segunda-feira, Outubro 27, 2014

sábado, Outubro 25, 2014

A própria consciência...

Igreja, sexo e família
por ANSELMO BORGESHoje

DN.http://www.dn.pt/Common/Images/img_opiniao/icn_comentario.gif
Aí está um tema sobre o qual a Igreja tem imensa dificuldade em falar. À partida, porque é em si mesmo difícil. Mas a dificuldade aumenta na Igreja, porque, para lá de outras razões, que talvez Freud ajudasse a explicar, está entregue ao papa, a cardeais, bispos e padres, que devem ser celibatários e não têm propriamente família. Mas que o tema é relevante, mostra-se, por exemplo, pela enorme importância dada pelos media ao Sínodo que lhe foi dedicado, cuja primeira fase - segue-se um ano de reflexão, que culminará na nova assembleia sinodal, em Outubro de 2015, e na Exortação final do Papa Francisco, nos inícios de 2016 - concluiu no domingo passado.
Quem foram os vencedores e os perdedores? Há quem insinue que o Papa Francisco não conseguiu levar adiante o seu projecto. Não creio nessa tese. É preciso perceber que se trata da primeira fase do Sínodo. Depois, sobretudo, criou-se um clima e abriram-se portas que já não é possível fechar. Votou-se um texto que, se em relação aos divorciados e aos homossexuais, não obteve os dois terços necessários para a aprovação, venceu, mesmo aí, por forte maioria, continuando, portanto, o debate. Que haja tomadas de posição diferentes, é sinal de vida, embora a Igreja não esteja habituada a este estilo de abertura democrática. Teve alto significado o facto de o Papa ter mandado votar os vários pontos e publicar os resultados, para que haja transparência e cada um assuma as suas responsabilidades.
A Igreja não abdica da doutrina, mas esta tem de ser aplicada na vida real, atendendo a dois princípios: o da compreensão e misericórdia e o da não exclusão. Penso, assim, possível antecipar, em termos gerais, o que se seguirá.
1. O casamento enquanto união em amor fiel e estável por toda a vida, aberta à procriação, lugar privilegiado de apoio mútuo e para a educação dos filhos, é um ideal de que se não deve abdicar e pelo qual vale a pena bater-se. Mas, por outro lado, o divórcio é uma realidade que não está em vias de declínio, e por razões múltiplas. Há situações e situações. É inegável um ambiente de hedonismo, de sociedade "líquida" e recusa de compromissos perenes. Pense-se também que há 100 anos a esperança de vida na Alemanha era à volta de 35 anos, sendo hoje de mais de 70; no tempo de Jesus, era à volta de 28 anos. Depois, se tradicionalmente parecia que os casamentos aguentavam mais, isso também se devia ao facto de as mulheres terem de aceitar ficar na penumbra e por vezes quase escravizadas, o que felizmente hoje não aceitam. E há aquele pensamento de Pascal, na linha da identidade processual e narrativa da pessoa: "O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente. Talvez ele ainda a amasse se ela fosse como era."
De qualquer modo, pergunta-se: se, divorciados, recomeçarem a vida em amor, em dignidade, se tiverem filhos que se esforçam por educar humana e cristãmente, poderá a Igreja negar-lhes a participação plena na vida eclesial, incluindo a comunhão?
2. Será reconhecido o valor dos casamentos civis e também das uniões de facto e da coabitação, que até poderão, nalgumas circunstâncias, desembocar no sacramento do matrimónio. Quantos sabem que só a partir do século IX foi exigida no casamento a presença de um padre e só no século XII se começou a definir o matrimónio como sacramento?
3. Quanto à homossexualidade, não se espere o reconhecimento do casamento de pessoas do mesmo sexo. Como já aqui expliquei, a linguagem eclesiástica não fala em casamento, que vem de casa, mas em matrimónio, que vem de mater (no genitivo, matris), mãe, o que significa que, segundo a Igreja, a abertura à possibilidade da procriação é constitutiva do casamento. Mas a linguagem mudou: os homossexuais "devem ser acolhidos com respeito e delicadeza; deve ser evitada qualquer marca de discriminação injusta". Será dada especial atenção às crianças que vivem com pessoas do mesmo sexo.
4. Evidentemente, será necessário rever a questão da contracepção, o que implica rever o pressuposto de uma natureza fixa e imóvel, centrada na biologia. A sexualidade humana não se reduz ao biológico e é próprio da natureza de o homem ser histórico e cultural e intervir artificialmente, com responsabilidade, na natureza.
5. Em todos estes pontos vale um princípio tradicional, retomado por Bento XVI, quando era professor: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se fosse necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica." Não vale tudo, mas, para lá da moral reduzida a normas e proibições, é preciso educar para a autonomia, para a liberdade na responsabilidade e dignificação.


sexta-feira, Outubro 24, 2014

Boa noite, gente.

quinta-feira, Outubro 23, 2014

Ele tem razão...

DENTRO DO GÉNERO
O sexo e a idade
por JOÃO TABORDA DA GAMAHojehttp://www.dn.pt/Common/Images/img_opiniao/icn_comentario.gif
DN.
O país tomou de ponta um trio de juízes do Supremo Tribunal Administrativo (STA) por terem dito que sexo aos cinquenta tem menos importância do que sexo aos vinte. Foi logo uma orgia comentarista, e de todos os cantos saltaram casanovas grisalhos ofendidos na sua virilidade e mulheres juristas a dizer que bom bom é agora depois da menopausa, sem limites nem tabus (nota mental: não faltar ao jantar dos 40 anos do meu curso de Direito, em 2040).
Na decisão do STA há algo mais grave do que a questão da idade: uma desvalorização subconsciente da sexualidade feminina aliada a um forte preconceito social. O sexo não vale menos porque a vítima tem cinquenta anos, o sexo vale menos porque a vítima é mulher. E empregada doméstica.
Sexismo nos tribunais portugueses não é coisa nova. Na semana passada assinalaram-se os 25 anos da mais abjeta decisão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), em que um juiz Tinoco culpa duas jugoslavas por terem sido violadas no Algarve. Afirmou que as ofendidas, "raparigas novas mas mulheres feitas", "muito contribuíram" para a violação ao virem para a estrada pedir boleia "em plena coutada do chamado "macho ibérico"". As moças tinham de ter "previsto o risco que corriam", "pois a atração pelo sexo oposto é um dado indesmentível e por vezes não é fácil dominá-la". Sabiam ao que iam, disse Tinoco, até porque no Algarve "abundam as turistas estrangeiras habitualmente com comportamento sexual muito mais liberal e descontraído do que o da maioria das nativas" - a culpa é, claro, da portuguesa nativa que trata pouco do macho marido e apenas na posição do missionário, de terço em riste, a pensar nos pares de meias que tem de cerzir quando acordar. Para Tinoco, as bifas não só tiveram o que mereceram como até gostaram do que tiveram - "as duas ofendidas deviam ser já raparigas de comportamento sexual experiente e desinibido", umas sabidonas, já que uma delas "rapidamente deixou de oferecer resistência à violação e, no fim, até elogiou a forma e o ardor viril" do violador. Gostas pouco, gostas. Tinoco não terminou sem aventar que, "possivelmente, outras formas haveria, contudo, de ele manter relações sexuais com uma ou, até, com as duas ofendidas". Com mais jeitinho, tinhas papado as duas.
Nas bodas de prata da cavernícola decisão Tinoco, o problema não é o que os juízes do STA no mês passado disseram sem pensar sobre o sexo e a idade, mas o que pensaram sem dizer sobre o género e a condição social. Claro que os juízes do STA não são frustrados sexuais, como se lê por aí. Acreditam, como nós, na sexualidade sénior, e que a chama não murcha aos cinquenta. Vivem, como nós, num mundo onde há até cada vez mais sexualidade sénior, tal é a fartura de ajudas disponíveis no mercado, desde o Viagra (para ele) aos romances do Sousa Tavares (para ela). Perante um caso com algumas inconsistências de prova e deficiências de fundamentação, os juízes quiseram reduzir a indemnização e pegaram, entre outras coisas, na idade e número de filhos. Tudo isto mais não é do que a face visível de um preconceito sobre o género e a condição social, que fica aliás muito claro se olharmos a outros casos.
Em 1998, um "administrador de empresas" retirou a próstata na sequência de uma biopsia ter revelado cancro. Afinal não havia cancro nenhum e, além do susto, o "administrador" ficou incontinente e impotente. Ao senhor "administrador" "com quase 59 anos", o tribunal atribuiu, em 2008, 224 500 euros de indemnização. Ainda há três meses o STJ fixou em 100 000 euros a indemnização a um homem "social e financeiramente bem-sucedido na vida" que, num caso idêntico, ficou incontinente e com as ereções reduzidas a 60%-70%. Tinha 55 anos. Quando uma vida vale em média 65 000 euros nos tribunais, a filosofia judicial é clara: antes morto que mortiço. Os tribunais sabem bem o valor do sexo depois dos cinquenta, mas sobretudo para homens que estão bem na vida. Na cabeça dos tribunais, um homem rico e uma mulher pobre são mesmo pessoas de sexo diferente.
Na decisão do STA do mês passado, o preconceito social nem está tão disfarçado quanto isso. Basta seguir este raciocínio: "Não se tendo provado que a Autora tivesse ficado incapaz de realizar todas as lides domésticas" e, tendo em conta "as idades dos seus filhos, a mesma apenas teria de cuidar do seu marido". Logo, é para o Tribunal "forçoso concluir que a mesma não teria necessidade de uma empregada a tempo inteiro". Uma empregada doméstica com empregada doméstica? A tempo inteiro? Além de marota, és preguiçosa.
Há muito que se estuda, infelizmente não por cá, o efeito do estereótipo e do preconceito sexual e socioeconómico nas decisões judiciais: involuntariamente, os tribunais decidem de forma diferente casos muito semelhantes apenas pelo simples facto de as vítimas serem homens ou mulheres, ricos ou pobres. E foi este enviesamento que esteve por trás da desajeitada afirmação sobre o sexo depois dos cinquenta.
Os tribunais portugueses já não escrevem com todas as letras que uma estrangeira merece e até gosta de ser violada na coutada de machos insaciados por nativas inibidas. Mas são vítimas de um inconsciente preconceito sexista e social não menos perigoso.





quarta-feira, Outubro 22, 2014

terça-feira, Outubro 21, 2014

Boa noite, gente.

quinta-feira, Outubro 16, 2014

Sean Connery - In My Life