quinta-feira, dezembro 25, 2008

A Alucinada Família.

Maria,

O estalar da madeira no silêncio da casa, que me acolheu sem perguntas na ressaca de mais um Natal. A mesa que se espreguiça, para meu espanto. As cadeiras multiplicam-se nas margens dela. Apago a televisão, desligo o computador e espero, não acredito em caprichos da mobília sem objectivo ou lugares vazios para a eternidade. Não foi preciso esperar tanto...
Minha Mãe à cabeceira. Um sorriso doce na minha direcção, antes de sondar as frinchas da porta em busca de correntes de ar assassinas. O gesto de satisfeita aprovação. Um último relance em volta, o aquecedor já crepita, "Júlio, querido, podes vir sentar-te".
O meu Velho e a sua lendária elegância: casaco, gravata, colete, botões de punho, vinco das calças, a risca intransigente que lhe separa os belos cabelos brancos. "Obrigado, Maria". (Também a trata assim...). O afecto menos pacífico do que o de minha Mãe, somos amantes circunspectos, os dedos afloram-me o rosto quase a medo e correm para o refúgio do dela, que todo se ilumina. Assim, lado a lado, sem um gesto, transformam o mundo em redor num gigantesco armazém de adereços inúteis.
Ou talvez não... Minha Avó chega por sua vez. O genro saúda-a com graça carinhosa, "ah, a Rainha Mãe". Ela desafia-o com a arrogância divertida que a trouxe de uma viuvez próxima da miséria aos camarins dos teatros em que a filha cantava e ele as conheceu; a paixão foi a dois, mas o casamento a três. Observa-me cuidadosamente, se parecer magro ou triste ficarei em maus lençóis!, o menino dela ofende-a se não irradiar felicidade.
Os outros... O segundo marido de minha Avó, ensinou-me a fazer palavras cruzadas e a ver um homem que chora sem vergonha, mansamente; o Pierre, olha para o caos reinante e abana a cabeça, o melhor amigo é um caso perdido; o Zé Gabriel, a mão gulosa avança para o leitor de CDs e recua, a minha toma o seu lugar, sem música não ficará.
E os outros depois dos outros! Os meus Avós paternos, o Rui Alcobia, George Harrison, John Lennon, Zeca Afonso, Ballester..., a mesa, de tão longa, não permite que os reconheça sem viagem longa. Mais tarde. Agora ocupo a outra cabeceira e espero.
Meus Pais fazem um sinal, tão entrelaçado como os corpos de Fred Astaire e Ginger Rogers, e o Natal começa, Maria, a realidade é a velhice da imaginação! Repara no lugar vazio a meu lado, querida, espera por ti.
E eles também...:).

37 comentários:

guida disse...

Pois é professor,época de lembrar, mesmo sem quer. Ou querendo, porque nao? Celebramos com os que nos rodeiam,à volta e por dentro.O nosso sentir é outro. Mais fundo, mais recolhido. Se é necessário haver ancoras, essas, agora somos nós. Uma boa consoada!

Júlio Pêgo disse...

Um relato vivência dum Natal de afectos e identificações de fino recorte literário.

Vera Carvalho disse...

Festas Felizes e um bom Ano de 2009; são os votos do Cogitare em Saúde...

lobices disse...

...belo

cabecinhapensadora disse...

Professor
não sei se a realidade é a velhice da imaginação, mas pensar apenas o real concreto é velhice. Morte talvez. Não se faz Natal apenas com quem é presença e espaço físico. Amores extensos fazem parte da Sua natureza e da nossa.Como nós, a casa os guarda; estão entretecidos no betume e no ferro, vivem na cor das paredes, transparecem no vidro, sentam-se de leve a nossos pés enquanto o sono nos toma para si.
O eterno mora em nós, habita-nos o efémero. E os rituais são, quem sabe, sinal do animal religioso que somos.Tales de Mileto disse que, "Tudo está cheio de deuses";acrescento, dos nossos deuses.
O seu Natal foi escrito com pó de estrela. Tem luz própria.

A Menina da Lua disse...

Guida:)

" Pois é professor, época de lembrar, mesmo sem quer. Ou querendo, porque não? Celebramos com os que nos rodeiam,à volta e por dentro.O nosso sentir é outro. Mais fundo, mais recolhido. Se é necessário haver ancoras, essas, agora somos nós."

Exactamente!é isso...

Porem as lembranças são francamente desaconselhadas:) quando as temos em momentos demasiadas tristes porque nos fazem realçar não só as tristezas como a própria solidão que quase sempre se associa a elas...

Professor gostei muito destas suas lembranças e como diz o Júlio Pêgo, são de fino recorte literário mas tambem porque me permitiram igualmente relembrar as minhas; os sorrisos antigos, as vozes, os carinhos! sim principalmente os sorrisos!

Princesa Isabel disse...

Tenhho paixão pelas palavras e pela Vida! Reconheço estas recordações pelo seu sentido, as minhas embora menos entrelaçadas, lembram os gestos, os sorrisos, o espírito de fazer uma grande festa a um simples brinquedo que encontrava religiosamente acomodado dentro do meu sapatinho, na chaminé da cozinha, no dia 25 de manhã. Lembro-me, particularmente, de um boneco preto de plástico todo nu, a quem fiz questão de vestir e despir quinhentas mil vezes. Lembro-me, particularmente, do sorriso alegre da minha mãe.
Que 2009 lhe mantenha jeito poético de fazer medicina... ;)
Um abraço professor e Muito Boas Festas!
da Princesa

Migmaia disse...

Fantástico Prof., como consegue juntar tantos e ainda ter lugar para mais!

Ontem, após almoço meio improvisado com o meu Pai, (também)passeamos pelo Porto desde a década de 40. Num tempo em que a Av. Fernão Magalhães começava, pelos vistos, na Rua de Barros Lima. Visitamos as Glórias do meu Avô, e a juventude do “Velhote”, com passagens pelo Liceu Alexandre Herculano, tomamos café no Príncipe e ainda fomos a tempo da inauguração das Antas…


Votos de momentos felizes para 2009!

CêTê disse...

Tristemente belo.;((

;P O seu amigo Zé Gabrie deveria tê-lo arrancado do chão e balsado consigo até lhe arrancar umas boas gargalhadas. Aposto que faria sorrir todos em sua volta (sem excepção!) e iluminado a sala dissolvendo as sombras da "gruta". ,P

Bom Natal ;)

Roberto Ivens disse...

Caro Prof.,

Há que pôr isto rapidamente em livro! Infelizmente, dependo demais da angolana Movicel para acompanhar estas suas belas preces em prosa...

moon disse...

Um beijo doce!

Boas Festas para todos!:)

ape disse...

«comover é o provilégio de nos movermos em conjunto com alguém que nos toca por dentro», escreveu um colega seu. Neste espaço onde regista as suas ruminações, comovemos-nos.

Tenham, tenhamos um bom 2009, que com optimismo e coragem saibamos dobrar o «cabo das tormentas» (como lhe chama o meretissimo)que se aproxima com o novo ano.

andorinha disse...

Tão belo, Júlio!
Esta sua escrita comove-me...

Fique bem:)

disse...

Sabe, Doutor, cada vez sinto mais a falta dessas âncoras. Na família os lugares cativos de quem com todo o mérito os ocupava ficaram irreversivelmente vazios. Na Escola a mesma coisa. De um momento para o outro, e por razões que os sindicatos não clarificam devidamente, vimo-nos privados da sabedoria de quem ainda tinha muito para dar. Na Igreja o carreirismo minam os ideiais em que se funda. Tente aguentar por aí a barca mesmo que a saudade de outros tempos lhe bata à porta.
Gosto muito de o ler e de o ouvir. Passo por aqui frequentemente embora nunca tenha comentado.
Um grande 2009:)
Um abraço

6ºC disse...

"Alguma vez terás imaginado, minha querida, o quanto levaste de mim, ao partir?" C.S.Lewis

Mar disse...

Muito lindo. Um Natal pleno com a certeza de que os nossos queridos são eternos em nós. Faz lembrar Raul Brandão em O silêncio e o lume: “…Nunca estive tão acompanhado como hoje nesta ceia religiosa de fantasmas numa comunhão de saudade e de lágrimas, e sentindo que cada Natal volvido mais me aproxima dos mortos.…”
Mas em O silêncio e o lume não há lugares vazios. Mais à frente RB escreve “…Cheguem-se todos os que no mundo me deram um bocadinho de ternura!...”
Olhe bem o lugar vazio a seu lado? Estará realmente vazio? Não farão parte dele todas as Marias de Natais passados? Pois se há lugar à mesa para tantos outros… Não haverá lugar para as ternuras das que já foram as suas Marias?...
Será que esta Maria quererá arriscar ser um lugar vazio em Natais vindouros?
Pense nisto, com carinho ;).

Miosotis disse...

Sensível, melancólico, como só pode ser a noite de Natal... a partir de um certo momento: a ausência/presença dos que mais gostamos! Um sem fim de lembranças doces, que nos aquecem o coração na noite de Natal e fazem brilhar nossos olhos como noites de estrelas!

[...]
A solidão quando é vivida na infância em completa disponibilidade, sem constrangimento, como um estado semelhante ao do primeiro homem e da primeira mulher, tem tendência a tornar-se crónica. [...]

Agustina Bessa-Luís, Solidão, Opera Omnia, Dicionário Imperfeito. Guimarães Editores, Lisboa, Junho 2008

Boa-noite cordial

Fragmentos Culturais disse...

Natal

Deito-me à sombra da árvore sem sombra - a árvore

cujas raízes nascem da infância - e é natural, e

nunca mais chega a meia-noite

dessa noite sem fim. [...]

Nuno Júdice, Cartografia de Emoções, Publicações Dom Quixote, 2001

Uma terna noite de Natal que me fez pensar neste curto excerto do poema de Nuno Júdice...

Cordialmente

Laura disse...

De um dos meus poetas preferidos;)

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?


(David Mourão-Ferreira)
(O Natal)

cabecinhapensadora disse...

Somos todos dos que precisam de Poesia. E com ela, de mar. Para quem Jesus é o Menino que Pessoa levava ao colo para casa e aconchegava no tal ritual todo materno. Sendo verdade que, no fim do poema, é ele, Pessoa, que pede colo.

PILAR disse...

Soube muito bem ler !

Obrigada por partilhar!

a saber disse...

este texto fez-me lembrar Les mots de Jean-Paul Sartre.não gosto de comparar mas sim de lembrar.

Xelim's Skull disse...

ó professor Julinho, agora que você redescobriu o filão Maria está um amor-agarradinho... e sempre se pode babar um bocado... e ainda se diz agnóstico...

quanto à poesia, há várias formas de poesia...

Uma vez vi uma reportagem, sobre uma sexóloga - não sei qual era a formação dela -, ajudava casais com problemas...

Então num casal trintão/quarentão parece que o marido não tem prazer suficiente... A médica dá umas explicações e depois acompanha o casal enquanto eles têm as relações, suponho que seja para dar algumas orientações. Ora acontece que o casal está nu, e, para ficarem mais à vontade, a "médica" também se despe. A médica é um bocado mais velha. Então a médica dá umas explicações: para o homem gozar tem de abrir bem os olhos quando estiver prestes a ejacular e contrair uns músculos ali em baixo - não sei o nome -, de modo a conter a ejaculação. E fazendo isto supõe-se que ele tem múltiplos orgasmos. E assim a "médica" resolveu com "sucesso" o problema do casal.

Conclusão. Parece-me que não resolveu nada. Criou mais a ideia de ter resolvido, e como o casal se queria acreditar na ideia, tipo, efeito placebo... pura poesia...

anfitrite disse...

Skull, por tanta ternura, acho que vale a pena ler o livro com as crónicas de Arnaldo Jabor "Amor é Prosa, Sexo é Poesia" distribuido por ASA, Editores.
É bom para começar o ano bem disposto.
Assim esquecemos os vivos nado-mortos, e os mortos-vivos que estão entre nós e os que queriam continuar vivos, mas caiem aos milhares, a cada segundo, a maioria sem saber porquê.


Desculpe professor mas as cartas à "Maria" não comento, porque não tenho capacidade para tanto, e acho que há aí uma mistura de identidades. Além disso, de puta já virou quase santa, será que tem a ver com a Maria Madalena?

cdgabinete disse...

Professor, espero que o novo ano chegue repleto de momentos felizes e ja agora (para satisfação do maralhal) de posts deste calibre :o)

IsaMar disse...

simplesmente belo este seu texto. Tocou-me o coração e obrigado por isso.

isamar

CêTê disse...

Para todos (e em especial para o Professor) um EXCELENTE ANO 2009~
Tudo o que mais desejarem se concretize neste ano que se aproxima.
bjnhs

mariam disse...

Júlio,
~ magnificat ~

um Fantástico 2009! lhe desejo.

um abraço e o meu sorriso :)
mariam

Camarada Choco disse...

Divulgação

Onde estavam os adolescentes de Paço de Arcos no 25 de Abril? Os que agora tomam decisões?

“Na Terra do Comandante Guélas”

António Miguel Miranda
Papiro Editora

Papelaria “Bulhosa” Oeiras Parque, Papelarias “Bulhosa”, FNAC ou www.livrosnet.com

Filmes de Apresentação no “Youtube” em “Comandante Guélas”

Olhar disse...

Desejo tudo de bom para todas as pessoas que por aqui andaram ao longo deste ano, presentes e ausentes ;), a todas!, e especialmente a si, Professor, obrigado pela companhia.

Agora reparo..., caramba!, que mãos largas tenho...:)))

Bom...

Até para o ano.:)

Julio Machado Vaz disse...

Anfititre,
Seguramente não fui claro nalguns posts. Asseguro-lhe que nunca "pintei" uma imagem de prostituta ou de Madalena (arrependida ou não...). Perdoe a falta de jeito.

Teófilo M. disse...

Bom Novo Ano professor!

Traga a Maria também...

Su disse...

li..............imaginei...........
lembrei..............recordei............vivi............revivi
ops tempos em circulos dentro de mim

jocas maradas .......feliz ano

anfitrite disse...

Professor,
Por mais que eu lhe "bata", continua sempre a pedir perdão por culpas que não tem. A mim e aos outros. Nunca devemos pedir perdão por aquilo que fazemos com boa intenção. Se fosse assim eu teria de andar de joelhos toda a vida.Também é verdade que sou uma reles desconhecida, mas apesar de falar como falo nunca quis magoar ninguém. É a minha maneira de alertar consciências. Cada um pensa que tem a sua missão.A incapacidade é dos outros que não entendem.
Mas que a Maria já andou por hotéis mal afamados, lá isso é verdade!
E, para o meu gosto, é uma sensaboria ter uma santa sentada ao nosso lado.
Já agora, faço-lhe uma confissão: O "ULISSES" é considerada uma grande obra, mas sabe que eu nunca fui capaz de acabar de lê-la?! E apesar de no outro dia o senhor ter citado aqui Joyce, eu não me importo de dizer a verdade.
Agora sou eu que peço desculpa pela minha franqueza, (porque acho que não fiz mal nenhum) mas sabe que me dá raiva aqueles que se afastam às arrecuas e a fazer vénias!
E cito Gabriel Garcia Marquez(este sim, meu querido também) "Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se".

As pancadas da vida e a falta de berço fizeram-me assim.

6ºC disse...

Gostaria que visse no meu blog, o que por vezes sentem algumas Marias que já cá não estão...

Guidinha Pinto disse...

Linda esta descrição de Família Professor. Presente e ausente. Continue por muitos e bons anos a transmitir-nos esses afectos.
Feliz 2009.

Teresa Queiroz disse...

emocionante....melancólico...e sei lá que mais ...:)