quinta-feira, novembro 13, 2014

Aviso às tropas.

Gente,

Continua a haver temas que me sinto mais confortável a abordar no Murcon. Não gostaria que houvesse dúvidas sobre este livro - é o menos "polido" de todos os que publiquei, uma espécie de concerto ao vivo sem pós-produção. Há repetições, incoerências, obsessões, pontas soltas, veredas artificialmente fechadas. Na realidade, 90% - pelo menos... - dos textos não levaram mais de dez minutos a escrever. Aquando da revisão fiquei aterrorizado, os meus traços obsessivos empurravam-me para quase os escrever de novo, mas, por outro lado, quem me pediu a publicação referia-se aos que tinham jorrado em bruto de noites exaustas ou manhãs assustadas. Acresce que o Francisco Vale me fez notar o óbvio - se demorasse mais tempo, os textos escritos em Barcelona transformar-se-iam num romance, o que não estava previsto e implicaria o atraso da publicação. Se Vinte Anos Depois foi um "simples" hino à amizade que nos une e à recordação do Zé Gabriel, o Era uma Vez um Professor e as Cartas são pesos que acarreto na consciência, precisava de os ver no papel para apaziguar as duas facetas da minha vida - a profissional e a afectiva. Está feito. Num, espero ter provado aos meus netos que dialoguei com os meus alunos sobre temas que extravasavam o sexo e a toxicodependência; noutro, ruminei sobre minha Mãe, a tribo e o amor impossível - logo, perfeito! - que gostaria de ter vivido em Montségur há setecentos anos atrás. Não por amor a Deus, mas por amor ao amor:).

10 comentários:

andorinha disse...

Não sei que dizer...não esperava vir encontrar aqui este texto...


Não precisa de dar justificações sobre o livro. É o menos "polido"?
Nós cá estaremos para o julgar:))))))
Mas isso, para mim, é positivo,não gosto de demasiado "polimento" sobretudo num livro deste género.

Repetições? Incoerências? Pontas soltas?
Tudo o que é humano, não é?
É assim que gosto de si.

Ansiosa por ter o livro na mão, folheá-lo, descobrir-lhe as incoerências ( :)))))) ), sublinhar passagens inteiras
Saborear como sempre saboreei e emocionar-me...

Queria dizer qualquer coisa sobre o "apaziguamento" mas acho que estoirei. Talvez amanhã...

Obrigada por ser como é e por partilhar tanto de si connosco.

Beijo grato.

rainbow disse...


Bom dia:)

Ao ler este post, dou comigo a constatar um defeito que tenho: a dificuldade em aceitar a incoerência, até em mim própria.
Sobre amores impossíveis, questiono-me sobre o facto de haver pessoas que amam mais o amor e menos as pessoas (ou a pessoa).
Isto não é de modo nenhum uma crítica, até porque também eu sou um pouco "ruminante":)
Mas não seria um grande acto de Amor "atirarmo-nos" para a vida, sem rede?

Com todo o carinho e admiração, Parabéns pelo livro:)

AQUILES disse...

JMV
Aprecio imenso um autor que tem a capacidade de ver a sua obra. E, mais, de ser sincero sobre a sua visão.
O polir só acrescentaria mais uma virgula, suprimiria uma frase, sincoparia um parágrafo. Mas engelhava o genuíno. Que prefiro sempre.E assim penso.

AQUILES disse...

Elegia em memória de Dom Fernando de Mascarenhas, Marquês da Fronteira e Conde da Torre

A memória de ti começa
no Palácio Fronteira cercado pela polícia de choque:
ao megafone, o ministro dava-nos quinze minutos para sair
e nós subversivos, nós clandestinos,
teus convidados,
hóspedes do mais autêntico aristocrata que tivémos,
nós a decidir em inflamada assembleia
se sair ou não.

Sim, nós estávamos habituados às cargas
policiais e fugir à polícia era a nossa arte,
que cada um praticava à sua guisa.
Por isso os inflamados não queriam sair.
Aí vieste tu, o mais nobre dos anfitriões.

Pegaste no microfone
e disseste que a decisão era nossa,
mas que os azulejos daquele jardim, as estátuas
e cada muro e cada janela
eram o património do que temos de História
e de tudo o que podemos levantar com orgulho
face aos mastins de cada dia.

Saímos um por um.
O ministro ria, dentro do carro.
Os polícias seguravam os cães.
Lembro-me de seguir uma rapariga bonita,
representante da classe operária,
por aquelas ruas de S. Domingos de Benfica.
Mas fui tímido e não fui capaz de dirigir a minha voz
à classe operária.
Perdi-me da rapariga
e talvez também da classe operária.
Mas não de ti, meu Amigo.

Recebias em tua casa
os poetas, os versos e as musas:
e o olhar de Alcipe a seguir-nos à saída
da casa de jantar,
divertida por certo com a diversidade
dos gostos e dos engenhos,
trazia a ironia da tradição
ao nosso bulício pós - moderno.

Também te recebi em S. Clemente *,
aonde os teus imensos amigos brasileiros
acorriam para te visitar,
gratos pela fidalga (é a palavra certa) hospitalidade
que lhes foste dando por Lisboa, anos corridos.
Mas também te recordo, naqueles anos de internet primitiva,
à espera, paciente como ave, que o meu filho saísse do computador
para tu lhe poderes chegar.

Meu Amigo, de ti aqui só dou memórias esparsas.
Mas quem ler os teus sermões
aprenderá alguma coisa da nobreza de carácter.
Aprenderá até que (ó maior das surpresas!)
ela pode existir.
E ter o teu nome.


*Palácio de S. Clemente, Residência do Cônsul-Geral no Rio de Janeiro
Publicado no blogue Tim Tim no Tibet, em 12.11.2014

perhaps disse...

O senhor professor vai para algum lado a correr muito?! É que não entendi se são dois ou três livros de enfiada. Mesmo que sejam só dois, li um e seria pena que não se tornasse público o que foi de àmbito restrito.
Ah! a eterna insatisfação dos autores...

murcon disse...

Perhaps,

O que aconteceu foi que eu tinha pensado escrever uma ou duas cartas em Barcelona e acabei com 50 páginas de apontamentos, o que não surpreende, adoro a cidade:)))). Abraço.

andorinha disse...

"Mas não seria um grande acto de Amor "atirarmo-nos" para a vida, sem rede?"

Não sei, Rainbow. Fazes cada pergunta difícil...:)))
Por vezes pode ser um acto suicidário, outras vezes não...
E quem tem vertigens, como faz?:)))
Estou a brincar...
Eu diria 'arriscar' com conta, peso e medida, seja lá isso o que for...:)


Aquiles,

Penso exactamente como tu!
"Polir" ia tirar grande parte do encanto.


Júlio,

Agora é murcon?
Começo a ficar baralhada com tantos nicks...lol





"Quem se aproxima da Igreja deve encontrar portas abertas e não fiscais da fé!"

Este Papa é o meu ídolo!:)

Anfitrite disse...

Por amor a Deus ou por amor ao amor é a mesma coisa. Somos todos agnósticos.

Interessada disse...

Pois eu acho que o Júlio dança mesmo sem rede. E faz bem.
Do fundo do coração lhe desejo que se apazigue. Um grande abraço.

perhaps disse...

:))

Agora tenho de ler, pronto; quando receba a semanada.