quarta-feira, maio 12, 2010

O Jorge.

O Carlos Magno é um amigo com privilégios firmes, o meu Velho gostava muito dele e isso chega e sobra. Mais um convite amável, os quatro dedos de conversa habituais e a surpresa dolorosa - o Jorge morreu. Ele, que com a sua Luísa foi meu aluno em Biomédicas e depois me acompanhou na magnífica loucura da Consulta de Sexologia do Magalhães Lemos. Um dia, mais tarde, bateu-me ao ferrolho e desabafou longamente. Recordo ter-lhe dito que ou diminuía o stress em que vivia ou estava em risco de passar da angústia à doença física. Não sei se o não pôde fazer ou se não fui convincente, o resultado está aí. Como a velha fotografia no jardim à frente do Instituto, os três sorridentes, eles à porta da vida profissional, eu grato pela ternura do pedido - "quer ser o nosso padrinho?". Ao longo de 36 anos tive muitos alunos, mas poucos discípulos. É compreensível, a esmagadora maioria da malta considerava o que eu expunha absolutamente inútil para o exercício de uma Medicina ingénua e arrogante, baseada nas super-especialidades. Alguns concordaram comigo - pensar a Medicina e os seus "pecados" não é traí-la. Gente como o Jorge e a Luísa, que me convidavam para jantar em sua casa e me faziam sentir um amigo e não o chefe. É um privilégio raro, que guardo no coração. Ensinei durante trinta e três anos numa instituição. Quando saí, excepção feita à minha Directora de Departamento, apenas recebi um abraço e o desejo de felicidades de um órgão - a Associação de Estudantes. E quando isso aconteceu, a gratidão expulsou a amargura. Porque foi com eles e para eles que fiz o melhor possível. Alguns ainda me contam alegrias e desventuras, numa demonstração tocante de fidelidade ao velho prof. Ver partir os mais jovens é anti-natural, como escreveu Bautista acerca da morte dos filhos, sinto um remorso hipócrita. Espero que a Luísa e os cachopos aguentem o melhor possível. E saibam que porta e braços estão abertos, mesmo sem o sorriso da fotografia:(.

11 comentários:

thorazine disse...

;(

andorinha disse...

"E saibam que porta e braços estão abertos, mesmo sem o sorriso da fotografia:(."

Pelo que diz no post, de certeza que sabem.

"Alguns ainda me contam alegrias e desventuras, numa demonstração tocante de fidelidade ao velho prof."

É porque o velho prof. merece. Acaso pensa que se contam alegrias e desventuras a qualquer um?:)

Claro que o reconhecimento por parte das instituições a quem se devotou grande parte de uma vida é importante e merecido, mas, na minha opinião, são estas atitudes espontâneas e genuinamente sentidas que mais marcam e que guardamos dentro de nós para sempre com ternura.

mariam disse...

Júlio
Grande Prof.

. comovente, a homenagem .
deixo-lhe uma flor.

http://mariam-sentidos.blogspot.com/2009/04/roseira-brava.html

e um sorriso :)
mariam

bea disse...

Senhor Professor
A morte é a evidente certeza sempre estranha. Porque a esperamos e quando, porque a sabemos sem a esperar, porque nos morrem sem aviso e com ele.
Na despedida, o cartão da Associação de Estudantes era o tudo que faltava. Logo, nada faltou.E o senhor, acredito que como tantos outros, não deixa de ser professor porque se reformou.
Cumprimentos cordiais

Ponto de Interrogação disse...
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Ponto de Interrogação disse...
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Ponto de Interrogação disse...

Também acho que ver partir os mais novos é contra-natura.
Quanto ao resto, concordo com a Andorinha: eles saberão certamente que está lá para eles e quanto aos que o acompanharam e que acompanhou na sua jornada educativa recíproca, essa foi, de facto e quanto a mim, a forma que encontraram de lhe dizer 'obrigado, estamos e somos hoje mais ricos porque partilhámos esta experiência. Até já'

Creio que um dos desafios mais difíceis na tão nobre arte de ensinar, é permanecer-se eterno no coração de um aluno. Neste caso, essa presença está bem patente. Dou-lhe, por isso, os parabéns e acredito ser mérito de ambas as partes: seu porque felizmente é como é, e dos que consigo aprenderam e, eventualmente ensinaram, porque tiveram capacidade, humildade e genuinidade para o reconhecerem assim.

Beijinhos e abraços!

yulunga disse...

E porque não com o sorriso da foto?
Tem um sorriso cativante. Dê-o, sim?

disse...

Temos o dever de nos comprometer com todos os que cativamos, dizia Exupery...

Com o sorriso, sim senhor! E quando ele é bonito por maioria de razão.

Muito mais gente terá cativado sem que o saiba, Professor. Quantos abraços tem, cada um de nós, em dívida...?

Aí vai um!

silok disse...



agora cativaste-me.
como fazemos?

:)))

Fragmentos Culturais disse...

Infelizmente, cruzei-me com essa perda, alguns bem mais jovens, e é com grande mágoa que nos deparamos com tanta tristeza, reconheço :(

'... E quando isso aconteceu, a gratidão expulsou a amargura. Porque foi com eles e para eles que fiz o melhor possível...' - esta é sem dúvida a mais linda mensagem!

Quando um(a) professor(a) é reconhecido(a) não pelos seus pares (que importa?!) mas pelos seus discípulos '...pela maneira aberta, descomplexada e universalista de olhar o estudo da literatura e de a ensinar pelo coração, que é a maneira mais certa, ligando-a à vida, à nossa interioridade, com aquele rasgo de rebeldia que é necessário para se sair da norma-padrão, da vulgar e fria perspectiva de dar a matéria, sem alma!
Para ensinar, é preciso estar lá com o coração e pelo coração! Sempre estive na docência pelo coração...' - escrevi também!
Vejo que nos cruzámos no ser e no estar!
:)