quarta-feira, julho 30, 2014

God forbid.

Maria,
Vestir essa nudez que alimenta as fantasias de mirones de talho, pendurados em esquinas sujas por eles. Devagar; peça a peça. Oferecer-me o capricho de  pedir meias tão apaixonadas pelas tuas coxas que nelas se detenham, rendadas e rendidas, seria um crime de lesa-desejo cobrir as longas pernas que apontas ao céu, uma de cada vez, alisando o negro que lhes assenta como uma luva e desafia as minhas mãos. Como a tua voz, em aliança irónica e esquiva com os olhos, “que sapatos?” Também negros, sabes a resposta, mas gostas de ma escutar, enrouquecido. A lingerie e mais um toque de risonha crueldade, “ajudas-me?”. E eu faço-o, os dedos debatem-se com o fecho, o mesmo não acontece ao teu pescoço com os meus lábios, aceita-lhes o beijo leve com a naturalidade do senhor feudal que estende o anel ao  vassalo, a imagem, de tão espontânea e imediata, não pode ser casual. O vestido mini-neiro, mais adulto a cada passo pelo corredor, com um gesto rápido o cabelo cobre-te o rosto e volta a escorrer pelas costas que me viram as costas, eis-nos face a face e junto à porta, “escolhes tu o restaurante”, a tua mão entreabre e a minha fecha, “posso escolher a mesa?”.
E sobre ela nos perdermos tão longamente que a noite acabe em assalto ao frigorífico, roupas espalhadas pelo chão e adormecer exausto, mas tranquilo. Não porque tudo está bem quando acaba bem, o sono entrelaçado não é o fim de nada, apenas o tempo que nos separa do abraço matinal. Mas por ambos sabermos que, em ocasiões como esta, raios de luz no cinzento do quotidiano, jamais te ocorrerá dizer “por que me deixaste vestir?”, seria o fim do erotismo e o começo do sexo melancólico e suicidário.

God forbid, Mary.  

11 comentários:

andorinha disse...



FABULOSO!

Que dizer de quem assim escreve?:)

O texto respira erotismo por todos os poros. É lindo! Doce...


"...o sono entrelaçado não é o fim de nada, apenas o tempo que nos separa do abraço matinal."

Que dizer mais? "Apenas" saborear:)


Obrigada, Júlio. Obrigada, Maria:)

Bartolomeu disse...

Ahhhh!!! a melhor parte é a que menciona a utilidade dada à mesa. Ou seja; aqui, o pragmatismo foi mandado às urtigas, atribuindo ao móvel a sua natural função e utilidade, que é: serve para nele se comer (ponto). Do mesmo modo, o frigorifico serve para nele se preservar os alimentos e a caminha, para um soninho descansado. Pontos postos nos "i's", tecer considerações acerca do passeio lânguido pela lingerie, é uma redundância. Quanto ao perdão divino; quem quiser conhecer a minha opinião acerca, faça o favor de ir espreitar o mesmo post ao face (não me apetece voltar a escrever).
E prontes... que nunca nos faltem as mesas...as Marias multiplicam-se naturalmente.

murcon disse...

Bartolomeu,

Naturalmente??????? Seu D. Juan:)))))).

João Pedro Barbosa disse...

Se a Maria Vem Pronta
Para Quê
Estar a desarrumá-la

Bartolomeu disse...

Tem razão; esqueci-me de colocar vírgula antes de "naturalmente"- ai bégue iór párdon.

João Pedro Barbosa disse...

Leio Mais Tarde Ainda Há Muita Luz

"http://www.youtube.com/watch?v=aqANo5qDPhQ"

João Pedro Barbosa disse...

Já li. A mesma água! Passa pelo mesmo moinho? Duas vezes...

andorinha disse...


Reli. Porque a beleza do texto me fascina.


"...e mais um toque de risonha crueldade, “ajudas-me?”.

Pois, nós gostamos de ser cruéis...mas só com quem vale a pena:)))))))))))))


Boas férias, malta.

Vou voar por aí...volto em breve se as asas me ajudarem:)

andorinha disse...



http://www.publico.pt/sociedade/noticia/em-seis-meses-foram-assassinadas-24-mulheres-e-a-maioria-por-violencia-domestica-1664858


Estas são outras Marias:((((((

João Pedro Barbosa disse...

Bartolomeu... Compensaste a virgula? Com os! Assentos.

Moon disse...

Está bonito, está... :)
Murcon totalmente erotizado...
Uf, uf...