terça-feira, fevereiro 11, 2014

O derby.

Maria,
O Benfica marca passo em vez de golos e a criança dentro de mim enovela-se para chorar. Vivemos numa sociedade que suporta com ligeireza os danos colaterais – nas guerras a céu aberto ou nas reuniões discretas da alta finança é dado adquirido que muitos ficarão pelo caminho, debaixo de cruzes ou nas sarjetas, em prol de um futuro melhor para todos (os outros). Contigo descobri o conceito de “benefício colateral”. O Benfica encarniçava-se contra mais uma parede, o mundo fugia dos pés da criança, a cor da face do seu filho adulto, que a custo mantinha as aparências até mergulhar em longa insónia, mais tabuleiros houvera e em mais eu perderia, o sonho de um desprendimento sábio nunca se realizou. Entraste na minha vida e não escondeste a surpresa perante o que consideravas um desperdício  - sofrer por noventa minutos de bola cá, bola lá, homens feitos de calções perseguindo-a e não desprezando en passant canelas adversárias, rostos ingénuos e escandalizados – “quem? eu?” – prontos a emoldurarem mãos postas na direcção  de juízes vestidos de negro, filhos de mães que ninguém no improvisado tribunal  conhece mas são alvo de gritos e dedos certos da sua má conduta, toda(s) a(s) cena(s) emoldurada(s) por milhões de euros em país que alega não os ter para fazer cantar um cego, comer um pobre, ficar um emigrante, investigar um universitário, trabalhar as gentes. É revoltante, dizias. E no entanto... Nesses momentos o amor levava a melhor sobre as dúvidas quanto à minha sanidade mental e  oferecias ombro solidário ao adulto e colo terno à criança, que da sua  tristeza funda chamava o filho grande e ainda renitente por arrogância superficial, encontrávamo-nos a meio caminho, no silêncio acolhedor do teu peito. Ao som regular do teu enorme coração o miúdo adormecia e eu acordava para outros jogos, em que (me) perdia, fascinado por esse prazer longínquo e vertiginoso, de que as mulheres têm o segredo e os homens a nostalgia orgulhosa de quem participa nos bastidores. E assim, a cada novo tropeço do Benfica, o túnel não ficava menos escuro, mas a certeza da tua luz diminuía-lhe minutos, lágrimas e imprecações, o sofrimento fazia sentido, vezes houve em que desconfiei ser o preço a pagar pelo esplendor do que vivíamos, este meu fundo judaico-cristão...
P.S. E não é que ganharam? Cinco minutos de alegria aliviada. E como a águia em voo picado sobre a carne – mas sem milhares a asssistirem! – assalta-me consciência da injustiça das  palavras. Por incompletas... Eles ganhavam e tu sorrias, divertida, dos nossos risos, ainda incrédulos mas já prontos para festejos menos recatados. Seguias-nos, vigilante, rumo a cervejaria ou casa de amigos, aceitavas de bom grado os festejos, mas qualquer brisa de exagero enfunava as velas do teu sobrolho, o sorriso não esmorecia e no entanto abrigava a cautela, órfã dos caldos de galinha, mas severa – “Júlio, como é aquela frase que me ensinaste? Il faut garder la mesure?”. E eu e o puto não guardávamos bandeiras, cachecóis, finos, bifes, gargalhadas ou abraços de compinchas; apenas isso – la mesure.  Além da muito pouco secreta esperança de terminar, perdão!, começar a noite no teu peito.
Maria, tu adoçavas as derrotas e vestias de cores ainda mais garridas as vitórias, não há fim de jogo do Benfica em que os meus olhos não busquem a porta, supersticiosos. Nada. E pluribus unum. De todos, um? Tempos houve em que sim, de nós os dois nascia um, tal a cumplicidade, que não anulava nenhum e enriquecia ambos. Agora só partilhamos um meridiano. E outro silêncio; estéril. Ponho Dark Side of the Moon. Um coração bate, mas não é o teu. E o grito não chega a Londres...

Boa noite. Fica bem.    

24 comentários:

andorinha disse...

Que posso eu dizer?
Que esta Maria já tinha saudades das suas cartas à Maria?:))))

O texto está, todo ele, uma delícia!

"Nesses momentos o amor levava a melhor sobre as dúvidas quanto à minha sanidade mental e oferecias ombro solidário ao adulto e colo terno à criança, que da sua tristeza funda chamava o filho grande e ainda renitente por arrogância superficial, encontrávamo-nos a meio caminho, no silêncio acolhedor do teu peito. Ao som regular do teu enorme coração o miúdo adormecia e eu acordava para outros jogos, em que (me) perdia, fascinado por esse prazer longínquo e vertiginoso..."

O homem/miúdo...delicioso...


Bom soninho:)

P.S. Merece, depois de escrever um texto destes...:)

João Pedro Barbosa disse...

Não se esqueçam da latitude. Também! Cada ponto? Tem o seu lugar...

João Pedro Barbosa disse...

Maria,

NÃO É PARA QUEM PODE
É PARA QUEM POUPA

"Let's dive in lost Atlantis... Snorkelling in Flores island(Azores)"

http://www.youtube.com/watch?v=gC-gU7MBVJo

João Pedro Barbosa disse...

Edie Brickell - Good Times

http://www.youtube.com/watch?v=iqL1BLzn3qc

João Pedro Barbosa disse...

Another Day Before The Darkness: "Good Morning"

bea disse...

Eis um jogo muito vivido - sofridamente - e bem descrita a vivência.

Palavras compreensivelmente tristes de um benfiquista a falar com Londres. E um meridiano. E, no entanto, como a Andorinha, gostei de lê-las; faltando-lhes, contudo, pó de estrela.

João Pedro Barbosa disse...

Hable Con Ella - La Noche y El Viento

http://www.youtube.com/watch?v=t6OXW7XIwQ8

João Pedro Barbosa disse...

!Hit The Bottom But Do Not Leave The Sky...

João Pedro Barbosa disse...

Doentes da bola reclamam que profissionais de saúde lhes tiram tempo para viver: "Liberdade de imprensa aumentou em Portugal em 2013"

AQUILES disse...

Sempre fui deficiente a uma disciplina: o futebolês. Não consigo perceber essa linguagem. Por isso nem comento.

João Pedro, aquele link não abre. Será incorrecto?

João Pedro Barbosa disse...

(Aquiles... Falta-lhe! O? S.

Bea... Já tem uma escada para chegar aos tachos mais altos. Professor! Derby? (Carreço contra Cantelães) Só permitimos empates fora: em casa estamos sempre em vantagem:)

Ju disse...

Adorei o texto. Gosto de Maria...

AQUILES disse...

Não, não é para o serão. É só para darem uma espreitadela. É uma artista francesa de renome. O que se faz para divulgar a música. Se conseguirem passar o Beja-me Mucho já é obra.
https://www.youtube.com/watch?v=N97QXm7rymc&list=RD0qQwnmLNNsM

AQUILES disse...

No entanto gosto do espectáculo dela no Olympia.
https://www.youtube.com/watch?v=ufCkeqWR9C4
Neste mesmo espectaculo a AMAPOLa também saiu bem. O efeito cénico foi muito bem conseguido.

AQUILES disse...

E permitam-me que traga aqui, para apreciarem a maestria de Rubén Simeó.
Vejam tudo o que puderem deste concerto no Japão. O voo do moscardo é excelente. Mas vajam a orquestra, o maestro, e o pormenor da flautista que aplaudr o Rubén, a meio do Stars.
https://www.youtube.com/watch?v=4uHTXGKHyRE&list=RDoSqQjtKUy08

Mas esta interpretacão da MACARENA, com a orquestra de Alicante, é muito boa. E reparem como, a meio, o maestro vai buscar os violinos. O maestro também merece atenção.

https://www.youtube.com/watch?v=4uHTXGKHyRE&list=RDoSqQjtKUy08

Anfitrite disse...

Aquiles:

Gostei muito. Até abanei com o Tico Tico. Já a Carmen Miranda o tinha feito, ou não? Que pena a doçura da língua francesa se ter esvaido por entre as frinchas anglo-saxónicas, que muitas vezes nem querem dizer nada.

http://www.youtube.com/watch?v=tYkm3d_JNmI&NR=1

AQUILES disse...

Quanto ao mais que se discuta .... já não há debate que frutifique. Ou a malta compra caçadeiras automáticas de 10 cartuchas, ou cala-se para todo o sempre, e amocha, que é o que tem gostado de fazer nos últimos 30 anos. E continuarão a ser gozados por quem os anda a esmifrar sem apelo nem agravo.

AQUILES disse...

Anfitrite

Na a doçura da língua francesa, sempre gostei desta senhora a cantar nessa lingua, aqui num original:

http://www.youtube.com/watch?v=L3xPVGosADQ

João Pedro Barbosa disse...

Ju... O único meio de comunicação que vai estar contextualizado. Muito antes! Do Murcon, é a AR TV?

P.S. Bom serão

Unknown disse...


https://www.youtube.com/watch?v=wdfuHO16lqE

João Pedro Barbosa disse...

Did you know that 6-8M people die annually from the consequences of disasters and water-related diseases?

http://www.un.org/en/events/worldwateryear/factsfigures.shtml

Anfitrite disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anfitrite disse...

Aquiles:

Poucos se lembrarão deste filme histórico, que retrata com grande realismo uma tragédia que não se resolveu com uma caçadeira:

http://www.youtube.com/watch?v=X_fTJUGSZ-M

e que terminava com ela a cantar esta canção:

http://www.youtube.com/watch?v=j5gtDxTtOVg

AQUILES disse...

Anfitrite, eu também concordo que essas são melhores e preferiveis às caçadeiras. Matam mais e mais depressa. E no filme é notado que tiveram de recorrer a esse meio para resolver o problema dessa época. Agora a época é outra, com problemas que precisam de ser resolvidos. Ou não. E nesse caso resolvido fica.

A cancão, nesse link, cantada peça Mireille, linda, é um hino muito bonito à luta pela liberdade e dignidade.