domingo, março 13, 2005

Adultos teóricos

A minha cria mais velha na estrada, regressando dos Pirinéus. Estrada perigosa, morte e portugueses aí rimam com frequência. E este nervoso miudinho desde manhã cedo... Miudinho o revejo a ele, agora com trinta anos e pai dos meus netos. É difícil tratá-los como adultos, "por acaso" também nossos filhos. Resultado: um equilíbrio precário no discurso, com medo de os ofender e abafar ou, inversamente e na aparência, os desleixar.

Frase do dia - "Repara! Repara bem! Tu não amas os homens, Hugo. Tu amas apenas os princípios." Sartre, As Mãos Sujas.

Bem mais fácil e asséptico, digo eu. Cristo sabia a enormidade do Seu pedido, quando nos exortava a amar o próximo como a nós mesmos...

25 comentários:

Madalena disse...

Dr Júlio Machado Vaz, como eu o entendo!
Não só eu, claro, mas todos os que sabemos que não podemos eliminar o risco da vida dos nossos filhos.
Bom regresso do "miúdo"!
O meu foi para o Brasil e o meu coração fica pequenino de medo. Mas tem de ser! A vida é para ser vivida!

j disse...

Obrigado, sobretudo pelo título!
"Adultos teóricos", efectivamente... Nós e eles, as nossas crias.

João Mãos de Tesoura disse...

Interessante este post que navega à volta do amor ao próximo. Vou arriscar a minha visão:

O amor filial é o mais forte, por vezes irracional, defendem-se os filhos mesmo sem razão, é um amor incondicional e eterno, sangue do nosso sangue. Mas é um amor fácil, já nascemos com ele, é uma questão de sobrevivência. A paixão também é fácil, é química, não se faz nada por isso. O amor entre duas pessoas é que é obra, é um acto de escolha, é trocar a liberdade individual por uma liberdade maior, pela partilha de uma equipa que não são 2 em um, mas sim um mais um, com as suas individualidades e que se complementam. Duas pessoas que se respeitam e admiram. De facto, o amor é um acto de vontade.
Por fim, e ao contrário de todos os outros, surge a amizade que é um amor desprendido, sem interesses. De facto, a amizade não precisa de nada a não ser a disponibilidade do outro.

O problema das relações são os interesses, e Cristo sabia que estava a definir novos interesses num mundo já dividido...

Desculpe-me a dissertação pouco académica, mas gosto de conclusões!

lobices disse...

...seremos nós, os ditos pais, adultos quando eles, os nossos filhos (também eles pais daqueles que são os nossos netos) também o são?... na verdade foi enorme o que Cristo disse para amarmos os outros como a nós mesmos... utopia?

Anónimo disse...

Numa noite junto ao "Manel da Leitaria", ficou célebre a intervenção do Graduado da Polícia, quando tentava colocar 20 artistas Paço Arquianos no carro patrulha:

- Cosmeticamente falando, eu também sei Direito, mas sou Torto.

Descobrimos o Colega de Carteira:

"Não é justo nem razoável que persistam enviesamentos masculinocêntricos tão acentuados na selecção das questões políticas agendáveis"

Jorge Sampaio (na sessão solene do Dia Internacional da Mulher), 8 de Março.

Mais Informações na Página da Borgalhota

Análise Psiquiátrica ao SAMPAIO

Análise Fisiológica do JORGE

Único Chefe de Estado com DISFUNÇÃO ERÉCTIL
e consequente ausência de "TESÃO DE MIJO"!

www.riapa.pt.to

peciscas disse...

Ó Professor (como diria A. Macedo)como eu subscrevo essa pecisca do nervoso miudinho a propósito das crias.
E faz-me lembrar, por associação, a história de um amigo de um amigo que um dia, no remanso nocturno do "Piolho" em frente de um "fino"confidenciava o seu falhanço como pai. Como pai que se julgava ideologicanente preparado para enfrentar, com a imprescindível liberalidade, a entrada na adolescência, da filhota.
- Sabes, hoje tive um problema com a M...
-O que foi?
-Sabes, ela veio dizer-me que queria sair à noite com colegas.
- E tu?.
- Ó pá, eu disse que não deixava.
- Não deixavas? Tu, um tipo que sempre disseste que estavas preparado para compreender, para aceitar...
- Mas, há pior!
- Então?
- Sabes, ela insistiu, insistiu!
- E tu cedeste, é claro!
- Não! O pior é que terminei com a discussão, pregando-lhe uma valente estalada!
E estava de tal forma amargurado e desiludido consigo próprio, que mandou vir outro fino. E depois mais outro.

trintapermanente disse...

eu já amei mais o proximo do que a mim mesma. chama-se amor incondicional. vá até o meu blog...

katraponga disse...
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katraponga disse...

Gostei da associação da frase ao texto. No seu "Livro do Desassossego", Fernando Pessoa / Bernardo Soares também fala do que amamos: "Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor."

www.katraponga.weblog.com.pt

paopbocca disse...

excelente descoberta. não sabia que tinha um blogue, doutor. não perco os seus programas. ai! estes dfíceis amores.
não sou o Johnny Depp, ai não ai que não, mas sou um caso de dupla personalidade...prazer!!
não tenho crias, ainda, mas entendo-o na perfeição.

Bastet disse...

E que falta nos faz quando perdemos quem nos trata sempre como crianças...Fica soterrado o nosso passado quando se perdem as poucas testemunhas de que nós um dia já fomos pequeninos. Como o fazemos acreditar aos nossos próprios filhos? E aí fica a imensa e indescritível saudade desses tempos em que nos ofendíamos com a doce e "descabida" protecção. A protecção ímpar que nos vinha de quem nos amava mais do que a si próprios mesmo quando falhávamos nos actos e nos princípios. A Jesus terá faltado ser-lhe pai.

maria_arvore disse...

As crias a que continuamente sopesamos dar asas ou escondê-las de baixo das nossas. Também tenho medo que a minha se «estampe» mas corro à sua frente, gritando para que me apanhe, para a ver feliz a dar velozmente às rodas da cadeira.

Porque em tudo, amar é sujar as mãos nas tintas dos defeitos daqueles que amamos. Não temos é de dar a outra face porque isso é sinal de que o outro não nos ama como a si próprio. E sem reciprocidade não se fazem omeletes.

MissM disse...

http://simplesmente-tua.blogspot.com/

Sofia disse...

Quando somos pequeninos e os nossos pais nos abraçam, sentimo-nos protegidos de qualquer e inimaginável mal.
Souberamos nós o quanto os adultos são frágeis!
Um abraço,
Sofia Ramos

CotadaEmBolsa disse...

Acha enormidade?
...eu, por acaso, não...

crack disse...

É tão tranquilizador saber que não estamos sós, mesmo que apenas nos pequenos tormentos do amor pelos nossos adultos teóricos! E que feliz expressão, para eles, e para nós,infantis que ficamos neste desamparo a que nos vota a sua independência.

Kwan disse...

Caro Julio,
Conheço essa estrada de trás para a frente. É uma das que mais fazemos quer para a neve, quer para outra água menos sólida e mais quente...
Folgo em saber que velhos habitos se mantêm e que tudo correu bem. Um abraço aos dois.

SaltaPocinhas disse...

Mas o problema é que por mais que cresçam aos nossos olhos nunca deixam de ser pequenos. Eu já nem me incomodo com isso! E as minhas "crias", de tão habituadas que estão, também parecem não se incomodar...

Anónimo disse...

Ai as crias, as crias...havia tanto para dizer, alias, como só o professor sabe tão bem falar-nos de tudo e qualquer coisa...Adorei o programa de sábado ...Desde que começámos a ouvi-lo,eu e o meu companheiro,a nossa relação melhorou em vários aspectos...MB

Bastet disse...

Porque o Português merece e a humildade é virtuosa: " A Jesus ter-lhe-á faltado ser pai".

lena disse...

e a Deus ter-lhe-á (?) faltado ser mulher

:)

Bastet disse...

Isso não sei Laura... talvez não tenha faltado.

Elisa disse...

Tá tudo maluco...

lena disse...

tá nada! :D






(eu sei que tu também... ;)

Tão só, um pai disse...

Não posso deixar de sorrir, um pouco amargurado. Olho para mim, renitente em lhes dar o espaço suficiente para se libertarem. Lá chegará o momento. Vou a casa dos meus antecedentes, e levo sempre com um sermão na cara. Se não é o tabaco, são os netos, que pouco os têm visitado. Estou sempre a levar. Ainda bem.