terça-feira, setembro 14, 2010

Boa noite, maralhal.

O Guilherme veio arriscar comigo nova barraca do Benfica. E de repente o temido desgosto adicional empalideceu. Ele pediu o inevitável sushi, eu o surpreendente (?:)) bife grelhado, abrimos uma garrafa de vinho, só faltava o João para me sentir de regresso à adolescência deles, que tiveram a suprema gentileza de a viver à distância de uma carícia paterna. Depois foi vê-lo escolher livros e discos, "posso?". Pergunta retórica, sempre amei através das coisas, na esperança que ao encantarem os outros lhes segredassem as palavras que o freio de razão e timidez mantinham, gulosas, no meu coração. Prestei pouca atenção ao jogo, a estritamente necessária para simpatizar com o árbitro e piscar o olho ao miúdo aterrorizado que nos defende a baliza. De resto, gozei-lhe a companhia. Brindámos à vitória fora de horas do seu irmão adoptivo, Rafael Nadal. Os meus filhos sempre encararam com bonomia tais dislates afectivos do pai. Primeiro foi Pete Sampras, que vi chorar em pleno court, rapazito surpreendido pelo cancro que em breve lhe mataria treinador e amigo. Adoptei-o para a vida, como entendia o receio da perda de uma figura parental:(. Com esta mania de se jogar ténis ao abrigo de outros fusos horários, lembro-me de fazer noitadas para lhe seguir os jogos, eu gritava "sim!" e os rapazes dizam aos amigos "o Sampras ganhou". Seria incapaz de o esquecer ou substituir, mas Nadal foi o herdeiro, o preguiçoso inseguro dentro de mim rende-se, fascinado, à genica escondida por trás daquele sorriso tímido e humilde, o rapaz resistiu ao apelo dos holofotes e permanece fiel às raízes. Eu e o Guilherme recordámos jogadas, o fair play de Djokovic, fizemos planos para o "nosso" futuro. Entretanto o Benfica ganhou - não poderemos jogar o campeonato israelita? - e de um dos livros que me pediu emprestados caiu uma carta destinada a minha santa Mãe, que passava férias... em Maiorca, muito antes de Nadal nascer:))))). Li-me sem surpresa. Ia entrar na Universidade, confessava à matriarca o pânico de a envergonhar e a meu Pai. Passei a vida com medo, no meio da ponte - de um lado os Velhos, do outro os rapazes, a quem não desiludi? O Guilherme foi-se embora, depois de um abraço amigo entre dois homens, por acaso unidos pelo sangue. E eu, sozinho, fitei o corredor sombrio e sorri pelos fantasmas que nele passeiam - fraternos uns, sensuais outros, a solidão nada pode contra mim. Muito menos se dou corda à caixa de música de minha Mãe e me quedo, enternecido, perante o aprumo da bailarina que roda sobre o pano de fundo espelhado. Há gente que jamais permitirá que mergulhe em vale de lençóis a solo, regaços que não me deixam, por sempre alucinados:).

20 comentários:

Ana disse...

Continua a ser um prazer ouvir e ler o professor.
Obrigada

andorinha disse...

Este é dos tais que me deixam sem palavras...:)

Bartolomeu disse...

Ah Grande Júlio!
Isso é que foi escrever, desta vez!
Foi com certeza inspirado pela vitória do Glorioso...
Gostei das reflexões e das premunições.
Se eu soubesse escrever como o Júlio, ou seja, se soubesse colocar em palavras, os sentimentos teria escrito somente aquela frase que resume tudo o resto «Pergunta retórica, sempre amei através das coisas, na esperança que ao encantarem os outros lhes segredassem as palavras que o freio de razão e timidez mantinham, gulosas, no meu coração.»

Jonas disse...

Eu acho que o Djokovich ainda vai conquistá-lo :)

http://omundodosol.wordpress.com/category/benfica/page/2/

peacock disse...

Grande lição sobre os beneficios do paternalismo recompensado pelo prenchimento das lacunas escavadas pelas esperânças perdidas.

Conclusão:
a juventude marca, o bife recompõe, a ilusão alimenta e a vida é feita disto...e também dos sonhos tranquilizadores inspirados pelos seus rebentos.

A Menina da Lua disse...

Bom dia!

Jantarada futebolística na companhia do filho! e no final o Benfica até ganha!
Bom! são motivos de inspiração mais que suficientes para esta linda descrição, quase poética, que é este seu texto:))

Pois é! as sombras, as saudades, a solidão...a vida é feita disso tudo e de amar e de alegria tambem...:)

Peacok:)

"a juventude marca, o bife recompõe, a ilusão alimenta e a vida é feita disto...e também dos sonhos tranquilizadores inspirados pelos seus rebentos."

As minhas palavras são diferentes mas a ideia é um pouco a mesma.:) Coincidências de pensares:)

Vírgula disse...

Meu Deus, juro que não é perseguição mas lá estou eu a subscrever o que diz a Andorinha!
:)

bea disse...

Ora até que enfim aparece um solitário a dizer "nunca estou sózinho". Ainda que se compreenda o tão vasto fastio nacional, tanta solidão desmemoriada também chateia. Tá certo que ela nos põe no meio do objecto rememorado mais ou menos chapadinhos, mas juro que não entendo este pavor generalizado do encontro connosco.

graca disse...

Adoro quando escreve com este sentimento, não me parece que tenha sido a vitoria do Benfica.
... ele há dias, e ainda bem que os há.

Andesman disse...

No ténis segui com grande entusiasmo os Nadais de outros tempos: criticava, e vibrava ao mesmo tempo (ai a minha coerência...)com as irreverências de um John McEnroe.

Diz-se que o histórico presidente do Real Madrid, Santiago Bernabéu, acerca das vedações, que impedem as invasões de campo, nos estádios de futebol, dizia: O que mais me custa é ver Sua Majestade o Público por detrás de umas grades. Alguém que possa, explique ao Cardozo, que custa muito, ver um atleta do GLORIOSO, mandar calar Sua Excelência os sócios e adeptos do BENFICA.
1 abraço prof.

andorinha disse...

Vírgula,

Tu és é preguiçosa!:)
Já sei o que vou fazer para que possas corrigir esse defeito:): vou passar a comentar só depos de tu já teres comentado.


Bea,

Já somos duas, também não consigo entender esse pavor.

maria disse...

Prof.,

You are at your very best when you write articles like this one;
it brings out the best of us, as we try to leran/absorb your magic!

Thanks for beeing the way you are.

C.C. disse...

...ia a passar, e já há muito que aqui não passava. Mas ainda bem;acertei em cheio!
Adorava saber escrever assim!...

Vírgula disse...

:) Olá, Andorinha.

Hehe. Acertaste na 'mouche'.
Não há inteligência e perspicácia como a das aves.

Vírgula disse...

:) Olá, Andorinha.

Hehe. Acertaste na 'mouche'.
Não há inteligência e perspicácia como a das aves.

Vírgula disse...

Ups. Mania das grandezas... Desculpem.

Cê_Tê ;) disse...

Quando é que começam os programas do professor na TV? Ou já começaram?

Cê_Tê ;) disse...

Decalco a quimicA do que escreveu:
"sempre amei através das coisas, na esperança que ao encantarem os outros lhes segredassem as palavras que o freio de razão e timidez mantinham, gulosas, no meu coração.",)

bfdsemana

Alexandre Lote disse...

É de facto um prazer ouvir e ler o que escreve. A forma simples e profunda com que escreve marca de facto a diferença netes país.

P.S: gostaría de entrar em contacto consigo para saber a sua disponibilidade para uma palestra em Fornos de Algodres e nao tenho o seu email. Caso possa responder deixo o meu disponível.

alexandrelote@gmail.com

Cumprimentos, Alexandre Lote

Paula disse...

Boa noite,

Perante palavras tão marcantes e sentidas, nem tenho lata para comentar. Atingiu-me em cheio Profe.
Beijo grande,
Paulinha