quarta-feira, novembro 21, 2007

Não importa, é importante que não fique por dizer.

O incrédulo


Diz-me que não estou enamorada,
às vezes apetece-me jurar-lhe
que esqueceria o sol entre os seus braços
ou quereria estar a beijar sempre
seus lábios ou que não me importa o tempo
ao olhar-me escuro, fixo, louco.
Porém de quê me serviria tanto?
Não acreditaria uma palavra.

Amalia Bautista.

25 comentários:

moon disse...

Pois... Mas cansa, desgasta...!
E não é só nas palavras que se transmite/sente amor, por isso, não 'saber' ouvir, olhar, não ler nas entrelinhas é grave!
Quanto a mim, o incrédulo magoa-se e magoa...

Ti disse...

Às vezes é preciso porfiar, mesmo que não valha a pena. Todos sabemos que quase sempre o destino é o próprio caminho.

noiseformind disse...

Boss,
Há qq coisa de muito útil na incredulidade. Por um lado obriga a outra parte a esforço redobrado para "conquistar" confiança e por outro lado permite eximir o incrédulo de provas de amor. Já viste o que era o homem retribuir os milhares de beijos e juras de amor dela? Depois como era? Tinha de ajudar em casa? Cozinhar? Arrumar? Que outras horríveis tarefas domésticas viriam com a retribuição desse carinho. Aqui estou com a Vanessa da Mata:

Eu perdi o meu amor para uma novela das oito
Desde essa desilusão eu me desiludi
O meu coração
Palpita aparte poupando-me de um pouco de sonhos
Depois desse desengano

E aquela atenção que antes eu ganhava
Se repartiu ao meio
Mulher parada
Ligada em outra história hipnotizada
Trocou o nosso caso que tava no tom

Eu vivia no jogo
Ela me esperava
Quando eu pedia fogo ela não negava
Se eu tivesse outra ela achava bom

Eu perdi o meu amor para uma novela das oito
Desde essa desilusão eu me desiludi
O meu coração
Palpita aparte poupando-me de um pouco de sonho
Depois desse desengano

Quando fomos morar juntos ela me adorava
Cozinhava, passava, me alisava
Eu contava piada ela gargalhava
Metia a mão nela e ela perdoava

A vida era boa ela não reclamava
Agora vive longe, não sei mais nada
Fugiu da nossa casa com a televisão

Lá está. Tudo era bom e o amor deles estava no ponto... para ele!!! Mas pronto, dou de barato que haverá cada vez menos mulheres a cair nessa armadilha do amor/culpa, e que não troquem sentimentos por usufruto das suas habilidades domésticas. E que n se importem de fazer uma comidinha mais mal-amanhada ao jantar para poderem estar uma horita ao tele com o tele-amante :))))))

Julio Machado Vaz disse...

Noise,
É importante para quem diz, longe de mim negar a sageza de alguma incredulidade:).

alice disse...

Uma vez, talvez só uma, apeteceu-me morrer assim, nos braços de alguém que não aceditou em mim. Lá fora as oliveiras alinhavam-se, pacíficas, nos campos a perder de vista; o sol escaldava a planície, salpicada a espaços por rochas graníticas. E o sítio tinha um nome que nunca revelei. Talvez mais tarde…

madame la Palisse disse...

Será que o nosso querio Julio anda a "chocar" uma avassaladora paixao?

Blogogamico disse...

Só me deixo a uma pergunta,

O que fazemos por amor?

Fora-de-Lei disse...

Tell me lies, tell me sweet little lies.

http://www.youtube.com/watch?v=mLfpian_dCQ

andorinha disse...

Boa noite.

Concordo a 200% com a Moon.
Quando o outro não ouve sistematicamente, não vale a pena repetir...se é "surdo"...
E também a 200% com o miúdo, mas isso já é habitual:)

"E que n se importem de fazer uma comidinha mais mal-amanhada ao jantar para poderem estar uma horita ao tele com o tele-amante :))))))"

Qual comidinha mal-amanhada?
Que faça ele ou que vá jantar fora:)))))))

Júlio,
Sageza? poderá haver.
Muitas vezes há é má-fé e jogo sujo. Como a Moon já disse, o incrédulo magoa-se e magoa e perdem os dois:(

Fora-de-Lei disse...

andorinha 7:32 PM

"Qual comidinha mal-amanhada? Que faça ele ou que vá jantar fora."

Minha desgraçada, enchia-te o cabaz todos os dias... ;-)

andorinha disse...

FDL (7.45)

:))) Looooooooooooooooool

CêTê disse...

Situações há que é bem melhor que fiquem por dizer ou se ditas que sejam lançadas ao vento norte.

Fiquem bem ;)

(Gostei do poema, claro)

thorazine disse...

"E não é só nas palavras que se transmite/sente amor, por isso, não 'saber' ouvir, olhar, não ler nas entrelinhas é grave!"

E quando que ouve "vê" meras palavras?

Talvez também haja muito amor banal, aquele que se vende a granel nos serviços da teletexto..

thorazine disse...

*quem

andorinha disse...

Ah ganda Cêtê!:)

És cá das minhas. Eu achava que não, mas a sageza trazida pela idade ensinou-me que sim.

Jinhos

Thora,
"E quando quem ouve "vê" meras palavras?"

Vocês, homens, são muito desconfiados:)))

Pamina disse...

Boa noite.

Concordo com o título do post...até certo ponto. Alguma incredulidade parece-me inevitável, instintiva, mesmo na pessoa mais segura de si. No entanto, quando a incredulidade se torna patológica, quase sempre aliada a cenas de ciúmes igualmente patológicos, penso que não há remédio e que o melhor é acabar com a situação.

A propósito do poema da Amalia Bautista, gostava de aproveitar a ocasião para divulgar a bela colecção de antologias de poetas espanhóis da editora Renacimiento. Para além do conteúdo ser apreciável, trata-se duns livrinhos adoráveis, todos com o mesmo tamanho e grafismo, cerca de 17/18cm por 12 e uma capa de cartolina brilhante às riscas de cores variadas (o dedicado à Amalia Bautista, Tres Deseos, nº16, é, muito apropriadamente, em tons de vermelho e laranja) cujo único senão será talvez o tamanho algo pequeno dos caracteres. Apesar disso, acho-os deliciosos, devido ao modo como cabem tão bem na mão e ao toque da capa. É um prazer agarrar neles:). São baratos, 10 euros, e não é preciso ir a Espanha comprá-los, pois o Corte Ingles diz que manda vir sem aumento de preço. Penso que, neste momento, esta colecção já vai no número trinta e tal.

Quanto à poetisa, descobri-a aqui no Murcon, já lá vai quase para três anos, e fiquei apreciadora.
A voz dela é muitas vezes a de uma mulher magoada que diz, por exemplo, (no poema Enigma): "El primer día que salí contigo/ dijiste que era extraño tu trabajo./ Nada mas. Sin embargo, yo sentia/ que mi piel se rasgaba hecha jirones/ cada vez que tus manos me rozaban,/ y que tus ojos eran como aceros/ que hacían que los mios me dolieran./ En adelante siempre fue lo mismo: tú te enorgullecías de tu arte,/ más sutil y directo cada dia,/ y yo no comprendía nunca nada./ Ahora lo sé. Conozco ya tu oficio:/ lanzador de cuchillos. Has lanzado/ contra mi corazón el mas certero." e (no poema A Dieta): "Me acoste sin cenar, y aquella noche/ soñe que te comía el corazón./ Supongo que seria por el hambre./ Mientras yo devorava aquella fruta,/ que era dulce y amarga al mismo tiempo,/ tu me besabas com los lábios frios,/ más frios y más pálidos que nunca./ supongo que seria por la muerte." ou (em Desnudo de mujer): "Para ti nunca fui más que un pedazo/ de mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,/ un cuerpo de mujer blanco e hermoso… Hoy estoy en un parque donde sufro/ los rigores del frio en el invierno… Pero, de todo, lo que más me duele/ es bajar la cabeza y ver la placa:/ "Desnudo de mujer", como outras muchas./ Ni de ponerme un nome te acordaste.", mas que, apesar de tudo, não desiste e escreve isto no último poema do livro:

"El Puente

Si me dicen que estás al outro lado
de un puente, por extraño que parezca
que estés al outro lado y que me esperes,
yo cruzaré esse puente.
Dime cuál es el puente que separa
tu vida de la mia,
en qué hora negra, en qué ciudad lluviosa,
en qué mundo sin luz está esse puente,
y yo lo cruzaré."

Sunshine disse...

O que é importante revela-se nas pequenas coisas... nos beijos quentes à chegada, no olhar, no abraço envolvente...

Ni disse...

JMV e PAMINA:

Agradeço terem partilhado aqui esta poetisa... estes poemas. Amalia Bautista é alguém que me toca pelas palavras... e muito intensamente...

"Al cabo, son muy pocas las palabras
que de verdad nos duelen, y muy pocas
las que consiguen alegrar el alma.
Y son también muy pocas las personas
que mueven nuestro corazón, y menos
aún las que lo mueven mucho tiempo.
(...)"

Amalia Bautista


PAMINA:

A par do poema 'El Puente', há outro que me comove imenso...

CUENTAMELO OTRA VEZ

Cuéntamelo otra vez: es tan hermoso
que no me canso nunca de escucharlo.
Repíteme otra vez que la pareja
del cuento fue feliz hasta la muerte.
Que ella no le fue infiel, que a él ni siquiera
se le ocurrió engañarla. Y no te olvides
de que, a pesar del tiempo y los problemas,
se seguían besando cada noche.
Cuéntamelo mil veces, por favor:
es la historia más bella que conozco.

Amalia Bautista

JFR disse...

E quantas vezes o incrédulo é, apenas, alguém com falta de autoconfiança?

Porque é que este incrédulo não acreditaria numa palavra? Não poderá ser, tão-só, por poder haver dissonância entre o comportamento visível da enamorada e as palavras reflectoras dos seus sentimentos?

E a afirmação "Não acreditaria uma palavra" não poderá ser a confissão de que existem motivos para isso? Um passado que o justifica? Uma envolvente que o determina?

Não. Não estou seguro de como interpretar o poema. Fica-me a concordância com o título. Só essa acção - dizer -, retira a incredulidade ou força a sua justificação.

P.S. - Saúdo o regresso da Pamina.

noiseformind disse...

Um exemplo nada a ver com afectos, para me explicar melhor. Achava estranho a música "The Pretender", primeiro single do último algum dos Foo Fighters, arranhar as minhas colunas. Incrédulo, passei sobre a música o filtro de análise do Traktor. O resultado? Os malandros gravaram a voz no espectro sonoro regra geral dedicado à bateria. Logo a bateria "sabe" aos ouvidos como se fosse a verdadeira voz e a voz soa a uma fortíssima bateria. A minha incredulidade fez-me procurar activamente um motivo para a sensação de desconforto face a algo. N acreditava no que os meus ouvidos me diziam. E confirmou-se haver uma anomalia, que nem é anomalia pq os gajos pagam milhões a técnicos de som e de certeza que aquilo soa exactamente ao que eles queriam que soasse, soando várias faixas do album assim.

A incredulidade genuína de alguém afectivamente envolvido, e era isto que eu queria realçar ao meter a Vanessa ao barulho, traduz-se por uma busca de significado, pela envolvência e pela relação com o Outro. Se essa busca de significado é engolida por outros constrangimentos que levam ao afastamento dessa pessoa sem uma desconstrução do mótil da incredulidade ou temos a base pouco firme para a ligação afectiva ou temos alguém a pagar, com a sua atenção e o seu afecto, por fantasmas que assombram a "coisa amada". Em ambos os casos haverá excesso de palavras e falta de abraços ; )))))))))

Andorinha,
A 200%? Fica para compensar das vezes em que discordamos a 150% ; ))))))

Pamina disse...

JFR,
Obrigada:). Um abraço.

Ni,
Também gosto muito desses. Aliás, gosto de todos:).
O Cuéntamelo foi posto aqui, julgo que em Março de 2005 e depois outra vez no Verão desse ano. O Al cabo também, mas não me lembro quando. Se nessa altura ainda não lia o Murcon, poderá ser engraçado ver os comentários de então.

Nelson disse...

Amalia Baustista de novo! Cada vez que descubro mais um pouco, mais quero conhecer da sua poesia!

Esta é a tentativa de encontrar uma justificação para assumir que não se está enamorado. Isso só acontece porque já sentimos todos sinais que resultam da paixão que nos envolveu. Mas temos receio de a viver, ou melhor de a assumir com as consequentes fragilidades que elas trazem e nos deixam expostos!

CêTê disse...

Achei "piada" `segunda parte do comentário do Noise- só para que conste.

Mas,... agora o que faço? Se me apetece "amandar" abraços?
"Amando-os" à mesma.
;)

_BRAÇOS ;))


olhem e já agora.... BOM NATAL E BOA PASSAGEM DE ANO

Cleopatra disse...

Ai ai....suspiro.

~pi disse...

:)