domingo, abril 22, 2012

Ensino pós-graduado.

O médico estranhou-lhe o silêncio e interrompeu-o,
- Bom, estamos então combinados. Assim que as análises de rotina estiverem prontas marcamos a operação.
Havia uma candura envergonhada naquele olhar...
- Desculpe, doutor, mas não.
Algo crispado, quase ofendido,
- Talvez não me tenha explicado bem. Se não operarmos...
Com um sorriso doce,
- Pelo contrário, doutor, foi cristalino. Mas eu não quero.
(Isto dos direitos dos doentes virou a profissão de pernas para o ar:().
- Prefere morrer?
Como o sorriso...
- Não, prefiro estar vivo até morrer. E ser recordado assim pelos que amo.
Viu-o sair, pensativo. "Estar vivo até morrer...". Não o tinham preparado para tal exigência na Faculdade.

75 comentários:

CF disse...

Mas deviam tê-lo feito, não lhe parece?

Julio Machado Vaz disse...

Sem dúvida:(.

pedro disse...

Operações compulsivas?! Consultas compulsivas?! Tratamentos compulsivos?!

Entendo quem prefira ser preso a lhe ser dado o estatuto de inimputável!

Tudo tem limites e a nossa liberdade acaba, quando a do outro começa.

"estar vivo até morrer!". É assim que andamos todos.

Prof. Julio machado Vaz! Cada dia o entendo menos:(

Impio Blasfemo disse...

Na família era tratado pelo Tio Fernando. Na juventude fez todos os desvarios e como resultado o corpo pagou uma pesada factura. Fígado e pâncreas, uma verdadeira desgraça, rins, outra igual. A acrescer às maleitas era diabético e em último grau e os médicos dificilmente lhe acertavam com o cocktail de insulinas que tinha de tomar. Medir açucares após as refeições raramente o fazia, limitava-se a dar a picada e a injectar a dose habitual. Açucares sempre no alto pois tinha medo das hipoglicémias como o diabo da cruz. Vivia sozinho e a vizinha de baixo que o vigiava atentamente salvou-lhe a vida várias vezes; as tais hipoglicémias batia-lhe à porta frequentemente.
Um primo chegado é médico e visitava-o frequentemente. A frase habitual era “Fernando; tens de deixar de fumar pá. Essa porcaria é um veneno para ti Aperta-te as veias e um belo dia vais à faca, num pé numa perna, no que for…”. O tio Fernando fazia orelhas de mercador e o tal dia chegou, uma perna amputada pelo joelho, a direita pelo sinal. Depois seguiu-se um longo período de adaptação, não falarei sobre isso.
Um belo dia o amor bateu-lhe á porta e todo ele sorriu e se aprontou; parecia outro; a vida finalmente sorriu-lhe e foi bastante feliz. Ela dizia-lhe terna “deixa de fumar, tenta fumar menos, isso faz-te tão mal…” e ele, com um sorriso nos lábios lá ia reduzindo a doze diária de cigarros que fumava. E foram felizes um bom par de anos até que uma manhã ele não acordou mais; faleceu com um sorriso nos lábios, estava tranquilo, com as mãos debaixo de cara, como costumava dormir.
Conclusão, pois vá lá saber-se, à priori, qual a opção de um doente, uns preferem ser operados como o Tio Fernando e esperar que a felicidade lhes bata à porta, outros preferem morrer como estão e viver até lá. Cada caso é um caso diferente.

Abraços
Ímpio

pedro disse...

Subscrevo o Impio,

Em relação á obrigação de ser tratado só entendo quando se trata de doenças infetocontagiosas ou quando terceiros são vitimas diretas da pessoa em causa.

Prof Julio Machada Vaz,

Tinha 100 anos pela frente para estudar, elucidar e debater se não tivesse a tendência para o lado trágico e romântico da medicina. Felizmente o sorriso ou a postura já não são suficientes. Precisamos de informação concreta e deixar quem está sem forças para se levantar dos joelhos tomar a decisão.
Podia nos encher com dados e estudos de DST. Mais gente se juntava ao grupo e sempre fazia alguma sexologia.

Maria disse...

Pois é Doutor:
É uma frase que deviam ensinar aos médicos.
" prefiro estar vivo até morrer. E ser recordado assim pelos que amo."
Gostei da frase. Definiu bem, aquilo que quero.
Maria

Cê_Tê ;) disse...

Morre-se de várias maneiras.Mas morre-se, sempre, só.

Em relação ao post...
Quando a morte se anuncia todos deveriam ter direito a poder decidir não ter sofrimento físico e/ou psicólgico. Serem livres de usar as dogras qe quisessem- com orientação médica. Porque há tratamentos que matam antes da morte chegar e que não me admiro nada que possam ser mais violentos que ela.

rainbow disse...

Bom dia:)

O post levanta uma questão que tenho colocado a mim mesma. Se um dia, na eventualidade dum cenário semelhante, não faria a mesma escolha.

Bea e Anfi,

Não dá para entender esta gente que nunca quis provar perceves. Quase que dá vontade de vos convidar para jantar e pôr-vos um prato de perceves à frente:))

Ímpio e Pedro

http://www.youtube.com/watch?v=McmSkTQamLU

Andorinha,

We miss you, girl:)

E agora vou ver o mar. Enquanto estou viva.

Um bom domingo para todos

http://www.youtube.com/watch?v=RGZfJYOQ8O8

pedro disse...

Rain,

Em relação ás Percebes. Quando as apanhava, gosta mais de as apanhar do que de comer (debaixo de água e se forem grandes, abrem ligeiramente e consegue-se ver um tipo de branquias que filtram a água para se alimentar. É muito bonito de ver/não só de comer). Há um restaurante que lhe chama: "understands" mas também traduziu Manga para: "sleeve".

E a Andorinha não anda fugida. Agora é que chegaram as suas amigas e tem menos tempo para opinar. Hoje vi duas, logo pela manhã. Secalhar a Andorinha era uma delas:)

pedro disse...

Cê_Tê ;)

Por outras palavras: "Se não se morre da doença, morre-se da cura"

Como o Prof. Julio Machado Vaz disse no ultimo almoço do Murcon, na Mindinha:
"É muito complicado".

(...)

bea disse...

BOM DIA!!!

Quanto ao post:

sim, a cada um devia ser deixado o direito de poder morrer como deseja,Os avanços da medicina em alguns casos propiciam execráveis prolongamentos de inferno.

E todos sabemos e nem é só pela proibição da eutanásia que isso não é possível. Todos nós queremos estar vivos até morrer. Ser lembrados no antes da transmutação do sofrimento (mas é mesmo assim que os outros nos vão guardar, a memória sabe o que faz). Mas como o consegue quem diz não? Como impede a dor e a decadência que já estão de pé? qual é no fundo o desejo deste homem que rejeita uma operação não sabemos a quê? é incógnita a sua solução, conhecemos apenas a que ele não quer. pode dar um tiro na cabeça, tomar uma dose letal de comprimidos, desaparecer do mapa...ou ficará na mesma à mercê das intempéries da dor que é sua e dos outros.

pedro disse...

Eu só não me quero lembrar do momento em que morri:

Dead Can Dance "Yulunga" 2005 HD

http://youtu.be/2ZpXPwmbQvc

Impio Blasfemo disse...

RAINBOW

Percebi que gosta de Percebes. Percebi que gosta da Praia da Carrapateira. Estamos em sintónio, adoro percebes e gosto muito da Carrapateira. Tempos houve que oscilava deambulei bastante entre a Praia do Martinhal, em Sagres, e a da Carrapateira, na Costa Oeste, acima de Vila do Bispo; dependia do vento e das ondas. Já lá vão anos.....

Abraço
Ímpio

bea disse...

Rain

isso não se faz. Eu gosto muito de comer e parecia-me mal. Pronto comia assim as entradas que não fossem pão com manteiga. Mas afinal é percebes ou perceves? ou as duas formas? ai.

Rain, nós não sabemos o que escolhe; apenas o que não. E neste caso cada uma das hipóteses não é só uma :)
Sou voluntária para a prática da eutanásia em alguém de quem eu goste e que mo peça com razões. E em mim mesma caso me sejam postos os meios à mão se não me puder mexer. Abreviar o fim não é não gostar de viver. Estar em sofrimento intolerável à custa de um coração que não pára por ser apenas um músculo estúpidamente resistente é que me parece um descalabro atentatório da dignidade de cada um.

E agora, como não posso ver o mar, vou pensar no 25 de Abril, cantar a gaivota, e o "é uma onda contra amuralha é o grito de quem trabalha e por amor não desiste" da Ermelinda Duarte, que por acaso não sei quem era mas cantava com entusiasmo, e rever os meus estatutos, varrê-los como usava Le Petit Prince com o seu vulcão de algibeira e a sua flor. Temos de tratar das coisas - e ainda mais das pessoas - de que gostamos.

Então, Com licença.

Pedro, tu não te armes em palerma com a Anphy, com isso de simpatias e assim, que ela é uma querida e tem muita doença e eu gosto dela nem sei porquê, mas não faz mal que a gente não tem que saber tudo, nem lá para o pé. E o mais importante é o que não se sabe.

desculpem esta nota de rodapé.

EvVou-me embora que a minha flor está a ficar amuada e o vulcão não sei bem mas está a fazer umas bolhinhas suspeitas.

pedro disse...

Bea,

Como "gosta" de Água:

http://youtu.be/qXMeMOkNAXQ

E "Gato escaldado, de água fria tem medo"

Não fuja! Porque a maior parte do ar que respiramos vem dos oceanos. Se é um vulcão?!: Acho que não! Apenas cianobactérias!

Impio Blasfemo disse...

RAINBOW

Percebi que o tema do posto é o que se aborda num excelente filme que vi há uns anos (em 2003, salvo erro) e que dá pelo título de INVASÕES BÁRBARAS
http://www.interfilmes.com/filme_12328_as.invasoes.barbaras.html

Quando abordei O Martinhal e a Carrapateira, fazia-o no contexto da minha passada experiência de Windsurf. A mesma pessoa e a sua pequenez face ao domínio das condições do vento e das ondas. Tal como no filme, a decisão é sempre nossa; se vamos para o Martinhal, se vamos para a Carrapateira, falo em jeito de metáfora, como é óbvio.

Um abraço

Ímpio

Interessada disse...

http://www.youtube.com/watch?v=H8zyMnzJ8BY

Interessada disse...

http://www.youtube.com/watch?v=pWQqUCWS0Tc

http://www.youtube.com/watch?v=OCIpzq1zQmI

rainbow disse...

Boa tarde:)

Pedro,

Apanhavas perceves? Que corajoso!
E essa do restaurante lhe dar o "nick" de understands é curioso:)

Ímpio,

Pois é, adoro toda aquela zona da costa vicentina, desde Sagres, Carrapateira, Aljezur. E também a costa alentejana. São praias lindíssimas.
E os perceves na Vila do Bispo. Vou tentar descobrir esse filme "As invasões bárbaras", obrigada pelo link.
Não vi o filme mas percebi a metáfora. As decisões são sempre nossas, por vezes difíceis de tomar.
Abraço.

Bea,

Pode dizer-se das duas maneiras: perceves ou percebes. Prefiro a primeira, para não se confundir com o verbo:)

"Rain, nós não sabemos o que escolhe; apenas o que não..."

Sim, entre duas opções, rejeitamos uma delas, e a que escolhemos leva-nos a um caminho desconhecido.
Mas a vida é uma aventura até ao fim.

rainbow disse...

Interessada,

Obrigada pelo trailer do filme.
Não vou deixar de o ver.

pedro disse...

Rain,

Apanhava Perceves mas nada como se vê aqui na net. Era só nas melhores marés e com a maré basa. Nada corajoso. Alguma coragem ou calma é precisa para apanhar "navalheiras". É o nome que aqui se dá a um crangueijo pequeno mas como o nome indica se te apanha um dedo, é para fazer sangue e esgotares todos os palavrões.

Como quem se lixa é o mexilhão. Este deve ser o marisco mais á mão e passados por água doce para tirar a água do mar, cozidos em azeite, alho e no final coentros. Com umas sopas no molho que largam, faz uma refeição. Tudo o mais natural possivel e sem arriscar o pêlo.

mc disse...

"Não o tinham preparado para tal exigência na Faculdade."

"Exigência" é a palavra escolhida por si e, certamente, não é inocente. De facto, para estas "exigências" nenhum curso superior ensina. Só a sensibilidade. E essa é a de cada um.
Não pude deixar de me lembrar do caso do galego Ramon Sampedro, tão bem reproduzido no filme "Mar Adentro" e na controversa questão da dignidade da morte.
"Estar vivo até morrer", "ter uma morte digna" são questões muito exigentes, não?

andorinha disse...

Boa tarde:)

Não ando fugida, malta, ando com problemas com a net. Espero amanhã ou depois ter a net em condições para poder tagarelar convosco como sempre.
Para já são só pequenas escapadelas...


Excelente post, Júlio:)
O doente como sujeito também e com capacidade de decisão.

Rainbow,

Obrigada pela lembrança:)
Também tenho saudades...

Pedrinho:)

Com que então fugi com as amigas?
E acaso eu sou dessas?
Por umas amigas troco outros/as?
Jamé:)

Nunca vos largo, gente, estaindes sempre no meu coração.

Impio(10.04)

Morrer sem vícios, cheio de saúde deve ser uma imensa sensaboria...para além de um desperdício total da vida...

Inté...

bea disse...

Interessada

é claro que cusquei outras coisas e acabei na Françoise Hardy a cantar L'amitié :) é bonita e mt disponível a canção - e a garota tem quid. Talvez deva ser assim na amizade. não sei. tal disponibilidade parece-me ideal “amigos que vêm e vão para as nuvens, e são aves migradoras…” lembra-me o poema de Eugénio de Andrade que tenho sempre em frente dos olhos a ver se consigo ser menos egoísta e possessiva nas minhas amizades, “os amigos amei despido de ternura fatigada uns iam outros vinham a nenhum perguntei porque partia porque ficava…”. Mas até hoje o que consegui foi saber o poema de cor.

pedro disse...

Em relação á publicação do Prof. Julio Machado Vaz e sem detinguir atividades. Há muita batotice. E para quem desaprendeu a ler imagens e prefere meios mais sofisticados como a escrita. Deixo este link que seria desnecessário se nos preocupassemos mais em concretizar. Porque o que me sugere: se somos assim tão racionais, somos igualmente inconsequentes. E só de olhar para outros animais, que devem pensar melhor que nós. Ao verificar aquilo que fazem. Começo a duvidar da nossa capacidade de pensar.

"Pensar ou não pensar? Eis a questão!"

"Are more people getting safe drinking water?"

http://www.aljazeera.com/programmes/insidestory/2012/03/20123971528670749.html

Andorinha: um sorriso só para ti:)

Varela Pires disse...

...O tema que o Júlio - com este sucinto e elucidativo diálogo - nos propõe, nos deixa para reflexão é extremamente candente e oportuno para que se possa encarar de ânimo leve!... Se o observarem de per si, colocada a questão a qualquer um de nós, poderão verificar quão difícil é tomar uma decisão, se assim se pode chamar... Que, afinal, é um dilema de quase todos os dias na prática clínica, nesta luta entre a doença e o doente, com o médico e os outros profissionais de saúde pelo meio. Viver com se deseja é um direito. Morrer como se pretende é igualmente um direito. Informar é um dever. Ser informado o máximo que é possível, um direito igualmente. Porém, é sempre muito difícil na hora a verdade, na hora da notícia assim comunicada, sem se poder antever/visionarmos o "filme" do que nos vai suceder diariamente e daí para diante, o percurso com todos os seus particulares, todas as suas dores e desesperos, é sempre muito difícil e penoso cada um decidir em causa própria, decidir o seu próprio caminho. Um assunto sério demais para se levar de leve ou "passar por cima" fabricando alguma ironia. A vida é a Vida. E o é de cada um, enquanto cá estiver neste mundo!... Nas Faculdades - quaisquer que sejam - não se pode ensinar tudo!... E se se pudesse ensinar "tudo", que restava à Vida para nos ensinar?!... Afirmar que se quer "Estar vivo até morrer..." é trágico, mas um acto de grande coragem, de grande aposta no desconhecido, quase um tiro no escuro, se me permitem a expressão. Raros "post" terão tido tanto melindre, ser motivo para tanta reflexão e abordagem, como este! Como homem e como profissional, assim o considero.

Impio Blasfemo disse...

Caro Varela Pires

Mais não poderia estar de acordo consigo. O tema proposto não deve ser analisado de ânimo leve. Pela parte que me toca, a história do Tio Fernando é verdadeira embora o falecido Fernando não se chamasse Fernando, fiz reserva de nome; era um cunhado meu. No caso dele a opção era crucial:- deixar que a perna gangrenasse ou sobreviver! A decisão foi-lhe difícil como foi difícil a conversa entre ele e o médico que o operou. Posso-lho garantir pois acompanhei de perto a situação.
A minha mãe chamava-se Maria Manuela. Morreu em minha casa vítima de cancro nos pulmões, os melanomas invadiram-nos como se estivesse num S. João, esse foi aliás o termo da médica ("deu-se a largada dos balões" quando olhou para a chapa da radiografia; nada havia a fazer. Esperar a morte e esperar que ela não sofresse muito. Ela sabia-o e estava perfeitamente consciente do assunto. Bastantes vezes, um pouco ao jeito do Prof, JMV rumino coisas da minha vida com os meus botões mas não falo com a Maria mas sim com a Manuela , pois era assim que ela era chamada na família. Morreu-me nos braços, quando a tentava sentar na cadeira, senti o seu último suspiro, senti o sopro da morte, o som da morte. Acrescento-lhe que é um som cavo, que vem das entranhas. Ainda hoje esse som me ecoa nos ouvidos e na memória; ainda não saiu de lá!
Posso-lhe garantir que não tenho nenhum motivo nem razão particular para falar da vida e da morte de forma ligeira; antes pelo contrário, infelizmente!

Um abraço
Ímpio

Anfitrite disse...

Infelizmente é bem verdade. A maioria dos médicos só vê números nos entes que sofrem. Por isso não admira que muitos charlatães façam fortuna porque conseguem atingir as almas dos padecentes. Aos médicos é bem difícil arrancar uma palavra, quando a gente às vezes fica melhor só por ir à consulta.

P.S.-Vi ontem no jornal da noite,
a dar sangue, um homem com vitiligo. O repórter de imagem focou bem a mão enquanto ele a flectia.
Como se pensa que é uma doença auto-imune, possivelmente hereditária e que ainda não tem cura, é possivel esta pessoa dar sangue, no sentido útil do termo?

bea disse...

Vou só aligeirar com o que o Pedro sugeriu que víssemos e nem é leve. Sorry Ímpio e Varela

Olha Pedro, sinto-me sempre um pouco culpada – e também aliviada - por me bastar abrir uma torneira. Vou dar uma de Anphy, ainda que cada uma com seu tema:) Carreguei muita bilha ao quadril - nunca consegui um perfeito equilíbrio de cabeça apesar do tanto que tentei. Achava o máximo. Vocês divertiam-se de outra forma talvez, eu ia à água ao poço. Não tenhas dúvidas, no gosto, há um motivo de tudo ainda que nós o não encontremos ou nem precisemos. Primeiro olhava lá para dentro, receosa de alguém a boiar (as pessoas tinham o péssimo hábito de se atirar para dentro dos poços), depois deitava a corda e tinha que dominar a dança do fundo do balde sobre a água em círculos concêntricos para afastar as impurezas; uma espécie de histeria de pulso mas com peso e medida. De seguida fazia-se um movimento específico e o balde, de golpe, tombava sobre a água e enchia de repente, antes das impurezas voltarem ao lugar. Subia-se o balde a pulso a evitar o choque com as paredes do poço, “aposto que não bato vez nenhuma”, o eco fresco de pingos a estremecer o espelho da água. É certo que às vezes perdia tempo a aproximar o balde de gafanhotos e alfaiates desastrados que salvava e se o meu pai calhava de passar e nós na operação de resgate, “esta gaiata quanto mais velha mais maluca”.
Continuando: a seguir, coava-se a água do balde para a bilha de barro. E só depois eu armava em esperta, fazia o que se chama uma sogra, baixava-me um pouco e “ajuda-me lá a pôr a bilha à cabeça” neste entretanto começava a rir, a bilha bandeava, por norma entornava, molhava-me e tinha de voltar quase ao princípio. Nas poucas vezes em que a consegui trazer na posição certa – à cabeça – o serpentear do caminho estragava tudo, concentradíssima, não me desviava o suficiente, ou seria algum ramo a espreguiçar-se, e lá vinha o cântaro, quase meio, parar-me ao quadril. Azelhices que aconteciam ao lado do mundo dos outros. Não matavam.
Mas estas sim. Inadmissivelmente.

Anfitrite disse...

Impio,

Comecei por ler agora o teu último comentário. Começo sempre pelo fim. Será por isso que aminha vida anda sempre para trás? Tenho tido muita coragem. Mas não tive para ver a minha mãe acabar. Despedi-me dela antes disso. Pedi que me tratassem de tudo, e quem fachassem o caixão. Não disse nada a ninguém e estive com ela sozinha até à meia-noite, quando fechou a capela da casa mortuária.
Para mim ela continua viva e é a força dela que ainda me ajuda, e ainda sinto o beijo na testa, numa pela macia, mas febril e ela muito calma.

rainbow disse...

Ímpio,

Já vi parte do filme. Também não encaro este tema de ânimo leve.
Ainda muito jovem, assisti à morte do meu pai. E também já perdi a minha melhor amiga, a minha mãe.
A vida é breve, há que aproveitá-la enquando pudermos.
Porque, apesar de tudo, é bela e única.

http://www.youtube.com/watch?v=TlkSepPTLUc

Bons sonhos para todos

bea disse...

Pois. Bora dormir.

Anfitrite disse...

Bea:

Eu sou mais completa. Também fiz isso tudo. Deixar descer o balde com o baraço, não o o deixar flutuar, se não nunca mais enchia e só apanhava a babugem de cima. Tinha de ser aquele golpe certeiro de puxar para trás e emborcar para a frente, para encher de vez. Depois com um braço e o cotovelo apoiado no gargalo, com o outro ía-se levantando às braçadas.
E quando a corda se partia e se tinha de tentar agarrar o balde com uma fateixa, dó pelo sentido do tacto?
Também ceifei e até me didertia em abrir carreiros no meio da seara.

pedro disse...

Rain:)

Se a Vida é bela?!
Não sei!
Nunca a vi.
Mas se fôr bonita.
Até lhe pagava um café.
Ou uma dose de rapé.

Uma Boa Semana Para Todos.

pedro disse...

Como pela hora solar, ainda é domingo. Um bom resto de domingo. E deixo as palavras que me vieram ás mãos:

O pensamento não é livre.
A liberdade de pensar sim.
Leva-nos a desbravar.
Os caminhos que o corpo permite.
É como navegar sozinho em mar alto.
Não seguimos o caminho que queremos.
Mas aquele que o mar nos deixa traçar.

Impio Blasfemo disse...

Caro Varela Pires

“Porém, é sempre muito difícil na hora a verdade, na hora da notícia assim comunicada, sem se poder antever/visionarmos o "filme" do que nos vai suceder diariamente e daí para diante,----“(citei-o)
Pois na minha opinião, é exactamente sobre isto que o filme Invasões Bárbaras se centra e em redor aborda outras coisas. A interessada deixou um link sobre o filme. É este :- http://www.youtube.com/watch?v=H8zyMnzJ8BY
É descrito um drama de um doente terminal e, pelo meio, o confronto pessoal de ideologias no reencontro de um pai com o seu filho. Rémy é um professor universitário que está com uma doença terminal. Internado num hospital público espera a chegada do seu filho, Sébastien, que trabalha para uma empresa financeira em Londres.

Sebastian corre contra o tempo para que Rémy tenha um final digno. Não vou contar a história.
O grupo de amigos e parentes que passa os últimos dias com Rémy, é formado por professores, antigas amantes, a ex-mulher e um casal homossexual. Nestes encontros são de reter os diálogos da geração que acreditou nas mudanças e que agora convive com guerras preventivas em nome da paz. Para além da eutanásia, o filme aborda o extermínio das várias populações indígenas, a globalização, a discriminação das drogas e principalmente a permanência dos valores e a amizade entre pais e filhos. Vale a pena ver!

Abraço
Ímpio

Manuel disse...

Prof.

Os médicos deviam ser mais bem preparados para lidarem com os novos direitos dos doentes, que se vão impondo cada vez mais, como o direito a não tomarem a medicação depois de lerem os seus efeitos perversos nos folhetos das embalagens (direito maioritariamente exercido em silêncio, na intimidade das suas casas).
Tal como deviam ser mais bem preparados para lidarem com as novas realidades ambientais e ecológicas que afectam dramaticamente a nossa saúde, veja-se o vídeo que deixo abaixo.
Infelizmente são formados essencialmente para actuarem a jusante da manifestação da doença, acreditando piamente nos seus poderes de prescrição o nos poderes («mágicos») da medicação.
http://www.midwayfilm.com

bea disse...

Anphy
mau.É mais completa porquê? pensa que nunca fiquei com a corda na mão? A da fateixa até que tinha graça, primeiro tinhamos que a pedir a um vizinho e depois emborcava-me para dentro do poço com a segurança de que quem me agarrava pelos tornozelos colava mesmo. e andávamos que tempos a tato, à pesca da asa do balde. Nunca apoiei cotovelos porque apostava comigo que não tocava na parede do poço, as mãos revezavam-se em continuum.Sempre em baixo. Lembro-me que pagava não sei o quê de cada vez que o balde fosse à parede.Tinha três pares de olhos e às vezes quatro "não interessa tocou tocou". O que lhes prometia?talvez jogar ao mata. Ou contar uma história à noite. não sei

Falando bem nunca gostei muito de ceifar por causa das comichões, nuão entendo a felicidade dos namorados de cinema a acharem a palha dos estábulos boa, aquilo dá uma comichão desgraçada. E os estábulos cheiram mal, pronto. Não me podia divertir a ceifar; por ser a mais experiente depois tinha que vir ajudar quem ficava para trás. O nosso trabalho tinha inspeção, deixávamos tudo no ponto que tinha sido marcado e por vezes acabávamos e a lua alta. E depois havia ainda o jantar. Mas era engraçado porque isso de horários não me recordo de haver. Excepto para acordar.

Bartolomeu disse...

Direitos?
Convicções!
Estar vivo, para quê?
Que pode hoje, construir um vivo?Que objectivos de vida tem hoje, um vivo?
A sociedade global, abrange de tal forma os cidadãos, que lhes retira a iniciativa, atirando-os para um estado de vegetalismo, de inércia, de castração.
Se preguntarmos a um amigo, em conversa descontraída: se tivesses imenso dinheiro, em que investirías?
Ele responde de imediato; em nada! Não ía investir o meu dinheiro num negócio, para ir encher o cu aos gajos do governo, para eles andarem em viagens, em banquetes e a deslocar-se em carros de luxo enquanto o povo se vê da côr do car.... para fazer face ao custo de vida e a morrer nos hospitais por falta de verba para o tratarem.É obvio que ainda podemos saír todos os dias de casa e passear num jardim mal cuidado, por falta de verbas camarárias para pagar a jardineiros, também podemos inscrever-nos em universidades sénior, e assistir a aulas,de história, de física, de matemática, de informática, ministradas por uma pita de vinte e tal anos, até podemos bater uma punheta por debaixo da mesa, enquanto ela, amorfa, resignada, com o pensamento na montra da loja das meias, debita uma merda qualquer acerca da revolução francesa.
Mas não podemos sonhar... aí é que está a porra toda... os sonhos futuros foram-nos apagados da memória, restam-nos os que já sonhámos e esses, para readquirirem a nitidez que desejamos, precisamos de voltar a morrer, primeiro.
;)

pedro disse...

Bart,

Cada Português devia ter direiro á nascença a uma proteses mamária ou a uma protese peniana.
Já que não se pode sonhar que se viva com alguma ilusão.
Pode ser que a ilusão antecipe um futuro melhor.

;)

Anfitrite disse...

Ímpio,

Os outros andam a monte e este safou-se. Como vê...
http://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2012/04/23/ex-primeiro-ministro-islandes-sem-castigo-pela-crise-no-pais

O filme que refere deve ser uma versão hard de"Os Amigos de Alex".

Bea, já volto. tenho de ir às compras.

Impio Blasfemo disse...

BART

As grandes mudanças precisam de encontros dos vários colectivos para tomarem força, forma e movimento e promoverem essas mudanças.. Centrados nos nossos umbigos, focamo-nos na discussão dos nossos relacionamentos amorosos, do perfil do nosso corpo, se é mais ou menos adequado para o tamanho M, L XL ou XXL.. O currículo cada vez maior faz parte das nossas preocupações e do portfolio das nossas “vantagens”, do “vender da nossa imagem” consta uma exaustiva descrição do número de viagens realizadas... Os problemas pessoais como primeiro foco. Quando esta “mudança” e crise de ideais se fecham num segmento social específico, ele comprime-se e abriga-se entre os muros de uma linguagem própria; os seus estimados e famosos neologismos tendo como tecto de abrigo a intolerância como marca diferenciadora. Quando esta classe se constitui como classe dominante e chega ao poder, aí sim, é de ficarmos verdadeiramente preocupados!


Quanto ao tema do post, acho que já disse qb!

ANFY

Invasões Bárbaras de Denys Arcand, autor de "O Declínio do Império Americano" (1986), e "As Invasões Bárbaras" (2003). Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, além de ter sido nomeado na categoria de melhor argumento original. Recebeu uma nomeação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, ganhou os prémios de melhor actriz (Marie-Josée Croze) e melhor argumento, no Festival de Cannes.


O filme aborda a questão do ser solidário também. Ser solidário cria tolerância, mas pode não diminuir a distância porque não cria obrigatoriamente compromissos. Pode inclusivé acentuar os muros dos guetos - muros de vidro, muros transparentes, mas infelizmente muros... As personagens do filme caíram nas armadilhas dos seus próprios “muros”s e não foram capazes de impedir a “invasão dos bárbaros”, o mundo de hoje; forma tragados por ele.
Entre os “Amigos de Alex” e as “Invasões Bárbaras” há à partida uma boa diferença. O primeiro parte da morte do Alex; os amigos encontram-se no funeral do Alex e a história desenrola-se a partir daí, o segundo termina, praticamente, com o suicídio assistido do Remy, tendo toda a história sido desenvolvida até lá.
Acho os dois filmes diferentes. Ouso dizer que talvez os Amigos de Alex abranja um leque mais vasto de situações mas não sei se estareia ser justo nesta análise. Uma coisa é certa; deixa-nos menos acabrunhados!

Abraços
Ímpio

Manuel disse...

Boas músicas:

«The Night They Drove Old Dixie Down»: The Last Waltz
http://youtu.be/eOi0tC00Luc

bea disse...

"Sócrates morreu, Nietzshe também e eu não me estou a sentir lá muito bem."

Há dias que nos batem em cheio. E cansam. Recolho aos meus aposentos. Fiquem bem.

Não pensem demais sobre o fim ou a forma que terá. Em regra não se programa e esses filmes são excepções. Olhemos a vida que é bonita desde o grão de areia ou as partículas de pó que dançam na atmosfera. Tudo nela Vale. E as coisas pequenas são as que mais.
Boa noite :)

rainbow disse...

Boa noite:)

Porque estamos em vésperas do 25 de Abril, e para contrariar o pessimismo do Bartolomeu (que até tem uma certa razão), mas porque a esperança é a última a morrer:

http://www.youtube.com/watch?v=89LBNSX_vig

http://www.youtube.com/watch?v=gaLWqy4e7ls

Interessada disse...

Bart

Como já tenho uma cruz qb, não gostei de ler as suas palavras. Mas aguentei-me à bronca, que não tive outro remédio.
Se há virtude que o Bart tenha, parece-me que é a de ser um humanista.
Mas isso não lhe dá o direito de tornar mais pesada a minha cruz, que já deve ser de ferro.
Não quero também eu vir para aqui alegrar o sítio com cores vivas, quando o nosso dever não é fazer, mas tentar.
Quanto maiores forem as dificuldades, parece-me que mais convidativas são as situações para o emprego da nossa criatividade.
Uma das diferenças entre um idoso e um velho, é que o primeiro sonha, enquanto que o outro dorme.
E convém sonhar para um agora, e não para ontem, ou amanhã que não sabemos se existirá.
A vida tem recursos admiráveis que não podem ser privatizados.
O povo diz que cada um é para o que nasce. Mas para isso é preciso empenharmo-nos pois que sem isso não podemos acontecer.
Tenho ainda uma divergência consigo: eu não posso bater uma punheta por debaixo da mesa, com uma pita de vinte e tal anos.
Não seja machista, que eu não gosto de ver.
E faço-lhe a confidência de que, apesar de tudo, ontem e hoje foram dois dias para eu tentar esquecer. Amanhã, não sei ainda.


Uma mensagem alegre

Interessada disse...

E esta é para ouvirmos já

Fora-de-Lei disse...

Interessada 11:41 PM

"Tenho ainda uma divergência consigo: eu não posso bater uma punheta por debaixo da mesa, com uma pita de vinte e tal anos."

JURO que quando li isto pela primeira vez - embalado, por certo, por ter oftalmologicamente confundido o "t" com o "l" - julguei ter lido «eu não posso bater uma punheta por debaixo da mesa, com uma pila de vinte e tal cms»... ;-)

Interessada disse...

Esta foi roubada ao novo blogue do Miguel Vale de Almeida.
Deixo o link, para quem interessar.

snakeandsnail.blogspot.pt/

pedro disse...

Ao fim da tarde passei aqui pelo "Murcon".
Estava muito erudito.
Eu que só li trêz livros na minha vida não estava a conseguir apanhar a ritmo. E quanto a filmes: oque mais gostei foi o "Alien III", que adormeci nos primeiros 5 minutos a acordei nos ultimos 5:)

Vou procurar qualquer coisa para aqui deixar:

The Gift - Primavera

http://youtu.be/s7MqFg_luzM

Interessada disse...

FDL

Fiquei a saber que para além do Juramento de Bandeira e do Juramento de Hipócrates, existe o Juramento de Maiúsculas.

Interessada disse...

Já agora...

Impio Blasfemo disse...

Interessada

Dos protectorados aos protetorados o AO (Acordo Ortográfico) vai-nos deixando surpresas engraçadas.
Antes do AO escrevia-se:
"Não me pélo pelo pêlo de quem pára para desistir".
Após AO escrevemos:
"Não me pelo pelo pelo de quem para para desistir".

Pouco faltará para que venhamos a escrever, de forma mais simplificada:

"Não me 3pelo de quem 2para desistir"


Abraço
Ímpio

Interessada disse...

Impio

Obrigada por me fazer sorrir :D

Um abraço

pedro disse...

Ufa! A porta está perra!

A noticia de hoje é o "Google Doodle" apesar de eu preferir calças com botões (não têm uma unica medida).

Prontos! Como a Andorinha diz mas por outras palavras: "faltava-me vir aqui tomar o café da manhã"

Misão cumprida!

pedro disse...

Ufa, Impio:

É caso para repetir: "Não negue á partida uma pessoa que desconheçe!". Sou solidário com o sorriso da Interessada sem qualquer tipo de interesse!

Uma Boa Primavera (parece que está a chegar)

Vou confirmar!

bea disse...

Boa véspera de feriado :)

não distingo entre velhos e idosos. E prefiro o termo velhos. Não me parece que deixem de sonhar por lhes/se chamarem velhos em vez de idosos. Talvez o façam por não terem reformas, assistência, amor familiar; ou pelo desábito: se novos, não sonhavam senão com o imediato, não sonhavam. Acresce que, para alguns, nem adormecidos sonham, que é como quem diz, nunca se lembram de ter sonhado. Também é verdade que muita gente perde na qualidade do que sonha (projeta): carros, casas, passeios, and so on.Envelhecem em conjunto com os objetos do sonho. Desanima-se sempre das coisas. Ah, dirão, e das pessoas, não? sim, também das pessoas. Mas esse desânimo faz parte da construção que fazemos uns com os outros. O saldo não é que tudo dê bem. Parece-me mais que é conseguir crescer uns milímetros em cada relação, aprender a dar de nós alguma coisa que no outro faça falta e o inverso. qualquer coisa assim. Acordei em espírito de boa samaritana, sorry.

Bart

fui ver o que é uma punheta. Não digo que não aconteça, mas durante uma aula da universidade senior?...és um velho muito à frente. Não vou contar aqui uma das minhas histórias porque a diferença entre nós é que as minhas são verdadeiras e absurdas, julgo que eram pessoas normais mas com tara sexual - podes crer que sei do que falo - e mereciam mesmo era uns açoites. Ou, no imediato, um par de tabefes bem assentes. Mas as mulheres, que se dizem livres, não o são na medida do que dizem. E muito menos o eram quando jovens. Porque o 25 de Abril trouxe liberdades desconhecidas; dizia uma revista esta semana "ninguém vinha virgem das festas". Crassa parvoíce julgar-se o mar pela água da torneira onde lavámos a cara. O sexo passou a ser mais falado - e não foi regra geral. Não sei até que ponto mais conhecido. Mas para as taradices ninguém estava (está?) preparado. Reconheço a impossibilidade de preparação para a loucura de cada um. Ou de alguns.

Sejam felizes. Mesmo com tempo cinzento e um 25 de Abril a condizer com o estado da nação e o nosso: a chorar os bens perdidos, mas com esperança de que a chuva limpe o ar que respiramos. Ou nós mesmos. Se o entulho é demais a chuva não leva, só entope.

pedro disse...

Interessada,

Sonha-se com qualquer idade e não me vou explicar!

pedro disse...

Bea,

Uma vez dentro de um hospital cometi o grave erro de a um senhor: "Qual era a sua doença?". Doente também eu estava e aceitei a descordenação motora com que ele nasceu como apenas um problema. Ele respondeu-me: "Ezquizofrenia! vejo pessoas.". Eu encostei o meu indicador ao dele e disse para dentro: "mas eu existo". Passados alguns dias a irmã vinha como sempre visitá-lo e entregar o tabaco que ele fomava. Derramado em lágrimas, apenas dizia: "eles voltaram". A irmã perguntava: "Oquê?!". Havia uma boa noticia, ele tinha voltado a sonhar. A má noticia é que eram pesadelos como se já não os tivesse á muito, muito tempo. A irmã respondia para lhe tentar aconchegar: "É da tua doença". Ele frustado apenas respondia fracamente: "Eu não sou tolo".

Haveria outras histórias para contar mas para não confundir o Mar com a água que sai da torneira. É preciso ter estômago para engolir algumas coisas.

Um Bom Dia Para Todos.

pedro disse...

Interessada,

Como se costumava ouvir pelos antigos. Mais vale pôr um ponto final com um simples: "É uma história muito comprida".

António Pedro Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuel disse...

Aqui vos deixo:

Donos de Portugal é um documentário sobre cem anos de poder económico.
O filme retrata a protecção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza.

«Os Donos de Portugal»: Trailer
http://youtu.be/UcLyyshOkH4

Interessada disse...

Bart
Tenho um presentinho lindo, que apesar de ser genérico (por vezes também me sabe bem ser alertada) traz a menção “hoje, especialmente para o Bart”.

"Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inlcusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida."
( Clarice Lispector )

Interessada disse...

Um exemplo de crianças perspicazes.

bea disse...

Pedro


O problema é que a esquizofrenia vai além do ver pessoas que não estão ali ou sonhar com elas:)

Com licença que Vou jejuar - o 25 de Abril é uma data que requer preparação espiritual.

Bom Dia

Interessada disse...

Manuel

Grata pelo alerta, embora não saiba se vou ver ou não.

pedro disse...

Bea,

Tudo é reversivel, menos a morte!
Mas cada um é que sabe se sente bem com a cabeça enterrada na areia.

Já não há paciência!

Norah Jones - Sunrise

http://youtu.be/fd02pGJx0s0

Interessada disse...

Manuel

Só agora li que o tal documentário
estreia na RTP 2, na noite de 24 para 25 de abril, à 1h30.
Era injenuidade esperar que o dessem em horário nobre, não é verdade?

Interessada disse...

bea

É verdade, mas parece que, com excepção do sul do país, é só por hoje :(

Manuel disse...

E não conhece o Zeca o deboche que vai hoje por este cantinho muito mal frequentado que se chama Portugal.

Estas 2 dicas não foram relegadas para as 01:30 da manhã na RTP2, como o documentário «Os Donos de Portugal».
Podem ouvi-las e vê-las agora mesmo aqui.

http://youtu.be/Q48aFXRjBCo

http://youtu.be/ig1ySNy8A4M

Anfitrite disse...

Para quê tanta maldade se acabamos todos da mesma maneira.
O Miguel Portas já se foi. Um homem culto, interessado, que lutou pelo país, que tinha filhos para criar e servi-lhe de exemplo e âncora. Ficou cá o irmão que só tem feito mal ao País.
O sorriso da HSC, vai-lhe desaparecer do rosto por uns tempos.
Até o 25/4 ficou mais pobre do que já está.

andorinha disse...

Pedro:)

Obrigada por me deixares aqui o teu sorriso. Ainda para mais, hoje...
És um querido!

Beijo imenso!

Impio e Rainbow,

Deixo-vos um abraço do fundo do coração.
Fiquem bem:)

"Invasões bárbaras" já está na lista. O tema interessa-me bastante.

bea disse...

Pedro

achei a cena dos indicadores encostados mesmo linda, estilo ET.

Todos sabemos que só a morte é irresolúvel. Mas isso é teoria. Na prática há outros. Segundo um livro de filosofia que comecei a ler pertenço a uma categoria de imbecilidade pensante, facto que não me orgulha, mas existe.

Desculpa, hoje estou mesmo um bocadinho triste. a amorfizar.

Bartolomeu disse...

Ler onde não se vêm letras, não é forçosamente um "dom" de visão mas, sobretudo, uma capacidade de entendimento.
Interessada e Pedro.
;))

ruibasto disse...

Só deve falar destes casos quem ja passou por eles. Só. Todos os outros estejam calados e esperem... mas claro respeito total pela vontade expressa pelo doente!