quarta-feira, março 16, 2005

E no entanto...

... Se os bordarmos às almofadas com "ferocidade amorosa" - ou desespero solitário? - arriscamo-nos a tornar muito mais árdua a sua caminhada para a indispensável autonomia. Porque são nossos e contudo não nos pertencem.

31 comentários:

lobices disse...

...sabes, Professor?...Estou convencido que os meus (que não foram bordados nem às almofadas mas sim, talvez, num desespero solitário pois deu-se o divórcio na altura dos cerca de 13, 14 anos de idade), os tornou mais livres, tendentes a revolverem o mundo por eles mesmos e, talvez, por isso, mais "nossos"?... Existe uma memória mais rica ainda que seja pelo lado da sensação de "perda" que na altura existiu...
abraço

lena disse...

"sabeS Professor?"!
isto custa mas vai lá!... :D

SonecasS disse...

Bolas: se é verdade, Professor Murcon!
É difícil saber a fronteira entre a (super) protecção e o incentivo à independência. Mais complicado neste reino do Filho único (muitas vezes netos únicos e sobrinhos únicos). Mais complicado nas famílias monoparentais... (vou procurar mais desculpas...) Cumprimentos
SonecasS do Melhor que Prozac!!!

Anónimo disse...

e quando só temos um filho que sobrevive a um divórcio dos pais complicado,(ou de pais complicados?)e a quem a mãe borda na almofada para não o ver voar.
É dificil como diz aqui o sonecass quantas desculpas
Vou desbordar o meu e sentar-me á janela a vê-lo voar e se ele precisar voltar ao ninho abro-lhe a porta.
Teresa

Catty disse...

Os filhos não nos pertencem...
pertencem sim à VIDA...


Sorrisos lindos

I. disse...

"Os filhos não nos pertencem...
pertencem sim à VIDA..."

Mas dar-lhes asas e deixá-los APRENDER voar é das coisas mais difíceis.

Porque não trazem manual. Porque não existem 2 iguais. Porque tal como o tempo que passa, também "nós" mudamos.

jotakapa disse...

Há que encontrar um meio termo entre autonomia e defesa, entre protecção e incentivo para arriscarem...
E como qualquer outro equilíbrio que achamos necessários na nossa vida, é mais simples admitir que é necessário do que realmente conseguir obtê-lo no viver diário.

Tal como nas relações de amor, o sentimento de posse não pode existir, mas isso não significa que devemos descurar, descuidar e proteger quem amamos... mas não os podemos nunca amarrar.
Têm de ter a liberdade suficiente para os podermos conquistar!

Lyra disse...

Sabe(s) [sim, que como diz a Laura, por aqui é tudo tu cá tu lá, mas não me sai da cabeça a imagem daquele Senhor que eu vejo na tv] Os filhos pertencem-nos por muito, muito pouco tempo. Talvez na altura em que na barriga da mãe, dependem completamente dela. Depois...Depois já não nos pertecem mas ao mundo. Ao exterior. Ficam condicionados ás acções dos outros. E crescem e continuam condicionados.
No entanto continuam nossos, os nossos meninos e meninas (ainda que tenham 80 anos!)

grzl disse...

na liberdade o amor floresce muito mais.
tenho um orgulho danado nos meus filhos.

Papo-seco disse...

E, se para complicar lhes dermos um sexo?

E o meu que por ser rapaz o incentivei a partir à busca.

E a minha que por ser menina e estar rápidamente a chegar à idade “ de partir à busca”, eu me roo todo de medos e receios

Kat disse...

Pois mas e os pais parecem insistir em não perceber isso, e esquecem-se que quanto mais nos prendem mais nos afastam é inevitável...

yulunga disse...

"ferocidade amorosa" - ou desespero solitário?, então e a possessão egoista? Não se fala dela, Dr. Murcon?

mood disse...

...Mas deve ser tão complicado!! Por agora identifico-me mais com o dilema dos filhos que lutam ferozmente por crescer. É doloroso e difícil. Mas compreendo também a dor e os dilemas dos pais. Curiosamente nesta fase de individuação e autonomização dou comigo a pensar nesses dilemas quando for a minha vez de me confrontar com a necessidade de não poder 'bordar' os meus à almofada, se é que quero vê-los evoluir; perceber que sendo meus não me pertencem...nunca me pertenceram. Deve passar tudo tão rápido para os pais (o crescimento dos filhos) que quase deve parecer injusto que assim seja...digo eu, que ainda não fui mãe.
Beijinho

FDV disse...

sempre interessante.

cumprimentos.

noiseformind disse...

Leio esta posta e olho para o estudo http://www.ces.ncsu.edu/depts/fcs/agents/LRP.pdf: os 7% das crianças mais obesas dos EUA vêm quase exclusivamente de famílias monoparentais de fundação matriarcal. Enfim… o amor maternal pode não matar mas definitivamente pode provocar diabetes e hipertensão : ))) loool loool loool
E como é que não hão-de as crianças ficar presas nas almofadas? É a mãe que o vai aconchegar à noite, é a mãe que o vai buscar e levar à escola, a mãe que deixa de ir ao trabalho para o levar de emergência ao hospital, a mãe que cozinha o que o menino quer, a mãe que lhe lava a roupa e à qual o miúdo pergunta “onde é que está aquela camisa?”. O pai inutiliza-se por falta de presença não achas, M? E depois o divórcio, o pai com amigas, a mãe com novo marido, os jogos de “o pai deu-me e tu se gostas de mim também te vais chegar à frente”, e a mãe a tentar reorganizar a vida, sem essa margem para cornucópias de benesses. E por aí fora, os miúdos agarram-se onde podem, agarram-se a quem parece agarrado a qualquer coisa, a quem parece ter dado sentido à sua vida, e aí os homens não são tão bom tecedores pois não?
Muito raramente tenho casos em que a mãe tenha metido em casa homem com o conhecimento do menino sem que esse homem fosse o futuro padrasto, plano duradoiro portanto, e muito raramente tenho pais que tivessem metido menos de 4 namoradas em contacto com os filhos. E por isso mesmo é o homem da mãe que magoa mais profundamente o, como gostas de dizer, ganapo. Afinal sempre foi normal encontrar em casa do pai amigas com quem brincar, afinal o pai não podia ficar sozinho entre os fins-de-semana não era? Mas porque é que a mãe quereria mais alguém se tem o menino sempre lá por casa? : )))

lena disse...

fez hoje 11 anos a minha ex-enteada

(detesto o enteada, qto mais o ex :/

mas fui eu que lhe liguei a dar os parabéns, e não a actual mulher do pai
tungas! :D


vamos ser amigas para sempre
:)

Bastet disse...

Esforço-me diariamente por ensinar à minha filhota os primeiros passitos da autonomia mas todas as noites repouso com o nome dela bordado na minha almofada. Quando penso no futuro rezo ferverosamente para que o ponto cruz tenha sido tão bem feito de forma a que tenha muita linha para voar mas que o nó de amarra se mantenha preso na minha fronha....

yulunga disse...

Meu Deus, como são ausentes os pais nessas cenas de bordar. Não serão as mulheres que os afastam do seio familiar com atoardas do género: Carreguei-o durante nove meses, saiu de dentro de mim, entendes lá tu destas coisas, esse sentir é-nos exclusivo, faço eu pois tu não sabes fazer isso muito bem, vou lá eu tratar desse assunto pois tu não tens lá muito jeito para essas coisas. Até para a decisão de abortar a opinião masculina é posta de parte. Há fenómenos que me fascinam, e o da geração espontânea é um deles

trintapermanente disse...

o egoísmo maternal é muito penalizante para os filhos. daí resultam problemas de auto afirmação graves. timidez. egocentrismo. frustração face aos problemas. problemas de decisão. amadurecimento tardio ou inexistente. e homossexualidade.
nem todo o "amor de mãe" é bom.

Marion disse...

Gosto tanto quando fala dos filhos, e dos filhos dos filhos ... roubei este post, afixei-o com o título "post roubado do dia", espero que não leve a mal
obrigada

R.G.S. disse...

"A separação torna-os mais fortes"
"Custa mas vai lá"
"Pertencem sim à vida"
"Aprender a voar"

Prenúncios de uma morte anunciada, esquecida e revisitada pelas formações de compromisso.

Qual supositório benfazejo que custa mas faz bem. O "desespero slitário" que o Yulunga falava.


p.s.- parabéns pelo blog que só agora descobri, já cá está e só agora o conheci - fantástica a blogoesfera.

Abraço

http://desejosprivados.blogspot.com/

yulunga disse...

r.g.s. O desespero solitário foi uma citação tirada do texto do Dr., não foi uma expressão minha

Luís F. Simões disse...

Não, não nos pertenecem... porém na perspectiva deles dá-se o contrário, certo? Que alívio! ;)

Seguem-se dois pormenorzecos, talvez dispensáveis:

Imaturidade: lamento filho, mas tenho dificuldade de me sobrepor à tua condição.

Sempre detestei aqueles manuais (para pais) sobre crianças. Sempre recusei perder o prazer da espontaneidade ;)

Abraço

Mantenhas disse...

Gostei que me tivessem dado a conhecer este endereço. Observo-o, há já algumas escrevidelas.

Sem tema específico, não é vulgar. O despretenciosismo não é trabalhado ou propositado. ... a simplicidade com que este Senhor reveste as coisas complicadas do dia a dia, fascina-me e acalma-me os ímpetos de que o Mundo está blá (péssimo), blá (caótico), blá (acabado), blá (etecetera).

Pois como testemunho e assim saudosistamente (axo kixto n exixt, heheheh) relembro um desenho teimosamente pintado numa almofada com a promessa (minhas: almofada e promessa) de que iria, passado algum tempo, para o baú dos pertences a levar da casa dos pais e, quiçá, fazer moldura ao quarto futuro de outros cresceres alicerçados neste 'homem grande'.

Obrigada por mo terem recordado, às vezes esquece-me.

Mantenhas

sofia disse...

"Ferocidade amorosa", seria bordá-los em nós. Bordar um filho na almofada, é apenas fazer com que as quedas sejam minimamente amortecidas, ao mesmo tempo que os gravamos num lugar muito nosso, onde pousamos a cabeça, quando nos sentimos mais perdidos. É para isso que existem as almofadas. Para gravar a marca que os filhos criam em nós. E é para isso que existem as mães (homens e mulheres). Para que os filhos saibam que, mesmo quando voam para longe, continuam bordados na nossa almofada.

th disse...

Arrepia-me a expressão!
Bordar À almofada...parece-me muito doloroso, demais.
Meu bisneto faz hoje 5 meses, nunca bordei à almofada nem filhos, nem netos nem hei-de bordar o meu bisneto, mas sei que a sua marca está gravada em mim, como um bordado...th

Sofia disse...

Senhor Professor Júlio Machado Vaz,
muito mais generosa é a história do gato preto, grande e gordo... que ensinou a gaivota a voar...
Abraço,

Cris disse...

Olá, Professor!
Permito-me tratar-te por tu, posso?

Sou mãe de dois tesouros. Não são meus? Eu sei!... Mas se a vida me deu o presente de os parir, eu dou-me o presente de os sentir meus, muito meus, sabendo, porém, que para que os possa considerar sempre assim, não os posso bordar na almofada... mas antes, e só, no meu peito, respeitando-lhes sempre a sua individualidade, que tento bordar - essa sim - com fios de verdade, honestidade, sensibilidade e, sobretudo, respeito pelo próximo!

Beijinho

yulunga disse...

Leio, leio e leio "os meus filhos". Porque não se lê os nossos filhos. A figura paterna é tão posta de parte. Em vez de bordarem nas almofadas o nome dos filhos, deviam bordar a palavra "partilha".

yulunga disse...

Dr. Murcon, bem sei que não devia ter dado esta estúpida ideia. Bem... Lá se vão metade das consultas.

nikita disse...

Só agora descobri este blog de que gosto bastante.Textos muito bem escritos...