domingo, setembro 24, 2006

Domingo de chuva.

Maria,
Domingo de chuva. Conheces-me - trabalho espojado no tapete. As armadilhas da memória. Tu no sofá, um "degrau" acima. Lendo o jornal, preguiçosa e marota, ave de rapina abençoada por este lagarto de sangue já frescote:(. A tua voz, neutra e falsa; como o olhar, perdido no trigésimo quarto suplemento do semanário - "vão sendo horas...". Os amigos à espera e nós contentes por isso, que bom desejá-los pela companhia e não para disfarçarem silêncios fúnebres que tivessem invadido a relação. Igualar o teu bluff, "tens razão, vamos lá". Esse riso, tão vivo ainda que o alucino, ei-lo no ecrã, espera!, pronto - também no computador és o wallpaper da minha vida. Vamos lá, dizia eu; mas não, vinhas tu. Escorregavas do sofá e disfarçavas o teu desejo de esmola ao meu, "acho que te vou abrir o apetite". Os nossos corpos, exasperados. A televisão em fundo; a porta da vizinha; o relógio honesto mas benevolente. A pressa descomposta. Os olhos procurando-se no carro. A minha mão risonha na tua coxa, à revelia do cansaço mole que me encanta a preguiça e entristece a gula, dedo ante dedo..., "está quieto", a voz trémula desautorizava a ordem. O restaurante. A malta. O dono, ele próprio velho amigo. E, como de costume!, eu dava a alma à tua palmatória - de tão saciado, morria de fome:).

32 comentários:

innername disse...

encantador e poetico o texto e nas entrelinhas uma confissão de amor. adorei
a hoje murka.

yulunga disse...

Bom dia maralhal.

Dr. Murcon
Os posts à Maria mostram-nos que o senhor é uma autêntica Matrioska. Cada vez que nos abre uma bonequinha, mesmo que cada vez mais pequena, as surpresas vão sendo maiores.
Gostei da pressa descomposta.

AMMedeiros disse...

Envolvente. Parecia uma mantinha de lã, daquelas que há na Serra da Estrela, bem quentinha em que apetece aconchegar-se nos pachorrentos domingos de chuva como este.
Com a mesma textura e calidez de mantinha de lã, desejo um bom domingo ao Dr. Murcon e ao maralhal!

angelic fruitcake disse...

essa maria é uma sortuda... já não há muitas destas marias, nme há muitos que saibam cuidar delas com este carinho e malandragem ao mesmo tempo... muito bonito. porque às vezes é bom fazer-se esperar... "de tão saciado morria de fome" gostei...
bom domingo para si e para todos os que aqui vêm.

andorinha disse...

Boa tarde.

Delicioso!
Venham mais domingos de chuva para termos textos destes:)
A Maria, que já o conhece de gingeira, sabe-a toda:"Acho que te vou abrir o apetite."
E não é que abriu mesmo?:)))

P.S. Fique bem e preserve essa relação. Olhe que será difícil substituir a Maria...:)

Aspásia disse...

Improviso Apaixonado

Suave e aconchegante
que bom é amar assim
sonhando a cada instante
que tu estás dentro de mim.

E mesmo se estás ausente
e nem sei se voltarás
bebo a dúvida presente
na tarde cor de lilás.

Ouço uma música em fundo
num crepúsculo tristonho
fecho os olhos para o mundo
só os abro para o sonho.

* * *

Poema feito agora que dedico a todos os apaixonados da blogosfera.

Bjs,
Aspásia

Fora-de-Lei disse...

O que vale, é que não há fome que não dê em fartura. Senão... ;-))

Su disse...

eu não gosto de domingos....muito menos de chuva
mas gostei do que li... não da maria ...mas das palavras nas entrelinhas---

jocas maradas de bom tempo

clara afonso disse...

U2 LYRICS

"So Cruel"

We crossed the line
Who pushed who over
It doesn't matter to you
It matters to me

We're cut adrift
But still floating
I'm only hanging on
To watch you go down
My love

I disappeared in you
You disappeared from me
I gave you everything you ever wanted
It wasn't what you wanted

The men who love you, you hate the most
They pass right through you like a ghost
They look for you but your spirit is in the air
Baby, you're nowhere

Oh...love...you say in love there are no rules
Oh...love...sweetheart...
You're so cruel

Desperation is a tender trap
It gets you every time
You put your lips to her lips
To stop the lie

Her skin is pale like God's only dove
Screams like an angel for your love
Then she makes you watch her from above
And you need her like a drug

Oh...love...you say in love there are no rules
Oh...love...sweetheart...
You're so cruel

She wears my love like a see-through dress
Her lips say one thing
Her movements something else
Oh love...like a screaming flower
Love...dying every hour...love

You don't know if it's fear or desire
Danger the drug that takes you higher
Head in heaven, fingers in the mire

Her heart is racing, you can't keep up
The night is bleeding like a cut
Between the horses of love and lust
We are trampled underfoot

Oh...love...you say in love there are no rules
Oh...love...sweetheart...
You're so cruel

Oh...love...to stay with you I'd be a fool
Sweetheart...you're so cruel

clara afonso disse...

Caro Prof

Não é a isto que se chama reforço intermitente?

CêTê disse...

;D

Bendito Gordon!;]]]]]

(apetecia-me temperar um pouco mais o retrato mas se o professor se refreou...;]]]]])

Ò sr.Professor!!!!! Quem é me indemniza pela compra da NG? LOL


Boa noite

so_she_says disse...

O amor sem hora marcada. Como deve ser e como melhor sabe :)

Noesis disse...

Lembrei-me do poema "Domingo" de Manuel da Fonseca.O copy vai em duas partes :)
DOMINGO

“Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar...
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«bom tempo para amanhã»...
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina...
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
— porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!
Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!
Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores...
Penso isto, e vou a grandes passadas...
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz...
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
— ao sol
como num ritual consagrado a um deus! —
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida...
Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras;
venha a ânsia do peito para os braços!

Noesis disse...

"Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!”
Manuel da Fonseca

Aspásia, adorei o seu poema!
Prof, a Maria existe mesmo? :)
Boa semana para todos!

Noesis disse...

(ainda não sei postar...bem, sorry)...
Continuação do poema de Manuel da Fonseca

"E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura...
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos...
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bom feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés...
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
— rapaz, traz-me um café...
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
— Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol...
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
— .... no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caia um fio para a água...
... um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou...
O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?... —
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.
Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!
Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou...
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes...
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó...
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!
Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!

Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!”


Manuel da Fonseca

AQUILES disse...

Aspásia
Belíssimo poema. Para ombrear com o que a Andorinha colocou lá num post. Não perca os rascunhos, pois tenho a certeza de que contêm preciosidades.

andorinha disse...

Aspásia,
Faço minhas as palavras do Aquiles.
És uma caixinha de surpresas:)

So_she_says,
Sem dúvida. Nada de pré-marcações:)))

PAH, nã sei! disse...

Aspásia... esta apaixonada agradece...

Caro Dr... caso para dizer que há Marias cheias de graça :)))

Bom restinho!! Fiquem bem!!!

Fanette disse...

Condimentos essenciais para uma bela relação. Realidade ou ficção!

chato disse...

Aspásia:
O teu poemas das 7.05 PM de ontem, era para mim, não era?
(Não digas nada: é só para fazer inveja aos outros)
(Está muito bonito)

chato disse...

Agora me lembro: afinal quando é o novo jantar?

chato disse...

Entrelaço a tua ausência
nas agulhas do meu tricotar
faço dela uma manta de paciência
e a demora que faz desesperar
porém não esqueço
que és quem não mereço
e apenas desejo que nessa tua não presença
estejas tão cansada como eu quando ouvi tua senteça
Não passa um dia em que não te reveja naqueilo que sou
No solar onde um dia felizes fomos
E passe por mim quem quer que seja
Que lembrar me faz do lugar onde não estou
E a tristeza me tolda o olhar
Nas lágrimas deste meu amar!

chato disse...

(Vê-se mesmo que não sei escrever poesia)
É chato, eu sei, mas foi o que saiu.

Pamina disse...

Boa tarde.

Belo retrato, muito bem escrito, como não podia deixar de ser, de momentos de grande cumplicidade entre um casal, durante este seu jogo amoroso. Familiar, pois ambos conhecem os trâmites e o resultado, embora não menos excitante por isso. "Cenas de um casamento", em versão "feliz" (a recordação).
Com optimismo, por S. Cupido, desejo que a maior parte dos leitores e leitoras nele se tenham reconhecido, se não no presente, pelo menos no passado, e que a quem isso não sucedeu de todo, que lhe venha a acontecer num futuro bem próximo:).

Ontem quando cheguei a casa, liguei a televisão para me entreter enquanto comia uma tangerina. Estava a dar, não um Bergman:), mas "Harper", com o Paul Newman. Aspasia, não garanto, mas julgo que originalmente passou no S.Jorge. Não guardei o bilhete:).
Não tive disciplina nenhuma e vi o resto do filme até quase às 3 da manhã:)).

lobices disse...

Pamina:
http://us.imdb.com/title/tt0060490/
...Lew Harper
...1966
...também tive esse bilhete :)))
...Laureen Bacall
...Janet Leigh
ando so on

Não pesco nada disto disse...

A parte mais chocante é mesmo a do "lagarto..." :|. Quanto ao resto, fantástico! ;)

Aspásia disse...

Hoje dia 25, 1º Centenário de Dmitri Shostakovich

Não se lembram de ter ouvido "isto" em qualquer parte?

Maria disse...

Simplesmente LINDO!

APC disse...

Fabulástico!
Deliciosamente traduzido o sentir pelo escrever.
Mesmo!
:-)

CêTê disse...

não pesco nada disto,

para quem não pesca, leva intuição para uma valente Caldeirada.

Não pesco nada disto disse...

CêTê, não estará a intuir mal?!

Lord of Erewhon disse...

Belo pedaço de prosa, quiçá desperdiçou-se um escritor...
(O conteúdo é irrelevante.)
:)