terça-feira, agosto 17, 2010

Bloqueio.

Amarfanhou a página e e ofereceu-a à lareira. As palavras interrogaram-no - doridas; silenciosas; por escrever. Murmurou - "não consigo, prefiro o silêncio a ofender-vos". E elas partiram, em busca de quem conseguisse fazê-las dançar. Ficaram as lágrimas, por definição clandestinas em discurso macho, logo, sem nada a perder. E que não precisam da escrita, apenas da solidão, para verem a luz do dia...

10 comentários:

Beguinha disse...

As palavras que ficam por escrever, aquelas que quase se recusam a passar para dentro das frases, são as que mais doem...

É um prazer lê-lo e ouvi-lo.

Caidê disse...

Poética esta intenção levada a bom rumo de conter as palavras ainda que só as escritas numa folha branca sem destino - só para não magoar!
Deitadas à lareira, pensadas só em surdina, ruminam agora num crépito entardecer, esperando por nova aurora, e boa alvorada.
Sou solidária com essa folha de papel virtual.

Lipincot Surley disse...

Palavras conitdas e enclausuradas? Há alturas assim. Em que escrever se torna difícil, e apesar de os dedos começarem com um verdadeiro tremor de intenção, à procura de uma tecla para bater, apenas se conseguem encostar a elas deliciando-se com a sua textura quente e o brilho dos ecrãs.

Prazer relê-lo Professor.

Abraço

andorinha disse...

Lindo!

Só não sei se as palavras partiram ou se ficaram tranquilamente a fazer-lhe companhia em silênco.
Acho que as palavras sabem a quem devem ser fieis:)

Ana G disse...

Prof. Júlio, sou aquela pessoa persistente (chata é forte demais) que o massacrou com um tal ph.d em sexualidade dos lesionados medulares há uns tempos atrás... preciso tanto de lhe enviar um e-mail, porém com a utilização que presume já vou no terceiro pc e perdi tudo entretanto... será que pode enviar o seu e-mail para meialaranja @ hotmail . com? Desta vez não é para insistir numa coisa que já sei que não quer :)) Obrigada e um abraço

Bartolomeu disse...

Ah... esse conjunto eclético de letras
que povoa opressivo a folha nua,
exprime tanto de erudito como de tretas
Faz voar pelo mundo, a minha ideia e a tua

Ah... esse conjuntinho, bailarino
fonético, onomatopeico, equilibrado
umas vezes circunspecto, outras rabino
umas vezes poético, outras... endiabrado

esse conjuntinho que usamos para expressar
a paixão, a raiva, a inexpressão
o que nos vai n'alma, o despertar
Um amor, uma tortura... a inexactidão!

Conclusão... continuamos seres incompletos, esperando um dia, cumprir-nos...

Jorge Manuel Brasil Mesquita disse...

As palavras inscritas na solidão dos silèncios são os melhores bafos de clandestinidade, porque não se lhes vêem os discurso das lágrimas. Chorando ou não chorando no crepitar das lareiras, há palavras que ficam bem alimentando fogos do silêncio que é uma forma de respeito para tem a felicidade de não as ouvir. Paz à sua alma!
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 18/08/2010

Canseiroso disse...

«E elas partiram, (as palavras) em busca de quem conseguisse fazê-las dançar»

Não aceito que alguma dessas palavras tenha vindo ter comigo depois de usada.
Quanta apologia encarnada em cada ser, que delas (das palavras) resultou, não fez de cada pessoa um deus, mesmo moribundo?
E ser um deus em si, é ser gastador de palavras, que jamais poderão ser usadas, muito menos dançadas.

Cê_Tê ;) disse...

Muito bonito, ainda que triste... ;X

alvex disse...

Este pedaço está muito bem escrito.