaz e vou passar uns tempos com ele ou com ela só para me divertir.
Isto é que é necessário evangelizar.
Mas a questão da virgindade é importante para a Igreja. Jesus, diz-se na oração, foi concebido sem pecado.
Sim, mas repare que no Evangelho isso não é dito. O que os evangelhos da infância pretenderam transmitir é a ideia de que se este homem foi tão excepcional na sua vida adulta, essa excepcionalidade era de nascença. E construíram-se narrativas. Mesmo as genealogias são teológicas, são interpretações. Para no final se concluir que Jesus é fora de série.
E que Maria é, também, fora de série.
Maria é descoberta depois. E tiveram de se encontrar narrativas. O pior que aconteceu aos evangelhos da infância foi transformá-los numa questão biológica. Quando o que queriam dizer é que Jesus não era mais um na série humana. Era tão de Deus que foi logo um fruto do Espírito Santo. Mas as pessoas fizeram leituras hermenêuticas desses textos de tipo biológico. A linguagem toda dos evangelhos é uma linguagem simbólica, não é uma linguagem factual. Há factos, histórias e interpretações simbólicas.
Então Maria e José tiveram sexo?
Podem ter tido ou não. Para mim, se tiveram não há problema nenhum. Maria aparece como uma mulher totalmente dedicada a Jesus e que não o entende. Teve de fazer muitas transformações na sua vida, de entrar na loucura do seu filho e aparece, também ela, no meio dos discípulos à espera do Pentecostes. Maria tem de se tornar cristã, discípula do seu filho. Nos evangelhos da infância não é assim... Maria vai-se habituando à loucura do seu filho. Esta é uma imagem que acontece também nos textos do novo testamento com as mulheres. As mulheres nos evangelhos nunca pedem nada e acompanharam os discípulos quando começaram a andar junto da cruz, foram ao sepulcro fazer as celebrações que se faziam aos mortos e é a elas que Jesus aparece.
Mas na Igreja o papel das mulheres é varrer e pôr flores.
É o grande problema. Porque é que as mulheres não podem ser padres e bispos? Como houve estas sociedades patriarcais ao longo dos séculos... A luta das mulheres conseguiu muitas transformações na sociedade, mas na Igreja isso não aconteceu porque se disse que era contrário ao mandamento de Deus.
E não é nada! A mudança de mentalidades é difícil. A vida humana é uma vida longa. A nossa vida, individualmente, é que é muito curta. O que eu acho é que cada geração deve abrir novas possibilidades às seguintes e não fechá-las. Há pessoas que querem sempre fechar o caminho: isto é irreformável, isto é dogmático, isto não se pode mexer. Ao fim e ao cabo isto é cortar a liberdade a Deus e dizer-lhe: ou passas por aqui ou não passas.
Nunca levou um puxão de orelhas da Igreja por pensar assim?
Nunca tive qualquer problema com o episcopado português. Só tive problemas com o cardeal Cerejeira, que não me deixava pregar. Mas depois do 25 de Abril nunca mais voltei a ter problemas.
Mas é um teólogo reconhecido e já escreveu muito. Não seria natural que, nesta altura da sua vida, tivesse um cargo de grande responsabilidade no episcopado português?
Não. E é uma coisa que nunca me passou sequer pela cabeça. Nunca gostei, quando tive responsabilidades académicas e a outros níveis. Aborrecia-me. Não tenho nada contra a responsabilidade, mas incomodava-me aquela ideia que as pessoas formam: aquele é superior, manda em nós. E há uma coisa que detesto: o carreirismo. Por vezes vejo clero mais jovem a fazer coisas para ver se trepa. Eu acho isso ridículo. Jesus já dizia que os que governam as nações oprimem-nas e ainda querem passar por benfeitores. Devemo-nos pôr ao serviço uns dos outros. Não tenho nada contra os bispos ou os cardeais, só quero que os seus cargos sejam para servir. E não sinto apetite, gosto ou competência por esses lugares.
Acha que nunca foi convidado por ter determinadas opiniões?
Eu sinto que por pensar assim há quem entenda que não posso pregar nesta paróquia ou não posso ir a este sítio. Mas isso não me causa problema nenhum. Se não querem, não querem. Deveras! Não passa mesmo por mim. Há tempos fizeram-me uma homenagem e eu fico sem saber lidar com essas coisas. Acho que a pessoa que gosta de ser lisonjeada está estragada.
Porquê?
É verdade, não gosto de escrever. Gosto é de ler e gosto de debater. Mas as crónicas foram uma grande aventura. Muitas pessoas interpretavam-nas como uma espécie de homilia de domingo.
Os pregadores dos tempos modernos precisam desta ligação aos media?
Quando comecei não havia muita coisa. O padre Rego tinha feito uma coisa pequena no "DN". E o padre Rui Osório, no Porto, que era jornalista, escrevia às vezes no "JN". Havia já muitas iniciativas em França, na Alemanha... uma certa descoberta dos meios de comunicação enquanto veículos de fé. Mas o problema é que ligada à pregação vem aquela ideia de que... aí vem o sermão. Uma espécie de arte da moraleja, estar sempre a insistir no que é proibido e no "deves fazer isto" e "não deves fazer aquilo". A pregação não é isso.
O que é então a pregação?
Não é isso nem é propaganda. É dar voz aos anseios das pessoas e àquilo que, na tradição cristã, interpretamos como o projecto de Jesus. Dar sentido à vida através dele. O problema da pregação é assumir, em cada época, segundo os povos e as culturas, esse projecto de Jesus que, no fundo, é fazer do mundo uma fraternidade.
Se Jesus vivesse no nosso tempo escreveria nos jornais?
Claro. Pregaria em todo o lado. Embora... repare... nós não temos nada escrito por Jesus. Temos escritos de representantes de comunidades. É uma escrita plural. São Paulo tinha mais essa vocação de jornalista, de comunicação, estava sempre em ligação com as comunidades. Escrevendo, escrevendo... Jesus foi o projecto de dizer: é preciso mudar. Este mundo não é mundo que se apresente. Começou a pregar, anunciando que até então reinava a opressão das pessoas e que era preciso o reinado da libertação das pessoas. É este o projecto.
A nossa sociedade precisa de um novo profeta?
Nós temos imensos profetas! A profecia de que precisamos, hoje, é a da dignidade humana.
Em que sentido?
Vivemos num país em que faltam crianças, em que os mais velhos, que sustentavam as famílias, viram os seus rendimentos cortados... O primado que existe no mundo contemporâneo, e não é só em Portugal, é o primado da finança e não o do bem-estar das pessoas.
Sem finança não há bem-estar.
Não. Todos os dias ouvimos falar de como as coisas funcionam ao nível da banca e no mundo dos negócios, os milhões que se ganham e com que se mexe. Não se ouve falar dos milhões de pessoas que estão na miséria. Dignidade humana é perceber que o ser humano tem o direito e o dever de poder viver, sob o ponto de vista do ensino, da saúde, da solidariedade, da constituição da família. E quem tem os meios tem também o dever de ajudar os outros e de construir um país em que o bem de todos venha antes do bem só de alguns magnatas.
O que quer dizer é que existem recursos e que a crise que é de valores ?
Crise de valores e de juízo. As pessoas andam sempre a falar da austeridade e da falta de recursos, mas o problema, creio eu, ainda não é esse e nunca será. O problema é que os interesses financeiros vivem numa lógica que é: que lucro é que eu posso ter com isto? Em vez de se pensar no lucro que a comunidade pode alcançar. Em qualquer decisão económica, financeira ou política deve pensar-se primeiro na dignidade humana e no bem comum. E a política é o mais importante, porque é o que olha por todos. Ou deveria olhar.
A política de hoje só olha ao poder?
O que é o poder? O verdadeiro poder é as pessoas terem saúde, poderem estudar, investigar, terem recursos para levar uma vida digna. A democracia é para dar poder a todos. Mas é algo sempre imperfeito e que é preciso ir sendo corrigida segundo os resultados. A árvore aprecia-se pelos frutos e muitas decisões políticas que se tomam devem ser corrigidas consoante o fruto que deram às populações. Agora em Portugal... esta discussão sobre o SNS, o Estado Social... O que se deve discutir é soluções. Onde estão os recursos? Onde vamos investir? Na educação? Na investigação? Ou naquelas coisas fantasiosas que dão lucro só a determinadas empresas e o resto não conta? É necessário discernimento político.
Saber discernir prioridades e perceber onde podemos encontrar meios.
Há decisões que não competem só aos agentes políticos nacionais.
Então é preciso trabalhar no diálogo político. Há pouco falava da questão dos profetas dos nossos tempos. Profeta é, no sentido bíblico, o Homem clarividente. Estamos perante uma situação em que em vez de as pessoas se calarem e fecharem os olhos é preciso parar e dizer: quais são as causas da actual situação? E como poderemos inverter este caminho? Diz-se que não existem alternativas. Como é que se sabe que não há? Já se experimentou? O profeta é alguém que interpreta os sinais dos tempos. Há um problema de falta de clarividência, com os interesses de grupos, de empresas a serem mais importantes no lucro que alguns vão ter. Mas a prazo não vão ter lucros, vai ser um desastre.
Quem faz esse papel profético em Portugal?
Actualmente há uma carência profética, em parte porque as igrejas se retraem muito para que não se diga que se estão a meter no que é da política. Quando a Igreja, hoje, para ser profética, não pode desvalorizar a política, a economia, a finança. Tem de servir de mediação, dar direcção, ajudar a perceber que há caminhos que levam ao desastre e outros que ajudam a tornar a vida mais feliz. Mas, ainda assim, vai havendo essas vozes proféticas. Há um profetismo enorme nos bairros... as pessoas que se ocupam daqueles que não têm nada para viver, os que se organizam civilmente, os voluntários que servem refeições a quem não tem o que comer. Há vozes, pessoas que compreendem que se pode fazer de outra maneira e que se substituem ao Estado, que tinha essa obrigação. Isto é um profetismo de bases, por assim dizer. Mas há vozes. O Papa Francisco apareceu como uma voz mundial.
Como é que um frade olha para os casos de corrupção que vão sendo descobertos?
Há bocado falou do problema dos valores. Esse problema não é abstracto. Cada pessoa é educada para saber dizer o que mais conta na vida? Kant dizia que o ser humano não tem preço.
Só tem valor. Não pode ser um meio para ser algo melhor do que ele. As coisas é que têm de estar ao seu serviço. As pessoas corrompem-se porque têm apetites desgarrados. Pensam que fazendo este ou aquele golpe vão ser ricos e ser rico, hoje, significa tudo. É esta ideia louca de que sendo rico tenho todas as hipóteses. E nunca penso no importante, que é: como devo fazer para desenvolver as minhas capacidades intelectuais, afectivas, relacionais? Se desde a escola, desde a família, se incutisse nas crianças a honestidade, o sentido do dever, da solidariedade, a importância do desenvolvimento das capacidades individuais para criar um ambiente bom para todos... Mas o pensamento, hoje, é outro: como é que eu posso ser melhor do que o outro? Como posso ir à frente de toda a gente? Estamos a criar uma cultura tecnológica em que as crianças são desde logo habituadas a lidar com ipads, mas que não sabem olhar para a natureza, para o mundo e para os outros. E esta é a maior corrupção: a corrupção das relações humanas. Os pais com os filhos, o marido com a mulher, violência em casa. É-se corrupto porque se tem a inteligência e os desejos e gostos distorcidos.
Mas é mau ter desejos?
Não é mau ter desejos, desde que se deseje aquilo que vale a pena ser desejado. E a primeira coisa que vale a pena desejar é o nosso desenvolvimento com o desenvolvimento dos outros. Muita gente diz- -me que isso é conversa fiada. Mas... E assim como está o mundo... Está bem? Isto não é mundo que se apresente, e como dizia São Paulo, não nos devemos conformar como o mundo está.


20 comentários:

AQUILES disse...

Realço:
«Isto não é mundo que se apresente, e como dizia São Paulo, não nos devemos conformar como o mundo está.»

bea disse...

Não destrinço se gosto deste senhor porque ele concorda comigo e há entre nós dois uma sintonia que ele ignora e de que não carece, se porque tem razão ao sobrepor a dimensão da pessoa à do cristão cego que obedece implacável, calando a humanidade que há em si (sinto-me incapaz de separar as duas águas, mas agrada-me a sua perspectiva crítica).

A lucidez aos 80:)

Se bem que, colocar a questão da virgindade equacionada com a concepção divina é não medir a distância entre homem e Deus; portanto, é uma falsa questão. Que eu saiba não existe identidade, cada um é a sua natureza. Certo, certo, é que não somos deuses e nem sê-lo nos serviria.

Mas é verdade que se corrompeu o tecido relacional. Esse é o verdadeiro problema, o vale tudo que desrespeita o outro,a falta de amor comunitário.

Bora ir ser inconformados com o mundo.

Bartolomeu disse...

Frei Bento demonstra ser um Homem que vive no mundo e que possui uma visão clara e universal da Humanidade. Um Homem que não foca o seu olhar e entendimento somente na "árvore" mas também na "floresta".
No entanto, conciliar a natureza humana, física e a espiritualidade, não é uma tarefa que caiba exclusivamente à igreja, mas sim e sobretudo à capacidade de o homem se entender a si mesmo e ao seu semelhante.

andorinha disse...


Estou absolutamente fascinada com a leitura deste texto!
Frei Bento é uma pessoa admirável!
Ler o que este homem, frei e com 80 anos, escreve, devia fazer corar de vergonha muita gente...



"Jesus já dizia que os que governam as nações oprimem-nas e ainda querem passar por benfeitores. Devemo-nos pôr ao serviço uns dos outros."



"Estamos a criar uma cultura tecnológica em que as crianças são desde logo habituadas a lidar com ipads, mas que não sabem olhar para a natureza, para o mundo e para os outros. E esta é a maior corrupção: a corrupção das relações humanas."

Realcei estes dois excertos como poderiam ser outros. Repito, todo o texto é fabuloso!

Como eu gostaria de ter oportunidade de conversar com este Homem!...

andorinha disse...


"Bora ir ser inconformados com o mundo."

Bora, Bea, Aquiles, Bart e quem se nos queira juntar...


Fiquem bem

AQUILES disse...

Andorinha

Já sou inconformado. Mas vou contigo. Não há caminho para trás.

Bartolomeu disse...

Bora, Andy.
Onde vamos?
Levo pijama e a escova de dentes, ou é coisa rápida?

Impio Blasfemo disse...

Embora ser Inconformado com este mundo Inconseguido (como parece agora dizer-se): Um pouco um mundo a sofrer de Incontinência da asneira. Será que o mundo estará assim tão envelhecido?

IMPIO

AQUILES disse...

Diferenciando idoso de envelhecido. Mas que está a mergulhar no caos, está. É a eterna alternância entre o caos e a ordem.

Unknown disse...

E que tal se falarmos sobre sexo?

http://cronicasdorochedo.blogspot.pt/2014/10/anda-comigo-ver-os-avioes.html

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Moon disse...

Muito esclarecedor e refrescante o Frei Bento.
A igreja de ideias arejadas por certo será muito mais inclusiva.
Vamos esperar...

Moon disse...

Mas vamos lá ao que importa agora...

Citando "Andorinha", há uns posts atrás….:

"Estou farta de que me digam que venho para aqui bajular." ...

Pois bem, minha querida, queridas e queridos, que fique bem claro e que seja público e notório o seguinte.

Declaração:

Eu, Moon, declaro pela minha palavra de honra, de livre e espontãnea vontade e sem qualquer tipo de ónus ou reservas, que:

Quando venho aqui ao blogue onde este grandessíssimo Murcon escreve, divaga e despe...!:) a sua alma ao comum dos mortais (que é como quem diz: a nós!), quase nunca consigo sair daqui sem "bajular".

E, não!, não sou uma "groupie", como me chamaram 'in illo tempore'...

Tenho uma profissão, gosto e tenho que trabalhar!, e não tenho tempo nem disposição para essas "frescuras"... :)

A compulsão de "Bajular", é nada mais nada menos do que um efeito secundário com que sou surpreendida pela escrita deste Murcon... :(

E eu bem quero ser forte e resistir mas…, não tenho culpa, é mais forte do que eu!

E como consumir desta escrita (desta droga!), é um dos males necessários à minha saúde e sobrevivência mental, deste efeito colateral dificilmente me vejo livre..

É, Julinho, tal como nos maços de tabaco vem a advertência de que "fumar mata" ou de que "prejudica gravemente a saúde", também este Bloggue devia ter o devido aviso à navegação, tipo:

"Advertem-se os senhores leitores, navegadores, voyeurs e afins… que este Blogue pode causar dependência e/ou efeitos secundários"

ou mais prosaicamente:

"Beber desta fonte pode provocar danos colaterais"...

Moon disse...

Assim sendo...

Moon disse...

Atendendo a que não advertiu devidamente os consumidores/leitores em prazo razoável, e como esta e outros consumidores, apanhados inadvertidamente na rede,sofrem já, comprovadamente, de efeitos secundários mais ou menos graves, fica o legal representante do Murcon, ou seja, o D. Próprio!, citado para o seguinte:

Moon disse...

Antes que o mal alastre e tome a forma de epidemia (qual ébola, qual quê...), pede-se a condenação do Murcon no seguinte:

- que reconheça publicamente o erro e o repare.

- que seja decretado o estado de calamidade pública, até que o mal esteja devidamente sinalizado e reparado.

O Réu tem o prazo de 30 dias para dizer o que se lhe oferecer e para, se quiser, apresentar, prova.

Prova por nós apresentada:

Arrolam-se como testemunhas os “habitués” do Murcon, designadamente:

- A confessa Autora desta acção;

- Todos os demais confessos leitores e
- os sinalizados pelos seus pares, como é o caso da “Andorinha”.

Pede-se a realização de perícia forense no sentido de comprovar os alegados efeitos secundários ou danos colaterais, sendo territorialmente competente para tal, o Laboratório de Polícia Cientifica do Porto, atendendo à sede do Blogue.

Deverá, ainda, ser avaliado e comprovado em sede de perícia:

1-Se os leitores desenvolveram comportamentos aditivos, por terem sido apanhados inadvertidamente na rede...

2-Se houve má fé por parte do Autor do Blogger, mais precisamente, se a sua atitude ou a falta dela configura a prática de ilícito ou se da situação tirou proveito (leia-se: deleite...), no sentido de ser condenado por forma a ressarcir os lesados.

Moon disse...

Resumindo:

Estou em crer que pela primeira vez em Portugal se fará jurisprudência em casos como este.
Vai ser um mega processo á la «States!»...:)

No entanto...
algo me diz que, por virtude do Mapa de reordenamento judicial, que entrou em vigor (mas não em funcionamento!) em 01 de Setembro de 2014, nesta Nação soberana e Estado de Direito Democrático que é Portugal, este alegado criminoso se irá safar impune...

E os culpados os do costume: a tão mediática morosidade da justiça e as famosíssimas e badaladas “prescrições” que quando nascem são são como o sol, para todos! ….

Vamos ter fé!

E podem começar a assinar a petição, meus caros concidadãos, que é como quem diz: Murcónicos :)

bea disse...

Olha lá Moon não assino nada. Nem sequer me identifico com o termo bajular. Se elogio - o que até não faço demais - é porque merece e logo não considero bajulação. Se venho, é porque quero; e se não, também. Sou maior, não vacinada. E o murcon é interessante, sim, mas a forma como cada um o consome tem responsabilidade própria; além do que, os danos não são proporcionais aos do tabaco - o senhor professor desculpe, mas é isso mesmo. Embora o autor saiba muito bem o que faz, não merece tal importância.

Uns de nós o tomarão como uma diversão, outros como informação, alguns como lugar para socializar e aprender, vários para discutir actualidades ou questões de sempre. Estes por solidão, aqueles por companhia...o professor repete vezes demais que a net agrada porque permite respostas imediatas e a correspondente gratificação. Neste blogue, especificamente, não sei se será o caso: Muitas vezes não nos respondemos, quase nunca estamos on line com os interlocutores a quem nos dirigimos e habituámo-nos a lançar questões ou a responder sem esperar em necessidade a volta do correio.

E o professor aloja-se em invariável modo off, com a ressalva de excepções.

Temos de reconhecer que o quotidiano do murcon não é de todo vulgar.

Tenho dito

Desejo-vos um dia Bom mesmo que chova; afinal, o que são uns pinguinhos mais?! quase nada

andorinha disse...


Moon,


Looooooooooooool

Looooooooooooooooool

Looooooooooooooooooooooooool


Tu de vez em quando...não sei o que andas a tomar...:))))))))))))))))

Tá engraçado o que escreveste, tens sentido de humor, mas isso eu já sabia.
Podes vir "bajular" à vontade, mas não me arroles como testemunha de nada. Eu só venho aqui tomar o meu café e dar dois dedos de conversa:)


Bea,

"Temos de reconhecer que o quotidiano do murcon não é de todo vulgar."

Claro que não.Eu já disse mil vezes que este espaço é único. Por mil e variadas razões que não vou agora aqui dissecar:))))

Uns pinguinhos a mais?????
Aqui são uns pingões...lol

Moon disse...

Bea,

Dahhh.... :)

Andorinha,

Nada de fármacos. Apenas embriagada de vida :)