terça-feira, fevereiro 10, 2015

Mercadoria...

Fragmento do Homem

Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras. 
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida? 
Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão. 

Eugénio de Andrade, in 'Os Afluentes do Silêncio'

2 comentários:

bea disse...

Os poetas são visionários, intuem a realidade. Chegam antes do tempo. Ou antes da humana compreensão do tempo.
Mas o que é dado na intuição sofre-se na mesma. Quem sabe se, na sua imediatez, o golpe não afunda resoluto.

Já ouvi dizer e li que Eugénio era agreste, desabrido por vezes. Não para mim, que só o sei das palavras. Nelas o encontro como sempre: humano e quase terno.

andorinha disse...


Belo texto!


"A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros."

Palavras pesadas mas verdadeiras.

Enquanto não nos reencontrarmos, enquanto formos estrangeiros a nós próprios, teremos sempre uma vida menor. É urgente o reencontro com o nosso 'eu' mais verdadeiro!

Também só conheço o Eugénio das palavras, Bea. E do que conheço, gosto, tal como tu.

Beijinho