segunda-feira, junho 13, 2005

Eugénio.

Quando os poetas morrem a notícia espalha-se, vertiginosa - chove em Barcelona, como choveu um dia em Santiago pela liberdade. O Eugénio costumava dizer que ansiamos por ela, mas dentro do rebanho. Com efeito. Ele nao, fez caminho próprio sem preocupaçoes de companhia protectora. E assim, acabou rodeado por uma multidao de gente, grata pela sua inimitável poesia solar.

31 comentários:

jotakapa disse...

Nunca o esqueceremos, estou certo disso! A poesia dele irá continuar connosco

Madalena disse...

Ele é um dos que se libertou da lei da morte, como disse o outro poeta!

lobices disse...

...também chove em Portugal...
(apenas porque Eugénio é imortal)

Maite disse...

Bom dia Maralhal e Professor

Este post tem todo o "ar" de uma comparação, Professor! "Talvez" Eugénio não tenha sido aceite dentro da élite dominante, tenha prosseguido adiante sem a tal "companhia protectora". Mas para os seres corajosos, essa não é essencial e eles encontram outros caminhos muito mais encandescentes e que arrastam multidões com o seu grande poder sedutor :)

Professor falta o til em multidão! ;) (estou a fazer de corrector, porque o de serviço, parece que foi de fim de semana prolongado;)

Lobices, chove por aí? Bolas, aqui nada :(

Poeta disse...

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?

grzl disse...

só para recordar o Poeta.

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

Bom dia a todos e boa semana
graziela

Elsa disse...

Adeus a Eugénio de Andrade



Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor
E o que nos ficou não chega
Para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Gastámos as mãos à força de as apertarmos
Gastámos o relógio e as paredes das esquinas
Em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro,
Era como se todas as coisas fossem minhas;
Quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes
Verdes.
E eu acreditava
Acreditava
Porque ao teu lado
Todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
Era no tempo em que os meus olhos
Eram realmente peixes verdes.
Hoje são só os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
Uns olhos como tantos outros.

Já gastámos as palavras;
Quando agora digo: meu amor
Já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
Tenho a certeza
De que todas as coisas estremeciam
Só de murmurar o teu nome
No silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que peça água.
O passado é inútil como um trapo
E já te disse: as palavras estão gastas

Adeus

Caínha disse...

Ligar o rádio, ouvir as noticias e de repente sentir que os olhos estão húmidos, muito húmidos. Havia um conforto, ou um orgulho, grande em saber que o Eugénio de Andrade vivia, que partilhava os caminhos desta cidade, os olhares sobre o rio, a paixão pelos gatos ... Nem sequer são lógicas as lágrimas, mas elas ali (aqui) estavam. Conforto apenas de saber que não nos deixará, que em tudo o que escreveu perdurará e continuará a encantar muitos outros.
Hoje o dia está coberto de uma neblina pálida, triste, sem brilho. è a neblina do Porto, mas é também a alma do dia.

António Pedro Ribeiro disse...

A melhor forma de recordarmos os Poetas é usando as suas palavras:

«A Uma Fonte

Fonte pura, fonte fria...
(Onde vais, minha canção?)
fonte pura... assim queria
que fosse meu coração:
fluir na noite e no dia
sem se desprender do chão»

andorinha disse...

Olá Júlio e maralhal,
Os grandes vultos são imortais. É uma frase feita mas é real.
Como diz o Jotakapa a sua poesia ficará para sempre connosco.
A melhor forma de homenagearmos Eugénio de Andrade será continuar a lê-lo e a divulgá-lo.

daniel disse...

No alentejo a chuva leve cai mas não chega a tocar no chão. Talvez Eugénio de Andrade lhe encontrasse o sentido. Aos mortais como eu apenas resta um silêncio solene.
Um abraço a todos.

BlahBlahBlah disse...

Mas, temos poetisa! A Encandescente.
Que me diz desta homenagem linda e conjunta a Eugénio de Andrade, Cunhal e Vasco Gonçalves?

Carta de adeus
«Escrevo-te hoje, triste, meu amor,
Para te contar dos meus heróis.
Sabes que foram todos homens valentes?
Homens diferentes no gesto e na palavra.
Homens grandes como as palavras que com eles aprendi:
Revolução, igualdade, liberdade.
Todos os meus heróis foram gigantes, meu amor,
Firmes como rochedos em dias de tempestade
Grandes comos os sonhos que tinham dentro
Grandes como os ideais porque lutavam
Livres como o vento e o pensamento.
Os meus heróis nunca se esconderam, meu amor
Não tinham medo de nada.
Tinham dentro o sonho como D. Quixote
E a força das convicções de Che Guevara.
Foram todos vilipendiados e caluniados os meus heróis, meu amor
E as gentes esqueceram que eles fizeram a liberdade.
Escrevo-te hoje, triste, meu amor,
Perdi os meus heróis.
E a hora é de saudade».

Adeus companheiro Vasco. Adeus camarada Álvaro. Adeus poeta Eugénio.

Por Encandescente, in
http://www.eroticidades.blogspot.com/

peciscas disse...

AS PALAVRAS

São como um cristal, as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.


Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos, as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

O poeta semeou palavras que recolhemos e teremos de conservar, porque são eternas.Partiu agora.

Outros semearam palavras às vezes punhal, às vezes incêndio. Também partiram agora.
Oxalá que, quem fica para já, possa ser digno do exemplo da verticalidade, talento, grandeza, desses que agora se vão, deixando-nos um pouco mais pobres!

Elisa disse...

Sul
Era verão
havia o muro
na praça a única evidência
eram os pombos
De repente
o silêncio sacudiu as suas crinas
correu para o mar
Pensei
deve ser bom
morrer assim
explodir no ar.
Eugénio de Andrade

jezbell disse...

Uma homenagem ao génio do Poeta pelas palavras do António (o Lobo Antunes):
"E é de Eugénio de Andrade que falo hoje, perpétua varanda de basalto em chamas de frente para o mar.
Chamam-lhe o amigo mais íntimo do sol: de acordo, se o sol for obstinado e severo. Chamam-lhe poeta: de acordo se as palavras nos trazem notícia da veemência do sangue. Chamam-lhe difícil: de acordo, se notarem a bondade de menino na pomba do sorriso que de tempos a tempos acende os passos seus e os nossos e nos mostra a única vereda que caminha a direito, macieiras fora, na direcção do rio. Não conheço ninguém com gestos tão longos e com uma tão aguda inteligência da alma. Onde poisa a atenção do ouvido tudo se torna búzio. Onde descansa os dedos tudo se torna gato comedido e atento. Onde os olhos lhe nascem aprendemos com ele o intransigente júbilo do mundo."

BlahBlahBlah disse...

*** maite *** : Escreve-se incandescente, com 'i'. Encandescente é a poetisa!

E&E disse...

Tantas e tão justas homenagens ao POETA que deixou este "surdo, subterrâneo, impiedoso rio".

katraponga disse...

Às vezes nem parece que a vida acaba mesmo para todos. Mas acaba. A imortalidade chegou de outra forma, há muito.

Olhar disse...

O COMUM DA TERRA
(Vasco Gonçalves)

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência também sabe que no verão pelas veredas da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas se perdiam, outras duram ainda, são lume breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem, vento areias mastros lábios, tudo ardia.
14-5-76
Eugénio de Andrade

RECADO PARA CARLOS DE OLIVEIRA

Foram vários a partir,
vários a abandonar hábitos
máscaras cobardias - o deserto
sem lacuna dos dias.
Lá onde estás chegaste antes de mim.
O sítio deve ser mais asseado:
guarda-me um lugar perto de ti.

21.10.82
Eugénio de Andrade

QUASE EPITÁFIO

O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.

Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.

Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.

1986 (?)

Meu caro Professor,(longe de mim querer contrariá-lo), mas, parece-me que Eugénio de Andrade assim vai, continuar!
acariciado pelo olhar de uma multidão de gente, grata pela sua inimitável poesia, solar ou não.

Um abraço amigo

Lucília disse...

Hoje apetece-me ouvir Rodrigo Leão.
Será que o Eugénio ia gostar?
Boa noite a todos

andorinha disse...

Blahblahblah,
Gostei da homenagem.:)
Três heróis, de facto, cada um à sua maneira.
A hora é mesmo de saudade.

Vampiria disse...

Viverá sempre enquanto a recordação existir e as suas poesias forem lidas.
Estranho...passei a noite toda a sonhar com mortes...coincidências...
Um abraço* *

(Chinezzinha) disse...

Adorei a homenagem conjunta da Encandescente.

Carta de adeus
«Escrevo-te hoje, triste, meu amor,
Para te contar dos meus heróis.
Sabes que foram todos homens valentes?
Homens diferentes no gesto e na palavra.
Homens grandes como as palavras que com eles aprendi:
Revolução, igualdade, liberdade.
Todos os meus heróis foram gigantes, meu amor,
Firmes como rochedos em dias de tempestade
Grandes comos os sonhos que tinham dentro
Grandes como os ideais porque lutavam
Livres como o vento e o pensamento.
Os meus heróis nunca se esconderam, meu amor
Não tinham medo de nada.
Tinham dentro o sonho como D. Quixote
E a força das convicções de Che Guevara.
Foram todos vilipendiados e caluniados os meus heróis, meu amor
E as gentes esqueceram que eles fizeram a liberdade.
Escrevo-te hoje, triste, meu amor,
Perdi os meus heróis.
E a hora é de saudade».

Adeus companheiro Vasco. Adeus camarada Álvaro. Adeus poeta Eugénio.

Por Encandescente, in
http://www.eroticidades.blogspot.com/

Em questões de horas ficamos sem três grandes vultos da nossa cultura e política.

Morre o corpo,fica a alma e a obra.
No meu coração continuam vivos.
Mas estou triste,confesso...

Beijos

pandora disse...

o poeta que mais amo... mas o ADEUS não, recuso publicar! demasiado triste o vazio das palavras gastas, e as dele nunca o estarão!

os outros dois falecidos respeito-os sem com eles concordar... a coerência e a honestidade das convicções sempre me fascinaram!

boa semana pra si Júlio, e para o maralhal tb. (gostei de ouvir o blog, e o banner está lindo :))

Tão só, um pai disse...

Um sentido "Até Amanhã ...". Que o seu legado não se perca.

PortoCroft disse...

Caro Prof. m8,

Solar, diz muito bem. Poesia que ilumina e conforta é sem dúvida a de Eugénio.

Paz á sua alma.

@zul disse...

"Só a morte é imortal".

(Eugénio de Andrade)

Será?

yulunga disse...

Bom dia maralhal.
Andorinha como não colocaste © Copyright 2005...
"Os grandes vultos são imortais."
As frases feitas são para serem usadas.

Mónica disse...

Eugénio de Andrade é um dos meus poetas favoritos...
Espero que viva para sempre na nossa memória...
E já agora, muitos parabéns pelo Murcon... Gosto de vir aqui...

Cris disse...

Com a morte de Sophia (de Mello Breyner Andresen) foi-se a minha poetisa preferida. Eugénio não era o poeta preferido, mas um dos mais admirados e apreciados. Não sei porquê mas gosto mais de Miguel Torga. Talvez pelo retrato humano da dureza das gentes transmontanas, ou das gentes que vindimavam as encostas do Douro. Talvez pela humanidade, talvez pelo sentimento, talvez pelo ideal de justiça que grita na voz do poeta. Talvez pelos retratos crus que faz da vida, bela, bucólica e idílica para uns, împlacável com os mais desafortunados. E mesmo assim, descobrindo a ternura, a força da vida, da paixão e da alegria dos "simples". Poemas e prosa que falam de um Portugal rural que sufocou de fome física e intelectual tantas crianças, como os meus pais, por exemplo, heróicos anónimos sobreviventes...

não era para escrever tanto...mas saiu de rajada...palavras belíssimas de Eugénio já outros deixaram.
Viverá, como todos os GRANDES na nossa memória a obra.

zita disse...

Morreu o corpo, mas não a pessoa nem o poeta - mais alto, maior! Fica para sempre o Eugénio, das palavras, dos poemas, da vivência portuense, portuguesa e mundial. Até sempre Eugénio!