terça-feira, março 18, 2014

Dia do Pai.

Maria,
Emprestas-me o teu Pai?

Pronto, quem cala, consente! A pergunta não te chegou a mãos e olhos? Objecção indeferida, tu afirmavas ler-me o pensamento, quem se orgulha de tal façanha não a renega a coberto de uns poucos milhares de quilómetros. E sabes, eu preciso do sim como de pão para a alma, é quase meia-noite e a escuridão lá fora anuncia alvorada triste, triste. Fosse teu o Dia, e dias houve em que eram todos!, e estaria a enviar-te uma sms do outro lado da cama, “ver debaixo da almofada”, o teu riso estralejava, sempre achei que o desmaio dele seria a nossa morte. Mas não é teu, apesar de ser, a escrita, mesmo não enviada, faz prova de vida do amor, que  não garante a reforma e sim a sua ausência, deixemos isso, a imagem é de mau gosto num país de muito corte e pouca costura.
 Dia do Pai. E os meus vivem em Cantelães, a Primavera  desperta, nas cinzas deles já se espreguiçam as flores, eu fiz o contrário, adormeci, sombrio, ao sol a pino; inconformado. E inconformado permaneço - quero voz amiga, conselho sábio, silêncio cúmplice, homem feito e não adolescente envelhecido como eu. Olha, dou umas voltas ao quarteirão, até ele descer para dois dedos de conversa com os amigos, cinco lhe estendo eu, declaro o automóvel no bate-chapas do outro lado do jardim. E será verdade, negras para sarar não lhe faltam, trato-as hoje, visita de médico lhe proponho a ver os estragos, no regresso amaino o passo tanto, tanto, que seria capricho óbvio não nos sentarmos, missão cumprida.
Não falar de ti, claro, ele tinha muitas dúvidas sobre o futuro daquele  nosso presente, tua Mãe outras tantas, mas é mulher,  vizinha das nuances, quando alindavas pensamentos, palavras ou obras meus, uma sombra de esperança nascia e ela presenteava-te com um “quem diria?” mais cristão do que católico, que importa?, tu ficavas feliz. Também não falar de mim... As saudades fá-lo-iam temer o amanhã, cabeça limpa mentirosa confirmaria as suspeitas de ontem e é de ouvir que preciso.
Aceno aqui, interjeição acolá, enroscar-me nas suas histórias. Estranho, não é? Cumprir sonho teu depois de nós, os homens da tua vida a par quando deixámos de ser um. Ficarmos assim. Ou aspirar a mais! O telefone dele ganir e surpreender-lhe o desconforto, pretextar jornal e ir de fugida ao quiosque, de regresso orar – “faz com que não se sinta a traí-la”, ele a tomar-me o pulso, “era a Maria”. Eu hesitante, “bem, talvez seja melhor ir andando...”. O sorriso maroto, “pelo contrário, sente-se, prefiro-o aqui e não no aeroporto. Perdoe a franqueza, mas sou pai dela”.
Eu sei. E contudo, hoje, por uns minutos, deste inimigo público também.


  

26 comentários:

andorinha disse...


Não consigo dizer nada...apenas ficar aqui a ouvi-lo...

Abraço:)

Caidê disse...

Pois!...
:(((

bea disse...

e eu amanhã terei de ler melhor este post. O que entendi melhor foi a pergunta inicial.

Amanhã que é já hoje, vamos festejar os pais. Porque tiveram o bom gosto de nos amar. E muito sacrificaram por nós. Seguramente. Porque, apesar do que se diga, viver e ter filhos - quase sempre muitos - no tempo de Salazar, não era fácil. Ainda bem que nos aceitaram como somos.
um beijinho aos pais e ao senhor professor que também é pai. prontus.

bea disse...

Bom Dia

Aos Pais de Todos os Dias

ainda que a maior parte desconheça Pessoa e jamais o tenha lido, de resto, se o lesse, pouco entenderia que não são os seus modos afeitos a versos; e ser verdade que o poeta fala à Poesia que o habita e não ao pai que quase não teve, pobre, pobre Fernando António Nogueira.

Sobrando de tudo isto, que na verdade nada importa,

Aos PAIS

(...)
Depois ele adormece e eu deito-o,
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
(....)
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
(...)

É isto que quero para meu pai; acompanhá-lo até ao fim. Que ele sinta o que tem vindo a saber: que vou estar para ele até que nasça "qualquer dia que ele sabe qual é".

E se a vida nos afaste, e se o meu dia que todos sabemos qual é chegar primeiro, permanece o intento e o meu ser próximo em tantos outros momentos.
Que de tanto nos desentendermos muito nos entendemos.

bea disse...

Pergunta mais bonita!

espero bem que não desvirtue com o vento e a poluição no seu caminho de 3000 km:)

Há algum perigo em mandar perguntas a longa distância; feitas pombos correios.

Biépi paizinhos todos, doces pais da nossa vida

Senhor Professor

Hoje não é dia de se lamentar. Ponto.

É Dia de de dar graças a Deus por ter dois filhos incomparáveis como são todos os filhos que são nossos; ter havido uma mulher que os quis ter consigo; haver o tempo de os mimar ao longo das idades; ter netos que vê crescer e se abeiram do período da vida em que renascem e tão grande prazer nos dão com isso, mesmo sabendo que tanta vez renascem contra nós. Haver uma Maria que decerto o gosta ou o senhor não lhe escreveria tanto, o amor pode nascer porque sim, mas não permanece só por essa razão.

E creio que todas as mulheres do blogue estão comigo no desejo: que os seus filhos lhe dêem o pretexto para um dia BOM.

Nós vamos tratar do dia dos nossos pais.

Fique bem

João Pedro Barbosa disse...

Devolvem-nos os dias. Do Mal! O menos?

andorinha disse...


Bea,

Gostei tanto de tudo o que escreveste!
Do poema que deixaste...de tudo. Obrigada:)


"E creio que todas as mulheres do blogue estão comigo no desejo: que os seus filhos lhe dêem o pretexto para um dia BOM."

Of course! Mas os homens também. Não faço discriminações:)))


O meu já partiu...Tanto que ficou por dizer...:(((


Vou...

bea disse...

Andorinha

Foi de coração. Bolas, esqueci-me que os homens também desejam:) peço desculpa aos senhores.
Já pode considerar-se preconceito esquecê-los? estou ficando sectária, ai, ai.

Quanto ao que fica por dizer: fica sempre. Ao meu digo apenas que gosto dele. O resto não merece palavra. Magoámo-nos muito um ao outro e criou demónios para a vida, que vão muito além de mim; e não toco por não lhe encontrar forma de alívio.
No ocaso, de viva voz, só lembramos coisas boas.

E agora, desculpem, mas o dia pertence-lhe e há muita coisa que também pertence ao dia e ainda me falta.

biépi

Caidê disse...

Andorinha
Tanta companhia que faltou por fazer! Quase 56 anos de filha de um pai que me deixou ainda ele com 54. EU? Trémulos 25.

Hoje nos faríamos companhia, não tivesse sido um dia de 22 de dezembro em que nos falámos pela última vez, combinando o que seria a nossa ceia de 24. Que ia comer pouco, que andava indisposto...que não sabia, nada de especial.

E a 24 pela manhã um telefonema, a empregada entrara em casa e ele há 2 dias que deixara de ser, sozinho, deitado numa cama, com uma mão no coração, expressão de dor, apagado da vida. Enfarte.

Dormi com ele a noite de 24, lá na morgue para onde o levaram, sozinhos os dois, que se fechem todas as portas, que se vão todas as gentes, que naquela noite seríamos só eu e ele - corpo morto com corpo vivo, mas um último dia de um com o outro, para podermos finalmente nos dizer Para Sempre e até Hoje.

E temos um só Pai. Tudo o mais é não mais que empréstimo.

Então, há que devolver. Sim, na vida Há Muito para Devolver - que se devolvam os afetos! Com quem de empréstimo e de verdade!

João Pedro Barbosa disse...

DINALIVRO:

( Um "Autochrome" consiste numa chapa de vidro coberta por minúsculos grãos transparentes de cor laranja, verde e violeta, sobrepostos a uma imagem fotográfica a preto e branco, positiva. )

Anfitrite disse...

Tudo tão lindo!

O meu foi apenas um espermatozóide, que já partiu, há muito tempo, muito novo, mas que não acompanhei, nem sei onde está. Querem umas histórias tristes para os que se queixam de tanto que tem?

andorinha disse...

Fica, Bea, sempre...
Também nos magoámos muito um ao outro porque sempre fomos casmurros os dois.
Reconciliámo-nos no final...


Caidê,

:(((


Anfy,

A sesta fez-te mal?:)))))))))))

Um Bom Dia do Pai para o Júlio, o Aquiles, o Impio, o FDL, perdoem se me esqueço de alguém...


João Pedro Barbosa disse...

Andorinha... Tú? Nunca! Existis-te. Só no meu imaginário...

Anfitrite disse...

Acho que este música fica bem aqui.

http://www.youtube.com/watch?v=4mUmdR69nbM&list=RD4mUmdR69nbM



Andorinha!

Será que não tens sentimentos? Apenas falei da minha realidade!
Eu bem me parecia que não devia
abrir a boca neste dia, porque os meus olhos ainda estão vermelhos:(


E o FDL também não deve estar muito contente porque perdeu também a mãe, não faz muito tempo.



Anfitrite disse...

Tentando mudar de onda. Para o professor ver o que até um cego é capaz de fazer.
Uma música conhecida, mas com um vídeo lindo que é obrigatório ver todo.

https://www.youtube.com/watch?v=IEVow6kr5nI

andorinha disse...


Anfy,

O video está espectacular. Gostei muito.



Acabei há pouco de ver The Book Thief.
Belo filme, sobre o nazismo e sobre a natureza humana...Vieram-me as lágrimas aos olhos em algumas passagens.

Já alguém aqui viu? Recomendo.:)

andorinha disse...


Há uma petição a circular na net para impedir uma tipa qualquer que ganhou cá o raio do festival para a impedir de ir à Eurovisão.

Perante realidades destas eu começo a pensar que temos, de facto, o que merecemos. Se somos um bando de idiotas, somos governados como tal...

E a crise também não deve existir...o importante é saber que tipa vai ou não à Eurovisão.

Ora e se fossem todos para a p....que os p....?

bea disse...

Caidê

Mas a gente devolve quando nos vem a vez de sermos pais; não será bem devolução, mais uma forma de retribuir e contribuir. O amor ensina-se aos filhos amando-os o melhor que sabemos. E, sendo amor, posso garantir hoje que fica a semente. E. Contudo. Nunca eles gostam de nós como nós deles. O que nem interessa nada.
O meu pai ficou tão comovido quando cheguei sem aviso e disse ao que ia que nem conseguia falar. Pessoa mais sem jeito para a ternura nem deve haver. Foi um tempo bom:) – oh, estou toda partida. Bolas para mim.
Anphy
“Querem umas histórias tristes para os que se queixam de tanto que tem?”
Não, Anphy; a esta hora não me apetece nada triste.
Na alegria de fazer alguém feliz há um calor tão bom que a gente esquece o resto por um bocadinho. Hoje sou uma felizarda.
Não fique neura por causa de um espermatozoide. Olhe eu sou muito grata ao seu espermatozoide. Sem a Anphy, o Murcon – desculpe senhor professor, mas é verdade – perdia um certo gosto agridoce (às vezes é um bocadinho vinagrete).
Pensando bem, muito obrigada a todos os espermatozoides que conseguiram ganhar a corrida, são uns campeões.
E bigada pelas suas escolhas musicais, viu? Al Pacino é um actor à antiga, não é?

João Pedro
Não estejas a tergiversar

Andorinha

Sim, sim, vi esse filme. Também gostei; mas achei-o um bocadinho irreal de mais. Porém, devo dizer que foi o que vi com mais desenvoltura – sem estar a desviar a vista do écran.

bea disse...

ora Andorinha, parece que nem sabes para que serve também a net!

Caidê disse...

Anphy

Lindo o vídeo. Valeu mesmo!

Andorinha

Tanta futilidade e tão pouco valor já cansam neste país. Sempre julguei que viver no país de Abril seria uma dádiva, mas já não vejo Abril no meu país há tanto tempo!

Caidê disse...

Bea

"Pessoa mais sem jeito para a ternura nem deve haver" :)))

E, olha, mais uma vez o amor chegou sem aviso - valente! :))) Gramei!

Impio Blasfemo disse...

Tinha pensado começar este texto no estilo “Manuela (a minha mãe), manda-me um Presidente….”. Mas isso podia ser mal interpretado e abandonei essa linha de escrita; vou antes por aqui.
Perguntou o Mário Crespo (MC) ao António Filipe (AF) do PCP: -“Que achou do discurso de hoje do Sr Presidente?” e o AF questiona o MC:- “Mas ele falou?”. O MC sorri e responde, “sim falou…”, ao que o AF corrobora, “bom , então se falou, falou….”. Por coincidência falou no dia do Pai, o Sr. PR e deu um “discurso de pai aos filhos amados da nação”. Foi bonitinho, foi bonitinho, algo autoritário, como quem diz “os meninos fazem favor de se portarem bem, e não dizerem asneiras, nem fazerem momices agora na campanha eleitoral, vejam lá como se portam….”. Bem, não foi bem assim, falou de elevação, um tipo discurso virado a pensar na escada magirus (talvez, digo eu), sobe, sobe, sobe e lá do alto, lá muito do alto, quase a perder de vista, é que se podem dizer coisas, daqueles que quase nem se ouvem cá por baixo, mesmo por cá junto ao chão, onde toda a gente anda. Isto sim, seria elevação no discurso……..talvez no pensar do Sr. PR, foi esta a minha interpretação, honesta interpretação, por sinal.
Mas porque o discurso do SR. PR nos merece toda a atenção, quando chegarem as eleições vamos todos buscar, à gaveta, os nossos melhores aparos redondos, para que a retórica não siga eivada de má educação, falta de decência, falta de argumentação e sem nenhuma elegância; numa palavra, elevação. Mas falemos então de métricas do nível do discurso, decência do discurso, capacidade argumentativa e elegância. Tenho dificuldade em exprimir raciocínios a mais de 3 dimensões. As ideias são como as cerejas, puxa-se por uma e saltam várias e veio-me à memória o filme "Clube dos Poetas mortos" e as célebres aulas do professor Keating que apela para valores como a liberdade de pensamento e de expressão que colidem frontalmente com os valores defendidos no colégio. Vem-me à memória o professor "clássico" virado para o quadro, com o giz na mão a explicar as métricas da poesia. Os alunos bocejavam, e nós, público atento ao filme, pensávamos "pudera não...". Mas podemos tentar sempre entretermo-nos a definir a métrica da Qualidade do Discurso, do Nível do Conteúdo Argumentativo, da Decência e da Elegância e a seguir até podemos criar uma NP (Norma Portuguesa) do Discurso ou do Universo do Discurso e se calhar podemos propô-la à UE já que a Merkhel até gosta de nós, e talvez passe a norma da UE; e ficamos célebres como os Portugueses Normalizadores do Discurso. Porque não? A Merkhel ia gostar de certeza……e os mercados iam-nos dar melhor rating também, talvez passássemos a Triple A; nunca se sabe….

Saravá
Impio

bea disse...

Ímpio

não ouvi o PR, hoje não vi telejornais. e que pode ele dizer quando precisávamos que tivesse feito qualquer coisa?

boa noite a todos

andorinha disse...



"O meu pai ficou tão comovido quando cheguei sem aviso e disse ao que ia que nem conseguia falar.
Pessoa mais sem jeito para a ternura nem deve haver. Foi um tempo bom:) – oh, estou toda partida. Bolas para mim."


:)))

Tão bom ler isto, Beazita:)


O filme pode ser um bocadinho irreal, mas gostei.
Para real, já basta a realidade:))))))))))


Impio,


Eu não sei como ainda tens pachorra para ouvir o pr...:)

Fiquem bem.

Impio Blasfemo disse...

Bea, Andorinha

Apenas ouvi o Jornal das 9 na SIC Notícias. O PR foi apenas citado. Mais tarde lá apareceu num dos canais de notícias, pois lá teria de aparecer. Mal pareceria se já a televisão pouco ou nada lhe ligasse.

IMPIO

Manuel Luis disse...

Ouvir e ler. Obrigado pelo seu tempo que me é precioso.
Abraço