sexta-feira, novembro 02, 2007

A quinta do Vale.

Cantelães. Fogo na encosta, calor humano em casa. Amigos estiveram, amigos estão, amigos chegarão. A Quinta do Vale foi sonhada assim - um refúgio de portas escancaradas. A lareira dá os primeiros passos; a mesa agradece a invasão; os sofás acolhem gente que se divide entre a televisão e a sesta. Quando chego à porta da sala, invade-me um sentimento de gratidão, a tribo acompanhou-me na aventura da Cabreira. Talvez seja essa a fronteira - se gostamos, dizemos presente se alguém constrói um refúgio. Se não, aproveitamos o pretexto para nos afastarmos. Estou grato aos primeiros, não guardo rancor aos segundos, a cada um o seu caminho, sem hipocrisias.

24 comentários:

yulunga disse...

Dr. Murcon
A lareira é aberta, espero.
Não consigo imaginar esse ambiente sem o cheiro de lareira.
Abaixo as lareiras fechadas!

Tangerina disse...

Nem sempre o refúgio que escolhemos para nós serve aos outros.
E nem sempre temos o nosso próprio refúgio.
Talvez por isso, nos juntemos a uma tribo qualquer e finjamos que é também nossa a toca dos outros.

andorinha disse...

Boa noite.

Boa "curtição" do seu refúgio de portas escancaradas.

:)

Quanto à "fronteira", não sei se concordo consigo, mas isso fica para uma outra conversa:)

Laura disse...

- Será que teve de fazer algumas concessões, Professor?

Pela minha experiência, o refúgio, a ser 100% o nosso espelho, raramente tem essa força centrípeta, universal e assídua!
Mas se cedermos aqui e ali no cenário, e nos privarmos de alguns pequenos quês deliciosos do "efeito espelho", a coisa já funciona de outra maneira (= melhor).
Afinal, a vida são os outros também, não é?! E temos de os prever nos nossos espaços, senão...

Mas talvez não tenha tido de ceder nada. E o iman venha mesmo de si,
claro!

Julio Machado Vaz disse...

Laura,
Não fiz concessões nem exigências. Quem quis, veio:))))))).

almz disse...

um sitiado amigo é um bom sitiado, bons confrontos,

olhosquefalam disse...

a lareira aquece-me agora as memórias. a memória da minha avó a assar maçãs directamente no lume, e a contar-me, uma e outra vez a sua velha história. uma história de pobreza, uma história de pai e irmão perdidos no brasil, a história de uma menina criada por sua mãe e sua madrinha...a história de uma rapariga que se enamorou e se cresceu nas bouças do monte s.lourenço...uma história de abandono de um marido, pai dos seus 6, que parte p'ra 1 melhor futuro, mas que se esqueceu de dizer que seria só dele esse futuro...este é um dos meus refúgios...esta memória boa de maçãs assadas...outro são os amigos...muitos mas bons!!! e o que consigo ser hoje é também pra ela, minha avó e madrinha, que me emprestou o nome e me doou os seus olhos que falavam...um dia, a memória dessa lareira vai ser também o refúgio dos seus netos...e se tivermos conseguido ser o refúgio de alguém, a lareira que aquece a alma, viveremos pra sempre, na recordação...

andorinha disse...

Eu não consigo entender que em relação a amigos se façam concessões ou exigências.
Mas isto sou eu, que tenho esta estranha forma de pensar:)))))

Quanto à "fronteira", não penso que seja por aí...só se está a pensar em alguém em concreto.
Como generalização, parece-me abusiva como todas elas:)
Pode-se continuar a ser amigo, a gostar muito de alguém, a estar até bastante presente e não partilhar o refúgio.
Resumidamente é a minha opinião; aliás, este seria um bom tema de conversa murcónica...
:)

JFR disse...

Andorinha:

Estou de acordo quanto à não indispensabilidade de partilhar o refúgio, para continuar a desenvolver a amizade. Mas discordo quanto às não exigências aos amigos e às concessões destes. Penso, até, que é a maior proximidade que motiva uma maior exigência e que requisita disponibilidade para maiores concessões.

andorinha disse...

Bom dia.

JFR,
Se calhar não consegui traduzir por palavras o que penso.
Peguei na frase do Júlio: "Não fiz concessões nem exigências" e dissertei a partir daí.

O que é que eu "exijo" aos amigos? Que estejam presentes nos bons e nos maus momentos.
O que é que eu lhes dou? Exactamente o mesmo, o saberem que podem contar comigo em quaisquer circusntâncias.
Neste sentido a exigência é muita, sim, só assim entendo a verdadeira amizade.
Mas não é uma exigência que eu faça, é algo que decorre naturalmente de uma boa amizade.

Fora-de-Lei disse...

andorinha 12:13 PM

Fico à espera... ;-)

cdgabinete disse...

Gosto muito do conceito de refugio de portas escancaradas!

Julio Machado Vaz disse...

Limitei-me a responder a Laura. Para ter amigos em Cantelães não fiz concessões, porque haveria de as fazer? Mantive-me igual a mim próprio e levei à letra o plano que acariciava há tantos anos para a Casa do Vale. E também não fiz exigências, há gente da tribo que não aprecia a Cabreira, sente a falta da cidade ou do mar. No problemo, esses aparecem de fugida, mas há sempre um talher à sua espera:).

andorinha disse...

FDL (4.21)

Eu também...:)

Júlio,

Foi exactamente nesse contexto que eu disse que concessões e exigências não faziam sentido, para mim.
"Há gente da tribo que não aprecia a Cabreira..."
Vê por que razão eu acho que a fronteira não é por aí?:)

Ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana disse...

Considero este Post extraordinariamente acolhedor: uma aprazível daquilo a que chamo "o calorzinho".

Julio Machado Vaz disse...

Andorinha,
Estava a falar dos que nem sequer alguma vez apareceram:)

Julio Machado Vaz disse...

Andorinha,
Estava a falar dos que nem sequer alguma vez apareceram:)

Julio Machado Vaz disse...

Andorinha,
Estava a falar dos que nem sequer alguma vez apareceram:)

andorinha disse...

Aí já lhe dou alguma razão...,mas mesmo assim, pode haver atenuantes...:)

Sunshine disse...

Exige-se num relacionamento (neste caso a dois), fazem-se concessões? Concessões de certeza (até onde?). Exige-se? Este é o meu dilema.
Quanto a refúgio sinto que perdi o meu, que durante 20 anos constrí, não sózinha bem entendido, e agora vejo desmoronar-se... alguma coisa não ficou no lugar cero, de certo...há que por mãos à obra e construir aquele que vai ser o meu novo refúgio.
Tenho a certeza que puxei o tema do seu post para aquilo que me interessava, mas...não é isso que temos que fazer?
Aprecio muito os seus livros, ainda não li o último, infelizmente, e sou espectadora assídua dos seus programas,alguns dos quais me têm ajudado

Su disse...

..se assim é para a proxima vou ...ehehehe

jocas maradas de dias bons

Ti disse...

O caminho para a felicidade é muitas vezes o da sabedoria (não a erudita).
O professor parece-me sábio...

Laura disse...

Fora de horas, mas cá vai, a propósito do meu comentário (muito) acima.
As CONCESSÕES de que eu falava eram uma coisa diferente daquilo em que se tornaram aqui :):)
E até tinham em mente mais propriamente a família.
Coisas do tipo:
a)- adapto-me aos horários de refeição dos meus filhos; ou mudo os meus ou deixo-os comer à hora que querem
b) - apesar de desejar muito ter a piscina, bem democratizado, não a faria pelo trabalhão que dá e o efeito apelativo que tem sobre quem é bem vindo e não é. Mas +por causa dos filhos, fi-la.
c)- Pus música com saída em todas as partes comuns, especialmente o terraço e o jardim, de onde se disfruta uma vista assombrosa, boa para demolhar na bebida de fim de tarde. Mas tenho de gramar umas bandas heavy metal de quando em vez... Prefiro isso a a afixar um grande "index" no hall de entrada e no frigorífico.
d)- Gosto de me levantar cedo. Odeio ter de fazer pouco barulho, mas tem de ser.
e) Gosto de me levantar tarde, mas nem gozo muito o descanso por causa da algazarra da criançada
f) Teria posto aqui o meu móvel Y, mas o arquitecto da família advertiu para o seu efeito dissonante e eu tenho gosto em incluir a estética dos outros utentes da casa na minha própria estética
g) hoje tinha programado uma noite de leitura à lareira, mas A e B estão cá, vou ter de desistir e fazer sala. Paciência, é bom que cá estejam.
h)esta miudagem é infernal, estragou-me a plantação de X que tanto me custou a fazer pegar. Também eu fiz muita estragação no meu tempo...
i) Adoro ter os meus filhos à volta, mas chateia-me quando me deixam as crianças entregues...

et, etc, etc...

Pela parte que me toca de experiência, abrir as portas é, sim, fazer concessões ao refúgio...

E a minha experiência é divertida:
- como utente-filha, por sua vez com filhos, na casa-raiz dos meus pais, onde eles se "refugiam" nos verões e alguns fds que o mau tempo nortenho nos ofereça
- como utente-dona de outro refúgio, onde passo de filha a mãe e faço por manter o meu cenário.

Não deixa de ser interessante a diferença de estatutos, e por vezes tem mesmo, para mim, os seus efeitos cómicos...