segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Eastwood

Million dollars baby é deslumbrante! Ainda mais "ascético" do que Mystic River, um exercício de recusa absoluta do acessório, tornado desnecessário por três interpretações fabulosas e um argumento brilhante. Brilhante e não fracturante!, como se gosta de dizer cá no burgo... Fracturante porquê, de facto? Por existirem opiniões divergentes? Também eu recuaria perante a morte assistida, se considerasse a vida uma entidade generosamente propiciada a cada um de nós por Deus. Não considero. A Vida não existe, mas sim as nossas vidas. E a morte faz parte delas. Podendo inclusivamente "estragá-las", se lhes retirar a dignidade que constitui a coluna vertebral da existência. E nesse caso aceito sem rebuço que alguém, de uma forma lúcida, decida partir. Para preservar o que viveu, não se resignando a simplesmente sobreviver, de forma vegetativa.
Mas voltemos a Eastwood. Um famoso cirurgião gabou-se uma vez de nunca ter encontrado a alma na ponta do seu bisturi. Pois o velho Clint, a partir de Imperdoável, não a deixa escapar à câmara. E sem filtros de qualquer espécie...

8 comentários:

Anónimo disse...

Para além do que diz, há ainda o amor latente... tão bem deixado numa margem principal, não decifrado, indiscutível e com tantas faces...

Ginja disse...

No domingo tive oportunidade de ouvir na rádio a sua conversa com António Macedo, onde com o tema dos Óscares como pano de fundo, desenvolveu entre outros assuntos, o aborto e a eutanásia. Muitíssimo interessante e esclarecedor. Quando pensava que já conhecia e tinha ouvido tudo sobre isso, eis que outra perspectiva, a sua, vem acrescentar uma visão mais abrangente e profunda. Apesar de ser a favor de ambas as situações, para mim, a expessão "direito à vida" ganhou um outro sentido; é realmente um termo q é usado com alguma redução. Quem opta pela eutanásia tem o seu direito à vida, ou seja, à sua QUALIDADE de vida. Se ela não existe é perfeitamente compreensível que queira colocar um ponto final na sua existência (existência e não vida). Inaceitável é obrigar alguém a assistir à sua degradação e obrigar os que o amam a guardar essa imagem para sempre.

JSA disse...

Caro amigo, foi antes de Unforgiven, tudo começou com o Play Misty for me e apresentou um primeiro auge com o Bird. Até mesmo o Pale Rider mostrava essa alma.

Clara disse...

Acabei de chegar do cinema, ainda venho pensando no que vi no que senti, no que observei... Cheguei a casa e o meu namorado telefonou a falar-me no seu blog, corri para o computador, e quando comecei a ler deparo-me com o nome Million Dollars Baby... Volto a pensar no filme... Às vezeshá filmes que nos abanam por dentro que parecem muito claros mas que continuam em busca de um sentido... estes são os melhores.

Anónimo disse...

Costumo perguntar-me como pode alguém arrogar-se o direito de condenar a eutanásia (e o direito de se ser pai/mãe por intervenção médica) enquanto (esse alguém) aceitar a intervenção médica de ressuscitação e, quantas vezes, de prolongamento de sofrimento. Sem estas, assistiríamos a agonias de pacientes a quem dp é negada a dignidade em nome da vida? (Qual?)

Caínha disse...

Só ontem fui ver o filme. Claro que não levava mente virgem porque já tinha ouvido falar do mesmo.
Um dos aspectos que me tocou, não tanto durante o filme, mas depois, naquele tempo de impacto e de reflexão, foi a força de alguém que não aceita o destino, que contesta, que pergunta, que luta. E esse força, essa atitude, que geralmente admiro nos que me rodeiam, no filme é levada ao extremo, quando alguém, que de si controla apenas mente e cabeça, mesmo assim, toma a sua vida "nas suas mãos" e trinca a língua buscando o fim.
Quantas vezes nos deixamos abater face ao destino, pensando que não temos armas, que não temos força, que a adversidade nos levou a melhor, nos deixamos conduzir...

pachita disse...

Devo ser das poucas pessoas que não gostou do Million Dollar Baby. Não gostei mesmo. Quando comecei a ver o filme vi logo qual seria o fim. Pareceu-me uma história já muito contada, sem originalidade. Vou contra todas as opiniões que foram ditas sobre este filme, mas, sinceramente, não gostei nada do filme. Nem sequer as interpretações, a meu ver, mereciam os óscares.
Já o tema da eutanásia dá pano para mangas...

Kevin O'Brian disse...

O tema do filme é de veras uma questão interessante, e disso não restam dúvidas. Pelo contrário, várias dúvidas oferece a questão, muita polémica suscita e muitos argumentos contrapõe. Acho muito estranho ter-se a convicção de que a eutanásia devia ser permitida por lei, e admitida sem repulsa. Sendo uma questão de enorme complexidade consigo talves pender mais para uma posição do que para outra, mas não consigo pensar que a posição que dependo é a posição que se devia adoptar perante o problema. É um campo que não me oferece convicções.
Pendo mais para a opinião de que talves a eutanásia devia ser permitida. Penso que uma pessoa que de um momento para o outro é condenada a ficar numa cama para sempre, pode optar sem reflectir o necessário pela morte, e esquecer que ainda existem coisas boas na vida, como ver os filhos crescerem, etc.
Por outro lado, muito me apreende o facto de pensar que um dia um familiar meu próximo poderia optar pela eutanásia. Não seria fácil aceitar tal escolha. Provavelmente sentiria que aquela pessoa tinha abdicado de estar comigo o resto da vida, e ao mesmo tempo me tinha privado de ficar com ela, para o resto da vida.
Por último, sem sombra de dúvida que as partes mais bonitas da minha vida são-me dadas pelo contacto com as outras pessoas, nomeadamente as que me são mais próximas. Penso que ia ter prazer em viver ainda em tais condições, mesmo tendo necessidade de auxilio para tudo.
Como disse, no entanto, não consigo ter uma posição firme quanto a este assunto...
E... Só para finalizar... gostava de lembrar que os filmes americanos não são os únicos a terem qualidade. Melhor que este filme é o Mar Adentro. Esse sim merecia um Óscar, pelo menos...