quinta-feira, dezembro 22, 2005

As palavras que o não deixam morrer.

O Arnaldo Saraiva, que ao longo dos anos me presenteou com atenções que decorrem da sua natureza gentil e não de merecimento do destinatário, ofereceu-me, em nome da Fundação Eugénio de Andrade, a 2ª edição revista e acrescentada de Toda a Poesia do Eugénio~de Andrade. E a saudade do homem torna dolorosamente espessa a distância que me separa das palavras do poeta a quem Yourcenar disse: "Ce clavecin bien tempéré de vos poèmes...". Estou de acordo com a autora dessas maravilhosas Memórias de Adriano - a música é uma das duas pontes para a transcendência que pressentimos na poesia do Eugénio. A outra, como já foi dito e redito, é o sol. Queimando o sol(o) e os corpos que nele se debatem, paroxísticos, antes de se erguerem. Rumo à luz.

33 comentários:

dúvida disse...

...ou a música do sol, que estará teimosamente mais presente a partir do solstício, queimando o solo, até lá descansarem os corpos que se debatem ...
antes de se erguerem? rumo à luz?
Vou perguntar a Eugénio
e também a Yourcenar.

papeldeparede disse...

Belo presente, professor:


As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

Lena b

dúvida disse...

É ... Eugénio disse-me isto:

"Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova."

e isto também:

"Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?"

Tem razão JMV

dúvida disse...

É... a Yourcenar que gosta, mais do que tudo, de viajar e passa horas a escrever numa poltrona virada para a luz disse-me para:

«Nunca perder de vista o gráfico de uma vida humana, que se não compõe, digam o que disserem, de uma horizontal e duas perpendiculares, mas sim de três linhas sinuosas, prolongadas no infinito, incessantemente aproximadas e divergindo sem cessar - o que um homem julgou ser, o que ele quis ser e o que ele foi.»

Como ela percebeu o Eugénio

Ingénua Pedrada disse...

E comprei eu um dos seus livro. Byack

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

SÓ EXISTEM DOIS DIAS NO ANO EM QUE NADA PODE SER FEITO. UM CHAMA-SE ONTEM E OUTRO AMANHÃ, PORTANTO, HOJE É O DIA CERTO PARA AMAR, ACREDITAR, FAZER E PRINCIPALMENTE VIVER!"
FELIZ NATAL!!!

andorinha disse...

Júlio,
Já a receber prendas de Natal???
Sortudo.:)))

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor
é urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

MT disse...

Os poesia de Eugénio de Andrade tem uma palete de cores bastante parecida com que Bach emprega no "Cravo Bem Temperado", quer em matizes quer na qualidade do sonho que oferecem.
Obrigada por relembrar Eugénio de Andrade

Sical disse...

Gostaria de aqui deixar a todos os meus votos de BOAS FESTAS e de um FELIZ NATAL, nostálgico ou não. É como cada um quer e pode, e os outros deixam.
Mas gostaria de acrescentar aos meus votos um poema para se meditar a partir da terceira leitura:

LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

In “OBRA POÉTICA” de David Mourão-Ferreir

Pamina disse...

Boa noite

Sical,
Obrigada pelos seus votos de Boas Festas. Bom Natal e Ano Novo feliz também para si.

Penso que este post é sobretudo sobre a amizade e ao lê-lo lembrei-me dum texto que tinha visto num blog que visito regularmente e de que gosto muito: "Ao longe os barcos de flores" da Amélia Pais. É um texto muito bonito que ela encontrou num outro blog. Aqui fica:

"por causa da cor do trigo..."

Dizia Teixeira de Pascoaes em carta a Raul Brandão: "A amizade verdadeira é o maior argumento a favor da existência de Deus". E talvez seja assim mesmo.
É no riso dos amigos que vivemos a infância. O riso dos segredos cúmplices, das pequenas infracções que ninguém descobriu, da curiosidade partilhada em alvoroço, do sopro sereno do vento nos cabelos.
É nos olhos dos amigos que recordamos a infância. Corridos os anos, a esperança já um pouco gasta, esmorecida a alegria, é nos olhos deles que encontramos por momentos a luz das manhãs de outrora, o entendimento que nasce sem palavras, a emoção do riso solto sem a censura das conveniências ou da idade, a magia das tardes em que se adivinhava a Primavera. É nos olhos dos amigos que, por segundos, repousamos na sensação de que nos afastáramos pouco antes quando na verdade os não víamos há meses, há anos, esgaçados entre o trabalho e o desencanto, o trânsito e o cansaço, a vida adiada e a morte pressentida.
É no rosto dos amigos que lemos o nosso envelhecer. As rugas, os cabelos brancos, o brilho embaciado do olhar, o ricto cada dia menos doce que nos vinca os lábios, os gestos lentos de amargura foram crescendo connosco sem que verdadeiramente déssemos por isso. É no rosto dos nossos amigos que sentimos a que ponto o tempo nos devastou, como se de repente e pela vez primeira nos olhássemos ao espelho. E é então que nos encontramos inermes, perdidos, desencantadamente lúcidos ante a vida que se esgotou sem que quase nunca saibamos porquê nem para quê. Mas também é no rosto envelhecido dos amigos que descobrimos a centelha de ternura que guardámos ainda quando os dias, de loucas aventuras sonhadas nas tardes chuvosas, se transformaram na própria chuva, miudinha e cinzenta, desinteressante e fria de renúncias.
Sentimento controverso, a amizade. Porque os amigos nos enchem a vida com a sua presença, mas também nos fazem provar o gosto acre da tristeza ou da saudade quando deles nos separamos, e nos deixam um insuportável vazio quando os perdemos.[...]

Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel, in Clássica 21
(sulparati.weblog.com.pt/)

andorinha disse...

Pamina,

Obrigada por partilhares connosco esse belíssimo texto.:)

Até amanhã, maralhal.

Sical disse...

Pamina
Óptimo Texto. E a amizade é tantas vezes confundida e em vão citada.

Manolo Heredia disse...

Voçê disse "paroxísticos"?
O meu dicionário do Word diz que é "paroxítonos" = "graves". Não havia necessidade ... professor!
Mas adiante.
Música foi a Berlioz, na Igreja dos Jerónimos. E eu a pensar que ele era italiano! Santa ignorância! rapidamente desfeita pelo Larousse do Ciclo dos Leitores.


Mas que ando eu aqui a fazer?
Tanta gente lá, e ninguém conhecido! Bom, excepto o Sr. Presidente da República, que eu conheço bem!
Bela época, aquela, há 200 anos, e bem diferentes nos métodos de chamar o povo às catedrais da religião. Tão diferente da forma como hoje se chama o povo às catedrais da nova religião, do consumo!

Pamina,
As verdadeiras provas da existência de Deus são os éclaires, os queijinhos do céu e os bolos de D. Rodrigo. O resto é paisagem!

dúvida,
a M. Yourcenar é assim como a Agustina, só dá para ler nos fins-de-semana muito chuvosos e frios. Muito Snob, quase a cheirar a bafio de tantos pergaminhos! É uma sibila!

-Stardust- disse...

Caros Professor e maralhal,

vim aqui muito de raspão, depois dos meus dias de clausura no meeting dos alunos em Tomar, só para desejar a todos um Natal muito feliz, cheio de coisas boas e muitas "ruminações" partilhadas!

:)

CêTê disse...

Depois de paralisada de espanto, salto-lhe para os braços, como se o tempo não tivesse passado por nós amenizado a diferença de estatura - “Por onde andaste tu, afinal? Tinha eu razão para não acreditar que tinhas morrido. Afinal, sempre era mentira!”- Digo num misto de alegria, revolta, dor, desalento - “Como foi possível ter-nos feito sofrido tanto?”
Tudo parecia resolvido, naquele breve instante, depois de um suspiro colectivo de todos os que tanto o amavam e lhe sentiram a ausência. Cresce então um azedo sentimento - afinal o espaço e o tempo depois dele morrer passou a ser só meu vinha ele agora resgatar todo o afecto de quem eu aturara tudo- estava ali um traidor! O dilema é tanto que acordo em sobressalto, uma vez mais!
Perco algum tempo a repor a verdade a mim mesma e são as lembranças mais ternas que me restituem a paz necessária para atrasar o retorno desse pesadelo- as palavras, os risos, os afectos eternizam-no

Manolo Heredia disse...

Quem és tu Romeiro?

yulunga disse...

Manoloooooo
Feliz Natal

yulunga disse...

HO HO HO Maralhal.
Feliz Natal para todos.

Lia C disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
papeldeparede disse...

Manolo Heredia disse...
Voçê disse "paroxísticos"?
O meu dicionário do Word diz que é "paroxítonos" = "graves". Não havia necessidade ... professor!

Manolo:

Nem uma coisa nem outra... é paroxísmicos - isto é: intensos
penso que era esse o sentido...
não faz sentido "paroxítonos", já que serve para classificar apenas a acentuação das palavras.
Bom, amanhã alguém há-de confirmar ou não, não é professor?

Boa noite

Lena b

papeldeparede disse...

ah! e Você não tem cedilha ;););)

Lena b

Anónimo disse...

paroxismo

do Gr. paroxysmós, auge

s. m.,
a maior intensidade de um acesso, de uma dor, de uma doença ou de uma paixão.

últimos -s: a agonia final.

Lusco_Fusco disse...

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Desejo ao nosso anfitrião e família um NATAL CHEIO DE SAÚDE E ALEGRIA
Que o Menino Jesus lhe traga muitas prendinhas.
Um beijo

Para todos os frequentadores do blog, um FELIZ NATAL, com muita saúde, muita alegria e muiiiitas prendas.

Tudo de bom para todos
MJ

Anónimo disse...

O Manuel Alegre passou-se. Em definitivo. Agora foi em directo, ele próprio, na televisão. Ouviram?
Interrogado sobre aquela história do site com apostas sobre as presidenciais, lá foi dando uma aqui outra acolá e de repente já no fim sai-se com esta:
Ainda se os lucros revertessem para alguma obra de beneficiência...
benefiCIÊNCIA!!!!
Dá para acreditar? Mas eu ouvi muito bem, posso afirmar!
Aos nossos cultíssimos locutores já tinha ouvido esta vezes sem conta! E então às senhoras do jet set, que ao negócio se dedicam como ninguém, não há memória para contar as vezes.
Agora ao nosso poeta-mor?
E eu que gosto tanto dele!!!
Não dá para acreditar: passou-se.

Benefi-ciência!!!
De facto, com o egoísmo em que vivemos enterrados, e o medo de fazer a caridadezinha dos nossos avós, a coisa tornou-se um assunto transcendente e de difícil percepção. Deve ser por isso que subiu à honra de disciplina científica!!!!

Não liguem à minha ......malediciência!!!

Anónimo disse...

"Os homens e as mulheres da Esquerda dão preferência à mentira sobre a verdade, à guerra sobre a vida. Eles são os seus próprios negreiros"!

Quitéria Barbuda in "Os Rafeiros da Vida", Revista "Espírito", nº 14, 2005.

JG disse...

Tenho uma enorme dificuldade em compreender um homem poeta..não sei porquê..educação..preconceito..talvez.. porque sempre me ensinaram que o homem não se pode mostrar sensível, frágil..dizer o que lhe vai na alma..espero mudar a tempo de ainda conseguir ler os grandes poetas..até que...vejo um homem poeta ..tipo machão.. de voz cavernosa e zas..desato a escrever "poemas"..mas quero compreender o Eugénio de Andrade e outros

Anónimo disse...

Elizabeth
A todos um Santo Natal em especial para o Prof. Julio Machado Vaz.
Elizabeth

noiseformind disse...

Manolo,
; ) pegando na proposta que me fizeste no post anterior (um Banco de Vinho) pessoalmente já tenho o meu. Tb se chamam "investment wine cellar" ; ) Fechei a minha no final do ano passado, nos próximos anos espero começar a tirar de lá as garrafas para venda. Os vintage permanecerão lá por 30 anos no mínimo, os de mesa daqui a 10 anos começarão a sair cá para fora. Alguns vinhos estão a aumentar rapidamente de preço, outros nem por isso, é um trabalho especulativo e tranquilo, e é preciso encontrar canais de venda de confiança (se bem que o Ebay serve perfeitamente). Em média uma garrafa de Duas Quintas, por exemplo, valoriza 10% ao ano. O de 99 já vai nos 65 euros, preço de hiper, quando ainda há 2 anos se ficava pelos 49. Alguns vintage, à medida que vão sendo premiados ou declarados excepcionais, inflacionam-se a uma velocidade muito superior. O Quinta do Castelinho foi premiado na Suiça o ano passado e este ano e nesse tempo passou de uns "simples" 30 euros para 60, nada mais nada menos que 100% de aumento. Pessoalmente bebo pouquíssimo, mas cada um é pró que nasce ; ))))))))))

Sical,
Tens toda a razão, mas tu teres razão e eu ter razão e o fora-de-lei ter razão não basta para mudar o rumo dos acontecimentos. Isto só lá vai de G3 ; ) ou seja um Grupo de 3 à volta de um cabritinho de ossos partidos e a sorver um vinhinho de lavrador semi-espumante de Melgaço ; ))))))) que tal? ; )))))))))))))))))
Convite que re-envio a todos estes participantes deste blog ;)))))))))))))))))

Ju,
Prendas dessas estou como o Bibi (o BIBI israelita que recebeu o partido nos braços, entenda-se), venham elas ; )
Este ano ando numa de oferecer Umberto Ecco, a obra foi toda re-editada pela Difel e pronto, não resisti a livros amados velhos com capa nova ; ))))))))) Quanto ao maralhal que quando não encontra uma palavra num dicionário começa a gritar: "hossana, hossana, aleluia" não há nada a fazer. A ignorância é a mãe do auto-convencimento. E a Web é a mãe de muita gente "metida a besta" procurando qq coisa para gritar "o rei vai nu, o rei vai nu", o que faz dessas pessoas quase automaticamente neo-natos, ou para ser um pouco mais simpático, Infantes. (como imaginam esta parte foi apenas e só para a Amok ter alguma coisa a dizer neste post) Quanto a rumar À luz lembro-me daquela cena do Shrek: Não Shrek, não sigas a luz!!!!!!!!!!!!!!!!! ; )))))))))))))))))))))))

O João Gil parecia acabado ontem... mas pronto, lá me autografou o livrozito. Já estou a começar a compensá-lo pelo album em mp3-pirata ; )))))))))))))))))

moon disse...

Bom dia,

Professor e maralhal,

Um Natal muito feliz, muita saúde e prendinhas também.

Beijinhos

P.S._ Eugénio forever!

noiseformind disse...

"Ainda se os lucros revertessem para alguma obra de beneficiência...
benefiCIÊNCIA!!!!
Dá para acreditar? Mas eu ouvi muito bem, posso afirmar!"

É cada uma que a gente lê na net. Este pessoal agora excita-se com erros ortográficos? Está demonstrado que a baixa taxa de satisfação sexual neste país acontece por muitos orgasmos acontecerem em frente às televisões. Imagino o anónimo em questão a bater uma em frente ao ecran e a gritar: "sim, sim, sim, querida, viste? VISTE???? Não é assim que se diz... oh sim... SSSSSSSSSIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMMMm!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Querida... passas-me os guardanapos de papel?"
Tipo... get a life, losers!!!!

noiseformind disse...

Moon,
Se fiquei por baixo e por cima de ti foi sem querer, não era minha intenção ser tão opressivo ; )

moon disse...

UFFFFFFFFF!!!!
;)))))))))))

Sobrevivi...

Então Noise, fui visitar-te e ainda encontro as meninas a receber-me??? E que tal um post com espírito mais Natalício?

Beijinho

noiseformind disse...

Moon,
Eu bem tento... eu bem tento... ;)
Talvez em forma de prenda mesmo... lá para o dia 24 ; )