domingo, março 20, 2005

Dia do Pai

Passei o Dia do Pai em Cantelães. E olhando a Cabreira, coroada por moinhos anorécticos que talvez fizessem Cervantes arranjar outros adversários para D.Quixote, recordei o meu velho com um sorriso - como ele detestava abandonar a "civilização"! Se ali estivesse, não tardaria a sugerir, inquieto, o regresso ao Porto; abraçando os amados jornais com o desespero de náufrago exausto. Minha Mãe, atenta, mexeria eficazes cordelinhos para lhe fazer a vontade, qualquer sinal de angústia por parte do seu amor a afligia. A morte resolve este tipo de problemas. Ontem, o velho não teve outro remédio se não admirar a Cabreira comigo. (Na realidade, dentro de mim...). E ouvir o filho lamentar que o carinho entre os homens seja tão complicado e tímido que, amiúde, só conheça a luz do dia quando a de uma vida se apagou:(.

38 comentários:

Anónimo disse...

Olá Professor

Parece que eu estava por aqui (como acontece muitas vezes) quando decidiu deliciar-nos com outro post.

Resto de bom domingo Professor

j disse...
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j disse...

É mesmo, professor!
Porque raio será que os mais sublimes sentimentos do Homem, como o Amor e o carinho, se tornam tão manifestamente evidentes, quando já não temos connosco os seus destinatários?!

maria_arvore disse...

Pensamento positivo: cada vez mais os pais não se inibem de mostrar carinho pelos seus rapazes.

Tive a sorte de ser a menina do papá e não o irmão mais velho. Ontem, abracei-o, fazendo o que ensinou: mesmo os pequenos nadas, fazem-se com paixão.

carlos disse...

como o entendo, professor...

jotakapa disse...

Penso que as coisas vão mudando, lentamente mas estão a mudar, as mentalidades aos poucos estão a compreender que de nada serve tornar complicado o que pode ser simples.
Espero conseguir eu também simplificar!

rodrigo terra disse...

Gostava muito de conseguir dizer isso ao meu pai, e de ele ser capaz de o ouvir.
Bom resto de fim de semana, Professor.

Menina_marota disse...

A lembrança que trazemos no coração, daqueles que amamos e nos amaram, nunca se apaga. São memórias vivas, de infância, em que o carinho e o sabor da ternura. torna-se mais forte.

Abraço :-)

Madalena disse...

Somos muitos os que passámos a guardar o pai no coração!

Anónimo disse...

O meu pai ainda vive. Damo-nos muito bem. Segue os meus conselhos e tudo, o maroto: para manter activa a massa cinzenta, tem feito o que sugeri e lê um pouco mais, de vez em quando (tem 61 aninhos)!
Como tenho mau feitio (Graças a Deus, sou uma "enfant terrible"!), contrario datas: ah, (ele) é Dia do Pai? Não faz mal, ignoro o calendário! Dou-lhe um abraço doce um destes dias, quando sentir que ele precisa: esses sabem melhor, são mais sinceros!

E não, não entendo por que dizem algumas pessoas que aqui comentam que há muito não ouviam a palavra ternura... Fico siderada! Em que mundo escolheram viver?... A ternura anda por aí: é preciso dizê-la! Qual raio poderia ser a consequência a não ser mais ternura?

Parabéns pelo blog, Senhor Professor: soa quase tão bem como a voz baixa e serena que lhe ouvia na rádio e as palavras não distam das dos livros, que bom!
(vénia respeitosa, sorriso de empatia, como eu tive para com o adorável eu-adoptei.blogspot)!

1 abraço.

Inês Alva
azimutes.blogspot

Blue C. disse...

Eu passei o meu Dia do Pai numa fila para fazer os testes de doação de medúla óssea promovida pelos Pais de uma menina. Fica aqui uma informação importante. Passe no Ser Humano. Um beijinho

Ao Apelo POR UMA VIDA feito no Ser Humano e ao fantástico esforço da familia da Beatriz e de toda a comunidade onde vivem responderam 1000 pessoas!!

A nossa ajuda pode ir além de sermos doadores. Vamos apoiar a familia da Beatriz com uma mensagem de Amor.

Mais pormenores no SER HUMANO (serhumano.blog.com)

cris disse...

Ontem pensava, enfiada num comboio a caminho de 1 terra desconhecida, como estes dias devem adquirir redobrada importância quando, ironicamente, já perdemos o objecto temático. Nisto liguei ao meu pai para lhe dar 1 beijinho e dizer q gosto muito dele. Ele sabe, pois.
Reforçar os laços. Enquanto posso.
Um abraço.

Odete disse...

Estes dias acabam por ser nostálgicos, não é?
Tanta coisa nos recorda aqueles que amámos e que já partiram...
O carinho existia (poderia realmente não ser expresso por palavras ou atitudes ) mas estava lá. Se não estivesse, não era pelo facto de uma vida se apagar, que o passava a sentir. Não exteriorizar é uma coisa e não o sentir é outra.
Nem parece que estou a falar com um psi:).
De qualquer forma concordo com o Jotakapa quando diz que as mentalidades estão a mudar; também já vou encontrando homens que não têm receio de demonstrar os seus sentimentos a este nível. É óptimo que as coisas evoluam nesse sentido.
Um abração

th disse...

dizem que o 1º amor de uma mulher é o pai, como o meu sempre esteve ausente, mesmo presente, sempre lhe senti a falta. Que pena, não façam isso aos vossos filhos,
th

girassol disse...

O MEU PAI
(...) O Pai! O Pai era a referência maior. Apesar de já não estar aqui para lho dizermos, onde quer que esteja saberá que somos agradecidos pelo legado existêncial que nos passou. Até porque lho fizemos crer em vida, que é o jeito melhor...
O meu Pai, sonhava rebuçados ao sábado de manhã, e contava histórias ao sábado ao serão, também nos outros dias, às vezes.
O meu Pai, assava batatas doces para nos dar de prenda na noite de natal, e, na festa anual lá na terra, comprava uma camioneta de brincar cheia de bonecas em fios de pendurar ao pescoço, a camioneta para o João, único rapaz, os fios, para nós, as raparigas.
o meu Pai, que sonhava rebuçados e contava histórias e assava batatas doces e comprava uma camioneta de brincar carregada de bonecas de enfeitar, agora, é a estrela mais brilhante que há no céu. É de lá que continua a ensinar-me a sonhar. (...)

lobices disse...

...não consigo levar dentro de mim o meu "velho" a olhar a Serra da Cabreira; mas, olho o local ali embaixo, no quintal, onde existia um pombal... onde ele passava as horas que tinha a olhar pelas suas pombas... a fazê-las voar o mais possível para as exercitar para o próximo concurso... e eu, da varanda da cozinha olhava-o e desejava, às vezes, ser um daqueles pombos quje ele pegava com aquela técnica única de se pegar num pombo com os dedos nas patas e o polegar nas costa; depois aproximava o nariz do bico e afagava-o como que lhe dizendo o segredo para a vitória... no dia do pai também lhe dediquei umas palavras mas estas tuas palavras fizeram-me recuar muitos mais anos do que aqueles que refiro no meu lamento...
...abraço

Bastet disse...

Ainda não consigo escrever sobre o meu pai. Não gosto da caixa postal marmórea onde dizem que ele descansa. Eu que sei da nuvem gorducha e alva de onde continua a brincar comigo.

Anónimo disse...

Tenho por lema que na vida nada acontece por acaso. Aprendemos sempre alguma coisa. As coisas boas, dão-nos prazer e as más dão-nos exemplo e experiência. Até um mau pai ou um mau filho são úteis: servem de mau exemplo.
No fundo tomos sentimos uns mostram outros não. Para que os nossos filhos não fiquem saudosos também, deixemo-nos de vergonhas ou preconceitos e toca dar-lhes carinho...e umas palmaditas quando necessário também.
S

Anónimo disse...

Já agora para referência...de Murcon não tem nada.
Votos de continuação de um excelente trabalho e da lição de humildade que dá a muitos intelectuais. Linguagem clara e imagem amiga.
Cumprimentos
S

JoaoN disse...
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Anónimo disse...

Felizmente ainda fui a tempo. Eu e o velho. E muito graças ao meu ganapo, que é "filho duas vezes", dizem. Felizmente.
Filinto

katraponga disse...

Ele há de facto coincidências. Ontem fui ver o filme "Mar adentro", e à saída do cinema comentava precisamente "... que o carinho entre os homens seja tão complicado e tímido que, amiúde, só conheça a luz do dia quando a de uma vida se apagou."

Quem viu o filme deve recordar a cena do idoso pai galego, ao lado da cama vazia...



www.katraponga.weblog.com.pt

BlahBlahBlah disse...

Ganda "murcon"!

grzl disse...

o que o meu pai me ensinou foi a ser verdadeira, alegre e optimista, por isso ele anda sempre comigo

lena disse...

eu passei o dia do pai sozinha à espera da chuva (pus vivaldi bem alto e os gatos meio tontos...lol)

e ela veio!:)

(acho que o meu pai deu uma ajuda :)



mas olha que não é só entre os homens que existe essa dificuldade
eu e o meu pai sofremos desse mal
quase mesmo até ao fim...


(eu disse quase)
;)***

Luís F. Simões disse...

Por vezes dá a ideia que eles nos pertencem mais quando mortos que vivos...

Kwan disse...
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Kwan disse...

Nem me lembrei. Nem me lembrei de lembrar...

noiseformind disse...
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noiseformind disse...

É a tua primeira crónica do livro Estilhaços, e já nela descreves o tal momento desfazado, tentando dizer de cor sem falhar muito "deu-se o seu passamento minutos antes da minha chegada, esse espaço de tempo marcou toda a nossa relação". Eu nem quero pensar no passamento do meu, devo ser o único filho do mundo que tenta reformar o pai à força, atirando-lhe para os braços constantes viagens que o afastam cada vez mais da empresa e do tal enfarte do miocárdio, invenção burguesa para a morte no posto de trabalho ou em virtude dele. Mas a nossa relação não deve ter grande remédio, por maiores que sejam as benesses pessoais ( e pq não capitalistas?) da minha escolha, fica-lhe ao homem (ainda não velho, saliento) sempre o trago alérgico quando diz a alguém que o filho passa o dia a fazer de confessor não-oficial da Igreja Freudiana loooool looooool loooooool looooooool looooooooool
Talvez um dia o aprisione como tu, Murcon, mas ai do desgraçado se não me dá a mão antes de falecer, vou deixá-la bem estendida até à última discussão que tivermos sobre o aborto.

Papo-seco disse...

“E ouvir o filho lamentar que o carinho entre os homens seja tão complicado e tímido”

Ouvi da boca do meu filho, à perto de 1 mês, essas palavras, pediu-me para ir com ele ao café do Cinema Monumental em Lisboa e entre outras coisas disse-me isso.

Tremi todinho por dentro, mas não chorei.

Puta de falta de sensibilidade masculina.

Anónimo disse...

O meu está cá e continua carinhoso mas tem uma filha mais poderosa do que eu a tomar conta dele - Alzheimer.

Isabel

yulunga disse...

BASKET, tudo a seu tempo. Já passei essa fase, felizmente. Neste momento, tirando aquelas alturas de sensibilidade extrema em que uma simples contrariedade nos faz chorar, consigo falar com uma tranquilidade "assustadora". Luis F. Simões, talvez seja mais aquela sensação de que apesar de se ter "tudo" o que havia pra dar, quando não os temos achámos que afinal ficou ainda tanto para dar. O amor é inesgotável, por isso a sensação que fica é essa

PARTILHAS disse...

Ora aí está um termo, que me incomoda... "o velho"... e como me incomoda... Pode ser que para mim, tenha um significado diferente... O Meu pai é hoje-Graças a Deus vivo-"obrigado" a ver tantas coisas comigo e eu com ele... O meu Pai, meu Amigo, Meu Pai. Não me imagino a chamá-lo por "o velho".
Sei que o Sr.tem a voz doce e sorriso franco, de olho vivo, brilhante, transparente. Di-to, se calhar não soa assim... mas escrito. Perdoe-me Sr.Dr.... mas, não gostei.

lena disse...

ele não disse "o velho", ele disse "o meu velho"

:)

Anónimo disse...

Belas palavras, professor. Como eu o entendo tão bem. Só o meu Pai sabe como eu gostava de poder partilhar com ele todas as minhas dúvidas e apoiar-me nas suas certezas. Viver o prazer deste e de todos os dias e de o poder abraçar, novamente.
...vou abraçar o seu Neto antes que seja tarde...!
Fique bem onde quer que esteja.
Um abraço para si. CG.

MRF disse...

Os meus pais envelheceram muito nos últimos anos, às vezes pressinto que estou próxima dessa fase da perda - que me parece brutal, e é claro que não me sinto preparada para a enfrentar! Mas por isso mesmo, enrosco-me cada vez mais no meu pai, faço-lhe cócegas, escrevo-lhe poemas, é uma espécie de namoro. Quis a história das nossas vidas que eu não seja capaz de o fazer com a minha mãe. À minha mãe eu não dou mimos, agradeço apenas mais vezes tudo o que só ela faz por mim (nem o meu pai). Eu pp estranho a minha frieza, com medo que isso me aconteça um dia, sou toda beijos e carícias com as minhas filhas. Às vezes penso que esses abraços que ficarão por dar, terão menos perdão, pois a consciência do tempo que "urge" é já tão forte! Oh culpa que já me assolas!
Mas os afectos não nascem da razão, nascem do hábito da dádiva... e quebrar hábitos e vícios, nem os monges! Enfim, um probleminha meu, que me apeteceu partilhar!

Mª João disse...

Boa noite. O professor diz (...)"o carinho entre os homens seja tão complicado e tímido "(...).

Não é só esse que é complicado. Sou a filha mais nova, a menina do papá, que felizmente ainda está por cá, e não lhe consigo dizer que o amo! Não lhe consigo dizer que é um pai extraordinário, inovador. Só espero que o coração dele saiba disto já...