sábado, agosto 13, 2005

O velho Eça:).

Hoje o Expresso debruçava-se sobre os casos de pessoas que abandonam os seus animais durante as férias e a Clara Ferreira Alves deslizava desse abandono para outro - o dos idosos. Acontece que eu estava a reler o Eça (qualquer dia, estou como alguém que dizia: "je ne lis plus; je relis"). E não resisti a passar da tristeza ao riso com o inimitável Ega:

"Voltou-se para o lado, para o Ega:
- Vossa Excelência pertence?
- À Sociedade Protectora dos Animais?... Não, senhor, pertenço à outra, à de Geografia. Sou dos protegidos."


E porque falámos recentemente de quem dirige os destinos das nações:


"- Ó Ega, quem é aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em Inglaterra havia também literatura?
Ega olhou-o com espanto:
- Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste imediatamente quem neste país é capaz de fazer essa pergunta?
- Não sei... Há tanta gente capaz...
E o Ega radiante:
- Oficial superior de uma grande repartição do Estado!
- De qual?
- Ora qual! De qual há-de ser?... Da Instrução Pública!


E agora, maralhal, citando ainda o Ega: vou pastar!:). Fiquem bem.

51 comentários:

lops disse...

Lindo! Sempre achei que a doce ironia era uma perspectiva de longe muita mais simpática para se lidar com os nossos defeitos nacionais do que uma amargura frustrada...

Aproveito para felicitar o Professor pelo seu blog que desde que o descobri no último mês me tem proporcionados momentos de reflexão e de prazer.

Julio Machado Vaz disse...

Lops,
Obrigado, apareça sempre:).

Anónimo disse...

Olá senhor Prof. Julio Machado Vaz. desde que descobri este "noticiario " tenho-me deliciado com o que leio.
Admiro-o e gosto do que escreve.
Os Idosos , não deviamos envelhecer ,para ter sinais menos . Cada dia que passa é um sinal menos.
Elizabeth

TMara disse...

pessoalmente já entrei no clube dos releitores. Claro k leio coisas novas mas com + peso e medida de k há naos atrás qnd ...enjoei.

TMara disse...

pessoalmente já entrei no clube dos releitores. Claro k leio coisas novas mas com + peso e medida de k há naos atrás qnd ...enjoei.

jotakapa disse...

O tempo passa, mas a forma de estar tão lusitana continua igual. Ou pior...

W disse...

Sobre os idosos:
(no princípio do passado ano li na net este texto):
Ele envelheceu um pouco nestes últimos tempos; nota-o quando olha o espelho ao desfazer a barba; interessante é notar também os pêlos brancos do peito; também não é para admirar. Mas a vida é assim, a vida prega partidas com as quais não se conta. A vida poupo-o durante muitos anos mas nestes últimos dez não foi fácil.
Começou pela falência da sua empresa e os problemas inerentes e subsequentes deram chatices e as pressões provocaram danos; mais tarde, foram problemas do foro afectivo e a seguir problemas de saúde. Passou alguns maus bocados. Quando tudo parecia estar “resolvido” um novo factor destabilizante surgiu para lhe provocar novas dores de cabeça. Há já mais de um ano que ele vive só na companhia de duas velhinhas de 90 anos, sua mãe e uma sua tia; esta já se encontrava acamada mas tudo se ia resolvendo de forma consertada entre ele e sua mãe; porém, eis senão quando, sua mãe também cai doente mas sem doença, “cai” de cansaço, de velhice, de tempos demasiados de pesada vida ao longo de muitos e muitos anos.
Ele é filho único e não tem mais ninguém a quem recorrer; tem os filhos mas estes estão um pouco longe e têm as suas vidas; sempre que podem e tal se torne necessário, eles o ajudam em casos específicos. No entanto, para o dia a dia, ali presente, ele está só.
E sente-se só.
Face aos acontecimentos, teve de criar uma rotina, pois os tratamentos, as medicações e outros factores a isso obrigam; assim, levanta-se por volta das sete e trinta; abre as janelas para que a luz ilumine o ambiente; liga o fogão; prepara a tia para a higiene matinal; depois prepara o pequeno-almoço para ela e termina com o refazer da cama e da limpeza do quarto.
Segue-se idêntico tratamento para sua mãe ainda que não esteja incluída a higiene na medida em que ela ainda a consegue proceder de moto próprio.
Depois delas “arrumadas” ele vai “tratar” de si mesmo.
Por volta das dez da manhã sai e vai fazer as compras que entende necessárias e toma o café da manhã (vício de longos e longos anos).
Regressa a casa e vai ao computador ver o que se passou durante a noite; lê os mails e escreve alguma coisa, pouca é certo pois é necessário ir fazer o almoço.
Tem de fazer as “coisas” como faz no pequeno-almoço: primeiro trata da alimentação da tia e depois almoça ele mais a mãe; findo o almoço segue-se o arrumar da mesa e dos demais acessórios e o lavar da loiça. Por volta das catorze e trinta está “livre” e vai sentar o corpo para descansar a sesta.
A rotina regressa por volta das dezoito horas e segue os mesmos termos até às nove.
É nesta altura que ele se senta em frente do seu portátil e tenta distrair os seus nervos; nervos que se vão deteriorando não por um cansaço físico mas por um sentimento de impotência perante aquilo que a vida lhe deu; sente-se cansado por “dentro”. Então, fala dos “seus” pardais, do gato e do cão, do seu quintal e do sol que se põe sempre a oeste; fala das suas rosas, das nuvens e do vento leste; fala de tudo, menos dele e do “lobo” que há dentro dele… Fala de amor, do amor, de como amar sem posse nem destino; fala de amor incondicional e não o entendem; fala de voos palermas e escreve alguma poesia… Gosta de escrever contos, pequenos textos e alguns pensamentos; gosta muito de fotografia e gosta de as legendar. Fala sobre palavras… ama-as e ama as pessoas…
A resolução do problema passa pelo provável internamento da tia, mas tudo leva o seu tempo neste burocrático país de papéis e petições. Entretanto tem de ser assim.
Às vezes nota-se nele um desânimo e uma tristeza latente. Mas sente-se que a tenta ultrapassar; vê-se muitas vezes um sorriso aberto nos lábios e os passeios pedestres que ele faz ao meio da tarde servem para desanuviar a tensão acumulada durante o dia.
Diariamente lhe perguntam como é que vão as doentes; invariavelmente e a sorrir, responde sempre da mesma forma: “Obrigado, as minhas velhinhas estão bem!”

Pamina disse...

Boa noite JMV e Maralhal,

Quanto ao abandono de animais nesta época de férias, à conta disso, tenho eu cá quatro cães que encontrei, feridos e famintos, num estado absolutamente deplorável.

Parece que muitas pessoas fazem o mesmo com os seus "velhotes".
Um amigo médico, disse-me que é vulgaríssimo os familiares abandonarem-nos no hospital, particularmente no Verão. Também com o preço a que estão os lares. Eu sei que não é justificação, mas muitas famílias têm poucas alternativas. Onde estão os lares com boas condições e pagáveis?
Os meus familiares holandeses seniores estão todos muito confortavelmente instalados em bons lares que custeiam com os seus próprios recursos. Na Holanda não é normal os filhos ajudarem os pais financeiramente. Não há necessidade disso.

Quanto ao Eça, JMV, está então a reler os Maias? Encontra-se sempre qualquer coisa no Eça terrivelmente actual, não é?
A editora Principia publicou em 2004 uma nova edição das Farpas. Mudaram os tempos, mudaram os nomes, mas a m… é a mesma.

Vejam aqui como eram os boys da época.

dKin disse...

Há uma anedota q caracteriza bem a parte triste do nosso país, "Estava Deus a fazer o mundo, (abreviando)quando chegou a Portugal, depois de ter dado marmotos num lado, furacões noutro, deu-nos um belo país, com um óptimo clima e pergunta um ajudante, o pq deste ser um país privilegiado, ao q Deus respondeu:
Vais ver o tipo de gente q lá vou pôr!"
E na minha prespectiva é mesmo assim, começando nos animais, e nos idosos abandonados em época balnear, passando pelos fogos, na grande maioria, provavelmente, postos por alguém q pura e simplesmente achou piada, acabando na reciclagem q ainda fica àquem do esperado... Deve-se isto a"o tipo de gente" q cá temos!
É claro q estou a generalizar, mas poucas são as excepções q fazem a regra!

Beijinho Professor, sempre a "postar" o q interessa. ;)

dreamer disse...

To Porty

Thanks for making me dreamimg again...

;)))

I'll come back whenever I can...

Sweet dreams to all of you
:)))))))))))))))))))))))

dreamer disse...

Cara W

Também li esse mesmo texto...
Bonito e comovente...


Sweet dreams

PortoCroft disse...

Dreamer,

;)


Caro Prof. m8,

Há coisas, em Portugal, de bradar aos céus. Ninguém sabe o que quer ou o que faz. Pior: Ninguém é responsabilizado.

Sempre que há novo Governo, é certo e sabido que são criados novos ministérios e Secretarias de Estado que, a mais das vezes, enm uma legislatura duram. Ninguém ainda pensou que isso tem custos. Ninguém ainda pensou em estabelecer duma vez e por todas a quantidade e nomenclatura dos ministérios necessários para a governação do país. Pior: Regra geral, os ministros ocupam pastas para as quais em nada, profissional ou curricularmente, estão habilitados.

É de sorrir com o pedaço de texto do Eça? Não. Não é. É de chorar de raiva, por continuarmos a ser um país adiado e à mercê de clientelismos e de mercenários.

PortoCroft disse...

Caro Prof. m8,

Perdoe-me a nota dissonante:

Se fossem espertos, nomeavam-no - Psiquiatra / Sexologo Ministro da Saúde e de Estado. O país ganharia com isso e os restantes aprenderiam a fazer a coisa como deve ser. ;))))))

escrevinhador disse...

O seu avô tinha razão: "está lá tudo"! :)
P.S: A diferença entre os clássicos e os outros, é que os clássicos se releem.

vivi disse...

Portocroft,
no momento actual, as regras de escolhas dos ministros não parecem passar muito pelas competências, salvo uma ou outra excepção, necessárias para confirmar a regra, pelo que, creio, que o Prof. JMV tem qualidades a mais para o cargo!!

PortoCroft disse...

Vivi, ;)

Pois. Mas, é indispensável acabar com os governos que passam o tempo a quecar o povo sem os devidos conhecimentos cientifícos. É caso de polícia!... ;)))))

Falando sério:

Ou serão os paquidermes que por lá andam que têm qualidades a menos?

Lops disse...

Portocroft,

acho que levantou um dos pontos mais importantes, senão o fundamental quanto à gerência desde país, a responsabilização, "Ninguém é responsabilizado." Isso é uma constante, a desresponsabilização, tudo o que de errado aparece e é relatado nos noticiários e na imprensa em geral não é corrigido e não se apuram responsabilidades. Nunca se vê: "... o eng. X não fez o seu trabalho adequadamente, daí o acidente e as consequências para o eng. X serão..." Apesar de não querer perder o que de bom há no espírito complascente português, desejava que não se concluisse sempre da mesma forma, que se apurassem responsabilidades para haver modificações no comportamento das pessoas, porque para erradicar o laissez aller há que punir a imcompetência. No entanto não sei se é compatível o modo de vida português, refiro-me à nossa hospitalidade, ao nosso espírito bon vivant, à nossa simpatia e aptidão geral para a festa :), com o mundo da eficácia e da responsabilidade que espelham os países norte-americanos e da europa (note-se mais no norte também).

Gostava também de deixar aqui expressa a minha nostalgia pelo tempo que passa, tão rápido.

abraços e beijinhos

P.S. este blogue é muito bom! os meus parabéns a todos os que aqui opinam, as vossas palavras tem-me proporcionado momentos muito agradáveis.

vivi disse...

É claro que o problema passa pelas tais qualidades a menos, mas quer-me parecer que quando alguém tenta fazer trabalho sério, como a maioria tem outros critérios, vê-se e limitado e, em minha opinião, uma recente saída de um elemento, não será alheia a esta situação.

PortoCroft disse...

Vivi,

Pois é. Quando os interesses políticos imediatos se sobrepõem ao interesse nacional...

RAM disse...

Adoro o Eça. É sempre bom lá voltar. :)))

Era um visionário...

Mas a propósito de velhice:

Parado e atento à raiva do silêncio
De um relógio partido e gasto pelo tempo
Estava um velho sentado no banco de um jardim
A recordar fragmentos do passado

Na telefonia tocava uma velha canção
E um jovem cantor falava na solidão
Que sabes tu do canto de estar só assim
Só e abandonado como o velho do jardim?

O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti prá não ver
A imagem da solidão que irão viver
Quando forem como tu
Um velho sentado num jardim

Passam os dias e sentes que és um perdedor
Já não consegues saber o que tem ou não valor
O teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
Para dares lugar a outro no teu banco do jardim

O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti prá não ver
A imagem da solidão que irão viver
Quando forem como tu
Um resto de tudo o que existiu
Quando forem como tu
Um velho sentado num jardim

Mafalda Veiga

PortoCroft disse...

Lops,

É a responsabilização e a criminalização de todos os actos e decisões políticas que, por incompetência, erro de relaxe ou omissão, delapidem o património público.

Pamina disse...

Olá Lops(12.46),

O seu comentário lembrou-me três casos mediáticos:a queda da ponte de Entre-os-Rios, o Aqua Park e o miúdo que foi electrocutado quando carregou no semáforo. Como diz, somos sempre deixados com a amarga impressão que os responsáveis ficam impunes.
Neste último caso, quem acabou por ser condenado foi um trabalhador que não percebia nada do serviço que era suposto executar, enquanto que a firma responsável pela manutenção dos semáforos continuou a ser contratada pela C.M. de Lisboa (não sei se ainda é neste momento, mas não foi imediatamente "despedida" na altura).
Concordo consigo, é necessário punir a incompetência e premiar o valor e a competência. Infelizmente, não há esta tradição em Portugal (e voltamos ao Eça).

RAM disse...

O mal de Portugal é esse. Somos todos demasiado espertos, o que não seria trágico, se o Estado não fosse tão estúpido. A burocracia convida os cidadãos a aldrabá-la, porque a alternativa à aldrabice é tão penosa, tão cara, tão morosa e tão chata. Quase se poderia dizer que a absoluta legalidade, entre nós, corrompe a alma. Depois a burocracia é excessivamente artrítica para nos "apanhar" e, caso nos apanhe, para nos castigar. Com um Estado lento e estúpido e um sociedade civil toda "pepe rápida" e espertalhaça, estão criadas as condições para o desenvolvimento livre e desenfreado do sistema português da aldrabice. É claro que ninguém quer, ninguém gosta, mas também é verdade que, sendo assim, ninguém resiste.

Miguel Esteves Cardoso, in "A Causa das Coisas"

Actual, não????
E sim... a sociedade civil apática não se pode deitir da sua responsabilidade no actual estado de coisas: não apenas - mas também - porque "o poder político emana do povo", mas, PRINCIPALMENTE, porque "os políticos emanam da sociedade civil" em cujo seio foram gerados e cujos "pecados" partilham.

Disse!
Boa noite!

Uma boa bengaladas...
... umas boas bengaladas, era o que esta malta precisava!

Débora disse...

O Ega, o meu personagem favorito dos Maias! A ironia corrosiva e brilhante.
Adoro o Eça, que continua muito actual, aliás como Garrett e outros – não sei se porque seriam visionários, se porque o ser humano nunca muda . Se assim for, as perspectivas de mudança são longínquas.
No entanto, temos pelo menos a obrigação de aprender com os erros do passado, caramba!

Concordo com o Portocroft – voto no Prof. Murcon para Ministro da Saúde!!! Todos ficaríamos a ganhar. Será que poderíamos instituir uma nova forma de votação? Tipo - um grupo de cidadãos decidiu que a escolha do Primeiro-Ministro para a Saúde é desastrosa. Logo, propõem que o actual Ministro da Saúde seja substituído de imediato pelo Prof. JMV? Teríamos que alterar primeiro a Constituição …

Quanto ao abandono dos animais e idosos, aplica-se o mesmo princípio que há dias expressava relativamente aos companheiros não funcionais por qualquer motivo (doença, velhice), que não devem ser descartáveis. O respeito ainda é uma virtude.
O mesmo se pode dizer dos animais e idosos – já nos “serviram”, agora não temos tempo, nem oportunidade ou dinheiro, portanto descartam-se! Como é que esta gente dorme descansada? Não entendo. E penso que, acima de tudo, não respeitam os outros, porque não se respeitam antes de mais, a eles próprios. Daí, tanta leviandade …

Ram,

Que lindo poema da Mafalda Veiga! Ainda tão jovem e a perspectivar o futuro – notável!

Saudações,
Débora

RAM disse...

E já que estamos - eu o pelo menos estou - numa de (des)responsabilização, que tal mais um excerto do MEC:

"Um português só faz o que deve, e só dá o seu melhor desde que TODOS os outros o façam também. Uma maioria não basta. Só satisfaz a unanimidade. Se assim não acontecer, afere o seu comportamento pelo comportamento dos piores. Em qualquer situação que exija um esforço colectivo, a nivelação individual é invariavelmente feita segundo o esforço mais baixo. É por isso que os resultados são tão rascas.
[...]
A mediocridade portuguesa respeita integralmente a etimologia: trata-se de respeitar escrupulosamente a média. A média é rasca porque cada um procura ser tão rasca como o mais rasca de todos.
[...]
Perante esta mediocridade tão artificiosa, em que muitos cidadãos dão tudo por tudo para dar o menos possível, é óbvio que impera a lei do "Quem tem um olho em terra de cegos, é rei". Em Portugal, A MAIORIA DAQUELES QUE TÊM UM OLHO, OLHANDO EM REDOR E VENDO TANTO CEGUINHO, NÃO PERDEM TEMPO EM FECHÁ-LO. E CONSIDERAM-SE ESPERTALHÕES: "SOU ALGUM PARVO, NÃO? SE ANDAM PARA AÍ TODOS AOS ENCONTRÕES, SEM FAZER NENHUM E SEM VER NADA À FRENTE, PORQUE ME HEI-DE ARMAR EM ZAROLHO?" Esta lógica é aceite com facilidade.

Débora disse...

Pamina e Ram,

Estava justamente a lembrar-me desses, particularmente o da Lusoponte, por ser o mais recente. é vergonhoso e revoltante!!!
Neste país ainda se compra a justiça, passados mais de 30 anos sobre a revolução.
Como é isto possível, sendo público? Toda a gente faz o que lhe apetece, impunemente?
O que é que nós, sociedade civil, podemos fazer nestes casos? O voto é insuficiente ...
Obviamente que não foram cumpridas as normas de segurança - caso contrário, as crianças não teriam caído na vala.
Este país precisava de ser todo auditado!!!

Pamina,

A Holanda é outro mundo - mais pequeno que Portugal, mas muito melhor ...

Saudações,
Débora

Pamina disse...

Débora(1.48),

O caso que menciona é realmente revoltante. Também não sei o que é que podemos fazer. É terrível esta sensação (que eu e penso que muitos outros vamos tendo cada vez mais) de que não importa por quem se vota, pois "são todos iguais".

Quanto à Holanda, tem cerca de metade do tamanho de Portugal, mas 16 milhões de habitantes. O número de desempregados é cerca de 450.000. Nos últimos anos tem havido também alguns cortes nas regalias sociais, mas a qualidade de vida é ainda muito superior. Segundo um inquérito recente acerca do grau de satisfação dos cidadãos dos estados membros da UE, a grande maioria dos holandeses declarou-se satisfeita com a sua vida, enquanto que o resultado relativo a Portugal foi o inverso.

Saudações também para si e boa noite.

PortoCroft disse...

"O PS pagou a factura da arrogância, do autismo de políticas sinuosas ao sabor das sondagens e dos grupos de pressão, de uma obsessão vesga pelo poder..."
Julio Machado Vaz - Estes Difíceis Amores

Caro Prof. m8,

A História repete-se? Repete-se! Infelizmente. Ele há tanta gente convencida de ter Portugal no umbigo.

RAM disse...

Caro PortoCroft,

Qual PS, qual PSD, qual nada. Este País está adiado... sine die.

Releio o saudoso MEC:
"Também não é por acaso que se utiliza o pretérito imperfeito ( em vez do condicional correcto) do verbo DEVER - devia - com o infinitivo do verbo HAVER. Será que o DEVIR português é, no fundo, o pretérito imperfeito do DEVER de Portugal (a sua História e Cultura quase perfeitas)? Será que os portugueses evitam utilizar o condicional (deveria haver) porque, presentemente, em Portugal, não há condições para que haja seja o que for?"

RAM disse...

Pamina e Débora,

É engraçado que refiram a Holanda como exemplo.
Quando de lá regressei em Dezembro do ano passado, confesso que me vi num súbito estado de letargia – ou seria mesmo depressão pós-traumática? - fruto da epifania que tive quando readquiri o contacto formal com a situação nacional: Tinha deixado a civilização para trás!
Mas cara Pamina, sabe qual é a taxa máxima de IRS lá: 70%.
O “paradigma do chico-esperto” está de tal maneira inculcado - ou será incutido? - na matiz da nossa sociedade civil que não só nos contentamos em ser medíocres, como nos apraz a mera constatação de “não sermos tão maus como o vizinho”, e deixamos que todo o capital humano e patrimonial (arquitectónico, cultural, histórico, económico) deste País com 8 séculos de história seja devassado.
É uma m. é o que é!

RAM disse...

Débora (1:48 am):

"O que é que nós, sociedade civil, podemos fazer nestes casos? O voto é insuficiente ..."

Em 7 de Julho recordei a reflexão, sempre atenta e assaz pertinente de Alain Tourraine, no seu livro "Como sair do Liberalismo":
"Mas do que temos mais necessidade não é de mais Estado ou de mais mercado, mas de menos Estado e menos mercado e mais iniciativas, negociações, projectos, conflitos propriamente sociais, através dos quais se construirão as relações indispensáveis (e constantemente em mudança) entre condicionalismos e as possibilidades da economia e as reivindicações ou as resistências dos actores sociais."

PortoCroft disse...

Caro RAM,

Concordo. Vai de encontro ao que eu escrevi ontem às 9:29 PM.;)

António Pedro Ribeiro disse...

Caro RAM, permita discordar: precisamos é de mais mercado. Como muito bem dizia um dos Acidentais (do blogue "Acidental"), Portugal é um País semi-Socialista, em que metade da riqueza é produzida ou gerida pelo estado. Basta. O que é preciso mesmo é mais mercado, mais iniciativa privada. Eu sei que A. Touraine diz que não é preciso mais estado. Mas também diz que não é preciso mais mercado, e com isso discordo. É preciso mais e melhor mercado, dotar este Pais de um espírito de iniciativa que faça com que cada um gira e invista o seu capital sem interferências outras - ou só as minímas. E que o estado se limite à Defesa Nacional, à Justiça,à segurança, e pouco mais.
Olhe que o mercado não é um bicho-papão! :)
Saudações a todos!

António Pedro Ribeiro disse...

De resto, é típico de um Pais que desconfia do mercado, esta recriminação dos políticos sobre questões económicas. Um governo sinceramente honesto deve dizer que não pode prometer acabar com o desemprego ou aumentar os salários, porque, globalmente falando, isso é com o mercado. É preciso responsabilizar os cidadãos, e desresponsabilizar o estado.

Su disse...

começo por dizer que o seu blog é interessante em todos os aspectos e que as suas "ruminações" são sempre excelentes .. para além de excelentes serem sempre os comentarios aqui deixados por alguns... apesar de eu nunca ter deixado um, não significa que "je ne lis plus; je relis".

e já agora voltando ao Eça:
"vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas veezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos o riso é uma opinião"

dosto deste blog, su dixit.

Fora-de-Lei disse...

António Pedro Ribeiro 12:39 PM

Acharia muito honesto do ponto de vista intelectual que o APR fosse capaz de assumir que aquilo que deseja é mais desemprego, mais discriminação, mais exclusão, etc, etc e não se escondesse por detrás da expressão "é preciso mais mercado".

António Pedro Ribeiro disse...

meu caro fora-de-lei:
Isso seria não acreditar no mercado. Começa a ser bem visível a estagnação e as injustiças várias a que conduzem as economias socializadas. Porque não mudar? Será uma questão ideológica, mas o que não é intelectualmente honesto é dizer que alguém, só porque quer mais Liberdade económica, etc., quer mais desemprego, etc. Pelo contrário, acredito (use-se o termo) que uma maior Liberdade económica conduz a mais e melhor emprego. Simplesmente, introduz mais exigências e rigor, e menos protecções à inércia, coisas que uma economia mais ou menos centralizada tende a fomentar... Mas isso é outro assunto. Saudações

António Pedro Ribeiro disse...

P.S. final: é estranho que as pessoas falem tanto em Liberdade e Liberdades, e depois recuem ou lancem desconfianças à Liberdade económica. Haverá Liberdade sem Liberdade económica?

PortoCroft disse...

Caro António Pedro Ribeiro,

Concordo em absoluto consigo. É preciso mais mercado.

Mas, é preciso também encontrar o ponto de equilíbrio entre um sistema socializante, em que a lassidão, inércia e irresponsabilidade é - injustamente -, recompensada, por uma sociedade em que, havendo mecanismos de solidariedade social justos, se promova o trabalho, o empreendimento e a valorização constante dos cidadãos.

Não. Não passemos do 8 para o 80. Comecemos por modernizar a Administração Pública, principalmente a Administração Fiscal, por forma a que a liberdade do mercado não seja sinónimo de mais fuga aos impostos e mais injustiça social. Também o sector da Justiça, para que os perpretadores da política da terra queimada não fiquem impunes nem beneficiem dos seus crimes.

Pamina disse...

Boa tarde,

Portocroft(5.15),
Concordo consigo. Esse equilíbrio é essencial.
Quanto às reformas que menciona são, de facto, urgentes. Não sei se todos se apercebem da enorme diferença para melhor que resultaria de um funcionamento adequado do sector da Justiça, mesmo que não se mexesse em mais nada.

Pamina disse...

A propósito do comentário do Ram (11.28), vou referir alguns pontos do sistema fiscal holandês que acho curiosos. Talvez gostem de saber.
Portocroft, em Inglaterra é parecido?

Os rendimentos mais elevados estão realmente sujeitos a uma percentagem elevada de imposto.
Por outro lado, essas pessoas vivem numa boa casa cujos juros da hipoteca são 100% dedutíveis e deste modo recuperam parte dos impostos (só vale para a 1ª habitação).
O sistema é o seguinte: o valor da hipoteca mantém-se sempre 100% e não é pago, ou seja, a dívida não é amortizada. Em vez disso, paga-se um prémio de seguro de vida (que também é dedutível) e os juros. Ao fim de 30 anos, por exemplo, o seguro de vida paga a quantia da hipoteca e com esta verba paga-se a casa. Se a pessoa morrer antes, claro que o seguro paga nessa altura. Assim, as pessoas com maiores rendimentos têm todo o interesse em manter uma hipoteca elevada. Deste modo, a taxa a que estes rendimentos estão sujeitos pode ser um bocado atenuada.

Acerca de Segurança Social. Em Portugal só os trabalhadores por conta de outrem pagam prémio com percentagem fixa (Trab.11% + Ent. Emp. 24%). Os empresários e profissionais liberais pagam o que quiserem, com a base mínima de um ordenado mínimo nacional. Na Holanda, todos pagam uma percentagem igual sobre os seus rendimentos reais.

Quanto ao IRS, na Holanda não há escalões diferentes segundo o estado civil. A percentagem do imposto depende só dos rendimentos, quer sejam de trabalho ou não.
Esquematicamente, há 2 situações:

1)Duas pessoas maiores de 18 anos vivendo em economia comum (pode ser qualquer relação, como avó e neto, por exemplo, desde que assim o declarem) AMBOS com emprego. Cada rendimento é taxado individualmente a uma percentagem única, igual à dos que vivem sós. Contudo, se o que ganha menos tiver direito a um benefício fiscal (pr ex., uma hipoteca em seu nome) pode “passar” este benefício para o que ganha mais, de modo a tirar o máximo proveito da possibilidade de dedução.

2)As mesmas duas pessoas, mas SÓ UM com emprego (voluntariamente, se um perder o emprego já cabe na 1ª categoria). É o caso típico da dona-de-casa, mas aplica-se a qualquer pessoa que viva em economia comum. O que trabalha é taxado à mesma percentagem única, mas o que não trabalha recebe anualmente, na sua conta pessoal, uma verba de cerca de 1.800 Euros como compensação.

Há ainda um ponto curioso, relativamente aos casais que se separam. Mesmo antes do divórcio ser decretado, se ambos declararem que deixaram de viver em economia comum, são considerados individualmente para efeitos de IRS. Evita-se assim a situação que ocorre em Portugal de terem que apresentar uma declaração conjunta, mesmo que o processo de divórcio se arraste. Se ocorrerem dívidas ao Fisco, após esta declaração, só o cônjuge devedor é que é responsável.

António Pedro Ribeiro disse...

Caro Portocroft:
Compreendo o seu ponto de vista, e não deixo de aderir a ele. Entretanto, e acima de tudo, é necessário um grande rigor no plano retributivo, para que se não caia no parasitismo e laxismo a pretexto de justiça social. Mas alguém que vive em Inglaterra, um Pais e uma cultura tradicionalmente mais liberais,sabe bem isto. Seja como for, no plano das ideias, continuo a achar que o Estado ideal seria aquele que deixaria aos indivíduos o exclusivo do jogo económico.

Dâmaso Cândido de Salcede disse...

"Creia Vossa Excelência... Eu não sou de sabujices... Mas pode Vossa Excelência perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: Vossa Excelência é a coisa melhor que há" no Porto! :))))
E este blogue contínua "Chique a valer..." :))))

Débora disse...

Portocroft,

Concordo genericamente consigo.
Isto é um problema difícil de resolver.
Efectivamente, num mundo tecnológico em que a máquina substitui o homem, o trabalho pode mesmo escassear (talvez por isso, como diz Vivianne Forrester no “Horror Económico”, a enormidade de desempregados que procura emprego dia após dia, sem sucesso, é vítima de um logro - porque esse emprego não existe). É aí que é preciso equacionar o equilíbrio, que também passa pela avaliação das competências e por premiar do mérito e empenho. Se não …. O parasitismo tirará dividendos.
Ouvi o Nabeiro dizer numa entrevista isso mesmo – sabia que se comprasse determinado número de máquinas, poderia prescindir de alguns funcionários, mas isso não queria fazer.
Não deve ser por acaso que a Delta foi considerada a primeira empresa portuguesa socialmente responsável.
Claro que não estamos a falar de África, que infelizmente, está num patamar de subdesenvolvimento atroz, com as inerentes consequências.
Como acabou de dizer Bono Vox, é inaceitável que num mundo de abundância, morram tantas pessoas de fome em África, além da doença.

Pamina,

Mas a Holanda, tal como a Suécia, por exemplo … podíamos, no mínimo, copiar o modelo, ou não? Nem teríamos que criar nada. O modelo existe e tem provas dadas.

Saudações,
Débora

Débora disse...

Ram,
Em resposta ao seu comentário das 11:34, a propósito de Alain Tourraine, talvez fosse mesmo necessária uma mudança social, as quais só ocorrem através da evolução social - mudanças evolutivas e a longo prazo ou da revolução social - mudanças a curto prazo, provocadas pela incapacidade de resposta da sociedade aos problemas existentes nesta, provocando rupturas sociais.
A maioria de nós pode funcionar como agente de mudança no âmbito dos movimentos sociais, que nascem da necessidade de cada um exprimir os seus direitos, em virtude do descontentamento social e a existência de blocos estruturais que não permitem eliminar as fontes de descontentamento.
A função das elites como agente de mudança é mais restritiva, mas pode ser decisiva, dado que ocupam posições de autoridade e influenciam o poder, criando estados de consciência favoráveis à mudança (mas era necessário disporem-se a tal …).
Seguidamente, teríamos que considerar os obstáculos à mudança, claro, que não vou enumerar, se não isto fica um bocado exaustivo e “secante”.

Saudações,
Débora

Anónimo disse...

- Dra. Quitéria Barbuda, se fôr eleita para a Presidencia da República, qual vai ser a sua relação com o Primeiro-Ministro? - Jornalista Tita dos Pés Sujos do "CORREIO DA RIAPA ".

- Obviamente demito-o, não gosto de maricas!

www.riapa.p.to

Anónimo disse...

"Portugal é um país diminuido pela indigência e obscurecido pela opacidade" - Quitéria Barbuda in "O Regresso do Patife", Revista "ESpírito", nº 16, 2005.

www.riapa.pt.to

PortoCroft disse...

Pamina,

Sim. O sistema aqui ainda continua a ser assim. Esse seguro é conhecido como "Endowment Policy". entretanto, há outros, semelhantes aos existentes no mercado nacional e há uns 3 anos a esta parte criaram a chamada "One Account", em que ao valor do empréstimo é deduzido o saldo da sua conta D/O, baixando assim os juros devidos e que permite gerir o pagamento do mesmo duma forma mais flexível. Se num dado mês não puder ou não tiver interesse em pagar a prestação não sofre qualquer penalização.

Caro António Pedro Ribeiro,

Sem dúvida. Rigor em tudo e para todos. Para os ministros e gestores que actuem de forma danosa, o mesmo.:)

Débora,

Se é como diz, e eu acredito que sim, o Senhor Nabeiro e a Delta estão de parabéns. É a prova de que as empresas podem ser competitivas e socialmente responsáveis. É de enaltecer.

PortoCroft disse...

Pamina,:)

A tabela do Income Tax, no Reino Unido, para este ano é a seguinte:

on the first £2,020 10% (the starting rate)
on the next £29,380 22% (the basic rate)
on any income over £31,400 40% (the higher rate)

Pamina disse...

Portocroft(8.45),

Na Holanda há 4 fasquias.Em 2005 as percentagens são as seguintes:

Até aos 1ºs 16.893 Euros de rendimentos tributáveis- 34,4% de impostos+Seg.Social

Sobre os seguintes 13.464- 41,95% de impostos+Seg.Social

Sobre os seguintes 21.405- 42% de impostos. Não paga Seg.Social. Atingiu o limite.

Acima dos 51.762 (=total dos outros)- 52% de impostos. Claro, tb. não paga Seg.Social.

escrevinhador disse...

«A função das elites como agente de mudança é mais restritiva»

Débora, permita que discorde. Para mim, a História mostra que todas as mudanças começam nas elites e com as elites.