terça-feira, fevereiro 05, 2008

Terça-Feira de Carnaval.

Velório, enterro, abraço aos amigos, um frio na alma que se ri das boas-vindas no termómetro de parede. A minha geração cumpre os rituais de morte com rostos cada vez mais fechados. Por solidariedade firme e triste e crescente aversão ao cinzento de lápides, jazigos e impermeáveis. Mas não só. Uns exorcizam-no, outros calam-no, todos o sentem - há um vento gélido e caprichoso que faz uma gincana, obscena por divertida, enquanto o cortejo arrasta os pés. E zune, ameaçador. Como se cantarolasse a ladainha de infância: "pim-pam-pum, cada bola mata um, prá galinha e pró peru, quem se lixa és tu". Por isso nos abraçamos com angústia, prometemos jantar próximo, actualizamos números de telemóvel. E outra voz longínqua se faz ouvir, à medida que os automóveis arrancam: "mais uma voltinha, mais uma corrida!". Quem entrará na box a seguir?

32 comentários:

São Rosas disse...

É a vida...
Viva Eros, enquanto não chega Tanatos!

MAR disse...

O pior é a saudade que fica...um vazio insuportável!

Fora-de-Lei disse...

Sempre que me defronto com este género de sentimento de aproximação à morte, procuro - de imediato - encontrar mentalmente todas as formas possíveis de aproveitar melhor o tempo enquanto cá ando. No entanto, esse estado de pré-aviso acaba depressa... E, inevitavelmente, mais tarde surge-me esta pergunta: será falta de auto-disciplina ou falta de vontade de viver ?

andorinha disse...

Boa noite.

Falta de auto-disciplina, FDL, parece-me que vontade de viver não te falta. E aliás, quem não tem vontade de viver nem coloca a si próprio essas questões, penso eu.

Mas não estás sozinho, eu sofro do mesmo "mal".
E como nós muita gente...é assim o ser humano.

Bel disse...

É nestes momentos que muitas vezes paramos para pensar na nossa própria existência.

CêTê disse...

boa noite ;)

Nunca siga(m) a luz!;) Dizem que é um caminho de sentido único- os que dizem terem voltado tornam-se muito estranhos. ;P


(É impressão minha ou o café foi invandido pelo pecado? LOL ;))))


Fiquem bem (não me lembro de quem é a esta terna frase);P

thorazine disse...

FDL,
acho que até foi o prof que disse, long long time ago, num "amor é.." que um paciente a quem foi diagnosticado uma doença terminal demora cerca de 3 meses a voltar à entediante rotina depois da verificação do erro no diagnóstico. :))

Ou seja, pela minha prespectiva, o erro está nas pessoas se auto-massacrarem contantemente ao longo da vida sobre o que poderiam ter feito, ou não, e não em realmente em não o fazerem. Porque há 3 tipos de pessoas: as que fazem coisas e as que não fazem. :)) Se pertencemos aos procrastinadores só temos de aceitar.. fazer os planos (e grandes!) para a frente e não nos zucrinarmos constantemente pelo que não fizemos. Sei que parece post retirado do livro de auto-ajuda menopaussca, mas tive de o dizer..lol :))))))

Ócio RENDE! Melhor que isso só mesmo ANHAR! :)))

thorazine disse...

Lembro-me de quando o meu pai morreu ouvir a minha mãe a perguntar ao médico, mamífero de grand porte e de bata amarela, a razão concreta do óbito e de ele responder: foi a natureza.

Pouco científico, é verdade, mas tem a sua razão. A natureza, que pode ser vista como entidade tão espiritual como as outras, só nos "quer" cá para reproduzir: os anos posteriores à idade fértil já são bónus! :)) Um bónus talvez justificado pelo papel que as avós foram "ganhando" na tribo.

Depois ELA (voltamos ao matriarcado) criou um software tão básico nos humanos, tipo MS-DOS, que "nos" contentamos com justificação destas. Será que ela se ri de quem aceita a morte? Dos paninhos quentes dos Poetas..?LOL :))

thorazine disse...

*menopáusica
**justificações

Cleopatra disse...

Os rituais de morte por vezes cumprem-se muito cedo.

cabecinhapensadora disse...

A morte é o ponto no fim da frase. Frases sem ponto final o que são?

Fora-de-Lei disse...

thorazine 12:41

"Ou seja, pela minha prespectiva, o erro está nas pessoas se auto-massacrarem contantemente ao longo da vida sobre o que poderiam ter feito, ou não, e não em realmente em não o fazerem."

Mas a minha lógica funciona ao contrário. Vai mais no sentido de perguntar se vale a pena perder tempo a fazer certas coisas... por mais valor acrescentado que - aparentemente - essas coisas possam trazer.

Sirk disse...

Na box ou na Cbox?

Nem numa situação destas o sr perde o sentido de humor, profe.

Desculpe que lhe diga, mas o seu texto está uma moca. Mesmo neste contexto fez-me rir, professor.
:D

Meninas, Cê e Andorinha, já experimentaram o novo advento científico - cebolas sem lágrimas, já, já?
;)

AG disse...

E será que também pensa assim quando nasce um criança, por exemplo? Podemos morrer pela coisa mais simples, mas porquê este cultivo da tristeza? Ai como eu compreendo o Mário de Sá Carneiro...

Rodrez disse...

Tão verdade.

Tantas as vezes que vertemos lágrimas para lamentarmos aquilo que sabemos um dia ocorrerá, a nossa morte.

Como sempre uma invejável sensibilidade nas suas palavras.

Teka disse...

"A morte não acaba com uma relação" In As terças com Morrie
Esta é uma das frases mais bonitas que li.

Professor mais umas palavras suas que me tocam e me fazem pensar que cada vez mais temos que valorizar o dia a dia.

cabecinhapensadora disse...

ÁGUA
Água a correr na fonte
Uma quimera líquida que sai
Das entranhas do monte
A saber ao mistério ue lá vai...

Pura,
Branca, inodora e fria
Cai numa pedra dura
E desfaz o mistério em melodia...
-Miguel Torga-

andorinha disse...

Boa tarde.

FDL(10.05)

Estás um derrotista do caraças, pá!:)
Isso são efeitos da belíssima carreira do Glorioso?:)))))

Quando morreu o Fehér um amigo meu disse-me algo que nunca esqueci: "Se nos rendermos à noção de precariedade o sonho deixa de ser possível."

Por isso, homem, vale sempre a pena fazer aquilo que nós achamos que vale a pena.
Ou vamos ser derrotados por Ela antes de Ela chegar?

Pensa nisso, amigo e companheiro:)

Actores Fantásticos disse...

Eu costumo dizer "Quem se livra és mesmo tu." É livra, não é? Livra!

amigo ambiente disse...

Ola dr julio ,a ja alguns anitos fiz um contacto telefonico com o sr a pedir ajuda sobre o meu relacionamento conjugal,na qual me ajudou bastante ate hoje nao me esqueci do sr pois as suas palavras deram-me uma ajuda preciosa na rosoluçao do meu relacionamento conjugal..hoje estou outravez na desgraça..nao sei se o que faço ao pedir-lhe ajuda..e um acto de amor que sinto pela minha esposa..mas eu sinto que sim o meu sentimento com ela e muito forte mas com o passar dos anos a relaçao cai em desgraça..que heide fazer..tenho tentado de tudo para que ela nao avance com o divorcio.ela parece uns dias recuar e outros nao..com 2 filhos que amo tanto como ela..sera que o amor acaba..?com os problemas finaceiros..?ajude-me pro favor .o sr tem um sentido de visao da vida que me supreende e algumas palavras podera me ajudar

thorazine disse...

FDL,
Por exemplo: não vale a pena gastar energia no auto-massacre! :))

andorinha,
"Se nos rendermos à noção de precariedade o sonho deixa de ser possível."

Pelo que percebo a precaridade é a tenebrosa condição humana. Se assim for, não concordo com a frase! Penso logo em conquistadores de sonhos que caminharam lado a lado com a sua condição, tipo Gandhi! :)

Actores fantásticos,
eu também acho que é livra! :) Deve ser o pessimismo do prof em acção..

Fora-de-Lei disse...

thorazine 4:32 PM

Nada disso. Aprende comigo: quando estou numa de auto-flagelação, aperto o "silício" e está a andar de mota... ;-)

andorinha disse...

Thora,

As férias fazem-te mal, não me dás descanso:) Loooooooool

Não concordas com a frase? Quero lá saber...concordo eu!:)
Eu estava na altura a questionar a que ponto valeria a pena termos projectos de futuro se a vida se pode esviar num instante como aconteceu a um puto de 24 anos em pleno relvado à minha frente.
Foi nesse contexto que surgiu essa frase.
Na altura pouco consolo me deu, confesso, mas nunca mais me saiu da memória e já me tem ajudado em momentos em que às vezes ainda resvalo no meu pessimismo...
Entendido?:))))))

P.S. E nem tu nem eu somos Gandhi.

"... não vale a pena gastar energia no auto-massacre! "

Subscrevo!
No meio de umas tantas bacoradas, ainda vais dizendo algo com nexo.

:)))))))))

andorinha disse...

*esvair

thorazine disse...

FDL,
:))))))))

andorinha,
Como sabes que não sou "um" gandhi? lol

É verdade que é triste ver um puto de 24 anos a cair fulminado no chão, mas não é caso para remoer muito nisso! Se o conhecesse..mas nem falta me faz! :)) Qts desses não morrem por dia?

PS - Ele já tinha reproduzido? hehehe

Su disse...

eu não gosto de cinza............

jocas maradas de negro

AQUILES disse...

Cada vez temos menos filas de espectadores do infinito à nossa frente. Entre as cabeças já se entrevê o horizonte finito.
Mas isto não devia ser dito por alguém com maiss de 70 :):):):):)

non! mon amour! disse...

" Mas isto não devia ser dito por alguém com maiss de 70 :):):):):)"

Aquiles,

e o que dirão ainda os de noventa e muitos ou até mais ? (:)

talvez o segredo dos que vivem para lá dos cinquenta e muitos seja precisamente o de não pensar muito no tempo que ainda têm - ou não têm!

( e se bem que com a morte a passear-se literalmente à nossa frente seja impossível não pensar ~~ )

Mas, como dizia uma grande amiga que também já partiu,

para quê correr tanto (?) se daqui a cem anos, já cá andarão outros tantos correndo nos mesmos lugares para chegar onde nós já estaremos e outros nos esperam (?)

umas vezes por estas, outras, por outras palavras, ela bem mo dizia e hoje, que já não a posso ouvir, continuo a correr do mesmo jeito, apenas com um sorriso diferente de cumplicidade sempre presente ~~

Miosotis disse...

Boa noite,

É... quando a morte nos apanha de sopetão! Amigos, familiares.
Ou um trauseunte num final de tarde tranquilo, sossobra de repente ao nosso lado :(

A angústia de apoiar, socorrer um ser 'anónimo' que cai...
A angústia de chamar o 112... que tarda...
A angústia de 'acarinhar' um ser tombado, bem ao nosso lado...
Um anónim a quem dirigimos palavras sem saber se ainda somos ouvidos, gestos suaves sem saber se continuamos a ser pressentidos...

Aconteceu uma sexta-feira, ao final de tarde, numa casa comercial, algures nesta cidade, duas, três pessoas se mobilizam para suavizar o último momento...
E o 112 tardou... :(

amigo ambiente disse...

A minha vida conjugal..porque estes desentendimentos.casei-me com amor e com consciencia que haveria maus momentos, mas a minha esposa acho que nao tinha essas ideias..agora com dois filhos menores ela com 6 ele com 13..sao uns inocentes..que possivelmente irao sofrer com este desfeixo conjugal..mas tenho esperança de encontrar um trabalho e normalizar as nossas despesas.
sou filho de pais divorciados,tinha 10 anos,ele abalou pra frança e nunca mais fui filho de um pai. sei muito bem o que é sofrer..pois ate hoje eu sofro e tenho 38 anos,e agora os meus filhos como vao suportar isto..?hoje ela voltou comos papeis divorcio para eu assinar..recusei.porque nao e assim que vou pagar as dividas.o meu coraçao distorçado com estes momentos de vida muito duros..mas sou lutador vou ate ao fim..quero-a de volta heide conseguir..
franco

yulunga disse...

Ó freguês, vai um tirinho para se "acabar" de vez com a morte?

Sirk disse...

Amigo ambiente (3:21PM),
estou até comovida com o seu caso.

Que infortúnio o seu!