domingo, julho 02, 2006

O homem que dizia:"O médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe."

Abel Salazar, desenhando sempre, compulsivamente


Maria João Pinto



São, muitos deles, estudos para pintura e, na sua larga maioria, inéditos. Duzentos, seleccionados de um mais vasto espólio de mil desenhos, irrompendo de papéis de apontamentos rasgados, do verso de bilhetes postais, ordens de serviço ou folhas de observação ao microscópio, da cartolina de caixas de sapatos, de folhas timbradas de hotel, envelopes e cartas. A lápis, tinta-da-china, carvão ou aguarela, em traço difuso ou mais carregado, retratam mulheres de todas as condições, apenas o rosto ou em corpo inteiro: mulheres que passam, mulheres que esperam; conversando no café, lendo na penumbra do seu quarto; ou, sem lugar para momentos de lazer, imersas num dia-a-dia de trabalho.

O fascínio de Abel Salazar (1889--1946) pelo universo feminino - e o tributo que a ele ergueu - é a mais forte imagem que se guarda da recém-inaugurada exposição que o Centro Cultural de Belém consagra a parte da sua obra plástica, sob o título Abel Salazar - O Desenhador Compulsivo. Exposição desenvolvida em oito núcleos - Estudos, Mulheres, Retratos, Coquettes, Interiores, Cenas de Rua, Trabalho, Paisagens -, que os organizadores esperam possa contribuir para resgatar do esquecimento o legado de um homem que fez da ciência, da arte e da intervenção cívica pilares da sua vida.

Passos prévios

Fruto de parceria entre a Fundação Mário Soares (FMS), Associação Divulgadora da Casa-Museu Abel Salazar e Universidade do Porto, a mostra, que ficará patente até 17 de Setembro, tem uma outra dimensão, menos visível, mas não menos importante: o trabalho de conservação que acabou por estar na origem da sua realização. Trabalho que se prolongou por um ano, ao abrigo de protocolo celebrado, em Novembro de 2002, entre aquelas instituições, assumindo a FMS o compromisso de zelar pela "preservação, conservação e reprodução digital e fotográfica do acervo documental" da Casa- -Museu Abel Salazar.

Como escreve Vitória Mesquita em texto de catálogo, "a colecção encontrava-se gravemente fragilizada", nomeadamente pelas condições do suporte, de qualidade e densidade muito variáveis, dado que Abel Salazar (re)utilizava os mais diversos tipos de papel para desenhar. Como fumador (também compulsivo) que era, muitos desenhos têm, por outro lado, marcas de cinza de cigarro.

A esses acidentes de percurso aliar-se-iam outros, de acondicionamento, e a que o autor foi já alheio: "Todos os desenhos se apresentavam colados, precariamente, em cartolinas pretas", não apenas com colas lesivas, mas também "fita-cola e agrafos". Uma vez estudadas as causas de deterioração, o destacamento dos desenhos constituiu, assim, o passo "mais premente", a par da limpeza e estabilização das espécies.

A colecção foi, por outro lado, registada fotograficamente - trabalho que coube a José Pessoa -, em levantamento prévio à intervenção física de que foi objecto. A sua digitalização constituiu o passo seguinte, podendo a colecção ser, a partir de agora, mais facilmente estudada, sem implicar danos para os originais. À intervenção em apreço, que se revestiu de carácter preventivo, deverá seguir-se - lê-se ainda - "uma acção mais profunda e definitiva de conservação e restauro".

18 comentários:

TsiWari disse...

Do cruzamento, da intersecção, de várias esferas se faz o ser humano (aliás, qualquer outro ser vivo, da mesma forma).

Espreitar outras esferas, para além da conhecida, é privilégio neste caso.

andorinha disse...

Boa tarde.

Abel Salazar dizia isso e com toda a razão.:)

Notícias destas sempre vão dando algum colorido aos dias cinzentos que estamos a atravessar.
Espero que a exposição tenha o sucesso que merece até por todo o trabalho que está por detrás.
A digitalização foi uma excelente ideia, preservando-se assim, os originais.

Visitando a exposição honremos o homem que também disse: "Nunca fui político (...), mas tenho deveres sociais a cumprir, que cumprirei conforme os ditames da ética científica."

CêTê disse...

Ai que dor ter de adiar o prazer de criar!;[[ ignorar o apelo do papel virgem que provoca em silêncio na sua nudez! No desejo maior sai um rabisco que se adia satisfazer como tantqas outras coisas que se calhar nunca mais!

E essa espera faz pensar! Que fazemos nós dos "dons" que outros dizem por defeito nos abençoar?


ps- guarde tudo do professor, Sousa- diga à sua Gertudes para se deixar dessas limpezas "a fundo" dos bolsos e escritórios do Sr. Doutor;]]]]]


abraços

Su disse...

boa noite prof

jocas maradas

APC disse...

Pois que agora vou seguir o exemplo do Mestre, e vazar aqui um tema, sem sobre ele opinar, para ver que machadadas merecerá, curiosa na sopa julianaque daqui possa sair:

Alguém viu, por acaso, a reportagem sobre a Infidelidade que passou esta noite na TVI, hum?

E não tarda começa também a busca ao gene da infidelidade, lolol (deixai-me rir à tuga, kisto merece: rsrsrsrsr;-)

Bem-hajam!

fiury disse...

"verso de bilhetes postais, ordens de serviço ou folhas de observação ao microscópio, da cartolina de caixas de sapatos, de folhas timbradas de hotel, envelopes e cartas.... desenhos têm, por outro lado, marcas de cinza de cigarro.
"Todos os desenhos se apresentavam colados, precariamente, em cartolinas pretas", não apenas com colas lesivas, mas também "fita-cola e agrafos". ))))

no entanto era um génio, com a cabeça bem "arrumada" e a arte corria-lhe nas veias!

enquanto isto, penaliza-se a arte e o aluno desarrumado e desorganizado nos cadernos, na letra e na apresentação do trabalho.
critérios de avaliação confortaveis...

fiury disse...

bem me queria parecer que a parte dos agrafos e da cola era um bocado demais ))),(retiro essa parte, portanto)

thorazine disse...

Fiury,
Ser génio é desculpa para muita coisa! :)))

Quantos quadros de Pollock foram realizados por crianças de tenra idade? O que importa é a intençao ou a "expressão" na arte contida?

fiury disse...

thorazine

a moldura não é concerteza,( embora eu goste
de coisas bonitas...)))
sabe que os melhores cozinheiros são os que não arrumam apressadamente os utensilios?
ser artista é uma realidade, como é a de
fazer um aborto clandestinamente ou a de ser homosexual.

o mundo ideal? pois, alunos arrumados atentos e organizados, heterosexualidade e preservativo.já agora a de nunca nos apaixonarmos perdidamente.

desculpe se não brilhei na minha exposição, mas( normalmente ) e porque não sou génio nem artista não escrevo compulsivamente.)))

Aspásia disse...

Uma boa notícia e que não vem do estádio é para nos regozijarmos... ainda há em Portugal quem esteja empenhado em salvar legados como esse e dá-los a conhecer, afinal não são só as camisolas dos futebolistas que se guardam como relíquias...

Abel Salazar estará para o Desenho como Rómulo de Carvalho/António Gedeão para a Poesia.

Não esqueçamos que muitos cientistas são também escritores, artistas ou músicos. Quem não se lembra da fotografia de Einstein tocando violino?

Bom início de semana a tutti.

CêTê disse...

"enquanto isto, penaliza-se a arte e o aluno desarrumado e desorganizado nos cadernos, na letra e na apresentação do trabalho.
critérios de avaliação confortaveis..."
Tssstssst
NOP! Não é como pensas, não é como dizem, nem todos pensam assim, nem todos apreciam cadernos escritos a mil cores de esferográficas perfumadas. Agora, é bom que se consiga ler o que outro alguém (ou o próprio;P) escreve. E é um desperdício de tempo e energias procurar e nunca encontrar por falta de organização (eu que o diga!)
boa madrugada ;]]]]]]]


Adoro Gedeão, aspásia!

APC disse...

Até eu tive um rapto de originalidade artística que talvez só depois de morta é que me será reconhecido...
;-)
(sorry, tava sem sono:-)

APC disse...

* "(...) é que me seja".
(agora é: sorry, tava com sono, lol)

APC disse...

Buscamos o nosso lugar no mundo porque conhecemos o nosso lugar mas não conhecemos o mundo.

Saber de algo é saber relativizá-lo, integrá-lo, ligá-lo ao resto para que dele traga e a ele dê. E conhecer-lhe os limites, para os tentar ultrapassar. E nunca, nunca parar de o fazer!

fiury disse...

cêtê

dá mais trabalho sim.
é comum ( não regra, claro!) numa determinada faixa etária as raparigas serem mais organizadas e cuidadosas na apresentação dos trabalhos e cadernos. alunas que não apresentavam tão bons resultados a nivel lógico matemático no 1º ciclo,por exemplo(comparado como alguns rapazes), ultrapassam estes a nivel de notas e é vê-las beneficiadas nas notas pela apresentação e não tanto pelo conteúdo. Aliás parte do ensino, em tenras idades, está feito à medida delas, bem vistas as coisas.
(é evidente que não me estou a basear no conhecimento de meia dúzia de escolas).

thorazine
as crianças também manifestam intenção e expressão na arte contida e a técnica foi beber (e comer.)))muita coisa à arte.

thorazine disse...

Mais uma vez este ano realiza-se o Salão Erótico --> http://www.salaoerotico.com/

Pena ser lá para baixo.. :((

thorazine disse...

fiury,
Até diria mais. Talvez a expressão das crianças seja bem mais profunda, apesar da falta de técnica (sem ser comer e beber), a prespectiva não sofre a maioria dos julgamentos! :)

thorazine disse...

E quase conjugando tudo, está aqui um site de um autor português que se baseia no erotismo que encontrei no site do saãoerótico --> http://www.carruco.com/ :)))