quinta-feira, março 02, 2006

Há momentos em que não há lugar para palavras fora da poesia e da música.

...

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,


que te procuram.



Herberto Helder, Tríptico, A Colher na Boca.

18 comentários:

a sul disse...

poema
dum homem que almoça
discreto
rejeita honras
e procura

procura

CêTê disse...

Mais vale a falta de palavras por timidez-paixão do que a mudez provocada por uma tristeza profunda que não vê na verbaliação uma mão amiga.

Bom fim de tarde!
Eu vou fazer por isso!

Anónimo disse...

Conhece-lo, 'a sul'? A poesia dele faz-me pensar que é uma pessoa humana! 'a sul do Tejo'

fora-de-lei disse...

Herberto Hélder de Oliveira nasceu no Funchal, a 23 de Novembro de 1930. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, tendo trabalhado em Lisboa como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio.

É um dos mais originais poetas de língua portuguesa, sendo uma figura algo misteriosa porque não dá entrevistas e recusa prémios. Em 1994 foi o vencedor do Prémio Pessoa que recusou.

A sua escrita começou por se situar no âmbito de um pós-Surrealismo e na década de 1960 acompanhou o movimento do Concretismo.

andorinha disse...

Boa tarde.
Concordo totalmente com o título do post.
Às vezes as palavras "certas" não nos ocorrem e então aí temos a poesia que transmite aquilo que não conseguimos.
Ele não sabia como dizer, mas disse...

lobices disse...

...na verdade, como dizer sem milagres?

a sul disse...

a., 4:08
apenas de o ver almoçar, discreto
e de tentar lê-lo

Ameninadalua disse...

Por vezes faltam-nos as palavras "estudadas" para exprimirmos aquilo que é essencial... o que vale é que existem as outras; as "simples" que com toda a singeleza falam fundo dentro de nós!!!!

porta disse...

Genial, a Primavera.
Genial, o Poeta.
E a sua saudável distância desta merda toda.

Chinfrim disse...

Embore eu ache que a poesia são sempre palavras com música...que nos procuram.

Aspásia disse...

HH é sempre um bálsamo... para quaisquer feridas da alma.

msssr disse...

Tão natural, tão puro e belo!

Lusco_Fusco disse...

Vou repetir o comentário
Mahatma
"Eles andem aí!!!!" lol
Eu escrevi no anterior comentário mais ou menos isto:
Bonito este poema. Temos em nós tudo e duvidar que nos falta"...um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária." para dizer o que sentimos, sabendo que dentro de nós há"...é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram." Não precisamos de milagre, mas de coragem
Um abraço

noiseformind disse...

Boss,
Não sei pq ou como mas dei por mim a percorrer com dedos lestes a minha paupérrima biblioteca. E lá estava o livrito: Os passos em Volta. E fui logo lá ter, não queria cometer perjúrio na transcrição. Mas deu-se-me ganas de te alertar de que deves ter isto que te digo bem patente:

"Não descuido a minha obra. deve-se velar por aquilo que conseguiu ascender, entre riscos e ameaças, ás condições da realidade. Mas serão os meus poemas uma realidade concreta no meio das paisagens interiores e exteriores? Não possuo um só dos papéis que enchi: interessa-me a forma acabada das minhas experiências, e as suas significações, mantida numa espécie de memória tensa e límpida."

Conto "Vida e Obra de um Poeta", do livro Os Passos em Volta, pag. 147 da Assírio & Alvim

dora disse...

Que eco esta noite o herberto em mim!
( obrigada )

Maria disse...

Porque há palavras que por mais bonitas e profundas que sejam não conseguem transmitir o que sentimos pela pessoa que tem o nosso amor, por ele ser tão extraordinário. Maria

sao-oliveira@hotmail.com disse...

Pois...este poema é de beleza singular..li, reflecti e senti-o na pele..

São

philosophos disse...

todos os poemas dizem a humanidade.
senão todos, pelo menos aqueles em que a humanidade inscreve um vestígio do que é ser-se humano.
E do humano mais profundo, às vezes fala-se de amor: 20poemasdeamor.blogspot.com