quinta-feira, julho 26, 2012

Dia dos Avós



Pouco original, tive quatro. E no entanto…

O Avô Ângelo era – como eu… - hipocondríaco, mas naquele tempo esse farejar ansioso do corpo ainda me era desconhecidoJ. Vai daí, ofendia-me que durante as minhas gripes me acenasse da porta do quarto e se pusesse ao fresco. Guardo a recordação de um homem pequenino, escrevendo em pé a sua crónica de jornal, aureolado pela luz do fim da tarde na Rua Alves da Veiga. Eu ia chamá-lo para jantar e descíamos à conversa, mas faltava-lhe calor em palavras e gestos, treinou-me os neurónios e deixou o coração a cargo de outros.

E outras… A Avó Manuela era um doce! Tinha ensurdecido durante a gravidez de meu Pai, ele acarretava uma enorme culpa injustificada pelo facto. Lembro as mulheres da família em adoração da velha telefonia, que exalava a primeira novela, custeada pelo célebre Tide. A heroína sofria de um qualquer problema, ainda por cima enxertado numa pobreza atroz, para alívio de todas o amor de um rapaz descrito como esbelto e solidariamente rico derrubava todas as fronteiras e a igreja acolhia-os, antes do ritual banho de arroz. Menos comovido do que as tias e a protectora Maria da Glória, eterna cozinheira da família, eu encarregava-me de gritar as peripécias do enredo a minha Avó, que acenava, aprovadora. Já ignorante das coisas do amor, pasmava por meu Pai chegar do consultório e  dirigir-lhe palavras bem menos ricas em decibéis, emolduradas por mãos tímidas no afago, excepto para ela e minha Mãe. E a Avó Manuela sorria e respondia, certeira. Levei muitos anos a perceber que ela ouvia os meus gritos, mas escutava as palavras dele, é diferente.

A Avó Sorgue deixou sempre claro que não aceitava comparações. Vigiara de muuuito perto o namoro de meus Pais e aterrou lá em casa uma semana depois do casamento para nunca mais sair. Perante a bonomia do genro, que lhe chamava a Rainha Mãe e se divertia com imagem vinícola no que a Avó e neto dizia respeito, chamava-nos o Casal Garcia, vinho verde crismava dois desesperados benfiquistas! Força da natureza é uma descrição anémica, a Avó Sorgue era telúrica sem nunca ter lido Torga, manipuladora sem conhecer Maquiavel. O seu amor absoluto ria-se de angústias éticas, mas não de receios pragmáticos, quando na Aguda eu recolhia à cama depois de mais uma noitada de poker, ela perguntava – “então?”. E eu sabia a resposta adequada, verdadeira ou não – “ganhei”. Para lhe escutar o suspiro, que já se enroscava – “ao menos! Se a tua Mãe sabe que te deixo jogar a dinheiro, mata-me”.

Morto estava o marido há muito tempo, nunca o conheci. Minha Mãe, que o teve apenas durante quatro anos, esquecia o ateísmo não militante e rezava-lhe, descobri-o na sua correspondência. Dele ouvi as histórias de trabalhador honesto que tivera morte fulminante a caminho de casa, desse dia fatídico, descrito  ao mais ínfimo pormenor pela Avó Sorgue, nasceu a minha sólida desconfiança do coração, celebrei os vinte e seis anos num misto de surpresa, alívio e culpa por sobreviver ao Avô Guilherme.

Que era amigo do segundo marido de minha Avó, guardião feroz da sua memória. Mas manso perante aquela mulher arrasadora, que lhe concedia o favor de alguns telefonemas para Lisboa. E no entanto, hoje, no Dia dos Avós, é para ele que coração e memória correm, escrevi-o mais de uma vez – o Paulitos foi uma figura parental inesquecível para mim. Ensinou-me palavras cruzadas, explicava como o esperanto uniria todos os povos, conseguia que uma meia de leite e uma torrada se transformassem numa celebração da cumplicidade entre Avô e neto. Nunca me deito sem um relance aquele homem magro e triste, segurando – inseguro… - ao colo um puto sisudo, as crianças desconhecem a tirania dos sorrisos de plástico para mundo ver. Aquele sou mesmo eu, o miúdo na foto ao lado, sorridente na farda de marinheiro, era já um farsante, vendido ao politicamente correcto. Ele nunca se vendeu e partiu à sua moda – discreto, sem incomodar ninguém. Felizmente alguém o amara nos últimos anos como minha Avó não fora capaz. Indiferente ao burocrático sangue, chorei-o com amargura e um profundo sentimento de abandono desamparado.

O esperanto, esse, foi outro sonho falhado…L.

40 comentários:

Bartolomeu disse...

Não enterre para já a esperança de o esperanto vir a ser lingua e união, caro Professor.
Ou... não acredita no advento de uma nova ordem social, universal?
Olhe que os Incas nunca se enganavam... e raramente tinham dúvidas...
;)))

bea disse...

Professor

teve, de ter; e teve, de viver. Os quatro avós. Parabéns:), e mais por ser avô. É um dia que lhe pertence e aos seus netos. Uns abracinhos não ficavam mal. Visitinhas. prendas. surpresas. Coisas assim.

este post é uma ternura.

Bolas! não sabia que era "um farsante vendido ao politicamente correto" só por usar uma roupa que a maioria das crianças vestia e nem eram elas que escolhiam e sorrir. e eu que adorava ter tido uma farda dessas! Imaginava-me vestida com aquele casaquinho azul escuro, de gola branca para as costas, debruada a azul. Calhou-me uma floreira onde tenho a mão contente, e mais uma garçonne e um bruto laço branco da cor do bibe. Satisfeita da vida, como se eu mãos em floreiras a toda a hora, e nem sabia o que era (para mim uma espécie de banco alto e nada a ver com flores, mas a fotógrafa chamou-lhe floreira, e foi assim).

Bom, entendo melhor o seu melindre com o avô Angelo. Ora imagine se conseguia fazer tal coisa aos seus netos. Não é também hipocondríaco? ah, pronto. O seu a seu dono.
Não chamo um nome ao seu avô Angelo porque não o conheci e ele morreu.

E gritar o folhetim para a avó Manuela daria um teatrinho ótimo :) é terno, ainda assim.

A avó Sorgue era uma arrebatada de uma dominadora. Mas não se chama casal garcia a qualquer dupla.

E o Paulitos prova que voz do sangue é uma coisa que nem sempre.

agora vou pensar no meu avô que é um ser infinito.

e fiquem bem:).

JFR disse...

Têm sido textos como este, ouvidos ou lidos, a razão para gostar de si Proj Júlio. É que eles encerram - para além da beleza literária, quase sempre presente - um conjunto de princípios e valores com os quais me identifico totalmente. Podem as estratégias para os cumprir ou alcançar ser diferentes mas é o mesmo o ponto de chegada.
Obrigado
José Rocha

andorinha disse...

Muito belo! Ternurento, também!
E fico sem mais palavras...

Li agora o post do JFR e posso dizer que subscrevo.
Obrigada pela partilha e por ser como é:)

Cê_Tê ;) disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cê_Tê ;) disse...

A sua avó Sorgue devia ser uma castiça!!! ;) Não devo ser só eu a imaginar-lhe um olhar travesso e cúmplice! ;P

Esse cruzar de genes (e de o que está para além deles) cria Gente como o Professor! Nunca confiei muito em "raças puras" (Se é que me faço entender! ;))) )

Resto de boa noite!

Anfitrite disse...

Que tal um almoço no Pavilhão Atlântico, que foi comprado hoje pelo genro do graveto silva, só por 22,200milhões, muito perto do límite superior da avaliação. Quem lho terá soprado ao ouvido?

Infelizmente não tenho avós. Toda a gente já sabe que o devo em parte aos ascendentes do professor. E CêtE, o professor himself é a prova provada que não existem raças puras.

andorinha disse...

Vá lá...uma notícia que aquece um pouco a alma. Esperemos que as mentalidades comecem a mudar...

A história de Lal Bibi está a desafiar as tradições tribais afegãs. A rapariga de 18 anos foi violada mas a sua família não a quer matar para limpar a honra do clã. Preferiu ir em busca de justiça num país onde as leis raramente dão razão às mulheres
Ler mais em:

www.publico.pt/Mundo/o-curioso-caso-de-lal-bibi-1556411

Impio Blasfemo disse...

Viva!

Tive também a sorte de conviver com os meus 4 avós: Fernanda e Henrique pelo lado da minha mãe e Angelina e Paulo pelo do meu Pai. Todos eles diferentes mas de todos eles tenho boa memória. O avô Henrique era para mim uma espécie de deus; falava fluentemente 4 línguas estrangeiras, dava uns toques em latim e em matemática era barra. Tentou-me ensinar matemática na 3ª classe; X esta para Y , Y está para Z etc etc. E eu, burrinho de todo, não entendia nada do que era o X e o Y e o Z era para mim uma imensidão de confusão. Mas esforçou-se muito, só que eu era mesma burrinho…..
A avó Fernanda era a avó dos museus; para mim os preferidos eram o Militar e o da Marinha. Tantas vezes procurei no Militar a espada do D. Afonso Henriques e nunca a encontrei. E perguntava sempre como é que sabiam que a espada do D. Afonso Henriques pesava 12 quilos se a não tinham ali para pesar? Pensamento à Lord Kelvin:- o que não se mede ou não se pesa, não existe.
A avó Fernanda insistia muito em ensinar-me piano, mas além de burrinho eu
era mesmo surdo e desafinado pelo que o dó-ré-mi para mim não era coisa fácil, não era mesmo nada fácil e pouco ou quase nada ficou, apenas o gosto pelo Jazz.
Já a Avó Angelina (Lila era como a chamava) teve o grosso da minha educação desde bebé até à 2ª classe. Tinha sido professora e olhava-me com tanta ternura que a nada me obrigava; pensar, dizia ela, teria eu muito tempo. O que eu precisava era de brincar, pular, sobretudo brincar muito com a minha Pipocas, a cadela rafeira mais doce que alguma vez já vi. Resultado final, cheguei à 3ª classe burrinho nas contas e a dar erros de português, daqueles de palmatória.
Por último vem o avô Paulo, o avô que mais compinchou comigo. Desde as histórias do Cocó Ranheta e Facada para adormecer, às burricadas na serra de Sintra, às bilharadas, passando pelas leituras em francês Vítor Hugo, pois foi uma mar de aventuras.
De todos eles quem mais viveu foi a avó Fernanda (faleceu com 93 anos) e nos seus 75 anos ainda me ajudou a mudar fraldas e a tomar conta do meu filho. É verdade, o meu filho teve uma bisavó até aos seus 18 anos.

Descentrando-me do meu umbigo sugiro uma leitura do blog do Rui Tavares, em especial deste artigo http://ruitavares.net/textos/uma-refundacao-democratica-3/

Saravá
Ímpio

Bartolomeu disse...

Que grande antologia genealógica, Ímpio!
;)))
Ainda bem, meu bom descrente!
Mas sabes?! Quando cheguei à parte em que descreves a opinião da tua avó "Lila" «O que eu precisava era de brincar, pular, sobretudo brincar muito com a minha...», pensei: éh lá, temos aqui um caso de precocidade-aguda. Só depois é que reparei que a pipocas... era uma cadela.
:(
Blahg!
Mas pronto... ha gostos para tudo. Os pastores brincavam com as ovelhas... conta-se.
;))))))
E mais!!!
Quem nunca brincou com a sua pipocas, seja ela de que "raça" for, que atire a primeira... o primeiro osso!
;)))))

Carlos Alves disse...

Dia dos avós. O simples facto de ter de existir um dia dos avós é um indício de que nem tudo vai bem no “reino anima”. Porque, nem sempre os hoje avós foram ou são bons pais. Se é que sabemos o que é ser -se “bons pais”, apesar da panóplia de manuais e psicologismos que por aí pululam. E, talvez os filhos, ora pais, possam ter o direito de achar que os agora avós, não tendo sido ou não sendo bons pais não serão também bons avós. Evitando os ora pais convívios mais próximos, os ora avós podem sentir rejeitados e atingidos nos seus direitos. Podemos falar da doçura dos avós... fica e parece bem, mas, na verdade, a rudeza de muitos, verificada na relação com o outro, não justifica endeusar os avós.
Ao Estado, maribando-se para os afectos e emoções sentidas no plano da relação familiar, interessa-lhe mais os avós que cuidam dos netos para que os pais dos mesmos se derretam na escravatura do trabalho e das empresas. Os ora netos, dizem-se entre si, parecem ser importante para garantir as futuras “(ex)-reformas”, para a sustentação da segurança social, mercado de trabalho, renovação geracional, etc, etc – coisas malignas corroboradas por gente que mais não faz que beneficiar largamente dos privilégios que hoje condenam e acham excessivo para os outros.

Mesmo assim dos 4 avós que tive gostei de Maria...

Na educação de nossos filhos
Todo exagero é negativo.
Responda-lhe, não o instrua.
Proteja-o, não o cubra.
Ajude-o, não o substitua.
Abrigue-o, não o esconda.
Ame-o, não o idolatre.
Acompanhe-o, não o leve.
Mostre-lhe o perigo, não o atemorize.
Inclua-o, não o isole.
Alimente suas esperanças, não as descarte.
Não exija que seja o melhor, peça-lhe para ser bom e dê exemplo.
Não o mime em demasia, rodeie-o de amor.
Não o mande estudar, prepare-lhe um clima de estudo.
Não fabrique um castelo para ele, vivam todos com naturalidade.
Não lhe ensine a ser, seja você como quer que ele seja.
Não lhe dedique a vida, vivam todos.
Lembre-se de que seu filho não o escuta, ele o olha.
E, finalmente, quando a gaiola do canário se quebrar, não compre outra...
Ensina-lhe a viver sem portas.

Eugênia Puebla

Eu, acrescentaria … e de nossos netos

Anfitrite disse...

Carlos(esquece bartolo):)

Que maravilha de poema, ou seja lá o que for. É destes assim que eu gosto. Não é daqueles que nem sabem o que dizem nem o que pintam e a gente que interprete.

Também tive uma avó de quem gostei muito, que me atraía com as suas conversas, mas como fazia a vida negra à minha mãe depois de ter sido corrida lá de casa, sempre que lá ía já sei que resultava numa carga de porrada. Lembro-me de uma vez até ter desmaiado e caído. Mas isso só fez de mim uma pessoa mais sensível. Que porca de vida!

Apesar de tudo, depois de velhota, trazia-a aqui para casa e a minha mãe até o pequeno almoço à cama lhe levava(ela podia mexer-se bem).Também viveu até aos 96 anos.

Mas o meu tio, com medo que eu lhe ficasse com a pensão, tirou-lhe os documentos para eu não mais a poder trazer, e tirou-lhe o diheiro que ela tinha, que ela tinha querido que eu depositasse, em meu nome, para ela não ir ao banco, mas eu não quis. Tudo isto depois de ter feito uma escritura, com três testemunhas falsas, para eu ficar sem direito à casa. Pior ainda: nunca mais lá pude entrar nem para ver uma fotografia e pegaram nela e meteram-na no lar da Misercórdia.

Como vês Carlos, os problemas com dinheiro já começaram há muitos anos. E quem hoje tem reformma foi porque trabalhou e muito, porque a chamada Segurança Social, foi criado há apenas umas dezenas de anos. E quem as tem merece-as bem. Não são os novos que os estão a sustententar. Os de antes é que se fartaram de trabalhar para os de agora terem tudo, menos educação e civismo. E os pais traumatizados por aquilo que não tiveram procuraram dar tudo aos filhos, para eles não se sentirem diminuidos, nesta porca sociedade de consumo, porque era preciso criar sempre mais necessidades para se vender mais e manter a engrenagem. Agora há mais uma indústria, a da reciclagem, em que os produtos ficam mais caros do que os novos, mas lembrem-se só das Máfiass de Nápoles.

E por aqui me fico, porque estes dias têm sido uma lástima. Mas como falam de avós eu lembrei-me deste bocadinho que fala de mâe:


..."Foi o que fiz: do ventre do rio, comtemplei os rebrilhos do sol. E aquele fulgor me encantou, numa cegueira envolvente e doce. Se houvesse abraço de mãe teria que ter sido assim, nesse desmaio de sentidos.
...Meu pai nunca soube mas foi ali, mais do que em outro lugar qualquer, que apurei a arte de afinar silêncios."...

Em "JESUSALÉM"
de: Mia Couto
Ed. Caminho

(aprende ímpio)

andorinha disse...

Impio,

Gostei de te ler. E de ficar a saber um pouco sobre os teus avós. Os meus conheci-os pouco, faleceram ainda eu era novita.

Eras burrito, tu? Está bem, está...:)

"O que eu precisava era de brincar, pular, sobretudo brincar muito com a minha Pipocas, a cadela rafeira mais doce que alguma vez já vi."

Era sábia, a tua avó Angelina.


Carlos,

Também gostei muito do poema, ou seja lá o que for:)
Muito, mesmo!
Se tivesse que escolher um verso seria este: Não lhe dedique a vida, vivam todos.


Anfy,

Mia Couto, uma beleza! Gostei.

Fiquem bem:)

Impio Blasfemo disse...

Este vai fora do tema do post, mas, como vem sendo hábito não há crise por isso, ou melhor a crise é outra que não aqui, no blog. Bom, um amigo meu mandou-me este mail que trasncrevo. Fica para vossa informação e eventual comentário.

"As notícias que envolvem a EDP vão de mal a pior.

Segundo os jornais (...) os portugueses que devem mais de 75 euros de electricidade ou gás vão passar a ter o nome numa lista negra a ser criada pelo Governo.

Lista negra a ser criada pelo governo...? Pelo governo...!? Tá tudo doido...?

Claro que o tolo do CEO ficou todo satisfeito, declarando em público que a lista negra "facilita o conhecimento do perfil do cliente", sem perceber que novidades destas só prejudicam a empresa.

Vejam a reacção de dois elementos de uma tertúlia em que participo :

1 - Um vizinho meu que tem um talho, mais o dono do café da esquina e a senhora da farmácia vieram perguntar-me se o Governo também ia cobrar para eles os créditos de uns caloteiros das respectivas casas. Dizem que lhes dava jeito. Perante a minha hesitação, quiseram saber se seria necessário venderem uma quota à loja chinesa do bairro e admitirem-na como sócia, para o Governo passar a fazer isso. Não sei que lhes diga.


2 – Por sinal também tive uma reacção de choque ao ver que o Governo se prepara para fazer de cobrador de fraque da EDP !..."

Saravá
Ímpio

rainbow disse...

Boa noite:)

Muito bonito o post, que vive de memórias de infância.

Também vou falar das minhas avós. Os avôs morreram antes de eu ter nascido.
A minha avó materna era muito doce, tinha uns olhos azuis lindos e contava-me histórias.
A minha avó paterna era uma força da natureza,vinda da Nazaré.
Falava com orgulho da história de amor entre a sua avó e avô, ela francesa, ele espanhol, que vieram parar a terras lusas e montaram uma fábrica de cortiça.
Morreu antes de eu ter consciência da importância daquela história que ainda hoje me fascina.

Manuel disse...

Caro Prof JMV:
O grande e saudoso João dos Santos, seu colega de profissão, diz num livro que, ao abordar um miúdo, não sei se na Casa da Praia ou noutra instituição a que dava apoio, sobre a sua avó (do miúdo), este lhe disse que não tinha.
Ao que JS retorquiu: «filho, ninguém pode viver sem uma avó, se não tens vai já arranjar uma.»

P. S 1. Estou a reconstituir o diálogo de memória, os pormenores podem ser diferentes, o essencial é isto.
P. S 2. Hoje é que foi tirar a barriguinha de misérias, aquilo é um resultado de sabor arqueológico, do tempo em que os animais falavam (e o Eusébio jogava).

Bom fim-de-semana a todos e boas músicas:

Beethoven's Silence by Ernesto Cortazar
http://youtu.be/3YKKvYCJdPI

«Tocando em frente»: Almir Sater
http://youtu.be/ON1iLOpOELQ

Andreia disse...

Que lindo e triste e saudoso ao mesmo tempo. Ainda tenho dois e muitas saudades da minha avó, com quem vivi 25 anos até partir. E que avó!

andorinha disse...

Bom dia:)

Rainbow,

Tens andado na galderice, tens aparecido pouco por aqui...:))))))))
(Estou a brincar contigo, cachopa...:)

Manuel,

Estou a ouvir Beethoven's Silence. Lindo! Obrigada:)

Quanto ao jogo de ontem é bom não embandeirarmos em arco:)
Se fosse a doer não era assim. Mas gostei.

Fiquem bem. Bom fds com boas músicas, bom sol e boa companhia:)

Bartolomeu disse...

"Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós; deixam um pouco de si, levam um pouco de nós".
Isto foi escrito por aquele rapaz francéis, o António que morava em Santo Exupério e o maralhal tratava por Tony... tão a ver kem é o xavalo?!
Yah, esse mêmo. Fartou-se de escrever cenas assim do género, como perinzemples "As pessoas crescidas têm sempre necessidade de explicações... Nunca compreendem nada sozinhas e é fatigante para as crianças estarem sempre a dar explicações."
;)))
Yah pipal, é bué fatigante prás crianças e prós velhos... deve ser por isso que às tantas se fartam e dão de fuga.
As crianças ainda é naquela... ah e tal, vou aguentar esta cena pra ver se dou a volta ao cota, mas os velhos, meus amigos, esses já não tÊm pachorra, chegam a uma idade que já não é preciso agentes falar, eles já sabem o ké ke vamos dzer. Fónix!!! São bué anos a acumular sabedoria.
O problema dos avós, é virem com uma deficiência de fabrico... morrem.
Ora porra. E ainda por cima essa treta de não sei kê da protecção ao consumidor, não faz nada.
Isto é um país da trata pipal.
É!
Porque se não fosse, já tinham arranjado maneira de reciclar os avós, de os recalificar e aproveitar o saber acumulado, para tornar os putos mais competentes.
E vocês são testemunho disso. Todos vocês se recordam daquilo que os avôs e avós lhes ensinaram. Agoram digam-me lá... recordam-se de alguma coisa que os professores da escola lhes tenham ensinado?
Hmmm?
Uma coiseca ou outra, né?!
Pois...

rainbow disse...

Bom dia:)

Gostei do naaanananah Hey Jude, do Paul McCartney na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos.

http://www.youtube.com/watch?v=wM0IDLAntVM

Andorinha,
Pois é, férias é andar por aí, mas também passar por aqui:) Nunca me esqueço de vocês.
E como não posso falar sobre Odeceixe (onde penso ir com a minha malta jovem um destes dias) senão bates-me, pronto... não falo:))))


Manuel,
Obrigada mucho pelas músicas. Gostei muito.

Carlos,
Também gostei muito do poema, ou lá o que é:)
Grandes verdades.

Bartolomeu,
"O Principezinho"...
Éxupery começa o livro com um teste aos adultos, com um desenho que eles não entendem.
E houve professores que me ensinaram coisas importantes.
No liceu tive um professor de filosofia, cego desde os 11 anos. Licenciou-se em Filosofia e dava as aulas em braille. Se isto não é uma lição de vida...

Um bom sábado per tutti,
Abraços

http://www.youtube.com/watch?v=AQ4NAZPi2js

Bartolomeu disse...

Arco-iris,
Adoro quando uma mulher me considera um príncipe... mesmo que "zinho".
Também tive uma professora, de francês que me ensinou "coisas" importantíssimas, duas delas, até hoje, nunca me esqueci.
-A primeira; é possível ver espreitar a pernas da professora, sobretudo se usar mini-saia.
-A segunda; informar a turma da cor das quecas que a professora está a usar, dá expulsão da sala.
;)))

Anfitrite disse...

Bartolo,

Esperemos que essa sabedoria toda não seja só fogo de vista. Há gente que sabe disfarçar muito bem!

Duma coisa eu tenho a certeza: Na sua altura não se viam cuecas de professor. A não ser que deixasse cair o lápis lá para baixo da secretária e andasse sempre munido dum espelho. Nessa época ainda usavam espartilho. No entanto a minha mãe teve uma que era maluca, que desenhava o "O" com o pé, quando estava em cima do estrado e viam-se as partes de baixo. Essa senhora ía à cabeleireira e se não fosse atendida quando lhe dava na veneta, saía porta fora com os bigudis na cabeça ou com o cabelo todo molhado. Feitios.

Bartolomeu disse...

Anfi;
Apresento já, aqui e agora, uma declaração de interesses: Só sei que nada sei. E se por ventura algo soubesse, sei que essa sabedoria não seria de modo algum definitiva, decerto, provar-se-ia estar errada. Logo... sabedoria, é algo que não existe, ou então, que está ainda por provar.
Quando à cuecas... Via-se, podes crer que se via. Era preciso olhar, no momento do descruzar da perna, ou então, no momento em que a professora se levantava para ir ao quadro, ou falar para o maralhal, mas via.
A técnica da caneta e do espelho, eram também utilizadas com frequÊncia. Deixa-me dizer-te que a professora era de origem francesa, teria uns 30 anos e ~era uma mulher interessantíssima físicamente, para além de avançada no tempo, sobretudo para o nosso Portugalzinho ruralzinho, apesar de já governado por Marcelo Caetano.

Anfitrite disse...

Bartolo,

Prontus.
Assim já me calo. A Mary Quant inventou a minissaia lá pela década de 60. Mas isso deve ser
feitio das professoras de fran
cês. Eu tive uma que era feia como uma noite de trovoada(por acaso mãe de gente conhecida da nossa praça, que até costuma falar mal dos outros). Nas aulas, geralmente as raparigas ficavam à frente, mas com essa professora de francês combinamos que os rapazes íam todos para as primeiras filas e as meninas para trás. È que ela era tão feia, mas como tinha uns troncos de umas pernas e de uns braços, resolvia ficar em cima do estrado, com as pernas cruzadas fora da secretária, e mesmo no inverno andava sempre de manga curta. E como tomava assim umas atitudes um bocado ousadas a gente resolveu fazer esse favor aos colegas, que se contentavam com pouco e vinham sempre para a frente. As voltas que o mundo dá! Hoje como já há tudo com fartura, já ninguém lhe dá valor.
Biépi

Bartolomeu disse...

Anfi,
Desculpa lá, mas tenho de discordar com parte da última frase que escreveste.
«Hoje como já há tudo com fartura...» em parte, sim; ha muito, mas tudo, não.«...já ninguém lhe dá valor.» "Ninguém" é demasiado abrangente e generalista... os verdadeiros apreciadores, continuam a dar o merecido valor.
;))

Anfitrite disse...

Bartolo,

Estava-me a lembrar da reportagem que falamos aqui sobre os japoneses. Que j+á só se satisfazem sozinhos. E ninguém não é ninguém, não abrange ninguém.

Eu quero arrebitar mas sozinha não consigo. E o Manuel já me pôs a chorar por me ter conduzido para aqui:

http://www.youtube.com/watch?NR=1&v=VqW5dN1DPmI&feature=endscreen

É muito triste a gente ter de arrumar as coisas de quem nos deixou.

Tem sido uma vida a remar contra a maré.

Hoje apetecia-me juntar ao NINNo Manfredi e começar só a fazer porcaria por esses bairros de lata fora.

Pensando bem_ os pobres nºao têm culpa nenhuma. Mas se eu pudesse por uma boa causa dar cabo dumsa porção de sacanas....dáva-me a minha vida por bem entregue.
E depois queixam-se dos jovens na America e não só. O que é que uma pessoa desesperada faz com uma porção de armas na mão? Eu só estou à espera da morte mais nada!

Desculpa ter tirado o TÉSÂO, como dizem os brasileiros.


Aben.soa.dos e sejam felizes. Amén

Bartolomeu disse...

Anfi, minha querida; a humanidade com todos os defeitos e feitios que a caracterizam como um todo e ao individuo em si mesmo, não nasceu neste momento, nem se tornou agressiva ou pacífica, altruísta ou usurpadora, amiga, ou inimiga, separatista ou unificadora, de um momento para o outro. Desde sempre têm existido pessoas que vêm o mundo de forma positiva e pautam as suas vidas de acordo com essa visão, outras, pelo contrário, conseguem ver somente a parte degradante, a escória, a podridão, a degradação.
Aqueles que, sensíveis como tu, decidem empunhar uma arma e emtotal desespero desatar a "limpar" o lixo humano que prolifera; têm uma alternativa: usar-se como arma, tornar-se solidário com a condição e o sofrimento alheios e dar-se de si mesmo à sociedade.
Uma coisa mais ou menos ao jeito daqueles cátaros que o nosso Professor JMV, tanto estima.
;))

rainbow disse...

Bom dia:)

"Para que se cumpram as promessas inacabadas e o meu amor infinito".

Anfi,

"Eu só estou à espera da morte mais nada!"

Tem muito tempo para estar morta, a eternidade.
Estamos todos no mesmo barco, todos somos perdedores, porque no final há sempre a morte.
Mas enquanto estivermos vivos, há que aproveitar a vida. Mas quem sou eu para lhe dar conbselhos?
E faz anos no dia 15:)
Um abraço e uma música

http://www.youtube.com/watch?v=NgbcXig1TZ8

Sejam felizes

andorinha disse...

Bom dia:)

Rainbow,

Não podes usar aqui essa palavra proibida, não:)))))
Gostei de Russian Red. Também não conhecia...

Bart,

Acordaste inspirado, hoje:)

http://www.youtube.com/watch?v=LW7MD4p2dGs&feature=related

Bom domingo, pipal:)

andorinha disse...

A partir do momento em que um homem começa a reconhecer-se noutro homem, nunca mais consegue vê-lo como um estranho.

Paul Auster, A Música do Acaso.

P.S. Mas tanto pode ser o começo de uma boa amizade como de um ódio feroz, basta que tenhamos reconhecido no outro partes de nós que não suportam o espelho.

JMV in FB


Um bom tema para discussão, não acham?:)

Anfitrite disse...

Andorinha,

Se não fosses tão pardal maluco, terias percebido que o meu Misty morreu. e eu ando aqui sozinha a arrumar a tralha e a livrar-me dos restosdef mais um ente querido.

Batolo e Rain OBRIGADA. Não vejo as teclas..

rainbow disse...

Anfi,

Eu percebi...
Por isso apressei-me a escrever o comentário anterior.
Um grande abraço

rainbow disse...

Andorinha,

É um bom tema para discussão, sim:)

Concordo que ao reconhecermo-nos em alguém, esse alguém deixa de ser um estranho.
Pode haver uma empatia e até o começo duma amizade; dum ódio feroz duvido,talvez pela minha própria incapacidade em odiar.
Mas, neste contexto, vejo o ódio feroz como uma incapacidade em aceitar o que o espelho reflecte de nós, no outro.

andorinha disse...

Anfy,

Desculpa, de facto não percebi:(
Não sou pardal maluco, mas...
Que posso eu dizer?
Que fiquei triste até pela minha incapacidade de perceber...
Que sei a dor que estás a sentir.

Um grande abraço. Do coração, mesmo.


Rainbow,

Concordo contigo, em parte.
Esse alguém deixa de ser um estranho de facto.

"...vejo o ódio feroz como uma incapacidade em aceitar o que o espelho reflecte de nós, no outro."

Também concordo. Mas por vezes não nasce nem uma coisa nem outra. Há pessoas com as quais me identifico, algumas que admiro, mas não nutro por elas qualquer desses sentimentos.
Se calhar estou a ler mal o P.S., não sei...

Manuel disse...

Boas músicas:

«Jim»: Sarah Vaughan
http://youtu.be/mtbD96hDJlQ

«Fado de amor e pecado»:Nuno Guerreiro e Carmen Linares
http://youtu.be/X2ugGaTwYp8

rainbow disse...

Bom dia:)

Anfi,

No words, apenas um abraço e um sorriso.

Andorinha,

Talvez o P.S. (post scriptum), nada de confusões:) faça mais sentido relacionado com a história de Paul Auster, que fala do encontro entre dois estranhos e de sucessivos encontros entre estranhos.
Como gostaste de Russian Red, aqui fica esta:

http://www.youtube.com/watch?v=deoO0J9ykP8

Bom dia per tutti,
Abraços

andorinha disse...

Bom dia:)

Nada como férias...ainda está tudo a dormir ou então já na galderice:))))


https://www.youtube.com/watch?v=Nl9WMIPzd6w&feature=related

Boa segunda. Inté...:)

andorinha disse...

Só te vi agora, Rainbow:)

A ouvir Russian Red. Ela tem uma voz tão límpida, cristalina, mesmo!
Bigada:)

Penso que terás razão quanto ao P.S. (este...) :)

E agora vou...

andorinha disse...

"Havendo solidariedade nunca estamos condenados à tristeza."

JMV, O Amor é...

Gostei muito também do poema lido pela Inês. Marotinha, a cachopa:)))

bea disse...

Anphy :(

então...morreu o Misty. Sorry. mas a alma dele aportou a minha casa :) no feminino :)), olhos azuis e tudo.

melhorinhas.