quarta-feira, março 30, 2005

Para a Maria João

Plutarco escreveu um dia que os médicos não podem abdicar da filosofia e os filósofos devem ocupar-se da saúde do corpo. Esta visão “inteira” do doente – hoje diz-se holística… - não foi a dos herdeiros da revolução científica. Embora a OMS defina saúde como um bem-estar físico, psíquico e social, a medicina privilegiou uma visão linear da doença, tipo causa-efeito: agente etiológico leva a efeito indesejável. Tratamento? Anulação do agente etiológico (modelo das doenças infecciosas). Trata-se do sublinhar da doença como entidade, em detrimento da pessoa doente, única na sua humanidade. Quanto à relação terapêutica, os estudos não deixam dúvidas – o “bom doente” é o que obedece e não faz perguntas. Por isso a discussão bioética é tão pertinente. Quais os objectivos da medicina? Que palavra – e com que peso… - tem o doente a dizer sobre a terapêutica e possíveis efeitos laterais? Quanto tempo levará a relação clássica médico-doente a deixar o registo paternalista para se transformar numa relação sujeito-sujeito, sem prejuízo do saber médico?
Uma referência final às populações que alguns de vocês referiram como discriminadas. É verdade. Basta pensar nos idosos e nos seropositivos. Gente que incorre numa morte social que antecede a biológica. Porque não são jovens e “eficazes” numa sociedade que privilegia a memória computorizada ou simbolizam a “decadência moral” que é apanágio…, dos outros. E contudo, nos inquéritos, todos nos afirmamos incapazes da xenofobia!

14 comentários:

lobices disse...

...nada tenho a comentar sobre estas palavras acabas de ler; mas há uma coisa só que me ficou no canto da orelha: é sobre a relação médico-doente; "ainda me lembro" do "meu" Médico (o médico que tratava de toda a minha família nos anos 50 anos 60, o meu querido e saudoso Manuel Rodrigues também ele columbófilo como meu saudoso pai, também ele maníaco das pombas e dos concursos) que mantinha comigo e com os meus aquela relação quase que familiar do tu cá tu lá...
...prezado Profe Júlio: quando foi que se perdeu essa relação?
...por que razões se perderam?
abraço

lobices disse...

(rectifico: acabas de ler, para acabadas de ler)

Odete disse...

Lobices - quando se perdeu essa relação e porquê?
Ora,se os médicos têm 10 ou 20 doentes para verem numa manhã ou numa tarde, que tipo de relação se pode esperar? O que eles querem é "despachar" porque depois têm mais que fazer.
Até em consultórios privados isto se passa. Já me aconteceu estar numa consulta e não estar suficientemente esclarecida e pretender colocar algumas questões e a médica muito subtilmente deu-me a entender que o meu tempo tinha acabado e que tinha mais doentes à espera. Fiquei estupefacta! E como este caso conheço muitos.
Claro que também há o oposto: profissionais competentíssimos e que realmente vêem o doente que têm à frente e não a doença. Esses merecem todo o meu apreço. É pena que sejam poucos.

Odete disse...

Infelizmente penso que ainda levará muito tempo até a relação médico-doente deixar o registo paternalista. Alguns médicos tratam os doentes como se estes fossem atrasados mentais incapazes de perceberem seja o que for.
O ano passado a minha mãe esteve uma semana internada e eu ao pretender saber junto da médica que a estava a acompanhar informações mais concretas acerca do seu estado e possível evolução, obtive como resposta duas ou três frases curtas e inespecíficas. Ao tentar que ela concretizasse mais a resposta,retorquiu-me: isso já são aspectos técnicos, não se meta por aí; depois começou a utilizar aquele jargão médico totalmente incomprensível para um leigo no sentido de me "comprovar" que eu nunca poderia perceber a sua explicação!!!
O "bom doente" é o que obedece e não faz perguntas? Isto facilita muito a vida aos médicos, não é?
Parece que eles agem como se o facto de lhes pormos questões lhes retirasse autoridade ou então será que pensam que estamos a questionar a sua competência?
E se for? Nemtodos os médicos são competentes...Um médico competente não se incomoda com isso.
Tenho pena de ter uma visão tão pouco favorável da medicina e gostava muito que as coisas fossem de outra forma, mas enfim...
Quando é que nas faculdades de Medicina os futuros médicos passam a ser alertados para estes aspectos?

Calvin disse...

Se é verdade que muitos médicos são paternalistas com os seus doentes (tanto quanto a volatilidade da relação médico-doente permite usar este possessivo), não é menos verdade que alguns doentes se põem a jeito para esse papel. O caso da diabetes, em que a terapêutica adoptada passa bastante pela iniciativa e auto-análise do doente, é bastante ilustrativa: os doentes habituados a esperar que o médico lhe comunique um guião a ser cumprido ortodoxamente, são precisamente os que pior conseguem controlar a sua doença.
Em todo o caso, julgo que os médicos não são formados para ver todas as dimensões do doente. A humana, em particular, é preterida pela biológica.

nikita disse...

Absolutamente de acordo consigo - a desumanidade com que os médicos (e não só) olham para os doentes é arrepiante... Acrescente os doentes mentais à lista dos que são marginalizados...

Tão só, um pai disse...
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Tão só, um pai disse...
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Tão só, um pai disse...

Este comentário foi-o no texto anterior. Como, aqui, também se aborda o assunto que, em particular me toca, o dos idosos, reproduzo-o.
Espero que ninguém se sinta "insultado", nem melindrado por esta revolta interior. Nem se assustem com o "desejo de violência justiceira". Mas algo tem de ser feito, e já.

Os idosos.

Aos idosos, deveria ser-lhes autorizado, concedido, o direito de se munirem de uma caçadeira caregada, durante as consultas nos Centros de Saúde e Hospitais. Pelos vistos, esta será a única forma de obterem o respeito que lhes é devido, o respeito pela sua vida que, eles e quem os ama, querem prolongada. A um idoso muito especial, das minhas relações, que já contraíu um cancro da próstata, foi negado um exame por "ser muito caro e, ele, já não ser novo". Que é como quem diz, porque poucos mais anos de vida teria. Só a tiro, ou à bomba. Quando mais precisam de carinho, paciência e mais tempo para se fazerem entender, no turbilhão das suas mentes atormentadas com o futuro e a doença, é-lhes cruelmente destruída a esperança, ondenando-se-lhes que se confinem à espera do fim. Só a tiro, ou à bomba. É difícil ser-se racional e mero espectador destes actos.

Anna^ disse...

taosoumpai É a hipocrisia...do sistema...da politica...da má educação...é no minimo vergonhoso!

Anónimo disse...

Só duas linhas:
Tenho duas primas gémeas lindas de morrer com 3 aninhos cujos olhos brilham quando se lhes diz "Vamos à Bibó?" (entenda-se bisavó), quero com isto dizer que há muito amor a dar por parte de quem já tem a vida toda para trás e alguma mais pela frente. Lutar para que esses anos que lhes restam sejam um bocadinho, um bocadinho só que seja, felizes e dignos não pode ser uma batalha perdida.
("Bó" não sabes ler e nada percebes de Internet, mas... Adoro-te... Sei que sentirás um sopro na orelha...)

Katz

Maria João disse...

Obrigada pela resposta!
Não poderia concordar mais... Sinceramente, creio que um dos factores que fragiliza a relação médico-doente é a formação. Parece-me que as bases sobre a comunicação com o doente são mto teóricas e pco exemplificadas...

Spot One Image By Day disse...

Acho que este problema encaixa noutro mais genérico que é o de precisamente vermos a outra pessoa que temos na frente como uma pessoa única. Essa pessoa não é um doente nem é um médico. É uma pessoa única que está na minha frente e com ela eu vou ter a possibilidade de conviver naquele momento. Vou tentar dar-lhe tudo o que for capaz no sentido de ajudar essa pessoa e estar atento ao que ela possa transmitir que me possa ajudar a ser mais eu.

APC disse...

Ageism, ou etarismo (o nome é nada)... O veneno social que faz com que se morra de velho ainda novo. É às voltas do que ando e andarei; quem sabe até ser velhinha!?